sétimo céu

Petite pluie réjouit le feuillage et passe sans se nommer. Nous pourrions être des chiens commandés par des serpents, ou taire ce que nous sommes.

René Char

Abandonadas por seus amantes, duas mulheres almoçam sandes, num banco do jardim público. A solidão era tão forte que pensam viver juntas. A que primeiro oferecera a sua casa, ao preparar-se para dormir, sentiu a outra tão atraente que desejou fazê-la adormecer no lado do leito que, habitualmente, ocupava, tomando para si o lado do homem que amava. E ao perceber que olhava para a sua amiga como ele a teria olhado, sofreu com os ciúmes.

Tonino Guerra.

1

2
a história

para eu não me preocupar com o que a história vai dizer
sobre os nossos tempos, sussurraram-me que
a história vai ser escrita sobre o que for publicado nos jornais

e que cada jornalista escreve sempre a quatro mãos
e piscaram-me o olho enquanto me perguntavam se eu sabia
de quem eram as outras mãos do jornalista

e eu não sabia

3

fiama

nunca aprendi a desenhar embora tenha tentado
desenhar como os meus heróis desenhavam.

nunca me passou pela cabeça culpar durher,
leonardo, picasso ou dali por não os ter imitado
bem nos desenhos das cabeças da santa, do homem
e do touro.

nunca aprendi o poema que ainda me falta
escrever embora tenha copiado laboriosamente
os poetas porque pensava que além de os ouvir ao ler
precisava de conviver com eles, precisava de os acariciar,
de te acariciar.

sei desde então e até agora na hora da tua morte que não é culpa tua
eu não ter conseguido ou ter esquecido as duas linhas
que eu sei que já li

no ar lavado ainda brincam às escondidas
porque eu não sei se as palavras estão perdidas
ou ainda esperam som a som ou letra a letra

a fala da minha mão.

4

o que nomeia

posso trocar o teu nome sem te trocar pelo outro
que ao procurar-te
em teu nome convoquei
também posso trocar-te pelo nome

que a minha voz cala.

5

ao jantar

uma garrafa cheia de sol
bebe-se de um trago

6

o que queimo

empurrei um coração
para dentro do forno:

o meu coração ardente.

7

romance de cordel

quando aluguei a garrafa para dormir
não tinha pensado em ficar nela
toda a vida espreitando pelo gargalo

de um velho tinteiro

………………………………

mas quando saía só um fio de sangue
saía gotejando e era palavras sem sentido
o que formava e em pânico pressentia
que talvez tudo fizesse sentido
se saísse inteiro
e em folhas de papel
fosse romance de cordel

………………………………

a rolha apertada
como porta fechada
sem chave
faz a vida mais sossegada
no beco de vidro
sou o sangue e a tinta

e uma pena.

8

canção

se não tivesse nariz
por onde espirraria?
nunca o saberia

e quereria?

nunca o quis
mas já que o tenho
quero mantê-lo
não vá perdê-lo

junto com o ranho

9

se passasse pela casa

se passasse pela janela do diabo
não deixava de espreitar
não tanto para lhe ver o rabo

mais por pensar em como lho cortar

10

nestes tempos, até a rima

não não não é o mesmo que ser idoso
decidir-me pelo papel de velho senhor
é não querer vestir o monograma de pijama de velho vaidoso
comprado para o corredor da morte ou a dignidade clínica

é vender importância às marcas, à castidade, à ruga indolor
e a todos os factos consumados como uma piscadela cínica
nestes tempos, até a rima tem que se lhe diga

já só conta para quem é velho e vai na cantiga

11

porque versejas?

– porque versejas?
– só para que me vejas!
– achas que assim te vejo?
– qu’importa? é assim que te beijo!
– e darei eu por ela?
– se passares por esta janela!
– e se não passar?

– passas! ainda que seja eu a imaginar!

12

onde podes encontrar o que falta?

se procuras o que te falta
pergunta-te onde podes encontrar o que te falta
ou deixa que quem te falta
te encontre

ou foge das perguntas
e de quem quer encontrar-te.

13

amarelecendo

o pobre de espírito,
da cor do dia, come
o amarelo e o ouro

para matar a fome

14

25 de Abril

sobre todas as outras, a mais fascinante das ideias
está na perseguição da verdade que se move
e que quando parece ter-se deixado apanhar
é para nos dizer que é outra e diferente

e não está ali na mão suada, sob todas as outras

15

amareleto

a criança resiste a cobrir todas as outras cores
pelo amarelo, mas se, para além dos amarelos,
já não há outras cores, ela percebe a variedade

de amarelos que lhe sujam os dedos.

16

e se mudar de linha

sem querer, uma criança pode desenhar a linha
que separa um dia do seguinte.
só precisamos de procurar na generosa barafunda uma ponta

e, seja qual for, decidirmos que só pode ser essa a linha.

17

ele só mente a penas

onde o aviso
no ar não cabe nem mais um sopro
nos diz só
que mais nada há
a dizer
fazer
ver
a

haver

18

A reunião, lá longe

Espero. E a vida suspende o seu voo.
Ou esqueço as asas abertas.
E que sejam as mãos do vento a decidir o que serei:
instante a instante pairo sobre o futuro que serei.

Espero.

19

onde?

subi até aquele buraco na encosta
escondido por não ter falado disso com ninguém.
e por lá me deixei ficar, dormente, até ter a certeza
que ninguém dá pela minha falta e ninguém me procura
até me convencer que não vale a pena procurar migalha de pão no saco,
restos em lata de atum, uma folha de papel.
também é verdade que começava a custar-me fazer a ginástica
de ir ao buraco ao lado para todas as necessidades.
a minha descida pela noite começou logo após ter desabado uma tempestade de lágrimas sobre

o papel que embrulhara o último quadradinho de chocolate.

20

a arte de voar

Filtro os sons da água e a água
e mergulho uma folha rabiscada
para que se dissolva a sagrada
escritura da minha mágoa
e a tinta forme então a pomba
que bate as asas e desenha um voo

como um risco branco contra o céu.

21

a arte de voar

Nos ombros da mulher de pedra e pranto
repousam os cabelos da árvore caída
e enquanto a ave de granito
de asas partidas
ensaia o voo de um grito,

da minha mão levanta voo a pedra.

22

a arte de voar

como desenhar fronteiras
entre dois mundos?
planto laranjeiras
carregadas de frutos e de ninhos
carregados de aves prontas a voar

entre mim e ti e em ti
voam ligeiras as minhas mãos
fáceis alvos para atiradores furtivos
de primeira linha

de fronteira

23

raramente

raramente escrevo sobre algum assunto que desperte
o interesse de muita gente
nem o interesse de pouca gente que seja importante
nem sirva para alimentar algum diz que disse
que valha a pena seguir nos dias imediatos a ter sido escrito.

também raramente escrevo sobre os assuntos importantes
ou ajudo à discussão de assuntos importantes
com as frases importantes para a circunstância
dos assuntos importantes e fico sempre nas margens da importância.

de facto, eu gostava de ser o verso em branco de uma página

com uma linha que me tivesse marcado e a mais ninguém
até eu ficar convertido a ser a página seguinte do verso irrepetível
mas desconhecido por todos
os anos do resto da minha vida.

raramente penso na minha vida como a página em branco que ela é
para continuar a ser uma oportunidade perdida
por mim e por ter escolhido uma forma simples de ser feliz
não sendo coisa alguma mais que olhos capazes de ver o invisível
ar quando ele passa por perto

e se ri com aquelas gargalhadas que nem eu ouço.

24

a escola em volta

Aqui moraram por tantos anos as tílias
que cresceram abraçadas umas e outras
até serem uma só árvore e não caberem em abraço humano
e serem ameaças de força imensa capazes de derrubar a pequena
oficina de artes que dá vida à esquina.

por isso se cortaram as tílias e, do lado de fora,
no passeio público uma ameixieira brava

carregadinha.

25

asas para que vos quero?

Deixei de acreditar em asas para voar.
Casei-me para ter uma viúva capaz
de me ver voar sem asas como labareda no forno
ou como voa o fumo quando sai da chaminé

ou como voa a cinza no cume da liberdade
de um monte ventoso ou à porta de casa
em certos dias de cabeça perdida, de vento irrequieto
a desmanchar perucas, a levantar saias e a despedir
chapéus para as retretes públicas dos cães.

Outros animais de estimação, como eu, sem asas,
e até as crianças deixaram de poder brincar
nos ex-jardins públicos, privadas a céu aberto
Mas mesmo sabendo eu que o fumo da minha carne
e a cinza dos meus ossos podem cair num monte de caca
a minha esperança de voar sem asas permanece intacta.

26

porque hoje é sábado

Quando a noite chegou, fumei um dos charutos da herança
de Estrela Rego. A varanda enche-se de sinais de fumo.

Que partam com o ar que passa! Não lembro o que leio,
não lembro o que ouço nem o que vejo.
Deixo que a noite tome conta de tudo.
Embrulho-me nela e deixo-me ficar escondido,

embrulhado numa dobra de tempo feita por uma ausência de luz.

27

pobre e pedinte

Não me penteio e, por isso, um espelho anda atrás de mim pela casa.
Não sou capaz de o partir porque o barulho da sua choradeira
acordava uma cidade inteira.

De vez em quando vai à minha frente em marcha atrás com um pente na mão.
O desgraçado do espelho é cego,
mas eu não dou esmolas

ao primeiro espelho que me aparece.

28

a leitura que nós somos

Se for verdade que nós escrevemos o que somos,
é também verdade que nós somos o que lemos
e diferentes seríamos se tivessem sido outros livros
os que nos conduziram até aqui.

Quanto mais leio, mais me sinto desmentido
e, por isso, mais necessidade tenho de mentir
a mim próprio para que o meu mundo não entre em derrocada.

Há quem diga que nós olhámos a religião como ópio do povo
e a religião é afinal baseada na crença da imperfeição do homem
terreno e que isso sim é a humanidade que anseia pela perfeição
noutra vida que não nesta.

E que procurar na vida terrena a perfeição humana
se transformou numa nova religião, ópio dos intelectuais
que não se habituaram ao ópio do povo.

Quem assim nos olha, está sentado no penhasco mais alto
e mais aguçado enquanto lê um livro de viagens
escrito por um cavalheiro, e, sem acreditar em coisa alguma,
deixa à turba a esperança na salvação eterna

e aos intelectuais a degradação no culto do ópio
e da perfeição humana em vida.

29

pela casa

na multidão que habita a cidade não podes esconder-te:
cada par de olhos te vê como se te conhecesse desde criança
e sentes que te seguem na tua deambulação sem esperança:

sabes bem que mão procuras e também sabes perder-te

30

pelo telefone

talvez ninguém possa falar das medidas
contra a educação

(por exemplo, morte das jóias da coroa de ontem:
TICS, CEFs, cursos tecnológicos
seguidas de outras mortes “por inerência”,
medidas tão excepcionais como um arrepio,
ao arrepio do planeado há pouco tempo ainda,
demonstração de falência da gestão do sistema educativo,
coisa mal educada, demonstração da cobardia
de cruéis trapalhões
para quem as pessoas deixaram de existir)

porque elas não existem realmente
já que
o que existe é o telefonema que anuncia
que antecipa
o que mais tarde cairá mais como facto consumado
do que como directiva de papel

ou
lei avulsa
que não é agora mais que uma forma
onde cabe o uso do abuso
contra a democracia e contra o direito

contra os direitos todos
individuais
dos profissionais
e sociais
das profissões

e

31

dispor as pedras

a luísa encostou-se à parede em frente da janela
e atirou certeira as pedras com seus riscos
de tal modo que elas cobriram as suas sombras
e nem sobrou a sombra que cai como a tarde cai até ser noite

32

o que eu vejo

o que eu vejo quando olho pela minha janela
é só o que existe
e é igual todos os dias desde que me levante:

não preciso ver nem saber mais para ser triste.

33

poeta

a luísa escreve do passado, o branco
sobre o branco:
e espera alguém que leia uma parede branca
em cal viva
uma morte em carne viva

uma prece.

34

podemos rezar

a luísa seguiu pelo corredor até à sala de memórias,
aí chegada, correu as persianas até fechar os olhos
e rezou pelo passado
até ter a certeza que dele só sobram restos
das traças

o que nem as traças encontraram.

35

alta voz!

Finges que não os vês quando passas
mas sabes que eles vagueiam por aí
porque lhes aconteceu mais cedo
o que bem pode acontecer-te a ti.

Ai, quem sabe se não foi um simples “não!”
que lhes mandou o emprego pró caraças!
Pelo sim pelo não, à força do hábito ou do medo,
vergado, tudo farás às ordens do patrão.

Se todos sabem o que não esquecem,
porque é que os que mandam e os que obedecem
consultam de novo a lista dos tiques da servidão?

36

vegetal doméstico

criei-te como quem cuida
de um girassol doméstico:
água e horas de parapeito

e persianas de correr: ora
luz ora sombra para te ver
o pescoço esguio rodando
em movimento lento, vegetal.

37

Santiago

As pessoas que passam sem ver a cor da rua
não caminham para a luz
e a sua vida finge carregar uma cruz

que nem existe ou não é a sua

38

Santiago

A ignorância e a tristeza
não olham como eu olho para a beleza.

39

quem a vésper espera

aqui onde aves fazem uma algazarra de família
regressada a casa
ao fim do dia

espero a estrela da tarde
e imagino um sino que dobra um bater de asas
um instante a morte e a vida juntas

40

o tacto

…………………………….

os pratos.

o ar já foi distribuído pelos pratos
vê-se que está quente pelo vapor que se solta dos pratos
e da terrina

ainda não sorvemos o ar da sopa e já se desvelam outros pratos rasos de lágrimas
aqui não deixamos os poetas morrer
com falta de ar que se come e se bebe

já o ar de respirar nem para assunto de conversa é chamado.

…………………………….

as caçoilas.

na azáfama com as mãos embrulhadas no avental a mulher carrega
as grandes travessas de ir ao forno cheias dos restos das palavras
pelo fogo tatuados no ar suspenso

enquanto uma lágrima se solta ao canto do olho que vê nas cinzas a forma do poeta
a mesma forma marcada na cama como uma pegada de vento
aqui não deixamos os poetas apodrecer e sentados à mesa começamos a nossa oração
pela frase lapidar se havia de ser para a terra o comer…

…………………………….

o álcool e o fumo.

ele escreveu em cada um dos seus livros ardentes
que as refeições de despedida devem ser seladas pelo silêncio
da aguardente forte e do charuto que ele reservara para a despedida

asim ela se apresentasse
e caso ela não fumasse que alguém o fumasse.
em memória

quando o ar fica assim solto no ar em pedaços solto
e nós o vimos como vimos nuvens
mas sem cor

só o vimos porque é possível ver uma vibração
ver o ar que vibra no seio do ar quieto
ou pelo menos lento
capaz de resistir ao calor sufocante para o ar

ficamos a olhar
através do ar as densidades do ar
e vemos as caras de quem morreu

41

por estes dias

às vezes reconhecemos um poeta que gostámos tanto de ler
e é agora incapaz de nos contar a história
de novo
porque já não lemos do mesmo modo
ou já não lemos simplesmente porque sobrevivemos
e somos de outro tempo

onde se percebe agora que o olhar que demos
aos poetas que morreram sempre foi uma compaixão
que só pode ser dada aos vivos
e não resiste à morte

pois sempre posso dizer que morreram
os que li fascinado por não ter escrito aquelas linhas
que eram as únicas que queria escrever e já ali estavam
perante o meu olhar postas na mesa por outras mãos
e máquinas

pois sempre posso dizer que morreram
e agora que não voltam cabe-me a mim bordar a toalha da mesa
deixada assim como um pano cru sobre a mesa sem uma única palavra
desvendada

embora as palavras cubram toda a mesa de uma ponta à outra
se não as palavras as linhas as linhas da mão rasgadas pelo fio dos dias
de quem fiou o linho deste abandono de verão na casa velha
onde os talheres contam mais que as palavras para as mulheres que vagueiam

produzindo os sons os choques dos gumes das facas os toques dos pratos esbotenados
pelo tempo os toques dos guardanapos com monogramas de poetas mortos
que raspam a música nas argolas e se repetem quando a mulher indica o lugar
dispondo os guardanapos sobre a mesa ocupada por pratos e copos, facas, garfos e colheres

e só depois os guardanapos com o chamamento pelo nome de cada poeta
convocado para a mesa
os que morreram aborrecem a mulher pois têm de ser chamados repetidamente até se ouvir
alguém dizer já não está entre nós maria

passa a outro
se te lembrares do nome ou de algum verso que alguém tenha escrito em vez do seu próprio nome
de tal modo que seja o verso a ser lembrado em vez da cara
por ter os olhos demasiado claros não suportava a luz do sol e ficou escondido na sombra da nave
por ter os olhos demasiado escuros não há quem se lembre da cor dos seus olhos e que não se pode ver

e por isso sem nome
e há mesmo um poeta que anda por aí a voar no ar da sala grande
e para grande espanto dele ninguém o chama porque dele nem peso nem nome nem presença
as pessoas preferiam que o poeta tivesse morrido de morte natural por exemplo se tivesse afogado

a este fardo insuportável de saber sem aceitar que o poeta foi perdendo peso
à medida que ia perdendo os dias que lhe faltavam para a sua passagem aérea

a ar e fumo ou só fumo que viesse a ser a sua forma aérea
como nuvem
e forma de estar acima dos outros

persistente mania treinada em vida com palavras
cordatas calmas e sossegadas sem acentos
que as fizessem estalar o ar

como asas de anjo ternurento capaz de todos os enganos
escondidos sob litros
de suave água de colónia
quem havia de dizer que ele tinha tomado banho em água de colónia
e que eram mentiras vergonhosas os seus poemas de banhos de amargura
e mal estar?

quem havia de saber disso?

por isso a mulher decidida punha a mesa e por ele não chamava
e ninguém olhava para cima para os lustres da sala
onde empoleirado estava o poeta de que lera fascinado toda a obra
enquanto a juventude me abandonava dia após dia

por descobrir que o que escreveria estava escrito
irremediavelmente por alguém que viera antes de mim
e roubara das minhas mãos a verdade e a mentira
fingindo que elas erravam por aí à mão de semear ao alcance até de um romântico

de merda medíocre que nem mereceria mais tarde o chamamento pelo nome
para a mesa
os poetas nomeados em altiva voz pela mulher primam pela ausência
e é a mulher quem come um poema inteiro de carneiro sentada à cabeceira da mesa.

42

a ordem descendente

tempos houve em que tudo corria em seu leito formal e até a lei
era feita para ser respeitada naquele país de rios obedientes
em que se falava de rigor todos os dias e e até à noite ao que sei
e houve até quem apontasse o país como exemplo para outras gentes
sabendo bem como apontar é feio.

43

o ministro que arfava nas frases curtas

havia um ministro ou um fato completo que mal sabia ler
e soletrava umas breves notas quando alguém as deixava cair à sua frente
do que eu percebia pareciam-me coisas que nada me interessavam
e por isso nunca dei importância alguma à falta de caco do ministro
até que aqueles comentários só podiam ser levados a sério por aqueles jovens
que suam optimismo sábio enquanto cospem as tendências da bolsa
como quem declama uma declaração de fé no próprio analista,
o obituário de um grande negociante ou de um poeta muito importante
descoberto postumamente.

ainda me lembro de se falar do responsável da imagem
do ministro, fraco a ler e a falar pouco,
célebre por tentar articular, em vez dele, versos épicos
sem imaginar que, para o interesse nacional, do fato completo
quem dera que falasse ainda menos que nada
desse tempo sobraram estas memórias
dito isso só espero que saibam que nada ficou por dizer.

44

armado de um garfo

dá-me duas boas razões para eu olhar por ti
abaixo ao velho pai bate o filho a porta do lar
de dia todos os gajos são pardos gaguejava
de dor que o garfo na falha de dente espetava
[

ninguém falava já naquela família diziam uns

para os outros isso não era novidade mesmo
há muito tempo que comiam sempre uma sopa
de legumes concentrados mudos e calados ouviam
o relato da história da família era um relato
de uma etapa da volta a portugal em que o tio
se tinha estreado na corrida de honra e despedido
numa vergonha que a urina da família desmerecia
tudo começava e acabava com a sopa e o relato
gravado durava tanto como a sopa pelas colheres
permaneciam para ali sentadas todas as mulheres
em silêncio nem rezavam nem deixavam rezar

]

dá-me duas boas razões para eu olhar por ti
e o passo em frente do pai sozinho esticava o dedo
o degrau avisava a campaínha e esta ainda a medo
desfazia-se no seu trimtrimtrimtrimtrimtrimtrimtri

45

a conta do gás

ouvir o tempo como um grave a escoar-se na ampulheta movediça:
de cima para baixo o vórtice de um quarto de hora de areia fina
na calha a cair como se houvesse vida por viver por ali em repouso:
ou respirar na água salgada é exercitar as guelras cardíacas
e é para salvar um moribundo que o turbilhão da água marinha
bate os músculos contra a bigorna até fazer brilhar uma lâmina?
uma lâmina que atrai a limalha desfeita em ar metálico
e trespassa o corpo de luz onde se perde e à dúvida:
ou, é, como um turista, que o pó de ferro viaja
até ser a ferrugem do pulmão do ferreiro?

46

o caminho

quem nos guia, guia a estrada
como quem desbrava, como quem lavra,
como quem procura o fim da linha:
um instante de descanso.

47

é tarde

da boca para fora a palavra
coça no lugar da ferida
como uma demão de álcool
pinta a parede em carne viva
e um nó na garganta fecha o colar precioso
esse fio de cólera que desce do pescoço
até se perder entre os seios
como uma dor sem mãos.

48

o que vejo quando

quando fumo o charuto da herança,
que espero eu ver da varanda?
só sei que uma nuvem de fumo
fica a pairar em volta e de mim
me esconde
e de mim esconde a vertigem
e a nesga de abismo.

49

o fora de portas

passo todos os dias por aqui e por ali
e as ruas estão muradas
ou sou eu que passo de olhos vendados
para não ver mais que anúncios de venda
de pessoas e bens e coisas até
que hoje ali estava o anúncio mais belo e desejei intensamente
comprar a parede mais branca para que a sombra de nada
se veja num espelho de cal.

50

o outono

bem que o ouvia quando ele chegava
arrastando pés pesados e folhas caídas
como quem levanta as cores maduras pelos cabelos
enquanto saboreia a última luz da tarde
por isso é que eu sei o que é ouvir mal

51

a república

para mim
a república sempre foi

aquela gaja boa muito mais velha que eu
meio destapada pela bandeira
passados estes anos todos
embasbaca-me saber que ela está na mesma

enquanto eu … enfim.

52

há quem pense

há quem pense estar acima da lei

e há quem pense que acima
da lei estão aqueles que adiam o dia
de serem apanhados nas malhas
da lei que redigiram para intimamente
a conhecer e melhor a trair

e a justiça seja cega para não descobrir

53

a roda

Sei que quando o mundo roda,
a ele preso, também tu rodas
e se tu rodas, contigo, o mundo roda

Mas não sei quem inventou a roda…
… a saia, também não.

54

um dia depois e…

Um dia depois e não somos quem éramos
que importa termos sido tão intensamente
se ontem ou hoje ou amanhã o nosso lugar
é uma onda de vento que quase não se sente.

Se fizemos do nosso corpo uma embalagem
e nela cabem as fotografias que fomos rasgando
o corpo pode ficar ou levar-se a si em viagem
que quem não souber onde somos saberá quando.

55

estreita a passagem

estreita a passagem entre penhascos um rio
deixa que me lembre em contraluz os teus dedos
apontando mais adiante uma agitação um desvario
o silêncio das ausências que há em todos os segredos

deixa que me lembre de algum sermão que seja rouco
na tua voz ditado para a nave nua onde ninguém pára a ouvir
como não se ouve um murmúrio que ainda está para vir
ou o sussurro de quem perdeu os dons e ficou mudo e louco

por um ai tu te esgueiras para não seres mais que lenda
aquela que até da vida se escapa por um fio
uma mão não mais que uma mão de través uma fenda
estreita a passagem entre penhascos um rio

56

a chuva dos dias

deixei que ela caísse em mim
como se a esperasse
desde há muito tempo
e ela tardasse

ensopado, esperei a morte
enquanto me dissolvia

mas o dia seguinte acordou-me
e ainda existia
só um pouco encolhido no tamanho
sem poder evitar a alergia

que me desata a alma em tempestades de ranho.

57

fazendo nada

de todos os sagrados direitos
é o da liberdade que vem primeiro

as letras que me saltam do tinteiro
é a ela que escrevem e sem defeito

… e depois dela? as letras cansadas
deitam-se em roda fazendo nada

58

resto de vida

A viúva apressava-se a enterrar o defunto
marido que já desenterrado o amante
a esperava à mesa com o vinho e o presunto
restos da vida de antes para outra mais adiante.

Já o viúvo morto tomando alento voava céu alto
em avião fretado ou asas de ir ao outro mundo
na pressa de respirar a nuvem sem parede nem fundo
esquece a viúva a magra pensão o sobressalto.

59

nestes dias,

Nestes dias, procuramos uma floresta.
Lembro-me de ter visto folhas caídas
e de ter ouvido as folhas levantadas pelo bater das asas.

Nestes dias, as árvores levantam angustiadas braços esguios;
a floresta parece uma multidão de árvores desoladas e vencidas,
sozinhas.

As duas mais altas esticam uma faixa entre elas
e gritam ao vento cortante uma maldição.

Nestes dias, as árvores farejam as tempestades antes dos cães vadios.