a décima

1

em boas palavras, pois

vou votar em palavras, pois.

querendo chamar os matreiros bois
pelos nomes de financeiros
e pegá-los pelos cornos
ainda que levados em ombros
entre os escombros
se icem como sombras os seus contornos

2

entristecer

entristeço levemente:
teço tristezas.

é mais isso: não saber
o que é ser triste

3

de memória

fala-me de preciosas pedras de cristais de sal
nas lágrimas da alegria
de um dos meus dias que seja recordação de alguma noite tua
uma luz devastada
e crua

se pudesses ver e ouvir
se pudesses falar
ou desenhar ao menos um gesto no ar

e eu sentisse que na tua memória
de olhos fechados
um dedo teu realmente
me reconhecera

como quando a tua noite
era o meu dia

sou velho demais para perguntar

esquecido de tudo lembro-me da tua voz
e de ouvir-te falar de pedras preciosas
ou de cristais de sal em lágrimas de alegria
e um ou outro detalhe

uma porta de ferro
uma grande chave ferrugenta

um livro escrito em braille
a mão que tacteia

a fala por golfadas de urgência

4

durante a tarde

agora toma a minha mão direita na tua mão esquerda
e dá-lhe o puxão que ela aguarda ou deseja:

rasga-a de mim pelo pulso
rente à pulseira e algema
que a prende a ti

5

ela sabe.

o homem empurra uma carroça carregada com estrume. a mulher inda ao longe e já saúda em alta voz ti manel ti manel como vai? para onde leva a sua vida? o homem responde em voz baixa levo a vida a enterrar. e a mulher sem o ouvir sempre acrescenta pois ti manel faz bem em enterrar o seu esterco. o homem murmura mal ela sabe que eu estou mesmo a mudar de casa e eu mais o que a carroça leva é tudo o que tenho e cabe na cova que antes abri no lagoaceiro mal ela sabe. já a par com a carroça a mulher faz-se ouvir para só ele ouvir a nossa vida é uma merda manel. ela sabe.

6

canto da véspera

não projectei o plano do passado e não projecto plano do futuro:
sobrevivo num separador plano de presente
qual brinquedo macambúzio

em vez do canto do tempo ouço
a tempestade longínqua
vinda da véspera como um tremor

nos alicerces

7

à prova

nada do que eu diga
te pode magoar mais que um murro na barriga

8

asilo

lá fui vivendo enquanto as mais vulgares
palavras entretanto expulsas dos versos
pediam asilo em línguas estrangeiras

9

fazer falar?

falo do que faço. mas será que faço o que falo?
falo de amor. mas será que?
o que me faz falar?
falo com amor, falo por amor, falo. nada faço, mudo.

faz barato, fala barato.

10

A fala dos olhos que brincam com o fogo

Ele levanta os olhos para dizer:
– A continuar assim, ainda vais morrer sozinha!
Ela, sem olhar, disse:
– Porquê? Vais deixar-me?
Ele concluíu:
– Não! Morro antes de ti e tu é que vais despejar-me as cinzas.

E, sem mais palavras, deitaram-se
rindo
como de costume.

11

de quem te lembras, …?

de quem te lembras quando tentas lembrar-te
de alguém em especial que não comparece
à chamada dos dedos no teclado?

Não te amofines.
Se não é quem tu pensas, é alguém que começa então…

a existir.

12

diário

um dia destes, mais tarde ou mais cedo(?),
arrumo os meus papéis

[que os há aos montes em volta do computador
o nada da promessa de ser
sendo em vez dos papéis]

e vou dactilografar um livro de poemas resignados
bastantes para acender uma fogueira
e aquecer as mãos no inferno

até que estas fiquem prontas como garras
capazes dos versos mais ferozes

gravados em lâminas de facas voadoras
prontas a abrir livros antigos que ficaram por ler

e, bem afiadas pelo uso, prontas a degolar
o temporal que falta
da montureira do tempo já visitado

13

cada vez que

1

cada vez que o ministro das finanças
vai ao confesso da europa
dar de barato as nossas esperanças

aquela tropa

diz-lhe que o tuga vai no bom caminho
mas na volta inda antes da desgraçada notícia
já eles estão a duvidar e com jeitinho
recomendam mais aperto e se precisa! mais polícia

2

e por cá quem sempre defendeu a flexibilidade
das leis laborais
coisas finas de social-mediocricidade
diz agora que a crise não deixa esperar mais

ao menos durante a crise! clamam lá do altar
enquanto ensaiam mais uma volta ao garrote
ao povo tire-se pão e água qu’inda lhe sobra o ar
há sempre quem esteja pior! não é esse o mote?

3

o teixeira de todos os santos anticonstitucionaliza
manda para o prego da crise as leis e o direito
que vencerá a crise quem antinacionaliza e privatiza!
– pró prego já e a desbarato tudo o que estiver a jeito

quem dá mais? um patrão feito rico pela flexibilidade
compra e mostra o seu estadão com retrete e catedral
comprará muçulmanos, cristianos, igrejas e até a caridade
se fará fundação espírito santo onde antes houve nome portugal

4

e a gente?

mais submarino
enquanto parece que tudo aguenta
menos submarino
quando passar para as mãos o pelo da venta

será de repente?

14

a mágoa

quando não me responde
é porque se esconde
e eu, … sem saber onde
procurar

uma mágoa que se esconde
sem deixar de magoar

15

o tempo da decisão

Há muito tempo que não uso relógio
de bolso e de pulso também não
mas vou coleccionando relógios baratos
máquinas elementares tão perecíveis
quanto o são as pilhas de origem.

Ao lado da cama, relógios parados
e marcando horas diferentes
tornam-se montras estáticas

das horas em que fui abandonado
por cada uma das pilhas.

O tempo que passou
nunca foi para aqui chamado.

Só sei que por escrever a palavra tempo
repetidamente
me vai aparecer um anúncio
de .
ou outro conforme instruções à máquina.

Algum algoritmo e não o acaso
nem o fado dita a escolha.

Acaso o que escrevo será fado.

16

os buracos dos olhos

em vez dos olhos os buracos dos olhos:
há um instante em que os olhos
são vazados pelo que estão a ver
e parece que os olhos crescem

para serem nada parecendo buracos

17

assobiando a medo

Assobiava como se o canto
de nenhum outro modo pudesse ouvir
a palavra como um sopro entaramelado
só assim tem mais que um sentido
e tem o sentido

sentido.

Quando lhe perguntavam para quê assobiar
se podia falar
o velho contava a história em que era proibido
assobiar
contar essa história de memória
é pensar o que não pudera fazer antes

assobiando a medo.

18

a vida

A vida não persegue o cão que ladra,
nem esfola os gatos em que tropeça:
Uma mão que não seja a mão de deus
de nada serve quando se trata de matar.

Um ministro pode dar ordem de marcha
a um exército inteiro de escravos sem soldo:
Mas todos sabemos que a culpa do ministro
vai ser carregada em ombros por cada soldado.

Todos pagamos as dívidas por saldar ou saldadas
russas também pagamos um pouco cada um não custa:
E ministros feitos banqueiros sussurram bem alto

que pelo bem que fizeram bem merecem a sua sorte

19

regressos lentos

uns dias faz sol noutros dias faz-se a chuva e o frio
por fora e por dentro de nós caímos em nós variando
entre sensações umas e outras marcadas pelo andar
lento entre as árvores que perdem as folhas como eu

perco palavras por dizer ou esquecidas na cesta do pão
manhã cedo ainda havia muito tempo para falar ou calar
e transformámos os dias em espera pela calada da noite
um silêncio escuro o cansaço de tudo ter dito por dentro

o lugar que sou eu ou tu conforme é quem lê eu ou tu
a realidade ou a ficção em que ela se transforma no amor
clandestino que de mim fez tanto menino como velho tímido

entre o calor e o frio dos dias temerosas antecâmaras da noite
em que caímos até não haver mais que ver ou até viver
sei lá se vai ser procissão de romaria o funeral deste solavanco

20

se soubesse quem

se soubesse quem és podias chamar-me pelo nome ou
se soubesses quem eu sou podia chamar-te pelo nome
mas não há problema em saber ou não saber a solução
que me aflige é mesmo uma ausência sempre presente

um esquecimento de tudo em volta de eu reconhecer
num detalhe ou noutro as caras e os nomes e juntar
a cada cara o seu nome ou a sensação de um cheiro
a limão colhido durante um passeio pela noite dentro

se não deste por mim é porque eu nem existo como nome
nem como tempestade de que me lembre ou te lembres
ou como lugar onde tivesses estado e eu contigo só

vagamente as ruas passam a ser umas depois das outras
corridas pelos teus pés incansáveis e pelos meus olhos
feridos no mais alto miradouro a ver e chorar-me com dó

21

a canção que

a canção que se ouvia era um fado pela voz de um sax
alto dizia qualquer coisa como todo o amor que começa
também acaba como a noite que acaba ao romper do dia
ou o enjoo que acaba quando a viagem acaba e sais ao ar

o problema está em não poder dizer que o que lá vai lá vai
e que parto daqui descansado e sereno como quem muda
de casaco ou escreve um poema como se fosse um ponto
final infeliz mas ponto e final sem mais perguntas ou recuos

dizendo ficamos amigos como dantes dizia eu a mim como
se tivesse havido antes e eu me tivesse conhecido realmente
ou tivesses hesitado ao ver-me partir para o lado de dentro

de onde se solta o fado cantado por um sax como um latido
do cão de guarda ou o gemido descontrolado de uma alma
que abre uma baínha com a espada que nela se esconderá

22

vais partir

vais partir: precisas de ouvir a porta a bater para saberes
o que ainda não sabes que vais caminhar sempre em frente
quando saíres do prédio de apartamentos para nenhures
sem destino sem norte só em frente sem olhar para trás

para que a estátua de sal que há muito és caminhe contigo
e passe pelas ruas onde a esculpiste para em vez de ti mesmo
sobrar na esquina talvez como um monte de sal ou cinza
porque vai contigo para que nada nem a sombra sobre

quem desaparece tem a certeza dos olhos que ficam presos
até que se desvanece à distância de um tiro de carabina
e não por dobrar um cabo dos trabalhos ou uma esquina

quem desaparece quer mesmo ir sempre em frente sem
uma muda de roupa sem telemóvel sem cuidar do tabaco
sem caderno nem um simples lápis para esboçar o quê

23

de facto,

de facto ninguém ouviu o tiro o estampido que ela ouviu
ou melhor sentiu como uma dor fina de uma orelha à outra
atravessando a cabeça como uma agulha de som como um eco
da vida que ali não está nem está em lado algum já se cansou

de procurar por ele e ninguém sabe embora toda a gente o tenha
visto caminhando distraído como sempre a caminho de cada
lugar dia a dia como se fosse necessário encontrá-lo onde
nunca fez falta todos o sabem menos ele que não sabe parar

de se mexer sem outro sentido que não seja o sentido do dever
sem dever nada a ninguém é o que dizem os que o não percebem
enquanto ela atarantada tenta perceber porquê e para onde ele

terá ido se não há quem por ele espere ou dele precise como
foi tão natural que toda a gente o tenha visto partir sem estranheza
como se a vida dele tivesse sido isso mesmo um desnorte só

24

desenhar farrapos

mataram-me o passado de que valia a pena cuidar
como se cuidasse um porco com abóbora couve e farelo
sobra-me a memória da lâmina da faca de cabo amarelo
com restos de sangue seco de passado ido a sangrar

agora bem me levanto a puxar a cortina para ver que dantes
nada há que me lembre a não ser o gesto diário de lavar
os dentes que sei ter sido um gesto antes sem ser lembrar
mas como uma certeza sobre os maquinismos dos instantes

cruzam-se comigo todos os dias ou sou eu que hoje vos vejo
como um reflexo de cada dia anterior em meu liso espelho
de porta do guarda roupa que dá para a rua onde moro

ou sou eu que acordo para acenar e soprar da mão o beijo
sem sair do quarto embora me agite vida de besouro velho
desenhando farrapos de tempo sem ver porque neles demoro.

25

desenhar farrapos

mataram-me o passado de que valia a pena cuidar
como se cuidasse um porco com abóbora couve e farelo
sobra-me a memória da lâmina da faca de cabo amarelo
com restos de sangue seco de passado ido a sangrar

agora bem me levanto a puxar a cortina para ver que dantes
nada há que me lembre a não ser o gesto diário de lavar
os dentes que sei ter sido um gesto antes sem ser lembrar
mas como uma certeza sobre os maquinismos dos instantes

cruzam-se comigo todos os dias ou sou eu que hoje vos vejo
como um reflexo de cada dia anterior em meu liso espelho
de porta do guarda roupa que dá para a rua onde moro

ou sou eu que acordo para acenar e soprar da mão o beijo
sem sair do quarto embora me agite vida de besouro velho
desenhando farrapos de tempo sem ver porque neles demoro.

26

um dia destes

um dia destes vou ver-te saltar à corda
os amigos servem para isso e pouco mais
admirar habilidades naturais como saltar
se tornam humanas nos nossos amigos

que treinam tão intensamente o salto
à corda como o salto à vara ou o assalto
à mão armada ou o assalto de consciência
ou a ciência aplicada ao amor e às relações

sociais também são os sócios no capital
os meus amigos do alheio sei lá eu qual
quase tudo o que vejo me é alheio agora

como o teu assalto à distância o remoto mergulho
em suor humano treinando o frio de cada músculo
por cada presente cruel e do futuro como causa.

27

têm razão para ter medo

não foi um fio de pensamento do presente
nem foi um erro de cálculo de boa gente

que nos trouxe até aqui e até à miséria

material
e moral

apesar da muita lata e da muita léria
sabemos todos que o que nos falta a todos foi roubado
por conhecidos ladrões com nome e apelido

ainda a roubar em reformas e pensões
até aviões e legiões
de dezenas de guarda costas por cada um dos milhões

dando prova de que se encheram de dinheiro e de medo
em segredo

e chegados aqui
melhor que ninguém eles sabem:
há quem pense em casacos feitos dos seus coiros
para sobreviver ao frio deste próximo inverno

neste inferno.

28

em nome da obra de deus

se deus não existe não tem culpa
mas dos maiores ladrões
se diz que se tanto roubaram
foi por mor das obras de deus
e a prova está na falta de desmentidos

do reino dos céus.

29

a noite

a noite divide-se em ruas
aliás também a manhã e a tarde e as luas
ou como a vida onde ainda moras
e por onde passo a passo passam as horas

e há instantes em que acontece
visitar-te como quem vem desaparecer
feito esquina que em teu tempo arrefece
ou gutural canto à falta de palavras por dizer

30

cegueira

neste caso não fui eu quem te fez o altar
que já lá estavas quando ceguei à luz armada

a teus pés de joelhos tremendo humilhada
a minha alma suicida sem saber a quem rezar

31

escola interior

olhava-te jardim de uma escola interior
o que via era só uma flor de ferro em brasa
chama quente de me sentir em minha casa

sabendo desde ontem que podia ter sido bem pior

32

a vida inteira

a vida inteira

fora eu a esperar-te
em carne viva numa esquina de ruas
como uma carícia aérea fossem só tuas
a ternura e a febre de olhar-te

a vida inteira

estendesses a mão até quase tocar-me
sem te afastares mais que um dedo
para que a tua vida virasse o segredo
da ansiedade do teu olhar a desejar-me

a vida inteira

fosse só o instante mais que perfeito
que se recordasse mesmo no imperfeito

a vida inteira

33

os ministros

à ordem de fogo os ministros do meu país
já não soletram o costume dos disparates:
disparam da sua ordem mais unida rajadas de dislates

em sequências de porcaria pelos canos serrados do nariz.

34

aqui nesta soleira de luz

senta-te meu amor aqui nesta soleira
e deixa que luz grave na palma da minha mão
de ti uma imagem que sejas tu na escuridão

que não saiba eu se é tua a ausência ou minha a cegueira

35

velho soneto de caca e asas

Casei-me também para ter uma viúva capaz
de me ver voar sem asas como labareda no forno
ou como voa o fumo ao sair da alta chaminé
ou como voa a cinza no cume da liberdade

de qualquer monte ventoso ou à porta de casa
em certos dias de cabeça perdida e vento irrequieto
a desmanchar perucas a levantar saias e a despedir
chapéus para as retretes públicas dos cães.

Outros animais de estimação como eu sem asas
e também as crianças deixaram de brincar à solta
nas ruas e ex-jardins públicos privadas a céu aberto

mas mesmo sabendo eu que o fumo da minha carne
e a cinza dos meus ossos vão cair em montes de caca
a minha esperança de voar sem asas permanece intacta.

36

cavaqueira (recuperada por um anónimo)

dona maria é quem te faz a cama
que ela agora é de todos a primeira dama
chefe de família sussurrante de uma gaguez
própria para presidentes da pequenez

só há figurões atrás do teu andor
como atrás dos santos noutros tempos o regedor
usar asas de anjo na tua idade é que me enjoa
não soubéssemos nós que nos vens roubar a broa

deram-te as jóias da família e até um jazigo novo
para que possas enterrar ainda mais o país e o povo
a ti que pausas nas vírgulas para economizar alguns ditos
que não ouça o povo de bordalo o teu medo de manguitos

deram-te votos as administrações dos bancos e das capelas
no mosteiro cultural do teu regime de anorético à base de balelas
a ti que fizeste votos de seca santidade para um país de crentes:
aos miseráveis salafrários os salários mínimos cortarás rentes!

toma cuidado toma cuidado toma cuidado toma cuidado
que este país não é casa só de chocas há também outro gado
que nem é bravo mas está cansado e se desesperado
pode invadir a retrete do palácio para a deixar em tal estado

que se pareça com a merda do estado a que chegou a gente
enquanto ias passadeira fora… de ministro a presidente

37

que cortas tu, que cortarei eu?

ao passar pela janela do diabo
não deixo de espreitar

não não é para lhe ver o rabo
mas para ver como lho hei-de eu cortar

38

escrever sobre o óbvio

Voltarei a escrever um dia.

Um dia, quando esta correria
for interrompida por uma parede
intransponível como uma meta
ou uma bandeira axadrezada
ao longe

voltarei a escrever o óbvio
sobre o óbvio
até se tornar óbvio
o óbvio

e o ódio.

Vou fazer isso
certamente.

39

Nem todos

Nem todos os insectos são alados eu sei
mas da larva em que nos tornamos
ao sair do casulo esperamos
a metamorfose em humanos
com asas

e voar voar voar sobrevoar as casas
de quem amamos