tex

sessenta e um

Toda a gente espera que o giroscópio caia em cima do cócó da rua mário sacramento. Todo aquele cócó da rua mário sacramento é obra dos cães da rua mário sacramento.. a minha mãe diria que os cães da rua mário sacramento obram. Há quem procure a cadelha rainha desta colmeia de cadelhas obreiras.

Os moradores da rua mário sacramento dividem-se em duas tempestades: uma delas já só sai de carro, enquanto a outra procura a todo o custo navegar pelo meio da rua. Quando a tempestade pedestre tem de utilizar a a faixa dos cães, mune-se de todos os instrumentos de navegação e vai descarregando raios e coriscos enquanto salta de de pedra em peda entre os cócós. Houve mesmo uma nuvem de azedume que já afixou os seus raios e coriscos nos caixotes de lixo pedindo aos legítimos proprietários do cócó que o não desperdicem.

Os cães já manifestaram todo o desprezo que nutrem pelas humanidades que teimam em andar sobre os próprios pés na rua mário sacramento. Qualquer pessoa conhece os andantes da rua mário sacramento – têm os os olhos baixos, farejam perigos nos passeios e dão saltinhos.

Um andante da rua mário sacramento tornou-se cavaleiro andante e o cavalo que se safe. Outro andou com uma pá a recolher todo o cócó e foi colocá-lo em frente do giroscópio. Há quem diga que os ovos moles já eram – uma indústria nascente de doces de cócó não só criou novos postos de trabalho como criou novos gostos.

sessenta e três

Quando a Trovoada procurava refúgio na embaixada de portugal ou no pnud, havia paisanos fardados com óculos escuros em todas as esquinas da cidade capital.
E a noite disfarçava-se de dia claro.

Ninguém falava de outra coisa e ninguém falta disso. Sentávamo-nos nas cadeiras de design italiano que a Trovoada tinha encomendado a um parceiro capitalista que assim o tinha perdido, por mostrar que a Trovoada tinha costelas turísticas. Moita , armada em carrasco, escreveu sobre o socialismo que tinha dado um salto original no país da Trovoada. Só S. Tomé, habituado à descrença, é que nunca acreditou que passsada a Trovoada se tinha instalado uma bonança socialista.

Por estes dias, a Trovoada, agora a presidir a todas as estações, veio a Portugal e a moita deve estar de pena em punho a esfaquear o pinto socialista. Tenho uma curiosidade danada sobre o que é feito do exército de paisanos que guardavam os percursos da Trovoada. A minha hipótese é que estão agora a guardar a Trovoada contra os pintos, tão leais agora como dantes. O mesmo se deve passar com a moita: se for preciso ela pode agora escrever um artigo a favor da Trovoada e do reigme actual qualquer que ele seja. Poderá mesmo, eventualmente, condenar o socialismo e, quem sabe até, se lhe exigem muita criatividade, criar um novo conceito para definir o capitalismo no equador.

A Trovoada direi que não é bom para os países esconderem-se atrás da moita.


sessenta e quatro

Um dia, ainda era madrugada, a minha mãe disse que eu já não ia tirar o esterco do curral das vacas. Tirou-me o engaço das mãos e entre os meus dedos sujos colocou uma caneta de dois gumes. Foi assim que, peremptória, aceitou a derrota face à minha irmãe e me enviou para o esterco da universidade.
Lá fui, com o rabo entre as pernas, e, na falta de melhor razão para tanto exílio, comecei a estudar matemática nas horas que serviriam para tirar o esterco da cama da vaca marinha. E, nas horas que se destinavam à leitura dos folhetos das feiras, sentado ao fundo do curral, comecei a estudar política.

Durante uns anos maduros, não percebi muito bem porque tinha sido esse o meu destino e roía-me de inveja dos olhos vivos e maliciosos dos meus companheiors camponeses que continuaram a tradição da sueca, da missa exterior de domingo, dos tremoços regados com o vinho das tardes de domingo.

Agora já percebo. Com a entrada na comunidade as vacas deixaram de usar camas de palha e junco e há máquinas de sugar o esterco dos currais para as terras e o leite das tetas dá para os depósitos inoxidáveis da cooperativa leiteira. E já se fala que o mercado há-de laquear as tetas das nossas vacas excedentárias e há-de enterrar a fruta que faz falta na europa de leste, na etiópia ou em moçambique, mas não falta na europa civilizada e comunitária. O internacionalismo mercantil tem a ver com a internacionalização da miséria e não com a internacionalização da partilha dos bens. Mesmo os bens que são distribuídos pela ajuda internacional são cotados em bolsa ou no mercado das comunidades benfazejas.

Se tivesse ficado na agricultura, já estava a pensar na reforma da minha mentalidade e da minha actividade. Como professor só tenho que enfrentar, para já, as reformas da entidade.


cinquenta e nove

Sei que vou ter
uma casa para morar
um carrão para andar
um emprego para curtir
sei que vou ter
porque tenho a escola toda

Nem uma só vez este anúncio do Ministério da Educação fala do que se aprende e do que se ensina.

O anúncio é estúpido. Porque é um anùncio português, é bem feito.
Em troca da escola toda, tem-se uma casa para morar, um carrão para andar, um emprego para curtir. É verdade. Na minha terra, quando alguém diz “aquele tem a escola toda” está a dizer o que o Ministério da Educação também quer dizer e não se refere ao que se aprende ou se devia aprender na escola. Os que têm a escola toda são os que aprenderam toda a aldrabice, toda a arte do sacrifício do outro, todas as formas de trepar. Há quem tenha andado na escola toda a vida e não tenha casa, nem carrão e o emprego não é para curtir.

Mas há uns putos que passam pela escola, não sabem coisa nenhuma, aprendem a falta de moral de um jota, e, se não tiverem aprendido a conjugar o verbo haver ganham um emprego para curtir, pois nem sequer sabem o que é que há para fazer, um carrão para andar e até uma casa para morar. O que é preciso é ser a voz de um dono, ignorante obediente. É preciso não saber conjugar o verbo duvidar, e é preciso conhecer todos os tempos do verbo engolir. Se tiver vícios que os tenha em privado, se não tiver virtudes que as invente para o público telespectador, se tiver uma anedota na ponta dalíngua que não a conte à forças do bloqueio. Se tiver um bloqueio que ele seja tudo menos encefalite espongiforme. Uma vaca loura tmabém pode ter a escola toda. Uma vaca louca tem de ser escondida pela vacaria da escola toda.

A escola toda é isso: um emprego para curitir e uma casa para morar. Se correr mal, sempre sobram os carrões e casarões em nome da tia avó ou da mulher com quem se realizaram convenientes acordos nupciais. E uma prisão é sempre uma casa para morar e para concluir a escola toda.

Não há anúncio mais estúpido e mais mentiroso. Não há anúncio mais inteligente nem mais verdadeiro. Eles têm a escola toda.


sessenta

Dia de Portugal e das comunidades usava, ainda não há muitos anos, o breço esticado no ar. Era um sacrifício. Nos tempos modernos, já não é preciso fazer essa promessa terrível. Dia de Portugal e das comunidades sabe como isso lhe custava: o braço adormecia assim esticado e era um trabalhão para o dobrar pelos cotovelos.

Nestes tempos modernos, Dia de Portugal continua a usar muito o braço, mas para gesticular e para falar pelos cotovelos. Há os discursos, há os heróis nacionais, incluindo ases do volante, há o dia de portugal edas comunidades e há o grupo coral de nafarros a cantar oa desafio com o grupo coral de boliqueime. Há os marechais com monóculo e há os marechais com óculos. E há uma cadeira vazia para a chuva que queira cair, ou para a tristeza que tudo isto já é. E há uma cadeira ansiosa por cair.

Dia de Portugla e das comunidades juntou-se com o dia do corpo de deus e moldaram no barro moderno a mascote para a expo 98. E se a mascote da feira de sevilha tinha um alto na cabeça, a nossa mascote não podia ter menos alto na cabeça.  Dia de Portugal e das comunidades está contente porque aquilo não é mais que onda na cabeça do “mascate” azul – cruzamento de um turco e de uma vaca louca e oceânica em vias de extinção.

Dia de Portugal deu uma taça ao benfica e um rebanho de multidão ao presidente da república e ao primeiro ministro que, quando querem falar um para o outro, falam para o Dia de Portugal.

Dia de Portugla fala pelos cotovelos. Dia do corpo de deus vai de andor em andor e às costas do Dia de Portugal e das comunidades. As comunidades queixaram-se do lumbago e espirraram como uma manada de elefantes brancos. Ainda hoje andam a limpar  as ruas e  ouve-se o eco do santinho que a multidão foi incapaz de conter dentro dos limites da decência.


sessenta e cinco

Creio que os pais já não gostam dos filhos. Preferem pagar aos guardas prisionais em vez de o fazerem aos professores e preferem passear o cão em vez dos filhos. Estou constantemente a ver os cães serem acariciados e os filhos esbofeteados. Esta é a realidade cruel dos factos: já não temos filhos e já não gostamos deles. É um drama da sociedade ocidental. No fundo, talvez não haja, desde o neolítico, animal mais cruel que o homem ocidental, de quarenta anos, que teve sucesso na vida.
Não fomos nós quem assim escreveu. Mas somos nós que o transcrevemos de uma entrevista a Michel Serres, publicada num caderno do diário “Público”, dedicado à educação.
Não estamos a gritar.


sessenta e seis

(…) a escolarização em massa e o seu aumento acelerado corrresonde a uma importante tentativa de democratização da sociedade. O triunfo do idela democrático traduz-se efectivamente, numa procura de ensino, numa obrigação de agir para todos os dirigentes políticos dos países desenvolvidos, de realizarem na escola – e através da escola – uma igualdade de oportunidades sociais. Este desejo irresistivel de igualdade … na escola o instrumento quase privilegiado da sua satisfação.
Este vasto movimento de escolarização em massa, esta verdadeira encenação da democratização das sociedades através da escola têm sido acompanhados de discursos, de arrebatamentos ideológicos cuja crítica deve ser feita com toda a urgência. Tornou-se difícil fazer demagogia política no campo ecoómico propriamente dito. Nas democracias modernas, foi a política escolar que se transformou no terreno privilegiado onde se pratica a demagogia política e a mentira social.
A vantagem da demagogia escolar é evidente. Enquanto, em matéria económica, os resultados reais vêm rapidamente desmentir os discursos exagerados, a demagogia escolar é cómoda, uma vez que para compreender bem a ilusão que ela espalha, para verificar que os resultados não são conformes aos discursos, é preciso esperar que a geração escolar se torne adulta. Isto dá tempo aos homens políticos responsáveis por desastres na sua política da educação de terminarem calmamente as suas carreiras. (…)

Guy Coq escreveu isto e outras coisas no artigo “A grande mentira da educação para todos” publicado, durante a emanda passada, num jornal diário português.
Não estamos a gritar. Isto não é nenhum comício.


sessenta e sete

Ninguém passa por uma nuvem daquelas.

Eu ia a tentar passar, mas acabei por descuidar dois minutos da minha ascensão a olhar para ela.E não resisti a entrar. Mais minuto, menos minuto.
Mal dei os primeiros passos, senti as meias húmidas e logo logo tinha os sapatos cheios de água. Mas continuei sempre até porque finalmente sentia a cabeça fresca depois de algumas horas de exposição ao sol. Distraído pela paisagem não dei muita importância à água que já me dava pelos joelhos. Mas, de repente, a água começou a entrar-me pela boca aberta maravilhada. Esbracejei um pouco e senti-me melhor, respirando ar húmido.
E voltei para trás. Só então reparei que não havia caminho atrás de mim. Nem sinal das minhas pegadas. Não havia sinal de mim. E continuei então para a frente já a nadar desesperado. Atrás de mim, a nuvem caía.

Parei por momentos. Deixei-me afundar. Mas, a  água em que me afundava estava a cair cair enquanto eu me afundava e, em pouco tempo, eu já não tinha onde me afundar e caí na inconsciência.

Porque as asas não me secaram a tempo de recomeçar a voar, vim a cair à porta do inferno inundado. Um diabito olhou-me divertido e fez-me sinal para eu o seguir. Secou-me as asas, brincou comigo por momentos e depois abandonou-me. Podia ter tentado voar. Mas desapertei os olhos para não ver e as asas para não voar e integrei uma brigada de sapadores que procuram nas correntes lamacentas do inferno o rio de fogo que lhes prometeram em vida.


sessenta e nove

Syllabus corria galope mesmo ao lado do carro que eu conduzia. De vez em quando, como para confirmar que me estava a acompanhar,  olhava para mim por um instante,  para logo se concentrar na corrida.

Ultrapassava-me frequentes vezes e era então que me olhava, como se quisesse certificar-se que eu ainda ali ia, no velho dois cavalos. Eu não podia fazer outra coisa senão admirar os movimentos, harmoniosos, de todo o corpo de Sylllabus, a força e a alegria que transpiravam. Mas quando Syllabus me olhava, parecia que galhofava.
Irritava-me então e acelerava.
Ela sentia isso, pois nunca se deixava ficar para trás.
Às tantas desisti e travei. Conduzi devagar para a sombra. E parei. Syllabus parou também e aproximou-se. Timidamente veio para o pé do dois cavalos. Eu desci e sentei-me na relva.

Então repondendo ao desafio de Syllabus, os dois cavalos partiram à desfilada, um de cada lado da maldita égua.

Qando acordei é que percebi completamente que estava sozinho e a pé.


setenta e um

E foi o último toque . A mão de deus puxou o cordão do sino e o último toque ecoou no corrredor norte do purgatório.

As almas abandonaram as aulas de remediarão e dirigiram-se às aliaras entre risos e e gritos de meninos em férias. E começaram a arrumar as coisasinhas que são bem poucas e não se vêem, mas existem.

Ouviu-se ao altifalante a voz do anjo chamamndo para a formatura na parada pré-celestial. Na presença de deus, o anjo fez a chamada para o céu, um a um. Ouvia-se um ligeiro som de bater de asas em frente a cada chamada. À medida que o anjo citava, deus asava.

Só uma das almas não tinha conseguido salvar-se com as aulas de remediarão. Sem asas, esperou a sentença de deus: ou era enviada para o inferno ou ia atrar mais um ano de remediares. Deus demorou a a decidir. E, finalmente, atendendo a que a alma já o tinha feito tropeçar, já o tiha injuriado e achincalhado, já era a décima segunda vez que que remediava, deus declamou com uma voz de baixo, firma mas cheia de piedade, a sua sentença sem sujeito e sem verbo,

Sem esperar pela ordem de dispersar ou pela ordem de marcha, a alma danada lançou-se na sua queda livre, rindo alegremente. As outras almas, que tinham aprendido tudo sobre a salvação, mas ainda não tinham sido ensinadas na arte do voo, uniram as asas na vertical e deixaram-se cair atrás do riso da alama danada.

O anjo aflito começou a gritar ordens ao altifalante, quando já ninguém o ouvia. Deus manteve-se calmo e fechou, aos seus olhos, diversos alçapões.

As almas salvas foram caindo, uma a uma, em si mesmas. Sobrou um monte d nada de toda aquela remediarão. Só a lama dando contiuu a sua queda através dos alçapões de deus. E foi a única que aprendeu a respirar de alívio e foi à vida, de costas voltadas para a escola.


setenta e dois

Dai-me dois dedos de conversa – lami+uriava o pobre numa das esquinas da praça. Algumas pessoas que passavam, sem perceber o lhe pediam, deitavam moedas para os ouvidos do pobre.

Dai-me dois dedos de conversa – clamava o pobre. Uma beata, ao passar, com a alma cheia de compreensão pelo seu papel neste mundo, para para falr com o pobre. Os olhos dele brilharam.
E disse, de novo: – Dai-me dois dedos de conversa!. A beata começou por lhe perguntar pela família, se não tinha filhos que o cuidassem, se não tinha mulher, se não tinha trabalho, se não tinha vontade de rezar e agradecer a deus, se não tinha tinha, se não tinha cartão da assitência, se não tinha ido à sopa dos pobres, se não tinha ido à Cáritas, se não tinha ido à missa, se não encontrava na oração o refrigério para as suas penas, se não tinha ido confessar-se, se não tinha ido comungar.

O pobre virou os olhos para o céu e disse: Pai porque me abandonaste? A beata ganhou alento e cntinuou com as perguntas a que o pobre não respondia. Mas agora mais impaciente.. Queria respostas e não mais aquela ladainha Dai-me doois dedos de conversa Finalmente, ela desistiu dizendo sem perguntar: Você ou é estúpido, ou é surdo. Para o ouvir dizer Muito Obrigado.

Ela partiu intrigada, voltando para o confessionário.

O pobre saíu do seu sítio, depois de se ter limpado de todas as perguntas e de todas as moedas. Ao todo, embrulhadas no seu lenço, guardou as únicas cinco palavras que leh tinham dado: estúpido, é, ou, surdo, você .


setenta e três

A agência de viagens propôs-me para este mês de Junho, um cruzeiro pelo mediterrâneo. Já estava previsto desde que eu tinha ganho o concurso de míssil da Costa Violeta.

Quando entrei no barco, lá encontrei a missil fotogênica, a missil Portugal, as missis Grã Bretanha, Austrália, Israel além da americana. Encontrei também a um canto do barco, umas missils mais exóticas todas entradas: uma kowetiana e outra saudita. Éramos as missils cruzeiro. Alguns marines de serviço, mais brejeiros, chamaram-nos clitorianas. S’o almirante nos cahmava clintonianas.

Nos primeiros dias correu tudo bem. Apanhámos sol e namoriscámos aqueles marines musculares. Estávamos lá para os lados do médio oriente, quando fomos levadas para a passerelle.

Disseram-nos que estávamos na plataforma de lançamento. Nós sabíamos que assim era e ansiosas esperávmaos ser lançadas para o estrelato..

Não foi bem assim que as coisas aconteceram e acabámos esborrachadas contra o chão de bagdad.


setenta e quatro

O sinaleiro dos céus esbraceja sem nexo. Já perdeu o controle do trânsito. E, por isso, só lhe resta fazer um milagre de evitar que as coisas choquem umas com as outras.
Os asteróides que estão perto da terra não chocam. Mais asteróides não vai haver desta família. É um milagre do acaso.
O vai e vem encontra e agarra com as suas garras metálicas o laboratório do espaço. É um milagre da ciência.

Para leste enviaram-se mísseis cruzeiro, para oeste monta-se uma ponte aérea. Esperamos que as operações aéreas do Iraque e da Somália não sejam chocantes. Esperamos um milagre da guerra.
A ponte aérea para os portugueseses do Huambo faz-se sobre uma chuva de morteiros e obuses caindo sobre Angola. É um milagre feito de silêncios e incertezas
A ponte aérea para os bósnios só é feita quando não há perigo de chocar com os projécteis sérvios. É um milagre sem paz.

A rapariga lança-se, vertiginosa, do seu trapézio para o vazio. Do outro lado, no seu trapézio voador, o rapaz já espera de brqaços abertos estendidos o choque das mãoas da rapariga. Não chocam e será um choque . A assitência ficará chocada.
Chocam e a rapariga voadora volta ao seu trapézio depois do voo e assitência aplaude chocada. É um milagre do malabarismo, Como os outros, afinal.

O sinaleiro do espaço esbraceja. Parece uma ventoínha. Há muito tempo que desistiu de ser humano.


setenta e cinco

Na última semana, em Cambridge, foi anunciada a solução para um problema matemático ue resiste há mais de 350 anos ao génio humano. Trata-se de um teorema conhecido por Teorema de Fermat. Fermat declara numa das margens de página impressa que a demonstração que encontrou não cabe em tão pequeno espaço. E morre, sem escrever a sua demonstração. Não interessa para aqui o conteúdo do problema.
Há uns anos um japonês anuncia uma demonstração e os matemáticos incapazes de inventara demonstração são evidentemente capazes de encontrar o erro. Enqaunto fzem isso, descobrem as fabulosos aplicações das ideias geniais do japonês. Neste momento ainda se verifica com cuidado a nova demonstração. Pode ser que não esteja demonstrado o Teorema de Fermat, mas o anúncio gelou os participantes da Conferência de Cambridge. Mesmo que não esteja certa a demonstração, sabe-se que os processos para ela inventados constituem desenvolvimentos geniais que vão permitir outros voos. E está contente, por isso, toda a gente.
Não é para aqui chamado o conteúdo do Teorema. Interessa sim que se saiba que há problemas por resolver e que a solução não se encontra ao virar do minuot seguinte ao seu enunciado.
Não interessa também só a solução do problema. Interessa sim reconhecer que os esforços para o resolver podem ajudar a resolver outros problemas ou enunciar novos problemas.
Nada mais interessa que o rasto no caminho percorrido – dos passos em frente decididos, dos passos tímidos, dos passos incertos, dos passos atrás. Hoje também nos unteressa a humildade dos reconstruires do mundo.
Saibam que para os matemáticos não há prémio Nobel. E saibam que quase penso que assim está bem.


setenta e sete

Assisti a uma parte de um debate sobre o estado providência. Assisti a outra parte de debae sobre o estado do estado e ainda a outra parte sobre o estado da nação. Com estes debates fica-se com a ideia das possibilidades que a democracia podia ser se fosse baseada na particpação dos cidadãos. Mas as “ideias” sobram como um manto de retalhos de palavras. Sem conteúdo, elas são o que são os Pachecos deste mundo.

Para debater alguns assuntos e procurar que seja o público a pagar a manutenção da coisa, basta afogá-los em números e paleio mais ou menos civilizado trocado entre personalidades aparentemente contrraditórias. Não há ideias diferentes em dois corifeus do regime com a escola da juventude marxista, a não ser na aparência. Só o espectáculo das personalidades em acção torna diferente o que é em tudo semelhante. Para tornar os debates claros e mobilizadores, seriam precisos alguns actos pouco civilizados contra os liberais debatentes.

Quando nos dizem que vamos ouvir liberais a debater, querem dizer-nos também que vamos ouvir palavras de iniciativa individual, livres, etc. A própria classificação pretende esconder-nos o que há de facto nesta hora dos liberais: a falta de liberdade que os Pachecos tresandam e as tentações autoritárias que eles vestem como roupa interior. Eles podem falar livremente, por isso mesmo.

Eles são os que vivem dentro do estado a dizer que é preciso que o estado seja cada vez menos para os serviços de segurança social que presta à população em geral e que seja cada vez mais a exigir os tributos da população em geral em nome da segurança policial. Porque, não o dizem mas actuam nesse sentido, o estado não chega para mais nada senão para a população dos pachecos e afins. O povo em geral deve pagar ao estado para garantir as tão mereccidas e condizentes reformas dos deputados pachecos. O povo em geral deve pagar às seguradoras para ter garantia de reforma, já que o estado mal chega para a população particular dos pachecos.
Penso que é incontornável termos de ouvir um pacheco a pedir aos tipos que ganham fracas retribuições pelo seu trabalho que, em vez de comer, façam seguros de poupança reforma. É incontornável ouvir um tipo que fica reformado com centenas de contos ao fim de dois mandatos e que diz que faz também os seus seguros. O pacheco pode empatar, em seguros de velhice, dinheiro que lhe entra pela boca aberta quando diz asneira para a comunicação social. Ora!
O meu amigo Pacheco é muito ciumento e quer o estado providência todo para si e
para os seus pares – controleiros do estado.

Mas o meu amigo Pacheco não é inevitável.
O meu amigo Pacheco é um monte de lata. Se o tirarem de Director do Povo Livre e o mandarem vender um só jornal que seja ficam livres dele. Basta deixá-lo um dia à chuva que ele fica cheio de ferrugem. Fala a experiência.


setenta e oito

Na próxima semana, uma lagartixa vai sair da sua toca e vai espapaçar-se sobre a sua pedra ao sol. Os seus olhos protuberantes vão seguir os movimentos dos insectos quase invisiveis que giram acima de um pingo de carne avermelhada.

Na próxima semana, uma lagartixa vai ficar sem rabo.

Uma criança está a entrar em acção – vai encenar, numa pequena clareira, uma guerra natural a que possa assistir. Depois de assistir fascinada ao espectáculo aéreo, vai prender o rabo da lagartixa. Esta vai estrebuchar. E quando desistir, partirá. A tarefa de resistir, estrebuchando, fica ao cuidado do rabo preso.

Na próxima semana, quantas lagartixas abandonarão as suas caudas nas mãos de crianças curiosas? Porque é que os humanos fogem com o rabo entre as pernas?

setenta e nove

Um dia, António Florentino pegou-me pela mão e levou-me até uma esquina da Uni versidade.

A partir da esquina, apontou-me o cruzamento de partida e as estradas por onde partir. Depois, desenhou, de dedo no ar, as estradas que eu tinha de percorrer até encontrar o que procurava.

António Florentino é digno de toda a confiança, fala calmamente do que sabe e olha-nos nos olhos quando nos está a enganar. Se o virmos, um brilhosinho trocista nos olhos azuis do António Florentino pode avisar-nos do perigo. Mas sendo pouca toda a atenção, acabamos enganados por um detalhe subliminar.

Ouvi a descrição dos caminhos, olhando-o nos olhos. Fiz um esforço para despistar os pormenores enganadores e arrumei o corpo ao caminho. António Florentino ficou a ver-me partir. Ele sabia que eu sabia partir voluntariosamente. Ele sabia que eu não sabia chegar ao outro lado, à meta.

Eu gosto do Antonio Florentino quando ele ensina caminhos. Porque ele ensina a impossibilidade de chegar a outro ponto que não seja o ponto de partida. Voltei para lhe pedir contas.

Quando chego irritado, António Florentino nem finge espanto. Começa outra vez a desenhar um mapa de enganos. Deixo-o falar.

Se lhe dermos muita corda, António Florentino acaba por perder-se no seudesenho. Mais divertido ainda é quando vamos apagando os caminhos à medida que ele os vai desenhando. Ainda hei-de deixá-lo sem caminho de regresso, a meio da ponte de cacia, num dia especialmente mal cheiroso.

oitenta

Se Joaquim da Cruz começasse a levar-se a sério, Joaquim da Cruz havia de querer formar um movimento de opinião “qui pro cruciano”. Todos os que conhecem Joaquim da Cruz consideram que, ao lado de três opiniões absolutamente necessárias para o desenvolvimento de coisa nenhuma, ele domina três capítulos de sabedoria.

O primeiro capítulo só tem a ver com a visão das coisas tal como elas são, o segundo tem a ver com a visão das coisas como elas deviam ser aos seus olhos e o terceiro teria ver com a visão das coisas como elas deviam ser aos olhos do deus criador das suas visões.

Toda a sua argumentação é feita com visão. Quando quer esconder as coisas como elas são, descreve-as como elas deviam ser e tão nitidamente cria Joaquim da Cruz

que as pessoas deixam de ver para imaginar. Se a sua visão das coisas pode ser-lhe tão prejudicial quanto a visão das coisas tal como elas são, então Joaquim da Cruz cria um púlpito de palavras para onde sobe e, de onde, passa a sua mensagem como se pregasse os peixes ou fizesse o sermão da montanha. Quando faz o sermão da montanha, espera que ninguém tenha a coragem de subir à montanha onde ele está vazio e cego. Quem se aproximar muito verá que a voz do Joaquim da Cruz é a alma do rato que a montanha pariu.

Apesar dos perigos, os amigos da onça andam a tentar tratá-la com cortisona, anabolisantes e alucinogéneos para que ela se leve a sério e venha a ser cabeça de lista numa corrida à volta da câmara. Enquanto esperam, vão redigindo as genéricas revelações que se adaptem à visão de deus.

Enquanto ainda está são, Joaquim da Cruz diz que andam a isaltinar-lhe morais.

Depois, perdido o sentido da fala, o altifalante que tem preso à boca há-de descarregar a visão mais conveniente. Para os ouvidos mais atentos, haverá só três ou quatro tipos de fala, tantos quantos os bons partidos para casar os filhos. E o movimento “qui pro cruciano” será o que a nação dele espera. Capaz de gerir as finanças do clube dos amigos que nos levam a sério, como não ser capaz de gerir a câmara que fingimos levar a sério?


oitenta e quatro

Cavaco XI sucede a Jorge IV que tinha, por sua vez, sucedido a Cavaco X. Do mesmo modo, o acontecimento notável IIX sucedeu ao acontecimento notável VIII. O que é notável é que este não tinha sucedido. Mas que interessa isso para a história?

Para a história, interessa que se refere num documento da época o acontecimento notável VIII e não se refere que não sucedeu no sentido de não ter existido.

O que é suceder? Suceder é vir depois de. Suceder nunca foi acontecer. Quando é que eu sucedo? A quem é que sucedo? A noite sucede. A noite não sucede ao dia. A noite á alguma coisa que sucede ou acontece ao dia. Como um acidente.
Que não interessa nada.
Afinal o que sucede a Carlos Borrego? Uma anedota? Teresa Gouveia? Ou um jantar de homenagem? Ou o próprio filho? A dinastia é uma sucessão de pessoas ou uma sucessão de acontecimentos? Há pessoas que são acontecimentos?

Valentim Loureiro que contou a anedota é uma primitiva da insensibilidade que demitiu, aos olholhos de Cavaco Silva, o Carlos Borrego. Mas Valentim Loureiro ainda é candidato de ouro do PSD à câmara de Gondomar.

Posso contar uma anedota no jantar de homenagem? Tudo o que sucedeu não é mais do que parte da grande anedota?

Cavaco XI sucedeu a Cavaco X, poque afinal Jorge IV se perdeu. O que mais pode suceder a Cavaco? Antóno II?


oitenta e cínco

Um dia escrevi urna história sobre um tal, Filipe da Macedónia, diplomata ao serviço de uma cidade estado e protegido bastardo de um príncipe. Filipe da Macedónia tornou-se de amores por Bina, diminutivo de concubina dopríncipe. Mas Bina não era mais do que a própria mãe de Filipe da Macedónia, Mas ela só foi mãe dele ao momento da sua morte – porque essa era a única explicação aceitável parao seu frio assassinat. Quem distingue a ficção da realidde? Quem distingue a possível explicação da explicação?

Amanhã, eu hei-de ouvir falar de Filipe da Macedónia contraditoriamente: Não tanto por causa do Filipe, mas mais por causa da Macedónia. Haverá causa de Macedónia? Quem se trava de razóes por causa da bela Macedónia? Quem trava a causa da Macedónia? Gregos e troianos?

Mas hoje só me interessa esclarecer que tipo de travões se utilizam para travar estas causas. Povos ou naçôes? Raças ou Credos? Curvas do destino? Modas ou pestes? Identidades perdidas ou identídides achadas?

Encontrei um bilhete de identidade. Estou a guardá-lo parao vender a uma macedónia que venha da macedónia que ainda não é da comunidade europeia. Está escrito nos oito ou nove idiomas da comunidade e ísso condiz com a cor comum de todas as macedónias.

Este anúncio do bilhete de ídentídade implica-me na luta pela causa. Pelo sim, pelo não – tenho um papel. E sei que toda a identidade é um travão. Até para o amor! Filipe da Macedónia amou até que descobriu – parte da sua identidade, Quem a souber toda nunca poderá amar, a não ser a sua própria identidade. E é por ela que,em vez do amor, se faz a guerra ao outro, à outra identidade.


oitenta e seis

Hoje, estamos interessados em louvar a forma de falar de Isabel Mota,secretária de estado do pdr. Há quem diga qu o pdr são três letras simplesmente, que devem ser lidas ao jeito, aristocrástico-saloio, de isabel mota.

Outros dizem que o pdr são 3 letras protestadas, endossadas a portugal por portugal na ce. E esses dizem que os anos seguintes a 1999 hão-de servir para pagar. E se no receber não somos todos tratados igualmente, devemos congratular-nos com o pagar que vai ser mais igualitário ou compensatório. Pode acontecer que sejam uns poucos a receber – pelo programa RCBR – e a maioria dos outros a pagar. Para receber, convém assinar ao jeito aristocrático-saloio de isabel. Se não souber bem como é, treine ouvindo aquele que anuncia ter investido na habitação e que já vendeu as casas todas,

PDR não são mais do que as 3 consoantes de pedir, A ce há-de apresentar, no século XXI, um PGR – consoantes de pagar. E isabel mota dirá para os amigos a palavra de ordem da vingança: Nós PDR! Nós RCBR! PGR para os filhos dos outros! Eles não disseram: “Os ricos que paguem a crise”?

Umas linhas mais: Mota, com a rapidez que lhe é característica, conseguiu que portugal fosse o primeiro a pedir, mas com a dignidade dos aristocratas.

Cavaco deve-lhe a rapidez e a qualidade do papel e da impressão, bem como as palavras e as vénias devidamente tecnocrático-aristocráticas. Como pensa cavaco pagar essa dívida?


oitenta e sete

Até há pouco tempo eu imaginava um nariz grande de palhaça. Agora sei que o nariz é nosso,

Foi um dia partícularmente gratificante para o naríz de aveiro.
Ao lado de uma pedra a são pedro, inauguram uma unidade de saúde para que as nossas constipações de nariz possam ficar em aveíro e não ir até à palhaça.

Ao presidente da câmara de santo antónio do príncipe deram a honra de estar presente, numa festa onde deve ter comparecido também o leitão. Quando fui a santo antonio dó príncipe tive de levar a minha lata de atum e agora não me convidaram para o leitão do nariz. Indignidades.
O presidente da câmara veio trazer os cumprimentos das gentes de santo antónio do príncipe para o povo de aveiro. E disse-o pelo nariz.

Um amigo meu mostrou-me, em recorte de jornal, um programa da visita da câmara de vagos a s. vicente de cabo verde. Do programa não constava toda a verdade: só referia o almoço e o jantar. Faltava na notícia o pequeno almoço e o lanche, pelo menos.

Quando lá estive, apesar das condições dificeis que enfrentam os portugueses que lá vão para trabalhar, sempre conseguia um modesto pequeno almoço. O que não consegui foi publicar o meu programa da visita de trabalho que tinha algo mais do que almoços e jantares.
Hei-de ver se consigo uma cópia da notícia dos almoços e jantares gémeos pal

Pela pedra de são pedro e pela saúde de nariz, parabéns. E parabéns a sto antónio do príncipe por ser gémeo de aveiro e ter uma câmara eleita. E parabéns a vagos por ser gémea do mindelo. E parabéns a aveiro por ser gémea de santo antónio do príncipe. É pena que tanta irmandade signifique pouco mais que viagens de compadres e clientes.


oitenta e nove

A reacção é salutar, mas os contornos do futuro da reacçãos ão no mminimo inquietadores.

Estamos a falar da reacção ao predomínio dos grandes partidos nas decisões do país. Muitas das pessoas que, por esta ou aquela razão, desesperaram de conseguir o poder nessas oligarquias partidárias, procuram fundar oposições fora do quadro onde perderam a face, o poder e, por vezes, a honra. Outras, fartas de andar a penar nos peguenos partidos e a viver desta ou daquela coligação, para ter este ou aquele lugar, procuram participar de oposições em que pontifiquem. Outras, fartas de solidão política procuram companhia que os ouça ou que fale com eles, porque precisam de companhia.

Se as oligarquias partidárias só prejudicassem o ambiente próprio da área protegida da política de lisboa, não haveria grandes problemas. Não só respeitaríamos a zona, como a rodearíamos de arame farpado e encaminhávamos para lá o resto do gado. Mais: apesar do aspecto de coutada que a coisa ganharia, nós procurarímos que a caça não fosse autorizada senão de quatro em quatro anos, tal como o é agora com a caça aos cargos parlamentares, governamentais, etc. E para os distrair, sem nos trair a nós, proporíamos que a televisão tivesse duas emissões: uma para eles, onde eles pontificavam sem caberem si de contentes, e outra, a que chamaríamos de nacional, onde eles pensassem que existiam mas onde nem citados fossem.

Mas nâo é assim, eles estão por todo o lado. Como se o país fosse um cão pouco limpo e eles fossem as pulgas necessárias a este mundo cão.

Porque é que comecei a falar deste inferno versus paraíso que podia ser? Por causa da reacção, dos movimentos alternativos. Em Lisboa, um movimento vai registar-se como partido para ser oposição à Câmara. Porque os partidos no poder impedem as candidaturas autónomas dos movimentos de cidadãos, os cidadãos formam partidos. Já o mesmo fizeram os reformados, tendo conseguido a melhoria de uma das reformas. Com grande pragmatismo, na impossibilidade de lutar pelas reformas de todos, decidiram eleger um deputadode entre eles,

E há os ecologistas. E há o arco-íris de Braga, E há o meu preferido – o Movimento à moda do portoque por ter a ver com tripas, pode contar com toda a minha inteligência libertina, assim ele seja o movimento que o nome indica. Viva a reacçâo,
Mas há a tentação de Pinto da Costa, que ele chamará de Partido do Norte, outros Partido do Porto, outros Coisa do Costa, ou ainda Cosa Nostra à moda do Porto. E pode contar com o apoio mais ruidoso e todas a ideias que as minhas tripas possam produzir.

Deus nos salve da reacção!


noventa

A educação pode não ter qualquer interesse. Porque, em todos os países civilizados, foi aberta a época em que a educação é.

Nem interessa saber o que a educaçáo é. É, É o que é.

A educação nacional é a crise do benfica. A educação nacional é uma manhã de rádio a fazer o relato circunstanciado de um escrutínio suíço. Quem sao os adversários de portugal? O s adversários de portugal são os adversários do porto, do benfica e do sporting. Quais são as dificuldades de portugal? A maior dificuldade nem está na capacidade dos adversários, mas na dificuldade de deslocação aos campos da polónia. Quem é que não sabe isto? E está bem assim. A educação nacional funciona. Há outras coisas que se possam aprender? Sem dúvida, pedro lamy não furou, e ainda não sabe quando desce da fórmula 3000 para a fórmula 1.

A educação nacional é a crise do ministro quando os estudantes lhe mostram o rabo, ou quando os jornalistas lhe descobrem um rabo de palha, A educação da semana passada é histórica. Tem a ver com a escrita, felizmente. Melhor ainda: tem a ver com sagradas escrituras e contratos de promessa de compra e venda. É bom que assim seja. A educação nacional espelha este país de promessas, e compras e vendas. Tudo regulado por sagradas escrituras, por honestidades e modéstias, por trabalho abnegado e serviço público.

A educação nacional, como reflexo da realidade nacional, é. Olhem para ela a ser o que é.


noventa e um

Cristóvão Colombo pega em dois mapas, mete-os debaixo do braço e, batendo com a porta, sai zangado. E muda de país.
Cristóvão não elege as nacionalidades. Portugal nâo dá? Que tal Castela? Génova?
E é por isso que se pode enganar, sem se desconcertar. Está bem, não é à Índia que chego, mas chego aos índios. Preparo tudo para que se chegue a roupa ao pêlo dos índios.

o conhecimento tem muito que agradecer a estes homens incapazes do nacionalismo e que mudam de nação, quando a nação lhes impede o acesso ao conhecimento do bem e do mal. Há quem prefira morrer por aquilo que lhe dizem ser a nação. Também se deve muito a esses, claro! E também a eles se deve memória, conhecimento e património. A humanidade é feita da luta entre as duas tensões – o homem do lugar, o homem do mundo.

E há as espécies híbridas: os internacionalistas que se transformam em ferozes nacionalistas e os naciorialistas que vendem a nação, em nome dela e do mercado mundial. E há aqueles que podem provocar holocaustos em nome dos valores desta,daque!a, ou da sua família. E há os que podem fazê-lo para acabar com esta ou aquela família ou com o clube dos barões assinalados pela adversidàde.

E há os que mudam de clube como quem muda de camisa. E, modernamente, há o valor supremo de todos para todos sempre que mudar de parceiro, mesmo que seja comercial, mude de camisa.
Em nome da humanidade.


noventa e dois

Curvadas pela idade, empurramos, pelas avenidas marginais, a cadeira de rodas com o esqueleto da consdência embuthado em cobertores. A consciência sobre rodas é uma forma expedita de lançar para o campo dos adversários a bomba dos nossos remorsos. Com esta dinâmica, perdemos a oportunidade da culpa ao mesmo tempo que perdemos a oportunidade da graça.

Um padre conhecido pelas suas heterodoxías religiosas, fundou um batalhão de sapadores para detectar e desarmar as bombas de remorso. Para que a situaçào do batalhão pudesse ser regularizada no adro da igreja veio a registar o seu batalhão como ordem da cavilha dentro da obediência romana.
Nas suas ermidas, a ordem da cavilha, em vez de confessionários, instalou labirintos marginais onde se perdem os que empurram consciências esqueléticas, E, em vez de antecâmaras e sacristias, a ordem da cavilha, instalou oficinas de reparação e massagens para ajudar os irmãos a endireitar a espinha.

Em 2002, foi convocado o concílio de latrina. Ninguém ignorava que o que estava em causa era a condenação à heresia da ordem da cavilha e, no entanto, o superior da ordem compareceu. Por unanimidade, os irmãos da cavilha foram condenados à vaporização.


noventa e três

A quem havemos de ofertar os nossos ramos de oliveira? A quem mostrar as palmas do nosso júbilo?

Quando mostramos os ramos de oliveira à comunidade, ela pergunta-nos onde é que os fomos buscar. Se lhe dissermos a verdade, ela vai querer veríflcar ramo a ramo o nosso monte das oliveiras: Então ela não pagou para deitarmos abaixo as oliveiras! …..

Quando mostramos as palmas do nosso júbilo, chamam-nos colonialistas. As palmeiras não. deviam ser’ para aqui chamadas.

Pela nossafé cristã, lemos os trechos dos sagrados passos do filho de deus. E ele passeava pelo mediterrâneo profundo, ponto de encontro entre a europa, a ásia e a áfrica e, por isso, lugar combinado para desertos de pregação, oliveiras, palmeiras e vestes vaporosas.

Mas nós estamos num extremo da europa já pouco dado às rugosas oliveiras e frio para o coração das palmeiras. A comunidade europeia temrazão em querer tirar-nos as oliveiras. A comunidade internacional tem razão em condenar-nos as palmeiras.

Somos hoje vítimas de termos importado e levado demasiado à letra o texto sagrado de ontem. Afinal nós importámos tudo. Importámos tanto a fé como o império e foi com as importações que construimos a nossa identidade. Continuamos a importar quase tudo e havemos de importar tudo, incluindo os óleos de oliveira e de dendem.

O povo não compreende isto. Mas os dirigentes compreendem e temem o reviralho. O nosso primeiro até já aprendeu a trepar em palmeiras longe daqui e nesse último refúgio não precisará da língua para nada. O nosso presidente aprendeu línguas por correspondência e está pronto para todas elas.

Nós continuamos, apesar de tudo, a deixar crescer os nossos tomates, mesmo sem termos clientes para eles. E é esse o único aviso que aqui deixamos. Podemos deixar de oferecer os ramos de oliveira da paz e até deixar de abanar as palmas de júbilo por estarmos neste mundo, mas nunca deixaremos de ser um povo com tomates.


noventa e quatro

Entre os cornudos, são para cima de 3000 os que se vão mostrar. E cavalos? Aveiro vai ser uma terra de cavalos. Num domingo qualquer, Aveiro vai ter mais de 500 cavalos assumidos.

As nossas manifestaçôes, tipo Agrovouga, colocam-nos a par dos Estados Unidos onde já se manifestam, contra a exclusão social, as várias categorias de excluídos como sejam os homossexuais, as lésbicas ou os motoqueiros tipo Harley.

Que temos nós a recear da concorrência? Só se fôr a exposição e o reconhecimento público da nossa superioridade.


noventa e sete

Democracias aceitáveis são aquelas em que se escolhem, por sufrágio universal, a maior parte dos homens e mulheres que decidem representando-nos. Nas democracias monárquicas ou monarquias democráticas, é o monarca que, não sendo eleito, confirma os governos dos partidos que o povo escolhe pelo voto, O monarca não é sufragado, mas sufraga quando quer.

Há vantagens evidentes para o monarca e para a sua família: não são responsabilizados por decisões de governo, Quando são más, foi o povo que escolheu e o rei não fez mais do que confirmar a intençào popular e a sua piedade não é máis do que imensa. Quando sâo boas, ainda bem que o rei foi cheio de bom senso e interpretou de forma tão fiel o sentimento do povo.

E, afinal, pode manter-se e exibir-se o património animal e cultural salamaleque com uma verba que se atribui a uma única família.

A nossa democracia é mais que aceitável. Elegemos até o presidente da república, enquanto respeitamos um monarca democrata que dirige uma caixa de crédito agrícola e aldeã. Aceitamos os bailes de debutantes e debutamos as filhas dos ministros plebeus. Publicamos as fotografias dos jovens nobres e informamos se têm ou não têm namorada, se estudam ou se empreendem. Arranjamos sucessores para o monarca sem reino, sem mulher e sem filhos. E exibimos tudo isto nas festas da república, E há semanários independentes que se gastam e se gostam nisto.

E há novas ordens a subir pelas paredes do castelo de são jorge e a armar cavaleiros. E até a nobilitar. Se quiser obter um título de cavaleiro, antes que lhe lembrem o cavalo que é, procure a ordem. Há lá um tipo que, pelos poderes que lhe estão atribuidos, atribui títulos a terceiros.

Portugal é assim um reino com rei e com roque. O rei escondeu-se atrás de uns peões brancos, que se não efectuarem movimentos certos, podem deixá-lo em cheque perante um exército de peões, cavalos, bispos, torres e raínhas aguerridas de um rei preto. Portugal tem uma vantagem. O nosso rei branco sempre soube que era o primeiro a sair.

Portugal é urna república cheia de monarquia eleiçoeira. É uma república de monarcas.


noventa e oito

Aveiro tem urna uniiversidade. E a universidade é um viveiro de engenheiros. E os jovens engenheiros são potenciais empresários. E é a isto que chamam lógica.

Aveiro precisa de fixar, de entre os jovens engenheiros, os que são jovens empresários. Porque é preciso favorecer o emprego qualificado e a inovação tecnológíca endógena. Antes isso que promover a fixação de multínacionais que podem chegar e partir como os beduínos franceses da renault de setúbal.

Nesse sentido, aveiro assínou um protocolo com a associação de jovens empresários.

As empresas de jovens empresários vão animar-se na produção de componentes para os beduínos acampados em Portugal, quem sabe se em aveiro. Vai ser assim? Ou já foi?

Deixei de distinguir o passado do presente e não sei se há futuro.


cem

Salaman Rushdie veio visitar-me. Aproximou-se de mim com a mão estendida, enquanto 16 guarda costas, em amrcha atrás, faziam prodígios de habilidade para lhe proteger as costas.

Salman Rushdie deu-me rês versículos como pretextos para uma semana de rádio e piscou-me os olhos piscos, enquanto um dos guardas costas piscava o olho director fazendo pontaria a uma aranha que vive em minha casa e esperava este dia para cumprir a ordem do aiatola ou morrer. A aranha morreu às mãos deste RAID de cada e plantas de Salman. Tive pena dela, mas não pude deixar de me alegrar com mais esta vitória da tolerância sobre os insectos fiéis.

Salman não deixou de me dar conselhos práticos. E é por isso e por não querer ter de viver rodeado de guarda costas, incapazes de me guardar as frentes do meu combate literário que eu nunca mais escrevo uma palavra que seja em desfavor de quem quer que seja. Faço disso uma região.

Até pode ser que durante o mês e Agosto tire férias e vá ver, clandestinamente falando, a estátua de Brandt. Clandestino para não desagradar aos sociais democratas que não querem homenagear o célebre social democrata. Clandestino, porque tendo sido eu um esquerdista virulento, Brandt me vaticinou uma radiosa militância social democrata que nunca mais chega, apesar de eu já estar na idade. Clandesino, porque levo os conslehos de Salman no bolso. Clandestino porque pedi recentemente um visto para entrar nos estados unidos e não quero arriscar-me a perde-ganhas-lo. Clandestino, porque sim. Clandestino, para ir pela sombra mesmo sem ter lido a última obra do pacheco.

Finalmente devo revelar o segredo que Salman me revelou: Salman usa só guarda costas, porque a intolerância é cobarde e nunca ataca pela frente.


cento e sete

Estou preado ao chão, através do qual devia passar a caminho do inferno.
Quando me sinto melhor, imagino-me voltado para o lado da luz. Mas quando a náusea se instala no meu corpo, sinto-me virado para dentro da escuridão sólida que a clausura é. Estou pregado ao chão e não posso voar.

Não fui eu quem mandou construir as grades nas janelas. Nem sei quem foi que mandou forjar-las dentro da imaginação que me prende dentro da inha própria cabeça.

Estou preado ao chão e não posso ser a vítima que o demónio arrasta ao ritmo do moviemnto da terra, em sua desesperada deambulação erática e demente pelo universo.Estou pregado ao chão e não sou eu o sinaleiro que controla o veloz movimento dos projecteis que constituem o tráfego aéreo da minha mente.

Não fui eu quem mandou disparar a ira dos olhos humanos que brilham contra a escuridão sobre as águas. Eu estou pregado ao meu chão e a cadeira que me deram para sentar está suspensa do chão.


cento e oito

Se fizeres um silêncio tão espesso como a água, é por ele que a barca flutuará ao encontro da outra margem. Na outra margem. há uma casa com as janelas acesas. Por elas podes espreitar a cauda da estrela cadente, um pavio de pirilampo, uma abertura na noite.

Não podes escrever o diário da tua viagem ao vale dos sem palavras. Porque eles poderâo entender os rabiscos que as tuas mãos soltam no vento das folhas brancas e deixarão de ser quem eram e, com eles, o vale se perde para sempre. E eu quero voltar ao mudo vale, onde a tentação das palavras não conta pelos dedos nem é a cobra que esmagamos com os nossos medos.

Se fizeres um silêncio tão espesso como a água, é nele que quero afogar a alma que se fez noite e afundar a barca que vai entre as margens rasgando sulcos ferteis. Todas as folhas outonais aí encontraram o seu eterno descanso.

Eu abrirei os olhos dentrro do túmulo vegetal, para que me enfeitem m cabelos com coroas de flores secas e deixarei escapar algumas palavras roucas. Dirão que estou vivo, para se enganarem.


cento e nove

Kristos Karvas foi imolado, à entrada de uma pequena capela por Kurtos Karvas. Foi a mando de suamãe oue Kurtos Karvas usou um lança chamas para imolar o seu irmão de sangue.

Quando apresentou o seu relatório detalhado, a velha mãe perguntou a Kurtos setinha verficado cuidadosamente a morte de seu imrão. E este teve de reconhecer que não tinha tido coragem para tanto.

Foi assim que Kurtos teve de voltar ao lugar do crime e verificar que o corpo de Kristos já não se encontrava na pequena e abandonada capela, para onde o tinha atraído e onde o tinha abatido.

Kurtos ficou desesperado e procurou o rasto de Kristos pelos caminhos ladeados de ciprestes que davam para a capela no Centro do labirinto. Perdido para sempre, Kurtos percebu a maldade da mãe e, quando encontror Kristos, queimado pela morte, jurou, apesar de vã, uma vingança.

A rnàe veio até à capela, quando desesperou de esperar por Kurtos e, por não ter visto qualquer dos filhos, percebeu que os tinha perdido no labirinto da sua capela mortuária. A um castiçal ferrugento, atou uma ponta do fio da teia materna em que os tinha enredado, e paartiu em busca.

Kristoskurtas, Karvas por um casamento falhado, nunca encontrou o filho desejado nem o corpo do filho odiado e há muito tempo que o fio acabou, sem que ela tenha dado por isso.


cento e dez

Filomena é amigo de Mena e nào há outra razão para o seu nome. Antes de nascer, já assim estava escrita a amizade que haveria de o unir a Mena independentemente da sua vontade. De facto, Mena era amiga de peito de sua màe.

A mãe de Filomena vendia chocolates e flores numa esquina de Antuérpia e foi lá que embalou Filomena até ele ter idade para gatinhar até à taverna de um emigrante russo branco, que há mais de 70 anos tinha fugido da revolução bolchevique levando uma marquesa arruinada no seu colo.

Filomena começou a servir às mesas, ainda nâo tinha seis anos. Os clientes acharam-lhe graça e cumulavam-no de presentes. Chegaram até a quotizar-se para lhe comprar umas calças que ele começou a usar em vez das fraldas com que tinha fugido.

Quem não gostava da brincadeira era o velho russo que, apesar de cego, via que os poucos clientes compravam presentes para Filomena, em vez de beber o que ele tinha para lhes vender. Foi por isso que Filomena se viu desempregado antes de ter atingido os sete anos.

Nada disto fez desanimar Filomena, que, para não voltar à esquina de sua mãe, se encaminhou para uma praça que se adivinhava ao longe e onde foi apanhado a vadiar. A polícia municipal bem procurou arrancar-lh e nome de mãe ou de pai, mas Filomena nem o próprio nome disse.

No asilo, duas criadas interessaram-se por ele e, vendo que ninguém aparecera interessado em adoptar Filomena ofereceram-se para ficar com ele. A direcção do asilo decidiu dar Filomena para adopção às duas criadas, no dia em que este fazia vinte e três anos.

Só não foi o dia mais feliz da sua vida, porque Filomena se lembrou de ir comemorar à taverna do russo branco e este, tendo-o reconhecido, se recusou a vender-lhe uma gota de genebra. As duas criadas, que acompanhavam Filomena, insultaram o velho russo e este ameaçou-as com a polícia. Elas não ligaram e acabaram presas, enquanto Filomena fugia a sete pés.

Ao passar pela praça, uma velha passou-lhe uma rasteira que o aleijou para toda a vida e o obrigou a herdar o negócio de chocolates e flores que, desde sempre, a sua mãe lhe tinha destinado.


cento e onze

A choiva fai medrar un mar de flores de toxo e ó seu arredor medra Galicia … A música envólvenos e vestimonos de festa .. .

Facianas galegas, tanto anónimas coma coñecidas, veñen a se asomaren a nosa celebración … Sobre delas, coma teito protector, a Via láctea …

A luz que emerxe do sepulcro ábrese por toda a Praza do Obradoiro, dándono-lo o seu abrazo, ofrecendo ó mundo os seus símbolos de solidariedade, paz e esperanza.”

Por ti, Galiza, percorro a Via Láctea – estrada de Santiago e me ajoelho aos pés do teu santo, passo a mão pela face do santo, tapo-lhe os olhos esperando que ele adivinhe o nome do pecador.

E salto atrás da música que anima a estrada de Santiago até Santiagoe para lá de lá. Como se soubesse onde é que a juventude tem a sua fonte. Não sou um caminheiro e deixo que um ladrão desastrado me estrague o fecho da porta do automóvel, mesmo debaixo das janelas do quarto, onde durmo com o cajado de peregrino preparado para a emboscada. O sono dos justos seria ao pé do automóvel, sobre “un mar de flores de toxo” e, sobre mim.. .. “coma teito protector, a Via Láctea“,

Não há estrada de Santiago, para o regresso a casa.


cento e doze

Catarina virou-se para a mãe e disse que talvez nao fosse uma centopeia, mas que tinha muitas patas tinha. E sossegou-a, acrescentando que nunca tinha sido mordida. Mas que a Xana andava cheia de mordidelas, lá isso andava.

Naquele ambiente do teatro de estúdio, não há luz natural e aquilo está tudo pintado de preto e, sem dúvida, que aquele bicho gosta daquele ambiente e resiste aos insecticidas com que foi duramente bombardeado em vários combates de infantaria. Depois de tudo lavar e desinfectar, aquele insecto de muitas patas lá voltava a aparecer. Eu acrescentava só que deviam ter lavado e desinfectado o sítio com creolina.

Mas o ambiente tem de ser assim? Tudo pintado de preto, porquê? – insistia a mãe. A Catarina pacientemente explicava que um teatro estúdio tem de ser assim, por razões que a luz conhece. E a mãe continuou preocupada com os bichos que sobrevivem no teatro. Na altura, só me lembrava de dizer que era a isso ou a esse é que chamavam o bicho do teatro. Mas a piada resultaria de mau gosto para a minha filha e eu calei-me durante toda a viagem por fazer.

Mas hoje lembrei-me da conversa toda e vi o bicho sobrevivente. Que afinal não é um bicho, mas uma bicha. Na minha terra, chamam-lhe a bicha cadela.


cento e treze

Quando passava por Lourosa, há uma casa bem sólida e fixa com um letreiro claro. Biblioteca Itinerante.

Achei irónica aquela designação para uma casa que ali está há muitos, muitos anos e ali vai estar por muitos e muitos anos. Embora seja verdade que aquela casa como todas as suas vizinhas são itinerantes pelo universo, não deve ser por isso que a casa é uma biblioteca itinerante

De facto, não é por isso. O que é itinerante é o livro que a habita. O livro habita esta ou aquela casa, porque a casa não lhe interessa. O que lhe interessa é habitar o leitor e mudar de leitor, ocupando os diversos lugares que os leitores diferentes são. Ao passar de casa em casa, o livro é itinerante mas procura fixar-se em cada um dos lugares. Ao passar de mão em mão, procura fugir da estante ao encontro dos olhos. A estante representa o risco do pó. As camadas de pó podem tomar o lugar das capas.

Os livros gostam de olhos azuis, castanhos, negros, amarelos, verdes. Os livros gostam dos dedos que viram folhas. Os livras gostam dr ser itinerantes.

Afinal quern nos dera pensar que não há bibliotecas fixas. Que são todas itinerantes. Quem nos dera pensar que a biblioteca itinerante de Lourosa é mesmo itinerante. E já não acho nada irónico que aquela casa seja o continente de uma biblioteca itinerante. Todas as bibliotecas deviam chamar-se assim.


cento e quatorze

o Alberto ofereceu-me um desesperado ramo de rosas amarelas e pediu-me que o beijasse. Assim fiz. E a Rosa Amélia beijou a Virgínia pelo ramo de rosas cor de rosa enquanto a Raquel beijou os dois pelo ramo de rosas cor de laranja.

A gata nâo deixou de olhar para toda a cena com os olhos coruscantes e ciumentos.

Quando ele desembrulhou o seu raminho de sardinhas e cerimoniosamente o colocou no prato da gata, ela assanhou-se e, não sei se aos beijos, atirou-se ao Alberto como é natural que as gatas se atirem a um gato.


cento e quinze

Setembro nunca foi um mês fácil. A minha mãe sempre me falou do mês de S. Miguel, como um mês de todas as emoções. Se a colheita é boa, toda a gente fica emocionada e feliz e pronta para enfrentar o inverno que Setembro anuncia. Quando a safra é má, toda a gente está emocionada a preparar-se para o inverno dificil que Setembro anuncia.

Setembro nunca foi um mês fácil. Era um mês de grandes decisões. O meu pai decidiu a partida definitiva para o Brasil num mês de Setembro e o meu irmão mais velho deve ter decidido dar o salto para a França por alturas de Setembro, Pelo meu lado, nunca tomei qualquer decisão pelo mês de Setembro porque era um pau mandado e ia para onde me mandavam.

Em Setembro decidiam por mim que ia para a escola em Outubro. E eu ia, porque eu não tinha onde me esconder e não sabia fugir para a França. Quando chega Setembro, lembro-me que tenhod e me calçar, partir para a cidade e procurar, no meio da multidão, uma cara para me esconder.

Setembro nunca foi um mês fácil. O S. Miguel foi decisivo para o destino dos fortes. Para mim, o S. Miguel não foi decisivo, porque sempre fui demasiado fraco e ele nunca se interessou por tipos como eu que viam o mês de Setembro acabar, atrás de vacas e a limpar o arroz que elas malhavam e, em inocência, enchiam de bosta.


cento e dezasseis

A mulher tinha cinco dentes de ouro e ele não tinha dentes que não fossem de ouro.

Quando ele chegou do Brasil, de carro de aluguer e corn aquela mulherona atrás, pensámos que ele era milionário. Mais milionário ainda nos parecia quando ele ia de carro de aluguer ver os sobrinhos que estavam a estudar em Coimbra. Quando ele me ofereceu uma caneta Ero, eu pensei que ele era só sucesso.

Pensava que as terras que ele tinha vendidonãocram mais doque osseusamendoins

Mas a minha avó sabia quem a mulherona era e sabia tudo a respeito do nosso tio milionário.

Depois de ele ter gasto todo o dinheiro que tinha recebido e outro que.não tinha, a minha avó pagou-lhe as dívidas do carro de aluguer e outras, comprou-lhe um bilhete de ida para o Brasil e foi levá-lo ao barco para ter a certeza que ele partia. E fez tudo com a maior discrição. De tal modo, que ainda hoje não sei se ela chegou a molhar a sopa naquele filho de 50 anos,quando da sua breve passagem pela minha infância.


cento e dezassete

Quando vim estudar para Aveiro, vim para casa da Senhora Deolinda. Quando fui para Coimbra fui para casa da Dona qualquer coisa.

Lembro-me bem das mulheres das casas. E não me lembro dos homens dessas casas. Sei que eles existiam. Até sei que um deles se chamava António. Ou seriam dois Antónios? Era um mundo de mulheres. Os homens eram apagados ou estavam apagados, pelo menos para mim.

Sei que aquelas mulheres ainda existem e suponho que os homens devem ter morrido há muito tempo. Ponho-me a pensar que suponho isso, por eles não terem tido existência para mim.

Na existência desses homens há um véu fascinante: não me lembro deles como habitantes das casas que eram deles. De um recordo que ensaiava um rancho – não sei se das salineiras, se das tricanas – e de outro recordo a fachada da pensão em que ele era cozinheiro. E ainda hoje, penso que ambos eram muito gordos e afáveis – logo perecíveis.


cento e dezoito

Hoje eu gostava de ser da Trofa. Ser da Trofa para tentar compreender por dentro, para experimentar uma mágoa por dentro.

Será que conheço os meus amigos quando fingem ser adeptos de um clube? Há quem conheça o nome da mãe do treinador e até o nome da muulher que lava a roupa do jogador estrangeiro que veio para ficar. E que fazem algazarra disso, ao mesmo tempo que fazem algazarra de outras coisas que deixaram de saber.

Alguns me dizem que há mais calor nessa comunhão de saber isso em vez da vida do que na família. E eu sei que há alguma verdade nisso, pois deve ser bom gritar para lá de toda a conveniência. Em especial para as pessoas que não gritam habitualmente ou quando devem por não ser conveniente.

Gostava de ser da Trofa hoje. Ainda um dia hei-de autorizar esse transplante: em vez do meu cansado coração, uma bola. Longe de mim ser tão radical como outros que autorizaram o transplante máximo: em vez do cérebro, uma bola.


cento e dezanove

Eu também quero ir de camião pelas ruas. Eu também quero apitar até que a cidade fique surda. Eu quero fazer o pino no alto da cabine e quero desenhar trinta e cincco mulheres nuas na porta do meu camião. Eu quero fazer oscilar a cabine do meu camião.

Eu quero correr o mundo com uma desculpa de movimentar as mercadorias de um para outro lugar.

E saber eu que não passo pela paisagem, mas que é ela que me foge para trás da janela do meu camião. Eu quero ver passar o mundo como um filme. Quem me dera ser o camionista que não passa duas vezes pelo mesmo ponto do mapa.

Por estes dias , estaria a mostrar as minhas habilidades ao volante do meu camião numa cidadezinha do litoral português. Aveiro merece ser pisada pelas doze rodas do meu trailer …


cento e vinte

Dias Loureiro veio finalmente proteger-me.

Sempre trouxe o meü bilhete de identidade para mostrar à polícia montada. Mas ainda me léembro do tempo em que a polícia montada não conseguia baixar~se o suficiente para pedir o bilhete e usava bastões e espadas ortopédicas a prolongar-lhe o braço que picava o bilhete. Acontecia que, com a pouca pontaria que se lhes conhece, acabavam por acertar mnas orelhas e nas costas.

Dias Loureiro irá proteger-me dos polícias brutos. Disso estou eu pouco seguro.

Do qu e estou seguro é que serei protegido contra outros, mesmo que os outros não estejam contra mim. Ou que outros serão protegidos de mim, mesmo que eu não tenha nada contra eles.

Algumas vezes não será assim. Mas basta que aconteça uma vez. E então que Deus me proteja!


cento e vinte e um

As aves carregaram para os seus ninhos o cotão dos meus bolsos, o meu pó e até o meu tabaco de cachimbo. Nunca se devem deixar abertos os pácotes de tabaco, mas naquela manhã eu não podia fechar nada que me dissesse respeito.

Estava deitado, com a cabeça enterrada na areia, enquanto as sentia debicar o meu mundo todo espalhado. Não podia mexer~me e as aves tudo levaram.

Quando me levantei tarde demais, persegui cambaleante as últimas aves do meu pesadelo. Adivinhei os seus ninhos pe1o cheiro do tabaco e fiquei emboscado a ganhar forças.

Deixei passar os dias. Não me mexia. Seguia fascinado os voos e maravilhava-me com os saques das aves. Partiam e regressavama o ninho, sempre em construção, com pequenas partículas nos bicos. Não interrompia a construção. A partir de certa altura, habituadas à minha presença rígida, as aves começaram a debicar por perto e algumas vezes pousavam sobre os meus ombros.

Finalmente dei um gríto horrível. As aves esvoaçaram para fora dos ninhos e eu subi as traves, com mil cuidados. Quando cheguei ao primeiro ninho, enchi o cachimbo, delicado, fumei o ninho.


cento e vinte e dois

Forquilhas tinha duas irmãs mais velhas. Uma delas chegou a frequentar os dois primeiros anos de um curso de manequim na Universidade de Santiago e anda à procura de emprego pelas montras da . . cidade. A outra acabou o preparatório na Escola da Variante e, tendo abandonado os estudos, anda a fazer inquéritos ao trânsito por conta do senhor Instituto.

Forquilhas foi criado por elas até à idade da reforma. Muito cedo, as irmãs deixaram de ter tempo para tomar conta dele e mal ele começou a gatinhar foram entregá~lo na porta do reformatório. No reformatório, Forquilhas aprendeu a arte de viver sem chatear a deus nem ao director do reformatório e, ao fazer dezoito anos, deram-lhe alta.

Ao sair do grande portão, deu de caras com duas mulheres. Espantado, viu que elas avançaram até ele e,depois de o beijarem, arrastaram-no para a limousíne. Durante a curta viagem que fizeram desde o reformatório até ao solar do livre arbítrio, lá lhe foram refrescando a memória sobre a família.

Forquilhas ficou assim a conhecer as suas duas irmãs mais velhas, das quais já não se lembrava. Elas não pediram desculpa por nunca o terem visitado e ele também não esperava nada disso.

Ao lado do solar, numa pequena arrecadaçao, um jardineiro já velho acomodou o Forquilhas entre outras ferrarnentas ..


cento e vinte e três

Pouco sei sobre a Australia. Mas sei que os ministros e os artistas são brancos de olhos azuis, algumas vezes com umas sardas numa pele desajeitada para tanto sul e sol.

É bem provável que tenham sido exportados para a Austrália pela Europa do Norte. Também já vi aborígenes australianos. Mas sempre em documentários sobre interiores e reservas de perdiçao ou de espécies a preservar, porque estão em vias de extinção.

Pouco sei de Timor e Portugal

Mas vejo as caras típicas do sudoeste asiático, nas poucas ruas de Dili, ou como guerrilheiros ou como conselheiros de Jacarta. Quero dizer, não foram exportados tantos brancos como isso e, se o foram, ligaram os seus destinos aos aborígenes e os exportados mostraram que tinham genes recessivos.

Pouco sei de colonialismo. Só sei que nunca me passaria pela cabeça falar de bom ou mau colonialismo.

Mas o primeiro ministra australiano fala. E estou, convencido que, para ele, o colonialismo foi tanto melhorqaunto mais assassino e xenófobo foi.

E quedo-me a pensar que é bom que os portugueses tenham sido maus colonialistas e que os nossos exportados não tenham resistido à sedução das belíssimas mulheres de Timor.

Eis porque me deixo fqascinar e cada vez mais pela fraqueza da nossa raça.

<hr<
cento e vinte e quatro

Quando não comemorei a passagem do 21º aniversário do meu casamento, convidaram-me para comemorar a passagem do 5º aniversário de outro casamento.

O dono do restaurante sentado na mesa do champagne, depois de alguns versos de pé quebrado, falou dos seus mais de trinta anos de casado. A propósito do seu casamento costuma dizer à sua mulher que tal casmento representa “muito arrojo, muita audácia, muita coragem e total desprezo pela vida“.

Noutra fase da conversa, dirá ainda o resto da lenga lenta do poço da morte: “Coragem, Marlene, lembra-te que estás a trabalhar sem rede“.

Mas é mentira. Há sempre uma rede de cumplicidades no poço da morte que a vida é.

Deus é um velho homem, sentado na borda do poço da morte. Das suas nmodosas mãos, nó por nó, cai a rede que ele tece desde o princípio dos tempos.


cento e vinte e cinco

o labirinto é. Cada um dos peregrinos no labirinto pensa que conhece uma saída. Desenharam-lha no mapa da fé que recebeu como herança.
Quando, num dos corredores do labirinto, um peregrino encontra outro de fé diversa, pode puxar da metralhadora. É por isso que os corredores dos labirintos do homem estão juncados de cadáveres. O chão do labirinto é feito de cadáveres que, na sua rigidez e podridão, criam uma elevaçao de cartografia sem fé.

Quando a elevação é tal que os peregrinos podem ver por cima das muralhas do labirinto, são castigados pela luz. Cada um, à maneira da sua fé, benze-se perante a realidade e, em vez da metralhadora, podem estender a mão.

Falo dos peregrinos que se benzem de pé.

Os que so se benzem ajoelhados nunca verão por cima das muralhas. Para estes, a realidade tem o cheiro inconfundível dos seus mortos. Para estes, a saída é a redonda e abençoada boca da metralhadora capaz de fazer sobrepor o cheiro da pólvora ao cheiro dos mortos ou de tornar o cheiro inconfundível dos mortos dos outros mais forte que o cheiro dos seus mortos.

Nos muros de Jerusalém desenhei estas palavras, nem tocadas pela fé, nem tocadas pela esperança.

Queria dizer que as minhas palavras são sopradas pela razão e pela mente. Mas, perdido no labirinto das razões, sei que não há razão sem fé não sei em quê.


cento e vinte e seis

Arn oitenta e seis anos. Romaria abandonou o seu lugar de venda no mercado da Rua Velha do Canto e foi para casa, decidida a não voltar mais.

Assim fez. E tal como tinha previsto. ninguém deu pela sua falta. E é por isso que Romaria pode morrer descansada. Tendo morrido antes de morrer, nada lhe custa morrer.

No filme da vida que antecede a sua morte, Romaria lembra-se do dia em que, ainda com menos de 20 anos, decidiu ocupar o seu lugar de venda naquele mercado, vencendo a oposição da mãe e da velha avó. E revê os motivos da mãe e da avó. Antes de morrer tem de decidir se elas tiveram razão.

Romaria quer ser enterrada com seu avental florido e isso deixou escrito em folha do mesmo papel em que emhrulhava a sua mercadoria. Romaria não escreve as letras para forrmar as palavras. Dançam as palavras independentes das letras.

O notário não saberá deslindar os termos do testamento de Romaria, mas saberá ver que ela rejeitou as razões da mãe e da avó, ao mesmo tempo que rejeitou as suas próprias razões.

Na Rua Velha do Canto, as casas pequenas e familiares. bem como as ilhas de poobreza que ela escondia no seu seio, cederam o seu lugar às ilhas de betão em que ninguém se conhece. E onde ninguém se conhece, ninguém sente a falta de Romaria e do seu lugar no mercado de ilusão e divertimento.



cento e vinte e sete

Eu guero ser invadido pela Espanha dos fins da tarde. Eu quero as ruas invadidas pela febre do fim da tarde e da noite que a Espanha é. Eu rendo-me.

Lá para o Norte galego, já há cidades e vilas a atapetar os centros históricos e as pequenas vielas com os empedrados dos peões invasores. Se uma pessoa decide sair da sua casca, pode ir para ali encontrar o outro ou perder-se na multidão dos outros.

Aveiro não tem educação, cultura e tradição bastantes para ser também o lugar sem os veloses meios de passar pelos outros sem os ver. Mas eu penso que a educação, a tradição e a cultura se criam. Aveiro tem de se deixar invadir pela convivialidade, tem de criar um centro de passeio, rodeado por botequins e habitado pelos fantasmas tocadores, por estátuas vivas, por doces e humildes vendedores de coisas que sejam belas e inúteis.

Ninguém sabe onde é esse centro. Porque uma certa ideia de desenvolvimento e progresso faz da cultura um monumento, obriga uma concertina, um saxofone, ou uns pés de dança a organizar-se até se fecharem no cine-teatro ou pelo menos a obter uma impossível licença do goverrno civil. Ninguém sabe onde é esse centro, porque um artesão tem um lugar guardado no pavilhão de feiras e exposíções e esse lugar não é o coração da cidade, nem é um lugar com o espírito das ruas naturais.

Se um dia pudesse decidir-me a fazer política, levantar~me-ia contra esta política de empáfia e campo de concentração para a cultura, contra a cultura como instituição parola e cara. E proporia que a ruptura fosse a favor da liberdade e da pobreza das esquinas. Dito de outro modo, diria que a cultura nasce do convívio com ela e que nasce da convivência entre os cidadãos quando cultivam o mais simples descanso e a mais simples convivência no espaço da cidade. De certo modo, basta devolver a cidade aos cidadãos em descanso. Pelo menos parte dela: alguma coisa a que se pudesse chamar “coração da cidade”.

Eu sei que para compensar tanto betão e tanto automóvel, a Câmara tem vindo a tratar dos jardins como um pulmão. Mas é preciso um coração para bombear o sangue que ao pulmão falta. Uma cidade só o é quando habitáculo de cidadãos, sem mais que os seus corpos sensíveis e sem pressas. Eu quero ser cídadão.Se para isso tiver de ser espanhol, seja. Antes espanhol que nada.


cento e vinte e oito

Numa rua de Copenhaga, ouvi um rapaz tocar um tradicional e pesado piano, Tocava bem aos meus ouvidos, E mudava de esquina.
Embora haja um enorme parque de diversões em Copenhaga e, num restaurante podermos ouvir um virtuoso com a viola ou com um saxofone, o rapaz estava lá com o seu piano sobre rodas. E estava lá o seu público.

isso foi o mais extraordinário que vi até hoje. E já vi uma orquestra de cordas tocar num mercado de hortaliças de Londres. Ou uma orquestra de metais numa esquina de DSantiago de Compostela. Ou um branco louco a manejar cinco mechas incendiadas numa esquina de Boston enquanto uma banda completa nos enchi os ouvidos de samba, ou um negro sozinho que substituia o Bob Marley e companhia. Ouvi coros na rua e estátuas de loucos em Barcelona. Ouvi um saxofone a chorar em francês, num corredor doo metropolitano de Paris.

Nunca ouvi queixarem-se da flata de público. Nunca ouvi aqueles públicos queixarem-se da falta de condições da sala, nem do preço dos bilhetes. Nunca os ouvi queixar-se queixarem-se do tempo perdido para a licença do governo civil.

Aqui ainda quase não vi nada disto, mas ouvi queixas do governo civil sobre as licenças e a burocracia.Sei que o governo civil não faz mais do que proteger o meu sossego. E agradeço-lhe por essa intenção. Mais lhe agradeceria se não se preocupasse tanto com o meu sossego nestas pequenas coisas. Porque eu sei que le não se preocupa com o meu sossego para grnades coisas, como sejam os desfiles dos estudantes quando bêbados, ou o futebol, ou o ciclismo, ….

Quem em dera que os políticos percebessem que a vida dos pequenos cidadãos como eu são só feitas de avulsos pequenos nadas.. Sem aparatos policiais, sem bilhetes, sem autorizações. Quem me dera que a cidade fosse devolvida, ao menos em parte, aos cidadãos que se sentem com os pés e não sobre rodas. Onde? Eu preciso de respirar, eu queor ser incomodado por um grito de clarinete.


cento e vinte e nove

Na frente seguem os porta estandartes, acompanhados por filas de adolescentes compenetrados. Ainda mais à frente, um batedor da polícia tenta meter a segunda.
Depois dos adolescentes masculinos, há dezasseis anjinhos com asas e tudo, ladeados por filas de figurantes como santos, mártires e apóstolos.

Em andores, sobre a populaça que assiste à passagem da procissão, vão algumas figuras de cabeças talhadas na pedra ou no pau a encimar as vestes que dois paus em cruz segura. Reconhecem-se um santo de cavaco qualquer, um de nogueira, um de loureiro, um de carvalho e até um de pereira. Do andora do santo de um cavaco qualquer, voam pombas suicidas com versões em papel couché do sermão vago.

Atrás dos andores e sob o pálio vai quem faz os sermões escandalosos e não chegou a passar por santo e é por isso conhecido pelo jardim, em clara referência ao jardim das delícias para uns e dos suplícios para todos os outros.
Atrás do pálio vai a fila harmónica dos que nos dao música que, quando não tocam, marcham ao compasso binário – esquerda rápida, direita solene e sentida.

Em dada altura da procissão, que vai em oito anos de desfile, do meio da prensa da multidão, um jornal salta e vai atingir as saias do santo de algum cavaco. Foi então que par, para além do pau, se descobriram algumas latas de leite nestlé escondidas sob as vestes.

O santo de pereira jurou comer aquele jornal e tudo o que fosse exprensa. Explicou ele que ninguém deve escapar da prensa da multidão adoradora dos santos. Queria ele dizer que não tem nada contra a imprensa.

Ninguém se aflige com isto, porque toda a gente pensa que santo não come papel. Eu fico aflito. E não sei omo hei-de dizer, sem ofender o povo, que aquerle santo de pereira não é mais que uma cabra.


cento e trinta

Uma câmara de ar está instalada na praça da república. Está fofa e convida à brincadeira.

Uma série dee putos estão alinhados por partidos, cada partido forrnando um lado do polígono irregular das candidaturas. Não sei quem, mas alguém deu o tiro de partida e os putos começaram todos a correr para a câmara aonde alguns deles chegarão no dia 12 de dezembro.

Os putos da frente que ficarem de fora a vê-los brincar com a câmara de ar váo roer-se de inveja. Os putos que não estiveram nos lados do polígono de candidaturas nunca os consideraram colegas de brincadeira e sempre acharam que não se deve brincar tanto com aquela câmara. Esses pensam que se continuam a brincar assim com a câmara, ela ainda rebenta. E não querem que ela rebente. Pensam que um dia terão de remendar e encher de ar a câmara.

Outros putos mais sensíveis já têm tampões nos ouvidos. Em vez da câmara, eles preferem brincar a construir um zepelim voador e esperam assistir de cima ao fim da brincadeira.


cento e trinta e um

Na corrida à Câmara, a educação vai também ter importância de capítulo de programa. Os candidatos vão falar das construções de escolas, vão falar do apoio que deviam ter dado e vão dar na futuro às escolas primárias de aveiro. Há até quem aposte que durante a campanha podem ser distribuidas as vassouras para que os proíessores possam varrer os lixos da antiga reforma. Se náo forem distribuídas vassoura, pelo menos seráo distribuidas palavras mágicas em favor da educação e do ensino.

Haverá alguém que queira discutir para que servem as escolas todas do conce1ho de aveiro? Deve haver. Só devo avisar que não é de duma discussão de campanha que falo. De facto, é preciso estudar e participar com persistência em debates de anos e construir decisões que precisam de anos de acompanhamento das escolas.

Também se vai discutir muito o destino do edifício da Escola Secundária de Homem Cristo. Como se o edifício fosse a escola e a escola não fosse. E é preciso assumir que as crianças da Vera Cruz não têm escola. Tudo se fez corno se a zona da beira mar estivesse a preparar-se para ser um lar de terceira idade ou vielas de serviços. Nada disto aconteceu e é preciso assumir que uma escola de nove anos deve ou não deve ganhar espaço na freguesia da vera cruz. Aveiro está rodeada de escolas portodos os lados, menos por um. Aveiro optou por usar escolas à cintura.

Aveiro tem escolas. O que Aveiro não sabe ser é uma comunidade educativa -Aveiro não tem projecto educativo. Talvez que na corrida à Câmara haja quem se lembre disto. Faço votos.


cento e trinta e dois

Deixamos de ter pretextos para estar no ar. Ao fim de seis meses, perdemos os pretextos numa borda do prato de um giradiscos qualquer.

Nao é nada disso. De facto, é muito dificil concorrer com tantos comentaristas de gabarito nacional.

Durante este tempo, os pretextos entalaram-se entre o artur semedo e o raul solnado, entre comentaristas políticos, económicos e até científicos. Sobrevivemos a tudo, porque sim. E não porque tenhamos sido o comentário regional. Também fomos o comentário regional, mas ninguém, nem mesmo nós, demos por isso.

Não é nada disso. O que é verdade é que começámos porque sim e acabamos porque sim e porque seis meses é uma idade séria para deixarmos de ter pretextos para o que quer que seja.

Não é nada disso. O que é verdade é que fomos dispensados pela ria. Deixaram de nos pagar o que nunca nos pagaram e mostraram-nos, de dedo em riste, o rmicrofone coomo olho da rua.

Não é nada disso. O que se passa é o início das campanhas autárquicas e podíamos ser vítimas do nosso próprio logro. Sem querer, podiamos entrar na carnpanha de alguma candidatura que não fosse a nossa
E se isso acontecesse, que conta poderíamos dar da nossa inocência?

Não é nada disso. Nós nem somos inocentes, nem a inocência é local e muito menos nossa.

Não é nada disso. Tudo nos serve de pretexto para falar na rádio. Até o fim de todos os pretextos nos serve de pretexto.

Prontos para a partida, aqui vos deixamos a brancura da ausência que nós somos. Não queremos outra coisa que não seja a felicidade da nossa audiência. Se houver audiência, ela é o nosso pretexto para sair do ar e da cena que aqui montámos, sem pensarmos na audiência.

E pronto. Chegou a altura de pensar. Chegou o Outono e vai chegar Outubro. Já há desgraça que chegue.

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