contr(ad)ito

o sossego

Se tiveres de cortar os dedos
com que tocaste estas palavras no teclado
da máquina corta-os,
para saboreares a dor do que deixa de existir,
a presença da ausência.

Os dedos são soprados pela inteligência
um pormenor da mecânica humana.
O que sabemos da mecânica humana é pouco,
mas conhecemos os instrumentos da razão
e o que deles fica em papel, em disco, em fita gravada.

E sabemos que todos estes materiais que nos suportam
são perecíveis e, por isso, efémeros.
Assim nos habita e habitua o luxo de termos dedos
assassinos prontos a rasgar o papel,
a desgravar o disco e a fita

E podemos sossegar:
tudo o que hoje deixámos gravado
amanhã deixou de existir.

Se nós apagamos nos suportes das nossas memórias
também os outros nos apagam mais rapidamente ainda.
Se tiveres de cortar os dedos da mão,
corta-os.

Sabe, no entanto, que a ausência dos teus instrumentos
é mais dolorosa que a ausência do que apagaste nas memórias.
Se hoje não cortares os teus dedos
amanhã podes recomeçar a tua tarefa

de reconstrutor de memórias momentâneas.
Se tiveres de cortar os teus dedos,
corta-os
mas sabe que então os teus dedos serão coisas.

E guarda a fotografia das coisas perdidas em frascos de formol,
a outra memória das coisas.
Para ti restará a sensação dos dedos em acção
respondendo aos impulsos nervosos que a cabeça ordena.
Estranho é saberes que os dedos não estão lá.

Se não puderes viver com a presença dessa ausência, corta a cabeça.

o céu da ortopedia

Ao anjo
que acompanha a eternidade que me dei para viver
e bate as asas nas minhas costas
quando eu me atiro dos prédios altos
eu digo a verdade e peço-lhe que tome a forma do anjo
que eu já fui e agora não sou.

Os anjos vão-se revezando:
umas vezes acompanha-me um anjo polícia
capaz de multar e mutilar a minha voz;
outras vezes acompanha-me um anjo da guarda
capaz de conhecer os ínvios caminhos
entre a minha infância e a vida
do cavador que eu vi fechar os olhos para sempre;
já fui acompanhado por uma anjo que vestia
um fato de banho azul e tiritava de frio
quando eu acelerava o passo a caminho das montanhas
da mais fria euforia inteligente;
também fui visto com um anjo pequenito
agarrado aos meus ombros,
do modo como um pequeno símio
doméstico se agarraria desesperado,
a abrir caminho desde um afluente do grande rio
da memória e do seu esquecimento
até à tempestade do mar alto
encapelado pela aflição e pelo medo.

Os anjos vão-se revezando,
porque eles não são eternos nem é infinda a sua paciência
e a minha eternidade é um falhanço de deus.

Ao anjo que ditou estas palavras implorei eu
que mas ditasse letra a letra pois já não tiro as palavras pelo sentido.
Ao anjo que corrige os meus erros de ortografia
e me dá lições de sintaxe,
quando afinal só quer corrigir as minhas ideias,
pedi eu que abandonasse a vigília da minha letargia
e fosse rezar para a porta do banco de portugal,
porque é feio invocar o santo nome em vão.

O anjo de hoje já tirou as suas asas ortopédicas e foi à vida.

contra falo

o poema não tem de possuir as cores do sal e do sol
nem tem que falar de amores cumpridos entre as traves
da bateira. O amor não tem ventos e brisas marítimas
nem os corpos suados sabem a sargaço, a bagaço
ou a vinhas vindimadas, nem os teus seios sabem a mosto,
os teus pés a água pé ou a geropiga
e os lábios a mel colhido.

Os teus dedos são ágeis instrumentos da tua melancolia,
garras de ave de rapina, unhas de uma gata experimentada
por um gato maltês sabedor.
Os teus olhos são holofotes controlados na distância
por uma mesa de mistura de ritmos
e ai de quem ouvir o teu canto gutural
solto pelas amarras abandonadas no cais ou queixume
de roldanas secas quando o desejo enfuna
as suas velas brancas tocadas por brisas
e cheiros impossíveis de deter.

As tuas nádegas arderam ao contacto da manhã.

Quem tropeça nos pavios do sol leva a essência
do poema que não é a lânguida amostra das palavras
dos poetas do mar, das proas,
dos barcos velozes, dos marnotos bronzeados,
dos nadadores salvadores que o médico confundiu
com os purgantes que hás-de tomar
antes do banho com os teus sais aromáticos
despejados na folha branca do poeta.

O verdadeiro e consagrado poeta acorda,
está combalido e escreve monumentos de palavras salgadas,
amores incuráveis mas que não existem, desenhos na areia,
areia para os olhos dos cegos, músicas
para flautas a três brisas e falta de boca.

Saibam que os poemas não devem nada a ninguém
e não querem viver no lugar que lhe destinaram,
não querem ser produto das mãos dos poetas.
Nem querem saber da rima, nem da falta dela,
nem dos elementos que a tradição lhes põe em cada lugar.
Os poemas partiram de férias para um país do sul
e decidiram nunca mais voltar a Aveiro.

sem pecado

Quantas crianças albergaste no teu coração?
E qual delas foi a mais verdadeira?
E saberás tu se há crianças verdadeiras?

Usei tranças compridas e cortei -as um dia depois
da primeira comunhão

Um santo e uma senha foi o que me ensinaram
para passar aquela fronteira entre um país cercado
de arame farpado do lado de cá
e outro país cercado de arame farpado do lado de lá.

Houve um professor para isso.

E um pai pegava-me pela mão
para me ajudar a atravessar a fronteira,
a passadeira desde este lado da rua
até ao lado soalheiro da rua.
Houve uma mãe para aconselhar isso ao pai.

Mas o que é soalheiro de manhã, não é soalheiro
pela tarde e sei que hei-de morrer atropelado
por alguma destas travessias perigosas.
Afinal quem me tem amor? Cortei as tranças e,
pelo sim, pelo não, cortei as duas –
– uma para dar a deus, outra para dar ao diabo.

Quantas crianças albergaste no teu coração?
E qual delas foi a mais verdadeira?
E saberás tu se há crianças verdadeiras?

Usei brincos nas orelhas e um no nariz.
A brincar comigo me rasgaram as orelhas e o nariz.
À medida que ia crescendo aumentava o tamanho das meninas
dos meus olhos e, no entanto, cada vez com mais frequência
fechava os olhos para não ver.
Até que deixei de os saber abrir.

Hoje olho para ti e só vejo o vulto do que foste.
Quem me irá ensinar o santo e a senha para saltar
este abismo entre cheirar-te e ver-te?

Quantas crianças albergaste no teu coração?
E qual delas foi a mais verdadeira?
E saberás tu se há crianças verdadeiras?
Tu queres que eu te diga que a mãe das crianças
foi beber o seu último copo de fel e está sentada
à direita do criador das efémeras borboletas que nós,
as crianças, somos.
Mas eu prendi a língua ao candeeiro da esquina.

morte a dela ou mortadela

Por nunca ter atingido a maioridade
a estética entrou em casa sempre
antes da meia noite.

A testemunha é coerente:
tendo acompanhado a vida da estética garante,
com riqueza de detalhes,
que esta sempre voltou a casa
antes da vida.

A testemunha,
que acompanha a estética,
depois de lhe preparar um copo de leite,
vai ajeitar-lhe as roupas da cama
e assegura-se que está a dormir
antes de vir para a sala esperar pela vida.

A estética é jovem e virgem
e a testemunha é uma velha com os dentes todos.
A vida sabe da testemunha
mas, da estética
não sabe mais que um milímetro de fita métrica.

discrição

A mulher que vive no segundo andar esquerdo
usa sapatos vermelhos e um vestido azul escuro.

A mulher que vive no segundo andar direito
usa sapatos castanhos e um vestido vermelho
profundamente decotado, mas um mar de jóias
tapa-lhe o pescoço e o peito que o vestido descobre.

A mulher que vive no rés do chão
sai à porta todas as manhãs cedo
ainda embrulhada num roupão turco e desbotado
para se despedir de todas as outras mulheres.

A mulher que vive no décimo segundo andar direito
despede-se do jovem que parte para o trabalho incerto da escola
e, mal este entra no elevador, volta para a Cama
e para os seus sonhos interrompidos pela vida.

A mulher que vive no sétimo esquerdo
morreu enquanto tricotava a camisola
de um neto que haveria de nascer
seis anos depois da sua morte.

E eu nunca vivi naquele prédio
e não sabia nada das vidas destas mulheres
até que decidi descri vivê-las.

antes de trocada, a estátua

Amanhã podes mudar de camisa e ir para a rua
pedir para uma festa em honra de santa joana.
Ou instala-te à porta do museu de beata joana
e faz um peditório aos visitantes do museu,
por intenção do processo de santificação da beata.

Se as aves da desgraça e do desespero
te vierem dizer mal da princesa joana
das suas fugas para lisboa a cada surto de doença
ou de mau cheiro, não acredites.
Não há nada para acreditar nas coisas
que possam estragar os nossos símbolos.
Mantém a fé.

E se te disserem que a estátua em frente do museu é horrível
que a princesa joana nem era assim atarracada
que o escultor e quem encomendou a estátua
só pretendem ridicularizar a santa joana e a cidade de aveiro
não ligues. Mantém-te surdo e puro.
Tudo o que dizem, mesmo sendo verdade é mentira.
O que te distingue deles é a tua pureza na fé.

Eles são mais humanos que tu.
Mas isso que te interessa? estarás mais perto das figuras
à guarda do teu deus, das suas hierarquias e até do poder
temporal que tanto manda e pode fazer de um homem pobre
um pobre de cristo ou até mesmo um remediado de cristo.

Não acredites. E reza pela santa joana. Bem, ainda não é santa
e talvez nem venha a sê-lo. Mas isso não interessa,
porque quem já tem estátua de pouco mais precisa.
E tu que não és pobre de pedir, ou que és pobre de pedir
e não vês nos museus as capelas onde te ajoelhas,
mas os museus onde correm as aragens do tempo essas,
que te moldaram na forma que tens
não ligues e vai hoje visitar o museu que sempre ansiaste visitar
ou, se não puderes ir mais longe, visita mesmo este museu de santa
joana e descreve no livro de sugestões
os teus próprios olhos como prova de um milagre na fé
exactamente por teres deixado de ver.