casa do ferreiro

as duas versões de “a casa do ferreiro” (não lembro datas)

A. de Almeida

a casa do ferreiro

Não é a primeira vez que a aldeia acorda em sobressalto dentro da minha cabeça. Nem vai ser a última. Ela meteu na sua cabeça dura que lhe assiste o direito a ser recordada por mim, mesmo depois de ter sido abandonada e terem ruído as paredes do último canto onde eu possa ter mijado na infância. Os territórios que posso ter marcado então já não guardam memória das marcas. Naquela aldeia, em particular na minha aldeia da minha infância, sobraram alguns túmulos e memória de todos os que partiram deixando-a para trás, uns porque fizeram como eu e outros porque preferiram abandonar tudo, até esta vida, e não só a aldeia. De qualquer modo, não sobrará grande mal se falar do mal que na aldeia campeia. A aldeia em abstracto é todas as aldeias em concreto e passado. O que agora reputamos maldosamente como mal não o era no passado e, no entanto, falamos do presente como sendo o tempo de toda a maldade que não existia então. Nem eu sei bem o que mudou para a que a ideia de mal seja de menos mal. Menos mal.

1

A minha vontade
Mais uma foice da minha mãe que
Ela mandou afiar entre outras
Palavras cortantes.

Ela só me disse
o gado pode esperar, vai lá! e
Foi quanto bastou para que
A bicicleta se evaporasse
No rodado das bestas aladas.

2

As pedras incandescentes batem asas e voam
Porta fora do ferreiro, exacta essa entrada:
Se por ela passa, o ar mineral solta um uivo negro

E como não há outro lugar por perto
Mais negro nem inferno mais deserto
Onde se funda e molda o malho do guerreiro
Afiamos navalhas até sangrar o largo do ferreiro
Como campo de batalha onde se treina

A mágoa até ser dor.

3

Nas casas de lavoura os portões abrem a luz
Para o coberto do arado e do celeiro arejado. Inúteis.
À chuva e ao vento, a vida corre numa estrumeira nevoenta
Que a criação debica infatigável como algodão doce.

Na casa do ferreiro o pátio é um poço
Fundo e escuro de paredes negras de carvão
E se luz houver não é solar canto ou réstea.

Uma labareda do fogo avivado por um fole ofegante
Molda e solda a minha asa de cobre polida até dar luz.

4

Eu vi como a família do ferreiro adora os bichos
Mais que todas adora os seus animais domésticos.
Como todas as famílias catam-lhes pulgas e festas
E com fome de crianças matam-nos para a festa.

Eu vi como as bestas em casa do ferreiro
São ainda mais felizmente úteis e mais amadas
Com elas se experimenta a eficácia das ferramentas:
Dos aguilhões supliciais. Daquelas facas curvas de poda

Desbastando cascos até correr o sangue da falta que fazem.

5

Eu vi a pá de bicos aguçados da forquilha
marcada na barriga de uma cadela meio cega
como ordem de expulsão de uma estrangeira
em casa de ferreiro

Alguém já tinha ensinado o horror ao ferreiro
ou a piedade para o pavor nos olhos da besta?
Aos uivos uiva e batendo pés em roda
a família cega martela a vida num céu de pó,

No chão sangrado, um lombo de sangue seco.

6

Com os olhos tapados as vacas não enjoam em volta
Do poço e um eixo vertical chumbado no engenho
Transmite a sua rotação roda contra roda dentada até
Alcatruz após alcatruz a caleira encher e inundar a sede.

Esse é o engenho do ferreiro.

O meu engenho criou raízes em pés de criança
Nómada deslizando no rodado de poeira finíssima
Na tempestade de areia dos cascos que dançam

Rígidos braços cintilantes acrescentam cauda à vaca cega.

7

Quando o meu avô voltou nem nome tinha
de americano ter sido português também não
e vagueava sem cuidar de saber quem tinha
pela aldeia queria ser o presente que se mostra

A aldeia no aceita quem se mostra como
e foi preciso que a minha avó o crismasse
como o homem do seu passado
apesar de ele já não ser o ferro em brasa

da queimadura na juventude das sementeiras.

8

Lembro-me de gritar às vacas e aos bois
picá-los com os aguilhões que eram braços
em vez dos meus braços
até arrastarem, pelo cabeçalho, o mundo.

Os braços do meu avô eram raminhos
que afagavam as vacas e sacudiam moscas
sem as matar: era o que diziam os vizinhos
a rir-se de mim

e do ferreiro – quem aguçava todas as armas.

9

O ferro vermelho batido na bigorna
era temperado a negro pelas águas
da celha do velho Calças do Lameiro
antes de colher a vida do porco do vizinho.

Entra pela maçã de adão mais saliente
para o guincho estridente do dia do juízo
o ferro que entra no coração da gente.

Com um ramo de louro o estertor bate
à tona do sangue o sal o vinagre e o cobre.

10

O cobre martelado ouve-se bem
quando canta a forma que toma na bigorna
e brilha reflexos de ouro na paz do dia
para que te preparaste e as tuas bodas

e o ataque de coração que temias demais
acontece como o toque a rebate de finados
vem lembrar-nos no bronze do alto sino
que foste no teu tempo o homem que viu

sístole e diástole bombeando veneno.

11

As mulheres dispensam as lâminas das facas
para separar a renda das tripas cheias
fazer as partilhas comunais do sangue talhado

e desmanchar o corpo que o pino enxugou.

Eu vi como as unhas cavam as fronteiras
entre as peças como linhas de soldadura
prontas a ceder à carícia da mão assassina

feminina lascívia em passeio pela carne.

12

Morres um pouco cada dia de vidro
brilhantes meninas dos olhos
das meninas do ferreiro do espeto de pau
na casa da eira entre os sacos,

ouvias dizer, de milho, mas a verdade?

O ciúme como fio de ferro ao rubro dentro
de uma orelha à outra voa ainda hoje
pelos capilares do corpo voa a
alma em que não crês para sofrer menos.

13

Quanto pau tem uma faca a mais que ferro
ou a roda de um carro ou a gadanha da morte
ou a foicinha ou a enxada que abre a regueira
no lagoaceiro e guia a água até se sumir

no leve areal onde o milho não sobrevive
e a abóbora raquítica te serve de desculpa
para veres as pernas das cachopas passando
com carregos de feijão arrancado pelo pé

mal se endireitando para murmurar coitado!

14

Por onde quer que passes o beijo verás:
nas esquinas das casas a argola que amarra
as bestas e também o cano da fonte na praça
são marcas da oficina do ferreiro.

Que raiva! a filha do ferreiro desinfectava
a agulha da seringa no álcool ardente
enquanto tu te distraías no teu delírio
até que perdias a vergonha para perder a dor.

A ideia atazanava-te os teus cornos de aço.

15

O meu avô sentava-se na berma da 109
lia o jornal do dia e os livros da América
acenava a quem passava, falava pouco.

Se me lembro de coisas que ele fez:
uma guitarra, piões, bustos de mulher
em pedra de anã de salvados do cemitério;

lembro melhor como a minha avó as desfez
a golpes de machado antes fosse bêbedo
sem arte, sem literatura, sem mistério.

16

Não há ventos nem montes para ver
se olhas de frente para a aldeia passada
pelas brasas da forja do ferreiro

Arsélio Martins
a casa do ferreiro (escrita para ser lida nos Sons da Escrita, por José António Moreira)

1

A minha vontade naquele dia de inverno era fugir. Mas a minha mãe é quem decide quando é que as foicinhas precisam de ser afiadas no ferreiro. E para mandar um filho a casa do ferreiro são precisas palavras cortantes. De modo a que se vá até lá num pé e se volte noutro. De modo a que se voe. De modo a que a bicicleta vá tão depressa como se se evaporasse e voasse como a poeira voa quando se solta, partícula a partícula, sob os cascos das bestas aladas. Ela disse quase meigamente: Vai lá! O gado pode esperar.
Só me lembro de  ter trepado para a encosta da  bicicleta e, com um impulso vigoroso do pé no pedal,  arrancar dali para o lameiro, seguido pelo aplauso das poeiras estremunhadas.

2

Ainda hoje me pergunto o que terá acontecido. Mas esqueci-me de todas as chaves que abrem a porta da aldeia.
Outras vezes, a memória é assaltada pelas pedras da forja. Vejo-as  a bater asas incandescentes  e a voar porta fora. E ouço ainda o uivo negro, o silvo do sopro mineral sobrevoando o largo do ferreiro, quando se molda o malho do guerreiro e se amolam as navalhas  para o combate que sangra o campo de batalha esventrado por uma mágoa que cresce até ser mais que dor.
Vejo nitidamente os olhos criminosos  que brilham na escuridão e nem em sonhos quero saber de quem são, raiados de golfadas de sangue. Há  mortos frescos a dormir na minha infância. Talvez antigos animais domésticos.

3

À chuva e ao vento, a vida corre numa estrumeira nevoenta que a criação debica, infatigável, como se fosse algodão doce este nevoeiro sólido.
Na casa do ferreiro  o pátio é um poço fundo  e escuro, as paredes negras de carvão.
A luz é ateada pelo vento.  Dirás que é  réstea solar um resto da labareda da  fogueira  avivada pelo fole ofegante na tentativa vã de moldar e soldar a  asa de cobre nas costas do santo,  de costas em seu nicho de glória. Polida até dar luz;  a asa de cobre cega o santo e a  senha e abre uma nesga.
Uma filha asmática busca ali o consolo de ver o ar suspenso em suas gotículas de luz.

4

Eu vi como a  família do ferreiro adora todos os seus bichos, quase todos aleijados ou com maleita que não podem esconder.
Mais que todas, a família do ferreiro adora os seus animais domésticos. Como noutras casas, também a prole do ferreiro cata  pulgas e piolhos, limpa e escova. Acaricia mansamente os animais tão docemente como os mata para a festa canibal.  Matam a fome das crianças sem memória com a carne dos amigos.

5

Em casa do ferreiro, as bestas são mais  úteis e, por isso, mais amadas. Nelas, o ferreiro  experimenta a eficácia das ferramentas: Aguilhões supliciais que sangram nos costados domésticos como bandarilhas na arena da casa. Aquelas facas curvas de poda que desbastam os cascos até que cada pegada na estrumeira se encha de sangue.
Cheio de medo e repugnância, vejo a gratidão animalesca nos olhos postos na manjedoura que cheira a milho verde e a sal grosso.

6

Eu vi a pá de bicos aguçados da forquilha marcada na barriga de uma cadela meio cega como ordem de expulsão de uma estrangeira. Em casa do ferreiro.
Não tínhamos ensinado o horror e ter piedade e compaixão é coisa que não se ensina. Bastará compreender, com medo, o pavor que vai nos olhos da besta?
Uivando e batendo  pés em roda a família cega lapida em vida um céu de pó. Muito tempo passado e no chão  sangrado ainda sobra um lombo de sangue seco. Entretanto, os bravos guerreiros voltaram a zurzir os tambores de cobre martelado.

7

Se tapamos  os olhos às vacas é para que não enjoem. Nunca disputamos a distracção das vacas na dança de roda. A vaca em volta do poço,  faz rodar um eixo vertical que, chumbado no engenho, por sua vez,  transmite a sua rotação roda contra roda dentada  até, alcatruz após alcatruz,  inundar a caleira e matar a sede ao ar seco.
Esse é o engenho do ferreiro. O meu engenho é outro, criou raízes em pés da criança nómada que  deslizam no rodado de poeira finíssima, dentro da tempestade  de areia dos cascos  que dançam.
Os meus braços esticados, cintilantes de suor,  acrescentam-me como cauda  à vaca cega.
Os cômoros rasgam-se para que a poeira venha encaminhada pelas estreitas regueiras caudalosas.

8

Quando o meu avô voltou nem nome tinha por ter sido americano até  se ter esquecido do tempo em que tinha sido português. E vagueava pelos caminhos sem saber porque voltara para ali e sem cuidar de saber quem tinha na aldeia. Ele queria ser o que se mostra, o que se apresenta. Só que a  aldeia não aceita quem se mostra como é  e  foi preciso que a minha avó o crismasse como o homem do seu passado apesar de ele já não ser o ferro em brasa, a queimadura  na sua juventude de nove sementeiras.
 Ela rasgou a blusa para mostrar as marcas e ele a reconhecer longínqua.

Lembro-me de gritar às vacas e aos bois, de os picar com os aguilhões que eram braços, longas varas afiadas  em vez dos meus braços que arrastavam  pelo cabeçalho  os caminhos e o mundo. Ao contrário dos meus, os braços do meu avô eram raminhos para  afagar as vacas e sacudir moscas e sem as matar.  Era o que diziam os vizinhos  a rir-se de mim e do ferreiro que era  afinal  quem aguçava todas as pontas das armas da aldeia em armas, em alerta.
O meu avô não era daquele lugar. Pelo menos, tornara-se um espantalho pregado num caminho pedregoso,  os olhos vazados virados  às armas silvestres.

9

O ferro vermelho, depois de batido na bigorna, era temperado  a negro pelas águas da dorna vertidas na celha do velho Calças do Lameiro.  E era esse ferro que procurava a primeira maçã  de adão, a mais saliente, para colher, do  porco do vizinho, a vida, o sangue, o sangue. O curto guincho estridente do dia do juízo insuportável é um ferro que entra no coração da gente, vindo do pescoço.
Com um ramo de louro,  batemos a  tona do sangue, o sal, o vinagre e o cobre. O estertor ainda se sente e já o sangue vai a cozer. Um alguidar fica como que abandonado por ali a receber os pingos da morte.

10

O cobre martelado ouve-se bem quando canta a forma que toma na bigorna. E brilha reflexos de ouro, na paz do dia para que te preparaste: as tuas bodas.
O ataque de coração que temias demais, acontece como acontece um toque a rebate, a finados. Vem lembrar-nos, no bronze do alto sino, quem fomos no nosso tempo, os homem que viram as suas máquinas bombeando veneno em seu movimento sem-fim, perpétuo, sístole-diástole-sístole,…,  fim. 
Dizem-te que até o fim é efémero.

11

As mulheres da minha aldeia dispensam as lâminas das facas quando separam o bordado rendado, a teia de gordura, a elástica estrutura na nave das tripas cheias.  E para  fazer as partilhas comunais do sangue talhado ou para  desmanchar o corpo que o pino enxugou.
São  as unhas que cavam  fronteiras  entre as peças como se sentissem linhas de soldadura, prontas a ceder à carícia de uma mão assassina.
A feminina lascívia  vai solta em seu passeio  pela carne.

12

Morres um pouco cada dia de vidro que é cada noite das brilhantes meninas dos olhos ou das meninas do ferreiro do espeto de pau.
Na casa da eira sofrias as ausências  entre os sacos, enquanto ouvias moer o  milho  e a verdade até ser farinha.
O ciúme era um fio de ferro ao rubro dentro da tua cabeça, de uma orelha à outra.
Voa ainda hoje pelos capilares do corpo, subindo até à alma, o ciúme. E é por isso que finges não ter alma essa  e assim sofrer menos.

Pelo menos  é isso que mostras. É isso que parece. É assim que parece. Que apareces.

13

Quanto pau tem uma faca a mais que ferro? Ou a roda  de um carro ou a gadanha da morte? Ou a foicinha ou a enxada que abre a regueira?
No lagoaceiro e guia a água até se sumir no leve areal onde o milho não sobrevive e a abóbora raquítica e bêbeda da tua água boleca te serve de desculpa  para veres as pernas das cachopas  passando, com seus carregos de  feijão arrancado pelo pé.
Mal se endireitam as cachopas  na voz e é para murmurar coitado do rapaz!  Tão mordido pelas leituras que nem sabe que fazer do entrepernas!
Por onde quer que passes o beijo verás. Nas esquinas das casas, a argola que amarra as bestas e  o cano da fonte, na praça, tudo são marcas da oficina do ferreiro.
Que raiva! Quando a  filha do ferreiro desinfectava a agulha da seringa no álcool ardente e  te distraíam até que,  em teu delírio,  perdesses  a vergonha antes que te perdesses  na dor.
Na ideia absurda, mas verdadeira, que atazanava os teus cornos de aço, a razão era a tua. A tua razão não tinha que ser razão para toda a gente.

14

O meu avô sentava-se na berma da 109. Lia o jornal do dia e dormitava  livros americanos acenando a quem passava.  Pouco falava. Se me lembro de coisas que ele fez?
Uma guitarra e piões em madeira. Bustos de mulher em pedra de ançã de antigas lápides  do cemitério,
Melhor me lembro como  a minha avó as desfez a golpes certeiros do machado afiado para o outono da lenha do inverno e de todo o ano.
Antes fosse bêbedo meu avô sem  arte, sem literatura e  sem mistério. Assim ninguém o via quando ele vagueava no seu modo translúcido de uma garrafa para outra de aniz escarchado depois de já ter bebido toda a genebra que havia na aldeia, todo gin e todo o whisky.
 Por via dele  tinham entrado no comércio local. Por via da minha avó tinham saído, que as proibia à medida que se esgotavam os stocks.

15

Escondido entre pinheiros e incêndios, masturbaste a tua aldeia. Ou foi outra aldeia qualquer? Ou foi mulher que o desejasse e não te desejasse em mais que à tua mão decepada na guerra colonial e logo substituída por um toco de madeira verde para depois ser puída pela tua vida. És uma carícia de pau envernizada. Honesta caricatura de carícia, mas não mais que isso. 
Antes assim que peso morto em contentor de chumbo! — dizias tu para quem te queria ouvir. Não sei se acreditavas nisso que dizias. Eu acreditava.

16

De que me hei-de lembrar? Se a aldeia tal como a conheci nem existe já e as pessoas fugiram a sete pés de lá para fugir dos seus mortos que não páram de as atazanar com as promessas por cumprir e a inveja da vida que levam antes da morte que as leve. A aldeia é a cobrança coerciva de uma dívida que nunca existiu senão como sentimento de culpa pelos gatos que se afogaram cumprindo ordens ou outras maldições menores tais como pecados mortais que não matavam, da cobiça da mulher alheia, da inveja e da preguiça. Os outros nomes dos pecados nem sabíamos o que queriam dizer. Como podíamos cometê-los? Devo dizer que ninguém cobiçava a mulher alheia que para ali estava como se não estivesse neste mundo. Nós só pensávamos que era maldade da parte de Deus não a ter levado quando era um anjo leve e não aquele peso que a aldeia inteira não conseguiu carregar aos ombros nem ninguém consegue contar o que a aldeia fez para a levar até à cova. Estavam lá todos e ninguém se lembra. Não é estranho?