duodécimo

1

quando falas do zero absoluto
como se neutro fosse
o que é absorvente

as pessoas adivinham-te cornos
onde tiveste caninos

2

eu sei que mostras olhos de boi manso

mas quem atenta
no teu pescoço dobrado para a frente
enquanto velas ameaças
sabe de que maldade és feito animal

3

mais um ataque de tosse e acordei
para um duche de manhã de sol
antes de vestir um fato cinzento
domesticado para passar por um funeral

mais um ataque de tosse e levantei-me
da cadeira
a caminho da igreja
onde as pessoas velam uma ausência

ataquei o cachimbo com gestos precisos
para seguir a caminho da biblioteca mais perto

e desistir da igreja onde não faço falta à ausente
nem a mim enquanto penso num sonho interrompido
pela memória de quem é já vento e viagem de fumo
desfeita por um novo ataque de tosse que bate à porta
de capa dura do livro dos mortos em vigília

4

por estes dias corre a vida por uma economia paralela
a todas as ruas humanas permanentemente vigiadas
por matilhas tensas para um salto prodigioso

quantos são os lobos quantos são os ladrões verdadeiros
quantas são as feras necrófagas quantos os oportunistas
quantos os que contam as ocasiões para a oportunidade
(que faz o ladrão)

quantas mantas de retalhos sobre os olhos fechados e a boca
quantas narinas abertas ao vento das palavras
quantas palavras sussurradas por pares de olhos fechados
(para não ver a dor dos outros)

quantos cheiros fazem uma vala comum
quantos delírios formam um país de navegadores
quantos submarinos em docas secas
(vales de lágrimas dinheiro pingado evaporado)

quantos são

quais cheiros são adocicados pelo terror
quais as ciências dos que enchem a boca de razão
(prática toda ela como se fosse pura)

quais são os crimes vitoriosos em palácios da justiça
quais são os frufrus dos novos palácios
quais são os derrotados quais são os vencedores

quais são as necessidades quais são os palácios da caridade
quais são as quadrilhas internacionais quais são os bandidos
quais são os viajantes entre países credos e raças quais são as vendas

quais são os sonhos que são pesadelos
de quem são os sonhos e quais são pesadelos de outros quais são
que nomes usam dentro de portas que nomes fora de portas

que língua falam que palavras dizem que fardas usam para as guerras
quando as travam quando decidem as ordens de compra e venda
quais os mercados onde compram escravos que executam as ordens

quantos quais quem são e de onde

viajam de lugar nenhum para nenhures
habitam num real mercado virtual da economia global mundial virtual
verdadeiramente paralela à humanidade

cortam-nos ao meio de nós estão no meio de nós são donos da casa
andam a despejar o cheiro do fel para matar a fome e sede
de justiça e a fome e a sede verdadeiras

entre nós eles contam-se pelos dedos
cortam-nos os dedos pelos anéis
e para não podermos contá-los nem apontá-los a dedo

que é só disso que têm medo
de resto contam com a ideia do medo de todos nós
em cada um de nós afinal o que são dias um dia não são dias.

5

ontem passaram por mim versos em bando
filigranas de letras unidas esvoaçando

e eu confesso que nem reparei como era bela
a moça de cabelos presos pelo poema
na tocaia de quem lhe soltasse os cabelos

e entrando dentro dos seus olhos à janela
pudesse ver-me assim distraído e triste poeta infeliz

que só pensa em formas eficazes de desentupir a sanita.

6

de vez em quando acontecem as mortes
mais simultâneas
que surpreendentes

por sabermos que somos velhos e que
as probabilidades não nos permitem
grandes denaveios

7

daqui a pouco é já amanhã
e nós não sabemos muito bem como lidar com isso
muito menos sabemos quando as informações que temos
não ajudam os que querem saber

será melhor eu decidir que a partir de amanhã
desista de querer saber
e mude de um dia para o outro
como quem dá um passo sem objetivo
nem balanço para o próximo

de venda posta e sem aparelho auditivo

8

se viu o filme, percebeu
que fomos filmados
de um ponto de vista
longínquo de nós

por alguém que
não quis conhecer-nos
muito menos quis
entender-nos

talvez um atirador
que se diverte
a ver-nos:

ou talvez seja eu
a ver de perto
muito perto

formigas.

9

o caracol
não sente a subida

nem sabe que é comida
de bico voador

ou de vir a ser esmagado
pelo chinelo da dona
do jardim

no instante
extravagante
e crocante

do seu fim