antigas

Ricardo Soares é um poeta. 

Pensa-se que nasceu na região de Aveiro, mais propriamente num lugar conhecido por Trás da Moita ou LagoaChorida, na actual freguesia de Santo André do concelho de Vagos. Não se conhece a data de nascimento ao certo, mas pensa-se que morreu em Dezembro de 1947. Os seus escritos dispersos e considerados obras sem qualquer importância têm vindo a ser desenterrados por um obscuro professor de Matemática do ensino secundário que dá pelo nome de Arsélio Martins. Arsélio Martins afirma que descobriu os papéis de Ricardo Soares na estrumeira do pátio da casa onde nasceu e onde cresceu. Durante vários anos, Arsélio Martins, um homem sem energia e sem grandes convicções, ou pelo menos pouco dado a valorizar o seu trabalho, publicou em alguns suplementos de jornais e revistas, ao sabor da sua desorganização mental, alguns dos textos que recuperou da estrumeira da sua vida. Muitos dos textos estão de tal modo tratados e acrescentados (até pela inserção de dados que não podiam ser do conhecimento de Ricardo Soares) que não podem deixar de se considerar completamente reinventados pelo professor de Matemática. Da mesma estrumeira, Arsélio Martins retirou a maior parte da sua cultura. Sabe-se que, sendo homem de várias leituras, o actual professor obscuro começou por ler obras carregadas de ateísmo e cientismo e escritos obscuros de um seu avô, velho regressado da América do Norte onde tinha permanecido durante trinta e cinco anos sem ter dado notícias. Do mesmo modo leu obras de autores brasileiros que enchiam arcas que o seu pai enviava do Brasil a acompanhar promessas de regresso que nunca se chegaram a cumprir. O rasto desses volumes perde-se nas estrumeiras do seu pátio, que é agora um pátio cimentado onde se guarda um Fiat 127. Hoje, a confusão é total a respeito da autoria da maior parte dos escritos. Ninguém pode dizer onde começa e acaba a obra de Ricardo Soares; muito do que vai ser divulgado pode ser coisa escrita por Arsélio Martins que, na sua imaginação doentia e supersticiosa, atribui ora a Ricardo Soares ora à assombração de Ricardo Soares. Seja o que for é Ricardo Soares. Ou Arsélio Martins.