quinto dos infernos

(…)

O modo que tem um poeta de extrair do seu trabalho passado novas iluminações para a sua consciência, é parecido com o de Münchhausen para alcançar a lua: cortando a corda por baixo de si para a alongar por cima.
(…)

Cristina Campo; Os imperdoáveis

1

A vida inteira
Fora eu esperar-te
Em carne viva numa esquina de ruas
E como uma carícia aérea visses
A ternura do meu desejo ao olhar-te

A vida inteira

Estenderas a mão até quase tocar-me
E não te afastaras mais que dois dedos
Para que a vida pudesse parar nesse instante
Da ansiedade em teu olhar ao desejar-me

A vida inteira

Fora o instante mais que perfeito
Ou imperfeito mas que se recordasse

A vida inteira.

2

Senta-te meu amor aqui nesta soleira
E deixa que a luz grave na palma da minha mão
De ti uma imagem que sejas tu na escuridão

Que não sei se é tua a ausência ou minha a cegueira.

3

O que eu queria era o casaco de lã
Que deitei fora entre a viela e o largo da infância
Num dia em que o sol o rompeu e à manhã
E eu suei as estopinhas atrás da bola das minhas meias

A falta que ele me faz

Nestes dias em que os glaciares deslizam
Sobre a minha cabeça e os pingos do nariz vermelho
Congelam no ar acima do chão dos becos da cidade

A falta que ele me faz

O casaco … e a ágilidade de quando era rapaz

4

Quando não passamos perto ficamos sem saber como é passarmos lá
Mas falamos dessa passagem apertada e escura com displicência
Para sermos admirados pelos pobres de pedir não há melhor ciência
Do que ser a forma do bolo com as velas apagadas pela experiência
Essa que nunca vivemos por já a termos lido sem sair de cá

Passamos pela morte perdendo tudo: rimas ritmos cadência.

5

os ministros do meu país
já não soletram disparates
preferem disparar dislates

pelos dois canos serrados do nariz.

6

um pesadelo
podia riscar a noite
como o avião risca o céu

e não mais do que isso.

7

era uma vez um julgamento.
ao lado de um carrasco, eram iguais algumas vítimas
até terem sido constituídas em réus. para mim,

perante a lei não eram iguais como réus.

8

Será pedir demais pedir-te que me ames?
Nem preciso que me respondas
Basta que não te ofendas e ao ver-me
Não mudes de passeio nem te escondas.
Será pedir demais pedir-te que me ames?
Abre o porta-moedas e tira os dois dedos
De conversa que trazes escrita nas costas
De um bilhete com as dobras dos segredos.

Será pedir demais pedir-te que me ames?

9

toca com as asas o turbilhão que deseja
o anjo da guarda e lobo do rebanho do mal
por um eixo – do inferno ao céu – vertical

inclina o planeta que oscila e se despeja

10

Pela sombra da escada sobem
as sombras
Sentado no último degrau
animo o pé da minha sombra
a elevar-se do chão

até ao primeiro degrau

10

Olho para o retrato do meu pai e tento ver-me na idade de ser só ninguém
Mas não sei o que foi retocado no retrato nem o que é vinco feito a vapor
Por um ferro de soldar as fissuras abertas e cicatrizadas pelo uso da dor

Das viagens feitas em nome do pai para bem dos filhos e abandono da mãe

11

Tentei perder as costas pelas costas da cidade:
enfrentando compras para dentro e para fora,
outros para trás das costas.
Pelas dores, sabia que as costas não me viram as costas.

Ainda
hesito em apanhar o comboio por dentro ou

em virar-lhe as costas.

12

saí de fora para dentro
por um dia.

13

O dia depois amanheceu claro.
Ao vento frio dou a cara
E o passo em frente
Pendura, em cada gota de gente,

Dos meus sorrisos, o mais raro.

14

Emocionam-me as portas fáceis de abrir.
A olhar para uma porta destas,
com a única tranca do lado de fora da casa
– Casa roubada, trancas na porta!-
é uma falha de sentido

15

Outra porta trancada por fora.

E o mesmo azul.

16

O interessante já não é a porta da casa,
nem o mesmo azul noutra casa fechada
a sete chaves.

O que importa agora é a nesga entre casas.
Não dá para passar entre as casas.

Mais que o nosso olhar nada cabe.

17

As portas azuis são seteiras
em forma de cruz.
Todas as portas daquela casa,
a quarta mais que as outras,
carregam em suas ombreiras
outras cruzes.

Eu também.

18

desenho agora a porta
por onde olhamos.

alta está ela
como se fora uma janela,
por ela não se entra
senão pelo olhar
até uma esquina da cela
para onde olhamos

ao sair?

19

Ao passar pela aldeia, da estrada vi
um anúncio de quarto de aluguer.
Fui ver pela estrada do outro lado:
A janela do quarto dá para a tentação
de um abismo altíssimo

desde a casa até um vale de pedras.

20

Nas sessões públicas, a assistência pode
desenhar as costas da assistência.

21

A noite divide-se em ruas
como a manhã e a tarde
por onde passo a passo as horas passan.
E há instantes em que acontece
visitar-te ou até desaparecer
feito esquina que em teu tempo arrefece
ou gutural canto sem palavras por dizer.

22

olho para o jardim interior
de uma escola e não vejo
mais que uma flor de ferro
que aqui não foi forjada

23

Por onde passo ri a rua e levanta-se para voar
Também se iça a passadeira alta nos meus receios
De olhos baixos todos os dias lendo nas pedras do mesmo passeio

Dou voltas inteiras ao mundo nem sei se sempre a sonhar

24

na ânsia das flores
não esperar as folhas

que é senão cio vegetal?

25

para onde vou
a vida sucessiva rolante
basta como transporte

por quem eu sou
apressa-se vítima confiante
a amante rente à morte

26

arranjei uma des
culpa para te te
lefonar esta vez

foi bom ouvir-te
mas saber-te dis
tante tão que es
queceste o feliz
riso entredentes

não te lembrares
do meu nome inda
vá mas do cheiro
o nada guardares

triste’sim find’a
mor num tinteiro

27

com cuidado medido quem te abraça
de lev’em fugidio voo solta o beijo
e a ternura mais forte que o desejo
talha o mau olhad’ombro: já passa!

28

encolhes
os ombros

ao verme

de tanto
encolher
os ombros
os tolhes
d’espanto

fisiotera
peito-te?

fisiotera
peuta-me!

29

podias dar-me o céu
da boca num beijo

assaltimbanco

30

não sei bem o que vou fazer em lisboa.
o mais provável? nada.
e é por isso que nem te peço nem me despeço.

parto como se pudesse não voltar.
de meu pouco tenho e menos ainda levo.

de mim levo tudo. para nada.

31

a tua mãe não te ensinou a apanhar cricos.
também não ensinou qualquer dos teus irmãos.

mas eles atavam o ancinho no quadro da bicicleta e,
com um saco de serapilheira pelos ombros,
um ligeiro empurrão de um pé fincado no chão e uma pedalada contida,
arrancavam sem dizer água vai.

para voltarem horas mais tarde com um saco cheio de cricos, lama e limo.
como é que eles aprenderam? como é que eles aprendem?

ainda hoje passas a vida a fazer perguntas dessas. e não aprendes.

32

a pedra lavrada
pelos dentes de deus
é nuvem pedrada

em altos céus.

33

neste caso não fui eu quem te fez o altar
que já lá estavas quando ceguei à luz coada
a teus pés de joelhos tremendo humilhada
se suicida minh’alma sem saber a quem rezar

34

em casa não se fazem milagres:
a aura é feita de luz artificial
patrocinada pela cerveja sagres
como outra selecção nacional.

35

sente

os meus dedos ágeis
desenhando o corpe

te

bordando na pele
uma onda a língua
entende

me

36

37

não falas comigo ou sou eu que te não ouço
à distância que edificaste como muro e muralha?

não falas comigo porque os anos te pesam hoje
mais que ontem quando travávamos desejo e batalha?
escreve-me uma carta: escreve pela tua mão
o desamor que te faz mudar de passeio ao ver-me

ou leva-me de volta às regueiras dos montes
por uma mão que aprenda, ruga a ruga, a ler-me.
verás que o tempo passou mais e menos do que devia

por mim longos anos quando por ti não mais que um dia.

38

já é tarde
a sombra cresceu demais
numa tristeza cobarde
que não pode crescer mais

entardeceu
a barraca despida
o esqueleto contra o céu

sou eu
sombra da vida

sou eu

39

guarda a memória dos nocturnos preliminares de coito
a tua noite inteira vegetal que à luz do dia disfarçamos
no amarelo de beata o dedal onde escondemos o dado viciado.
de quem falam agora os projectores?

onde gravam as navalhas nomes e desamores?
esperavas por mim ainda hoje em cilíndricas peças serrado
por encanto sangravas não a seiva dos finíssimos ramos

antes infinitos galhos de uma floresta refúgio para nobre souto.

40

se quero ver-te?
não sei como dizer-te
quanto te quero! tanto que, ao ver-te
uma vez mais,
de felicidade anseio, então, morrer

e nunca! nunca mais
sofrer por te não ver.

41

Lá mais longe, onde o amarelo
das searas dá lugar ao monte,
a oliveira torcida de dor e sede
geme ao vento que a despenteia.

Lá mais longe e mais acima,
uma nuvem despe-se e despeja
o poeta para a sua terra de ninguém:
A corrente de cio do ventre de sua mãe.

Lá mais longe, onde o amarelo
das searas dá lugar ao azul do céu,
um poeta declama o silêncio.

As palmas das mãos abertas ao vento norte,
o poeta vira as costas a esta vida, ao sul do sol.

Que frágil espelho reflecte a vida na morte!

42

Tanto te desejei. E, ao mesmo tempo, desejava
uma paz sem desejos, inerte, a paz do cemitério
para onde me carregavam em ombros os dias
que já passaram e os que ainda hão-de passar

até que eu faça o caminho de olhos fechados
para tudo e se parece que em vida por nada me espanto
é porque nada me espanta… nem mesmo a vida:

esse teu canto.

43

vou partir e quando voltar, já a semana passou.
talvez volte vivo do futuro.
sobrevivo,

44

eu quero beijar um rosto
que se desfaça
mas não em lágrimas como nuvem

eu quero beijar um rosto
que se desfaça
mas não em nada como a divindade se desfaz

eu quero beijar um rosto
que se desfaça
mas não de faz de conta como faz o tempo

eu quero beijar um rosto
que se desfaça
como o meu se liquefaz na tua sede.

46

dá-me o nome da tua rua
e o número da tua porta
não quero saber quem és
nem em que andar moras
só quero esperar-te

para te ver partir.

47

a grande escada
por onde sobes
cansada
tem um patamar

para gestos lentos
desatando
os cabelos brancos

desespero como se fosse
quem não ouve
o vestido roçar
como quem não vê

a janela onde espreita
o decote vermelho
vivo dos lábios

como se fosse quem
depois
do último degrau
de braços abertos

te espera sentindo e sabendo tudo

e até que não vens.

48

salvem-se sonhos da mais antiga das velhas arcas
aonde poise luz coada pelas nuvens em teu regaço
travestida imaginação em calças das mais largas

abra o pano do teu riso à minha pirueta de palhaço.

49

ouve!
usa os sentidos
todos como os ouvidos
todos que algum dia houve.
noutro lugar

podes respirar.

50

A ave caída está cega e não pisca os olhos;
olhando-a me parece que ela não dorme.
Será que por ser cega lhe cresce a fome?
Como posso eu não piscar os olhos enquanto me desvio
se fascinado sinto o bater da asa do seu desejo como arrepio?
A correr fujo de medo. Mais alto que o seu agoirento pio
solto dos velhos pulmões o último fôlego … num assobio.

51

quantas pedras amarras ao pescoço
como colar de contas a prestar
e, sem ninguém para te empurrar,

desceres até ao fundo do teu poço?

52

observamos radiogramas em incidências
de face
e oblíquas.

a nível das articulações
carpo-metacárpica do primeiro
dedo de ambas as mãos
e interfalângicas distais vemos

fina

osteofitose no rebordo das superfícies
arrticulares, compatível com alterações
de osteoartrite.

alterações de idêntica etiologia estão
presentes a nível da articulação
interfalângica proximal

do quinto dedo

da mão esquerda.

53

não se abrem portas
ao topo das escadas
mas eu quero trepar
não pensar: trepar

até às portas do céu
a chave que as abre
não é uma palavra

como o desejo não

54

uma discussão acesa é candeia na noite dos amantes:
os corpos servem é para discutir e as mãos em labaredas
para sublinhar as palavras mais ardentes enquanto as bocas
desmaiam – disseste isto e aqui chegada apagaste-te em silêncio

e repouso, encolhida ali perto numa curva do meu sonho, ao luar.

55

e enquanto não tiveres a certeza
que eu te ouço

repete
a palavra que queres fixar na memória do mundo

por estes dias em que te perdeste ao perder tudo
que é o que podias lembrar
o que tinhas de teu
para além do nome

nova Orleães

56

viraste-me as costas e já não sei que face é a tua
ou como te seguras ainda de pé depois de tantos dias e noites
sem te teres sentado

tudo porque não queres ver-me embora fiques aí mesmo (sinto-te!)
ao alcance da ternura da minha mão

caso pudesse virar-me e a minha mão não fosse insensível
como a tua

feita de pedra.

57

nenhum lugar é esta rasura
entre a claridade do dia mais intenso
e a cegueira da noite mais escura:
a linha de espuma, a estaladura

que, na escuridão, separa o céu do mar imenso

58

Se um homem arrasta a sua cabeça penosamente
Das suas ruas olha com amargura não mais que o chão.
Pudesse ele levantar os olhos e daria pela compreensão
Nos olhos compassivos da demais gente!

Mas não! que cabeça pesada não desespera por afiados gumes
Ao modo obcecado de quem se sabe culpado ainda que inocente?
E se apura os seus ouvidos às abstractas farpas, em brandos lumes

Deixa fritar a elegância do pensamento e faz-se boçal como penitente.

59

As grandes ceias fazem as noites longas demais
para palavras pequenas como ceia.
Quando entra na conversa da presente ceia
a memória come mais que uma palavra: céu visto da lua
Uma caneta maquinal regista em papel de ar

os gestos da ceia dos dedos

60

pois! os olhos vazios de vida são,
sob sombrias abas de um chapéu,
luzeiros brancos em campo de tiro

anjos suicidas em treino de asas.

61

quando a cultura se debate
entre ser
qualquer coisa para vender

e ter
qualquer coisa para vender
eu rabisco cornos e asas
que nem se compram nem se vendem

nem por mim nem a ninguém

62

ouvimos e não acreditamos.
nem a mim reconheço.

não estou aqui.

63

corro para ti e em redor de ti corres para mim
de mim em redor riscas,
uma volta de roda que palmilhamos:
uma revolução, não uma queda sem asas

se não é um salto alto em altura
que me afasta de ti
desde o meu primeiro voo sei
que quem pode dar-me mais amargura

é quem limpa o nariz onde eu me assoo.

64

de ti tu sabes tudo pensas tu
de ti tudo
ou nada de ti é o que parece de ti:

é como tudo na vida de ti
tu
de ti sobram nenhuns
outros, estes.

65

olha como o céu vela por ti:
como um véu sombrio te esconde
dos inimigos vizinhos e mesmo de ti
bem podes perguntar porque estás aí ou onde

sabes que subiste para lugar nenhum
e aí ficaste sentada do lado direito
do mais simples espírito e estreito

bocal que entoa três vozes sendo um

66

a reunião começara ainda a tarde era uma criança luminosa.
quando acabou já o dia se tinha perdido numa escuridão outonal

e eu, abandonado, perdera de vista a minha mão num postal quase ilustrado.

67

Arranquei uma folha de papel
manteiga do meu livrinho diário.

No verso, colei um selo de 30 cêntimos
depois de escrever um nome e seu lugar,
como endereço possível.

Para saber se os melhores
correios do mundo entregam a folha
sã e salva, espero.

Ela espera sem saber.

68

Ensina-me a chorar que eu bem preciso,
nem imaginas quanto, de lágrimas verdadeiras.
Deixa-me mergulhar em tuas mãos lavadeiras

e entranha-me do cheiro das tuas faltas de siso .

69

Como sombras em volta assim quero ver as pessoas dos dias que me reconhecem,
esquecer os pormenores de todos os rostos, de todos os braços, de todos os olhos
para perceber cada detalhe dos teus sorrisos magoados pelas minhas faltas medrosas
ou pelas presenças que são mais veladas ausências ou oscilações de desordem interior
projectadas como sombras no paredão de que me afasto até aos dezassete passos
de olhos vendados e gritar fogo! para o pelotão que anseia fuzilar-me por descuido.

Espero ser salvo do torpor da ferrugem, dobrar uma esquina corroída em salmoira.

70

Ali onde menos esperava erguia-se uma nuvem
ameaçadora como uma ferramenta cinzenta
ou uma guilhotina brilhante na nesga de luz.

Enquanto ruía um céu metálico de sabores e gruas
e roldanas, porcas, parafusos e foices de longas curvas,
fêmeas e machos voavam espreitando passos de roscas
acertando noivados, casamentos, amor eterno.

Uma grua galgava o abismo, de braços abertos,
aos ombros, equilibrava a cidade de cordas de aço
retesadas pelos músculos do medo.
E eu, onde menos me esperava, aparecia a espreitar-te

como uma grua pesada se reconstruindo peça a peça.

71

olho para o mais fundo das casas
para os ácaros que vivem no teu cotão
sorvo o ar na imaginação das asas
dos vespeiros que vivem no teu sótão

e restauro-me a olhar-te e respirar-te
sem pensar-te ou acrescentar-te arte

à tua arte.

72

Eu vinha tão distraído que nem a vi.
Depois de a ver, todos pensam que eu minto
e que morri por a ter visto.

Assim pensaria eu, agora que a vi, se não fosse tão distraído.

73

levanto-me cedo para varrer uma tela com o pincel
como se tomasse uma vassoura e varresse o chão
maquinalmente
sem querer varrer pó a não ser para o ver sem ver
num voo que sabemos mas não vemos.

levanto-me cedo para tentar perceber o que quero fazer
entre actos ditados por outros e pelas promessas
e fico ali preso o tempo todo da eternidade da manhã
a pensar que já nada há que seja meu a não ser

o gesto maquinal de varrer coisa nenhuma para dentro.

74

Quando me sobra tempo
-estudar aturadamente a tua geometria tal como ela é,
confesso que me agrada –

ponho-me a tentar compreender o orçamento das obras
que te querem modificar e é um trabalho paciente
sou eu quem to digo olhando

os mortos das tuas gavetas, o lixo espalhado nos teus gavetos,
as flores murchas em teus altares e as despedidas das pessoas
que te acenavam amor eterno e agora te acenam
com lenços brancos e nevoeiros densos

despedidas de primeiro inverno ou se encolhem como fantasmas
em seus assombros, nos buracos financeiros do inferno
onde eu me perco sem poder dizer-te o que quero de ti mais do que és
duvidando se quero ver-te jovem como dizem que vais ser ou velha

tal como me pareces quando me pareces da minha idade
cidade amargurada pelas rugas por onde se esgueiram as águas salgadas
essas que ocupam os largos esses aquários onde nadam peixes de chapéu
e chapinham carapaus e caras de pau e as reticências

as que sempre aparecem quando não sabemos o que lá devia estar
logo depois do que lá está enquanto a terra continua a rodar
e me sobra tempo para tentar compreender sem conseguir passar
pela janela de onde posso espreitar as tuas gavetas vazias e abertas

para o vazio de uma praça mandada abrir em nome de algum filho da mãe.

75

A piedade que me sobra chega para construir uma casa.
Depois, a piedade levanta-se e muda de casa.