raquel

raquel por inês – “graffiti” em parede de gema

 

 


meio cravo


Quando o sol descia a colina todos sabiam que siginificava que era hora de ir embora. Era assim que funcionava, os lugares para os carros iam ficando vazios pouco a pouco.

— Só mais 5 minutos! Por favor!

Eu prometo que tomo banho logo que chegue a casa, assim ó rapidinho! gritavam as pequenas pessoas que adoravam brincar e pareciam nunca ficar cansadas.

— Boa tarde senhor, por acaso não tem um cigarrinho?

já isto, isto era o meu som.

Não, eu não era um pedinte,  pelo menos não os de hoje em dia… eu era diferente. Esta, sim é uma histórtia que vos vai agarrar com unhas e dentes. A  história da vida de um pedinte fora do vulgar.



Terça feira, 25 de Abril, 8:00 h

Hoje sim, hoje sim é que será um dia em grande! Hoje é aquele dia em que as pessoas vêm para a rua, sabe-se  lá  deus porquê, mas o que importa é que  já tenho aquelas flores de que tanto gostam e vou vendê-las. Isto sim é o meu natal!

— Senhoras e senhores, o dia amanhece cedo e a nossa luta também. Viva a liberdade!

— Viva!

Isto é o que se passa o dia a ouvir nas ruas.

— Viva!

E é o que eu grito.  Excelente oportunidade para gritar.

— Cravos, Um euro, Cravos!

— Isto sou eu a gritar, lembrei-me do nome das flores.


12:00 h

Até agora vendi meio cravo por 0,45 €, o senhor a quem vendi disse que só queria metade, por isso cortei um bocado ao pé da flor e dei-lhe a parte que tinha o cravo, mas sem um bocado do pé, eu não sou estúpido.

Comprei uma pastilha de melancia e por isso só tenho 0,25 €.


16:00 h

Esta coisa do meio cravo tem corrido muito bem! Realmente sou um grande parvo! Pelo menos foi o que um rapaz me disse quando lhe contei sobre o meu plano do  meio  cravo. Deve ter sido um elogio porque ele foi a rir contar a toda a gente e todos quiseram um cravo, bem meio…

19:00 h

Para minha tristeza as ruas estão quase vazias… Mas hoje o dia rendeu bem! Escrevi numa caixa de cartão assim:

Grande Parvo!
Não perca meio cravo
apenas por 0,45 €

o que atraiu muitas pessoas  e várias tiraram fotografias comigo e com o cartaz para pôr no facebook!

Grande vitória, sim senhor!


21:00 h

Para mim, é aqui que o frio se começa a instalar. Caminho até à paragem de autocarro mais próxima e com o dinheiro que me deram,  ou seja, hoje dos 22 cravos, 9,90 € menos a pastilha de melancia  9,70 € menos o meu almoço de 3,70 €, 6€, menos duas garrafas de água do supermercado 0,30 % cada, 5,40 € menos uma cervejinha ao fim do dia de 1€, 4,40 €, menos uma bifana para o jantar 2,50€ , 1,90€. Com este dinheiro, apanho um autocarro de 1,80 € para a praia mais próxima para eu amanhã  poder dar uns mergulhos.

23:00 h

Já me instalei na praia ao pé de uma rocha perto de um bar de praia muito escondido e abrigado. Ponho por baixo de mim a caixa de cartão que usei o dia todo e deito-me a olhar para o céu.



Quarta, 26 de Abril , 10:00 h

Hoje acordei tarde, até porque podia, ninguém me via ali por isso não vinham me expulsar ou tentar roubar-me ou ver se tou morto. Aleluia!

Para meu contentamento  a praia tá vazia pois é dia de trabalho, saio do meu esconderijo tiro o meu casaco, as minhas meias, os meus sapatos, as minhas calças, a minha camisola e corro até ao mar.


11:30 h

Depois de me ter lavado, e depois lavado a minha roupa e pô-la a secar fico a apanhar banhos de sol. Eh! Eh! Eh! Agora que todos vão ter inveja do meu bronzeado.

13:00 h

Boa! Apanhei um escaldão na barriga. Era só o que me faltava.


14:00 h

Finalmente o bar de praia abriu

“Sempre ao seu dispor”

Isto realmente.

“Serviço de deus”

Para bem deles espero que deus só tenha fome às 14:00 h


14:30 h

Depois de muita luta, finalmente eles me deram um cachorro, um copo de água e a ponta de  um cigarrito. Depois fecharam o bar. Bom trabalho deus este realmente deve ser lorde e eu não sabia….


16:00 h

Fui até um café e entrei.

— É a serviço de  deus?

— Não. Sou a serviço do doutor Manuel Carvalho.

Olharam para mim como se fosse algum doente mental da escola para deficientes ali ao lado e eu fui-me embora sentando-me à porta.


18:00 h

Esta doutor Manuel Carvalho não é para brincadeiras esteve sempre aberto. Realmente é muito fácil ultrapassar os melhores.

Recebi  4 € com aquela tarde. Fui para dentro e pedi uma cervejinha de 1€.  Não havia cerveja por isso fui-me embora.

O doutor Manuel Carvalho deve ser alcoólico. É o que dizem, nenhum serviço é perfeito.


20:00 h

Consegui arranjar um quarto numa casa de acolhimento. A boa notícia é que deram-me uma refeição completamente grátis e … a serviço de deus! Voltei à minha religião, domingo vou à missa.


Quinta, 27 de Abril, 7:00 h

Obrigaram-me a acordar às 7:00 h e a arrumar as minhas coisas incluindo tirar a roupa da cama para lavar. Espero  ter salário.


9:00 h

Nada. Disseram-me que isto era uma obrigação minha, resumindo não têm contrato de trabalho estou na precariedade.


12:00 h

Até agora só consegui 0,50 €, estou sentado há duas horas! Só 0,50€. Forretas.


14:00  h

— Boa tarde, tem um cigarrito?

perguntei a um jovenzito.

Não obtive resposta.


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Os primos

A primavera chegara, dia 21, já tinha decorado.
Se calhar, para muitos, a primavera não seja coisa para grande alarido ou, sequer para algum. O meu povo é diferente nesse aspeto. A chegada da primavera é mais importante que o natal, que os anos de alguém, que a mudança de ano. Para o meu povo, a chegada da primavera é como a morte de uma pessoa que nos é muito próxima. Não no sentido de sentir a falta e de chorar, mas no sentido de ser algo muito intenso, importante.
Ao longo dos anos, nós, os primos, apontávamos a reação das pessoas, a falta que um evento fazia, a felicidade, a celebração. Há 99 anos foi definida a chegada da primavera como o evento mais cuidado. Desde esse dia organizam-se festas, bailes, convívios para a celebração da primavera. Muitos ainda acham uma coisa de outro mundo e acham que enlouquecemos. Sim, enlouquecemos, enlouquecemos com a chegada de mais vida, a chegada de frutos, a chegada do extenso verde, que surge nas colinas. Eu, pessoalmente, acho que tem a ver com uma visão aprofundada, mergulhada num extenso verde. Sim, talvez celebrar o natal, o nascimento de um humano que se dizia ser filho de deus, o salvador, seja mais importante, talvez o nascimento de um ser humano e o seu crescimento também seja mais importante. Mais importante que a chegada de vida, que o despertar do verde. Se enlouquecer é maravilhar coisas simples talvez todos devessem enlouquecer.


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