cartas


o discurso das águas


E a ti, que foste o companheiro do companheiro,
apontarei o poente do infinito,
ou apenas a luz da tarde em que brilham a rosa e o ouro,
ou apenas a solidão junto ao mar,
ou apenas a notícia do amor
entre as pequeníssimas folhas dos choupos.

A ti, que foste companheiro do companheiro,
apontarei o dia seguinte, um nascente vermelho,
uma nascente, ou apenas o cheiro da água corrente,
ou apenas o lugar do novo primeiro e original encontro
para outra sagração da primavera, outro início de luta.

A ti, que foste companheiro do companheiro,
lerei a sina. Do passado ao futuro,
acácia batida pelo vento ou rasto de fragrância
de louro colhido,
vai devagar, para que, o menino que também és,
te possa seguir.

Isto não é um discurso, mas eu sou aquele que fala. Olhem para mim. se puderem, vejam como eu estou aqui entre outros, um entre outros.
Não vim fazer um discurso, mas dar palavra às águas que nos atravessam, quando a emoção galga das nuvens do peito para se sumirem como as ondas se somem nos areais ressequidos em que nos esculpiram os rostos.

Não vim fazer um discurso. Vim dar a um mar de palavras de água e são as líquidas palavras por dizer que não me deixam calar.

Amanhã, o nosso rio retoma o seu curso e, com ele, partem as palavras em que nos afogámos hoje.
Um homem com consciência, que abandonou este nosso mundo para abraçar a loucura, colecciona palavras na foz deste rio. Ele guarda-as porque guarda a areia em que foram escritas pelos dedos da água nos bolsos do seu passado sem futuro.

E eu vim aqui para defender a felicidade sem futuro: a felicidade de hoje.
Quem tudo faz em nome da felicidade do futuro, sacrifica a felicidade de cada momento. Em nome da felicidade do futuro, se forjam todas as tiranias do presente que tentam ser tiranias de todos os hojes daqui até ao futuro.

Apresentam-nos a felicidade como uma linha do horizonte e a linha do horizonte afasta-se à medida que dela nos aproximamos.
Eu vim aqui para defender que a nossa felicidade de hoje é uma parte imprescindível da felicidade do futuro.

Pode não ser, mas a escola em cada dia de hoje deve ser escola de pessoas felizes e (que) é essa a escola que pode construir algum futuro que importe. Uma escola que se faz em nome do futuro sem ter um presente, que valha a pena lembrar, é uma velha tirana a estragar o presente em nome do futuro que está a envenenar com um presente envenenado.

Eu quero viajar de hoje até amanhã voando. A linha do meu voo é uma estaladura que atravessa a chávena. Como um morcego fendendo a porcelana da noitinha, assim eu quero sair do seio, do ninho de hoje.
Quem é que assim nos virou, de tal forma que, em tudo o que façamos, estamos sempre na atitude de alguém que parte?
Eu quero viajar pela noite entre os dias, sentindo o ar como quem atravessa as águas, modulando todos os lados do corpo. como o peixe fusiforme atravessa desde profundidade até à luz.

Sabemos das tuas partidas, mas não sabemos que partido tomas: nem és peixe nem és carne, dizem-me. Professor ou aluno? De que lado da vida te perdes?
Eu sou peixe e sou carne! Sou a carne do peixe e sei que vivo para ser comido. Não há angústia nisto, é o que vos digo. Quem é que me quer pescar?

Minha mãe pescou-me das suas águas, olhou as minhas escamas brilhantes ao sol, limpou-me cuidadosamente e educou-me para o ar. Só por isso não voltei para as águas, neblinas do limbo. Foi a minha fraqueza que me inibiu as asas para os vôos que ela planeou para mim.
Não usem anzóis afiados!

Podem usar palavras afiadas, na escola (e não será assim em todas?).
As pessoas usam as palavras, sussuram palavras, segredam palavras, disparam palavras. Há palavras para amar, para animar, para repreender, para replicar, para censurar; há palavras para abraçar e há palavras para esmurrar; para esfaquear o vento, as ondas mais altas, o mar. Há palavras para explicar as cores, os odores.

A escola é, antes de mais, a galáxia das palavras e das imagens que as palavras desbotam. Usam-se palavras como calhaus afiados. Há navalhas e palavras para ferir. Há quem as dispare dos bolsos, onde as teve sempre escondidas.
Eu uso as palavras nas palmas das mãos abertas, como calhaus rolados pelas águas de mil marés vivas, palavras lavadas pela água, expostas para corar, ao sol destas luzes.

É a água do mar que escorre pelas linhas da minha mão ou do rosto ou do corpo. Pela linha da vida, pela linha da morte, pela linha do coração correm e morrem as águas que galgaram as margens dos olhos.

E eu? Que faço eu?
Na escola, como peixe na água, deixem-me respirar esta água, este ar!
Por estas águas troquei o meu passado e o meu presente anunciado na palma da mão de minha mãe nos gestos de me educar para o ar!
Onde estão os meus amigos? Quase como sombras longínquas, postais de Lisboa e Porto, escritos apressadamente com tinta de água
. Como vais?, Que é feito de ti?
Que resposta tenho para este passado?

Mãe! Minha Mãe, que quero eu senão voltar ao princípio para que tudo recomece e possa acariciar os meus sonhos, os meus amigos que se perderam e são uma sombra espelhada nestas águas em que me movo em vez de tudo o resto?
Mas os caminhos de regresso estão todos fechados e é por isso que a escola é um mundo em que me tenho de reconstruir e reconstruir os catelos no ar! Nem que sejam outros os arquitectos, outros os alcaides, outros os actores.

Os estudantes que brilham no escuro e me reflectem no que vale a pena ou valeu a pena, é aqui, Mãe, entre as ruínas deste presente que, das águas desta escola, pescamos os filhos da escola, os educamos para o ar e, quem nos dera, Mãe, que lhes pudéssemos dar as asas!

Está descansada, Mãe! Já ninguém se ri do teu filho, porque ele envelheceu demais no discurso das águas e porque ele deixou, por momentos, de ser quem era,
 o outro, aquele que não está no espectáculo. Olham para ele e não o vêem, as palavras que ele disse eram água pelos dedos abertos.

Amanhã, à luz do dia, não haverá lembrança deste gesto insensato e todos viverão, como antes, em nome do futuro!


ajudado por Rilke e por outro poetas certamente, na década de 80, disse este discurso numa sessão da escola preparada e feita pelos vários artistas de artes várias.



carta aos ombros


Lembrem-se de tudo o que puderem:
de todos os senões, de todos os safanões, de todas as manifestações, de todas as ilusões, de todas as desilusões, de todas as dúvidas, de todas as certezas e das que deixaram de ser certezas,
de todas as gargalhadas, de todas lágrimas,
da vida das derrotas, das vitórias, das derrotas,
dos amores, dos desamores, dos amores, da amizade, da confiança,
das anedotas que contámos e até das anedotas que fomos, das orações que cantámos, das orações que deixámos escapar sem querer, dos sermões que não ouvimos, dos sermões que gritámos, dos punhos caídos, dos punhos erguidos, das lutas e das tréguas, dos compassos e das réguas, das medidas que tomámos, do que não medimos, dos disparates,
daquele poema que chorámos em vão, daquele outro que nos levantou do chão, da arena,
dos livros, dos livros de histórias, dos livros de história, dos livros,
da parede em que colámos as mãos e os pés, das paredes que pintámos, do poema que transcrevemos na parede na escuridão e na solidão, da parede onde despejámos a raiva, dos lamentos sussurrados ao ombro companheiro contra a parede que nunca abriu brecha,
do cartaz, do jornal mural, da moral
da vida,
do poema que nos alimentou, do poema natural, das sagradas escrituras, do cântico dos cânticos,
dos cânticos guerreiros, da luta pela paz, dos cânticos pela liberdade, da fraternidade do coro das vozes, da música,
dos sonhos, dos pesadelos, do medo, da cobardia, da coragem, da dívida ao outro ali ao lado com as mesmas dúvidas e o mesmo medo quando demos o passo em frente, naquele dia, ou num outro em que recuámos para uma barricada que nada garantia, das trincheiras,
das fraquezas que se fizeram força, das forças que deram em nada,
do poema que a vida de cada um é combinada com as outras vidas,
da tragédia, da comédia, do espetáculo que demos e damos,
do poema que relemos a lembrar quem somos ainda para nós e nos outros,
nem mais
que uma festa é
o abraço da vida de que não nos arrependemos
lembrem-se de tudo o que ela é, das somas, da diferença e da indiferença, dos produtos, das divisões
lembrem-se de tudo, do espírito dos lugares quando os habitámos,
do quartel, das escolas, das associações, das cooperativas, dos partidos
da impossível fé e da fé possível
sem rendição e sem redenção,
na esperança de sermos esquecidos
na foz da alegria vital
em que nos afogámos sem naufragar,
lembrem-se da alegria do luar
que ninguém mais viu.
lembrem-se de tudo
mesmo fingindo adormecer
em posição rígida e tensa de felino que espreita e espera
a próxima primavera,
fechem os olhos enquanto se lembram
de tudo.


carta escrita aos compassageiros da viagem maior da vida
aos 2013 anos