a nona

1

a fotografia

Ainda a família dorme, o homem sai.

Entra no carro. Sentado ao volante,
não sabe para onde ir. Devagar,
o carro segue pela rua do bairro.

Há um buraco mesmo no meio da rua.

Embora hoje não o possa ver
na rua inundada pelas chuvas da noite,
ele sabe exactamente onde está o buraco.

Hesita ao chegar e pára o carro na rua deserta.
Se tivesse trazido a máquina,
tirava agora a sua última fotografia.

2

há moelas?

O homem entra, batendo a porta.
Senta-se a uma mesa, perto da porta.

Sobre o silêncio que se instalou à sua entrada,
ouve-se a voz forte do homem:
Já há moelas de coelho?

Ninguém responde. Passado o tempo preciso
para nada ser resposta, em voz baixa, para todos,
a dona do café diz:
Rua!

Saímos todos.

3

sobre imaginar a vida

Uma vez por ano, um amigo
traz uma garrafa de vinho e nozes colhidas
em nogueiras de um lugar só dele
que eu não conheço.
Em tempos, falei com ele sobre a luz coada
pelas nogueiras, coisas da imaginação
que acabei por nunca ver e
por isso
ainda é luz de um momento mágico.

Pelo meu lado, em cada ano,
ofereço-lhe um livro que gosto de ver,
mas não posso guardar.

Este ano comprei um livro enorme
que não cabe em minha casa.

Guardei o livro no carro, onde vou
vê-lo às escondidas da minha família.

Tomo todo o cuidado quando vou visitar
o meu livro. Saio de carro e paro
num lugar deserto.

Tiro o livro do porta bagagens e deixo passar horas
folheando o livro no banco de trás.

Se alguém espreitasse a minha leitura,
estaria depois a oferecer um livro
em segunda mão
e isso eu nunca poderia aceitar.

4

desenho, logo existo

somos sempre nós quem desenha os caminhos
de ida,
e de vinda
para casas sem portas de entrada ou de saída.

absurdos que nós somos, trocamos por pesadelos
a vida.

5

a luz dos guarda-luzes

a uma certa luz
coada pelos vidros sujos
é a sombra das grades
que acende a luz na cela.

6

vouga

naquele dia o vouga saltara do seu leito
e trabalhava por ali perto animando

os sapos a parecerem príncipes

não vá aparecer a donzela
que lhes quebre o feitiço

7

baile

uma e outra camada de negro
veste o verso:
a esperança de vertigem
à beira de uma fenda negra ensaia um passo de dança

enquanto eu

de contas de rosário entre os dedos
me dá para não chorar
e um pincel varre as lágrimas
para debaixo do tapete negro
e as esconder dos olhos.

8

raia de steiner

para nos darmos
uma curva ou duas
onde se ajustem e repousem
os nossos pontos
pequenos como olhos
e as nossas rectas
como trágicas varas

9

muro de berlim

Em Fátima, vê-se um bem educado
pedacinho do muro de berlim,
guardado num relicário.

Ao lado, numa placa, gravado está
um agradecimento à irmã.

10

espreitar o livro do anjo

que lê o anjo deitado na calçada?
o pintor efémero já partiu
sem ter desenhado
ao menos
um título

11

os anjos de barro

os anjos de barro estão mais que mortos.
todos sabemos que foram amassados
carinhosamente e depois com crueldade
moldados em forma de anjos

antes de serem cozidos em forno ou inferno
como queiram.

12

o espelho

amanhã e depois de amanhã ainda lá estará o espelho

mas não ficará lá para sempre assim tão velho
como a árvore que nele se reflecte

13

a coisa

Podes olhar e ver um espelho simplesmente
um espelho debruado a ferro forjado ou
ver uma janela que pode abrir-se ou
a geometria da decoração em ferro ou
a transformação geométrica da árvore
em imagem ao espelho ou
imaginar e ver a forja a face tisnada do ferreiro
o martelo nas mãos calejadas do ferreiro
as faíscas saltando da bigorna
a labareda como um sopro do carvão incendiado
o ferro vermelho contorcendo-se de dor
de queimado e torturado ou
como uma cobra apanhada e depois sempre presa
mergulhada na celha ou no ribeiro que ali passa
para que se torne rígida a forma temperada
na forma de uma encomenda desenhada
por uma tradição vista num risco de pais
para filhos ferreiros todos ou
podes concentrar-te no vidro e do fogo
que consumiu a areia até ser vidro
e espelho.

Podes ver o que quiseres. Assim o queiras ver.

14

de nada

O guerreiro empunhou a lança.

Estranhou a curva da lança que lhe lembra
o podão que usava para cortar ramos de videira
e esgalhar as pontas dos vimes.

Não se lembra de ter visto outra lança
assim curva como aquela.
Quem teria sido o podão de ferreiro
para fazer aquele trabalho?

Demorou tempo demais a pensar
enquanto os cavalos se aproximavam
do acampamento.

Quando recuperou da distracção reparou-se
na tensão dolorosa dos seus músculos retesados
e deu ordem para libertar a lança presa ao seu espanto.

Viu como ela partiu e com maior espanto a viu voltar.
Até que deixou de ver.

15

março

os cães rosnam aos cheiros aéreos e as cadelas vagueiam
pelo relvado provocando fúrias
grandiosas ou grandiloquentes como quiserem
os professores que ensinem a melhor forma
para dizer estas coisas a animais

pachorrentos que olham sem ver
o apetite do açougueiro
que os pesa com o olhar

e lamenta a morte dos cães nos canis municipais
em terras onde os talhantes honrados não vendem carne de cão
publicamente

16

o tempo

a temperatura da primavera
subiu ligeira as suas escadas,
a meio parou e sentou-se
ajeitando a saia e soltando
os cabelos com gestos precisos.

um trânsito de pétalas carnudas,
brancas e rosadas, pedia uma lentidão
consentida a quem passava:
quem por ali passava, tardava em passar.

e eu, sem pensar, estacionei o camião
na rua de cima. depois desci as escadas
e deixei que o meu corpo adormecesse.

as flores tomaram o meu lugar enquanto
eu perdia a forma de existir para os outros,

não ganhei para o susto.
mas ganhei consciência do peso
dos que passavam sem dar por mim.

17

Oxalis europaca

Nesta época do ano,
olho para os caules verdes
enciumados por flores amarelas brilhantes
e vem-me a memória da infância em que mastigava
caules amargos da borda dos caminhos,
como agora se mastigam pastilhas elásticas.

Presos nos jardins murados da escola,
milhões de caules iguais aos da minha infância
levantam-se e quem os corta e mastiga
é uma máquina de cortar relva,
à falta de dentes e apetite
para o suco vegetal amargo.
As voltas que a vida dá.

Como se chamará essa planta?

18

onde?

vais buscar-me onde?
nos últimos dias ninguém parou
para olhar quem era aquele que passava
e foi por isso que me esqueci de parar
e fui saltando todos os muros
até me perder no labirinto
sem deixar rasto nem ter rasgado
a mão direita contra a sebe.

se tentar saltar atrás não posso saber

onde vou ter e se saltar em frente
não sei se ando às voltas simplesmente
porque nada há de diferente
para quem não viu nem vê
como são as paredes vegetais.

vais procurar-me onde?

não há sinais. sinto um cheiro
a antigo corrimão metálico
mas não sei se o cheiro é meu
ou anda sempre comigo como se fosse eu
o corrimão que me apoiou na queda.

ou na subida? como posso eu saber
onde procurar-me?
não sei onde te perdi ou sequer quem és
e tu não sabes onde me perdeste.

é por isso que eu não posso encontrar-te
e tu não podes procurar-me.
não sabes se eu espero ser encontrado
e eu não sei que é feito de ti.

cada um tomou o seu lugar
em sua ilha do labirinto.
ouvi perguntar quantas ilhas tem este labirinto?
e eu não soube responder nem a quem.

de quem foi a pergunta?
vais encontrar-me onde?
já me disseram que
duas pessoas que se procurem estão a afastar-se
irremediavelmente.
por puro acaso.

19

lugar

fico mesmo por aqui.
sentado em frente da sé
peço a esmola da caridade alheia
a piedade de uma mão fria
contra a febre

ou a frescura da luz branca
na nave
ancorada

neste adro de sal lavado
de pedras comidas pela lixívia
ou pelas lágrimas dos que amam
a viagem por fazer

mesmo por aqui
me
finco

vara espetada
num abismo de lodo

20

as lágrimas

nestes dias não sei se chove até
que os céus enxuguem os olhos ou até
que a terra sufoque afogada em martírio até

21

há quem diga

há quem diga que a felicidade
está ali muito perto, mais ao fundo,
a menos de duas braçadas de fúria.

22

nêsperas de nogueira?

ambone, ameixa amarela, ameixa
americana, ameixa do canadá, ameixa
do japão, ameixa japonesa, japona,
japónia, magnólio, mónica, nêspero

nêspera?
contra o céu, nêsperas!

(n)esperanto. nesperando.
(d)esperanto. desesperando.
esperando.

23

a cabeça baixa

adormecemos com a cabeça dobrada
para trás como se equilibrássemos a barriga
quando funambulamos

pelo gume da navalha esticado
entre as orelhas de um abismo verdadeiro
por um fio de mar incendiado a seguir a um derrame
de naufrágio de destroços humanos

pela aresta de vidro aguçada num acidente
de esquina moída ou roída por dentro
só pode ter sido se quem estava da rua a ver a montra
não deu por nada

pela linha do horizonte que é a eternidade
sempre desigual a si mesma para um e outro lado
sem nome talvez incógnita ou variável não sabemos

pela linha das costas

24

um sonho seu

contava-se a história da mulher que se deitava na relva molhada
para ter sonhos

até que um dia foi surpreendida pela doença
e lhe rogaram que se arrependesse para que um milagre pudesse dar-se

ao que ela respondeu que o milagre da sua vida tinha sido realizado
nos vinte anos passados como planta do jardim de sua casa
tão amorosamente regada como amorosamente regara a sua relva

tendo vivido assim como num sonho de sonhos de que valia a pena lembrar-se

pediram-lhe então que escrevesse os seus sonhos na vida que lhe restava
ao que ela respondeu que isso nunca tinha sido um sonho seu

e assim morreu
presa à sua terra por raízes verdadeiras

25

reflexões do medo no olhar

habituado que estou ao outro que no espelho
parece estar a espreitar para ver
me em tudo igual a este verme velho

demorei a perceber porque nunca olho nos olhos:

não pode ser medo do que vejo talvez seja medo
de ver o que outros vêem pelos meus olhos
ou medo do que eu possa ver pelos olhos dos olhos
que espreito detrás dos vidros da janela

26

não falas da europa?

a europa foi raptada outra vez
e os raptores ameaçam matá-la
se falarmos disso
e dela

27

os sólidos platónicos

passo bem por ti gritei-lhe para o outro lado da rua e continuei. sem parar, irritada como só ela sabe ser, disparou entre dentes: nem tentes! nunca mais te faças passar por mim! mas continuou em frente e eu senti-me sossegado a ver como ela entrava numa loja onde teria planeado ir.

somos muito diferentes, parece impossível que alguém nos confunda. eu sou um velhinho de barba branca e ela é obviamente uma mulher com ar de jovem que não engana, embora madura. e temos vozes bem diferentes, sem dúvida alguma. mas muitas pessoas acham que quando ouvem um é como se ouvissem a outra, como se esperassem de uma a voz de outro.

não sei como aconteceu, mas concluímos das conversas que ouvimos aqui e ali que as pessoas tinham ouvido a jovem no momento em que o velho falara e tinham ouvido o velho na circunstância segura de ter sido a mulher a falar. depois de termos verificado isso, começámos a falar coloquialmente com a preocupação de colocarmos acidentalmente a confusão entre os dois e recebermos por respostas e perguntas o que esperávamos: sermos tratados cada um como sendo o outro. e tudo nos divertia. até descobrirmos, num período de grande solidão, que não conseguíamos falar um com ou outro porque, quando abríamos a boca, já estávamos a ouvir ditado pela outra boca o que dizíamos. e isso fez do nosso convívio a solidão absoluta dos dois em cada um de nós. uma só ideia tinha feito de nós uma só pessoa.

enquanto foi assim aos ouvidos dos outros ainda nos divertimos. o problema todo aconteceu quando isso começou a acontecer aos olhos de cada um de nós nos momentos em que nos encontrávamos. e foi então que descobrimos que tínhamos deixado de trocar diferenças para trocar a ideia que não era mais que um enunciado a duas vozes. e então ficámos insensíveis e incapazes para o amor que nos unira e afinal tinha brincado às escondidas o tempo todo e fora de nós, no quintal de uma ideia vizinha a nós.

passamos agora um pelo outro, nunca pelo mesmo passeio da mesma rua e nunca no mesmo sentido. sinto que ela começa a odiar-me e a mudar de ideias. eu sou velho demais para mudar.

28

o que farás tu?

– o que farás tu quando não tiveres que fazer?
– nada. sei lá.

– deita-te e descansa. o descanso eterno fica-te bem.
– vejo-me mais deitado no tapete rolante.
– no hiper?
– não. que horror! no forno crematório.
– ou a caminho do inferno?
– ou isso.

– suicídio?
– não. há uma série de papelada a preencher que nós não podemos assinar.
– quem pode?
– eu. quando não tiver mais que fazer. e me apetecer voar.
– terás asas então?

– a cinza não precisa de asas.
– mas também não voa, essa é que é a verdade.
– não?
– precisa de um sopro para se espalhar no ar.
– isso é voar?
– não. é um fingimento de voo.

– prometes que sopras?
– não posso. respondo. não tenho outro dom.
– a toda a gente?
– não. só a ti.
– só a mim?
– só.
– é por isso que nunca te ouvi fora da minha cabeça.
– pois.

29

a alma em exílio

há dias assim:
– a alma cansada de mim avisa-me que vai a banhos.
– a alma dá voltas numa campa sem corpo, pelo que ouço dizer.
– a alma abandona-me sempre que me vê a dormir profundamente e pensa que eu não dou por ela.
– a alma dança na minha cabeça e eu fico sem saber quem, eu ou ela?, rodopia.
– a alma despede-se ameaçando nunca mais voltar.
– a alma diz que se eu continuo assim ainda me mato.
– a alma grita que me mata se eu cair em mim mesmo e me magoar.
– a alma fica a olhar para mim espantada com a minha falta de bom senso comum.

a alma fica a olhar por mim quando eu não estou a olhar.

30

convocatória

foste convocada e agora não sabes o que hás-de fazer.

ainda me lembro de te dizeres ansiosa pela guia de marcha
e por isso sempre pensei que quando recebesses a convocatória
ficarias contente ou mesmo eufórica
a preparar uma mala de viagem para uma guerra

que nem era a tua mas que tinhas tomado como sendo a tua guerra
ou pelo menos a guerra a travar.
e agora vens dizer que não sabes o que hás-de fazer
que já não sabes se queres ir para lá.

não foste tu que pediste?
e queres que eu acredite agora que não te queres ir embora
porque não queres deixar-me para aqui sozinho.
a mim que nunca quis travar guerras. nem acelerá-las confesso.

a mim que não sinto nada é que dizes isso?
tu sabes bem que eu não posso defender-me por não saber falar.
e é a mim que dizes essas coisas?

tu sabes bem que escrever as coisas que quero dizer-te
dura mais tempo que aquele que dura a dizê-las como tu o fazes
sem me dar tempo para ouvir sequer
as palavras que separas
para me bater.

sabes que mais?
só quero que vás depressa para qualquer guerra
que precise mais de ti do que eu para ser travada.
eu sempre estive quieto e isso é mais que estar travado.

agora também te calas?
ora adeus. não te esqueças de levar a convocatória.

31

portogaia

quando passo de uma margem a outra
os olhos ficam retidos na fronteira

na condição de refugiados.

32

por onde eu vou

por onde eu vou vão as formigas
fazendo carreira

quem sabe o que vai fazer ou para onde vai?
ou as coisas começaram um dia por acaso e daí
para cá cada um segue o da frente confiante
no carreiro.

para onde eu vou correm diligentes formigas
e eu.

33

nos 100 anos do piolho

(…)

Não deixes entrar os americanos em casa. Foi o que ele disse ainda não se tinha sentado na cadeira mesmo à minha frente. Com os cotovelos grudados na mesa onde o meu café tinha começado a tremelicar de medo, ele olhava-me fixamente nos olhos. Quando ele fazia isso para se sentir dono da minha mesa, eu mantinha os olhos ocupados a ler as placas das reuniões dos cursos antigos.

Graças ao meu amigo, que eu nunca tive o prazer de conhecer, decorei uma parede de placas. Não me deixes entrar os americanos em casa – repetia. Mais baixo, reclamava: O que nós devíamos era correr com eles à bomba! E voltava a fixar-me nos olhos, depois do elegante gesto de arrumar farripas treinadas para a intimidade reflexiva. Nestas alturas, eu deixava correr o tempo e lia placas, umas atrás de outras.

Uma eternidade de placas depois, ele falava de novo. Sabes se os americanos já chegaram? ainda dizia antes de, finalmente, dizer o que eu esperava desde o início: Pagas-me o café? Naquele dia, eu abri a boca e soltei a frase que ele nunca me tinha ouvido: Não tenho dinheiro. Desculpa. Sem acreditar, levantou-se até chegar ao dobro da minha altura, virou-me as costas e saíu do Piolho para sempre … que é o dia seguinte.

(…)

34

desenho, logo existem

o mau olhar e o mau olhado existem:
lembro-me bem de os ter desenhado
aos dois

35

a tirania

esqueceram-se de ti num lugar perto deles
e fingem tomar conta de ti, dia e noite,

tomam conta das tuas memórias
até teres só memórias deles, as mais convenientes;
tomam conta das tuas coisas
até deixarem de ser tuas ou até deixarem de ser

esqueceram-se de ti até seres uma santa
de porcelana prestes a cair da prateleira
do jazigo em que vives tu e eles

uma eternidade infantil.

36

todos os dias

vejo-a na sombra.
um sorriso em contra-luz
fora de uma porta aberta ao sol

nem eu sei como a encontro
que eu não vejo mais que uma sombra
que assoma e desaparece
na mancha de uma sombra maior

37

eternidade

prefiro o silêncio à voz
desde que sei
ler legendas

38

publisuicidade

à porta
de uma escola
no porto
há apelos
ao masoquismo
feminino
juvenil

39

40 anos de casados

o josé telefonou para me dizer:
fazemos 40 anos de casados.
temos de nos encontrar.
num dia de julho.
nas ruas de leça. que dizes?

respondi: encontrarei o dia.

40

somos nós

Nós damo-nos muita importância. A nossa arrogância é a nossa natureza, não é a nossa segunda natureza. A nossa arrogância somos nós, separados de todos os outros, para sermos e sentirmos a nossa diferença dos que nos parecem iguais.

E somos nós quando nos arrogamos à coragem de aceitar a derrota e sermos os outros numa comunidade de comuns, na comunhão pública de ideias e gostos, nos restos que escorrem do cadinho da fusão. Somos nós, sem rota, derrotados somos nós. Também.

somos nós

Somos nós quando aprendemos a balbuciar e somos nós quando imaginamos a nossa fala e imaginamos o nosso pensamento único ou superior quando não entendemos a linguagem dos outros e presumimos que lhes foi retirada a linguagem porque não têm pensamento que se exprima por palavras que entendamos. Não há pensamento sem linguagem inteligível para nós ou por nós. Nós temos o dom da nossa fala. A nossa fala somos nós e a nossa arrogância. A nossa fala é a nossa primeira natureza.

E somos nós quando nos arrogamos à coragem de aceitar outras linguagens e a derrota de as estudarmos até nos parecer que os outros, antes separados de nós, são agora como nós, diferentes nós. Também.

somos nós

Somos nós quando ordenamos o nosso mundo em gestos que o representam. Quando aprendemos os gestos que ordenam a nossa compreensão e ensinamos uma forma de ver e de olhar, ou uma forma de dar a ver ou dar ao nosso olhar. Os nossos que são nós olham as coisas como se o fizessem pelos nossos olhos procurando uma visão igual à que espalhámos como nossa. A nossa visão do mundo é a nossa arrogância, a nossa natureza, a natureza que nos separa dos outros.

E somos nós quando olhamos alguma coisa, algum objecto estranho, como visão de outro mundo e nos atrai olhar para ele. E nos arrojamos ao desejo de subjugar a visão a outra visão mais global, como um novo continente que pode ser nosso por mergulharmos nele e sermos parte dele. O nosso olhar multi-facetado a reconhecer na cabeça do insecto humano mais olhos que corpo, mais visão que mão, mais visão que linguagem, mais visão que uma unidade feita dos pequenos reconhecimentos no nosso território de conhecimentos em redor, em redil.

somos nós

Somos nós quando interpretamos o cheiro do mar e só nós contamos os cheiros, um depois do outro, distintos como agulhas de pinheiro caindo do ar a pique sobre as narinas abertas e ao mesmo tempo fechadas para tudo o resto, para todos os restos, para os restantes há quem diga cheiros que o não são. Haverá cheiros que o não são? Os nossos cheiros constituem-se na nossa arrogância. O que cheira bem é a nossa arrogância a dizê-lo. O que cheira mal é a a nossa arrogância a declará-lo. O que não é cheiro que se cheire é a nossa natureza a nomear uma estranheza, é a nossa arrogância a fechar uma fronteira, a levantar um muro intransponível. Somos nós a não querer cheirar, a não querer meter o nariz onde não fomos chamados.

Somos nós quando nos interrogamos sobre os cheiros que o não são e cheiramos as escondidas dos cheiros que o não são, de que ninguém fala, que ninguém quer cheirar, que ninguém cheira para todos os efeitos. Somos nós quando abrimos o laboratório para fabricar cheiros que ninguém quer cheirar. Somos nós quando somos curiosos até para o que nos ofende o olfacto. Também somos nós.

somos nós

Somos nós sentados nas varandas altas vendo todos os outros como formigas laboriosas lá em baixo. Com as mãos firmadas na balaustrada, somos nós, de pé sobre as duas patas traseiras que imaginamos todos os outros incapazes, como formigas de um destino curto ou de uma determinação menor que não é a sua, de cada formiga que não sabe mais que o seu lugar na fila do carreiro para um formigueiro sem emoções. Somos nós quando falamos de nós como um formigueiro de emoções. Somos nós capazes de chorar e de rir de si, por si e para si, como se nenhum outro ser houvesse capaz da tragédia e da comédia. Somos nós capazes de imitar todos os outros seres e de pensar conhecê-los, de os classificar e nomear como se eles não passassem de nomeações, isso mesmo, nomes de coisas. Somos nós, equilibrados sobre as duas patas como se isso nos tornasse outros, únicos e capazes de toda a criação e de toda a compreensão sobre coisas e criaturas, capazes de escrever as escrituras com as mãos livres para a acção inteligente, mesmo se vã. Somos nós. A arrogância de ser o criador, os criadores.

Também somos nós, arrogantes construtores das escolas que nos treinam para seguir a formiga que vai à nossa frente, quando descobrirmos o argumento que segue o argumento escrito pelo que vai à nossa frente e nos deixa o seu património como deixa as suas caganitas a marcar o caminho, o carreiro nos tempos mais escuros. Também somos nós os que sabem treinar os que nos seguem sendo nós, apesar disso ser o contrário da arrogância original e da individualidade felina, feroz, escandalosamente animal, escandalosa por ser humana.

somos nós

Somos nós as férias de nós, a arrogância maior de nos vermos cansados de tudo e ao mesmo tempo capazes da arrogância de pensar que nos podemos retemperar até nos podermos ver com outros olhos, uns aos outros, um mês mais adiante. Somos nós quando adormecemos sobre os problemas que queremos resolver ou quando adormecemos para nos esquecer do que nos aflige agora na arrogância maior de jurarmos que o tempo cura como um esquecimento sem dor alguma. Somos nós na arrogância da absolvição dos nossos pecados quando os citamos em baixa voz para ouvidos cegos e mudos por definição. Só nós nos arrogamos o direito da possibilidade de esquecer a lista que ditamos de cor. A necessidade e a possibilidade são as formas que a nossa natureza assume como a arrogância última e a mais crédula e a mais cruel de todas. A necessidade e a possibilidade são armas de arrogância. A maior arrogância e os actos mais cruéis repousam sobre a necessidade e a possibilidade. E a absolvição dada por nós, uns aos outros.

Somos nós, também somos nós quando falamos disso como se tirássemos férias uns dos outros para nos amarmos mais adiante, para amarmos os outros como a nós mesmos, depois das feridas abertas por combates desgastantes e imorais, depois das cicatrizes fechadas por uma biologia animal, por uma oficina de pequenos concertos e uma indústria de cola tudo. Somos nós quando voltamos ao princípio e somos nós quando nos aproximamos do fim e somos nós quando remediamos, quando recomeçamos no meio de tudo como se acabássemos de nascer uns para os outros e virgens disponíveis para sermos aprendizes da vida, a mesma que maldizemos tantas vezes. Também somos nós.

somos nós

Somos nós. A arrogância da fala como a lâmina que nos faltava para rasgar um véu, um nevoeiro, uma manta de chuva de verão sobre os olhos cansados. Somos nós, um dedo no ar para nos dar lugar a fazer uma pergunta por fazer, a pergunta nunca feita. Somos nós o dedo no ar que ninguém vê porque nós falamos dele para sermos ouvidos, para declarar que há sempre uma pergunta a que ninguém responde e há sempre uma pergunta por fazer. Não sabemos pronunciar essa pergunta. E é só por isso que não sabemos as palavras da resposta.

Somos também nós os que se calam.

41

ouvir sempre?

mesmo quando deixam de falar comigo
e deixo eu de falar, continuo a ouvir

o que fiz de mim
para ser esta algazarra
dentro da minha cabeça?

42

o que diz que não …

o homem que não diz que não
não é o homem que diz que sim.

43

fim a gosto

lembro-me do tempo em que o mês de agosto
aquecia ao rubro as pedras e a areia
e eu cortava a respiração
sem desfitar as lagartixas
até elas desistirem da cauda entre os meus dedos
e isso foi antes de eu brincar ao jogo do sério

lembro-me também de haver assuntos
que precisavam de tanto tempo
para serem estudados que eu nunca estudava
por não ter tanto tempo assim

ou era o calor de agosto a entorpecer-me a vontade
e isso foi antes de eu brincar ao jogo da velhice

agora eu passo o mês de agosto a cansar-me
numa banheira de água salgada
na esperança de caminhar normalmente
o resto do ano

e não haver quem dê por ela até que mesmo eu
pense que não há problema e tudo está bem
sabendo que tudo está bem quando acaba em bem

e isso é agora em que quem está a acabar sou eu

44

a catedral privada

se ninguém ouve a música que enche a nave direita,
menos imaginam o sermão da nave esquerda:
pois só eu sei como é insuportável esta merda
de estar em duas missas cantadas de uma só feita.

45

féretro

as paredes acolhem a minha sombra
e eu encolho-me até ser uma sobra
da sombra, uma sombra da sombra:
do chão à parede, a linha da dobra.

46

quase, quase a acordar

Descansei em ti o meu olhar,
como só uma ave cansada de voar pode olhar.

Digo-te adeus hoje e sei que não posso deixar
de te dizer amanhã adeus de novo.

De asas cansadas, poisarei no teu beiral,
só por um instante te olharei,
alisando maquinalmente as minhas penas
sem ânsias de voar, mas certo de partir.

Parto para longe, onde não possas ouvir-me gritar,
depois da volta larga em frente da tua janela.
Parto sem partir definitivamente.

Digo-te um adeus sumido.
Porque não sei mais que dizer ou fazer
e os meus gestos têm a economia própria de quem voa.

Quem voa assim tão desajeitadamente?
ouço o espanto de uma ave verdadeira,
enquanto eu caio a pique …
quase, quase a acordar.

47

féretro

quando as portas de Agramonte se abrem para a paisagem,
última e cega dos que, ao nosso lado, fizeram a sua viagem
guiando passos incertos dos incertos caminheiros que somos

abrem-se também para um abismo onde somos o que já fomos
de par em par por um ventinho bom, uma memória da passagem

até lá, ao fundo do imaginário mira douro

48

novo ano de lições

nestas horas matinais, a aragem fresca fala
a quem quer ouvir a fala da aragem
e, mesmo sabendo da iminente viagem,

sai para o futuro sem antes arrumar a mala

49

uma manhã

rezo as matinas.

a quem levanto a voz? é a pergunta breve
que me ocorre tão sussurrada como o são as matinas
no seu silêncio vazio que as faz tão leves

até, sem ganhar asas, voarem livres de peso
atraídas por um farrapo de azul

ou por uma mão cheia de nada, a eterna
realidade que, sem o ser, persiste
sem ser alegre e sem ser triste

50

o instante da eternidade

– Que farás tu se eu arranhar a tua porta?

– Estou pronto. Podes entrar. Vens ficar comigo?
– Vens buscar-me?
– E se eu te der uma chave para a vida eterna?
– Posso usá-la mais tarde?
– Porque não aproveitas logo?
– Não queres gozar comigo a inquietação da vida instantânea?
– Posso?
– Comigo podes sempre contar …

51

a quanto?

valemos quanto? quanto valemos.
a quanto se vendem quantos? uns quantos se vendem a quanto.
um vale quanto? quanto vale um.
quanto vale cada um? em média, a média.