o problema da gola alta


“Embora uma gola suponha fatalmente um decote, verifica-se que a afirmação de um decote implica, de certo modo, a ausência de gola: é quando não existe gola que o decote ganha significação.”

 (Roland Barthes).

As palavras” são um risco. Porque são inexactas, incapazes de (nos) dizer de uma forma precisa. Pois. Eu sei; as palavras escrevem-se (e lêem-se) em silêncio … mas não é a mesma coisa.

Só o silêncio é perfeito. Porque contém, em potência, a totalidade das vozes. Dizer algo, interromper o silêncio, é negar a possibilidade da totalidade. Mas alguém me dizia há algum tempo, que às vezes só temos o poder de recusar; é preciso usá-lo mesmo assim.

As palavras servem para enumerar as coisas, mas não para as possuir … Quando as lemos, que sabemos nós das mãos que as escreveram, dos medos e dos sonhos que as percorrem? …

Um decote abre uma pulsão: sugere um ofício antiquíssimo das mãos criadas pelo Deus do tacto: apalparo bocado da alma que está logo ali onde acaba o decote e começa a alma. É isso: a alma não se vê, também ela é sugerida. Esta revista não cabe nas pastas, porque é para circular de mão em mão, pelas mãos: ser apalpada nos sentidos todos: eis como se arroga uma importância, uma escolha: (pa)pele (couché(e)) da capa (a capa que se abre para o corpo (em) revista). Benditas as mãos que lêem! Benditas as mãos que vêem por dentro do decote! Que mil dedos molhados nos folheiem!

Aproxima-te! Mete a mão no decote …

Atreve~te!

a. martins / paulo gamelas, in decotes #1

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paulo corceiro: arquitecto, designer de decotes Projecto Já!