quarto livre

1

aqui fundeamos, soltamos uma âncora
e esperamos que ela encontre quem a prenda
e nos prenda a nós
nas vagas de um lugar qualquer
ainda que cercados por tubarões
de que sabemos nomes e apelidos.
porque será que preferimos o incerto lugar

e fundamos a esperança neste alto mar?

2.

não me abandones antes de ter encontrado
o silêncio de ouro
que é o que sobra como tesouro
das histórias inteiras que fazem o nosso fado

a guitarra que só depois de ter o visto
e o ouvido vestido
deixa marca escrita no areal do rosto pelo mar varrido
uma mancha das palavras com que eu me visto

para descrever-te o instantâneo a revelação
final numa câmara escura
onde registas o teu sonho de aventura
e eu vejo a tua alegria como redenção

e, se puderes, sussurra-me o segredo
do teu riso
e eu nunca mais volte ao meu perfeito juízo
de onde devia afinal ter saído muito mais cedo

3.

Quando a tardinha dá lugar
à noitinha, há praças que tomam
a forma de aquários.

A água suspensa
suspende-nos um pouco acima do chão
e fendemos o tempo lentos entre as gotas
das cortinas de chuva miudinha
que desenham portas na cidade.

Sem ninguém à vista desarmada
respiramos à maneira de quem nada
num voo mariposa.

4

Eu sei que quero tocar nas tuas teclas em carne viva
Na tua pele nas extremidades dos teus nervos mais sensíveis
é aí que procuro o destino das casas improváveis mas possíveis

paredes da clausura para que a minha na tua alma sobreviva

5

embora vibre
o dourado junco está morto:
à malícia do vento ainda obedece
o dourado vegetal é uma cor de moribundo
que se despede numa falta de ar e ao ar se esquece.
onde os cabelos são juncos e o meu corpo apodrece

a água parada transparece

6

As flores que enfeitavam de cores
o prado do teu cabelo
foram comidas pelos teus piolhos
herbívoros

Os pequenos esquilos que brincavam na floresta
dos teus cabelos
foram comidos pelas tuas pulgas
carnívoras

Os tubarões que nadavam no mar dos teus olhos
sob as franjas do teu cabelo
foram devorados pelas carraças
das tuas mesquinhas ideias

Tens tão pouca graça agora
que eu já nem sei se a gente inda namora.

7

a separação
entre a terra e o céu
tem de ser registada em cartório notarial
para valer

8

se ensinas uma teoria sem teoremas não tens que dominar a arte e a técnica
da demonstração
podes ver que os teus aprendizes crescem contigo
se eles abrem no corpo da tua companhia um postigo por onde coam raios de luz
e por onde disparam

ou certeiras formas baças contra os dias mais calmos

ou rigorosas cores brilhantes para os corações das inquietantes e esguias árvores
que se movem por dentro dos dias mais húmidos

ou balas tão perfurantes quanto verdadeiras
que abram uma brecha numa cisterna de sede

os aprendizes nada te exigem: nem demonstração nem resposta

eles são aprendizes e sabem que as tuas respostas vão esvair-se
como se esvai o sangue vermelho da nuvem desfeita em lágrimas
ardentes por dentro da ausência de uma armação sem tela

eles são aprendizes e sabem que para ti as mais intuitivas
de todas as respostas são sobre a cor do vento e a forma do ar
eles são aprendizes e sabem que o espírito deste lugar habita
nesse que mostra e não demonstra

9

se assim fosse o abismo
o que eu vejo quando olho para a rua da varanda

do teu andar

10

nasce outra vez! grita
comigo, engole
todo o ar do meu mundo.

no rio de ar nascido
do teu choro de asfixia
morra eu ao teu primeiro segundo.

11

a mulher flamingo
pesca à linha
do horizonte
o sol moribundo

que reanima
num abraço de penas
antes de o devolver
à vida

de afogado.

12

adormeces
bebendo directamente do cachimbo

o ar que respiras.

13

Num dia como os outros
solta-se entre as palavras
um fumo enrolado pelos açores
e o brinde tinto lava uma terra inteira:
como uma trave na arquitectura da casa da calheta
a gargalhada comum voa nos corredores
até se enterrar no sagrado chão
onde o chão não existe
porque uma mansa vaca pasta a nossa passagem
pelo mundo.

Num dia como os outros
desistimos de olhar para longe

olhando para dentro.

14

vi-te nas telas: nas planícies incendiadas
és o bisonte que desafia com os cornos
a nuvem levantada pelos teus próprios cascos.

15

entras
e sentas-te nos meus joelhos:
a última cadeira da casa que ainda não espatifei

por cobardia.

16

finalmente tenho razões
para chorar e rir como só eu sei
há uma procissão de figurões

e no andor vai sant’ana nua feita rei

17

como um palhaço fazes a pirueta
que te faltava para seres o país da treta
e saltimbancando um pouco mais para a direita

adormeces na cama de visgo onde a canalha se deleita

18

eu vou cá para fora lá dentro de mim
deste canto exporto olheiras e maus olhados
e óleo de pavão que é dos mais importados

no país onde ninguém se importa antes do fim.

19.

quando me cansa a frase seguinte
do relatório que folheio
venho até aqui como pedinte

pedir esmola às pessoas em passeio

uma esmola, duas pepitas de memória
peço por uns instantes a mais de sossego
como se reclamasse o salário do cego
que canta uma lengalenga sem história

outras vezes canto tão alto um fado à janela
aquele que aconteceu ao pintor que assassinou
à facada o auto-retrato da sua última tela

e a esse rio de tinta para onde se atirou.

20

descendo pela vereda verde
e estreita
afinal sobes até um calvário
onde, presa em seu sacrário,
a estátua espreita

quem se perde

21

Eu vou ver o branco dos olhos magoados
as madrugadas onde elas estiverem na preguiça
e em alguns dias dos mais desesperados
cantarei, pela salvação da minh’alma, uma missa

Se alguém sossegar a um canto da minha igreja,
gozando a solidão do fresco da nave lateral,
farei do meu canto um tal silêncio feito em cal

até não ser mais que estátua o que de mim se veja.

22

pelo pasto das chamas a dor
ladra avisos até ficar rouca
que já não cabe dentro da boca

a língua de fogo do pastor.

23

quero ser o passeio
sem margens
onde corra como um rio

ou ser preso na casa
de seda
em volta da mulher

e escrever o poema
numa pele de lençóis
da cama por fazer

quero ser o passeio que ela faça
quando errar nas nuvens

quero ser o senhor dos passos

24

ando a escolher as cores
que fiquem bem em corredores
e vendo pela oferta mais baixa
o quadro de que se mostram pormenores

neste poema claro
fico à espera do primeiro dedo de um amigo no ar
e se deixar endereço ainda trato do envio e não cobro
nem portes de correio.
também por um  preço ainda mais baixo, vendo

a um amigo que não tenha duas caras.

25

quem vem pelos pirinéus,
tomando o caminho a partir de Orthez
para Pampelune (ou Pamplona ou Iruña?)

passa por casas espantosas a desenhar
contornos a pastagens
(tanto para bestas celestiais como terrenas)
e que nos enganam o olhar.
e possível se torna ver o que é impossível construção.

como pode resistir
um pintor ingénuo  à matemática da paisagem
ou um  poeta a um  lugar  nomeado

Alto do Erro?

26

a história não vai falar dos nossos
mártires porque nela entraram carregando
o espanto sobre a pacatez da vida o desmando
do trágico navio que transporta ossos

o futuro só vai contar mártires  de dois modos:
entre derrotados ou entre vitoriosos agressores
tenham ficado vivos ou tenham morrido todos
abraçados a uma casa, causa ou seita

só  os vivos de um e outro lado sentem as dores
dos mortos que assombram a sua cama estreita
a história espalha o pó fino que sufoca
os gritos e simula na pedra funerária
que todos os outros morreram pela boca

de cena fazendo de actores de vida adversária

27

não me digas que as comeste
porque ninguém
a começar pela tua mãe
te avisou que as lâminas
de barbear

não são para comer.

28

dizem que não há paixões humanas que prestem
e que todos os poemas foram já ditos e escritos
não mais que personagens de um fado bem passado

poetas são ratos de biblioteca a sobreviver
em buracos dos livros que não param de roer

poetas são os que usam formas novas para cozer
em lume brando o poema mastigado e vomitado

até este ficar queimado pegado colado
e parecer que não tem nada a ver
nada para entender
e pouco ou nada para ler

dizem que já não há líricos tísicos nem sanatórios
e que os poemas são incerta forma para citações
ditadas e reeditadas experiências de laboratório
onde não entram nem saem emoções.

e que já nem preciso é sequer manuscrever.

29

das patas

da aranha amarei os pêlos na sopa
quando a devolvo à copa
para que a aranha inteira a enriqueça
e eu, enfim, rejuvenesça

até andar de gatas

30

já somos outros
mas não sabemos falar disso
porque no final voltamos ao mesmo
porque não fizemos mais que um par de meias voltas

e desatámos os nós da língua para voltarmos a ser mudos como antes
sei lá se sou de lá ou de cá

os outros dedicam-me uma certa piedade compassiva
e  isso me basta
nem aceito o risco do meu tempo a seu tempo

que reconheço como  sinal e  ferrete.

31

quando desenhas as linhas
do meu desgosto
sei que a manhã desperta
as minhas mãos no teu rosto

se na minha face rugosa alinhas
os dedos do carvão que se desfaz
ao vento da janela aberta

volto de asas caídas aonde tu já nem estás

32

digam-me letra a letra a minha cruz
soletrem-me do calvário o caminho
à volta sem regresso
e esmaguem entre dois dedos uma a uma cada luz
os pontos na espiral em que definho.

é só o que vos peço.

33

que contas tu ó pobre para um fado
em dó maior… do que uma algazarra
de cães que perseguem por todo o lado
o coelho que foi gola da tua samarra

quando a tua avó era viva e tu eras a criança
a querer ser padre da tua freguesia
quando fosses grande e não fugisses para a frança

ah! se tivesses crescido outro galo lhes cantaria

34

quem anda com os pés nos bolsos do corpete
e mostra os dentes a quem sua mais que morde
usa um número acima para as câmaras da biciclete

e não sabe que pedala para onde mora a morte.

35

espera mais um pouco.
por ti
se fores devagar, talvez possas
fazer-te companhia mais um pouco.
afinal vão ambos para o mesmo lado!

e a viagem é assim mais lenta

36

por entre o lixo do hospício, vagueio como doido
varrido
por uma vassoura de penas

minhas.

37

atravessam cedinho
a vila, deste lado ao de lá do monte onde a manhã dá à luz o sol,
os passos ligeiros da mulher mais bela do dia
escolhem maçãs bravas colhidas à árvore da madrugada.

ah! e fosse eu com ela de mãos dadas assim cedinho

38

onde a blusa transparece
os olhos matam a sede das mãos ansiosas
do alpinista trepando pelas encostas dos seios,

e, na planta riscada sobre a terra lavrada,
esse vale do ventre em que se levanta o desejo da arquitectura
para a possuída casa ancorada em estacas de vento e de ternura,

eu desenhei a vida inteira por viver e por mais nada
deixei cair pelo fio do prumo o olhar a pique
e, ecoando grave, em queda livre, a voz calei

ali onde a blusa começa e se entreabre
uma porta escancarada.

39

a fita que se soltou do teu chapéu
chamou-me pelo nome pronta para voar
e eu hesitei no teu decote o meu olhar
antes de ir com ela para o mais alto céu.

de tão longe ver-te como um ponto final,
quando tanto te desejei em cada pormenor,
não vejo pior

mal

40

antes neve e gelo em teu banho de espuma
que o frio no céu

da minha boca …

41

não votei em durão barroso, nem no psd e muito menos no cds,
mas reconhecia o db como primeiro ministro do meu país.
não sendo eleito sequer para governar portugal,
santana lopes pode assinar uma constituição europeia?

pode. por s.jorge!
não, em meu nome
que eu só espero que a caneta tenha uma diarreia.

42

muda a hora. às duas de qual manhã?

às duas por três, numa catedral aberta,
visito mortalhas em fila de espera
e só ouço o silêncio frio
de um amigo que ressona

sem saber que morreu uma hora mais cedo.

43

eu sou o meu único tormento
e as tormentas por que passo.

eu sou o navegador
que inventa o cabo e o dobra.

44

a garça tem olhos inquietos e um corpo suspenso
desajeitadamente reequilibrado com o bater das asas

o boi tem olhos conformados ao corpo pachorrento
uma tremura por dentro da pele macia avisa as asas da garça:

podemos caminhar juntos, voar é que não!

45

disseram-me que muitos são os chamados
e poucos são os escolhidos

a mim chegava-me  ser chamado

46

Quando te pergunto e tu respondes,
procuro o certo e o errado ou o que escondes?

Eu não quero saber o que é certo ou o que é errado
nem quero virar o ar dos sons para vibrar por outro lado

Sou eu quem se desfaz em tinta vermelha verdadeira
chorando sangue sobre a tua resposta azul certeira
a não esperada
ou a não desejada

ou o contrário de tudo … que é nada.

47

se a manhã vier beijar-me
como só ela sabe
eu hei-de saber calar-me
no colo em que meu sonho cabe.

se acordar?
sonho acordado.

48

se eu me levantar e pedir a palavra para dizer
como Novalis disse …

é porque não sou um saco roto

49

o luar contigo
é o desenho
de um luar comigo

desencontros tanto acontecem
ao luar contigo

como ao lutar comigo

50

Nenhuma orelha te arde
por eu me pensar contigo.
Contra praga de cobarde

nem precisas de abrigo.

51

muitas vezes, como
se soubesse tocar-lhe
abraço-a
assim como
se a embrulhasse
numa canção de embalar

antes de a acordar.

52

aos homens disseram:
– pesquem que é um bom desporto!
homens houve que acreditaram e fizeram
o melhor isco de homem morto.

mais tarde disseram
que os peixes não morderam.

os iscos usados na pesca desportiva
de mar salgado passaram pelas brasas

antes de serem petiscados em suas casas
pelas viúvas respectivas.

53

foste a última a tocar o meu pobre coração
mas foi tão tarde
que é o tal fogo, o que arde
sem que o possas ver, o que me consome

e, quem sabe?, talvez me mate à fome.

53

assim abandonado e só e arruinado.
ser lugar  visitado e visto por uma porta entreaberta
para ser outro
assim no alto
pelos seus dois olhos vazados

a porta não vê

54

ao fundo, a casa do alto vento
abriga uma fogueira de caçadores
espreitando o rio, como quem espreita
a serpente que vem da espanha onde nasceu

e onde deixa os ovos
vimos passar as luzidias escamas
do seu dorso a caminho da cabeça,

a nossa, essa que nos envenena cada vez
que nos morde
quando nos beija

com a língua multífida da ibéria.

55

enganas-te
para pensares em fugir por aí,
precisas de asas para voar

e isso eu não tenho para ti.

56

os meus rebanhos pastam as tuas costas
e bebem-te sem estragar a miragem no espelho:

a uma distância prudente e medrosa pensas que reflectes
estando eu a olhar para ti e para quem não te compreende
na ânsia de seres livre em cada pedra que te prende

e beirando portas pronto a sair
afinal entrando
de um para outro lado

de uma nação a outra.

57

desenho para não olhar quem não quero ver
desenhar é como mudar de passeio.

desenho as linhas das mãos dormentes
desenhar é   não veres o que  só tu sentes

58

O que a morte sabe
eu não sei se cabe
na boca suja do inferno
no mais vazio instante do eterno
na biblioteca dos medos
onde guardas mais segredos
é lá que também a morte se deita

e o quase nada de tudo espreita.

59

devias deixar-te afundar um dia só para veres o negro
verdadeiro e enfim dares valor a cada raio de luz
não é coisa sem valor uma pepita de luz
devias deixar-te cair com um peso amarrado ao pescoço.
para veres como pesa menos o que te prende ao lugar
de onde queres sair desesperadamente

porque te vai faltar o ar, vais dar real valor a cada bolha de ar
que verás a sair sem regresso da tua boca
e como vais invejar a sua agilidade na pressa da subida

– se tenho medo do escuro, mais medo tenho da falta de ar! –

é o que dizes para esconder a verdade
de  apaixonado que estás, sempre estiveste, pela flor das águas
e seu brilho tenso de fronteira instável entre água e ar,
sombra e luz,
a tua vida adiada antes

e depois da tua morte anunciada.

60

já decidiste tudo para depois quando
tiveres partido.

o fado da tua morte é só um verso perdido
que a tua vida foi adiando.

e o poema da vida que te coube em sorte
é a história de cordel da tua morte.

61

já decidiste que não falas por falar,
com quem não falas, a quem não respondes,
quem não queres olhar

de quem te escondes

62

um dia o meu pai olhou para mim e disse:
se te levantares saberás o que é andar sem ajuda
e isso, tão pouco!, é a liberdade que em ti tudo muda.
[¿Sabia ele o que lhe diria hoje se o visse?]
e, tendo construído em verga forte duas bengalas
até à altura dos meus sovacos de criança,
levantou-me do cesto onde jazia para dizer: “abram alas!

que é tempo do arsélio vir mostrar como se dança”.

63

tanto as amo vestidas de frondosas copas
pelo estio

como as choro assim nuas torturadas
às mãos do frio

64

renasce como uma onda puxada pelo vento
e morre ali refeita suspiro ao chegar
à praia onde como quem mói o pensamento
piso meticulosamente cada bolha de ar.