undécima

1

2

se assim fosse

vem pela porta da frente quem tropeça e me abraça
pão seco e cobarde incapaz das lágrimas de desejo
com abraços te desfaças bebendo o sal beijo a beijo

ai que eu há tanto tempo espero quem me desfaça

3

não te levo a sério

não te levo a sério

que eu quero é brincar contigo
rodopiar como um pião rodopia
até ficar tonto como a alegria
de um beijo a curar um castigo

4

Há crianças tão leves que tropeçam nas borboletas
E caem. Pairando no ar por momentos

Como uma realidade que sustém a respiração.

Há mulheres tão finas que passam entre os pingos de chuva
E caem. Como juncos levados pelos ventos
E são as fitas do chapéu que pesam para o chão.

Há homens tão grosseiros e belos feitos estátuas de cal
E caem. Pesadamente caem como braços do arado
Na paisagem lavrada pelos dedos de uma mão.

4

menos olhos que barriga

A política olha para a destroçada barriga
Aberta pela venda lucrativa da mina traiçoeira
Até perceber uma diplomacia que lhe diga
da gangrena ser menos boa que a cegueira

Ai, a que colhe ramos de oliveira vai tropeçar
Em seu vespeiro de palavras voadoras
E caindo a pique sobre o ninho das metralhadoras

A pomba apenas sente uma pena a soltar-se no ar.

4

aparelhos

Aparelhos
– do PS
– do PSd

– dos dentes.

Quem pede maioria absoluta para um partido só
pode querer que o aparelho do estado se confunda

com o aparelho do seu partido ou com a sua bunda

4

nunca mais

1.

só diz nunca mais
quem não sabe de quantas mudanças
são feitos os dias de cada um

minha mãe perguntava para onde vais
tu que não tens jeito para danças
só podes ir a lugar nenhum

sabendo que eu acabava por partir
para onde ninguém me esperava
pelas ruas nuas e em estações vazias

para onde o frio que estava por vir
vinha zangado e em cada rajada gritava
a terrível solidão das noites mais frias

só diz nunca mais
quem não sabe adivinhar o choro no fado
que nos diz que tudo será como deus quer

minha mãe chorava sem ter ido a qualquer cais
separar-se do filho que voltara já enterrado
na pressa de não fazer viúva a que seria sua mulher

2.

nunca mais a escuridão nos dias claros
nunca mais antes a morte que tal sorte
de assobiar para espantar o medo

podemos dizer agora nunca mais porque agora é cedo
porque sabemos que a morte qual vida eterna? é mesmo morte
e já morreram os abraços dos amigos cada vez mais raros

5

se um dia, eu me esquecer

se um dia chover demais e eu escorregar com a chuva,
pelo chão dissolvido até não ser mais que a turvação
ou a iniquidade na água corrente e não puder avisar-te
para que não me bebas na corrente é porque sim

me esqueci de tudo e de ti também

disso saberás vendo-me água corrente como se fosse eu espelho ao espelho
sem mostrar sinal de te conhecer ao passar olhando-te fixamente
com os meus liquefeitos olhos presos na cabeça da água
escorrendo como as outras águas pluviais a caminho

da saída onde deixei de te ver até não sobrar lembrança de ti

6

Votar contra os que nos odem

Dou por mim a pensar no passado que conheço
E sem fazer profecia alguma que isso não vem ao caso
Levanto-me do chão de vespas em que amanheço
Para me coçar onde me mordem as virtudes um pouco ao acaso

E para me lembrar em cada dia que rápido passa
De ladrões e quadrilhas que me roubam sono e vida
Sem haver prisão que os detenha e como isso é desgraça
Fazer votos e dar voto que seja lenço e desejo de despedida

Ajudando assim a minha gente mesmo que ela seja insensata
E medrosa e crente na eterna demissão face aos que tudo podem
Vou votar com pontaria afiada que mesmo uma pistola de lata
Pode ser a melhor arma de dignidade contra os que tudo odem

6

daqui a pouco é noite…

daqui a pouco é noite e acendem-se as luzes da fogueira
para encher praças de assombrações e máscaras confiantes
que dançam na alegria dos comícios das festas manifestantes
contra a ganância mais podre mais cruel e carniceira

daqui a pouco é noite antes das avisadas noites que virão
adivinhadas arrogâncias de catedrais que não descansam
nem esquecem a arte das fogueiras de sombras que dançam
num fragor de derrocada do altar proclamada como sermão

daqui a pouco é noite nós cá estamos despertados moribundos
não se esqueçam de nós que vos passámos pelas penas do perdão
ai como sempre se esqueceram de nós nas casas dos fundos
nós contamos as canções mudas do pavor na vossa ressurreição

daqui a pouco é noite ainda vamos a tempo esperem um pouco
ainda sobra um alento ainda sopra o vento num verso rouco
ainda há gente a gritar ainda há gente a rir ainda há gente ainda
que forma a frente a unida frente que vos faz frente e nunca finda

daqui a pouco é a noite que à luz do dia é ainda a mais linda.

8

desconforto

Há dias assim

em que um conselheiro
do estado da república
ameaça a república
com a independência de parte da república
que em parte representa:

e a república nada diz e nada faz
a não ser vergar-se sob o fardo
que o conselheiro é

acima da lei da república
e da sua gravidade

8

pés da porta

a escada degrau da escada sem vão
é uma escada de degraus por cada
uma outra escada degrau a degrau
desenhada numa folha de caderno
escada desenhada na folha a lápis

primeiro a escada depois a casa vã

8

golpe de rins

e se não recolher os votos
da imensa maioria
na sua parcela de república das bananas

pode suceder
ao conselheiro da república
um golpe de estado

e o conselheiro

8

ouvi dizer que

que tenho os olhos cansados
e que ouço mal
é o que percebi do que me disseram

falo mais alto?
falam mais alto à minha volta?
isso não sei

só sei que tenho de escolher
entre lupas ampliadoras
e orelhas amplificadoras
para continuar a comer
apesar da crise

11

é a cor da luz do outono…

é a cor que os meus olhos veem,

fiapos de luz levados pelo vento
e chuva de prata como espadas
na lua que de mim se esquiva e
bem se vê a morte na água tinta
brilhos castanhos fumo e fogo os
deste outono de gumes de cobre
mais nada habita a vida lenta indo

12

escola de voo

que farás tu de ti
quando sentires que te falta
parte do que eras?

e quando nem te lembrares
do que foste
que farás tu por ti?

olharás pelo chão que pisas
pedindo desculpa a cada pedra
dos caminhos
que não podes evitar?

ou pensarás que estás
em muito boa idade
para abrir asas e voar
do telhado que te esconde
– uma entre outras pombas
da escola de voo?