uma oitava abaixo

Contente mesmo contente
estive muitas vezes durante a vida
mas nunca tanto como me senti na Alemanha
quando ao ser libertado
dei por mim a olhar uma borboleta
sem vontade de a comer.

Tonino Guerra

1

mudamos de um ano para o outro…

mudamos de um ano para o outro sem sentir essa dor suavíssima das árvores quando perdem as folhas o amarelo e o ouro na suave largada para o fértil chão preparado por tempestades nas noites e neblinas densas nas manhãs.

esperamos ver as folhas verdes nas mesmas árvores e ainda depois as mesmas amarelas ou douradas.

já não há quem chore por imaginar como a vida vai e vem e bem podemos descer encosta abaixo que nem um nenhum soluço estará solto suspenso no ar quieto deste inverno.

nem as vacas nem as vacas para murmurar no prado que nós vimos como elas passeavam entre os anos pachorrentas estrada abaixo

e o carro parado enquanto elas desciam de anotenso para subir estradinha acima como quem sopra uma ilusão e vê como voa.

esperamos voltar para ver as folhas verdes nas mesmas árvores dispostas a fazer fronteira entre dois lados do mundo dois mundos.

sabemos em qual dos lados do mundo os amigos plantaram a sua sede.e bebemos a água roubada à fundura da serra a boa colheita o bom ano.

2

sem fim

leva-me para onde fores e chegados lá
conta-me uma história sem final feliz
que eu só aceito destino para a viagem

se a ternura que me deres não tiver fim

3

a nesga de fumo

sentado, na varanda, ao frio da tardinha
os meus olhos semicerram-se à altura desta nesga
enquanto faço pontaria com os canos do nariz

a disparar tiros de fumo e pirraça à lei mais vesga.

4

ribeira de pena

recorto a luz das montanhas na espessa sombra dos altos céus:
de um só golpe as separo para ter uma linha de voo de onde espreite deus

5

ribeira de mágoa

oiço-te como se ouvisse um bater de asas, como se sentisse um roçar
de felino cego à porta do automóvel veloz que atropela o instante

da minha morte

6

fátima

Ao lado da cruz, para onde sobem os olhos, há um fantástico guindaste
que te eleva ao céu assim tu o queiras.

Só precisas de atenção para veres o guindaste na fotografia
e, depois, subir ao céu não é um problema de fé.

7

fátima

levado pelo vento vaguearás pelos corredores
descobrindo o homem e o filho do homem
a quem dedicaste um último verso
uma oração assobiada num anfiteatro

cheio de peregrinos tão atentos
que não ouvem mais que os dentes
mastigando o pão, a alface, o bife panado

8

descanso

quando estou cansado e os braços me doem em negação
dou-lhes o gesto de varrer a melancolia de uma tela
tapando com nova paisagem a paisagem que lá estava
assim olhando em dias diferentes pela mesma janela

um amigo em visita pensa que um varredor deixa de ouvir
enquanto varre o pó do seu corpo para debaixo do tapete
e em cada instante procura o instante certo para partir
no fim de uma frase em que cai um . de silêncio

os meus olhos que não cabem na minha cabeça olham
a minha boca que refaz o dia pelo verso do arrependimento
e piscam o código sincero letra a letra para que a boca o soletre

obrigada.

9

o douro

de muitos lugares se pode olhar um rio sentado num banco qualquer
ou feito criança ao colo de uma estátua de mulher
mesmo que os outros não vejam a estátua como nós a vemos
nem vejam o mesmo rio nem leiam o livro que nós lemos

ali naquele lugar se leio a página certa deixo o livro inteiro
menos uma certa página a única que ficou minha para sempre
amarrotada no meu bolso que a guarda e ao sonho que deixei de sonhar

para a ler repetidas vezes como um amante que hesita em despedir-se.

10

porto em visita

o guindaste nunca é um pormenor
é um risco no céu
é a ausência do andaime
é o homem de pés no chão

a construir um céu de betão

11

eu virei as costas

sem poder levantar-me, acordado, deixei que a manhã acordasse
a tomar um café da esquina como o de todos os outros dias
enquanto
um vento ligeiro ao lado de uma neblina parda ou uma aragem prenha
com as águas a rebentar foi arrefecendo e ganhando a forma
do tambor

que marca a marcha fúnebre e a despedida.

12

nunca digas

(…) nunca digas a última palavra.

13

e se puderes(…)

e se puderes esconde-te numa aldeia onde
ninguém te encontre e em teu nome
manda uma carta de chamada
para onde andas perdido

lembra-te de mandar garantias
um contrato de trabalho sei lá
um grão de terra lavrada ou
uma gota de água das chuvas

e uma acha de cheiros que se desfaça em fumo

—————–

para que passes na fronteira onde
os serviços de imigração farão de tudo
até que aceites voltar atrás aonde te perdes

se puderes manda a fotografia da parede
em que estás pintado como uma sombra de ti

—————–

ainda melhor será se puderes esconder-te de ti
até que ninguém se lembre do teu nome
e até mesmo tu não saibas virar a cabeça
quando alguém pensar ter-te visto

por engano só pode ser engano

a fronteira é tão longe de tudo
como podias tu ter ido parar tão longe de ti
a limpar as mãos a um avental de ferreiro
cego credo pode lá ser!

14

volto sempre

Volto sempre a este lugar
à casa habitada pelos fantasmas
que vivem como amigos comigo
e para mim cantam em falsete

sonetos de amor e esperança

humana frágil e ridícula
como voz que mastiga as neblinas
o próprio bocejo dos fantasmas.

Por saber que me usam e deitam
fora como um lenço roto
para o cesto da roupa suja
enquanto alguma vida ainda resta

guardo fiapos de vozes das aves
no sem-fim da tardinha deste lugar.

15

cerca de mim

Cercavas-me
para que eu me rendesse
dentro dos teus muros altos
como abraços

ou fugias pelas veredas
mais estreitas
como o mar
corre a afogar-se num braço da ria

e lá chegado
virasse do avesso o barco do céu
em jeito de brincadeira a água
levantasse o corpo no ar cheio

varrendo a lua ao espelho num charco

eu transbordante.

16

como chuva na face

o homem planta uma árvore
bem presa por raízes à terra
e por cada árvore do homem

deus é uma árvore de água

ansiosa por ser nuvem
e deixar-se cair nos braços
da árvore do homem.

frágeis muito frágeis
são as raízes nos céus

17

eu nunca fui a santiago

eu nunca fui eu mesmo.
eu nunca fui.

eu nunca caí em mim mesmo.
eu nunca caí.

eu nunca fui a minha casa.
eu nunca fui a casa.
eu nunca fui casa.
eu nunca fui.

eu nunca fui a santiago.

pelo meu pé

a minha mãe levou-me a fátima
com ela e com santo andré
contando quilómetros
pelas contas do rosário.

para voltarmos ao mesmo lugar
que já não era o mesmo lugar
eu tinha deitado fora uma a uma
as contas do meu rosário

e não era preciso porque o regresso
foi um sonho solto numa camioneta

18

a oficina

o tempo todo a estudar
matemática e lógica e disso
só me sobrou uma melancólica
dúvida quando escrevo.
hesito entre

– disso, não sei nada!-
e
– disso , sei nada!

19

a viagem

a santa mulher oscila e imagina
que é o passeio da rua que oscila

um santo homem da mesma viagem
olha para ela e sorri no olhar

um abraço abre os braços dos dois
que desatam a rir desfeitos no ar

que nuvem os leva? o crente diz
que nuvem assim é feita de dois

20

dos 7 pecados, um

– quem desenha, que sabe dos pecados que desenha?
– sabe que desenha.

21

cada um

és a tua história:

aquela que guardas
em gavetas da memória
até formares a nuvem de palavras
cuspidas como uma corrente de ar
gelado como o corpo da tua voz.

és a tua história:

aquela que ouvimos soltar-se da tua boca
e vemos palavra a palavra
pendurada no arame esticado
de um estendal de rua

ou sobre o abismo a cabeça a caminho da lua

22

galafura

até ao rio por esta vereda
leva os teus olhos
a serpente que se afoga

23

galafura

quem se alimenta de pedra
faz-se pedra

não se desfaz em pó e cinza
ao entardecer

24

tempo quente

Quando me esqueço de quem sou
Uma alma toca o alarme da minha porta
E à maneira dos ferros em brasa engoma-me
As palavras uma a uma antes que eu saia.

Piedosa a alma passa o seu pano de vapor
Alisando-me a testa e uma ruga cavada
Como vale de lágrimas entre o olhar perdido
E os lábios gretados pela cal da sede.

Depois é ver-me passear à soleira
Magnífico como um dente de ouro
Preso por um cordel ao trinco da porta
Que alguém abrirá ao passar.

25

porque não era…

fez das tripas
coração
e mostrou na rua
o amor
que lhe corria nas veias

os vizinhos dele
acreditaram
no amor
que lhe viam passear
na flor da pele

mas
o instituto
nacional do sangue
não o aceitou
como dador

de sangue

26

naqueles dias, hoje

hoje, estava lá para ver
as costas de um dedo
a desenhar assinaturas
na fronte distraída

tão tarde e tão cedo
para publicar ternuras
impossíveis em vida

para publicar a despedida
de quando o tempo se dobra
escondendo a parte

que nem parte
nem fica

27

o homem por cumprir

já me aconteceu
andar meses sem ter medo
e sem pensar na morte

já me aconteceu
deixar passar os meses
sem pensar neles que passavam
nem pensar no que tinha feito
entretanto

gostava que a minha vida
fosse esse rio plácido de meses sem sobressalto
a pensar em nada

para além do trabalho
sem outro sentido para além do trabalho
do por fazer ao feito
sem qualquer glória nem lucro

eu nem me importava de nada ter
se pudesse passar sem me preocupar
com os outros ou o que eles são
ou o que eles fazem

ficar aqui de pé
a fazer o que se mostra por fazer
à minha frente
como a folha por cima
de uma pilha de folhas
com ordens para cumprir
que eu soubesse cumprir

até que um dia um sopro de morte
chegasse como a folha por cima
de uma pilha de folhas
com ordens para cumprir
e eu soubesse cumprir.

28

fusco fusco

bate asas o olhar e voa e sou eu quem voa
imponderável corpo do olhar

29

duas sem três

disseste-me em cada rua o nome da rua
e tomei boa nota de todos os nomes

parece-me agora que os nomes
saltaram de placa em placa
e se fizeram linhas de outra placa
como um rol de exigências

na primeira linha, a liberdade

30

ao arrepio

Ontem e amanhã não são dias meus

Hoje é que vejo as gaivotas voando desesperadas
Entre cruzes erguidas como pára-raios recortados nos céus da janela

Hoje é o meu dia, o dia em que as nuvens chocam
Hoje é dia em que o escuro como breu cai com estrondo
Entre as farpas finíssimas da chuva que voa

Ontem e amanhã não são dias meus:
Não me lembro de ontem e amanhã nem sei quem é.
Hoje é o dia que me fala de ontem e me lembra amanhã
Ontem foi para esquecer e hoje é para me lembrar já nem me lembro bem de quê.

31

há um tempo…

no dia em que deixaram de o ver
como homem

passou a assunto de conversa

32

das ruas, a mais bela, a nossa

a beleza das ruas é a nossa beleza

a primitiva forma lembramos como era sem a forma
do que agora é não era mais que um desenho ou um desejo
a cor da vida que veio morar em nossa casa
tem hoje idade e boca para o outono do beijo

para darmos graças ao arquitecto de então agora
pelo detalhe das cores impressas no ar
por esta instantânea felicidade no lugar e hora
da ave que ensaia num bater de asas o nosso olhar

a beleza da nossa rua está ao nosso espelho

33

o telhado de vidro

olhamos para o rectângulo tão limitado
e tão aberto
que podemos imaginar como é fora dele,
olhar para cima e para baixo,
para a direita e para a esquerda

sem cuidarmos de saber onde começa
nem onde acaba
a multidão de telhas

que importa saber quantas
se vemos como são tantas
e vão encaixadas

de mãos dadas

34

a maneira de andar

dei-te a mão para subires
mas quiseste subir voando

35

aos meus relatórios ajuda-os deus; a mim não

Quando escrevia relatórios é que deus me aparecia:

olhava-me cheio de compaixão e eu insistia em largas frases judiciosas, porque ele ouvira falar sobre a bondade dos relatórios longos em que umas palavras mais sinceras e desagradáveis amaciavam outras que me davam um ar amigável de conselheiro.

Nunca deus me apareceu para a poesia:

deixou-me sempre sozinho e, por isso, nunca escrevi mais que dois versos cheios de nada, de palavras que procuram outras palavras incapazes todas para desenhar a face da divindade da vida humana.

36

a fúria entrou pela porta da frente

Ela estava a demorar demais o seu pequeno almoço.

A família já tinha saído a tomar ar e esperava à porta da rua. Nem podiam voltar atrás e entrar em casa, nem podiam partir. De facto, eles não tinham a chave da casa para entrar nem a do carro para partir. Começaram por entreter-se a conversar, mas, a partir de certa altura, cada um dedicou o tempo às suas coisinhas: o pai de todos foi até à esquina comprar tabaco e recomeçou a fumar depois de 5 anos livres de fumo, o rapaz agarrou-se ao compêndio de matemática e a canivete começou a esculpir o corpo da namorada de quem tinha saudades demais até que a matemática ganhou a forma que ele queria que ela tivesse sempre, as duas gémeas começaram uma disputa sem tréguas sobre qualquer coisa que já nem ao diabo lembra. A primeira rajada de vento dispersou-os.

Quando ela desceu finalmente e, sorridente, abriu a porta da rua, não viu a família assim ao primeiro olhar. Aliás não viu viv’alma. Olhou para o relógio e chamou. Nada de volta. É tarde, estamos atrasados não é altura para brincadeiras! Nem um som.Esperou mais um pouco. Depois, deu meia volta e entrou em casa pela porta da frente. Furiosa. Ninguém a esperava tão cedo.