sexto sentido

1

pesa-espiritos

para que te levantas? a tua mãe sussurra
na sua voz velada de almas penadas que bocejam
nas noites mais doentias como nascentes
de rios do pânico em que dás por ela penando

dás por ela? não te perguntava a tua mãe
outra coisa enquanto a casa ruía sob a chuva
e tu vestias uma cara de fazer caso, uma cara
de meter medo, de meter o medo no buraco da noite

onde dás por ela ao dar pelo bafo da besta adormecida
aos teus pés

se reparares bem são os teus pés fincados na lama
quem te segura enquanto vigias a fala da tua mãe
o funil da loucura mais divertida dás por ela espelhada
nos seus olhos marotos quase cerrados.

para que te levantas? há tanto tempo não sais de casa,
do buraco onde vives amarrado ao bloco de notas
raptado pelas almas que voam em volta das palavras
que já disseste e ninguém ouviu.

há sempre quem jure que me viu na rua
ou que sabe que passo o dia numa escola pública
onde supostamente dou aulas

não sou capaz de desmentir quem está pronto a jurar
citando mesmo o que eu disse em tal dia e a condizer
com a roupa que trazia vestida para a ocasião

nem eu mesmo sei porque é que as pessoas dão por mim
se é certo que não vou a lugar algum fora daqui
vai para muitos anos de falsas partidas.

para que te levantas tu? se nem os olhos consegues abrir,
se as tuas noites foram pisadas por toneladas de dias sem lua,
se os teus dias dão abrigo a almas sem abrigo e torturadas,
se nem sabes sequer das tuas pernas ou como pesar-te

porque te esqueceste dos protocolos de alquimista
que foste num passado em que usavas pesa-espíritos
com a desenvoltura da tua imprudência.

2

de perna traçada
a mulher sentada
e cabeça na lua

não vê sol nem solidão
ali mesmo à mão
ao cimo da rua

3

se um dia me encontrasses
ainda que eu não encontrasse mais ninguém

tal dia seria a vida completa e plena

4

posso nem ter mais que fazer
mas hoje não vou fazer o que é costume

e vou antes acender um azedume
que me vingue do dia que acabei de perder

5

Há desenhos que ficam perdidos. A folha está lá, mas deixámos de a ver
como uma falha de sentido. Até que um dia ela sustém o vôo até ser vista.

Então, como verso na folha, escrevemos nome e morada. E colamos-lhe um valor
para a viagem. Nervosos, enfiamos a frente e o verso na fenda escura do futuro.

Para que ela vá pelo rio do esquecimento acima e fecunde o longe até ser perto.

6

quando saio da escuridão da noite e a manhã é uma surpresa gelada
embrulhas-me cuidadosamente na tua teia no mais terno olhar de lã

nada é mais feliz que ver como a madrugada acorda a manhã
como a bafeja à manhã estremunhada que espantada abre os olhos
até que a lua ensimesma na foz da noite e o sol inaugura uma nascente

para o dia que aí vem
dizes tu
como quem diz bom dia nem mais.

7

quando saímos do lugar murado pelo nosso olhar
e não nos lembramos do caminho do regresso
ou não voltamos ou voltamos mas sem memória
e os nossos olhos não são portas por onde passar.

8

E eu voltei para onde? Ao rio amargurado
prenderam-no entre as barragens
de picote a miranda e entre as altas margens.

Pelas escarpas a pulso subi até ter asas aragem e voar
até ser incapaz de mergulhar e ficar preso ao céu aberto

9

todos os dias digo
que bom vir a ler-te
ainda antes de cegar

escreve-me no teu verso

antes que esqueça
em teu nome
o meu nome.

10

Tu aprendes-me e eu aprendo-te. Tu ensinas-me o que eu te ensino. Há um elástico invisível a esticar-se entre os nossos corpos. Quanto mais o esticamos mais ele nos atrai um até ao outro.

Tu falas e eu falo. Eu ouço-te e tu ouves-me. Penduradas nas cordas da nossa roupa, as palavras oscilam ao vento. Antes de me atingirem, as palavras passam pelos lugares da tua roupa. Visto-te, enquanto me dispo. Puxo a corda da roupa para o meu lado, para nela pendurar as palavras que vestia. Estico a corda. Puxas a corda. Despes-te enquanto me vestes.

Apareces. Puxas o lençol para o lado em que o colchão guarda o molde do teu corpo, o meu lado esquerdo. Acordo com frio e percebo que vieste. Não te chamo. Deixo-me deslizar até ao lugar do teu corpo para não morrer de frio. Empurras-me para eu adormecer no meu lugar. E assim sei quem sou.

Se desapareces, vejo-te mais nitidamente.

Se eu desapareço e podes deixar de ver-me, que mais te posso dar?
Que mais queres tu de mim?

11

vais no vento –
ainda que presa, como bandeira
no mastro improvisado da bateira,
soltas-te ao vento

e eu, –
ainda que em pés de afogado,
pé ante pé, vou ao teu lado
subindo ao céu

quem morreu?
por quem toca o sino?
alguém sabe? homem ou menino?
e já foi minh’alma quem respondeu:

fui eu! fui eu!

12

em 1947, em duas abriu-se minha mãe para que eu passasse por ela até fora dela e continuasse o meu caminho.

algumas vezes depois disso, lembrei-me de ter feito esse caminho. e também me lembro de arrepender-me de o ter feito, de não ter voltado para trás. faço as vezes, às vezes.

em que ano nasceste? ainda pequeno, como sempre fui, respondia: 1948. porque nasci estava 1947 a acabar e acabar com ele ainda vá, agora começar com ele pelas horas da morte!…

há encontros ou recontros que nos separam do passado e nos fazem desejar não ter nascido ou insinuam o desejo de desnascer ou o desejo de nascer para outro desejo… de nascer ou morrer. para outra forma de ser. para outra maneira de ser. para ser noutra forma, noutro molde. para ser de outra maneira. para ser de outra. para ser outro. para ser ou. para ser. para. p.

em 1947 abriu-se minha mãe em duas. deu-me à luz e a luz não me aceitou.

quando abri os olhos para a luz, foi a luz quem me cegou. é por isso que faço sempre os mesmos caminhos, rente aos muros, guiado pelo cheiro das sombras.

ouço à minha frente, um tac-tac, o tacto da sombra da bengala de sombras.

13

Numa pequena falha de chão do Brasil
parte da minha alma caíu do norte alto até morrer.

E se sobra alma ainda, ela vagueia roendo palavras
e cuspindo as cascas das últimas sílabas de despedida.

Porque alguém incendiou um pavio em petróleo barato
e ferveu o vidro da chaminé

A alma arde como ardem as asas da borboleta
traída pela luz

Pelo instantâneo clarão, pelo soluço da noite e pelo cano do susto,
o que sobrar da alma cai na vertical
até ao ígneo centro da terra

onde o inferno estava no tempo em que o diabo
me segredava ao ouvido.

14

Pudesses transformar-te até seres
em meus lábios como a água é a saliva
e formando o rio que corre e morre
como eu hei-de morrer para tu viveres

afogada na minha sede mais viva.

15

hoje,
de longe
chegam cartas curiosas:
alguém pergunta se eu adormeci dentro da casca

ou se me escondi zangado.

[ninguém me escreve, confesso.]

e eu, como sempre sem saber o que responder,
viro-me para o lado contrário de mim
e adormeço de novo sem querer lembrar as tempestades
que inventei quando desafiava instante a instante
uma felicidade que nem era minha
para ser de ninguém

para não ser

e secar a pontada desta dor de não saber
se algum dia

16

maio findo
um rio passava por mim

se me lembro de águas revoltas que corriam
é porque já não correm ou sou eu que as não vejo

e em vez da água corrente nas mãos
ouço um estampido uma chicotada no ar
à passagem do comboio fantasma

na alta ponte sobre a fenda do corgo.

17

deus passou por mim agarrado a uma bengala e eu
não saí do meu sofá para o ajudar a atravessar a rua

porque
se deus anda por aí a fazer de velho pelintra
é porque gosta de ser velho e pelintra
como eu sou mesmo que não goste

que ele pode ser tudo o que quiser e até o que não quiser
pode ser

18

quanto mais olho
de olho em ti

olho para ti
olho por ti
olho em redor
olho por olho

quanto mais olho menos vejo.

escolhos
trambolhos
repolhos
aos molhos

quanto mais olhos menos

19

o meio docente

exactamente
ao meio,
aproximadamente
a meio

20

nem posso dizer que a minha vitória
é a tua derrota
porque hei-de ser eu a limpar-te o pó
e a chorar contigo a tua dor ao perder-

-me.

21

nem podes dizer

nem podes dizer que a tua vitória
é a minha derrota
porque hás-de ser tu a limpar-me o pó
e a chorar comigo a minha dor ao perder-

-te.

22

a minha mãe lia as cartas

a minha mãe lia as cartas do meu pai
e gostava de nos ler uma passagem:
para o ano que vem a família inteira vai
a fátima a pé mal eu chegue de viagem

quando se zangava a minha mãe dúzia
até a nossa senhora o desgraçado mente!
mas tu vais olá se vais até de rastos vais à cova d’iria,
em nome do pai, do filho e de toda a gente

23

escalada

há quem não te leve a sério: ao avental sujo
limpaste as mãos e o farelo agora seco colado
como reboco ou casca grossa descasca-se
ainda uma pevide se vê, sobressai entre os fios de cor

de rosa da abóbora menina da lavagem aos porcos

não sabem eles que o teu jeito vem do convívio
com os porcos que te deram a conhecer as vantagens
evidentes que os humanos e os porcos têm
sobre todos os outros animais por serem porcos

e omnívoros mesmo em tempo de paz e de fartura

eles não podem compreender que tenhas chegado
aonde chegaste e perguntam-se que raio de linha
tomaste para lá chegar e não vais ser tu a dizer-lhes
que mandaste fechar o ramal mal passaste para o lado

de cá onde refocilam ministros como tu

caras de cu.

24

pesadelo

uma tia afastada
à medida que de mim
se ia afastando
deixava uma ladaínha vaga como rasto

já a vaca sagrada
sem medida, objectivo ou outro fim
que não fosse ir pastando
o meu caminho fazia desaparecer por ser o seu pasto

quando acordei
alagado em suor
descobri que a vaca com que sonhei

me limpava com mais língua que amor

25

os santos da casa

a missa por alma da tia mais viva e mais robusta
foi prevista há muitos anos para ser rezada

ao sétimo dia da sua morte ou em dia de finados
caso ela não morresse a tempo de ser lembrada

hoje é muito difícil garantir a missa em exclusivo
pela alma de alguém que parte sem avisar com antecedência

que é o que acontece com mais frequência

26

entrelinhas

umas vezes escrevo notas fabricando as linhas e
mais tarde se passo outra vez pelo mesmo tempo
escrevo entrelinhas

e se ainda tiver as folhas perto de mim
e elas forem tristes e descoradas como eu
penduro-as para que se bronzeiem ao sol

27

as portas da solidão

se desisto, as emoções saem comigo pela porta
que dá para a noite de um abismo… aberto para o lugar oco

com asas roubadas, as minhas!, tu voas para longe
dentro de mim, por mim adentro

sei que sou eu o que parti sem olhar-te no vidro:
a ausência ao espelho que já nem magoa por não haver volta a dar

28

todos os dias

abro a caixa de correio
e dói tanto
não encontrar as tuas linhas

das mãos que ninguém sabe quanto
as quero minhas

mas está bem assim que já receio

encontrar o meu desejo
despedido com um bocejo

ou pior ainda… com um beijo

29

apeadeiro

sem que eu dê por isso
tu levantas-te da sombra
fingindo que és uma sombra

uma pálida sombra do que és

dizes que vais buscar-me
onde eu estiver

e eu fico aqui sem jeito
para ficar

partindo sem partir

30

devoto

faz o sinal da cruz
na areia da praia
como regos por onde a água brinque,

faz o sinal da cruz

na testa
e sente-o como festa do amante,

faz o sinal da cruz

coa naifa na tua mão esquerda
pra ser estigma chato com’á merda,

faz o sinal da cruz

no teu peito
para compensar a foice e o martelo tatuados nas costas,

faz o sinal da cruz

nas tuas calças
para seres uma viola no enterro,

faz o sinal da cruz

branca na t-shirt preta
e pequeníssima para que te paguem o salário de padre,

faz o sinal da cruz

no elástico das cuecas
para as poderes reclamar por um bom motivo.

faz o sinal da cruz

sobre a boca
para ninguém te ouvir dizer que estás vivo,

faz o sinal da cruz

na toalha do restaurante
enquanto esperas o bife,

faz o sinal da cruz

no céu azul
com as asas do desejo enquanto voas,

faz o sinal da cruz

em todos os lugares
do labirinto em que te queres perder

faz o sinal da cruz

para lembrar à tua mãe
que te sabes benzer,

faz o sinal da cruz

como parte de penitência
sobre o pecado que mais queres,

faz o sinal da cruz

porque te vais arrepender
amanhã do bem que te soube hoje,

(…)

faz o sinal da cruz

no boletim de voto.

31

sentidos

eles passavam por mim e eu passava por elesp
em sentidos contrários
enquanto procurávamos o mesmo sentido

e sabendo que nunca nos reconheceremos
se acaso algum dia nos encontrarmos no lugar certo
por acaso

ao compasso marcado
pelo rufar de um tambor continuamos em frente
até nos perdermos de vista

32

quem cuida de

dentro de um turbilhão de que inventaram os pormenores
as crianças cuidam de mim de ti e de todos os que vierem
entretanto

prepara-te para a dança ainda que não possas e para as dores
de que não gostas

e prepara-te para a falta que vais sentir quando as crianças
forem embora e a paz voltar fora de ti enquanto

por dentro da cabeça explodem bombas e os estilhaços
matam um ou outro dos teus pensamentos diplomatas.

33

a manta de cinza

cobre-me a manta de cinza o sono inconsciente
para não ouvir a manhã chegar e ela não chega
nem parte

embora o vento sopre mais que um fôlego
e os pulmões da terra ardam para um último esforço:

o alento do cavalo quando chega ao sítio
onde cair morto encontra um prado
incendiado por um cavaleiro armado até aos dentes
cerrados pela ansiedade numa glória vã.

34

pior que ver

pior que não ver é ver a escuridão que esconde
e saber que pela escuridão ninguém responde

pior que ver é saber que a escuridão vem ninguém sabe de onde

35

instantâneo

na areia desenhas a nuvem
e pensas na chuva de agosto

que ao cair a desfaz
na areia desenhas a onda

e pensas nela a rebentar na praia
como onda que se desfaz

36

o espectador resistente

o tempo não chega para tudo
a quem antes fosse surdo e mudo
e não conhecesse sáurios sobreviventes
no vale de lágrimas dos espíritos resistentes.

Sabe deus e alguns outros criadores
que prefiro ser um poeta desistente
a ser alguma coisa similar a valente combatente
de guerras entre editores, tradutores e tractores
ou, da tourada de merdas de vida, o inteligente.

E se ainda alguma coisa há que me arrelia
é ter acreditado e divulgado quem fica indecente
mais e mais a cada dia

37

a morte do funcionário

deitado na banheira deixas que a o ar e a água trabalhem
os teus músculos ou são os teus músculos que batem
na água como quem bate num saco de pancada
enquanto adormeces e sonhas com as tuas dores

de dentes arreganhados por um descanso de quem não sabe
mais que descansar cansando-se entre viagens ao balneário
sabendo que automático é tanto o pagamento do salário
como a massagem que a médica acha que é a parte que te cabe

deste latifúndio.

38

a feira

Agora passeio na feira ao encontro da minha idolátrica:
num só quadro posso ter a santa maria adelaide de arcozelo

e a santa alexandrina de balazar; agora escrevem beata
num rigor vque não conhecia à propaganda. E não fui capaz

de comprar o meu quadro porque tive medo de saber
como é pesado o caminho de regresso e nem ter casa do senhor

onde pendurar o meu retrato ao lado da escadaria do bom jesus,
do seu sagrado coração ao lado do coração de maria sua mãe

para todo o sempre expostos tão sem jeito e fora do peito

39

a feira

Das feiras já não carrego porcos para criar
nem as vacas que pastam o caminho

para não saberem voltar atrás
dos donos tornados abandonos

Posso comprar tremoços mas ninguém espera
que eu tire do bolso o lenço de assoar novo e lavado
para os guardar antes de os meter na tromba
e escupir as cascas para a estratosfera!

40

a feira

Polícias de três tipos – embuçados de metralhadora,
presos a cães ferozes
e desarmados à vista desarmada –

passam pelo arraial da feira como se fossem a calar a terra
e algemar ao chão da feira falsos nómadas

Porque é que ainda hoje tremo e me encolho
apanhado na rede de uma armadilha

tecida pelas mãos hábeis de um deus aclamado
como ditador sem que eu desse para o peditório.

41

eu vi como

Eu via como a minha avó puxava de dentro do avental
o lenço encardido e limpava a lágrima amarela
de qualquer criança arreliada por não voar

em vez de cair do muro alto.

Ainda hoje procuro ver as pregas do avental
no intento obscuro de perceber de onde saíam
penas, fios, canas e até a broa esfarelada

com que prendia pelo bico os animais alados.

Vejo-a agora afagando a ave no colo do avental
vendo que roubava verdadeiras penas para asas
do anjinho da família para a procissão

e esse anjinho só voava ao colo da imaginação

42

a gota de mágoa

Fulano partia todos os dias, manhã cedo,
para um trabalho a tempo inteiro

e só à terça lhe sobrava uma hora
para fazer o que estou a escrever agora.

Ao domingo comia com o vidro do tinteiro
o rio de tinta por onde no barco, que metia medo
em vez de água,
havia de remar a partir de segunda

desde a foz até à gota de mágoa
uma demanda fecunda

da nascente

43

a alma

se não existir a alma, tenho de inventar-lhe
um molde

uma forma que lhe dou
é a do pesadelo que se casa

com o meu coração destroçado

44

do que sei
diz-se

do que sei
posso dizer-te
que as margens do biombo são galgadas pela lua

quando vem desvelar a sua face oculta

45

eu sou a cova em que o meu corpo cabe
hoje

as flores estão a murchar nos castiçais
que marcam o território, a cova aberta,
o brusco rasgão na terra que me cabe em herança
e para onde a alma me foge,

alma errante, sem corpo ansiando o meu corpo
escondido como uma cova fora da cova
como um sulco por quem a finados dobram silêncios
os ocos dos sinos

hoje
eu sou a cova em que o meu corpo cabe

e nela falta.

46

a cor

se não há mais que uma cor, a cor que resta
está embalsamada e morta como o portador
que nos espreita

nós sabemos que o morto está lá tão confundido
com o castanho geral: a umbra coada é sombra,
a cor toda, a cor de tudo o que já não apodrece

onde não sobra a vida, a cor é o que permanece.

47

de soslaio

diz-se que,
de longa data, são os amigos que
partiram para nunca mais os veres

diz-se que,
ainda antes de os veres, são amigos os que
te sulcaram até teres dado por eles

diz-se que,
o tempo todo, são amigos os que
ficaram parados onde tu sabes sem saberes

diz-se que,
até amanhã, são amigos os que
estão emboscados no cheiro do teu medo de os perderes.

um instante e nada mais

48

um instante e nada mais

uma brisa a fazer soar os sinos de sincelo
e uma fogueira longínqua nos campos
que aquece o restolho em descanso

até ser a podre cama do pão e da vida:

como fermento ou larva de nervos
assim soamos hoje como o estalar de dedos
ou a senha que nos leva para o futuro dos outros.