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Apresentação
Os textos que se juntam a seguir foram escritos para serem lidos por José António Moreira e serem acompanhados pelas músicas que o André Pinheiro lhes adequou, no dia a dia da Rádio Independente de Aveiro.
De certa maneira, bem como os anteriormente reunidos sob o título PreTextos, estes textos são o resultado de uma encomenda, embora tenham sido escritos em inteira liberdade. Temos as mais sérias dúvidas sobre a sua utilidade e mais dúvidas ainda temos sobre eles guardarem algum valor após terem sido ditados para o microfone. Mas o computador pode guardar e não é muito complicado imprimir alguns exemplares para os amigos que os não puderam nem quiseram ouvir.
Não acredito que façam bom proveito, mas são bons “pretextos” para desculparem as cartas que não escrevi ou para desculparem os momentos que não gastei a conversar e fiquei a dever. E fico a pedir outras desculpas pelas gralhas e má escrita, que eu não tive tempo de fazer qualquer revisão e corrigir o “borrão” que vai ser impresso. Tenho esperança que, do meio da confusão, consigam retirar as ideias que eu persegui. Se encontrarem alguma pérola, devolvam-ma.

Arsélio Martin


Introdução.

A manhã levanta-se quando o homem acende a luz do dia. A luz do dia acende-se nas janelas e os olhos abrem-se só para que uma excessiva luz os cegue. Quando desfalecem sobre uma cadeira, os olhos buscam uma penumbra de apoio.
Na penumbra, desvendam as recortadas letras do texto. Uma a uma, elas se juntam em palavras e estas são as várias famílias que dão o corpo ao texto. A boca que as soletra é a boca do texto. Ainda antes do texto, a cabeça do texto, o pretexto. Perder o pretexto é perder a cabeça.

O pretexto é a cabeça de uma pessoa vulgar. A pessoa vulgar, que o texto é, parte em busca de refúgio. E o refúgio é uma multidão de sinais.


1º de Abril. 1º Aniversário. O espantalho.

Ainda antes de acordar, a mentira é piedosa:
Levanta-te que se faz tarde para viver o dia bonito demais. Não devias deixar esquecer-te, entre as outras coisas, do teu aniversário. Faz a barba e sai de ti.

É verdade. O espantalho que desenhaste no ar não se dissolveu como a efémera bola de sabão em que guardas a neve fundente da primavera e o calor esfiapado do outono.

Um pretexto é não mais do que uma desculpa ou uma razão aparente que se alega para encobrir um verdadeiro texto do qual se é incapaz ou não vale a pena. Com o fim aparente de não incomodar quem dorme sobre os seus próprios sapatos, em vez de lançar pedras ou alarmes justificados, usamos um pretexto para soltar as palavras que não se querem juntar em texto consistente, completo e independente, isto é, significativo.

Os pretextos não podem inventar-se. Muito menos ao correr dos dias de um ano. Ao fim de um ano, sabemos que eles não são significativos, nem cheios de significado, porque não expressam claramente o seu conteúdo, não encerram nem particularizam intuitos específicos, não têm sentido especial e objectivo.
É por isso que ninguém nos pode dar os parabéns e é, também por isso, que um ano de pretextos diários é um pretexto para os desejar.
O espantalho que criámos há um ano, nunca ninguém perceberá porquê, ganhou asas e acompanha, pelos céus, os pássaros que queria espantar. De nosso, guardou apenas a forma humana, desajeitada para o voo.
Mais, e finalmente, se declara que qualquer pretexto serve para mentir piedosamente sobre a verdade.

 


O cerco. O assédio.

Uma mulher debruçou-se de uma muralha e, em vez de olhar o horizonte separando o céu da terra, olhou uma pedrinha pequena que tinha deixado cair para esse olhar.
Uma galinha engoliu a pedra e com ela moeu o grão mais duro.
E o homem, que a tudo assistia da porta da cozinha escura, chamou a galinha para dentro. Esta fugiu espavorida ao encontro da armadilha que o homem sempre arma no ponto depois do ponto de fuga.
Um dia devolve a pedra engastada num anel de ouro. A mulher devolve um sorriso, que não chega para pagar a gentileza.
De modo nenhum – ouviu-se a voz do homem, pela primeira vez.
A voz da mulher elevou-se para dizer: Nem penses! Afinal tu não fizeste mais do que devolver-me a esmeralda que eu deixei cair e tu (ou a tua galinha por ti) roubaste .
A voz do homem veio baixa: Não chames galinha à minha mulher e não te esqueças do anel.
O anel é lindo, mas não é mais do que o embrulho de ouro da minha esmeralda – disse a voz da mulher enlevada de olhos postos na esmeralda.
A esmeralda acendeu os seus olhos e viu-se a gritar: Tirem-me daqui. A mulher deu um safanão no homem e começou a correr. Só parou ofegante encostada à muralha, as mãos para o abismo: o anel para o abismo.

Uma galinha debica pedras. Metodicamente cumpre o cerco das muralhas, enquanto os seus galos de combate fazem de homens dentro da arena sitiada.


A tropa de choque. O tropel.

As asas do nariz do homem tinham a cor dos tomates maduros e tudo o resto foi inventado pelo autor do homem cujo sexo devolve à cabeça os pensamentos que esta havia enviado à fronteira do corpo onde este se divide em duas margens e dois rios: esquerdo, direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito,… direito. alto! disper… sar!
A voz do coronel derramou-se sobre a parada: chuva de impropérios, chuva de perdigotos, ladrar de cães, mijadela.
Apesar disso, com movimentos leves e livres, homens e formigas dirigem-se aos dormitórios, comendo os pequenos torrões de açúcar que o sargento lhes dera, após terem saltado os obstáculos, acicatados pelo nome que eles lhes chamava: Suas cavalgaduras!.

Mas é no bar que “Suas calvagaduras” apanham a “égua”.

 


A cobardia do homem. A crueldade do homem.

Quem serve na tropa? O homem serve para tudo e não serve para nada. Quando nasce um filho homem, a mulher devolve-o ao homem para que ele o utilize como bem quiser, de preferência na guerra.
É a fraqueza dos homens que os impede de serem úteis em tempo de paz. A cobardia impede-os de amar. As mulheres ensinaram-nos a amar como se participassem numa guerra de posições.
Eles cavam trincheiras, esperam pelo inverno para as encher de lama e confundir o sangue. Brincam com a lama, imitando os filmes mudos, em que o ritmo é marcado por uma metralhadora melancólica e solitária. No fosso da orquestra, improvisada trincheira, ouve-se ainda a voz da cantora austríaca, rouca e roufenha, mas loura.
Vão para a tropa para viajar. Que outro turismo pode fazer aquele que foi soldado ao seu destino? Se matam e violam, matam a quem os puder reconhecer como crianças cruéis, os homens.

Assim também são as mulheres.

 


Sobre a maldade das mulheres.

Para que serve uma filha? O homem devolve a filha ao universo das mulheres, para que seja educada entre irmãs e espartilhos.
A filha perguntou ao pai se conhecia a do canibal vegetariano que só comia tomates e raízes de cabelos. O pai não conhecia. A filha insistiu que lhe explicasse o sentido. O pai conhecia uma porta para sair dali e saíu por ela.
Quando voltou, tinha um jornal debaixo do braço num dos lados e no outro tinha uma bengala serrana.
Com ela, devolveu à filha uma tareia que tinha aprendido quando era pequeno e ingénuo, embora menos que hoje.
A filha chorou sobre as coisas sem sentido. E afogou-as.
A crueldade das mulheres é de sal e vem dissolvida nas lágrimas – disse o homem, enquanto despia o sobretudo, … porém, todavia e contudo.

 


Os passos e as asas

Para apressar o passo, não uses as asas que te deram para voar.
Um dia, hás-de correr, subindo por entre as urzes da montanha pedregosa. Mas serão os fortes músculos das tuas pernas e dos teus braços que te ajudarão a subir os abismos a pique que te separam das núvens pousadas nas terras altas.
Um dia hás-de correr sereno e livre. Acompanharás os cavalos bravos que não queres domar. Serão eles que te ensinarão os aleatórios caminhos daqui para ali e te ensinarão a distinguir entre os diferentes cheiros dos ventos. Mas não uses as asas ainda. Elas servem para voar e não para correr pela vida fora.

Quando chegares ao cume, desalojarás a pequena cabra do monte e, por cima da neblina, poderás ver como o sol rompe as paredes de água que o separam dos teus olhos. Antes dele, tu verás a águia planando. Mas mesmo então não uses as asas que te deram para voar. Enquanto puderes deixa que sejam os teus olhos a acompanhar a águia.
Se puderes, nunca uses as asas que te deram para voar. Quando comprenderes que não podes resistir à tentação do voo, calça os teus sapatos de chumbo, enche os teus bolsos de pedra e vai até à margem do rio. Quando lá chegares, não apresses o passo que te separa do rio.


O vinho da meda

Entrei no restaurante a tempo de ouvir o comensal barbosa a gritar com o pacheco de avental, por causa de uma mosca que tinha caído na sopa. O pacheco de avental mostrava piedade pela mosca obrigada a sofrer queimaduras de 3º grau e salvava-a, a ela e à sua piscina improvisada, dos impropérios furiosos do comensal barbosa. O comensal barbosa sorvia ruidosamente a sopa antes do primeiro prato e, naquele dia, ainda antes da sopa, já tinha sorvido a primeira jarra de vinho da meda.

Sentei-me num canto daquele corredor que nos servia o arroz com feijão e com vinho da meda, quando queria desenjoar da dona deolinda e da janela que dava para os cavalos da gnr, ou quando queria conversar mais à vontade com o joão revisa, longe dos olhares dos esquerdistas.

O pacheco de avental voltou com outro ou o mesmo prato de sopa agora com a mosca afogada e presa nas dobras de alguma couve. A ira do comensal barbosa ficou aplacada, embora continuasse a sorver palavras com a sopa. O pacheco de avental não era burro nenhum e, ainda o comensal barbosa não tinha acabado a sopa, já o meio frango alourado, depois de cozinhado, esperava a sua vez de ser sorvido, à mistura com novo jarro para apagar um incêndio de onde teriam sido salvas as batatas em viagem.

Nunca me libertei daquelas cenas do comensal barbosa que reclamava de uma mosca pousada no prato da sopa e achava natural que uma ave nua, muito maior que a mosca, lhe pousasse no prato seguinte. Todos os dias, à mesma hora, ali onde o rio da cedofeita desagua..

 


A presidência aberta 1

Um dia destes vou sair por aí a ver tudo o que já sei que se passa. Digo antes que vou ver e isso torna o meu olhar oficial e visível para a opinião pública.

A opinião pública vai acompanhar-me pelas margens dos rios poluídos e vai visitar comigo as obras de sagres. Todos juntos avistaremos o mar, alongando o olhar à maneira do infante espreitando o longe, à procura de uma vela para a sua noite dos tempos.

Alguns analistas políticos vão acompanhar-me para ouvirem uma palavra, uma só que seja, que valha um facto político. Se não passarmos por uma fábrica texil e de confecções popular e pouco poluente, havemos de lhes arranjar um fa(c)to numa feira. Abraçamos uma peixeira e deixamos soltar uma frase sobre a vida dificil das peixeiras. Vestidos com essa novidade de fa(c)to, os analistas poderão desenhar um artigo de opinião sobre o problema dos recursos marinhos de portugal no mar da comunidade e a diferença de opinião entre a presidência e o governo sobre o estado actual da peixeirada e o sabor do bacalhau da noruega. O meu fato político cheira a sardinhas vivas.

Por haver falta de água limpa nos hotéis, também será nas feiras que tomaremos o banho de multidão.

 


A presidência aberta 2

Ao longo dos dias, com toda a atenção que o cargo exige, ouvimos a populaça e as explicações da gentil ministra sobre como o governo pensa resolver o caso, que medidas já foram tomadas.
“Como disse a senhora ministra, cujas medidas já foram tomadas, esperamos ver em breve estas dificuldades atravessadas por cinco passadeiras e algumas setas do partido da senhora ministra. Esperamos, senhora ministra, ter-lhe feito chegar ao coração, o coração do problema”.
Ao almoço, comemos o coração do boi que poluía a praia da aguda, enquanto puxava uma rede de cheia de sardinhas de lata, em crise de fígado, isto é, em crise provocada pela concorrência das pastas de fígado de gansos gauleses e bêbedos.

Quando uma mulher do povo me dirigir uma quadra, pego na raquete do alumínio de setúbal, que há-de navegar para um país terceiro, e hei-de conseguir os quatro ases do meu serviço.
Uma estrela há-de apender a cavalgar a bicicleta, porque eu decidi dar a volta á praça da vila.

 


A presidência aberta 3

Uma coisa é certa: não há três sem duas, e o que é pena que não possa haver três, até porque o presbítero já tem o pensamento entaramelado, o sem paio é isso mesmo, o sílvio bálsamo tem o aspecto de perfume barato,cabelo de velho júlio após um banho de brilhantina, o sotão maior já não tem idade para subir a escadaria, o ramalhe nunca poderá ser mais do que rei de alcaíns e do outro nem cavaco.

Na presidência aberta, a alternativa viaja em1ª classe e dorme nos hoteis de cinco estrelas. Para que todos os toureiros e todos os toureados vejam que a alternativa verdadeira é aquela que é dada por mim.
Na minha praça, nem é preciso o inteligente.

 


Salomão Mendes

Deus deu a Salomão sabedoria, uma grande inteligência e um grande espírito de visão tão vasto como as areias que estão nas praias do mar. A sua sabedoria excedia a de todos os orientais e egípcios. Era o mais sábio de todos os homens,mais sábio do que Etan o ezraíta, do que Heman, Calcol e Darda, filhos de Maol; e a sua fama espalhou-se por todos os povos vizinhos. Pronunciou três mil sentenças e compôs mil e cinco poemas. Dissertou sobre as árvores, desde o cedro do Líbano até ao hissopo que brota dos nuros, os animais, as aves, os répteis e os peixes. De todos os países vinham pessoas ouvir a sabedoria de Salomão, da parte de todos os reis da terra, entre os quais se estendeu a fama da sua sabedoria.

Disto, Deus nunca se arrependeu e tendo-lhe voltado o desejo de repetir a coisa, optou por repartir iguais dons por Cavaco Silva, Marques Mendes e Duarte Lima, tendo também ordenado a visibilidade de tais dons. A mim, incapaz de acompanhar a sua inteligência vingativa, Deus mandou que me cegassem.

 


VVVVVVVV

Todos os dias sopra o vento, nas ruas que vendavais antigos abriram na minha cabeça. Todos os dias sopra o vento agreste nas minhas ruas e eu uso os olhos fechados.

Como um cego, deambulo pela rua e o cimento e a areia que voam no vento vão-se depositando em volta dos meus olhos fechados e cegos. As lágrimas soltam-se nesse areal e quando chego a casa, quebro a parede que se ergueu sobre as minhas pálpebras. Quando finalmente posso ver, começo a ler o que escrevi como um cego.

Depois, regresso à rua para sentir o vento e cegar de novo. Todos estes dias sopra um vendaval nas ruas. Ando às voltas, inclinado para o chão de Aveiro. Tudo o que posso cheirar, tem um cheiro emprestado pelo mar. E a ave que pousa na terra firme da minha rua é uma gaivota.

 


Desenvolvimento

Embora sobre a lama industrial, ele caminha com elegância típica do desenvolvimento. Para que não suje as solas dos sapatos novos, das profundezas da lama despontam as estacas dos lugares certos à passada do desenvolvimento.

Alguns dos produtos industriais que fizeram do desenvolvimento o que ele é hoje já não são tão lucrativos, ou porque num país de mão de obra barata e infantil e de ambiente virgem e indefeso se fabrica o produto mais barato, ou porque o complexo que dele dependia, já dele não precisa. Não interessa.

O que interessa é que o desenvolvimento já passeia sobre a lama que plantou com um projecto pós-moderno no bolso: é preciso mostrar a lama ao mundo e impor a necessidade da sua eliminação, neste período fértil em apoios comunitários para a limpeza das lamas.

O desenvolvimento usa cabelos curtos, toca fugas ao fisco, escreve romances de facturas falsas, usa gravata, alfinete discreto, fato assinado por um clássico alfaiate inglês ou italiano e quando cruza as pernas mostra que usa sapatos do dia, do mesmo modo que os pobres compram leite do dia. O desenvolvimento usa ideias curtas, mas representa o ar inteligente de quem se protege mesmo entre as escovagens. O desenvolvimento vive para si e por si, mas o poder político defende-o como sendo o pai protector dos povos.

Às vezes, fico a pensar que o povo poderia também candidatar-se aos fundos comunitários para a limpeza da lama industrial. E o projecto deveria ser simples e prático: remoção das lamas seguida do armazenamento nos grandes jardins das residências e palácios do desenvolvimento, mesmo que isso significasse afundar o desenvolvimento na sua própria merda.

 


Democracia

Não! E deu um murro na mesa. A mulher, resignada, encolheu os ombros e mudou de lugar. Já foi do fundo de um canto da divisão mais escura da casa que ela resmungou qualquer coisa terrível mas indecifrável.
Podes praguejar à vontade. Eu bem te conheço! Foi exactamente assim que falou o homem, enquanto vestia o casaco. E ficou por ali como se esperasse allguém.

Passados uns minutos, a mulher veio vestida, pronta para sair. Saíram os dois e foi ela quem fechou a porta. Depois de ele ter metido as mãos nos bolsos, a mulher enfiou-lhe o braço e começaram a caminhar em silêncio.

Trouxeste os cartões? foi o que ele perguntou, para dizer alguma coisa. Ela resmungou qualquer coisa e continuaram a caminhar.

No fim da rua, viraram à direita. A uns metros dali, viram a pequena multidão que se juntara à porta da escola. Dirigiram-se para lá e, cumprimentando este e aquela, tomaram lugar na bicha. De tempos a tempos, lá davam uns passos em frente. Ao meio dia, chegaram à mesa, identificaram-se, deram os cartões e ela largou-lhe o braço quando ele tirou a mão do bolso para receber o boletim que lhe entegavam. Foi então que se separaram, não sem que antes ele a olhasse nos olhos e lhe resmungasse entredentes.Ela virou-lhe as costas.

Ao mesmo tempo voltaram à mesa. Cada um entregou os seus boletins dobrados em quatro e receberam os cartões. Ele pôs a mão no bolso e ela pegou-lhe no braço. Saíram da escola e voltaram à rua.

Pronto! Lá votámos mais uma vez! – foi o que ele disse exactamente.

Foi então que ela começou a chorar pelo seu voto caído na urna.

 


A Guerra

A mãe puxa o lustro ao seu corpo elegante, negro de alcatrão, enquanto o filho vigia o tapete rolante em que viaja a culatra do canhão.

As fábricas de armas de guerra, agora fabricam armas para manter a paz, mas como não há paz sem guerra, não podem deixar de fabricar algumas armas mortíferas para fazer alguma guerra. O que nos dizem é que quem faz a guerra agora está a gastar os stocks das armas desactualizadas feitas para o tempo da guerra. Havemos de ouvir dizer que se farão guerras com as armas desactualizadas para manter a paz destes tempos de guerra.
Há até feras que utilizam nas guerras de hoje as artesanais catanas de cortar as canas, o capim e as outras pragas que tomam as aldeias dos homens. Assim vencerá a estupidez do homem. Seja o capim e a sua natureza a tomar conta do lugar do homem. E que haja feras não humanas para pisar os trilhos da terra abandonada.

A mãe puxa o lustro ao seu corpo, negro de alcatrão, enquanto o filho vigia o tapete rolante em que viaja a culatra do canhão.

Ouvimos dizer que os fabricantes de armas são filhos da mãe. E a mãe é a terra queimada dos homens.


Os regimes

Há regimes para a engorda dos animais domésticos mais comestíveis. E há regimes de engorda para os animais selvagens mais livres, mas à distância do tiro certeiro dos homens.

Há regimes para emagrecimento dos homens e das suas fêmeas. Agora, antes das exposições ao sol do verão, os homens e as mulheres afadigam-se a cumprir o regime, para a exibição dos corpos perante o sol.

Há regimes políticos. Uns sucedem a outros. Todos usam bronzeadores em spray. Houve regimes que utilizavam gases em spray para eliminar. Outros utilizaram sprays ou chaminés, abrindo clareiras na atmosfera, para que o sol chegasse à terra, em todo o seu esplendor. Todos agora usam sprays e chaminés sem gases que prejudiquem o ozono. Em todos os produtos, mandam escrever mensagens a respeito do respeito que é preciso ter pela atmosfera em que vivemos.

O nosso regime sucedeu a outro. Direitos fundamentais garantidos por este regime foram transformados em mercadorias com as devidas menções, modos de utilização e contra-indicações. Para algumas destas novas mercadorias, foi estabelecido que não têm contra-indicações.

Não é, pois, de estranhar que se possa ouvir perorar pides e generais, alcoviteiras e vendedoras. Com todo o respeito, eles podem vender os seus velhos produtos ao mesmo tempo que podem chamar a atenção para os perigos de demasiada exposição ao sol da liberdade, da democracia e da independência. Eles dizem que todos esses direitos já existiam no outro regime, mas que este era protector contra os malefícios da excessiva exposição. Dirão ainda que, existindo esses produtos, eles não se tinham transformado em mercadorias acessíveis a massas de consumidores, porque estas não saberiam usá-las com os cuidados que as etiquetas sugerem.

Afinal é o resultado dos regimes que nós mostramos ao sol. O sol é um basbaque.

 


25 de Abril

Não pedi nada ao meu tempo. No entanto, o meu tempo queria bater as palmas nas minhas costas. O torpor era a besta que adormecia no meu colo.
As palmas acordaram a madrugada e afogaram o torpor na neblina que cobria o rio. As gaivotas gritaram e, batendo as asas, procuraram melhor poiso para não perder pitada.

As palmas do meu tempo soaram violentas, mas cheias de ternura. No palco, um polícia ainda disparou uma rajada com a sua metralhadora. Com pontaria. Hoje mostra a carra, para que um gatilho misericordioso lhe corte o tropel das bestas que não param de correr na sua cabeça de besta.

Mas as palmas ainda soaram mais alto. Cada vez mais alto. Os especadores passaram a ser o espectáculo. Um actor velho, ajeitou o monóculo e tentou chamar a atenção com uma voz de monóculo. Quando olharam aquela voz, optaram por reformá-la contra a sua vontade. Ainda se ouve trémula. Aquela actriz velha ainda não percebeu que não há papéis que prestem.

Não pedi nada ao meu tempo. E, apesar disso, o meu tempo deu-me mais do que eu tinha imaginado. Do que nos deu para viver, fomos nós entregando para ser gerido por governos e generais, … A multidão já não é o espectáculo e está de nariz especado nos vidros das televisões, enquanto outros falam do tempo em que esconderam o rabo entre as pernas.
O tempo ameaça tirar-me, pela boca de todos aqueles bichos, o que eu não pedi, mas ele prometeu..

Ao fazer assim, o tempo está a bater as palmas de novo. O tempo é o despertador do meu tempo.

E é, por isso, que eu tenho entredentes o cravo que a criança do meu tempo então pôs no cano da minha espingarda.

 


Contra a coerência do poder

Em todas as reuniões dos últimos dias, e foram muitas, ouviu-se o ululante 25 de Abril, mesmo que dele se não falasse. Em todas elas, procedi de forma incoerente, porque a coerência, a razão e os consensos são as palavras em que tropeçam os passos do meu povo.

Um povo não tem a coerência que lhe querem dar. Um povo não tem a razão que lhe pretendem dar. Os dias podem vir a parecer uma coerência, mas não são momentos de coerência. O povo quer a razão que lhe assiste e nem pretende dar razão nem que lhe atribuam razões que não são as dele. Um povo não tem os consensos em que o pretendem mergulhar para melhor o atar à corrida que a glória dos outros promove.

Há homens e mulheres que reescrevem a sua vida passada, que inventam hoje sentidos para os passos que deram há vinte e tal anos e, com tal arte o fazem, que os seus passos de hoje são os passos seguintes e consequentes. É a inteligência dos filhos do poder.

Eu só sei que dei passos e que nem sabia para onde me conduziam. Eles confundiam-se com o caminho. E eu não era um peregrino com destino traçado. Só sabia que o próximo passo era o futuro incerto e que este passo era o presente incerto.

A exaltação dos simples é esta incerteza de não conhecer de antemão o milagre que se segue.


Ser o outro

Quando jovem, o artista dedicou-se a pintar uma paisagem que não era. Chamaram-lhe nomes, como acusações. Ele tomou os nomes como sendo seus, embora não lhes soubesse o sentido.

O que ele queria era ser o outro, o que não está onde estão os que ele não quer ser.

Mais tarde, hão-de dizer que ele foi isso e mais aquilo, lançam-lhe os nomes como acusações e tentam acertar-lhe com as pedras do passado na cabeça. Mas ele já está, ao mesmo tempo, a receber outros nomes que o presente lhe atira como acusações ao futuro que ele anuncia de novo. E já nem lhe interessam os nomes, mas a paisagem que ele está a desvendar de outro modo.

O que ele quer é ser o outro. E é o outro. O que não está.

Os que assim não fazem, não podem mostrar o rabo. Não venha um burro, incosciente e esfomeado, comer-lhes os rabos de palha.


Coleccionador de perdigotos

Quando foi que isso aconteceu? O coleccionador das memórias alheias assim pergunta, até ao pormenor pergunta.

Quando o falante deixa cair um facto fora da boca, o coleccionador pergunta pelo documento comprovativo, pede fotocópia. Depois, o coleccionador vai comparar o facto com o facto, talvez lhe tire as medidas à cintura com a sua craveira intelectual, atribui pesos devidamente ponderados, talvez faça a média, talvez não resista a publicar uma interpretação.

O coleccionador ouve todas as verdades e todas as mentiras. Depois de as matar com todos os cuidados, o coleccionador atravessa-as com um alfinete e espeta-as sobre um fundo de flanela verde.

Quem vê a exposição de todos os factos, devidamente conservados, não sabe quais são as verdades nem quais são as mentiras. Mas cada um escolhe as suas verdades, fotografa-as e mostra-as aos netos, para que, mais tarde, estes possam ver no espelho da família, a sua sagrada família.

O coleccionador está pronto com as suas redes, os seus alfinetes, fotocópias. Com o seu trabalho persistente, espera estar a ditar ao futuro uma linha do passado. Não há outros ditados. Nem há outras ditaduras.

Todas as ditaduras têm passado. Nenhuma tem futuro. Ninguém melhor que o coleccionador sabe disso.


Oliveira do Hospital

Vai pelas violentas estradas da serra. Se tiveres tempo, vai devagar. Não deixes de parar no alto de tudo, se puderes. O que de lá podes ver é a animada estátua da paisagem que o temporal iluminou para ti.

Ao chegar a Catraia de S. Paio, abrandas porque vais ter de virar com cuidado à esquerda.

Entre a Catraia e Oliveira do Hospital, ainda podes ver uns metros de pinhal açoitados pelo vento e pela chuva. E rentes ao chão, podes ver as flores amarelas do tojo.

Amarelo verdadeiro é o amarelo das flores do tojo iluminadas pela chuva . Enche os olhos desse amarelo.

E adormece ao volante. Para que a estátua que te vai receber logo à entrada de Oliveira do Hospital não seja mais do que uma peça do teu pesadelo.

 


Das coisas simples

Eu quero fazer o elogio dos simples. Os simples de quem eu quero fazer o elogio não são simples. São pessoas e as pessoas não parecem simples. São pessoas cheias de sabedoria e as pessoas especiais não parecem simples.

Os simples que eu quero louvar são os que fazem com que as coisas pareçam simples, quando elas são simples. Eu quero elogiar os que fazem simplesmente, sem alarde, as coisas mais complicadas como se elas fossem simples. Eu quero elogiar os simples, aqueles que são obstinados laboriosos construtores dos dias.

Na educação e, em particular na investigação em educação, há muitos inventores de coisa nenhuma, há muitos inovadores, há muito escritos em casas vazias para alugar. Muitos investigadores e muitos professores são casas vazias para alugar, pintadas para ocasiões especiais, para ofuscar um examinador de curriculos, prontos a enganar uma multidão de mirones a precisar de milagres, ainda que inventados.

Eu quero denunciar os inventores, os estalidos de génio, as lantejoulas das últimas abordagens. Porque eu quero louvar os simples construtores, os que constroem todos os dias pequenas soluções, teimosas pequenas soluções, humildes pequenas soluções para pequenos grandes problemas.

Porque eu quero louvar os simples,
porque eu quero elogiar os que não deixam de fazer a pequena coisa do dia seguinte para fazerem a propaganda curricular da “maravilha” do dia anterior,
porque eu quero louvar os que, sabendo que cada passo que dão é mais importante que o ouro tolo que brilha nas artigalhadas de ocasião, não se deixam tentar pela prova em terreiro público,
porque eu quero louvar esta simplicidade, sabendo que ela não carece de louvor público, porque ela vive, em si mesma, para o serviço dos outros e é nela que surtem os sorrisos simples dos verdadeiros pequenos êxitos em educação,
eu quero chamar pelo nome, para que se destaque neste palco, uma penumbra assumida sem mácula e que tem nome
António Aurélio Fernandes, em vez de todos os simples de coração que dos actos educativos não fazem negócio, nem os trocam por miúdos.
Só os meus heróis mais simples percebem o nome. E esses não ouvem este louvor.

 


O sossego das finanças

Um dia destes fui às finanças, para entregar a minha declaração do IRS, já toda preenchida, porque ela é a mais fácil das declarações.

Durante o ano, mês a mês, se vão descontando os vinte e tal por cento do vencimento para o IRS. Os descontos são em tal quantidade que quando olho para o que ganho, penso sempre que chega para a minha vida modesta e quando olho para o que recebo, sei sempre que vai faltar. É por isso que é fácil.

Ou eu percebi mal o senhor, ou o senhor me percebeu mal e eu fui parar à avenida com os papéis debaixo do braço. Quando lá cheguei, havia um senhor a atender um senhor e o telefone e uma mesa cheia de declarações. Eu fiquei de pé à espera do atendimento. Quando o senhor se levantou para se ir embora, sem olhar para mim sequer, uma senhora despachada que tinha chegado nesse instante olhou para ele, cumprimentou-o e foi atendida numas dúvidas que tinha, cerimoniosamente convidada a sentar-se lado a lado, durante toda a eternidade da minha permanência.
Chegaram depois, dois senhores – um das finanças, o outro cliente- donos dos papéis que ocupavam uma das mesas. O cliente, que me conhecia, depois de me cumprimentar, foi sentar-se, acrescentar papéis, dizer coisas como “ver no caso de serem apresentados solteiros” ou no caso de “etc”. O senhor das finanças punha dados e tirava uma impressão dos resultados. Depois alterava dados e tirava outra impressão dos resultados. Etc. Fiquei completamente convencido que, durante aquela hora, se estivera a ver a melhor maneira de apresentar uma declaração para não pagar impostos. Uma senhora veio de dentro e entregou uma declaração para ser carimbada: é de fulana…

Quando chegou a minha vez, o senhor disse-me que não, para entregar a declaração não era ali, que havia um engano. Conformei-me. Mas já que estava ali, não poderia o senhor ver o que se passaria com o meu IRS – atrevi-me a sugerir. Resposta pronta: Não, não fazemos simulações. Volte cá depois de entregar as declarações.

Sorri. Levantei-me e saí para outra bicha da tarde, cheio de paz interior. Pude mais uma vez verificar que Portugal está na mesma, que alguns funcionários das finanças estão como sempre. Defendem a pátria dos senhores e mentem com a facilidade dos deuses.

À porta, antes de sair um funcionário que não me identifica pela farpela nem como dirigente do futebol, despediu-se: Então, Sr Doutor, veio ver quanto vai pagar de imposto? Respondi: Já vi tudo.
E saí, para a Avenida cheia de pessoas vulgares como eu. Que vão pagar.

 


Saco Azul

Assim como eu estou habituado a abrir o meu porta moedas, Luis Roldana estava habituado a abrir um saco azul.

Luis Roldana estava habituado a tirar do saco azul mihões, enquanto eu me habituei a tirar do meu porta moedas tostões.

Em muitas coisas somos diferentes, como já viram:
eu uso porta moedas, ele saco azul;
eu tiro os tostões quando há, ele tira milhões que sempre há;
o porta moedas é meu, dele não é o saco azul;
eu estou condenado à pobreza, ele vai ser condenado à revelia que a riqueza pode dar;
eu sou um socialista de merda, ele é um socialista que nadou na merda do poder;
eu paguei os impostos sem me terem perguntado, ele não pagou os impostos e perguntaram-lhe se queria pagá-los;
ambos podíamos ser portugueses, mas por caso Luis Roldana é espanhol;
eu sou professor e ele, por amor da pátria e do socialismo, até chefe da guarda foi;
eu posso ser preso amanhã e ninguém tem motivos para aflição, mas se ele for preso, já o disse, muita gente vai suar e é, por isso, que ele não vai ser preso, enquanto eu… não sei.

Em muitas coisas somos parecidos:
ambos temos nariz e dele somos senhores, embora eu não precise de o alterar;
ambos temos boca para falar e comer, olhos para olhar e pernas para andar;
ambos temos alma e somos pecadores.

Talvez que, ao aperceber-se destas minhas semelhanças com o Luis Roldana, o senhor das finanças me atenda no sofá.

 


A Balsinha de Deus

Quando vier o sol de Maio, eu quero emigrar para o norte nebuloso e frio. Eu não quero suar durante este mês de primavera.

Se bem o disse, melhor o fiz. No dia 25 de Abril, apresentei a minha candidatura a Bruxelas e, no dia 26, já estava procurar casa na nebulosa. Percorri aquelas ruas antigas, porque eu queria para mim uma daquelas fachadas de Bruxelas que o boletim metereológico me mostra, sob um céu permanentemente plúmbeo. Não foi dificil encontrar uma fachada devoluta, dado que nunca regateio preços de aluguer, a pagar pelo estado.

Instalei-me o melhor que pude. Fiz as camas com os cobertores que tinha fanado na tap, nas gavetas da cozinha espalhei os talheres aqui e ali coleccionados, nos armários do quarto de banho, arrumei cuidadosamente os frascos de brilhantina moderna, bem como as rações de cor para o cabelo. Penteei-me cuidadosamente, tudo para trás, e fui à conquista de Bruxelas.

Um motorista veio pegar-me meio da tarde, para ir à primeira reunião. Com o Balsinha pela mão, entrei no elevador.

E acordei todo suado no meu sofá. Antes assim que ter passado, com o Balsinha pela mão, a tarde e a noite no elevador avariado.
Depois disto, vejo-me a repetir, com fequência que a europa pode ser um pesadelo.


O conhecimento da inquietação

A semana que passou foi rica em manifestações contra o Ministério da Educação.
À prolongada contestação dos estudantes universitários, veio agora juntar-se a contestação dos mais jovens, estudantes do ensino secundário.

Aparentemente os estudantes mais jovens estão a contestar as provas globais do 10º ano. Mas atrás desse clamor, que justifica o momento dos acontecimentos, há um barulho de fundo que revela uma profunda inquietude, uma insatisfação com todo o ar que se respira na educação. Eles, ou pelo menos algumas das vozes, sussurram contra a reforma em curso. E, sem saberem muito bem o que significa a reforma ou o que ela não é e não está a ser, os estudantes manifestam que as coisas e as pessoas que delas cuidam precisam de ser verdadeiramente reformadas.

Há quem diga, como o Presidente da República, que está sempre do lado dos jovens e que percebe bem o direito à insatisfação, mas que eles perdem a razão quando são mal educados, quando tratam mal as pessoas e as instituições. No sistema educativo ensina-se isso: a falta de educação faz perder a razão. E a educação está farta de perder a razão.

Pelo meu lado, não estou a favor nem contra, porque não é preciso ser a favor do movimento dos estudantes, quando basta sentir insatisfação com o estado do sítio. E muito menos julgo a justeza do movimento pelas palavras que ele escolhe. Porque nem velhos sabidos sabem as palavras certas para contestar os donos do momento que passa. O regime democrático tem destas coisas: o poder pode fingir ouvir os outros, para fazer o que decidiu fazer antes de ouvir. Os maiores democratas estão no poleiro e cacarejam sobre o que é politicamente correcto e até definem a forma políticamente correcta de contestar. Isto torna tudo muito dificil.

Uma insatisfação pode ser muito dificil de explicar, ainda mais dificil para um jovem. E se ele não usa as palavras que são politicamente correctas, os responsáveis pela insatisfação, para não verem a insatisfação que criaram, chamam irresponsáveis aos jovens. Em educação, cumpre-se esta hipocrisia todos os dias.
Pelo meu lado, direi sempre que todas as palavras são boas, desde que esclareçam. Na falta de melhores palavras que sejam palavras que mordam como a pólvora os donos do mundo e das palavras convenientes.
As boas maneiras são como a luva que calça o ladrão. Vale a pena chamar pelo nome feio ao ladrão, se não houver outra maneira de o fazer ouvir a razão. Às vezes, a razão não tem explicação. Sente-se.


Lutas ou instantes

Está a fazer cinquenta anos.

A mulher perguntou-lhe se se lembrava quando tinha acedido a namorar com ele. Ele não se lembrava, só se lembrava que tinha lutado muito por isso.

Ela lembrou-lhe que tinha demonstrado muita coragem ao ter aceitado namorar com ele. E não lhe perdoa que ele tenha esquecido o dia.

Ele não se lembra das datas, talvez se esqueça dos momentos em que a vitória acontece. A sua vida é feita de combates e de persistência, não de vitórias. Não se esquece de um único esforço feito, esquece-se da consequência. Quem lhe dera poder esquecer-se que até para amar e ser amado se tem de lutar.

Ela lembra-se dos momentos, porque os combates foram sofridos, cheios de ignorância sobre o outro – algumas vezes inimigo, poucas vezes amigo – e agrada-lhe o momento do descanso que deu a si mesma e ao guerreiro exigente.

Ele está a fazer cinquenta anos e tem cara de muitos amigos, mas é a solidão que lhe enche os dias. Talvez não seja bem a solidão, porque se trata de facto de uma solidão a dois.

Ela diz que é a intransigência que lhe tolhe os abraços. E ela sabe que a sua intransigência não é mais do que a carapaça que protege os amigos da amizade.

Ele tem sempre uma totalidade para oferecer – na fidelidade, mesmo que não retribuída; no trabalho, mesmo quando não compartilhado; no amor, mesmo quando não vivido; nas ilusões, mesmo quando elas não existem.

Ela sabe que ninguém quer receber a totalidade do outro, que é composta do bem e do mal, da luz e da sombra, do ruído e do silêncio, do amor e do desamor, do abraço e do soco, da inteligência compassiva e da estupidez intransigente.

Ele sabe que o futuro nada lhe reserva. E sabe que é útil, sabendo que é utilizado. E sabe que, em qualquer momento, pode ser dispensado do convívio. Tem cinquenta anos e guarda marcas de todos os combates. No seu diário as sombras adensam-se e tomam o lugar de todos os combates que não quis travar.

Ela espera-o com os braços abertos e quer levá-lo para o lado iluminado da rua, com os netos, que ainda não há, pela mão.


A retribuição.

A formação contínua dos docentes do ensino não superior começou a ser encarada com regularidade, a partir da publicação do estatuto da carreira docente e, definitivamente com o Regulamento Jurídico da Formação Contínua. Há uma certa bondade nas ideias sobre o assunto e os professores não hesitaram em dar-lhe o benefício do seu labor.
Concelho a concelho, surgiram então Centros de Formação de Professores que, ao lado das instituições do ensino superior e outras, deram resposta às necessidade de formação dos professores, a nível local, e deram resposta à necessidade de gastar o dinheiro que o governo recebeu da Comunidade para a formação.

Tudo foi feito com urgência e criaram-se, para isso, da noite para o dia, as Associações Concelhias de Escolas que não existiam e continuaram a não existir fora do papel em que escreveram o nome. Milhares de professores em todo o país promoveram iniciativas de formação, frequentadas por milhares de educadores e professores. As Associações que não existiam foram sendo construídas para esse fim e pode dizer-se que, para além de toda a iniciativa para prestar serviços de formação, os Centros de Formação acabaram por criar união, entendimento entre as escolas de cada concelho, e lançaram alicerces de verdadeiras associações de escolas, que muito podem a contribuir para criar equilibrados e melhorados serviços de educação às comunidades que servem.
Para isso, centenas de professores e outros funcionários realizaram um trabalho notável, a maior parte do qual, não retribuído ou mal retribuído. É claro que houve quem tivesse sido bem retribuído pelos serviços que prestou. Mas todo o esforço de levantamento dos Centros de Formação não foi retribuído.
Passado um ano, mudado o Ministro da Educação e o quadro comunitário de apoio, fala-se muito de grandes mudanças que podem pôr em causa todo o esforço feito. E o que é verdade é que se fala muito, mas não são os Centros de Formação que falam, não foram chamados para serem ouvidos, nem sequer recebem explicações para as demoras nas definições que todos anunciam.
Quem mais trabalhou, para cumprir as directivas do Ministério, não recebeu qualquer compensação nem está a receber qualquer respeito. Mais uma vez, se pode estar a assistir a uma demonstração de puro terrorismo da parte da Adminsitração para com os seus professores e para com os seus funcionários. A ideia que reina é aquela mãe de toda a maldade: os professores são funcionários, os funcionários são mal pagos e para obedecer. Uma necessidade do sistema os utiliza, outra necessidade os inutiliza. Não pode haver assim Administração Pública séria, sem respeito. Não há educação. E, assim, também não há democracia.


Profissão e Fé

Eu não uso os punhos de renda nem o laço que me compraram para o dia da comunhão solene ou da profissão de fé.

Mas também não uso os mesmos olhos, nem mantive a promessa de renegar a Satanaz. Preferi colher da árvore, que o não é, o conhecimento do bem e do mal. Preferi ser humano e não ter mais fé do que aquela que um homem vulgar pode ter no destino do homem, enquanto descobre as condições para a sua sobrevivência, neste meio que lhe é hostil, mas em que vive, e que ele hostiliza, para além de toda a conveniência.

Não dou por mim a imaginar que mais facilmente chegarei a Deus se tomar o caminho pelo buraco no ozono, embora saiba que, se a morte é a passagem para lá, o buraco do ozono pode apressar a minha passagem por este vale de lágrimas preparatório do grande encontro e ajuste de contas.

Não me exponho ao sol mais do que o conveniente, enquanto não houver a cura definitiva para o cancro da pele. Mas também não deixo de fumar o meu cachimbo, embora me digam que sou um suicida mal cheiroso.

Não me levanto de manhã a fazer os votos de quem tem uma missão para cumprir. Mas vou cumpri-la para que o dia passe.

Eu não uso os punhos de renda nem o laço que me deram para o dia da comunhão solene. Nem vou fazer nova profissão de fé.

Deixo para os outros a fé que lhes dá muito sossego e consolo. Sem sossego nem consolo, mantenho a profissão.

 


Jardim de Santiago

À noitinha, de braço dado, o homem e a mulher passeiam, pelo jardim monumental que plantaram ali entre os combóios amarelos de Santiago.

Sobem e descem as escadas, observando os lentíssimos acontecimentos do crescimento das árvores e sombreado verde da relva nas encostas, dos acabamentos das obras.

Falam deste defeito português de demorar a construção dos espaços do lazer e da discussão infindável da manutenção por fazer.

E esperam que o jardim de Santiago se conclua antes que a ignorância e a descrença o destrua.

À noitinha, de braço dado, o homem e a mulher passeiam: o jardim é povoado a cada passo dado, que são os passos que os medos mais receiam.

À noitinha, no jardim perdido, o homem, a mulher e Santiago passeiam de braço dado e punho erguido.


QUARTETO DE ASAS

Um dia destes, a Cãmara e mais não sei quem puseram a tocar na rua da biblioteca um quarteto de saxofones: alto, soprano, baixo e barítono, assim eram os jovens.

Os sons são mais livres ao ar livre e, perturbadas, as pessoas ficam para ouvir as aves
e o que paira no ar.

Um dia destes, a Cãmara e mais não sei quem dispensam de licença o artista que ocupa a esquina. Uma nota mais aguda há-de fincar seus pés nos ouvidos voadores
do homem veloz

O homem veloz tem umpedal para travão, pára, repara-se e repara: a insubstituível peça da multidão pode então ouvir a sua cidade, cara a cara.

Mais leve e limpa, a cidade se cruza consigo e conversando, sentada sobre a leveza do seu ar e das suas águas, abre o postigo: a luz da música entra e saem, voadoras, as mágoas.


A sociedade civil

O que é a sociedade civil? A sociedade civil não é militar, mas nos congressos da sociedade civil há muitos militares. A sociedade civil compõe-se dos que não constam dos partidos, mas no congresso participam os militantes dos partidos e até deputados que não há fora dos partidos. A sociedade civil é a sociedade civilizada?

Quando a sociedade civil se reúne é para criticar quem não faz parte da sociedade civil. Mas quem é que não faz parte da sociedade civil? Só os que dela se auto-excluem. Mas se não querem estar na sociedade civil, de que sociedades fazem parte? Concerteza das sociedades por quotas.

A ideia é participar na definição das políticas que nos governam, o que quer dizer que já concluiram que o simples gesto de escolher programa e candidato e votar já não constitui suficiente participação. A sociedade civil preocupa-se com o futuro de Portugal e a sociedade dos políticos preocupa-se com quê? Parece que se tirou a conclusão que a sociedade dos políticos só se preocupa com o seu próprio futuro. E esse nunca é sombrio, pois já garantiram que, com pequenas permanências silenciosas e ordeiras em S. Bento, se obtêm as reformas que são mais do que complementares das outras actividades a que se podem dedicar.

A sociedade civil reúne-se para influenciar a meteorologia: fazem trabalhar barómetros, criando cristas de alta pressão e depressões; provocam vendavais,… sei lá que mais.

Como civil, gosto da sociedade civil. Será que ela gosta de mim? Poderei encetar um namoro com ela? O padrinho permite? Ou isto é tudo uma confusão e eu não sou mais que um membro da sociedade civil. Braço ou perna? Ou outra coisa?

Ao menos uma dança hei-de conseguir no próximo baile com a sociedade civil, embora ela se preocupe mais em fazer dançar os portugueses profundos, como o Cavaco ou o Guterres. A surdez do Cavaco não lhe vai permitir experimentar a dança, porque não ouve o convite. Ao contrário, Guterres ouve demais e, em vez de dançar com a música que lhe dão, grita e dança uma música que tem de ouvido desde que foi eleito comandante do seu agrupamento de escuteiros.


Português

Se eu fosse simplesmente português, esperaria mais uns meses para comer melancia. Sendo europeu, posso começar já a cuspir as pevides da minha melancolia mediterânica.

Se eu fosse simplesmente português, lia os discursos de Sua Excelência, uma ou outra estratística e comprazia-me com tanta sabedoria e com o sucesso. Sendo europeu, ouço as outras línguas e os discursos dos portugueses cheiram-me a ranço e alguma pouca vergonha, quando, como europeu, como com um ordenado português.

Se eu fosse simplesmente português, exigia que as fronteiras fossem todas vedadas a todas as importações, excepto às dos fundos comunitários. Proibiria evidentemente as importações das notícias inconvenientes sobre o crescimento português e sobre a retoma. Sendo europeu, tenho de ouvir o que a Europa tem a dizer sobre o assunto e não deixar de me preocupar, apesar dos bons esforços do nosso bom governo.

Se eu fosse simplesmente português, emigrava para a europa.


Ruas

As ruas de Aveiro são iguais às ruas de qualquer outra cidade
No entanto, eu percorro-as ora num sentido ora noutro. E quando tal é possível tomo um lado e depois o outro das ruas. Mas muitas vezes, elas são tão estreitas para os carros que não há passeio que nos salve. Encosto-me às paredes e espero ser esmagado pelo passeio que se revolta aos meus pés.

As ruas de Aveiro são iguais às ruas de qualquer outra cidade.
O cão passeia por elas, dando a pata dianteira à mão direita do dono e quando levanta a pata direita para urinar contra o candeeiro público, cai para o lado esquerdo, dentro da rua. Um carro veloz trava bruscamente e entra na montra de uma loja de lingerie masculina. O homem leva agora o cão ao colo e, aproveitando a confusão, rouba umas cuecas vermelhas para o cão.

As ruas de Aveiro são iguais à ruas de qualquer outra cidade
e apesar disso, nada do que imagino acontece, a não ser o facto de serem perigosas as deambulações dos peões.

As ruas de Aveiro são iguais às ruas de qualquer outra cidade
mas os peões de Aveiro são muito mais descrentes e cautelosos do que os peões de qualquer outra cidade.


Avenidas da loucura

Pelas avenidas, passeia-se toda a doença e toda a peste
porque onde as pessoas passam ficam a pairar as suas maldições.

As aéreas avenidas são os esgotos das mentes mais perturbadas e sábias. Por elas, levadas pelos seus ventos, escorrem as lágrimas das mulheres solitárias ao encontro das masculinas flores entediadas. Por elas se estendem as esplanadas coladas aos muros e às insónias diurnas dos homens que descansam de nada terem para fazer.

Pelas aéreas avenidas fluem as maldições ao encontro do mar. Poisadas nas palmeiras, há aves que veem e comem a maresia longínqua que o cheiro das doenças e das pestes é.

Pelas avenidas, uma mulher declama um soneto. Um homem, enroscado no poste de uma placa de estacionamento proibido, observa-a atentamente. Quando ela chega ao último terceto, o homem salta agilmente sobre a sua presa e devora-a sofregamente. Refastelado numa cadeira da esplanada, o homem digere com o café e uma água das pedras.

Poisadas nas palmeiras, as aves repetem o soneto que acabaram de decorar. O homem abre um olho, faz pontaria e fuzila a memória.

Um padre exorcista das avenidas vem, com os seus passos cautelosos, tomar o seu lugar na esplanada. Profere orações e ameaças contra a loucura das avenidas, enquanto mastiga o seu jesuíta.

À avenida sempre dão o nome do doutor, ou do homem morto que teve a ideia da avenida, por onde fluem as maldições e a peste das palavras a caminho do mar. Palmeiras deslocadas agitam-se na paisagem da avenida, à passagem das imprecações entredentes.


As classes dos Peregrinos

Entra-se mais facilmente em Portugal vestindo a pele de cordeiro ou de peregrino.

Isto percebeu Lopes da Cruz, que pediu visto de entrada calçado com as sandálias de peregrino.

Fátima é bem o altar do mundo, ou de todos os mundo. Fátima acolhe no seu seio todos os pecadores, mesmo os assassinos, nas filas de pessoas importantes.

Quando eu fui a Fátima a pé, niguém me ofereceu uma cadeira. Mas fiquei a saber agora que há uma fiada de cadeiras propositadamente ali postas para as personalidades mais importantes aos olhos de Deus. Há mesmo um padre que usa radar e, mal reconhece um importante, o guia até ao paraíso das cadeiras importantes. E fiquei a saber que as pessoas importantes podem ser o rei de portugal, a mulher de um ex-presidente, a mulher de um traidor do seu povo, um traidor do seu povo.

Não me consta que todos os outros crentes timorenses tivessem tido a honra de fila especial ou sido guiados para o assento ao lado do presidente ou da mulher do presidente. Ironias de Fátima.

Lopes da Cruz deve ter gostado de Fátima. Ao menos em Fátima lhe reconhecem o mérito de ser o que é. Em Lisboa, deixaram que um coro de marginais timorenses lhe atirasse à cara com nomes diferentes de peregrino e com coisa bem diferente da água benta. Ainda sem reconhecer o papel histórico de Lopes da Cruz, os timorensses chamaram-lhe assassino e despejaram-lhe na cabeça um balde de estrume.

Ao contrário, Fátima dá-lhe o lugar de honra que dá a todos aqueles que se esforçam para derrotar o comunismo.

Deus disse a Maria: Vais ter de aparecer realmente àqueles padres loucos de Fátima. Que eles tropecem nas próprias saias da sua insanidade e sejam obrigados a pedir asilo na Indonésia – eis o que te ordeno que faças.
Ela disse: Antes a desobediência me cegue que entrar em tal negócio.


José Afonso

Eles eram o poder mais escuro e escondiam-se como um crime.

Tu levantavas a voz e era onde eles se escondiam que a tua canção sadia os perseguia como um remorso. Assim como nós decorámos as tuas canções para nos acompanhar no caminho até ao dia mais raro, eles te decoravam por puro ódio e medo.

E se há música para os nossos ouvidos, tu a inventaste. O povo cantou uma melodia, e tu, em vez dele, carregaste o fardo de que tinha sido feita. Ouço essa melodia ancestral, liberta pelo poema combativo que lhe colaste e pela tua voz, serena e contida, como devem ser os apelos à luta pela liberdade, pela beleza que só um homem-irmão do homem pode mostrar. Quantas vezes foste a nossa voz e quantas foste em vez de nós?

Eles eram o pode mais escuro e escondiam-se como um crime. Tu levantavas a voz como anúncio de futuro mais justo.

Por mais homenagens que te façam sempre te ouvirei como se ouve um rasgão na noite escura. A tua voz é um brilhante punhal que rasga o poder maléfico, mas é também o sussurro que adormecia as minhas crianças.

Vive aqui. Temos um lugar para ti. Somos nós por ti, hoje.

(encomendado para a festa de homenagem)


ANEDOTA

Raramente me contam coisas verdadeiras. Procuram contar-me coisas verossímeis. No Algarve contaram-me várias coisas verdadeiras. A mais verdadeira delas todas vou passar a contá-la, embora a minha mulher me tenha dito que já a leu num jornal.

E num dia deste ano de 1994, Deus mandou chamar à sua presença, os três maiores líderes do mundo. O anjo da convocatória estava também encarregado do tele-transporte e foi, por este meio, que Bill Clinton, Boris Ieltsin e Aníbal Cavaco se viram perante Deus.

Este não tardou a anunciar-lhes o motivo da convocatória e logo acabou a curta reunião. Eu vos peço que, junto dos vossos grandiosos povos, sejam portadores da seguinte nova: Determinei que o mundo acaba dentro de 30 dias contados a partir de hoje.

De volta aos seus grandes países, os três grandes líderes reuniram os seus conselhos de ministros.
Bill Clinton disse: Trago-vos duas notícias, uma boa e outra má. A boa é que tal como está previsto na nossa constituição, Deus existe. A segunda é que, na audiência, ele me comunicou que o mundo irá acabar dentro de 30 dias.
Boris Ieltsin transmitiu duas más notícias. A primeira má notícia – disse Ieltsin – é que, ao contrário do que Lenin nos disse, Deus existe. A outra notícia é que a crise da nossa Rússia vai ainda prolongar-se por mais 30 dias.

Cavaco reuniu o seu Conselho de Minstros para lhes comunicar duas boas notícias:
A primeira é que Deus existe e, numa audiência que me concedeu, me nomeou seu porta voz.
A segunda boa notícia que Deus me deu é que a nossa crise vai acabar dentro de 30 dias.


Mendes Bota

O algarve dos empresários ensinou-me muitas coisas.

Na parede da entrada da empresa, o cartaz dizia assim:
Na teoria explica-se porque é que as coisas funcionam, mesmo que nada funcione.
A seguir definia-se que, a prática serve para pôr as coisas a funcionar, mas sem saber porquê.

Finalmente, num assomo de seriedade, o cartaz deixava ler o seguinte:
Nesta empresa, ligámos a teoria à prática e é, por isso, que nada funciona e ninguém sabe porquê.

O meu amigo disse-me que a “máxima” não era aplicável naquela empresa, mas que era seguramente aplicável ao país, pelo menos, ao seu sistema educativo.

E é por isso que dizem que o algarve não é portugal.


Deixai vi(ve)r as crianças

O anjo do senhor apontou Maria e esta concebeu pelo Espírito Santo. Ser criança assim, dispensa a vontade.

As crianças e a infância têm um dia mundial, um instituto de apoio português, um telefone para se queixarem, um programa de televisão para darem livre curso à sua imitação da idade adulta, outros para conhecer a europa e a disneylandia, um para conhecer o tio carlos, e até um para se tornarem heróis por via da mentira e da imitação da vida verdadeira que é a televisão.

As crianças têm jardins de infância, escolas, reformatórios, catequeses e até empresas onde trabalhar.

As crianças constituiram-se em classe possidente dos bons e maus sentimentos dos adultos. Servem de alimento a “lobbies”, a lobos maus e a tubarões que, por via delas, vendem aos pais o plástico que há-de atafulhar e atrofiar o mundo. As crianças são habituadas a comer todas as drogas que o mundo adulto produz. Mal chegam à idade que têm, começam a vender-lhes as outras drogas, ao mesmo tempo que o comércio dos valores lhes vende a droga dos malefícios da droga e lhes apontam o caminho do bem que eles definiram e que vendem. Mas é tudo a mesma droga.

Já não sou criança, mas se fosse, provavelmente, gostava que me deixassem em paz, que não me fizessem festas na cabeça e principalmente que não me cantassem a canção do bandido em que este diz, parafraseando a criança tranquila que a pessoa é, que o melhor do mundo são as crianças.

As crianças só pedem que lhes amem os pais e que estes se amem entre si, para que possam amar o mundo. As crianças de hoje só pedem que não vendam aos pais a ideia que são rascas ou que estão à rasca. E também pedem que não lhes vendam anos internacionais da família, cheios de folhetos sobre o que deve ser a família, quando a família não é mais do que uma construção sem andaimes, sempre pronta a cair, sempre pronta a recomeçar-se.

As crianças envelhecem, ganham rugas, brilhos nos olhos e constroem novas crianças.

As crianças devem crescer pela vontade de crescer, sendo diferentes em direitos e deveres e iguais em direitos e deveres.

José reparou em Maria. Maria reparou em José. Não disse: Seja feita a vossa vontade. Mas em tudo participou com vontade. Apesar disso, são pais de um filho de deus, mas este capaz de tropeçar na sua própria vontade.


O CORPO DE DEUS

Vi pelo canto do olho, a escultura deformada do corpo de deus.

Depois de vitimado em prova da fórmula 1, grupos de fanáticos não o deixam em paz e passeiam esculturas em vez dele pelas ruas de muitas cidades.

Vi a tempo. Porque os homens-roda conduziam a escultura a uma velocidade doida em direcção à esquina onde tinha poisado o meu corpo de espectador. Andor! – disse eu às minhas pernas.

Sem o meu pneu, para amortecer o impacto, depois de embaterem contra a esquina, os restos acabaram por entrar pela montra de artigos eléctricos. Os quatro homens-roda, grelha, aileron, totalmente destroçados, espalharam-se pelas ruas em redor.

Só o corpo de deus se salvou e está agora num altar improvisado da loja de electrodomésticos, rodeado de piscantes luzes das cores do arco-íris que varre o céu desde um pote de trinta moedas de ouro a outro pote de trinta dinheiros.


O elogio do sistema por Ministro

Nas últimas semanas, os professores têm sido muito maltratados. Não, não foram os alunos, nem os pais dos alunos, nem a organização a favor da sociedade sem escola, nem um grupo fundacionista da nacionalidade quem maltratou os professores.

Numa reunião com os alunos do 10º ano, a Ministra disse que a formação contínua dos professores era de muito má qualidade e que era preciso transferi-la toda para a universidade para que ela ganhasse credibilidade. Nenhuma avaliação aponta para isso. Só a sensibilidade ministerial e doméstica poderia produzir tais afirmações fora de propósito. Eu penso que sei o que se passa na cabeça: a formação contínua não se limitou a ser aquilo que a Ministra pensa ser a formação contínua e que é concerteza de qualidade discutível, pois todo o seu pensamento é doméstico e fora do tempo.

Em resposta a uma interpelação do grupo parlamentar comunista, a Ministra volta a atacar a classe dos professores, acusando-os de serem culpados pelo caos das escolas e do incumprimento da reforma.

Desta forma, a Ministra rebenta de uma só vez com o ensino todo, desde o pré-escolar até ao ensino superior, já que este é responsável pela formação inicial dos professores, e também com o próprio Ministério que é responsável pelo recrutamento dos professores e pelo sistema todo.

Responsável pelo Ministério há muito mais de 10 anos, o PSD não é autocrítico, mas é suicida. Mais um caso a acrescentar a taxa dos suicídos portugueses.

Nas últimas semanas, os professores foram muito tratados. Raramente se fala deles, mas mais raramente ainda se fala deles fora do contexto próprio. Os professores agradecem. Não é de esperar que eles sejam correias de transmissão deste ou daquele partido. Também não é de esperar que eles sejam todos bons, como a senhora Ministra quer que sejam ou como seria desejável à luz de qualquer critério. Mas são o que são e são os melhores que o Minstério pôde, com toda a sua inteligência, recrutar.


O sossego dos dias e o jornalismo

O meu sogro quis ser editor de um jornal naturalmente bondoso e verdadeiro.

Dizia ele que os seus artigos de opinião e as suas notícias falariam do que é normal e, só nesse ambiente de regularidade, mergulhariam as excepções.
Por exemplo, uma notícia possível seria:

Joaquim da Cruz, professor da nossa terra, acordou cedo. Levantou-se bem disposto e, depois de um pequeno almoço simples, tomado em companhia da mulher e dos filhos queridos, partiu para a escola, não sem que antes tenha dirigido algumas palavras amigáveis e beijado a sua mulher e filhos. Durante toda a manhã, Joaquim da Cruz deu as suas aulas, sem nunca ter levantado a sua voz, para contrariar os seus alunos que amiudademente o interpelaram, como é hábito. Nos intervalos conversou com os seus colegas sobre vários assuntos científicos, pedagógicos e mesmo sobre o seu estatuto profissional que está longe de ser o melhor. Antes das duas, chegou a casa, onde já o esperavam a sua mulher e os seus filhos que tinha regressado mais cedo. Almoçaram sossegadamente, e a troca dos pontos de vista sobre os acontecimentos do dia foi sempre delicada.
Quando saíu de casa, para o trabalho da tarde, ao atravessar a passadeira da sua rua, foi colhido por uma motorizada conduzida por um jovem. Por qualquer razão inexplicável, os travões da motorizada não responderam e o jovem, que sempre tinha respeitado escrupulosamente os direitos dos peões, acabou por causar sérios danos ao professor Joaquim da Cruz. Depois de pedir repetidamente desculpa, o jovem providenciou o socorro do 115, que conduziu o professor ao hospital, onde este ficou em observação, por pura precaução.
Quando soube, a esposa foi ao hospital visitar o marido que, visivelmente bem disposto conversava animadamente com o jovem responsável pelo seu atropelamento. Quando, por sua vez, chegaram os filhos, estes puseram-se a conversar com o rapaz, enquanto a esposa ajeitava a roupa de Joaquim da Cruz.

No jornal da concorrência, apareceu, em letras garrafais, na primeira página, o seguinte título:
Mais um desastre com motorizadas – Jovem irresponsável atropela professor numa passadeira.

O meu sogro não vendeu um único exemplar e, por isso, também nunca chegou a editar o jornal. A concorrência vendeu toda a edição e as pessoas ficaram informadas sobre o perigo que todas as motorizadas e todos os jovens representam.


SENTIMENTOS QUADRADOS

Desenho um quadrado, à mão livre. Dentro dele, inscrevo um círculo. E dentro deste, um quadrado é preso pelas minhas mãos.

Em redor do quadrado maior, desenho agora o círculo que o aprisiona e, em volta deste, não resisto a desenhar um novo quadrado.

Assim desenho os sentimentos. Uns dentro dos outros, uns presos pelos outros.

E todos, uns dentro dos outros, prendo-os na lapela, mesmo ao lado de um cravo que deixo murchar há 20 anos.


TIRO AO ALVO

De repente, uma pomba branca pousa no beiral. Olho-a. Se, ao menos, tivesse tempo de voltar à casa onde guardo a metralhadora. Podia evitar a paz que se pousa por tudo quanto é canto.

De repente, a pomba branca pousa na biqueira da minha bota de combatente, extenuado por uma derrota mais pesada que a vida. Se ao menos eu tivesse forças para levantar o pé, podia esmagar a paz de um só golpe.

Consigo erguer-me a custo. Todo curvado, mas de pé, sobre os meus dois pés, ergo uma granada de sobra como um desafio. Um atirador furtivo pode fazer pontaria calmamente da sua janela.

Ouço o tiro, mas não o sinto. A pomba branca está desfeita.


ONETTI

« Ana Maria via crescer e atenuar-se uma repentina vontade de vomitar; imaginava o resto da noite com Marcos, as probabilidades de ser espancada, as origens possíveis daquele impulso, agora frequente, que a obrigava a porvocar agressões. As agressões significavam um final, uma pausa, uma aniquilação; a substituição de si própria, do mundo inteiro, pelo pranto e pela autocompaixão. Significavam a curta liberdade do ódio, prometiam um efémero, parcial, regresso da ternura: a sua boca trémula, aberta, tapada pelo ombro de Marcos adormecido. As lágrimas e a respiração estendiam-se, na escuridão, sobre a pele do homem, sobre o seu odor, a sua temperatura. Suavemente, a piedade deixava de se dirigir a si própria e descia do seu peito, das recordações que estava a amparar, e começava a cobrir, como uma manta, como uma carícia perfeita, o pesado corpo do homem e o seu sentido.»

Juan Carlos Onetti morreu. Dele guardo o livro.


AZARES

Descalço-me e entrego os pés ao calista. Ele procura calos e, não os encontrando, opta por cortar dois dedos que me incomodam. Ele diz-me, quando me vê desequilibrado e ferido, que tem de fazer trabalho se quer apresentar conta. É um homem sério.

Tiro o chapéu e adormeço nas mãos do barbeiro. Ele corta-me o cabelo e a barba. Entusiasmado com a faena, corta-me também uma orelha. O público entusiasmado bate palmas. Acordo com o barulho e só quando saio, ao pôr os óculos, dou pela falta da orelha. Quebro a haste desnecessária e volto à barbearia onde, depois de algumas fintas de arena, a espeto no dorso do barbeiro, entre “olés” entusiasmados dos aficcionados.

Deleito-me nas mãos do alfaiate. Ele fala entusiasmado sobre o meu fato, enquanto me tira as medidas. Distraído falo-lhe do meu pneu. Quando saio do alfaiate, já perdi a favor da sua tesoura entusiasmada tudo o que não lhe convinha às medidas. Dou dois passos e desmaio.

Quando acordo, estou nas mãos de dois médicos entusiasmados. Desconfiado com tanto entusiasmo, tomo finalmente a atitude do desconfiado e levanto-me para fugir. Mas caio desamparado com duas pernas a menos.


BIBA

O Benfica ganhou o campeonato e metade do país estremeceu de júbilo.

Em muitos aspectos, a fé no Benfica é mais profunda que no PSD. Há quem espere milagres maiores, por exemplo, no Sporting.

O Benfica é um grande clube de muitos milhões e deu uma boa lição ao mundo. No momento da vitória não deixa de mudar de treinador.
O PSD é um partido de milhões. Não sei se o PSD vai ganhar as eleições. Mas aqui fica o exemplo do Benfica que é bom que seja seguido: Se ganharem, … mudem de treinador.

Já sei que se perderem, vão mudar de treinador. Mas nesse caso, não façam isso, não é inovador e nós queremos ver o vosso treinador parolo, à frente de uma oposição construtiva, mas com vermes ao cantos da boca.

Viva o Benfica!


MONTEIRO DE ESTERCO

Ando pela rua abaixo, confiando que não há perigos a espreitar-me em cada esquina. Conheço a rua e conheço Aveiro, para saber contornar as esquinas e os obstáculos.

Ali perto da Junta de Freguesia da Glória, levanto os olhos para atravessar o cruzamento. Atravesso e vou estampar-me contra um poste no meio do passeio para peões.

Meio atarantado, irritado com a minha distracção caminhante, olho para o obstáculo. E dou de caras com dois postes a segurar uma grande fotografia do Manuel Monteiro, que, através dos seus óculos de seminarista, perdoa que lhe tenha batido nas bases.

Eu não lhe perdoo, nem a ele, nem a quem teve a lata de autorizar semelhante sombra no meu caminho. Roguei-lhe pragas do género: Que uma multidão de cães o fareje e lhe inunde os sapatos e o deixe plantado em esterco.

Posso ainda não ter decidido em quem vou votar, mas já sei em quem não voto.
Nunca votarei num obstáculo arrogante e descabido.


TUDO PELA PÁTRIA

Tive o cuidado de ser um grande patriota no dia dos patriotas.

Recostado no sofá, assisti à cerimónia da entrega de todas as comendas, grandes cruzes, oficiais, cavaleiros, etc de todas as ordens. Há muitas ordens, a saber: uma de santiago que tem a ver com o lugar onde moro, outra de mérito, outra da instrução, outra para o comércio e para a indústria, para além de outras que me falham.

Comecei no primero canal, mas acabei na TV2, tal era a quantidade de comendadores a ver e tal era a importância da taça de Portugal.

É claro que estive também entusiasmadíssimo a seguir o desafio entre os dois gigantes da bola, Sousa Cintra e Pinto da Costa. Comecei no 2º canal e acabei no primeiro, tal era a quantidade de pedras e garrafas e tal era a importãncia do share do canal 1.

Do que mais gostei foi ver subir ao pódio da coisa o vitorino, o sérgio godinho, a céu guerra e o mário viegas. Ao lado dos que por altos feitos mereceram a ordem da jarreteira, subiram todos os derrotados das antigas lides, especialmente agraciados por terem feito o favor de concorrer e perder. Assim vimos o cabeçudo do Freitas do Amaral e a engenheira Pintasilgo, sentados na primeira fila.

Do que mais gostei foi a ascenção dificil ao pódio da coisa pelos jogadores do Pinto da Costa. Lá em cima, a Ministra debitou que não era Ministra deste desporto, depois de ter sido refrescada por uma garrafa mais quebradiça e com alta do Pinto da Costa que a declarou não tola.
Fiquei perplexo, porque não sabia que havia outros desportos a ocupar o Minstério.
Um jornalista da RTP comentava que, com estas actuações, não seríamos reconhecidos internacionalmente. De facto, como ainda estamos longe de outros países como a Inglaterra, em que há uma raínha para o desporto rei.

O país pode ser pequeno para tantos comendadores, para presidente e primeiro sargento. Ainda é mais pequeno para que nele caibam, ambos ao mesmo tempo, Sousa Cintra e Pinto da Costa. Porque se os jogadores são caros, eles são impagáveis.

Sousa Cintra e Pinto da Costa já são comendadores?


URNAS

Levantei-me, como é hábito. Soprava um vento aflito pelas minhas ruas.

O vento fez voar as páginas do meu jornal. Sempre contra o vento, fui até ao café do domingo e li o que sobrou do meu jornal.

Em todo o lado, por onde passei e por onde me sentei, vi pouca gente. Mas vi alguns poucos companheiros do costume. Já era quase meio dia quando me lembrei de fazer o que o “verão demasiado” me andava a impedir de fazer. Comecei pelo lado mais fácil da coisa e escrevi um texto sobre a tropa de choque – o 10 de junho de portugal, de camões e das comunidades, mas principalmente das condecorações aos militares e civis em parada e da guerra implacável que se travou entre os dragões e os leões, acompanhados por árbitros a quem se impõem e se arrancam as comendas de mérito, entre o minuto zero e o minuto 120 da contenda.

Não me lembrei de nada que justificasse tanta ausência. Esforcei-me por pensar sobre o fenómeno e, por fim, vi duas explicações: foram todos despir-se para a praia ou foram todos enterrar os seus votos mais íntimos nas urnas.

Ao meio dia, ainda me inclinava para o ataque às urnas.

Levantei-me como é hábito. Vou votar como é hábito. Começo a pensar que ir votar como é hábito é a forma mais penosa de não votar. Mais vale fazer um voto de silêncio, um voto de castidade, um ex-voto. Mais vale um voto no mar que dois votos na mão. Mais vale votar tudo isto ao desprezo. Não sei se vale a pena votar nuns para dar cartões amarelos e vermelhos a outros. Mais vale fazer uma finta e introduzir na urna um cartão vermelho.

Ao meio dia ainda estava só inclinado. À tarde já estava deitado.


PORTUGAL

Cavaco anunciou projectos. Um destina-se a combater o desemprego. Com a ajuda da europa, propoe-se desenvolver coisas como as artes tradicionais, o turismo rural, etc, isto é, criar novos empregos na recuperação de portugal e lugares para que os turistas vejam como estamos a recuperar tudo aquilo que ontem nos esforçámos por eliminar.

O outro destina-se a combater o desemprego, com a recuperação das aldeias antigas. O plano foi anunciado na velha Idanha que bem precisa e abrange algumas aldeias que têm vindo a ser mantidas e recuperadas pelos que têm dinheiro para se proteger, contra a vontade do progresso e do desenvolvimento auto-estrábico.

E pronto. Só me resta dar um conselho à nossa vasta audiência: Visitem as aldeias antes que sejam vilas, reparem no artesanato antes que seja indústria, visitem os solares antes que sejam impedidos de as ver por falta de dinheiro. Visitem-nas pelos caminhos pedregosos antes que sejam convidados a fazê-lo por auto estradas com portagem.

Nada me move contra os programas de recuperação, o fim do isolamento, a elevação do nível de vida das populações, etc. Mas há sempre gente que recupera para outros fins. E isso é o fim. De todas as picadas.


AMNISTIAS

Estou feliz com o desfecho do processo conhecido por Aveiro Connection. Aquelas aministias todas para os pobres contrabandistas que teriam de pagar muitos milhares de contos, já há muito branqueados pelas contas de familiares e amigos para todas as ocasiões. Estou convencido que qualquer deles só tem a roupa que traz sobre o pelo e que mesmo essa é oferta de familiares solidários, assim como é pura caridade o tecto que os abriga das intempéries.

Eu que sou rico, com ordenado ilíquido para cima de todo o dinheiro que algum dia sonhei receber, tenho uma filha que, nada tendo, não quer pagar as propinas. Primeiro crime menor de uma jovem inconsciente deve ser amnistiado. A minha filha é também uma criatura com roupa paga pela família e sustentada por pura caridade. O seu único senão é ser dependente de pais reconhecidamente ricos, cheios das mordomias que o ministério paga aos seus professores.

Amnistia para a filha, não é pedir muito. Depois de tanta amnistia para tantos filhos da mãe, como recusar um pedido destes?


RAMPAS

Cruz Coelho tem duas rampas de lançamento.

A primeira, em forma de jota, está pintada de cor de laranja e estava guardada no quintal da sua juventude. Cruz Coelho explicou à sua jovem mulher que, graças àquela rampa, ganhou o espaço no partido.

A outra rampa, também laranja, não tem forma definida e está guardada no quintal do parlamento. Quando a experimentou, pela primeira vez, não sabia muito bem o que ia acontecer. Espantado viu que tinha aterrado no lugar de Secretário de Estado, freguesia de Educação.

CÍRCULO DE CÃES
Passa-me óleo pelas costas. Passa-me o creme na cana do nariz. Passa-me o microfone de mão em mão. Passa-me o óleo de rícino pelo peito. Passa-me o óleo de fígado de bacalhau pela cabeça. Passa-me a minha amiga numa hora boa.

Passa-me metade da tua caspa para os meus ombros. Passa-me metade da canção no teu programa. Limpa-me uma lágrima de rimel se as lágrimas me vierem aos olhos. Passa-me palavras de admiração pelo pesoço. Passa-me os teus dentes de cavalo pelas costas.

Passa-me a tua inteligência laroca para o meu canal. Dá-me dois dedos da tua testa para a concorrência. Passa-me o vestido a ferro. Passa-me a concorrência a ferro. Gaba-me os índices de audiência do meu programa no teu programa da concorrência.

Podes assoar-te nas minhas costas. Passa-me o anúncio em que apareço ao lado do macaco de sucesso. Passa-me a canção do bandido. Passa-me o bandido da tua notícia. Eu quero-me bem passado.

Passa por mim no rossio. Passa-me o fado ao lado. Passa-me o secretário de estado que mora no teu prédio. Passa-me o estado interessante. Passa-te.

Passa-me margarina vegetal pelo couro cabeludo. Passa-me bem o bife que negoceia a paz entre os bandos da biela do intendente. Passa-me um plano de mim em cima do leão do marquês de pombal. Passa-me de cá para lá. Deixa-me dar umas voltinhas no teu programa.

Passa-me a salada. Passa-me a salada russa. Passa-me as mãos pelo dorso. Passo à mesma hora que tu. Passo no horário nobre. Passo a passo, passo-te. Deixa lá que depois eu levo-te ao meu programa. Passo-te a cadeira de rodas.

Passa-me o comando.


EXAMES FILHOS DA PUTA

Provas de exame, aferição e específicas de várias disciplinas têm-se apresentado, perante os alunos, cheias de defeitos. O defeito máximo de serem quem são põe à prova as coitadas das provas. Não podem ter outros defeitos. A mais ligeira verruga representa logo uma condenação de fealdade.

Se os estudantes já não gostam de qualquer tipo de provas, imaginem agora como eles desprezam e odeiam provas com defeito!

E ultimamente têm aparecido muitas provas com defeitos, uns mais outros menos graves. E ficamos com pena dos autores das ditas. Ou a concepção foi feita em muito más condições, quem sabe se no banco de trás de um carro!, ou então os autores são feios, desastrados, levianos e não resolveram quaisquer problemas das provas que criaram. Talvez as provas tenham sido abandonadas pelos pais, ainda antes do parto. Talvez que o ministério tenha roubado as provas aos pais antes de eles poderem sequer começar a educá-las, isto é, a revê-las. Talvez as provas sejam orfãs.

Os estudantes que ainda não foram abandonados pelos pais, e os pais que ainda não abandonaram os estudantes reclamam contra o ministro – maternidade e mãe de todas as provas, mãe de todas as provações.

Mas desta vez, a matenidade ministéria veio a terreiro pedir responsabilidade a todas as mães e pais das provas. Até já os condenou sem querer saber se eles tiveram condições para limpar dos defeitos das suas crias.

Para alguns de nós, as provas são filhas de pai incógnito. Para outros, as provas têm sido filhas de cruzamentos entre o Ministério e as suas amantes. Há ainda meira que pensa que elas são concebidas sem pecado e alguns poucos espalharam por aí o veneno que elas são feitas pelo governo para incriminar os professores.

Eu estou mais perto da verdade. O defeito delas vem de serem feitas à pressa e em ambiente de grande promiscuidade.


JANELA

Da minha janela, só me interessa verdadeiramente a noite da minha janela.
Aqui mesmo em frente do meu nariz, levanta-se um guindaste de betão. Lá mais para diante vêem-se as luzes no espelho de água.

Ainda mais para norte, vejo dois fios de luz. Deve ser uma estrada povoada. Viro-me ao encontro do cheiro do mar e vejo, a espaços, a luz do farol. Ainda mais para longe vislumbro as luzes dos navios, na espera, ao largo.

Se olhar para baixo em frente, vejo as luzes dos que entram e vejo as luzes dos que saem. Sigo as luzes dos que entram até que elas se perdem na curva em que eles se escondem ao entrar na cidade. Sigo as luzes dos que saem, até que elas se perdem para lá de um viaduto e fronteira.

Se olhar para baixo, vejo a porta da rua, uma mulher pequena empurrando a porta. O puto que a acompanha faz um barulho danado. Grita, sem razão aparente, para a ouvir dizer que não seja maluco. Ri-se para se rir de alguma coisa e de si mesmo. Saio da janela. Atrás da porta, ouço-lhes os passos e as brincadeiras. Quando abro a porta, vejo-os já prontos para outra batalha de flores, agora à minha custa. Quando aceitam a minha rendição, fujo para a varanda. Fecho a porta.
Volto a concentrar-me nas luzes. Decifro os sinais.

Sou um faroleiro feliz.


BESTAS

Um dia, um Ministro diz, embora por outras palavras, que os professores são umas bestas. Os professores fazem tudo mal.
No dia seguinte, o Ministro publica um livro a dizer o contrário e ele diz que hoje é tempo de dizer o contrário do que ontem se disse.

Este é um estranho país. Se for falar com o Ministro como pai ele diz-me que sou uma besta como professor. Se for falar com o Ministro como professor, ele dirá que eu sou uma besta quando sou aluno ou quando sou pai. Se me for queixar como aluno, o Ministro dirá que sou uma besta como professor.

Se for reclamar como aluno e não aceitar o paleio da culpa dos professsores, o Ministro açula-me os cães da Adminsitração Interna. O mesmo acontece se eu for reclamar como outra coisa qualquer, porque o Ministro já decidiu que se eu não sou uma besta quando sou isto é porque sou uma besta por ser aquilo.

Olhando para nós todos por essa perspectiva, o Ministro desejaria que a cada ameaça os reclamantes fugissem a quatro pés.

O seu maior espanto vem da visão de alguns de nós que, cheios de indignação, mas também de sabedoria e paciência, se recusam a fugir e lhe fazem gestos feios com as mãos no alto de um corpo vertical sobre dois pés.

Tendo-lhe acontecido ter esta visão, em mais do que uma ocasião, o Ministro foi consultar uma bola de cristal para compreender e esta devolveu-lhe um Ministro, de quatro no chão. Viu ainda que uma trela bem esticada o segurava a um outro Ministro. Este espumava. Via-se baba em cada canto da boca.


ARQUITECTURA

Ao mudar de casa, a arquitectura muda-se comigo.

A arquitectura das sombras e do navio fantasma mudam-se comigo. Flutuam as sombras e o navio e, no alto dos seus mastros, em vigia, uma bandeira desfraldada grita a cada sinal de terra. Os meus olhos míopes não veem a nesga de terra que a bandeira vê. Os motores de ventania não aceitam as ordens, cheias de insegurança, do marinheiro estropiado pelas anteriores abordagens em que ainda era a confiança a comandar.
A próxima abordagem – gritam os roufenhos motores- ou é definitiva ou não é. E o marinheiro engole todos os pensamentos, à vista da dúvida.

Ao mudar de casa, a arquitectura muda-se comigo.

As aves vão à minha frente, contra o vento. Elas vão antes para me abrir as portas. Arrastadas pelas pernas virão as tábuas soltas. E quando se juntarem para formar as estantes, são as tábuas que vão escolher os seus livros e os seus papéis. E não há outras coisas para guardar nos bolsos. A casa são os bolsos que se mudam quando nos mudamos de lugar. Afinal nunca mudamos de casa.

Ao mudar de casa, a arquitectura muda-se comigo.


GATINHO

Sobre as pontiagudas pedrinhas do chão, gatinho. Que procuro eu entre as pedrinhas pontiagudas? Que promessa fiz eu para merecer tal sacrifício?
Procura ou promessa?

Encontrei já o que procuro? Ou será que me deram o que pedi em troca da promessa de sacrifício que fiz? Quem poderá saber? Deus estava distraído no momento propício à prece e eu tinha esquecido o sujeito e o predicado da oração.

Simplesmente gatinho. Ou cachorro?


PONTES

Com estes dois olhos que a terra há-de comer vi todos os que passaram. Os meus olhos são os olhos da testemunha. Foi a testemunha que me contou, fui eu que ouvi, ou vi?

Uns afrouxaram e vi que pagaram. Vi outros que aceleraram e até vi os seus gestos feios e obscenos. Vi também os que ficaram parados e até vi quem esteve pregado ao chão.

Ouvi os gritos roucos e ouvi as buzinas. Ouvi-as nitidamente acima da voz dos motores trepidantes. O televisor não engana.

Vi tudo. Posso testemunhar. Se precisarem de uma testemunha, podem contar comigo. Não sou daqueles que foge de ser testemunha. Também não sou daqueles que quer ser testemunha a todo o custo.


PIRATA

Era uma vez um rapazinho que sonhava ser comandante de um navio fantasma.

Pequeno ainda e já tinha convencido toda a família que viria a ser comandante de um navio de fantasmas. Por isso, toda a sua formação foi sendo organizada para esse objectivo.

Aprendeu tudo o que havia a aprender sobre navios, desde as questões da engenharia naval até às de navegação, desde as normas de etiqueta até aos mais intrincados segredos de administração.
E aprendeu a comandar. Deu ordens ao espelho, aos criados, aos pais e aos avós. Treinou mesmo ordem unida com toda a família e o cão fiel.

Quando frequentou o 9ºano, o conselheiro de orientação escolar não fez outra coisa senão sossegar a família, prescrevendo como vocação a profissão de condutor de fantasmas e de marinheiros, talvez como comandante de um navio de fantasmas.

Naturalmente, a idade adulta fez dele primeiro ministro de um governo do país de marinheiros. Continua a ser um rapazinho voluntarioso e os seus ministros portam-se como fantasmas. Quando algum se torna mais visível, o rapazinho encaminha-o pela pancha e entrega-o aos tubarões.

Quandos os tubarões mostram os dentes fora de água, o rapazinho adverte-os de dedo em riste.

A grande adivinha do país dos marinheiros não é saber que país é. O que toda a gente quer saber é quantos dedos restam ao rapazinho.


CARNES FRESCAS

Quando era jovem, o artista benzia-se antes da primeira pincelada. E agradecia a Deus quando completava o quadro. Todos os críticos que sabiam da sua fé falavam em inspiração divina quando falavam da cor e falavam da menina madalena quando falavam do modelo.

A menina madalena não se importava com os comentários. Todos os dias saía da sua missa matinal e ia para o seu emprego em casa do pintor jovem. Antes de se despir para posar, benzia-se e, qualquer que fosse a posição ou a pose, os seus olhos sempre denunciavam um ponto de encontro dos céus.

As 500 obras do pintor, enquanto jovem, deram a conhecer a toda a população as diversas partes do corpo da menina madalena.

Como pintor de um só modelo, o artista chegou à idade dos porquês. Aos vinte anos, embora ainda maravilhado com a menina madalena, o artista teve de reconhecer que o assunto estava esgotado.

Mas a sua especialização em carnes revelou-se redutora demais. Hoje o artista está cheio de sucesso, mas doente. Passou um ano a pintar as peças penduradas na câmara frigorífica do talho de sua mãe.

Os entendidos continuam a falar de inspiração, porque ele continuou a benzer-se antes da primeira pincelada e quando se referem ao modelo não podem deixar de se lembrar da menina madalena.

A menina madalena sempre era cá uma vaca.


GORDURA CERTA

Eu continuo a pensar que se deve usar gordura de porco para fritar um bom pedaço de barriga de porca, margarina para fritar as salsichas de lata, óleo vegetal para fritar batatas.

A matéria prima da nossa atenção deve determinar o olhar. A direcção e o sentido do olhar, a sua intensidade, humidade e brilho devem ser apropriadas à intenção do olhar e esta deve depender do corpo que olhamos.

Assim se olhamos um porco ou uma vaca, o nosso olhar pode mostrar-se assassino, cambiantes de gula, sofreguidão, ânsia. Se olharmos o mar, podemos perder o olhar. Se olharmos a tela branca ou cheia de intenções do pintor, podemos fazer olhos de quem imagina o que lá não está. Podemos dar-lhe os parabéns, enviando-lhe aquele olhar inteligente e cúmplice.

Eu continuo a pensar que muitos pintores não têm o direito de pintar com óleo vegetal. Há pintores que nos querem fritar os olhos de carneiros mal mortos ou mal passados. Os mais delicados pensam em nós como palitos de batata. Há pintores que são uns carneiros e há carneiros que nos vendem a pintura que os pintores usam para tingir as suas próprias madeixas ou esconder as suas rugas.

Do mesmo modo se portam os poetas e os escritores. Cada frase é uma mancha de óleo no caminho dos nossos olhos. As vezes que eu já me estatelei no meio de um texto, de tanto me debruçar à procura de uma ideia. Até já procurei as palavras pelo sentido, quando não encontrava sentido para as palavras. Há poetas que nos fritaram a paciência.

Eu continuo a pensar que se deve usar gordura de porco para fritar um bom pedaço de barriga de porca, margarina para fritar as salsichas de lata, óleo vegetal para fritar batatas.

Eu continuo a pensar.


IRA & PAZ

Há um meio dia de paz na Irlanda. Pelo meu lado acho que é bom mesmo que sejam só alguns dias.

Os invasores democratas não aceitam facilmente um cessar fogo dos invadidos. Desconfiam, desconfiam e desafiam-lhes a paciência.

Desconfiam e chamam-lhes terroristas e assassinos, enquanto uns unionistas matam mais um ou outro católico irlandês. Os unionistas não são assassinos na imprensa mundial e muito menos para os tablóides britânicos. Os protestantes são os protegidos da coroa e os enriquecidos pela coroa. Embora a sua intransigência tenha assassinado mais pessoas que a ira do IRA, os protestantes unionistas nunca foram terroristas.

Os terroristas são sempre outros, os que não defendem a coroa. Aqui um terrorista é um republicano.

Hoje admiro a esperança, a confiança e a paciência do exército republicano irlandês, que aceita a derrota das armas para negociar uma paz desarmada, quem sabe se uma paz armadilhada de palavras desgastastadas.

Há meio dia de paz na irlanda e estou a rezar pela alma de um católico tombado em combate nenhum, em nome de deus e da união com a coroa britânica, democrática e europeia.


AMIGOS

Para que servem os amigos?

Para as ocasiões, para amigar, para migar, para comer num jogo de batotas várias, para organizar uma quadrilha de pessoas de confiança, para arranjar alibis, para sair de casa, para apanhar a bebedeira, para fazer despedidas de solteiro, para fazer confrarias, para lançar um grupo beneficiente, para formar um grupo de pressão, para fazer impressão, para promover uma marca de sabonetes candidata a deputada, para dar catequese, para constituir um grupo de baile, para concorrer a concursos, para trocar as prendas, para ver o nascer do sol, para ver o por do sol, para chorar sobre o leite derramado, para discutir o sexo e as patentes dos anjos, para discorrer sobre o inferno, para viver o inferno, para editar um livro inútil de poesia, para fazer uma capelinha, para dizer que foi baril, para dizer que tudo vai correr pelo melhor, para integrar uma claque de futebol, para assediar as namoradas uns dos outros, para tirar o capachinho em público, para comer barriga de porco, para ler a bíblia com cachaça, para provar o fruto proibido, para reconhecer a existência de deus em todas as pequenas coisas, para jogar à bola, para fazer um grupo excursionista, para contar e ouvir piadas porcas, para ouvir ofensas graves, para imaginar duelos, para roubar marmelos, para roubar caramelos em badajoz, para correr atrás dos sonhos, para ter sonhos, para escrever postais, para viver em paz, para aprender as danças de salão, para discutir sobre o tema da utilidade dos amigos, para discutir quem são os verdadeiros amigos, para saber se o cão é o melhor amigo do homem, se podemos ser amigos dos amigos do alheio, se vale a pena ter um amigo no poder, se quem está no poder é amigo de alguém, se marx era amigo de engels, se lou salomé era amiga de rilke ou se era mais do que isso, se lou salomé era mais dos outros, se a ministra da educação tem amigos de peito, se o primeiro ministro é amigo do povo, se o vasco era mesmo amigo, se o sucessor é amigo do sucedido, se a vida tem sentido depois disto tudo, se para o roque vale a pena viver depois de ter perdido a amiga, se a amiga é a olga, se o adão podia ter sido simplesmente amigo da eva, se umbranco pode ser verdadeiramente amigo de um negro, se um negro pode ser um sueco verdadeiro, se a comunidade europeia é a companhia das índias ou se é um negócio de índios, se um muçulmano pode comer o porco do amigo.

Um amigo perguntou-me se era verdade que eu era um cruzamento de um boi com a estrela polar, e eu respondi-lhe que só a um amigo se permitem certas liberdades, que se ele não fosse meu amigo eu tinha-lhe partido as trombas e queria ver como é que o elefante se safava sem tromba.
Para que servem os amigos, afinal? Para as ocasiões, sem dúvida. Mas ocasião faz o ladrão, não faz o amigo. O amigo é o que cria a ocasião.


FISCO – PRETEXTOS

Não me faltam pretextos para escrever. O que me falta é o tempo.

E tal se deve este facto de ser um português mediano. Mas também se assim não fosse, nem pretextos tinha para escrever, mesmo que tivesse tempo.

Passo a vida em bichas para realizar os mais simples actos de vida cívica e é nestas que nós aprendemos tudo. Se o Estado nos cobra impostos absurdos, ela cobra-os em dobro. Uma parte de cada imposto é cobrada em numerário, outra parte é cobrada em tempo, em paciência, em impaciência e em irritação.

A minha vida de Junho foi difícil demais, a trabalhar para a Ministra da Educação, a aturar a sua má educação, concepções estranhas de democracia política e mentiras. Mas eu sabia que devia contar com restos do seu autoritarismo administrativo nas finanças, de onde ela veio .

Ainda inconsciente, fui tentar pagar o imposto sobre veículos. Uma bicha para comprar o papel. Outra bicha para pagar o imposto. E uma desistência porque tinha de trabalhar para a Má Educação. Nova bicha, noutro dia. Quando chego ao aplicado funcionário, não aceita os papéis porque haveria que fazer uma rasura sem consequências. Quando volto ao aplicado e míope funcionário, descubro que não pode ser recebido o imposto, porque falta um documento que, tendo sido roubado, entre outras coisas, espera ser substituído por 2ª via que nunca mais vem de um outro serviço do mesmo estado das coisas. Nenhum argumento o demove, nenhum documento do ano anterior o demove. O funcionário tem ordens.

Regresso a outras bichas, para tentar reclamar o papel que falta e então poder receber a autorização de circulação, a partir de minha casa que ainda nem estrada tem.

Eu sou tão estúpido que quero pagar um imposto para circular pela falta de rua. O funcionário é tão esperto que, mesmo sem ter adivinhado a falta de rua, me proíbe de pagar o imposto para circular. O mais ridículo disto tudo é que eu ainda reclamei. Reclamar contra a própria identidade da nação é ser o quê? Que degredo mereço?

Passei a circular, pé ante pé. Sem fazer qualquer barulho, não vá acordar a administração e a reforma administrativa.
Agradeço o pretexto que são. Lamento o tempo que me roubam para me impedir de o descrever.


FERREIRA DO AMARAL

Usava-se então cuecas e camisa brancas, fato e gravata. E ele usava isso tudo e mais um colete do mesmo tecido do fato. Um lenço saía-lhe do bolso superior esquerdo do casaco, mesmo ao lado de um pendente, pequeno capacete em ouro que os bombeiros voluntários da vila lhe tinham oferecido por alturas de uma festa de homenagem.

Mesmo transportado à velocidade da luz, a ascenção foi lenta para o seu feitio. Desesperou anos-luz até chegar aos céus que merecia. Por isso, quando chegou já se sentia velho, desalentado e descrente da física moderna.

O pior foi o choque entre a forma que vestia e a forma que devia revestir para estar na moda dos céus, ao tempo da sua chegada.

Deus, sendo eterno mas mutante no tempo, não conseguiu evitar uma gargalhada. Esta por sua vez foi retomada por todos os anjos e santos, até não ser mais do que uma explosão galáctica de som. Esganiçado como é todo o casquinar, o riso de deus provocou a destruição e posterior dispersão pelo espaço de centenas de pequenos planetas agonizantes. Uma das pontes mais sólidas da longínqua terra tremeu.

Ao som do buzinão, Ferreira do Amaral desceu dos céus e acordou, alagado em suor. Começou logo a cantarolar, todo contente. Tinha acabado de poupar os 10 contos da sessão de massagem e sauna para emagrecer.


STOCK

Maria José Stock é administradora do pelouro cultural, comercial e de marketing e é directora das actividades culturais do centro cultural de belém. Tem dois filhos, de 20 e 22 anos. É licenciada em ciências políticas pelo ISCSP. Tem 46 anos. Dá aulas na universidade de évora. O seu coração balança entre sintra, onde vive, e o alentejo, onde vai sempre que pode. É perita em trabalhos de mãos: jardinagem, tricot e cozinha.

E disse mais: “As pessoas que desperdiçam tempo fazem-me imensa impressão. Isto não significa que eu não consiga passar dias inteiros sem fazer nada, à conversa com os amigos ou a passear os cães. É tudo uma questão de organização. Além de tudo o que faço profissionalmente ainda consigo fazer ginástica e nadar duas vezes por semana. E durmo imenso!”

Na Reportagem da Elle, a zézinha do stock e as colegas são apresentadas como as mulheres que, do alto do ccb, não cruzam os braços … a não ser para receber, são inteligentes, enérgicas e apaixonadas por desafios intensos. Por aí adiante.

A zézinha do stock é de facto uma vencedora de desafios. Só viver em sintra e trabalhar em lisboa já é um desafio, e só em deslocações. Viver em Sintra, trabalhar no centro cultural de belém e dar aulas em évora ainda é maior desafio, só em deslocações. Viver em Sintra, trabalhar em lisboa e em évora e passar dias inteiros a passear cães, outros à conversa com os amigos e outros em trabalhos de mãos é desafio supremo.

Como é possível vencer tantos desafios? Sabendo gerir o tempo, dar aulas em évora, mas indo ao alentejo sempre que pode.

Mais palavras para quê? Estas artistas são portuguesas e vivem nestes tempos modernos de cavacos e santanas.

Há professores portugueses, colegas da zézinha stock, que (imaginem!) vão ao local de trabalho vários dias por semana. Quase todos vão todos os dias.
Mesmo sem penteado, tiradas as horas de trabalho e de deslocação, nos dias dos trabalhadores não sobra tempo para gerir. Os trabalhadores são todos uns tontos.
Ficamos à espera de esclarecimentos do Ministério da Educação. E de um curso de formação sobre a gestão do tempo. Apesar de ignorantes, também nós não queremos cruzar os braços, a não ser para receber, com espanto, estas lições.


PALAVRA DE HONRA

Como leio tudo o que é da região de aveiro, li-te com toda a atenção. Palavra de honra. Palavra de honra que estive de acordo contigo em tudo. E aceitei a tua palavra de honra, como tinha aceitado a palavra de honra de guterres. Na minha terra, apalavrado é lavrado em notário, com palavra de honra é contrato para todo o sempre, para o antes e para o depois.
Como guterres e como tu, também eu não sou denunciante. Eu sei que há coisas que todos sabemos, sem precisar de dar nome a este ou aquele exemplo de intimidação e do seu reverso – o medo.

Disseram-me que eras irmã do presidente da cãmara daqui ao lado. Disseram-me que o teu irmão, em vez de apoiar a participação popular na discussão das incineradoras, tem intimidado ou mandado intimidar os activistas dos movimentos. Provocações em reuniões e mesmo coacções físicas têm perturbado a actividade dos movimentos contra a incineradora do teu irmão. Todos os frágeis dedos dos movimentos autónomos acusadores de coacção apontam como sede da intimidação o presidente da câmara aqui ao lado. Talvez porque o homem seja sôfrego por incineradoras, as línguas mordem-lhe.

Pelo meu lado, não tenho posição sobre isso. Espero pela discussão e pelos estudos. Porque não esperar por coisas tão simples?
E, se pudesse, também gostaria de dar mais uma opinião, falível e não mais do que mais uma pobre opinião. Se não pensassem que era por medo, até podia expressar opinião igual à opinião do presidente da câmara.

Mas palavra de honra que não esperava que me viessem dizer que também tu já dás uma mãosinha na intimidação dos activistas da incineração da incineradora do teu irmão. Inclino-me perante os factos e o que toda a gente diz à boca pequena.

Aceita-me tal como sou. Nunca denunciante. E aceita a minha palavra de honra.

Toma esta coisa como um conselho à família. Se puderes seguir o conselho, muda.
A coisa pode incinerar-vos e, da vossa família, não restar coisa menos escura que o breu.


ELES ESTÃO BÊBADOS

Aveiro está mais coisa menos coisa na Bairrada. E apresentou-se numa feira do vinho. Se passou por lá, procurou o vinho.

Aveiro está mais coisa menos coisa em Portugal. E apresentou-se numa feira do vinho. Se passou por lá, procurou o vinho.

Aveiro está mais coisa menos coisa na Europa. E apresentou-se numa feira do vinho. Se passou por lá, procurou o vinho.

Aveiro está mais coisa menos coisa na Terra. E apresentou-se numa feira do vinho. Se passou por lá, procurou o vinho.

Aveiro está mais coisa menos coisa no sistema solar. E apresentou-se numa feira do vinho. Se passou por lá, procurou o vinho.

Aveiro está mais coisa menos coisa na Via Láctea E apresentou-se numa feira do vinho. Se passou por lá, procurou o vinho.

Tudo poderia ter sido diferente se tivesse feito uma feira do leite.

 


GIRÃO

Há pessoas assim que se dedicam ao serviço do povo e, por amor à nobre causa de portugal e das regiões, especialmente da região de aveiro, vivem carregando fardos e ganhando menos que os estivadores. A acreditar no que andam para aí a dizer sobre os estivadores.

Um deputado europeu ganha tanto como um deputado da assembleia da república que ganha o mesmo que um presidente da câmara, a saber: 320 contos. E, recebendo 40 contos por cada dia que passa em estrasburgo, gasta 22 em quarto de hotel e mais, pelo menos 12 em duas refeições. Destes 40 contos ainda paga os almoços que oferece a directores gerais e outras individualidades a quem é preciso agradar no fito de vir a beneficiar a região.

Li tudo isto com a atenção que me merecem todas as notícias da região de aveiro.

A admiração por tanto sacrifício já me cortava a respiração. Um amigo disse-me, com a voz embargada de comoção, que o espírito de sacrifício nem poupava o resto da família. Para que a família suportasse todos os prejuízos do serviço europeu do povo, o eurodeputado obrigou um filho a partir com ele, para serviços de apoio, naturalmente ainda pior remunerados.

Chorei.


ETNIA

Se vou assistir a um espectáculo de embaixada cultural de povos irmãos, tenho de verificar e viver o êxito dos cantores pirosos brasileiros, caboverdianos ou angolanos.

Os inteligentes da nossa praça que se recusam a ver os nossos cantores de charme, os nossos marcos paulos e quejandos, vibram com horas de música sempre igual para letras tenebrosas se os cantores tiverem sotaque, mais ainda se vierem embrulhados em embaixadas de povo contra povo. Chegam a cantar aqueles refrões e a aplaudir estrondosamente toda a pirosice daqueles sucessos popularuchos estrangeirados. Parece que, por cultivarem tão altivo desprezo pelo seu nacional pirosismo, ficam com um défice de baixeza e, por isso, tanto vibram com o pirosismo étnico dos pirosos de outros sabores e cores.

O mesmo se passa com o artesanato.
Se vou a uma feira internacional de artesanato, tenho de suportar o êxito dos vendedores de colares feitos de sementes secas do brasil, da papuásia ou do senegal.
Não vejo que os nossos artesãos tivessem êxito a vender colares de grão de bico ou de feijão maltez. Eu gostaria de comer grão de bico dos colos das nossas mulheres.


LAZARO

Nos últimos dias da minha vida, chamei o tabelião. Ditei-lhe as minhas últimas vontades com a minha voz sumida e, já com os pés a entrar na cova e as mãos trementes, assinei.

Incapaz de ler, confiei no tabelião. E, descansado, peguei no sono… eterno.

Quando a alvorada me acordou da noite eterna, sentei-me na cama onde acamam os mal mortos. Depois de ter forçado a fechadura da urna, consegui sair para o ar livre do jazigo aéreo… Sentado num banco, em seis meses recuperei o corpo, morto de cansaço terreno, para a vida extra-terrena. E saí da casca dos mortos para o convívio dos anjos.

Quando comecei a voar por sobre os vivos, quis ver tudo o que não tinha visto em vida e foi por isso que não sobrevoei a minha cidade senão passados dez anos de instantes.

Lembrei-me então do que ditara e a curiosidade levou-me até à sala de leitura das actas e testamentos do cartório da minha cidade. Procurei as minhas últimas vontades e li, linha por linha, o que o tabelião escrevera sobre o que eu ditara.

A fonte das mil bicas que eu deixara em testamento à cidade era propriedade privada da mulher do tabelião, minha mulher de então. E todas as outras coisas que eu deixara aos orfanatos onde meus filhos mais velhos se criavam eram propriedade privada do meu filho mais novo que é a cara chapada do tabelião.

Tão zangado que estava, nem reparei que me tornara visível aos olhos dos homens. A minha mulher, que esperava na sala de leitura, ao ver-me deu um grito tão esganiçado que o tabelião a mandou calar para sempre.

Muda como ficou, nunca poderá conversar sobre a falha do nosso casamento.


COMUNICAÇÃO

Tu aprendes-me e eu aprendo-te. Tu ensinas-me o que eu te ensino. Há um elástico invisível a esticar-se entre os nossos corpos. Quanto mais o esticamos mais ele nos atrai um até ao outro.

Tu falas e eu falo. Eu ouço-te e tu ouves-me. Penduradas na corda da nossa roupa, as palavras oscilam ao vento. Antes de me atingirem, as palavras passam pelos lugares da tua roupa. Visto-te, enquanto me dispo. Puxo a corda da roupa para o meu lado, para nela pendurar as palavras que vestia. Estico a corda. Puxas a corda. Despes-te enquanto me vestes.

Apareces. Puxas o lençol para o lado em que o colchão guarda o molde do teu corpo. Acordo com frio e percebo que vieste. Não te chamo. Deixo-me deslizar até ao lugar do teu corpo para não morrer de frio. Empurras-me e eu adormeço no meu lugar. Assim sei quem sou.

Desapareces. Vejo-te nitidamente.

Que mais queres tu de mim?


PARLAMENTO

Reunido em Lisboa, o parlamento internacional dos escritores não chegou a qualquer conclusão.

Há quem diga que isso é terrível e revela uma grande incapacidade. Eu felicito os escritores por não terem chegado a qualquer conclusão.

A que conclusão poderia chegar um parlamento de escritores? Só podia ser terrível.

AMARELO, LARANJA & AZUL
O mais jovem dirigente partidário do meu país que também deve ser um dos mais jovens eurodeputados decidiu apresentar uma moção de censura ao mais velho governo do meu país que é também um dos mais velhos eurogovernos.

O mais jovem dirigente partidário do meu país revelou iniciativa política, audácia e total desprezo pela derrota parlamentar. Mesmo que congregue toda a oposição, a mais jovem moção de censura não passa pelos ouvidos da mais surda maioria parlamentar. E vai obrigar a esquerda a mostrar a sua capacidade de manobrar nesta tempestade de copo de água. Brilhante.

O mais velho e esfomeado primeiro ministro desta república esfrega as mãos uma na outra enquanto prepara a sua moção de censura ao país. Ao mesmo tempo, prepara a distribuição de pacotes de dinheiro. Pensa assim que, ao ver ajoelhar-se a primeira fila dos que comungam o dinheiro, a maioria do povo se ajoelhará por imitação, como acontece em todos os rituais litúrgicos.

O mais jovem dirigente partidário do meu país estará na primeira fila e desde sempre ajoelhado. Poucos se ajoelham seguindo aquele magnífico exemplo, mas já chegam para aspirar ao pó do pacote do poder.


MONÓLOGO COM BANCO

Fosse eu um pobre de pedir e gostaria que, sem que eu pedisse, me dessem o que trazem dentro dos bolsos onde trazem pouco dinheiro.

Não sendo eu um pobre de pedir, e sendo ladrão, gosto quando me dão o que trazem em todos os bolsos, sem que eu tenha de usar a violência que me vai na alma.

Não sendo uma coisa nem outra, sou uma coisa. Sendo um cidadão vulgar, pacato, bom trabalhador, apesar de ser funcionário público, não me resta outra solução que não seja recorrer ao banco. Ao gerente do banco peço que me empreste a um juro compensador para ambas as partes.

Quem me vê, assim regateando para o vazio do banco a quem dirijo a minha alta voz, pensa que estou bêbado ou que sou louco. Eu sei que estou louco, porque não sou bêbado.


POBRES

Há domingos em que me vou sentar no café a escrever pequenas histórias. Como já não posso escrever com as canetas que deus me deu para fugir do destino e da polícia, dactilografo no teclado de um computador portátil, pequeno como eu.

Um pobre de pedir por profissão que se lhe vê na cara, vem mansamente sentar-se na ponta do banco e fica para ali a observar as hesitantes letras que aparecem piscando sob as minhas ordens. Não me pede os cigarros que tem por hábito pedir pelas mesas. Quando tem a certeza que já me habituei à sua presença, levanta-se e vai-se embora. Com ele leva os 60 escudos, por minhas mãos providencialmente pousados na mesa. Finjo que não dou por ela.

Um jovem pobre, mais ou menos bem vestido, esperou que eu saísse do carro para me pedir 200 escudos, tanto quanto lhe falta para poder ir almoçar. Dei-lhe todos os trocados. Ele contou-os cuidadosamente para reclamar a falta de 15 escudos.

Hoje abordou-me na rua, pedindo novos 200 escudos para comer.
O quê? – perguntei eu.
Comida – respondeu pacientemente.
Outra vez? – insisti eu.
Eu como todos os dias – garantiu-me.

Dei-lhe os 200 escudos. No café, bebida a bica, descubro que não tenho dinheiro para pagar. Pego num papel e desenho cuidadosamente uma nota de dívida de 60 escudos. O pobre de pedir por profissão aproxima-se sorrateiro e leva-me a nota de dívida. Estou a escrever outra nota de dívida quando chega o moreira. Cedendo às sua insistências, deixo-o pagar a minha bica. Não há qualquer dignidade nisto.


OBRAS

Estaciono. Numa faixa da rua destinada ao estacionamento de carros. Ao sair do carro, ouço vozes que vêm do alto. Olho para cima e um operário, de cima do andaime do edifício ao lado, grita-me qualquer coisa como: Ó caramelo! Então não vê que nós andamos a mandar o entulho para a rua? Quer ficar com o carro todo amolgado?

Ainda pensei em gritar também qualquer coisa como: Ó caramelo! Então não vê que não pode deitar o entulho para a rua, que deve ter cuidado com as pessoas que passam. E tenha cuidado com o que diz.
Mas naquele dia não tinha tempo para zaragatas, nem garganta para berrarias, e meti-me dentro do carro para o deslocar ainda para mais longe, já noutro quarteirão. Quando saí do carro, esperei a aprovação do operário que veio pelo magnífico sorriso e um aceno amistoso. Passei pelo lado oposto do edifício em obras. E dei graças não sei a quem, por não estar debaixo da baldada de pedaços de tijolos, cimentos, paus e pregos que caiu do outro lado da rua.

Ainda hoje me interrogo se pequei por omissão ao não ter reclamado e denunciado aquele construtor sem arte e fora da lei.

Agora, ando esgaseado – gaseado pelo pó que as obras do gás levantam, gaseado pelo labirinto cheio de alçapões que me dão para andar a pé pelas ruas, gaseado pelas reviravoltas inúteis que percorro de automóvel. Estou completamente convencido que no caderno de encargos da obra, cofinanciada pela Comunidade Europeia, constam as despesas com a informação do público transeunte, bem como com o planeamento das obras. Quem controla isto? Devo calar-me porque todos os atropelos dos construtores não são mais do que pequenas facturas a pagar pelo progresso e pelo desenvolvimento?

Se eles tão mal tratam os transeuntes urbanos, como tratarão os agricultores que lhes atravessaram as suas terrinhas no caminho do progresso e do desenvolvimento?

Em nome da construção, quanto pó temos de morder em Portugal?
Os mesmos nossos operários fazem diferente quando trabalham em França ou na Suiça. O defeito não está nos operários, mas na ganância dos patos bravos da construção e na impunidade que as autoridades lhes outorgam, com cumplicidade, leviandade, incapacidade… incúria. O progresso e o desenvolvimento portugueses são arrogantes e mal educados.


NOVA INTRO.

Este pretexto não é uma razão aparente que estamos a alegar para encobrir outros verdadeiros motivos. Os nossos pretextos não são desculpas.
Este pretexto não é um texto em vez de outro texto, é um texto para a falta do outro texto, aquele que não será lido neste dia.


DEMOTEURGIA

Os portugueses, ao atribuirem a maioria absoluta a Cavaco Silva, acreditaram Cavaco Silva mais como demoteurgo e menos como democrata. Não esperaram que ele fizesse o governo do povo, esperaram mais que tivesse a arte de fazer milagres para o povo. Ele acabou por proporcionar o governo de algumas camadas do seu povo de fiéis ou de algumas clientelas sem fé. Agora começa o julgamento do teurgo, que jurou transformar o ouro de bruxelas em ouro de todos os portugueses. Ainda falta vir algum ouro e o povo começa a pensar se não deve mudar de alquimista.

Rogério Martins escreveu: «Em Portugal, o regime político é uma democracia formal que tem vindo sub-repticiamente a tomar o carácter de autocracia. Proponho que uma “democracia em estado de devir autocracia” se designe por “demaucracia”. Detestável; como a situação.»

Todos os partidos da oposição constatam que a maioira absoluta se está a transformar em poder absoluto.

E Sousa Tavares diz que este poder absoluto vai resistir ainda se cavaco resistir. Cavaco é, pelos vistos, uma referência para os portugueses. Segundo Sousa Tavares, os portugueses atribuem a Cavaco a intenção genuína de completar a obra que pode ser feita com os dinheiros a receber da comunidade até 1999, embora já não acreditem em ninguém dos que o rodeiam, pois esses,já toda a gente sabe, são as sanguessugas da genuína intenção do obreiro cavaco.

Que podemos fazer de, com e para tal “demaucracia”? Bastará mudar de alquimista? Poderemos continuar a acreditar na arte de fazer milagres à portuguesa? Para acreditar é preciso pouco. Para alterar é preciso muito.


DISPARAR COM OS PÉS

O primeiro milho foi para os pardais que o leão comeu. A águia ainda volteia no ar, mas se continua assim vai ser uma galinha poedeira incapaz de voar. Os dragões não existem, são animais mitológicos e só comem milho se houver muita fé.

O primeiro milho foi para os pardais que o leão comeu. Sousa Cintra prepara-se para obrigar o leão a beber uma tonelada de água e inchar com o primeiro milho que o leão indirectamente comeu, mas ainda não digeriu. Se tal acontecer, o leão vai ficar incapaz de mexer a sua pança. Pesado e parado, num pedestal de prosápia, o leão vai ser presa fácil para águias esfomeadas ou para alguns dragões.

Que é que isto interessa? Nada.

Mas espero que, na confusão, os dragões cuspam fogo pelas narinas do norte e assem pintos da costa, que não deve ser mau prato, que alguém mande uma garrafa nas pás do helicóptero damásio quando descobrirem que aquilo não é uma águia, ou façam chanfana de sousa quando descobrirem que aquele carneiro não é um leão. Quem me dera que se comam uns aos outros. Quem me dera que houvesse uma revolução a transformar os clubes de futebol de famílias mafiosas em empresas sérias com deve e haver … desporto.

O primeiro milho é dos pardais que eles comem. Não sou eu quem atira milho aos pardais que eles comem. Milho é milho. Os pardais que eles comem são bem humanos e vão à missa e ao futebol, apesar de haver altares mais cómodos e mais baratos.


O SONO E O SONHO

O meu sono é inocente. É quando adormeço por deixar de pensar e por deixar de sentir necessidade. Então, a inocência é a essência do sonho.

O meu sono é inteligente. Quando adormeço, cheio de necessidade mas quebrado pelo cansaço, o meu sono é agitado. A necessidade insatisfeita é a matéria do sonho.

Quem se pode interessar pela essência dos meus sonhos? Mesmo eu, esqueço as asas do sonho, as frases mais sem sentido, as fases da mais exaltada inocência, as personagens do conto fantástico que conto. Posso, no entanto, imaginar como no sonho.

Já o mesmo não digo da matéria dos sonhos. Pode interessar a todos e tento lembrar-me esforçadamente, para escrever à pressa as soluções encontradas.
Mas nunca me lembro. Lembrar o sonho é repetir o sonho. E eu não sei sonhar acordado.


ESCOLA DE NOTÍCIAS

No início do ano lectivo, cada escola há-de ser, mesmo que aparentemente, uma de duas coisas: notícia ou não notícia. As que abrem, mesmo que formalmente, nos prazos previstos pelo Ministério, não constituem notícia. As que não abrem são casos. E ganham a ribalta.

Temos assim que, para todos os efeitos, não interessam os problemas em si que afectam o sistema escolar, no seu conjunto ou escola a escola, mas a “não abertura”. A abertura não é facto assinalável, apesar de todos sabermos que algumas aberturas são mais perigosas que as “não aberturas”.

Aos órgãos das escolas, e, em última instância, aos Conselhos Directivos compete tomar a decisão de iniciar as actividades lectivas. Ao tomar a decisão de abrir, o Conselho Directivo considera que estão reunidas as condições mínimas para a prestação do serviço de educação e ensino. Por hábito não há quem questione a abertura. O Conselho Directivo assume todas as consequências da sua decisão. Se alguma coisa correr mal, por não terem sido ponderadas devidamente as condições do exercício ou do serviço, o Conselho Directivo responde pela decisão tomada.
Se o Conselho Directivo entende que não estão criadas as condições para a abertura das actividades lectivas e decide não abrir até que sejam criadas as condições mínimas do exercício, então não há bicho careta que não venha questionar e procurar avaliar a decisão.

Estamos, no entanto, a assistir a uma mudança. Já não são os pais, os mais afectados pela não abertura, que questionam a decisão. Frequentemente aparecem a apoiar a decisão, depois de se inteirarem das condições das escolas. Quando tal acontece, as associações autónomas de pais vêm a público fazer declarações e fazer exigências livres de todos os constrangimentos que, por força, os Conselhos Directivos fazem mais timidamente e internamente ao sistema em que estão integrados. As associações de pais podem transformar um problema provisório e interno do sistema num problema social e político e numa pressão, que pode ser intolerável, para quem tem de agir, no sentido de analisar e colmatar as lacunas que inibem a prestação do serviço.

Esta ingerência aparentemente exterior não deveria prejudicar a capacidade do sistema em estudar os processos e resolver os problemas que todos reconhecem existir. Mas prejudica. Expõe uma ferida da administração: onde devia haver capacidade técnica, sobressai a obediência política. Expõe uma outra ferida: a comunicação social é comunicação de poder.


AUMENTIRA

Ontem de manhã, cavaco silva diz-nos que há boas condições para haver um aumento intercalar para os trabalhadores da função pública.

Ontem pela tarde, o secretário de estado de cavaco silva diz que nem pensar em aumentos intercalares dos salários da administração pública.

Ontem pela noite dentro, cavaco silva diz-nos que sabe da queda do poder de compra dos funcionários da administração pública e que, por isso, irá haver um aumento intercalar para a administração pública.

Quem vai acreditar no que diz hoje?


IRRACIONAIS

Pitágoras, professor de pesos e medidas, ao falar para uma plateia numerosa de quadros do Ministério, bem como gestores e administradores das escolas da rede pública, defendeu a seguinte tese:
hoje, as escolas são realidades incomparáveis.

Aprofundou o tema, chamando a atenção para as seguintes fontes de incomparabilidade
diversidades sócio-culturais das populações residentes nas áreas de influência das diferentes escolas;
diversidade nas tipologias dos edifícios escolares;
diversidade nas ofertas educacionais;
etc.

Quando acabou de defender a sua tese, várias personalidades presentes apresentaram perguntas de circunstãncia e insitiram na sua concordância com a tese do professor Pitágoras.

Um presidente do conselho directivo dirigiu-se a um coordenador e lembrou-lhe que na sua escola, dadas as características da escola construída por blocos, o número de funcionários auxiliares era insuficiente. O coordenador, que tinha acabado de aplaudir as ideias de Pitágoras, respondeu que a relação do número de alunos por funcionário era superior à média nacional e que
nada mais havendo a tratar se devia dar por encerrada a discussão e se devia dar por aberta a escola.

Pitágoras ouviu esta discussão entredentes. Foi por isso que pegou nas folhas do seu discurso e as foi deitar no caixote de lixo mais próximo. Refugiado em casa, compreendeu que nenhum irracional podia exprimir essa incomparabilidade e que era preciso inventar novos racionais.

 


UGTP

Com o apoio da UGT, a CGTP entrou na CES.

Assim, a CES recebe no seu seio a tendência reivindicativa pela luta de massas na rua que a CGTP ainda é, depois de ter no seu seio a tendência reivindicativa pela influência civilizada dos partidos no poder que a UGT é.

Isto acontece numa altura em que o nosso inábil primeiro ministro, europeu parolo, deixou a UGT entre a espada e a parede. Acusada de ser paga para assinar, a UGT não teve outro remédio senão não assinar a sua sentença de morte, assinando uma outra sentência de morte adiada. Porque ao não assinar o acordo, a UGT tem de provar que tem outra influência nos trabalhadores e é capaz de, na falta da influência de corredor, mobilizar os trabalhadores para a apoiar em combates de rua. E não é este o caso. Todos os mandantes da UGT usam fatos ingleses e gravata italiana, militam nos partidos da bipolarização, são deputados bem mandados, são europeus bem escanhoados, são capas de revistas de bodas, banquetes e casamentos, são executivos, são o que são. E são artistas portugueses já a auferir salários da europa. Quando têm os ministros à distância de uma taça de chamapanhe, são capazes, são rapazes, são rapaces. Influência no poder e poder, perfume do poder é quanto afinal projectam para o mundo do trabalho. A UGT não usa a força dos trabalhadores, usa a força da sua influência no poder, moeda de troca pela sua capacidade de confundir e calar os protestos, ou pelo menos de manter o barulho dos protestos abaixo do incómodo que eles podiam e deviam ser.

A CGTP vem assim, pela unidade na acção, emprestar à UGT, neste seu aziago momento, a movimentação popular que ainda pode encenar.

A UGT só pode esperar um momento propício, ainda antes de qualquer desastre, para o brinde da concertação social. Cavaco também espera o instante e espera que a garrafa de espumante por abrir não seja agitada demais pelas massas populares, e reza para que a rolha não seja uma bomba de desconcerto.

Neste cenário, a CGTP entra na CES como uma valência importante para a Construção de uma Europa Social.

Eu sempre fui europeu. Nem precisei da UGT para me apadrinhar a entrada. Sou tão europeu em tudo menos no salário. Há portugueses que nem querem ser europeus e já são tão europeus no salário.

 


IDADES DA GERAÇÃO

Vejo-me obrigado a concordar com o jovem de uma idade depois da minha, queando ele diz que é da minha idade porque o que diz se confunde com o que penso.
Vejo-me obrigado a concordar com o jovem de uma idade depois da minha quando ele diz que está tão perto de mim, quanto está longe do jovem do outro extremo do mundo, mesmo quando é do seu lugar. E quando ele diz que o jovem do outro extrema do mundo está perto do velho do outro canto do mundo.

Começo a pensar como ele que não há gerações, ou que as gerações não se isolam por idades, mas mais por apropriações culturais. De certa maneira, ele diz-me que eu tenho mais em comum com o meu filho mais novo, do que com um outro da minha idade cujas apropriações culturais são completamente diferentes das nossas. Nem piores, nem melhores, mas diferentes.

Cada uma das apropriações culturais diz da outra que é rasca. Quando não o diz, pensa que podia dizer.

Sendo eu um velho, de quem me distingo e com quem me pareço? Sendo eu um jovem, de quem me distingo e com me identifico? Por ser o que sou, sou sempre jovem ou sou sempre velho? Represento uma geração? Uma relação de equivalência, baseada pertença a uma faixa etária, define classes de equivalência. Estas classes de equivalência, designadas habitualmente por gerações, podem explicar alguma coisa? Não são mais do que uma coisa?

A coisa é tudo o que existe ou pode existir, é um objecto inanimado, um facto, uma realidade, um acto, uma causa, uma espécie, uma matéria. Coisas são obrigações, interesses, valores, bens, propriedades? A coisa é o que não explica coisa alguma. Eis o que é também a geração – não gera coisa alguma.

 


LUZES DA RIBALTA

A mulher entrou e dirigiu-se pelo corredor central da sala até à borda do palco.
Com uma das mãos puxou ligeiramente a saia travada, para subir os degraus. Os saltos altos marcaram a subida, guiando os ouvidos da audiência até à boca da cena mais triste.

Sentou-se. Com os cotovelos sobre a mesa larga, a mulher iniciou a leitura de um trecho da sua vida que não tinha decorado. A seguir, sem qualquer inflexão na voz, começou a ler o despacho que tinha sido distribuído pela assistência.

Deixaram-na ler até ao fim. Nenhumas palmas no fim do monólogo do primeiro acto.

Quando a mulher desceu do palco, todos repararam que era feia. Porque eram feias as palavras que a mulher lera.

No princípio do 2º acto, já ninguém prestou atenção aos gestos da mulher na subida para o palco. Penosa, penosa foi a queda. A mulher usava saltos altos e caía dos sítios altos para onde se tinha guindado.


AFILHADO DE MARCELO

Estamos a chegar ao fim da hipocrisia. Ou a hipocrisia já nos adormeceu de tal modo que já não precisa de mascarar-se aos nossos olhos.

Há um comentador da praça de Lisboa, que faz toda a história a partir dos protagonistas. Melhor que isto: ele atribui todas as iniciativas dos protagonistas sociais aos seus interesses pessoais, aos projectos pessoais de poder, como se não houvesse projectos sociais, como se não houvesse quaisquer ideais colectivos. Para ele, há uns tipos que decidem e fazem boas ou más jogadas, a favor ou contra si mesmos e há o resto do mundo constituido pelos joguetes da trama que os protagonistas do 1º tipo organizam a seu bel prazer e para seu gozo e interesse pessoal.
E é de acordo com a probabilidade das coisas correrem de feição aos interesses pessoais de cada protagonista que o professor atribui uma classificação de alguns valores numa escala de 0 a 20. Para o professor, não há bem ou mal social, não há interesses colectivos, não há sociedade. Não será bem assim: há sociedade e classificações atribuídas aos protagonistas e às jogadas que ele analisa relevam da maior ou menor possibilidade de manipularem a sociedade que delas é vítima ou receptadora. O professor é um democrata. Talvez um demaucrata. Podemos dizer que o professor é uma qualquer democoisa .

O liberalismo será isto? Devemos confiar que, dos confrontos pelo poder entre os vários e contrários protagonistas, sai felicidade para o povo? O povo vota, aparentemente condenando ou glorificando jogadas. É a este protagonismo que os democoisas reduzem o povo, a quem recusam ideias e ideais, a quem recusam capacidade de enfrentamento. Talvez tenham razão. E é, por isso, cada vez mais importante a acção directa e indirecta de grupos de cidadãos independentes dos democoisas.

Se os democoisas já nem precisam da máscara que a hipocrisia é, torna-se urgente que mordam o pó, antes que os democoisas cheguem a ditacoisas. Lembremo-nos que eles já foram mais ou menos isso, ou filhos disso.

 


RETOMA NA FORMAÇÃO CONTÍNUA

A última semana de Outubro marca o reinício oficial das actividades de formação contínua de professores, apoiadas pela medida FOCO do programa PRODEP.
Depois da intensa actividade desenvolvida em 1993, todo o sistema tinha sido paralisado a partir da Administração Central. De facto, só agora é que se anuncia a publicação da regulamentação da medida FOCO II – medida para o financiamento de iniciativas de formação contínua – que era suposto começar em princípios de 94. A primeira versão do Regime Jurídico da Formação Contínua de Professores foi aprovada em Novembro de 1992 . Com base nesse diploma , entretanto alterado e ratificado por uma Lei da Assembleia da República em 1993, criou -se e desenvolveu -se todo um modelo e sistema de formação contínua que, respondendo a necessidades da formação e da progressão na carreira dos docentes, mobilizou milhares de professores – formadores e formandos. Para além das instituições do ensino superior e da Administração Regional e Central do Ministério da Educação, foram criados centenas de centros de formação de nível concelhio, por associação de escolas. Também em Aveiro, as escolas se organizaram em Associação de Escolas e criaram o Centro de Formação de Professores. Das medidas do PRODEP, FOCO I e FORGEST, as coordenações a nível regional e nacional realizaram o importante papel de apoiar a criação desses Centros de Formação e apoiaram financeiramente, em 93, as actividades de formação de funcionários docentes e não docentes. Quando chegámos ao fim de 93, os Centros de Formação começaram a preparar carteiras de oferta de formação que, careciam de ser acreditadas e financiadas para se realizarem Mas aconteceu que, durante todo o ano de 94, foram sendo adiadas as publicações dos regulamentos das medidas PRODEP, ao mesmo tempo que o Ministério anunciava e preparava um novo regime jurídico com profundas alterações ao regulamento jurídico da formação contínua , que só veio a ser publicado agora, a 28 de Outubro.
Está pois a começar um novo ciclo de vida para a formação contínua de professores. O novo ciclo nasce e devemos saudá-lo. Mas as novas condições criadas no actual regime jurídico e nas regulamentações da medida FOCO II desvalorizam quase todas as iniciativas que os Centros tinham feito acreditar e lançam estes numa nova corrida para encontrar iniciativas que componham um novo plano de formação. A maior parte das iniciativas de formação que o Centro de Formação de Aveiro preparou e apresentou aos seus utentes são desvalorizadas e não vão poder ser realizadas.
Os docentes de Aveiro, educadores e professores do ensino não superior, vão ter de encetar de novo o caminho da preparação de novas acções (em acordo com as novas instruções), esperar pelas autorizações, fazer novas inscrições, etc. Muitos milhares de horas de trabalho são desprezadas, muitas dos anseios dos professores são anulados pelas novas decisões do Ministério. Muitos dos anseios e direitos dos professores de algumas disciplinas (especialmente no campo das ciências sociais e humanas) são simplesmente ignorados nas novas instruções e directivas do Ministério da Educação. A “retoma” da formação contínua de docentes faz-se também com sacrifício de área e de sectores de ensino e faz-se contra o trabalho já realizado. Esperemos que esses prejuízos não comprometam a “retoma”.
Esses prejuízos não serão contabilizados nos mapas de financiamento. Mas é bom que contem (há contabilidades para as consciências). No caso da Educação, a estabilidade governativa não deu quaisquer frutos: houve danças de ministros e de secretários de estado, houve (mu)danças de política. O exemplo das mudanças no sistema da formação contínua de docentes dá uma medida da incapacidade da apregoada “estabibilidade. governativa”. A estabilidade na educação consegue-se pela definição de políticas estáveis para a educação.
Esperamos que o futuro nos traga uma estabilidade que valha a pena: definida em torno de políticas estáveis, capazes de desafiar a instabilidade das personagens que ocupam as pastas nos Minstérios.


MATEMÁTICOS E PROFESSORES DE MATEMÁTICA

Dieudonné é um grande matemático e vai dar-me uma ajuda para esclarecer a confusão correntemente praticada de haver quem chame matemático a um professor de matemática, por exemplo.
“O termo de «músico», na linguagem corrente, pode designar um compositor, um intérprete ou um professor de Música, com sobreposições possíveis entre estas actividades. Do mesmo modo, por «matemático», pode entender-se um professor de Matemática, um utilizador das matemáticas, ou um matemático criador; e a ideia corrente é a que esta última espécie está agora extinta.”

Mas tal não acontece, felizmente. E vale a pena esclarecer as diferenças entre o que é um professor de Matemática e um Matemático. Toda a gente sabe o que é um professor de Matemática. E toda a gente pressente que há professores de Matemática que serão matemáticos. Pouca gente saberá o que é ser matemático ou quem são os matemáticos. Diremos que um matemático é aquele que publicou pelo menos a demonstração de um teorema não trivial, ou seja que descobriu e/ou demonstrou alguma coisa substantiva no desenvolvimento de algum dos imensos ramos da Matemática.

Se é verdade que há matemátcos que nunca foram professores de Matemática é também verdade que uma grande maioria dos matemáticos se encontram entre os professores, raramente entre os professores do ensino secundário e muito frequentemente entre os professores do ensino superior. De facto, o trabalho dos matemáticos exige grande disponibilidade de tempo e, na actualidade, é no ensino superior universitário que se concentram as disponibilidades de tempo e meios para a comunicação entre os especialistas.

O conjunto de provas prestadas para o ingresso e progressão em carreiras do ensino superior que dependem muitas vezes de trabalhos escritos, a que se dá o nome de teses, levou a que se estabelecesse uma confusão entre professor do ensino superior de Matemática e matemático. Mas a “a grande maioria desses trabalhos é trivial, no sentido de que se limitam a tirar algumas consequências fáceis de princípios bem conhecidos. Muitas vezes, a tese destes matemáticos nemchega a ser publicada: inspirada por um orientador, ela reflecte mais a ideia deste que dos autores/doutores.

Se isto é verdade para o mundo da matemática é verdade para a maioria das outras disciplinas do conhecimento. Um professor de economia pode não ser um economista, podendo ser um utilizador de economias alheias e até ministro.
O mesmo se pode dizer de um professor de Física, de Filosofia ou de Direito.

Agora a confusão pode ainda vir a ser maior. Um professor de Matemática é confndido com um matemático e por ser profissional da educação e ter estudado ciências da educação pode ser confundido com um cientista da educação. Há cientistas a mais para tão pouca produção científica.
Deus nos valha!


COMENTADOR/COMENDADOR

Não posso mais. Mas não estou a apaixonar-me e posso resistir a todo o charme – eis o que vos digo.

O que está a enervar os nossos patrocinadores é não tanto a falta de elegância do fraseado, mas mais o conteúdo das frases. De há algum tempo a esta parte, andamos a perder a inspiração e só dizemos mal do regime de emagrecimento a que nos submeteram.

Os patrocinadores têm razão. Para quem quer emagrecer, não interessa muito os meios utilizados para chegar a esse fim. Um povo elegante é, desde há muitos séculos, o desiderato do escol dos nossos estetas sociais. Não há, pois, razão visível para que se faça tanto barulho contra as medidas governamentais quando é seguro que elas fazem parte de uma política, de um todo, que fará de nós um povo elegante e europeu. O patrocinador adivinhou que o comentador é de vistas curtas e se debruça sobre os factos como simples pretextos e não os integra no grande e elegante plano. O patrocinador adiantou mesmo, para confirmar a sua tese, que o comentador é baixo e gordo, enfim um deselegante português incapaz de ser reconvertido aos prazeres mais finos e incapaz de abandonar os prazeres da boa e cara mesa portuguesa.

O patrocinador tem toda a razão. Mas como todo o patrocinador compreensivo deu um prazo de duas semanas ao comentador para mudar.
Foi por isso que mudei. Para melhor ou pior não sei.
Agora anda a recomendar-me que não fale de anjos, demónios e mortos. O patrocinador quis conhecer-me e marcou um jantar para o dia dos anos do comentador. Nesse jantar, o patrocinador elogiou o meu trabalho e a minha mudança e disse-me que, se me mantivesse assim fiel e calmo, deixaria de ser comentador para ser comendador.


VISITA GUIADA

Aníbal esteve em Aveiro.

Com ele vieram elefantes, barões, secretários, ministros e ministras, seguranças, condutores e, quem sabe?, condottieri. A comitiva até que deve ter sido pequena para tanta inauguração. Inaugurou aqui, inaugurou ali, inaugurou acolá. Talvez tenha posto uma primeira pedra para uma inauguração mais lá para diante.

Podíamos dizer que esta viagem de Aníbal era inaugural, se ele não tivesse começado a inaugurar a escola que foi construída nos terrenos que seu pai deu ou vendeu por um preço de custo para a escola c de cavaco mais s de silva em fonte ou poço de boliqueime.

De qualquer modo, todas as viagens de membros do governo vão ser inaugurais, desde aqui até ao fim do ano que vem. E ainda bem.

E vai inaugurar o que quer que seja. Sobre a inauguração da Gafanha, disseram-me que, em vez do pequeno pavilhão previsto, vai ser construído um grande pavilhão e, mais me disseram que ele vai começar a ser construído sobre um campo que ainda está a ser construído para vir a ser demolido. Também me disseram que nos últimos dias, os operários andaram a trabalhar dia e noite para aníbal ver obra feita e inaugural.

Aconselho vivamente aníbal a não passar por aveiro na altura em que começarem a demolir o campo para construir o campo, pois pode haver alguém que se lembre de lhe atirar uma primeira pedra dentre as muitas que uma demolição sempre produz.

Resta saber se aníbal não andará a pôr as primeiras pedras no seu sapato. Com tanta pedra nos sapatos não deve inaugurar portos, traineiras, navios, estaleiros, nem deve abeirar-se de qualquer cais. Há quem espere vê-lo partir de vez de qualquer cais, há mesmo quem queira vê-lo cair de um cais para a água e carregado com as primeiras pedras, há quem queira vê-lo pelas costas, há quem queira vê-lo cair da cadeira.

Por mim, só desejo que lhe chegue uma vontade danada de dormir ou de partir para Londres, Bruxelas ou Bona, integrado numa organização não governamental tipo Associação Económica Internacional, para levar ao coração da europa a receita que tão persistentemente e com tanto sucesso nos aplicou. Eles também precisam de contributo. Eles também merecem.

Será sempre bem-vindo a passear por Aveiro. Fiquei com pena de ainda não ter conseguido o autógrafo. Mas não desisto.

 


TIMOR

Olho para eles. São jovens e têm o rosto escuro. Falam um português próprio com a boca, mas também com os olhos brilhantes. Falam português e falam inglês, talvez porque não queiram falar a língua de quem lhes ocupa o chão que pisam e amam, onde floresce a calma e a ira. Hoje e todos os dias protestam.

Olhamos para eles e eles já não são os mesmos. Já não são andrajosos guerrilheiros com as barbas longas. São jovens estudantes que fequentam as universidades criadas pelos indonésios para deles fazer indonésios, ou parte da indonésia.

Olho para eles, tomados pela ira e pelo desconforto do conforto e do progresso, que lhes ofereceram em troca da sua identidade.

Olho para eles, até compreender que o escuro rosto é o mesmo rosto pálido e rígido que enterrámos nos cemitérios de dili e nas valas comuns. Ao vê-los, percebemos que os mortos fertilizaram a pátria de timor.

Curvo-me e toco ligeiramente com os meus lábios a face lívida e escura que voa, como uma bandeira de sangue, como um hino vibrante escrito em português longínquo e ondulante como um trilho secreto calcorreado no mar.


AMBIENTE

Este mundo não é uma mancha para nós
Nem é vazio; e é intenso e elevado o seu significado:
Encontrar esse significado é meu alimento e minha bebida.

Assim escrevia Browning, ainda antes de todos nós que dizemos isso em risco de vida. De certo modo, as palavras já foram todas escritas antes de nós as escrevermos. Nós só lhe damos mais cruel significado, quando as praguejamos contra a nossa própria insensatez que não procura significado para o mundo depois de nós.

Hoje, embebemos a nosssa alma com gasolina e álcool e ateamos-lhe o fogo para aquecermos os corpos no inverno, na esperança de chegarmos vivos à primavera que tarda. Hoje, o frio glacial, que nos tolhe os movimentos do espírito, tem a sua fonte e sede na realidade mortal artificialmente criada para ser devastadora. Olhamos para quem manda, como a mancha que alastra em vez do mundo, como a mancha que mancha o mundo e com a sensação de que nada fazemos para a parar. Que podemos nós fazer contra as fogueiras ateadas no ártico glacial?

Este mundo não é uma mancha para nós, nem é vazio. E é intenso e elevado o seu significado. Embebo a minha alma com gás natural e deito-lhe fogo para cozinhar o meu alimento. Perdemos o apetite pelo significado intenso e elevado do mundo.


DOÇURA

Deus diz: «Entre mim e eu, sinto que me falta uma espécie de doçura;
por isso improviso um colibri, algum orvalho, uma ilha muito leve,
um canto de amor, um sonho intermitente
onde um outro deus se passeia.»

Escrito isto, Alain Bosquet deitou-se e adormeceu de olhos abertos. Eu vigio-lhe o sono e revejo-me no espelho dos seus olhos abertos.
Cuidadosamente copio as palavras que desenham os contornos e o íntimo do que vejo no espelho. Escrevo o reflexo, a virtual doçura dos gestos das mãos que copiam um canto de amor.

Ouço a memória da voz, não a voz. O que dela guardo depois de ela se ter perdido no ar, é o que ouço. Não são as palavras pesadas que contam para a minha memória das palavras. O que me trespassa é a leveza das palavras.


MARIA JOSÉ BURNS

Os amigos são marcas. Levam de nós algumas marcas e deixam-nos algumas marcas. Sendo leviano com as amizades, sou marcado pelas amizades.

É dos horizontes que nos vamos aproximando e afastando. Também dos amigos, assim a vida nos aparta e aproxima.

Sempre fui fiel aos amigos que nunca conheci – sempre fui amigo de poetas. Burns era um camponês pobre, poeta das terras altas da Escócia. Burns foi miserável e foi rico, de convívio fácil com os pobres e adulado pela nobreza, mas sem nunca lhe chegar a pertencer, leviano fugitivo, acabou por casar com a filha do homem que lhe gritara preferir ter netos bastardos a ter um canalha por genro. Burns foi bêbado e foi fiscal do tráfico das bebidas alcoólicas. Não houve camponês que se queixasse e todos tinham pipas passadas aos direitos. Burns foi o poeta das terras altas.

A amiga Maria José trouxe-me, de Londres, uma latinha de bolachinhas de aveia, caseiras OatCakes das HighLands, produzidas pela família Walker. Lá no alto, mas cercado por ainda mais altos picos cinzentos cobertos de neves eternas, num sombrio vale selvagem, na borda de um ribeiro, com o meu amigo Robbie Burns, quando ele fugia da nobreza de Edimburgo, repartimos as bolachas de aveia da Maria José. Burns então disse-me que “nem tesouros nem prazeres / nos podem dar a felicidade por muito tempo. / Sempre é o coração a parte/ que nos faz bem ou mal.” Ou umas bolachinhas de aveia da Maria José – lhe disse eu. Burns murmurou qualquer coisa, enquanto emborcava pela boca o calor do alcool. Pareceu-me que concordava.

Mesmo que não pareça, as amizades são verdadeiras e “esta história é tão verdadeira como o demónio no inferno ou na cidade de Dublin”. Assim diria Burns. Assim o digo eu. Fiel a toda a verdade e a toda a mentira.

Os amigos são marcas.


WALT

Se o rapaz apanhar uma febre intermitente terá preguiça até de tremer . Foi o que o patrão lhe disse, depois de o mesmo lhe ter sido dito pelo professor com outras palavras.

O rapaz é preguiçoso e gosta de estar deitado na relva. Gosta de ser livre e de pensar e por isso corre por terra atrás dos barcos e dos nadadores no rio, e por isso corre nos passeios ao lado da rua dos maratonistas que o ultrapassam. O rapaz cansa-se a parecer o que quer ser. E está deitado na relva do parque.

A mãe lavou-lhe e engomou-lhe a camisa alva. Ele sabe que está limpo. Ele é um gigante que deixou crescer uma barba verde e castanha e, deitado na relva, parece que tem raízes a sair-lhe da cara e da cabeça.

Se o rapaz apanhar uma febre intermitente terá preguiça até de tremer. Foi o que lhe disseram patrões e professores. Walt vê o céu deitado na relva. Quando se levanta, Walt vê o mundo de cima. Quando se baixa, Walt vê-nos a todos, laboriosas formigas e máquinas humanas, capazes de carregar os insustentáveis fardos e também capazes de os descarregar como insustentáveis levezas.

Walt Whitman, gigante e preguiçoso, é o poeta das folhas da relva e da democracia, até hoje, mais de cem anos após a sua morte.

Quando fico cansado demais, por cumprir as ordens da minha vida, deito-me sobre a relva da campa de Walt e fico à espera que me digam, como a minha mãe me dizia: “O rapaz é preguiçoso.” Talvez seja poeta.

 


ESTUDO DA RAZÃO PURA

Byron estabeleceu um peso e uma medida para as palavras escritas pela mão da inteligência sensível.

Porque as palavras são coisas: e uma pequena gota de tinta
Ao cair, como orvalho, sobre uma ideia, produz
Aquilo que faz com que milhares de pessoas, talvez milhões, pensem.

Estudo as palavras para responder às minhas dúvidas. Já deixei de estudar para responder a outras necessidades individuais ou sociais. Agora só estudo para resolver os problemas que não sei resolver e quero resolver. E são tão poucos estes problemas fundamentais. Não são problemas de matemática, física ou política. São problemas simplesmente. São dúvidas, são lâminas cortantes, são palavras despidas. Não são os problemas da origem da vida. São problemas de origem. São a origem dos problemas.

Porque as palavras são coisas: e uma pequena gota de tinta
ao cair, como orvalho, sobre uma ideia, produz
aquilo que faz com que milhares de pessoas, talvez milhões, pensem.

Estudo as palavras e já não as junto para argumentos claros, não as fecho em silogismos, não as prendo às ruas da propaganda, não lhes dou sentido em graus académicos, não as reúno em provas reais ou em falsas provas dos noves. Estudo as palavras para responder a dúvidas verdadeiras. O combate que travo talvez já esteja perdido e eu, em vão, espere que uma pequena gota de tinta caia sobre uma ideia generosa que faça com que as pessoas pensem. Mas antes uma vida de esperança em vão, que a tal sorte de não ter destino.


ADIAMENTO DA REFORMA DO POETA PELA “CATROGA & CAVACO, INC.”

Aos cinquenta e cinco anos reúno os meus livros de poesia, os meus cadernos de capa dura, os meus discos, o meu computador portátil, a minha mulher, as minhas memórias e partimos para passear, ler, estudar e escrever para as falésias brancas sobre o canal da mancha ou para uma falésia da galiza, portuguesa ou espanhola. Quem sabe se não vamos, por uns dias, até à finisterra e, por uns dias, até à bretanha.

Aos cinquenta e cinco anos, se não tiver morrido antes, vou escrever um poema de poemas.

Assim pensava eu na minha reforma de uma vida modesta de função e intervenção públicas. Guardava para fazer então o que não faço hoje, nem fiz ontem.

Conhecedores de tais projectos e receosos do fracasso comercial da minha temeridade literária, a sociedade Catroga & Cavaco quer decretar que a minha vida de poeta seja adiada para dez anos depois ou para a eternidade. As minhas contas sobre os nossos descontos foram verificadas pela sociedade Catroga & Cavaco e nelas descobriram vários erros. O principal dos erros vem de termos nascido dez anos depois da data propícia. Se tivesse tido a sorte de chegar à reforma antes da falência decretada pela sociedade Catroga & Cavaco, os meus adiamentos estavam carregados de prudência e maturidade.

Não há poesia nisto! Aos 67 anos já só posso pensar passear pelas marchas lentas das manifestações com bandeiras negras dos reformados. Ou então estarei morto e estarei embrulhado nos papéis que não guardei.

Menos um reformado para sustentar! – é o que ocorre ao gerente da sociedade gestora das reformas públicas.
Para mim, não há consolo possível. Começo a andar devagarinho. Num carrinho de compras, carrego o peso dos anos e a maldição da sociedade Catroga & Cavaco.


DEMOCRACIA DAS MANCHAS

Aprovei o Orçamento de Estado. Aprovei a Lei da Imprensa. Aprovei a Lei dos Serviços de Informaçao. Aprovei …… aprovei, aprovei.

Desaprovei o Orçamento de Estado. Desaprovei a Lei de Imprensa. Desaprovei a Lei dos Serviços de Informação. Desaprovei… desaprovei, desaprovei.

Tudo dependeu do partido em que estive nesta legislatura. Nada dependeu de mim. A minha inteligência não foi tida nem achada para isto. Muito menos o meu estudo das diversas propostas em confronto.

É esta a situação do parlamento: já não há pessoas, há manchas cinzentas de cadeiras. Quando o presidente pede para votar, levantam-se manchas. Nem uma pessoa se levanta. Não há qualqer ditadura das direcções partidárias, porque já não há pessoas, há membros de partidos a obedecer às cabeças dos partidos. Quem é que se queixa do centralismo democrático dos comunistas? Quem é que quer comparar a vitalidade deste parlamento de ex-pessoas com um parlamento soviético do tempo de Lenine? Bastará ler as actas, para perceber em qual dos parlamentos estiveram pessoas.

Não há nada mais cruel para uma democracia. A democracia não é representada por pessoas livres, é representada por manchas inomináveis. Começo a pensar que as pessoas elegem bonecos articulados para não terem de fazer tais tristes figuras. E começo a perceber porque é que os políticos devem ganhar muito dinheiro: eles vendem a alma, cada um ao seu diabo ou ao seu deus, mais do que qualquer serviço que pudessem prestar à sociedade. E têm de ser ex-pessoas, antigas pessoas, expostas a uma calamidade moderna e, por isso incapazes de vontade e inteligência, manipuladas por contrabandistas de almas, compradas e vendidas como corpos corruptos e especialmente treinados, assim à moda dos jogadores de futebol, das prostitutas e dos mercenários.

A semana passada foi mais uma imagem espelhada desta vida democrática transparente. Todas as manchas se levantaram ao espelho. Não vimos o reflexo de uma única pessoa.


A MENTIRA E A PROVA

A semana passada fez do passado uma ilusão. Ninguém soube dizer nada sobre os seus antigos e recentes actos.

Cavaco nunca sabe nada do que se passa e pretende estar assim acima de todos os negócios do governo, dos militantes do seu partido, do seu partido. Cavaco aprendeu a fazer o que todos os padrinhos sempre fizeram em tribunal. Não há padrinho que, instado a pronunciar-se, declare ter praticado ou ter mandado fazer qualquer crime.
O pior disto tudo é que a família acaba por acreditar e comover-se com a inocência do padrinho. Porque toda a moral, todas as boas maneiras, todo o amor é partilhado dentro de cada uma das grandes famílias e exerce-se contra cada uma das outras famílias concorrentes.

Nogueira não sabe o que foi feito nos negócios de armas com Angola. Catroga não sabe das violações dos segredos bancários nem sabe de relatórios sobre as pensões. A realidade passou a ser constituída por aldrabices. A verdade passou a ser o amontoado das palavras que amortalham no olvido os corpos de delito e os delitos.

Ao mesmo tempo declaram que ninguém está acima da lei, mas esperam que a lei não consiga provar mais do que as suas declarações podem cobrir. Porque, mesmo que seja verdade, mesmo que toda a gente saiba que a verdade é verdade, aos tribunais é preciso provar. E o que é provar? É a coisa mais dificil que há.

Não é por acaso que quem tem de provar o que quer que seja se encontra afogado em papéis e pó, com os movimentos tolhidos pela sede. Às vezes penso que não há ninguém com mais fome e sede de justiça do que o sistema da justiça. Outra penso que não há justiça.

A semana passada foi a semana das mentiras. Todos mentiram ao tribunal da opinião pública como vão mentir ao outro tribunal.


DUAL

Vejo-me ao espelho. Escrevo virado para uma parede espelhada. Quando levanto os olhos vejo um velho atrás de um computador na janela em frente. Ele fuma como eu por um cachimbo sujo.

O velho que em frente de mim levanta os olhos quando eu levanto os olhos tem pouco a ver comigo, apesar de ser terrivelmente parecido comigo. Ele comove-se com coisas que a mim não comovem. Ele vive no outro mundo, do outro lado do espelho, e, desse lado do mundo, bem se podem dar ao luxo das emoções e das comoções. Do outro lado do espelho, posso comover-me com o destino do povo bósnio, de angola, da etiópia, de timor, do ruanda ou de moçambique. Eles afligem-se ao ritmo das notícias.

Deste lado, eu vivo com a realidade e o cinismo e a indignação são gestos meus.

O velho que, em frente de mim, levanta os olhos quando eu levanto os olhos, está comovido comigo. Tem pena de mim. Com os problemas do mundo ele deixa entristecer o olhar. Quando levanta os olhos marejados de lágrimas sei que está preocupado comigo, com a minha incapacidade de comoção pelo controle da emoção, com a minha incapacidade de chorar e de acreditar no destino do homem.

Ele sabe que só quem acredita no futuro da humanidade é capaz de chorar pelo seu presente. Ele acredita que o seu cachimbo será fumado em sinal de paz e eu sei que estou a morrer no meio das guerras e de horrores sem sentido.


PATRONO

José Pereira Tavares é, em muitos aspectos, o meu herói. Vi-o uma vez na Sessão de abertura de um ano escolar do Liceu em que ele entregou um prémio ou vários prémios aos bons alunos do ano anterior. Nessa altura, José Pereira Tavares já não era reitor e eu não me lembro de o reconhecer nas ruas da minha adolescência.

Reconheço-o mais tarde a combater a anemia do movimento docente que, se tinha paralisado à sombra da Associação do Magistério Oficial e do activismo legislativo fértil dos governos da república entre 1917 e 1925. Reconheço-o a construir a revista Labor, como órgão de classe, pedagógico mas também associativo e resistente. Reconheço-o a ser cercado pelo regime fascista e a preferir quebrar que torcer os destinos da Labor. Reconheço-o a deixar de ser reitor e a voltar a ser reitor passados uns dez anos de travessia do deserto que o regime fascista era.

Reconheço-o nas selectas onde li alguns dos meus poetas de ontem e de hoje, alguns dos trechos de literatura que, apesar de consentida, ainda são os meus trechos de literatura. Reconheço-o na gramática que me organizou alguma voz e voo, alguma escrita, algum sabor português.

Hoje, os professores querem pouco saber dos professores de ontem. Os professores não têm memória, não conhecem o espírito do lugar que ocupam talvez porque tudo o que são não é senão transitório.

Estou a começar a fazer campanha para que Aveiro, os seus professores e as suas escolas escolham José Pereira Tavares para patrono da sua Associação de Escolas ou para o seu Centro de Formação. O meu único problema é saber se o Centro de Formação já deu provas de merecer tal patrono.


O SR DODGSON

“O Sr Dodgson não conhece nenhuma relação entre ele e os livros escritos sob outro nome que não o seu…” – afirmou peremptório Charles Lutwidge Dodgson.

Charles estudou em Oxford. Fez estudos eclesiásticos e diplomou-se em Matemática. Foi reverendo e professor de Matemática. Escreveu livros de Matemática e são mais conhecidas as suas obras no domínio da Lógica. Divertiu-se tremendamente com a Lógica e são muito conhecidas os seus hilariantes exemplos de raciocínios lógicos.

Ao mesmo tempo, o matemático e professor de Matemática Charles Dodgson dedicou-se à fotografia, em especial de crianças. É mesmo considerado o maior fotógrafo de crianças do século XIX, a quem contava de improviso histórias prodigiosas.

Essas histórias dedicadas a Alice Lidell são mais conhecidas que todo o resto da sua obra, mas não são obra de Charles Dodgson. Alice no país das maravilhas e Alice do outro lado do espelho foram escritas por Lewis Carroll e o Sr Dodgson não reconhece nenhuma relação entre ele e as fotografias de crianças ou os livros escritos sob outro nome que não o seu… esse de reverendo, professor de matemática, matemático e … lógico.


CAMINHO DA ETERNIDADE
“Doem-me as costas. Uma ventania cortante vergasta-me a cara. Choro de dor a cada passo que dou e sinto a cara cortada pelo vento e sulcada por velozes lágrimas vindas do alto em busca do refúgio que eu já não sou. Arrepio-me de frio e acelero as passadas.

Para onde vou? Para onde hei-de ir? São as marcas na lama que fazem o meu caminho e indicam o meu destino. Sempre em frente, sem saber para onde, vou ao encontro do exacto lugar em que o meu corpo repousa e descansa.”

Assim pensava Joaquim da Cruz, enquanto caminhava encurvado e a tremer.

Ao dar a curva da rua de deus dará, Joaquim teve de fazer uma finta dolorosa para não chocar de frente com a mulher ali plantada, a mão estendida à caridade pública. Pareceu-lhe que a mulher era jovem e bela e tinha um sorriso calmo e bondoso.

Joaquim da Cruz fez um movimento doloroso para tirar a carteira do bolso do casaco. A nota que deixou cair para a mão estendida voou e foi cair no passeio ao lado da mulher. Esta não se mexeu, nem alterou o sorriso. Continuou com a mão estendida. Joaquim parou. Olhando para a mão estendida, Joaquim sentiu que o gesto não era de pedir mas de dar e instintivamente estendeu a sua mão até à mão dela. A mão dela estava fria, mas Joaquim sentiu-se agradavelmente confortado, quase feliz e sem dores. Ficou assim de mão dada, naquela posição de pedir e receber ou receber e pedir. Feliz.

No dia seguinte ainda ali estava Joaquim da Cruz, parado, de mão dada com a estátua. Quando os bombeiros o foram buscar para o levar para a morgue, ele ainda sorria.


ENSAIO SOBRE UM CASO DE COBARDIA

O Centro de Formação de Professores de Aveiro apresentou, na época própria das apresentações, um plano de formação para 1993/95. Em 94, também na época própria, preparou perto de 3 dezenas de processos de outras tantas actividades de formação, que foram apresentados a quem de direito. Desses, 24 mereceram, em época própria, o despacho oficial de credíveis e boas para a formação contínua de professores.

Em Outubro e Novembro, fora de tempo, já no fim da 2ª parte do jogo, o Governo faz publicar novas normas para a formação contínua de professores e atribui-lhes efeitos rectroactivos. Dito de outra forma, o Governo manda começar o jogo com umas regras e, quase a chegar ao fim, altera quase completamente as regras, invalidando quase todo o trabalho feito na 1ª parte de seis meses. Para dar uma ideia, das 24 acções acreditadas ainda se candidatam a financiamento 10 – mais de metade do trabalho já era! – e, por terem sido estabelecidas novas prioridades governativas para os assuntos da formação, talvez venham a ser financiadas 2 acções que englobam cerca de 30 professores, quando se deve responder às necessidades dos 1200 educadores, professores dos 1º, 2º e 3º ciclos do ensino básico e do ensino secundário que trabalham em Aveiro.

E o pior ainda está para vir: aquilo que tinha sido acreditado ontem já não serve para o ano que vem. É preciso voltar a preencher novos impressos, em tudo semelhantes aos anteriores no seu aspecto e no seu conteúdo, mas novos. E tudo até 15 de Dezembro. Não dá tempo para preparar a transferência dos dados. E recomeçamos tudo de novo, contra o aborrecimento legítimo dos formadores e de toda a gente. Dizem-me para dançar ao som da música que me tocam, sem se lembrarem que a música era outra e que não havendo qualquer solução de continuidade entre uma e outra, vai ser preciso parar e recomeçar de outra maneira.
Isto é de tal modo que, se pensamos e trabalhamos, sabendo o que estamos a fazer, não vamos poder acabar e o que nos deixam acabar há-de ser aquilo em não tivemos tempo para pensar ou sem saber o que estivémos a fazer.

Isto é quase nenhuma formação e muitos trabalhos forçados. Ainda há quem diga que os funcionários públicos trabalham pouco. Mais valia que eu tivesse trabalhado pouco. Não me sentia vítima de governo tão mal formado, não sentia tanto a degradação da tal estabilidade em asneira, prepotência, arrogância. Para trabalhar assim e continuar a sorrir é preciso muita cobardia e muito desprezo por si próprio. Estou farto disto tudo.


FLORBELA E EU.

53 anos antes de eu nascer para este mundo, que não vira nem pressentira, tão protegido estava pelo abraço de minha mãe, um indivíduo do sexo feminino nasceu com os olhos abertos.

No mesmo dia, por sinal, nascemos. Má sina a desse dia. Má sina para todas as imaculadas conceições.

Ela acabou por ser, depois de morta, explorada por um topo gigio.
E eu, sinto-me explorado como um boneco, ainda em vida pelos totós do governo.

De qualquer modo, ela foi mais feliz e infeliz que eu, porque teve tempo para escrever seus sonetos, seus versos femininos. Eu ainda nem tempo tive para tentar escrever o primeiro soneto inspirado nos números da minha musa destas noites de insónia que é, sem dúvida, ministra da economia da educação. Ela tira-me o tempo para as sonecas e para os sonetos – esta falta de educação é, para mim, um pesadelo.


DIFERENÇAS

Amei-te desmedidamente. O filho que gerámos tem os olhos vesgos, orelhas de elefante e uma tromba potente, sensível e fina de urso formigueiro. Mas é o nosso filho.

E passámos a vida a olhar embebecidos para o nosso filho, fruto do nosso amor. Quando escurecia, o nosso filho abria os olhos e iluminava dois cantos do quarto em que nos escondíamos do mundo. Ceávamos à meia luz que os seus olhos acendiam cheios de ternura. Quando nos deitávamos, ele fechava os olhos, embalava-nos empurrando o berço com a sua potente tromba e, nas noites de calor, refrescava-nos com o movimento calmo das orelhas. Quando adormecíamos, ele comia os insectos que ousavam incomodar-nos.

Somos felizes. Mais felizes somos porque te amei desmedidamente várias vezes e temos agora um rancho de filhos que olhamos embebecidos, porque têm os olhos vesgos e muito brilhantes, orelhas de elefantes e trombas potentes, sensíveis e finas de ursos formigueiros.

Quando nos mudámos para esta rua, ela era habitada. Pouco depois de nós chegarmos, os vizinhos começaram a ir-se embora. A última a partir foi uma velhota muito pobre de quem nos despedimos com simpatia. Não percebemos porque é que ela nos perguntou se não tínhamos espelhos.


CONSTRUÇÃO DO FUTURO

Se olhares para trás, farás de ti uma estátua de sal, parada no tempo passado. Olha para o tempo por vir e imagina que podes construir o teu olhar. Acredita que podes construir o tempo que está por vir. Pelo menos, podes construir a tua parte.

Se assim construires, ao alcance dos ouvidos da tua alma estarão as vozes que te anunciam um bom ano, futuro e presente, e verás que a parte boa que construíste foi multiplicada por mil olhos igualmente bons.

Claro que há ainda muitos que te querem dar o seu presente de erros e, que sendo poderosos, não aceitam a nossa recusa facilmente. Eles tudo farão para que o futuro seja o seu presente de erros. Mas tu podes guardar sempre a luz que acendeste com o teu olhar. Ninguém, nem mesmo eles, te podem tirar o brilho e a paz que emprestaste ao futuro.

O bem e o mal que fizeres será distribuído pelo mundo e, partícula a partícula, voltará a cair sobre os teus ombros – bem leve sob a tua alma, mal pesado sobre a tua cegueira egoísta. Que não sejas tu a promover a margem do rio a rio, nem sejas tu a promover um rapaz sonhador a general armado e sanguinário, o cobarde a ministro de patavinas, o corrupto a ministro de deus. Que não sejas tu.

Se fores tudo o que de bem te desejamos e não fores todo o mal que sempre podes ser ou apoiar, conta com os nossos votos para que o ano futuro te corra bem e conta com a nossa voz para denunciar os erros poderosos e para chorar com os fracos e os humilhados. Conta com os nossos ombros para pousares os teus olhos cansados.

Mas não esqueças que o próximo ano é também obra tua.


PARTIDA DE CAVACO

Afinal que vai ser de Cavaco? Que vai ser do país se Cavaco fica? Que será do país se Cavaco parte?

Alguns andam preocupados com a vidinha do demoteurgo Cavaco. Mais preocupados andam os outros que viveram e vivem à sombra daquilo que ajudaram a construir – o demautocrata Cavaco.

Como aguentar o progresso? Este progresso?
Este cavaco de progresso não é medido pelo nível da educação, mas pelo número de escolas construídas, não é medido pelos cuidados de saúde prestados, mas pela construção dos novos hospitais, não é medido pelos resultados da investigação, mas pelos milhares gastos no equipamento de não sei o quê, não é medido pelo emprego, mas pelo relativo desemprego e pelos bons empregos, não é medido pela boa aplicação dos fundos estruturais, mas pela captação dos capitais, não é medido pela igualdade de oportunidades, mas pelas boas oportunidades para todos os oportunistas, não é medido pela boa segurança social, mas pela insegurança pública a favor de possível negócio da privada, não é medido pela quantidade e qualidade das habitações para toda a gente, mas pela velocidade de enriquecimento dos patos bravos da construção.
Este cavaco de progresso é medido em quilómetros de auto-estradas. Este cavaco de progresso é medido pelo enriquecimento contente dos cavaquistas e pelo empobrecimento generalizado da população trabalhadora. Este cavaco de progresso está na racionalização e reclassificação dos recursos humanos a que os outros hão-de chamar desemprego estrutural a favor da cobiça dos empreendedores privados com subsídios públicos. Este cavaco de progresso está na prévia extinção da agricultura portuguesa antes de um “pamaf” de fundos para bolsos sem fundo. Este cavaco de progresso está na retoma que os economistas e os urubus veem nas tabelas e os portugueses não veem no pão nosso de cada dia.
Como aguentar tanto progresso? Por quanto mais tempo? Este progresso é de quem? E é para quem?

Pelo nosso lado, não conseguimos ver o mal da retirada do dito. Por solidariedade com aqueles que terão de ser seus alunos, apelamos à privada que o monopolize. À nossa democracia, não fazem falta os demoteurgos e os demautocratas. Que nos perdoem os seus órfãos, mas não vamos sentir a falta. de tal pai adoptivo. Nós nunca o adoptámos, nem a ele nem aos outros filhos da mãe. Deixem-no partir em paz. Obriguem-no a partir em paz. Deixem-nos em paz. Vão chorar para outro país.


SEPARADOR
Não há segurança no que dizemos. Mas isso não importa.

Amanhã será um novo ano e nós podemos prometer fazer dele o ano bom das nossas vidas. Cada um de nós pode prometer e, se cumprirmos os nossos desejos, o ano bom pode acontecer sem que nos espantemos.

Não há segurança no que dizemos. Mas isso não importa.

Nós queremos a paz nesta dobra de tempo. Estamos nesta esquina e esperamos a felicidade. Ouça o que ela tem para lhe dizer e faça o melhor por si, pelos seus amigos, pela sua cidade e pelo seu mundo.

Rádio Independente de Aveiro: uma voz pelo novo ano bom.


EDUCAÇÃO DA POLÍTICA

Amanhã, os profissionais da política vão ser melhores, vão até dizer a verdade.

Nós sabemos que o palco do poder apetece e que há quem pense que é legítimo mentir para chegar a pisar esse palco. Há também quem pise os espectadores para subir ao palco. Há quem pense que é legítmo mentir aos espectadores para continuar no palco do espectáculo do poder.

Mas sabemos nós que cada espectáculo deve ter seu fim, sabemos nós que os espectáculos longos e fastidiosos ficam sem espectadores entre dois actos e às vezes mesmo durante a representação mais dramática ou mais patética.

Amanhã, os profissionais da política vão ser melhores e vão até ser capazes da verdade mais dolorosa. Eles poderão mesmo assumir que não há papéis que prestem ou que para papéis que prestem eles são actores cansados e velhos demais.

Amanhã, os profissionais da política vão ser melhores, mais humildes e vão ser capazes de admitir o erro quando erram. E será então que os profissionais da política vão ser capazes da verdade. Nós estaremos à espera de ver a manhã desse dia em que eles virão pela mão da verdade. E começaremos a confiar a té voltarem as razões para desconfiar.


VISITA DE ESTUDO

Os alunos partiram para a sua primeira visita de estudo à noite. Levaram agasalhos e um telescópio para ver as estrelas mais brilhantes e um ou outro planeta.

O professor acompanhante explicava a cada um, astro a astro, o que ele podia ver. Os alunos olhavam atentamente o céu. Com os seus olhos mais apurados, alguns alunos furaram as núvens e viram a verdadeira escuridão da noite tomar conta do céu. Ainda tentaram avisar o professor, mas este estava distraído a explicar a luz a uma jovem apagada.

Os alunos fugiram a tempo. O professor,esse, foi engolido pela escuridão. Ainda o ouviram gritar algum tempo. Depois … bem… depois havia muito barulho na discoteca.


MARILENE

As mulheres marcham ao compasso marcado pelo tambor e pelos tacões das botas de combate. Assim pensava Marilene, enquanto calçava as suas botas de salto pontiagudo.

Quando Marilene, actriz de variedades, sapateava no tablado, não era precisa qualquer outra caixa de ritmos. O bater dos seus saltos pontiagudos ouvia-se até nos estômagos dos espectadores, incapazes de desviar os olhos das fantásticas pernas de Marilene.

As mulheres marcham ao compasso marcado pelo tambor e pelos tacões das botas cardadas. Asim pensava Marilene, enquanto calçava as suas botas de combate. Mal acabava o espectáculo no tablado, sem aceitar convites dos clientes do bar, Marilene partia para o seu verdadeiro combate.

Marilene marcha ao compasso marcado pelos tacões das suas botas de combate. Chega a casa. Começa a despir a farda de combate. Acordada, a sua mulher, Maria dos Anjos, vem ajudá-lo a tirar as botas.


O pretexto do lixo

Sigo sempre os mesmos caminhos, de casa para a escola e da escola para casa e da vida para a morte. É uma rotina. Visto-me e faço tudo sempre da mesma forma, na minha vida de gestos não atendo a progressos nem inovações. É uma rotina.
Devia apontar o pretexto no instante em que ele se desenha e se destaca do tempo em que vivo. Devia seleccionar de entre as notas avulsas um pretexto, e descrever uma ideia, escrever uma história, compor um hino – ao ritmo de um por dia. Uma rotina. Escrever devia ser uma prática comum para o meu dia a dia; os compromissos ainda que mal assumidos deviam obrigar-me a uma rotina. Escrever devia simplesmente ser um acto de por em funcionamento períodicamente a máquina de escrever, o computador. Com vista a cumprir os compromissos, escrever devia ser uma rotina.

Mas não consigo fazer da minha vida a rotina que ela supõe. E é, por causa dessa incapacidade, que rotineiro é um drama em inúmeros actos e desacatos cntra mim.

Uma rotina por mais simples que seja não se instala simplesmente na minha rua.
Como nela não se instala o caixote de lixo.
A Câmara tem sido incapaz de compreender que deve estabelecer rotinas simples. Por exemplo: casas novas, rua nova, pavimento novo, novos moradores, novos caixotes de lixo.

Não posso deixar de me sentir solidário com a câmara neste drama. Como deve ser dificil desenhar o caixote de lixo da minha rua. Como deve ser dificil convencer o caixote de lixo a ocupar aquele seu lugar já desenhado no chão.
E carrego o drama do lixo até à rua dos outros. Porque afinal o drama do lixo não é mais do que o drama de um pretexto.


Inclinações

Eu não navego pelos braços da ria que atravessam a minha cidade. Navego pelas ruas, quando não demando coisa alguma. Ao longo dos canais, procuro a imagem espelhada de mim que devia navegar sobre as águas em vez de mim. E não a encontro.

Dou asssim uma importância demasiada aos muros que bordejam os canais, ao edifícios que formaram e formam as esquinas em que me encostei e encosto. Por eles passei as mãos, deixei que as suas formas se roçassem pelas minhas costas. Alisei-lhes o rosto. Limpei-lhes algumas lágrimas. Acompanhei-os na dor da queda e da operação plástica. Acompanhei-os na morte.

Assim perdi as esquinas da minha adolescência. Em vez delas, rasguei cicatrizes no meu peito, cartografia da minha cidade perdida. As minhas cinco bicas deixaram de existir, quando a mercearia do canto foi substituida por uma agência da companhia de seguros ou outra coisa qualquer e a casa deixou de ser o que era. Onde hei-de comprar o pião e o baraço? Onde estão aqueles que usavam batas ou aventais de cotim cinzento e me reconheciam na pobreza e na timidez?

Perdi tantas esquinas. Por cada uma delas, me fechei dentro de um círculo de silêncio e é por isso que a minha consciência de Aveiro é um labirinto sem saídas.

Hoje olho para a capitania afundada, inclinada para o lado da morte. E inclino-me eu também com ela. Os rasgões nas paredes da capitania transformam-se em rugas de impotência nos cantos dos meus olhos cansados de ver de perto a morte.


Ponte de metal sonante

Há uma ponte por fazer entre um lado e outro do tejo. Há uma ponte por fazer entre os mandantes da ponte e os mandados para a ponte. Há uma outra ponte por fazer entre a ponte e a paisagem que ela quer habitar. Há uma ponte impossível de atravessar entre cada uma das partes destas pontes. A Comunidade europeia paga uma portagem e o governo portageiro nem quer ouvir falar de adiar a ponte de cimento e de construir outras pontes de entendimento. Chamam à portagem fatia do fundo de coesão.

62 milhões de contos são 311 milhões de ecus. Mais de 62 milhães de contos é quanto pagam pela portagem. Quem tem que importar todo esse dinheiro não importa os problemas e as dúvidas. A paisagem há-de habituar-se ao cimento e ao ferro e se não se habituar que morra para dar lugar a nova paisagem. Ver uma entrada triunfal de 311 milhões de ecus é demais. Quem sabe do brilho do dinheiro, sabe que tanto dinheiro cega. Para os cegos, que interesse pode ter a paisagem? Comparada a tão grande dádiva, que interesse pode ter uma dúvida? Que interesse pode ter uma dívida?


Destroços no caminho da Gafanha

Já fui à Gafanha pelo caminho mais curto.

Devagar, muito devagar lá segui atrás do carro que me precedia lentamente e à frente do carro que me seguia devagar, muito devagar.

Vi os dois lados da estrada a transformar-se em estrada. O homem que seguia no carro comigo perguntou aos seus botões, como havia de ser no fim da autoestrada quando ela estivesse concluída. Eu alvitrei que não havia problema se ela desembocasse directamente para o mar sem qualquer aviso prévio.

Uma outra solução é deixar cair a ponte a meio de si mesma e guiar os automóveis para aquele cais s, estaleiro e cemitério. Uma outra solução é não ter solução nem ponte e desviar o tráfego da autoestrada para Ílhavo e para Vagos, para Mira e para a Figueira da Foz, Peniche, Nazaré, Ericeira, Sines ou Vilamoura. Há ainda uma outra solução que é deixar que as marinhas de sal tomem conta de tudo. As marinhas são uma solução de quê? Cloreto de Sódio? Podemos também mandar construir as autoestrada a desembocar no acampamento de tendas para turismo ali para o lado do pleno deserto do Sultanato de Sódio, entre a Gafanha, com S. Jacinto à distância de um tiro de cuspe.

Devagar, muito devagar lá fui e cheguei à Gafanha da Nazaré em Janeiro. Como será em Agosto?


Nem sei que dia é hoje.

Não sei que dia é hoje. O dia arrasta-se viscoso e fétido. Uma núvem pegajosa e fria ocupa o norte e o sul da minha cabeça. Uma orquestra de bordões vibra dentro do átrio que a minha caixa craniana é. O auditório é enorme e nele se sentaram todos os gritos de uma multidão revoltada. A pateada ressoa.
À saída, o homem que tentou cobrar as entradas pergunta pelos bilhetes de saída e as portas partem-lhe a cara. Um estrondo sobe desde o peito até ao átrio aberto na cabeça. A catástrofe foi evitada por uma multidão de pombas que, batendo as asas, irromperam dos ninhos, ali perto das olheiras, e ocuparam toda a amplidão do auditório em que se ouvia a ária do adeus à vida.

Não sei que dia é hoje. Um político vem até ao púlpito e declama um sermão previamente escrito. Ouço-lhe as imprecações e o ribombar da explosão da bomba que um terrorista trazia no bolso. Dentro da minha cabeça, se desfaz o político e o terrorista ingénuo e infeliz.

Não sei que dia é hoje. Um jornalista denunciou em voz vibrante e clara a conspiração que percorre os corredores do palácio do poder. Uma secretária ouviu acidentalmente as palavras que uns murmuraram para os ouvidos dos outros e fugiu para as escadarias. Ali, por ter tomado consciência de si, iniciou um discurso inflamado até chegar a ambulância da sua própria loucura. Um deputado esclareceu a imprensa que se ela assim estava e falava tal se devia a ter sido abandonada pelo deputado do seu círculo de amigos, entretanto eleito para outro parlamento.

Não sei que dia é hoje. Mas sei que uma núvem pegajosa e fria ocupa o leste e o ocidente da minha cabeça. Um primeiro ministro declara que nunca mais declara coisa alguma. Felizmente, penso eu. O mesmo não pensa a oposição e o seu próprio partido. Fazem um barulho danado. Dentro da minha cabeça, há ameaças de paz e nenhuma paz é possível.

Não sei que dia é hoje. Deixem-me em paz. Deixem-me em paz. Não sei que dia é hoje. Deixem-me em paz.

Os olhos do lobo, eu.
Em frente, o quadro é quase branco. Só três vergões no papel denunciam que o papel foi torturado. Dois pequenos traços a carvão denunciam uma intenção frustrada de um esboço geométrico.

Em frente, a moldura cerca uma paisagem branca. No vidro, reflectem-se a estante e o quadro negro e vermelho da parede contrária. Vê-se ainda uma nesga de porta.

Em frente, o quadro é quase branco. Para a direita, uma porta dá para um varanda e vêem-se telhados e, lá adiante, contra o céu cinzento de chumbo, destaca-se um edificio entre duas torres falsas, sendo que a torre da direita me parece igual à da esquerda depois de rodada de 90° em torno de um eixo vertical que a atravessa de baixo até cima. O eixo continua pelo céu dentro, parece-me mesmo que se enfiou nas núvens. Talvez seja uma antena e sirva para estabelecer comunicação entre o edifício e o céu.

Em frente, o quadro é quase branco. Os candeeiros acenderam-se na porta à direita. Também se acenderam os carros velozes. Fixado a esta mesa, tudo vejo nitidamente. O que está fixo no exterior, olha-me como o quadro branco me olha com seus olhos vazios de sentido. O que se move no exterior parecem-me olhos inquietos buscando um sentido no movimento. O que se move não vê, ou pelo menos não vê o meu olhar perturbado pela penumbra entre o dia e a noite. Os faróis mostram a presença que se faz ausência. Sigo-os com o olhar e escuto o seu movimento como uma ondulação urbana chegando e partindo dos meus ouvidos. Os edifícios estão silenciosos. O quadro branco em frente está silencioso, atento aos meus movimentos que ele reflecte.

Em frente, o quadro é quase branco, sobre uma parede branca. Posso desenhar a esquina com um traço negro. Dobro a esquina com os olhos e parto pelas ruas até lá onde o quadro é negro. O corpo aqui fica suportando os dedos inábeis que martelam letra a letra o quadro branco do computador.

Em frente, o quadro é quase branco. Viro-lhe as costas, mas sei que nas minhas costas está o quadro quase branco e nele colados estão dois olhos cansados de ver. Para os recuperar, viro-me para o quadro quase branco e volto a ver o quadro quase branco e à direita a rua com seus edifícios mergulhados na escuridão, as luzes fixas dos candeeiros, as luzes móveis dos faróis chegando e partindo, fugindo de mim.

Com nitidez vejo o mundo quase branco. Um mundo de papel e de luz, de luz no papel. Um mundo inóspito, por dentro de mim. Um mundo inóspito por fora de mim. Neste mundo sem fronteiras visiveis, um lobo anda às voltas como se estivesse encurralado no quadro quase branco, em frente de mim. Nitidamente vejo-lhe os olhos brilhantes, os meus olhos.


Vítimas 1

Passava os dias a fugir dos gatos de irene k.
Ela assistia a tudo e divertia-se com a minha aflição. Todos os dias.

Quando os gatos não andavam por perto, acontecia ela olhar-me para dentro dos meus olhos assustados. E eu lia uma desculpa nos seus olhos tristes: afinal eu era uma vítima dos gatos de irene k e não de irene k.

Nesses momentos de paz, irene k alimentava-me com sobras do seu queijo. E houve um tempo em que pensei que ela me alimentava para eu me manter rápido e ágil e prolongar a tortura da minha vida, como se alimentasse o jogo da sua própria maldade.

Quando cresci, deixei de aparecer para o jogo do gato e do rato. Vi, de longe, que Irene K entristeceu. Percebi que o rato frágil não era mais do que o seu pesadelo. E um dia decidi voltar. Comecei por lhe sussurrar: Não chores mais, Irene. Eu voltei… E quando ela apavorada me pressentiu, acrescentei em voz mais alta: …e não como vítima. Ela acalmou e adormeceu.

Não sei o que ela percebeu. O que eu disse? O que ela ouviu?


Vítimas 2

Andavam dois rufiões à solta pela povoação. Bem vestidos. Um deles trazia um telemóvel preso no cinto, mas bem à mostra. O outro tinha os dentes amarelos e um olhar felino.

A população andava assustada. Quando alguém via os rufiões, procurava mudar de passeio para não ter que se cruzar com eles. Parecia que eles cheiravam o medo e riam-se descontroladamente.

Quando entraram na loja, Irene K., a moça da caixa, apavorada, fugiu pelos fundos e eles puderam servir-se à vontade. Irene K. só parou no posto da gnr onde contou que tinha os dois rufiões na loja. O guarda de serviço, novato e medroso, foi chamar o outro agente, a quem contou o sucedido. Este pegou na pistola e pediu a Irene K. que o seguisse.

Quando chegaram à loja, o guarda entrou com ar ameaçador. Deu de caras com os dois rufiões plantados ao pé da caixa, com o seu saco de compras. Um deles, vendo Irene K. atrás do guarda, disse: “Onde é que se meteu menina? Estamos aqui há um quarto de hora à sua espera para pagar.” O ar ameaçador do guarda transformou-se em ar de parvo e a menina Irene K. fez as contas, recebeu o dinheiro e deu o troco.

O acontecido correu logo por toda a povoação. E já ninguém liga quando o rufião pega no seu telefone portátil em plena rua e pragueja as suas mensagens com o telefone apontado aos transeuntes.


Distracções do nosso primeiro

Já nem o nosso primeiro pode estar descansado – disse o primeiro soldado para o segundo soldado.
Depois de tantas obras que fez pelo país, logo se foram meter com as pequenas obras que fez na sua residência – disse o segundo soldado ao primeiro soldado.
Era bem feito que ele metesse o jornalista em tribunal, acusando-o de desrespeito pela vida privada do nosso primeiro – voltou o primeiro soldado.
Faz melhor. Mete-os numa lei que os vai lixar a todos – disse o segundo soldado, e acrescentou: Não se brinca com o nosso primeiro.

O soldado, de sua graça Moura, de serviço às latrinas do primeiro, adiantou: Não basta ameaçá-los com uma lei. É preciso pô-los na ordem com um pau de loureiro, como fizeram aos desordeiros da Marinha.

O quê? Houve uma revolta na armada? – intrigou-se o nosso primeiro, que até ali se tinha mantido em silêncio.


Assim fala Graxa Moura

Faça de conta que não é de sua conta. Meta-se na sua vida. Deixe trabalhar o ministro das polícias em paz. Deixe-o acabar as investigações, deixe que ele ouça todas as versões do caso. Ele depois lhe dirá quem tem razão. Tem dúvidas sobre quantas versões ele vai ouvir? Muitas, lhe digo eu. Não acredita? Ah, não sabe quantos polícias estavam na Marinha Grande!

Assim fala o Graxa Moura.

Faça de conta que não é de sua conta. Os operários que não recebem salário andam a passar fome porque querem. Afinal, quando não recebem salário pouco menos recebem. Que diferença me faria receber menos um salário de um operário vidreiro?

Assim fala Graxa Moura.

Faça de conta que não é de sua conta. Custa-lhe a acreditar que os trabalhadores da indústria vidreira sejam desordeiros ? Mas quanto lhe pode custar isso? Os olhos da cara? Eu garanto-lhe que é um descanso e não lhe vai custar absolutamente mais nada se acreditar em mim. Quem me paga é o rádio e o jornal.

Assim fala Graxa Moura.

Faça de conta que não é de sua conta. Se continuar a pensar que a conta é sua vai ter de pagá-la. Faça de morto. Finja como eu que, por ser poeta, me assumo como um fingidor. Pensa que me vão riscar das antologias? Nada disso. Vou aparecer em novas antologias – do humor negro, da estupidez humana, das vergonhas da literatura, etc. Já viu quanto vou receber em direitos de autor?

Assim fala Graxa Moura.


Não há vítimas a lamentar

Já leram os jornais de hoje? Que é que aconteceu em Sesimbra? Porque é que eles andam a dizer que já não há samba este ano? Em ano de eleições vou proibir o Carnaval? – interrogava Aníbal.

Não há vítimas a lamentar-se – disse Pacheco. .

Ainda bem que não há vítimas a lamentar – disse, de si para si mesmo, Aníbal. Podem mandar alguém verficar as notícias dos jornais? Será algumas das poucas notícias verdadeiras deste país?

Aníbal, tens de dizer alguma coisa àquela pobre gente de Sesimbra – foi o que ocorreu dizer a Maria, entre duas garfadas.

De volta ao gabinete, mandou chamar Pacheco. Pacheco, porque é que me disseste aquilo de manhã?

O que disse, mantenho. Quem se anda a lamentar são as viúvas das vítimas. Assim falou Pacheco e retirou-se para os seus passos perdidos.


Governo dos banqueiros

Eles foram deputados, secretários de estado, ou até ministros obedientíssimos e fidelíssimos. E, por serem assim tão fiéis e obedientes, foram nomeados gestores da coisa pública. Assim foram nomeados os gestores da banca pública e, nestes tempos, com a missão de transformarem aquelas sanguessugas dos dinheiros públicos em empresas privadas, com capacidade para todos os lucros, adquirida pelo milagre dessa mutação.

Os gestores da coisa pública foram tão bons nessa traição ou transacção, prestando tais serviços à coisa privada, que esta os acolheu na privada das suas administrações. Maior ainda é o milagre da coisa privada quando transforma os maus administradores da coisa, má porque pública; em bons administradores da mesma coisa, boa porque privada.

Eles foram sempre membros obedientissimos do partido. Venderam a coisa pública nacional à coisa privada espanhola. Eles são membros obedientíssimos e fidelíssimos do partido e estiveram em todas essas operações de compra e venda. Eles foram responder a comissões parlamentares de inquérito sobre a tramóia do espanhol; foram inquiridos pelos seus antigos pares parlamentares e actuais camaradas de partido e, sem piscar de olhos nem hesitações, provaram que continuam membros fidelíssimos do partido, capazes de mentir ou de garantir até à morte que não participaram em qualquer jogada anti-nacional, embora tenham sido mantidos nos seus cargos pelos espanhóis.

Eles são membros obedientíssimos e fidelísssimos do partido. O partido é coisa da privada nacional. Os membros fidelíssimos vestem e despem qualquer opa. Por ser preciso, estão agora a vestir uma opa nacionalista. E vão passando as procissões.


Traidor, eu?

Eu não quero ser português . Eu não quero ser patriota, muito menos quero ser compatriota dos patriotas que compram e vendem a pátria nas bolsas de paris, nova iorque, londres, tóquio ou jacarta

Eu não quero consertar o motor sem pátria.

Eu nem quero saber da honra nacional das gosmas e das ogmas. As osgas que sobem as paredes do meu quarto, em perseguição das moscas, não me repugnam, mas o mesmo não posso dizer das honras nacionais dos gosmas patriotas que me olham, olhos nos olhos, declarando que sou um imbecil.

Eu não quero ser uma peça do motor que faz esvoaçar a máquina e mosca peçonhenta de guerra da indonésia. Eu não quero ser uma metralhadora nacional.

Misericórdia
Se eu vivesse na Guiné Bissau, já devia ter morrido.
A esperança média da vida humana da Guiné Bissau é de 39 anos. Não compreendo como é que ainda sobrevive o Nino Vieira.

Se eu nascesse agora em Moçambique, estava preparado para morrer de morte natural. Porque a morte natural de Moçambique não é a morte natural de Portugal, eu devia estar entre as 16 crianças que morrem em cada 100 que nascem.

Também estaria morto, se estivesse aqui ou ali, entre um e outro dos oceanos que banham a áfrica manjedoura de todas as civilizações avançadas. As civilizações avançadas são aquelas que alcançam as manjedouras para comer. Todas as outras são mantidas à distância pelas barreiras mortíferas disparadas do seio das civilizações avançadas.

Se eu vivesse na Guiné, estava morto há dez anos. Já tinha sido comido por mil feras civilizadas, armadas de fatos e gravatas, telemóveis, metralhadoras, auxílio económico, auxílio alimentar, piedade, … e cinismo.

Se eu vivesse em Timor, já tinha sido morto por um misericordioso tiro da besta indonésia, desembarcada de um helicóptero movido por um motor sem pátria.

Mas estou aqui. E o tiro da misericórdia daqui é um prato de sopa. Para me darem este prato de sopa, o sereníssimo governo da civilização tem de facturar o conserto dos motores indonésios. Não podemos sentir mais do que piedade pelos espectadores timorenses mortos durante o concerto dos “Indonesian Army”.


Votos do medo

Ouço-lhes as vozes. Não compreendo o que dizem, mas distingo as diferentes tonalidades de cada uma das vozes. O que me importa é a música, o ruído no lugar das vozes.

Sei que falam de futebol, de negócios, de concursos para progressão na carreira, de concursos de efectivos; sei que comentam as notícias do jornal e ouço-os falar do destino de cavaco, quando percebo cavaco entre todas as outras palavras que formam a mancha.

Um disse: fique a saber que se o treinador se for embora, há jogadores que se vão embora. Não sei se estão a falar do psd e de cavaco, ou do clube desportivo de areais do vilar e do agostinho boleta. Nem isso me interessa.

Outro disse: é porque acha que isto está tão mau, que ele se vai embora; as empresas estão a fechar e coitados dos operários que estão sem os seus salários; os próprios mineiros já não têm futuro, se calhar nunca tiveram e ele sabe muito bem disso. Não sei de quem falam, nem isso me interessa.

Ouvi distintamente: ele foi jantar com; não sei quem pagou; sei que levou uma garrafa de whisky para dar; são estes conhecimentos… Não sei de quem estão a falar.

Uma voz eleva-se para asseverar que se ele se vai embora, vão -se descobrir todos os negócios que a maioria serviu para encobrir e que, de qualquer modo, se isso acontecer é o nome de portugal que sai achincalhado e podem ficar prejudicadas as disponiblidades de financiamento pela comunidade; e o que é preciso é o dinheiro a entrar, porque isso é melhor que nada.

Ouvi ainda que são todos iguais e que tu julgas que se fosse outro governo não tinham mandado consertar os motores e não tinham apoiado o governo de angola? tu vives noutro mundo, semprre me saíste uma parva.

Ouço-lhes as vozes, distingo-lhes as tonalidades, mas não sei o que dizem concretamente. Só sei que desde aqui até às eleições, são a vaga de fundo do medo pós cavaco.


Lugar da razão sensível

Já é a segunda vez que o sousa pinto nos convida para comer e que a zé nos dá a comer parcelas da minha infância.

Da primeira vez, a zé deu-nos favas com molho de carne, e a mim me devolveu a memória de um sabor distribuído por uma bacia redonda e ritual, uma imagem de pai estranho à mesa, de bancos corrridos na cozinha grande, do canto da lareira, do canto da infância perdida para sempre.

Da segunda vez, a zé deu-nos a sopa espessada, com feijão vermelho, couve, massa meada grossa, e carne à pele dos ossos e ossos comidos pelo sal. A mim, a zé devolveu a memória da salgadeira, onde enterrávamos, para os conservar, os porcos que tínhamos apascentado na estrumeira, mesmo em frente do alpendre, que dava para a cozinha. Onde era a salgadeira, o que é agora? O que era a salgadeira, o que é agora? Porque não guardamos as nossas proprias ruínas?

Um médico disse-me que a zé me estava a tirar anos de vida. e eu, regressado à infância feliz, não posso deixar de lhe dar razão. Quando morrer, quero que me conservem na salgadeira. Só tenho pena que não me possam comer, como eu comi os porcos que amei.