pré

de 1 de Abril a 10 de Junho de 1993


zero

Abertura de todos os programas:

De ontem para hoje, uma noite foi jovem e teve a sua despedida. A noite não é pretexto para a claridade.

E as palavras também não são a claridade.


Anúncio do programa (21 de Março):

O equinócio é um bom pretexto para anunciar os outros pretextos. Este ponto vemal anuncia a primavera e, apesar de não termos visto o inverno em parte alguma deste tempo em que devia ter vivido, saudamos a ressurreição da primavera.

De ontem para hoje, a noite foi igual ao dia em todo o planeta azul e é este e outros equilíbrios, ou a falta deles, que nos vão servir de pretexto para falar. Para quem nos quiser escutar, a partir de 1 de Abril, não vão faltar pretextos para a música e para este vir à fala.

E afinal o movimento do sol é aparente e somos nós que nos aproximamos ou afastamos dele. Aqui se encontra outra fonte de equilíbrio. O equilíbrio, e com ele a vida e o amor, não reside em estar próximo todo o tempo, porque gostamos do calor, ou em estar todo o tempo longe quando gostamos do frio. O equilíbrio reside em estar ora perto ora longe do sol.

Mas afinal quem precisa de pretexto para conversar? Dizer o bem e dizer o mal é uma forma de estar vivo. Assim estamos nós.



um

Um país é sempre um caminho estreitíssimo.

Anibal nunca quis reconhecer que, embora as suas vitórias na conquista da Europa se devam em parte aos seus elefantes, também lhes deve parte das derrotas. E é a derrota que é definitiva para Cartago, não as vitórias.

Alguns até nem eram elefantes. Mas Aníbal deu-lhes acesso às rações mais nutritivas importadas da magnífica Europa e eles passaram a desfilar, de tromba no ar, como verdadeiros elefantes. São os heróis de várias batalhas. Sem eles, Aníbal nunca poderia ter justificado, papéis passados, a necessidade das enormes verbas europeias para o arranjo do seu caminho estreitíssimo entre a Galiza e a Algaraviada.

Quando alguém se põe a dizer que os elefantes aí andam de trombas no ar, e que é preciso pô-los de tromba no chão, Aníbal põe-se à frente da manada, procurando tapá-la com o seu vulto, e grita que não há elefantes. A populaça não pode acreditar que ele não veja a manada que pastoreia.


dois

o menino Calvin diz para o seu boneco feroz:

“Eu costumava detestar as redacções, mas agora gosto de as fazer. Percebi que o objectivo de as escrever é dilatar as ideias fracas, obscurecer os raciocínios e inibir a clareza. Com alguma prática, a escrita pode tomar-se um nevoeiro intimidante e impenetrável! Queres ler a minha ficha de leitura?”

Hobbes, o boneco feroz, pega na ficha de leitura de Calvin e lê:

“A dinâmica dos imperativos interpessoais e monológicos em Dick e Jane: um estudo de géneros mediúnicos transrelacionais”

o menino Calvin conclui:

“Academia, aqui vou eu!”

o menino Calvin e o seu boneco feroz são personagens de banda desenhada. E fazem bem feito o trabalho de denúncia de Bill Waterson, americano. Quantos portugueses ele denunciou?

De facto, temos de concordar que, para além da guerra com balas verdadeiras e a poluição, a humanidade tem de travar um outro combate: contra a indústria das palavras que, postas a circular, criam um nevoeiro intimidante e impenetrável.


três

Há países assim.

O milagre está nas mãos dos mágicos e não nas nossas mãos. Mas é sempre bonito ver o espectáculo.

Um dia, sem qualquer magia, um mago tira da cartola da realidade “pobres, barracas e mias algumas coisas desagradáveis à vista”

Outro mago vem e, com a magia mais simples, faz desaparecer tudo isso para longe da nossa consciência, dizendo simplesmente que não há ou, havendo, não é tão grave como mostra a pintura do mago adversário. Problemas maiores exigem a atenção do mago.

Durante uma semana ou duas, os dois magos fecham a cartola, enquanto alguns dos seus adeptos discutem de qual das cartolas sai a verdade.

Ainda os adeptos não tinham acabado a magna discussão que os dividia e, eis que o mago que tinha feito em fumo a visão das barracas, para o inalar pelas duas narinas da sua cartola, aparece de novo em cena.

Tira então da sua cartola as barracas e coloca-as nos seus sítios, cinturas vergonhosas das grandes cidades do país dos milagres. Melhor: o mago diz que elas sempre estiveram lá, que sempre foram sua preocupação principal.

E milagre dos milagres: o mago tira, não do orçamento do estado, mas da sua cartola, uns milhões de contos. E profetiza um outro milagre maior: na sua cartola as barracas serão destruídas e, em vez de entulho, da sua cartola sairão então casas dignas para os pobres.

A comunicação social é memória de todos estes milagres. No futuro, um investigador interessado, mas cáustico, dedicará a estes passes mágicos duas linhas sob o título: a barraca de 1993 e a multiplicação das barracas.

Hoje há quem fale de oportunidade política, de oportunismo político, de verdade política. E não é mais do que a miséria na política. Quem poderá tirar da cartola uns milhões para acudir a esta miséria?

Há países assim.

Há países assim.


quatro

Não há quem não goste de Dona Eleições. Devíamos, em todas as cidades do país e até nas aldeias, quem sabe!, promover movimentos para que ela seja consagrada na toponimia em avenida de destaque. Além de tudo o mais, Dona Eleições é jovem, bem feita, com um ar domingueiro e festivo. E haverá quem seja mais democrático que Dona Eleições?

Quando Dona Eleições bate à porta, acontecem coisas boas. Por exemplo, as ruas que apodreciam aos nossos olhos, aparecem pavimentadas de urgência, como um tapete que se estende para que ela passe sem macular seus sapatos de domingo.

Dona Eleições, se fosse candidata a Presidente de Câmara ganharia com larga vantagem. Penso mesmo que não teria dificuldades em ser eleita para cadeira no Parlamento, para Ministro das Obras Públicas e Privadas, ou até para Primeiro Ministro. É claro que teria de haver uma vaga de fundo a seu favor, mas isso não seria problema, tão conhecidas que são as suas obras.

Dentro dos partidos tradicionais, não há quem não lhe reconheça evidentes méritos ou, pelo menos, a sua capacidade de motivação para as obras. Não é muito organizada e muito menos barata a motivação de Dona Eleições, pois, à medida que se aproxima, exige que tudo seja feito à pressa e aparentemente bem. Ora, depressa e bem não há quem … trabalhe barato.

Mas que interessa isso? Dona Eleições merece todo o nosso apoio se quiser candidatar-se. A ela devemos a satisfação de muitas das nossas reivindicações. O voto é secreto, mas nós declaramos publicamente o nosso louvor a Dona Eleições e, logo, o sentido do nosso voto.


cinco

Não sei

Um dia, há muitos anos, um poeta amigo escreveu três versos aparentemente desconexos. Fiz-lhe notar que, do primeiro para o segundo, a escada não tinha quaisquer degraus e, do segundo para o terceiro, nem degraus nem sinal de lá ter estado qualquer escada.

Ele tinha o hábito de encolher os ombros e, por isso, fiquei sem saber se, naquela altura ele estava a encolher os ombros para responder à minha observação. De qualquer maneira, não insisti na observação e ele nunca comentou o meu reparo.

Aos quarenta anos, o poeta publicou o seu terceiro livro de poemas. Ao folhear o livro deparei com o poema dos três versos a que faltavam algumas das palavras da versão original.

Ao ler os três versos agora, passados tantos anos, achei-os belos – sou agora capaz de ver os degraus – e referindo-lhe as minhas dúvidas do passado, acabei por lhe perguntar pelas palavras que faltam.

Ele encolheu os ombros, mas falou desta vez. Tinha caído tinta no original e ele simplesmente não tinha conseguido decifrar essas palavras. Considerando-as insubstituiveis, em vez delas, deixou espaços em branco.

“Bem me podias ter telefonado” – foi o que me ocorreu dizer-lhe na ocasião para o ouvir dizer, sem qualquer ponta de ironia, enquanto encolhia os ombros: “Não são as palavras que fazem o poema. ”

Então, o que é? – perguntei.

E ele respondeu: “Não sei.”


seis

Aquele professor nunca falava nas aulas, mas tinha um dom especial: escrevia tudo muito claro e colocava os problemas que, constituindo um verdadeiro desafio, nos levavam a tudo tentar para os resolver.

O facto de ele nunca falar e da sua exposição ser tão bela, escrita no quadro e cuidadosamente passada para os meus cadernos, sempre exerceram sobre mim uma estranha fascinação. Fazíamos conjecturas sobre a sua personalidade extravagante.

Um dia não resisti a ir falar-lhe provocadoramente a respeito de uma demonstração belíssima que me oferecera branco sobre o preto. Como ele não me respondesse, comecei a pôr em causa tudo o que dizia respeito a demonstrações e a perguntar-lhe “afinal o que era uma demonstração?” “se aquilo teria algum interesse?” ” se afinal haveria alguma verdade naquilo?”, etc.

Aproveitei para despejar todas as minhas dúvidas supostamente epistemológicas sobre os problemas da demonstração em matemática, acicatado pelo seu sorriso humilde e a sua falta de respostas.

Parecia-me que ele nunca tinha pensado naqueles problemas e senti-me um autêntico vencedor naquele combate, embora, pelo meio da conversa, tenha esclarecido toda a minha admiração pelas suas exposições notáveis. E continuei a assistir às suas admiráveis, mas silenciosas, aulas.

Hoje sei que, naquela batalha, estive a esgrimir um florete de palavras contra um surdo mudo.


sete

[1 de Abril de 1993]

Mentiríamos se disséssemos que hoje é um dia bom para falar verdade. Sabemos que todos os dias são bons para faltar à verdade, ao trabalho, às obrigações sociais, às comemorações que se fazem em nome da verdade. Hoje e ontem – a mesma luta! Mentiríamos, mas toda a gente diria que mentiramos ao dizer que mentimos – até porque hoje se convencionou que é dia de falar mentira. É por isso que hoje podemos dizer o que na verdade sentimos e não temos coragem social de dizer como verdade: Podemos dizer a verdade como mentira. Mas também daqui não vem mal ao mundo, porque não há verdade nem mentira, nestes dias de mentira.

Em cada semana, o primeiro ministro anuncia um pacote de medidas orçado pelos milhões. Todos estes milhões estão considerados no Orçamento de Estado, pelo menos a parte que diz respeito à parte deste ano de cada um dos pacotes: um para a habitação, um para a agricultura, um para a indústria. O primeiro ministro não mente e estou em crer que os tolos que discutiram o orçamento de estado nem deram por estes pacotes. Porque o governo planifica a governação, não é de crer que estas prioridades, agora tão finamente discernidas, não estivessem consideradas nos planos de actividades para este ano.

Se eu estiver a falar verdade, ninguém me acredita. Logo todos pensam que outros serão os mentirosos. Se eu estiver a falar mentira, toda a gente ouvirá o mesmo: e pensam que nós estamos a gozar. Porque a verdade de cada um já mora dentro da cabeça de cada um, de acordo com os seus interesses e o seu esquema de verdades e mentiras. É verdade que isto pode vir a ser alterado, estou a dizê-lo hoje. Teria dito o mesmo ontem?

Neste dia não tem qualquer interesse falar verdade, nem tem qualquer interesse falar mentira. Esta é que é a verdade. Esta é que é a mentira.


oito

Um dia tive de ir ao hospital com alguma urgência. Ia eu a parar, quando vislumbrei um agente da autoridade acenando. Fui falar com ele para lhe explicar a brevidade e urgência da paragem e a gravidade do acontecimento e para lhe pedir alguma compreensão. Foi inflexível e eu tive de ir procurar muito mais longe o estacionamento para o transporte impecilho e rezar para que nada de pior acontecesse.

Fiquei irritado com o excesso de zelo do agente e esperei que não me acontecesse o que já uma vez me tinha acontecido na avenida. Eu conto: Parei para ir a uma caixa Multibanco e logo fui abordado, com alguma violência, no sentido de sair dali, não me valendo de nada as explicações. Fui estacionar e quando voltava para a Caixa vi o mesmo agente deixar parar um Mercedes, ouvir atento a Senhora que ia à Ramos e ficar a guardar o carro.

Uns domingos depois fiquei completamente perplexo. Havia carros por todo o lado, cercando o hospital, por cima dos passeios, por cima de toda a lei, sem lei nem roque. Não era bem assim, porque vi agentes da autoridade a ver passiva e pacificamente aqueles engarrafamentos de estacionados. Fui perguntar como é que era. Agora não podia estacionar em lado nenhum, mas se houvesse um lugarzinho ali mesmo, será que podia parar enquanto ia ao hospital? Claro que podia, mas não havia. Espanto e azar – eis o que me persegue em volta do hospital.

Mas lá me deram a explicação. Havia bola. Andei com o carro às voltas e havia carros por todo o lado, ocupando os mais variados lugares, alguns verdadeiramente inconcebíveis. Com a protecção das autoridades, claro.

Tentei perceber os critérios que aplicavam multa à minha aflição e protegiam aquela barafunda. Percebi que o fenómeno da bola era fora da lei. Pelo menos da lei normal. Os cidadãos que vão à bola têm um tratamento diferente dos que não vão à bola. Penso que tem a ver com a natureza de massas do fenómeno da bola. Se pudermos provar às autoridades que a doença é um fenómeno de massas, os agentes da autoridade serão gentis com as nossas pequenas transgressões provocadas pela aflição. Será assim? Mas não é preciso provar isso. Basta ver as multidões que se deslocam ao hospital aos domingos para se saber que, infelizmente, a doença é um fenómeno de massas.

Logo, a explicação não pode ser encontrada na massificação. Depois de muito pensar, descobri que ela tem origem na solidariedade. Entre doentes crónicos.

A autoridade não se solidariza com os doentes vulgares.

A autoridade sente e sofre uma doença comum a muitos cidadãos e que é permanente. A autoridade é doente da bola. Daí a solidariedade.


nove

As laranjeiras sobem dos pântanos e, enquanto rasgam o nevoeiro baixo, vão exercitando os ramos fracos e as folhas raquíticas nos ramos. À luz deixam brotar as flores para os casamentos convenientes da aldeia sombria. De outras nascerão, por obra dos insectos voadores e do vento fraco, as laranjas ao sol.

Vermelhas, presumo. Por ter ouvido falar os camponeses das terras secas sempre as vi vermelhas.

Foi a minha mãe quem me disse que as nossas laranjas do pântano nunca tinham sido vermelhas e que sabem a enxofre e a maldição.

Há mil anos, um camponesa do norte, de passagem, acampou junto do laranjal e abriu uma laranja do pântano. Dela, escorreu um líquido viscoso e fétido que envolvia um sapo hediondo e incrivelmente humano.

Horrorizada, gritou uma desesperada partida e, enquanto ela fugia em direcção ao sol, o sapo agonizava ao ar.

Dizem que se ela tivesse bebido o sumo da laranja e beijado o sapo, o feitiço dos pântanos em que sobrevivemos teria sido quebrado.

Quem há-de saber que o pântano existe fora de um feitiço? Quem há-de saber que feitiço existe fora do pântano?


onze

Já se via o exército marchando a compasso. Ao compasso da música que o músico de propósito compusera para a marcha do dia da marcha triunfal.

O exército marcha de facto a régua e compasso. E sabem porquê? Porque a ordem unida é isso mesmo – um fio esticado entre dois pregos, marcações de linhas rectas nas consciências dos soldados, nas estradas e nas consciências dos cidadãos da recta guarda. Há músicos que desenham a música mais redonda: marcam o ritmo da marcha e isso não é mais do que obrigar a repetir o bater do tacão no chão, uma e outra vez. Com uma marcha não podemos acelerar a passada, abrir os braços e … voar.

Deram-me uma régua e um compasso e mandaram-me desenhar todos os passos, os movimentos dos braços, os movimentos das cabeças, as músicas. Encomendei aos homens vulgares a imitação dos passos dos gansos, às mulheres encomendei uma fonna de olhar os generais de lado e de frente, a um armazém de salvados da antiga guerra encomendei trajes. Só o músico, que escreveu, em cadernos de 5 linhas, uma marcha igual a todas as outras tentou enganar-me ao apresentar-me um “cachet” de artista.

A tudo disse que sim. Quando me atribuiram o comando do 5° batalhão de exibições, que tomou como símbolos a régua e o compasso, preparei uma marcha original. Ao comando de “Alto”, enquanto os outros pararam à maneira dos gansos em sentido, os soldados da linha da frente puseram um joelho em terra, a espingarda ao ombro e apontada para a frente. Ao primeiro sinal de medo do músico, na tribuna entre os generais, dispararam ao ritmo da marcha por ele composta para a ocasião. Quando a dívida ficou saldada, o soldado despiu-se na praça do império, abandonou farda e armas e, assobiando o malhão ensaiado pelo povo, correu para o seu norte magnético:

Um eléctrico passou por cima dos destroços, cortando fardas em golpes paralelos. O camião do lixo da câmara municipal aceitou em seu seio o compositor militar, tendo o seu corpo subido ao céu, passados três dias sobre o dia da estreia.


doze

Antes de Abril foi Março.

Março é um mês que serve para tudo. Até para discutir onde começa e acaba a arte, onde começa e acaba a humanidade, onde começa e acaba o fim de tudo. Deus é testemunha que nada de intencional me move quando parto para as arenas.

Umas vezes vou mesmo decidido a deixar que me espetem os cornos e a deixar-me sangrar pelo silêncio até ao repouso completo. Outras, chego e espeto o guarda chuva no meio das mesas e inicio a luta contra tudo e todos e contra mim. Se nunca lutar contra mim, acabarei como aquele músico que esteve de manhã a vender o seu processo criativo e continuou a vendê-lo à noite, com ivas, cidades do estrangeiro e angústias incluídas. E, nesta sociedade madrasta, acontece que, mesmo que eu demonstre todos esses sinais de insanidade, não me internam para averiguações.

Onde começa a arte e acaba a ciência? Onde acaba a ciência e começa a arte? Onde é que não há coisa alguma?

A respeito da música, eu sei onde acaba a música – perto dos que promovem a primeiro plano das montras coisas como sejam as ciências musicais. Começo a prever que haja doutores em ciências musicais ou em música, cujo trabalho mais musical consista em construir uma caixa de ritmos tipo: “A estética musical é a que repousa em paz, acompanhada por um violino – citado de “o funeral da primavera” de xenakitokas, 1952, página 46″, e cujo trabalho de investigação mais ousado seja uma “composição para teclado de computador a três dedos de galinha, sexteto de cordas e sebo nas canelas”. Aí acaba o que a música prometia. Aliás é também por aí que morre a pedagogia e as ciências naturais da argumentação.

Espalhemos a arte de estar vivo entre os outros sem lhes tentar vender outra coisa além de conselhos práticos para fugir aos professores e aos pais de todos, fura bolos e trinca piolhos.

Eu prefiro morrer pela boca, como os peixes. Eu prefiro morrer sem ser uma nota de rodapé da enciclopédia dos que debatem serenamente a respeito da crise da cristandade ocidental e da morte da música instrumental. Eu prefiro morrer a dizer que dei aulas de canto coral antes de andar a procurar os ruídos ou os sons que não são arte fora da minha intencionalidade.

Eu prefiro morrer uma ova.

Depois de Março foi Abril e não há passado que resista ao olvido que um novo mês descarrega sobre o mês passado. Quem souber gerir isto pode ser gestor na privada.


treze

Hoje vou escrever uma página de literatura.

Comprei a literatura num alfarrabista ali perto da Misericórdia.

Nem sei se o alfarrabista ainda existe, ou se, no lugar do seu cheiro inconfundível, montaram uma “boutique” de novidades em livros e uma galeria de arte contemporânea, com extintores carregados de (des)odorisantes perfumados. Ao pensar na literatura, deixei abrir-se um buraco de saudade por esses buracos que, na adolescência, me serviram de refúgio contra a solidão e contra a polícia.

Mas isso não interessa. O que interessa é que tenho uma literatura em casa. Já não me preocupa o que se lê naquelas linhas negras sobre o papel amarelecido. É como se fossem segmentos de recta a separar uma linha de outra.

Com tenacidade, desatei a escrever nas entrelinhas, nas minha linhas, este texto. Escrevo muito cuidadosamente como só um caligráfico sabe fazer e o meu texto brilhante é realçado pela linhas tipográficas que já lá existiam e às quais já me referi no parágrafo anterior.

Eu bem queria continuar, mas o espaço está a chegar ao fim. E promessas são promessas – estou quase a acabar a minha primeira página de literatura. Mostro a quem provar estar interessado em confirmar.

Se eu escrever uma página por dia, num ano terei preenchido as 365 páginas da minha literatura e, então, a eu serei a literatura.


catorze

Desde pequenos que eles se namoravam, às claras e às escondidas. Só me lembro dos olhares que eles trocavam às claras e que eram motivo de admiração de todos os adultos que nos cercavam de afecto e de pancada.

Crescemos, uns para cada lado e, durante muito tempo, acreditei que, assim como eu me tinha separado deles, eles também se deviam ter separado. Um dia, pela Páscoa, eu estava na velha casa da família a rever um velho quadro do Bom Jesus de Braga na sala do compasso, quando me chamaram.

Adivinha quem está aqui? – perguntou-me a minha prima mais velha que está agora retirada num convento das carmelitas e pensa que há-de ser não só minha irmã mas irmã de toda a humanidade, esquecendo-se que há seres humanos que não querem ser irmãos em Jesus Cristo.

Eu estiquei as pernas sobre a mesinha baixa e os olhos sobre a escadaria monumental do quadro do Bom Jesus e disse: Sei lá!

São eles! – esclareceu a prima.

És maluca! Sei lá quem são eles! – escarneci eu. Não voltávamos à velha casa da aldeia desde os 15 ou 16 anos e ela está para ali a anunciar visitas de pessoas, como se tivessemos lá estado sempre e alguma visita habitual estivesse a chegar.

Mas eram eles. E quando eles entraram na sala até dei um salto para fora do velho sofá. Os dois, de mão dada desde pequenos. Mas que cómico! Ele é agora um homenzinho pequeno e gordo e ela é tão magra e alta que parece até ter de curvar-se para estar ali naquela sala onde brincámos quando éramos putos.

Timidamente, ela baixou-se para me beijar e ele apertou-me efusiva mas molemente a mão, enquanto esboçava um sorriso. Eu não podia acreditar que eles estavam juntos, sendo afinal tão diferentes, mas eles ali estavam ainda de mão dada, a olhar para mim.

A prima já tinha ido preparar um jantar para nós quatro, enquanto eu lhes oferecia umas bebidas.

Jantámos. Falámos pouco ou nada. E ficámos a ver a televisão até ao fim da emissão. Eles foram-se embora, não sei bem para onde. Passados uns dias, voltei para a minha vida de todos os dias.


quinze

Ele era um homem pequeno e gordo e ela era alta e magra, ainda mais alta por usar uns sapatos de saltos incrivelmente altos.

Pela Páscoa voltávamos todos à aldeia para beijar o compasso nas várias casas e nas várias casas comermos umas amêndoas açucaradas demai s e bebermos uns copos de porto que sobravam após a partida do padre e da sua comitiva, com a campaínha à frente.

Ainda havia caminhos lamacentos ou pelo menos ôe terra mole e húmióa e ela deixava um rasto de furos profundos naqueles caminhos. Ele deixava uma pegadas de sapatos grandes e pesados. Sempre de mão dada, aqueles dois faziam o nosso espanto. Namoravam-se desde pequenos e nunca pensámos que crescendo tão diferentes se haveriam de manter unidos.

E o mais espantoso de tudo é que nos pareciam os dois distraídos um do outro. Ele cá por baixo, cumprimentando as pessoas molemente com a mão livre e ela lá por cima sem ver o que se passava no nosso mundo. Quando ele a chamava para lhe lembrar que algum velho conhecido ali estava a cumprimentá-los, ela demorava uns tempos a receber a mensagem para depois se curvar para um beijo fugidio na face do velho conhecido, voltando imediatamente para o seu mundo alto. Nesse movimento, a maravilha estava em ver o movimento da sua longa e loura cabeleira ondulada.

Andava nas núvens. As mãos eram estreitas e de dedos longos e estreitos, ao contrário das mãozinhas sapudas dele. Viam-se as longas unhas pintadas dela e ela levantava o braço longo e afagava o seu cabelo. Aquelas unhas pareciam funcionar como pente.

Algumas vezes, parecia-me que ela afagava as núvens e lhes fazia pequenos buracos com seus dedos afilados. Outras vezes ela desenhava covinhas nas núvens com as suas unhas enormes. Mais do que uma vez me pareceu que ela se alimentava das núvens, cortadas pelas unhas e transportadas para a sua boca fina pelos dedos ágeis.

Gostava de vê-los. Quando o Domingo de Páscoa acabava, já estávamos todos com um grão na asa e metíamo-nos nos carros a caminho das nossas vidas, para onde tínhamos emigrado ainda meninos.

Não sabíamos nada uns dos outros, a não ser a passagem destes dias pela infância.


dezasseis

Todos queriam vê-lo dali para fora. Mas ele agarrava-se ao lugar como a pedra à lapa ou a lapa à pedra. Umas vezes, parecia que tinha criado raízes e nunca dali tinha saído, outras parecia que pedia desculpa por estar ali, tentava acomodar-se no buraco e os olhos humildes diziam que ocupava o mínimo de espaço possível e não incomodaria a paisagem de ser o que era como se ele não fizesse parte dela.

Mas à força de se pensar nele como coisa dispensável, acabava por ser a primeira coisa que se via na paisagem sempre que se olhava para ela, com olhos de ver. Os colegas achavam que ele atrapalhava, que acabava por interferir até quando evitava os assuntos. E eram os colegas a dispensá-lo em primeiro lugar. O que não é natural. Um dia o homenzinho emergiu da sua tarefa de pôr carimbos, levantou-se com um ar resoluto que nunca se lhe tinha visto e dirigiu-se ao gabinete da direcção. Com firmeza na voz declinou a sua identidade, anos de serviço, categoria profissional e pediu que lhe fosse passada uma classificação extraordinária de serviço, pois pretendia candidatar-se a um lugar de chefia.

A direcção ficou completamente confusa e mandou chamar o chefe dos serviços em que o homenzinho trabalhava, para inquirir sobre o homenzinho, sobre o seu trabalho e sobre as suas condições para executar tarefas de chefia.

O chefe debitou o que sabia e, ficou-se a saber, que era o funcionário mais antigo da casa, que sempre tinha sido promovido embora se tivesse mantido a executar as tarefas de rotina que tinha recebido quando para ali entrara e que ele não reunia as mínimas condições para realizar quaisquer outras tarefas. Que era assíduo e obediente e, embora fizesse muitos disparates e não gostasse de ser criticado, acabava por fazer o que lhe ordenavam em silêncio.

Em que condições tinha entrado para o serviço e como se tinha subido de categoria sem assumir as funções correspondentes? Ninguém sabia ao certo, mas toda a gente pensava que haveria nisso o empenho de pessoas importantes.

Com esses dados, se escrevinhou um documento em que se falava de obediência, assiduidade e perseverança na ocupação do seu lugar. No ano seguinte, o homenzinho, do qual nem o nome se sabia, era uma personagem conhecida, embora rodeada de grande discrição obediente, numa chefia de uma repartição de estado em que decidia fazer esta escritura em vez daquela, de acordo com os interesses dos grandes da terra.

E dois anos passados era um obediente Secretário do Estado das coisas a que se tinha chegado.


dezassete

Senhores Jornalistas:

Ora bem, aqui estamos para fazer um ponto da situação para os jornalistas.

Este grupo de trabalho, constituído por cientistas dos vários ramos da ciência, tem estado reunido desde 1 de Abril de 1922. Os objectivos foram definidos pelo governo de então e podiam resumir-se do seguinte modo:
concepção de um documento de política para a cultura nacional de protozoários domésticos.

Dado o melindre do assunto, o trabalho não poderia deixar de ser moroso para ser cuidado, no sentido de se obter como produto uma verdadeira política consensual capaz de evitar que todo o país se lance e se perca numa discussão estéril e que a Assembleia Constituinte e a Assembleia da República perca todo o seu tempo a discutir sobre protozoários, tema que, obviamente, não é dominado pela imensa maioria dos parlamentares domésticos.

Senhores Jornalistas:

Como chefe deste Grupo de Trabalho venho anunciar que finalmente está pronta a ante-proposta de definição da política nacional de cultura de protozoários. E que este documento aprofunda, em aspectos fundamentais, as questões da criação científica em articulação com as vertentes leste e sul do aparelho produtivo. O Grupo de Trabalho, ao longo destes últimos 70 anos, só interrompeu o seu labor para os funerais dos seus membros e para as missas de sétimo dia que a comunidade entendeu por bem mandar rezar por suas almas.

Estamos agora abertos a responder a todas as perguntas dos Senhores Jornalistas.

Chamo-me Maria Cristiana, ao serviço do extinto Século Ilustrado.
Senhor Presidente, não teme que a actual composição da câmara levante problemas que não podiam prever em 1922?

Sem dúvida que essa é uma pergunta pertinente. Sobre esse aspecto, estamos já descansados. Conhecedores da nossa ante-proposta, sobre ela já se pronunciaram Pacheco Pereira, António Barreto, José Magalhães, Alberto João Jardim, Almeida Santos e Pulido Valente. Parece-nos que não há razão para temores – a Comissão especializada da Assembleia da República que irá apresentar o assunto ao plenário deve ter ouvido as opiniões consensuais destes líderes de opinião que é em tudo convergente no sentido da cultura de protozoários domésticos, isto é, devidamente controlados.

Mais perguntas? Não?

Muito obrigado, meus senhores.


dezoito

Os cavalos corriam livremente nos prados,
mais livremente ainda corriam os pequenos e rebeldes coelhos bravos nas coutadas.

Mas o os cavalos corriam livremente para melhorar os seus músculos contra as arremetidas dos touros picados pelo valoroso cavaleiro na arena.

E os coelhos corriam e colhiam as folhas sil vestres, de propósito ali espalhadas,
para que as carnes sejam rijas e sabiamente bravas, quando forem caçados dentro dos limites da coutada pelos furões e pelo chumbo dos valorosos caçadores esfomeados.

É por isso que eu descreio da liberdade dos prados verdejantes e da liberdade das coutadas com restolho a perder de vista.

Quando me falam da liberdade dos cavalos nos prados dos cavaleiros, puxo da minha pistola de água, encho-a de ácido sulfúrico e aguardo emboscado a minha oportunidade.

Quando me falam da liberdade dos coelhos nas coutadas a perder de vista, pisco o olho direito e faço pontaria às pernas dos caçadores, com as minhas garras de rasga calças e as minhas fisgas atira sanguessugas devoradoras e seropositivas.

De todas as liberdades que eu conheço e prezo, a maior consiste em estar aqui sentado a escrever estas parvoíces, para meu exclusivo prazer.


dezanove

Garamias desenhou os sinais de trânsito e a Junta Autónoma das Estradas viu que os desenhos eram bons. Depois, Garamias desenhou os riscos brancos no chão e a mãe bateu-lhe com a vassoura. Mais tarde, Garamias desenhou os anjos com todas as suas patentes montados na proa de barcos moliceiros e uma multidão de cagaréus rendeu-se, sem condições, a duas cebolas cascudas e ignorantes, mas aguerridas.

Um dia, três gerações e pintores do caneco e de canecas puseram os corações ao alto e foram em excursão até ao buraco aberto no chão da minha terra. Teceram considerações sobre a qualidade do barro que dali tinha sido retirado ao longo das três gerações. Uma tecedeira de mantas de trapos, que por ali passava e pensa, à maneira das antigas fadas corporativas, que só as tecedeiras podem tecer, mesmo’ que sejam considerações, encheu a pá dos seus tempos livres com a bosta dos caminhos e despejou-a para dentro do anfiteatro.

Garamias percebeu logo que aquilo não era barro e sentiu-se ofendido. Berrou pelo padre da freguesia, mas este tinha-se mudado para uma igreja nova ao pé da estrada nacional e não o ouviu. Então Garamias, ali mesmo de sopetão, desenhou um anjo para cada um dos barristas que, pelos anjos levados, subiram ao céu. Só um coveiro, entre os barristas por engano, estava distraído a cheirar a bosta e lá ficou: o seu anjo não recebera o sopro da vida voadora por cima de toda a folha. Mas à força de tanto cheirar e por ser não mais do que boçal lobisomen o coveiro transformou-se na vaca torina que tinha tossido aquela bosta e perseguiu a tecedeira dias a fio.

Esta teve que emigrar, fugindo penosamente da vaca torina do coveiro, para a terra de Garamias e teve de recomeçar uma nova vida. Na proa de uma bateira, ainda desenhada por Garamias, a tecedeira confecciona um salgado de ovos. Os cagaréus, unidos pela ex-tecedeira e montados em vacas marinhas, ganharam a frente do tropel vingando-se da antiga derrota frente aos ceboleiros, e nomearam para padroeiras a mãe de Garamias e a salgadeira. Em sua honra mandaram colocar holofotes e construir cascatas no adro da Igreja do Calmo, com barro que caiu das asas de Garamias à data da sua ascensão.


vinte e um

Estou a pensar em propor uma candidatura autónoma à Junta de freguesia da Glória e uma outra à Câmara Municipal de Aveiro.

Num primeiro momento, estou a construir com muito cuidado uma verdadeira plataforma, aliás duas: uma para a Junta outra para a Câmara. Pedi a uma conhecida empresa de construção civil alguns dos seus andaimes mais seguros e escolhi as plataformas que me pareceram mais convenientes: uma à altura dos meus olhos e outra mais acima. Para a primeira escolhi jotobá e para a segunda comecei por escolher sucupira, mas tive de me render ao carvalho.

Com tais plataformas construi das, apressei-me a chamar algumas personalidades tóxico-independentes e outras que se foram desiludindo com os partidos tradicionais ou que por estes foram afastados, sendo fracos, nabos ou gastos pelo poder. Vários amigos meus chamaram-me a atenção para a necessidade de escolher só personalidades que não tivessem rabos de palha, ao que eu respondi que não era razoável apalpar os rabos das personalidades antes de as convidar para subir à minhas plataformas.

Para além das plataformas, preparei uma visita de estudo dos meus correligionários até aos lugares físicos do poder que nos propomos ocupar com a vitória nas eleições, bem como uma deambulação pelas ruas onde estão os eleitores. Visitamos o cemitério num dia de muito movimento, bem como o mercado e a feira de Março. Esta última iniciativa revela grande premeditação.

Para a campanha propriamente dita, aluguei ainda os serviços de vários artistas da nossa praça. e encomendei, a uma empresa cerâmica da região, pratos com a fotografia da nossa plataforma em número suficiente para distribuir por cada munícipe.

Sobre a forma de tratar os nossos adversários, decidi mandar investigar a vida de cada um deles, ou pelo menos dos mais conhecidos, e guardei os resultados na manga. Guardei também na manga algumas das mais ousadas propostas a fazer pela plataforma.

O pior disto tudo é que ainda falta muito para as eleições e eu já ando com as mangas atulhadas e a plataforma ainda vai apanhar ferrugem, sujeita que vai estar às intempéries e aos ataques dos adversários.


vinte e dois

Diocleciano Gulpilhares é um cientista social. Mais concretamente, podemos classificá-lo como garimpeiro, que anda ao “garimpo”, não de rio em rio, mas de texto em texto.

Durante um tempo, eu pensei que uma pessoa quando lia livros, lia livros. Ou quando muito, quando alguém acompanhava a leitura com a preocupação de tirar notas, eu diria que estudava.

Têm-me convencido que alguns mortais, tal vez porque lêem intencionalmente este livro em vez daquele, quando lêem estão a fazer pesquisa ou a investigar.

Os professores dizem isso às crianças e, desde pequenos, que elas perdem os hábitos de leitura simples para os substituir por hábitos de pesquisa. E pior ainda: estas crianças entregam ao professores babados, o resultado das suas pesquisa. Cópias laboriosas de páginas de enciclopédia são trabalhos c1assificados como património pelas associações de professores.

Quando Diocleciano era jovem, ainda não era assim. Mas em algumas cadeiras da Universidade aprendeu essa forma de estar a pesquisar. E, agora acabada a licenciatura, lança-se na investigação pura: formula hipóteses já formuladas por um amigo americano. E ninguém o pode parar. Á medida que aprofunda esta sua forma de garimpar de livro em livro, Diocleciano já perdeu o norte e já nem sabe que minério precioso garimpa.

Diocleciano é um garimpeiro moderno. Esquecido de procurar o ouro dos livros, ele é um garimpeiro da escória.


vinte e três

Sérgio Cabeleira vai resistindo menos mal aos quartos crescentes,aos quartos minguantes e até mesmo à lua nova. Mas à lua cheia não pode ele resistir.

Quando a lua cheia se levanta brilhante no ar, a atracção é fatal e Sérgio não pode lutar contra isso. É atraído, porque é oco. Disse a Lola e eu acredito. Lola diz que quando uma mulher se apaixonar verdadeiramente por Sérgio, o feitiço da lua será quebrado. Um homem oco pode ser cheio por uma mulher verdadeira.

É assim que aprendemos que o feitiço da lua pode ser derrotado pelo feitiço da mulher.

Sérgio Cabeleira não sabe que assim é e é talvez por isso que não olha para as mulheres como se elas pudessem ser o seu recheio. Ou porque não quer ser um perú.


vinte e quatro

Antes desse dia, era a inteligência que me mandava protestar contra a falta desse dia. Mas também era a inteligência que me mandava ter medo antes desse dia, quando protestava contra a falta desse dia clandestino. Tinha medo do limbo. A forma como esse dia havia de surgir levou alguns antigos companheiros de luta a iluminar com palavras o palco em que representava a chegada do dia e eu passei a usar armas nos bolsos rotos e a fugir, encostando o escasso corpo a todas as sombras, enquanto as palavras se soltaram altíssimas do corpo pequeno e magro.

Depois desse dia, passei a protestar à luz do dia. O medo passou a ser diferente. E tudo passou a ser mais veemente, porque me parecia que os companheiros me defenderiam nas praças com as armas do adversário e com palavras agudíssimas e brilhantes.

Algumas vezes, ainda esse dia era claro, lutei, de peito aberto, contra os deuses para evitar que anoitecesse e mudasse de dia. Usava os revolveres na cintura da inteligência e não disparei senão palavras contra o céu azul e contra as paredes com ouvidos.

Mas os meus amigos e companheiros muitas vezes me abandonaram e dispararam contra mim. Alguns deles passaram mesmo a disparar contra a luz acesa do dia. Foi a forma que o dia devia ou não tomar que atrapalhou a nossa inteligência.

Ainda hoje, antigos companheiros disparam contra a luz clara. Outros, no entanto, continuam a dizer que é dia e que o dia não morreu. Mas mentem-no à maneira do médico consolador de mulher do dia incurável. Outros há que falam à maneira do cangalheiro da esperança.

E eu? Que faço eu ao longo do dia? Já não digo coisa com coisa e, à maneira dos loucos, deixo desabar uma tempestade sobre um comício dentro da minha alma. Os manifestantes não arredam pé, apesar de toda a água que desaba para apagar o incêndio que o dia é.


vinte e cinco

Ao entrar, por puro acaso, pela porta dos camarins, tinha visto a Mariazinha a ajeitar a saia, e uma ponta de sotaina a esgueirar-se pelo corredor dos artistas. É sempre perigoso entrar pela sacristia.

A Mariazinha era e não era uma pupila do Senhor Reitor. Por um lado, tal como eu, ela era uma catequista muito conscienciosa, mas, por outro, tal como eu, começava a ter crises de consciência. Quando olhava para ela, ela não desviava os olhos e quando eu discordava em voz alta de alguma coisa ou soltava alguma dúvida era ela a única que me dava corda.

Conversava com ela ao longo dos caminhos e toda a gente pensava que nós namorávamos e até eu cheguei a pensar isso. Mas nunca passei de fracos pensamentos ruborizados.

Quando fui estudar para muito mais longe do que o que estava previsto pela vida, perdi a Mariazinha de vista e soube, de ouvir dizer, que ela se tinha casado à pressa com um outro catequista, pequeno, franzino e franzino como eu. E soube ainda, poucos anos mais tarde, que o marido tinha morrido de febres malsãs.

No outro dia, andava às voltas pela aldeia e encarei uma Mariazinha muito mais velha, tal como eu, acompanhada por um rapaz alto e bem encorpado em tudo diferente do pai. Olhei para o rapagão e olhei para a Mariazinha de negro.

Vi no rapagão e na Mariazinha aquele momento em que, por puro acaso, entrei pela porta dos artistas. Peta primeira vez, a Mariazinha baixou-me os olhos.


vinte e seis

Hesito sempre entre escrever sobre a vida difícil dos poetas russos ou sobre as condições especiais em que viveram e vivem os matemáticos afegãos que não são conformes ao Corão.

Mas é uma hesitação elementar e, por isso, efémera. De facto, logo se levantam dentro da minha alma as vozes que me mandam escrever sobre os defeitos e intransigências dos poderosos afectos à minha civilização cristã e ocidental. Essas vozes me dizem que os únicos combates que vale a pena travar são os combates a partir de dentro. Que sejam os muçulmanos a combater a sua intransigência, é uma esperança de nos salvarmos de sermos confundidos com cruzados.

Muitos comunistas, mais ou menos cristãos como eu, atribuem à religião efeitos perniciosos de alienação humana. A religião serviria para que os humanos se alheassem da verdadeira vida a ser vivida, dos verdadeiros combates pela fraternidade universal. Pior ainda: frequentemente em nome de valores morais relativos, que podem não ser mais do que o fundamento perverso do poder e domínio de alguns humanos sobre a maioria, travam-se combates contra outros sistemas, só porque estes se baseiam sobre outros valores que são fundamento perverso de outro domínio. A lógica seria a mesma da distribuição de esquinas para pedir, ou de zonas de influência para vender droga, por exemplo. Outras vezes, os combates são mesmo inventados para inflamar as fileiras, quando alguma dúvida as atravessa, enquanto se aproveita para matar na confusão todos os que dentro são fonte de dúvida e representam perigo de desmembramento do poder nas fileiras. Dizíamos, repetindo outros, que a religião é o ópio do povo. Há alguma razão nisso. Mas tenho de concordar que também os comunistas se deixaram tentar por essa mazela religiosa. Transformaram fontes de pensamento livre em dogmas, criaram um sistema de valores absolutos e sobre ele um sistema de poder e dominação, capaz de travar guerras em tudo semelhantes às guerras de justificação religiosa. Muitos comunistas dizem, e eu também o disse, que comunismo teria estado na vida dos primeiros cristãos. Dito de outro modo, também o cristianismo era uma base de pura fraternidade e liberdade. Ou seja, maus não são os princípios ci vil i zaci onai s.

Só me restará, pois, concluir que maus, mesmo maus, são os homens. Para me consolar ou salvar, acabo por escrever que a minha felicidade reside em não querer concluir coisa alguma e esperar que cada vez menos homens queiram concluir o que quer que seja.

Eis o que, em verdade, vos digo. Nada.


vinte e sete

Todas as terças feiras, Guano Lipidérmico renova os seus votos. Jura, deitado sobre a rasa campa da mãe, que vai mudar de vida. Jura que se arrepende da vida de canseiras e trabalhos que leva e promete que vai dedicar-se ao descanso e à poesia, mesmo que a fome seja um preço a pagar.

Com a pena de si mesmo que lhe é característica, Guano rega com abundantes lágrimas a relva da campa rasa de sua mãe. Semanalmente assim peregrina e cumpre uma promessa, que fez a si mesmo, de jurar que vai abandonar a vida falsa que leva. As lágrimas e as juras são momentaneamente verdadeiras. Guano não seria capaz de mentir a sua mãe.

Mas como todos os poetas falhados, Guano é capaz de mentir a si mesmo. E assim fez todas as terças feiras dos últimos 21 anos. De facto, só se lhe conhece um poema longo, mas falhado, que escreveu febrilmente a seguir à jura semanal, numa semana das férias anuais da sua penosa vida de trabalho.

Mas esta terça feira é diferente. Ele está deitado na relva da campa rasa de sua mãe e não vai fazer a jura costumeira. Ao fazer 70 anos, Guano foi reformado compulsivamente. Despediu-se dos colegas de trabalho, foi a casa, tirou os sapatos e, descalço, foi visitar a campa de sua mãe. Nesta terça feira, Guano adormeceu para sempre sobre a campa de sua mãe. Está descalço e sujo, com a barba por fazer e tem os cabelos desalinhados.

E está morto.


vinte e oito

As sondagens são favoráveis a Sir mário.

Sir mário é um velho republicano que se ajoelha pragmaticamente, por razões de estado, perante a raínha da ilha.

Os povos da ilha têm alguma desconfiança e menosprezam Sir mário. Eles sabem, ou ensinaram-lhes, que a cepa de Sir mário tem uma aliança antiga com as ilhas, mas que durante muitos anos a aliança serviu para defender os interesses da ilha na europa e até na áfrica. As ilhas até deram raínhas e exércitos à cepa de Sir mário, para contrariar excessivos expansionismos de castela ou da gália. Os povos das ilhas ficaram boquiabertos com as cedências da cepa de Sir mário ao ultimato de joão touro. A estampa que conhecem do zé povinho é aquela em que este aparece albardado e pronto a transportar o ministério. E ao olharem para essa estampa, oque vêem é o joão touro a cavalgar o zé povinho.

Alguns dos mais adorados espécimes do zé povinho resultaram de cruzamentos de conveniência de bastardos portugueses com damas das ilhas. Esta é outra fonte da comiseração benévola dos povos das ilhas pela cepa de Sir mário.

As sondagens são favoráveis a Sir mário. Ninguém sabe que tipo de sonda utilizam para estes fins. Mas sabe-se que é de marca estrangeira.


vinte e nove

A propósito de vários assuntos da educação, tenho assistido a discussões em volta dos conceitos de autonomia, independência e liberdade.

E aprendi muitas habilidades. Uma delas é dar novas dimensões aos conceitos. Nós podemos ouvir falar destes conceitos no âmbito restrito da educação e das ciências da educação sem sequer cheirarmos os conceitos gerais, consagrados para o cidadão e o dicionário comum. A minha formação matemática aconselhava-me a tomar para cada palavra a mesma compreensão, mesmo quando variava a extensão da sua aplicação. Quer dizer, se eu definia autonomia, de um modo geral, isto é aplicável a tudo o que pode dizer respeito, ao falar dela aplicada à educação ela não devia ser outra coisa. E se acrescentasse alguma coisa seria para concretizar e iluminar de algum modo a mesma autonomia agora num contexto menos extenso.

Se me deixar ensurdecer a ouvir e a discutir os novos sentidos de autonomia, independência e liberdade fico sem saber o que é autonomia, liberdade e independência. Ora eu prezo muito a autonomia, a liberdade e a independência e prezo também muito a minha educação. E é por isso que muitas vezes me fico pelas definições e conceitos da minha avó. Há quem fique estupefacto com a minha resistência a novos sentidos para as mesmas antigas palavras. Pensam até que isso se deve a uma terrível e criminosa resistência à inovação ou à mudança. Mas é tudo muito mais simples: é que essas palavras são subversivas, boas e saborosas se ficarem tal corno eram. Pronuncio-as, quebrando-as com um quebra palavras e como-lhes o sentido tradicional com os ouvidos ávidos de sentido.


trinta e um

o primeiro de maio não é um dia qualquer, nem é uma data especial. A maior parte dos governos da terra respeitam-no como se respeita um feriado vulgar: por exemplo, como se fosse o dia de S. Tiago, para o povo de S. Tiago de Candoso.

Os sindicatos respeitam vários primeiros de maio. Até mesmo, os donos dos grandes espaços comerciais que não respeitam ninguém e nem o domingo, respeitam o primeiro de maio, mesmo quando este é um sábado.

Muitos dos que respeitam o primeiro de maio como uma data especial, já não lembram o que é que se comemora. Lembram-se que é o dia internacional do trabalhador ou do trabalho, mas não sabem porque é que a II Internacional escolheu o primeiro de maio em vez do 13 de fevereiro. Também não sabem o que foi a II internacional, nem a I, nem a III e suspeitam da IV quando vêem o 4 desenhado sobre as foices e martelos de alguns símbolos.

Para mim, nada disto interessa embora eu tenha aproveitado para escrever 141 palavras àcerca de tudo isto.

Para mim, o primeiro de maio não é mais do que o título de um belo livro, escrito, ilustrado e encadernado pela mão de William Faulkner. Nele, Sir Galwin de Arthgyl parte em busca da mulher que crê ser-lhe destinada. Com ele fazem a viagem dois companheiros – a Fome e a Dor. Encontrará 3 princesas – Y seult, Elis e Aelia – e o encontro com cada urna delas fá-lo chegar à conclusão que o amor não lhe traz a paz, mas só desassossego. Quando finalmente encontra a mulher dos seus sonhos e desejos, há-de descobrir que ela não é outra senão a Morte.

Para mim, esse livro é bonito demais e quem me dera ter podido imitar tal arte caligráfica. A fábula chega a motivar-me muito pouco quando me ponho a olhar para as letras e as iluminuras.

Mas também isso do livro é para esquecer. De facto, eu tenho um amigo chamado primeiro de maio e escrevo-lhe sempre qualquer imbecilidade ao passar da data que lhe deu o nome. Ele tem duas orelhas como eu e uma marreca voluntariamente assumida e construída por uma forma de andar carregando todas as vergonhas do mundo sobre os ombros. Um dia, perguntei-lhe o que é que ele sentia quando passavam por ele. E ele respondeu-me que tinha pena de si mesmo e pena de todos os desfiles perante ele. Do alto da tribuna do tempo, já meio cego e desmemoriado, aceitava que as suas razões vitais se mantinham eternas.


trinta e dois

Um dia destes, um arquitecto, meu amigo que vive na Guarda, veio a esta sua terra natal acompanhar a arquitecta, que não é natal desta terra. Ela vinha participar numa sessão pública sobre o Plano Director Municipal, convocada por um partido da oposição que, por razões óbvias, não nos é lícito aqui mencionar.

A veiro tem um Plano Director Municipal já feito, já submetido a discussão pública, actualmente em final de fase de inquérito antes de ser apresentado à Assembleia Municipal.

Eu fiquei espantado. Pensava que tudo estava mais atrasado e isso mesmo disse em voz alta. Eles não ficaram espantados. Pelos vistos, quase ninguém sabia disso. Uma das características da discussão da tal sessão foi ninguém ter visto a discussão pública, apesar de, pelos vistos, ela ter existido entre responsáveis da Câmara e o público que não compareceu.

Podemos pensar que somos nós que andamos muito distraídos. Mas toda a gente andar distraída é mais difícil de engolir. Penso antes que a Câmara a deve ter feito muito pouca publicidade da abertura da tal discussão pública. Ou que o público não acredita na possibilidade de ver frutos da sua participação. E mais ainda que a Câmara também não acredita nas virtualidades da participação pública. Ou que ninguém acredita nessa participação, pois que o partido da oposição também convocou essa discussão depois das coisas estarem feitas e discutidas formalmente, sem terem sido discutidas de facto.

Ando distraído. Andamos distraídos. E parece que eles também não querem outra coisa senão a nossa distracção. Aqui reside o verdadeiro défice democrático.


trinta e três

O teclista deu a primeira fífia na segunda canção da exibição do seu grupo. Quando a terceira canção chegou ao fim já o teclista tinha conseguido realizar a sua trigésima fífia.

Nessa altura, já ninguém, no júri, duvidava que aquele teclista ia conseguir vencer. Dos candidatos anteriores, o que tinha conseguido fazer mais fífias não tinha ido além das 28 fífias apontadas cuidadosamente pelo júri atentíssimo.

Toda a gente sabia que havia um concurso, mas ninguém sabia o que estava a ser avaliado e toda a gente se estava a esforçar demasiado, o que aumentava o nervoso e o número de fífias. O júri tinha os ouvidos cheiros de fífias, quando o nosso teclista acabou a sua actuação.

Um espectador furioso saiu do meio do público e atirou certeiro o seu punhal. O teclista pouco sofreu.

A organização mandou limpar o palco, chamou a viúva e entregou, a título póstumo, o prémio para o teclista morto. Ainda hoje há quem pense que o júri estava maluco, ou se tinha deixado comover estupidamente, ao ter atribuído o prémio àquele teclista.


trinta e quatro

Ouvi falar delas todos os dias nos último dias. Chamam-se autárquicas e estão na berra. Não há pessoa importante que não fale delas e já vi muita gente boa decidida a abandona a família para se dedicar às autaruqicas. As autáruqicas são mais interessantes que as candidatas a Miss Portugal.

Ainda não as conheço e até temo ser-lhes apresentado. Quem me garante que também não perca a cabeça por elas? Mas ao mesmo tempo sinto uma curiosidade que me rói todo por dentro.

Tenho um amigo que as conheceu de perto, ficou apaixonado e por elas foi desprezado. Foi num encontro fugaz em Loures. Pensei então que ele tinha ficado completamente desfeito e voltado acabrunhado para o seio da família. Sabia que a família o receberia de braços abertos, pronta a curar -lhe as feridas.

Mas não foi nada disso que aconteceu. Embora as autárquicas o tenham desprezado, ele foi bafejado pela sorte de as ter encontrado. As autárquicas são boas: E para compensar aquele apaixonado, a que não puderam retribuir tanto amor, lá moveram os seus cordelinhos e, em compensação, deram-lhe um lugar importante no parlamento.

trinta e cinco

Os deuses têm as mãos largas. Tão depressa carregam ajuda humanitária para a Somália, como negociadores para Angola ou capacetes para a Bósnia.

Ainda não percebi porque é que transportam tantos capacetes para esta ou aquela zona do mundo. Provavelmente os deuses escolheram essa forma de ajudar algum país especialmente produtor de capacetes azuis.

De qualquer modo, os capacetes azuis são transportados por cabeças. Por algumas cabeças especialmente predestinadas para as tarefas da paz. Os deuses determinam que só quem sabe fazer a guerra e matar ao som de uma ordem é capaz de manter a paz ao som de uma ordem. Os deuses são irónicos ou não fossem eles deste mundo e estivessem decididos tanto a fazer a guerra como a fazer a paz. Aliás é isso que os endeusa aos olhos dos outros humanos, capacidade de decidir quando estamos a precisar de uma boa guerra, decidindo que estamos fartos da paz, ou de decidir que estamos fartos da guerra e um pouco de paz nos espera, garantida por alguns guerreiros que deixam hoje de fazer a guerra no canto que ontem incendiaram.

Amanhã vou estar a ver a cara de paz dos soldados que transportam a guerra contra a Sérvia para dar alguma paz à Bósnia, como ontem estive a ver as caras militares do corredor da paz na Somália. Não posso deixar de me dividir em relação a estes capacetes azuis.

Parece-me que os deuses sabem que é o capacete que molda a cabeça.


trinta e seis

Sempre me disseram que esta nossa cidade é a veneza portuguesa. Não me consta que os italianos digam que veneza é a aveiro italiana.

Há um canal por onde escorrem estas ideias. É um canal central que atravessa a cidade de um lado ao outro. Por ele eSCOITem várias doenças.

Ambas as cidades se estão a afundar. Só que deste lado nos estamos a afundar de joelhos.

Do lado de veneza as coisas passam-se mais por cima: as pessoas já se habituaram a ir de uma casa a outra de barco e já nem estranham o murmúrio da água nas caves da cidade. Nós ainda não nos habituámos à água e se falamos dela é para falarmos de um símbolo, não da água em que estamos mergulhados. Veneza usa máscaras caríssimas para se visitar a si mesma quando quer visitar-se sem se desvendar.

Nós deitamos abaixo as casas antigas e enormes, quando elas prejudicam a abertura de urna via por terra, enquanto que em veneza as ruas são as nossas travessas. Mantemos algumas travessas muito antigas entre um o canal central e o canal de s. roque e arrastamos para aí a cidade antiga cheia de casas novas. Não disse casas reconstruídas – disse casas novas.

Veneza foi uma cidade estado. Nós estamos a chegar a este estado que vocês podem ver. Uma coisa é certa: a água dos canais de aveiro tem a mesma cor das águas dos canais de veneza. Gosto de aveiro. Gosto de veneza.

Espero não vir a ter de usar outras máscaras. O mesmo desejo aos venezianos.


trinta e oito

Embora vibre ainda
o dourado junco está morto

ao ar, o ouro vegetal
é a cor da morte.

Não é só o ouro vegetal que é a cor da morte. É todo o ouro. Quando morremos cercam-nos de mil cuidados de ouro. As pegas do caixão são douradas. Os pregos são dourados. A cruz é dourada. A dentadura do padre que reza por intenção da nossa alma é dourada. A pulseira do relógio do padre que nos encomenda a alma é dourada. As palavras são douradas. Os silêncios são dourados. E o altar é de talha dourada. A mensagem latina que o anjo segura etá escrita em talha dourada e a nossa maior amiga vestiu o mais bonito vestido preto, bordado a ouro. Na coroa de flores escreveram a ouro “eterna saudade”.

O ouro vegetal está na pele das plantas secas – é a pele das coisas outonais. Antes de morrer calcei as luvas de poalha de ouro vegetal e escorreguei para o lado da morte. O junco a que eu me segurava teimou e fui eu que tive de abrir os dedos da mão. Para descansar na cama da água. E por assim descansar, sou poupado a todo o outro ouro.

Onde os cabelos são juncos e o meu corpo apodrece a água parada transparece.


trinta e nove

Vou comprar fósforos – disse o homem. E hesitou a procurar um fósforo para acender o cachimbo antes de sair.

Posso ir contigo? – perguntou a mulher. Ao que ele respondeu: Claro! Mas vem daí. Onde vais comprar os fósforos? – perguntou ela, sem começar a calçar-se.

Ao café! – disse ele.

Vamos lá. Vou comprar os fósforos e volto – acrescentou, preventivo. Ela achou que o tom de voz dele não era o mais convidativo e disse:

Se é assim não vou. Se quisesses que eu fosse, tinhas-me convidado. E continuou, sem vestir o agasalho e sem se calçar.

Ele resmungou: Agora estou à tua espera! Que chatice. É sempre a mesma coisa. Não, assim não vou – respondeu ela.

O homem foi-se, batendo a porta. No primeiro café, comprou cinco carteiras de fósforos e regressou a casa. Ela disse: Já de volta? Ele não respondeu. Sentou-se no sofá, acendeu o cachimbo e ouviu uma canção de amor em norueguês.


quarenta

Neste mês de Maio, as bailarinas vêm de fora. Dançam sobre as pontas dos pés maltratados e as senhoras aplaudem com muitos cuidados para não partir as unhas e desembarançando-se das peles que as distinguem. Os cavalheiros bocejam todo o tempo, mas nos intervalos passeiam as suas senhoras e passeiam-se em todo o seu esplendor.

Neste mês de Maio, as bailarinas vêm de fora. Trazem os corpos franzinos sobre pés entrapados e experimentam um voo para os braços do bailarino musculado que as rodeia. Neste mês de Maio, as bailarinas vêm de fora.

As autoridades estarão presentes. A elas se deve o espectáculo. Uns dirão que a dívida é grande, porque o espectáculo é divino. Outros dirão que são as autoridades que ficam a dever à cidade por este espectáculo único. Por ser único, em cada ano ou por vários anos.

As damas reunem-se às dúzias na casa de banho e, enquanto esperam a sua vez, dizem coisas inteligentes. À porta, cavalheiros displicentes esperam as damas, trocando comentários inteligentes, comuns entre conhecedores da bela arte da dança.

Outros cavalheiros estão postados em frente dos mictórios. Os mais pequenos estão em pontas.


quarenta e um

De um lado ao outro da cidade, um jardim atravessa a cidade, só interrompido por um ou outro canal da ria, ou por algumas vivendas e bunkers plantados em vez das árvores. Ao centro de todos, o mais velho jardim é também o pulmão da cidade. Aí, as árvores já atingiram a idade madura e reflectem-se nas águas verde escuras onde tanto cisnes como barcos deslizam. As pontes são atravessadas por namorados, que se demoram, ou por atarefadas criaturas que mudam de um ponto para outro do circuito de manutenção.

Uma avenida acompanha lateralmente o velho jardim, desde umas gaiolas de aves e macacos cegos até desembocar no estádio de futebol público e privado. Antes sempre se pode comprar um copo de pevides e outro de tremoços para cuspir pelo passeio.

Ao domingo, sempre se pode assistir aos filmes de casamentos marcados pela dor do dia mais importante da vida. A noiva sorri, o noivo sorri. Malandros beijam-se na boca da fotografia e ele chega a tentar pegá-la ao colo, tropeçando em todos os tules que uma família inteira coleccionou para lhes atulhar o guarda roupa. Posam também com a tia mais afastada e com um padrinho que fez questão de lhes oferecer um faqueiro de prata.

De um lado ao outro da cidade, um jardim atravesssa a cidade. E nele somos atravessados pela ternura que sentimos pela vida dos outros. Mesmo que essa vida seja a fingir e não seja mais do que uma pose de um único dia de sol. E sentimos a nostalgia da adolescência em que o jardim era a nossa casa.

Ao fim da manhã, afasto-me para dentro do jardim, tiro os malditos e sempre apertados sapatos na beira do lago e abro a pasta. Dela retiro a sande de ovo mexido em pada grande e começo a comer. Com o lenço molhado na água suja, limpo o bocado de gema que caiu sobre a camisa. Sem remédio para tamanha nódoa, visto a camisola de lã grossa e vou suar para as aulas da tarde. Á tarde volto para apanhar a camioneta na paragem do jardim.

Só me acalmo ao cheiro do esterco nas terras lavradas de Santo André, onde as árvores não têm placas nem nomes eruditos.


quarenta e dois

A semana passada foi pequena: chamaram-lhe a semana zita.

Como a semana foi pequena, houve menos notícias. Os jornais descobriram por isso que uma dissidência na ala esquerda da semana se tinha instalado na sua ala direita. A dissidência costumava jantar com este e com aquele e até com o presidente da república. Foi notícia ela não ter jantado com o presidente no dia em que ocupou a ala direita do palácio da semana e foi notícia ter jantado no dia seguinte quando o lech também jantava. Foi notícia o lech ter-se deitado cedo para, no dia seguinte, ir ajoelhar-se aos pés da senhora de fátima em agradecimento pelo fim do comunismo e talvez para rezar pelo fim da solidariedade que já não é precisa.

Foi notícia o facto da dissidência ter aceitado e foi notícia ela ter hesitado. Foi notícia a alegria do álvaro pelo percurso da dissidência. Foi notícia ela não perceber nada do que iria fazer. Foi notícia ela dizer que se critica o estado laranja quando este nomeia só comissários seus para todos os lugares vagos nos jardins do poder. E foi notícia ela dizer que agora também se critica o estado por ele não ter feito isso ao têla nomeado. E foi notícia ela ter dito que tinha aceitaado o cargo com intuito pedagógico, para provar que os dissidentes não têm que atravessar o deserto português, que deve ser a praia do guincho, do meco ou dos tomates.

Foi também notícia ela dizer que o álvaro lhe teria dito que ela nunca mais faria coisa alguma. E foi notícia ela pensar que iria fazer.

Eu penso também, à semelhança de trinta comentadores dessa semanazita, que os dissidentes têm o direito de fazer o que lhes der na real gana. E que têm o direito de desempenhar papéis sociais e socialmente relevantes. Estou de acordo com tudo ISSO.

Só não percebo porque é que os papéis sociais se desempenham no governo ou em alguma repartição do poder. Afinal qual é o meu papel? E do meu primo que é padeiro? Que papel desempenharia a dissidência quando era consultora de não sei que editora? Era talvez um emprego sem trabalho.

E percebo que, nesta semanazita, o governo nomeou quinhentos comissários ainda mais fiéis para outros quinhentos lugares da administração pública. E que a comunicação social não falou dos quinhentos, porque lhe deram uma zita a comer.

Esta dissidência foi tão promovida pelo audio-visual que bem merecia ser promovida a secretária do audio-visual. O audio-visual deve acreditar nas potencialidades das suas campanhas? Viva a semanazita.


quarenta e quatro

Depois de cada vitória, o general volta para casa com uma mala cheia de prendas para os filhos.

Os filhos do general gostam, por isso, das batalhas. E mais gostam ainda quando o exército que o general comanda regressa incendiado com a vitória.

Mas o general só chega a casa depois do rescaldo da vitória e da ressaca do rescaldo. Amado pelos seus homens, que o seguem até nas batalhas mais absurdas, com eles bebe todo o álcool da cantina. Abraça-os e eles pensam que é ele quem paga as bebidas, as batatas, o feijão, o javali e o carvão para o assar.

Nos dias a seguir às vitórias, o general e os seus soldados conquistam as cantinas pela força das armas. Sentam os rabos na messe dos oficiais, adormecem nos sofás, vomitam na farda branca do barman, imitam a continência de todos os derrotados que tiveram de matar para não ter de caminhar ao ritmo lento dos prisioneiros e depois preencher aqueles impressos com nome, morada, bilhete de identidade, filho de … Para o general e para os seus soldados todos os inimigos são filhos da puta. E ponto final.

Já no caminho para casa, o general pára numa loja à beira da estrada. Compra uma caixa de goma de mascar e dois ursinhos de peluche, um para cada filho. Sempre assim foi desde há vinte anos.

Quando hoje chega a casa, ninguém lhe abre a porta. Procura a chave em todos os bolsos. Mas como não as encontra, vai sentar-se numa cadeira do jardim à espera. Os dois ursos de peluche ficam na soleira da porta.

Passado algum tempo, chega a mulher do general amparada pelo filho. Ao ver o urso de peluche, o filho percebe que a irmã morreu no combate travado pelas tropas do general. O pai já está a preparar o churrasco quando pergunta pela filha.


quarenta e cinco

Ontem foi o dia da árvore genealógica, amanhã há-de ficar conhecido como o dia do coração dos lagartos, e mesmo hoje há-de vir a ser o dia da descida à fossa do inferno por um grupo de aventureiros incapazes de utilizar as cordas para subir aos céus. Cada dia é dia de qualquer coisa. A humanidade assim assinala cada dia com referência ou reverência a cada um dos seus falhanços. É o dia da vítima ou do soldado desaparecido, o dia do museu ou da mulher, o dia do autor ou do trabalhador, o dia dos direitos humanos, o dia da paz, o dia de s. cosme, o dia do preservativo, o dia do poeta maldito, o dia de estar a dizer isto.

Hoje é o dia da escola secundária de josé estêvão. Foi escolhido este dia, porque é primaveril e porque uns ossos sobrantes do corpo de josé estêvão foram transportados de um local para outro. Já não me lembro bem de onde para onde, mas podemos sempre criar o dia antes deste como o dia do local onde estavam os ossos e o dia depois deste como o dia do local para onde foram os ossos.

Isso não interessa nada. O que interessa é que hoje é o dia da escola. E os estudantes e os professores mostram algumas das suas habilidades. Pode ver-se teatro pelos alunos e este dia é o dia do teatro na escola. Pode ver-se, apalpar-se e experimentar-se nos laboratórios e é por isso o dia dos laboratórios. Pode reciclarse papel e é também o dia da árvore. Pode ver-se e ouvir-se almada e é por isso que hoje é o dia do almada e não do júlio dantas. Mas também pode ouvir-se falar de poesia ou ler uns textos que podiam ter sido escritos pelo júlio dantas e é por isso o dia do júlio dantas e não do almada. Pode ouvir-se música e é por isso o dia da música. E há um computador a saltar dos carretos às ordens de algum puto mais guerreiro e é o dia do computador. Pode ver-se uma exposição de jovens artistas e é o dia da arte na juventude ou da juventude na arte.

Hoje é o dia da escola. E se estiver bom tempo, pode ser o dia de estar sentado a ouvir chilrear os pássaros logo de manhãzinha ou à tardinha. Neste dia, pode perceber-se melhor que a escola tem dias. Outros verão que tem os dias contados.


quarenta e seis

Só me encontra ainda quem percebe que a vida tem os passos miudinhos. Quem não percebe isso e não consegue caminhar ao compasso da vida, passa por mim sem me ver, ou sem poder parar que é a mesma coisa que não ver.

É preciso parar para ver. Mas não chega parar uma vez. Nós só vemos o outro quando reparamos. De facto, sempre que estamos a ver alguém estamos a repará-lo. Pelo menos estamos a reparar a imagem que dele guardamos, desde a última vez. Acrescentamos-lhe uma ruga ou outra que ele não tinha antes, um novo trejeito, um novo vício como ter deixado de fumar ou de dizer portanto, pois pá.

Só repara quem deseja. Quem me vai amar quando o meu retrato não for este?

Um dia destes encontrei uma pessoa que parou ao mesmo tempo que eu num cruzamento de palavras. Viu-me o vestido de palavras. No meu decote havia uma palavra vermelha. E em volta da cintura usava um verso completo. Contei-lhe que tinha sido escrito por um poeta com quem vivi os dias bastantes para ter a certeza que se suicidaria e não escreveria outro verso que, por ser depois deste, podia parecer melhor e mais belo do que a minha cintura.

Difícil é manter esta cintura. Agora preciso mais de conselhos que de versos.


quarenta e sete

Quando me disseram que ele vinha cá, preparei-me para me levantar da cadeira da rotina e ir vê-lo dizer, fingindo que canta, as palavras que ele escreve com a música toda dentro.

Quem nunca partiu as palavras do chico não pode perceber o que estou para aqui a dizer. Há quem escreva umas palavras depois de outras e nós lemos urnas depois de outras. Outros há que as escrevem umas depois das outras e nós cantamos umas depois das outras. Quando as partimos ou até se lhes tirarmos uma fotografia em contra luz podemos ficar com a pauta que essas frases são.

Não pensava em ir ver o cantor que nem existe, mas pensava ir ver o escritor de canções. Nem escritor, nem músico. Não uma coisa sem a outra.

Mas o bilhete mais barato é muito caro para um homem da minha condição e é por isso que pego lentamente no disco, o coloco sobre o prato e como lentamente. Arroz com feijão a acompanhar como se eu fosse um príncipe. Se chegar mais alguém, é só pôr outra água no feijão. E há sempre a farofa.

Há cumplicidades que não é preciso pagar caro. Basta vivê-las.


quarenta e oito

Eu sei que é difícil de acreditar, mas eu já fui muito pequeno e magro. Na escola, quando havia guerra no ar, eu era o cavaleiro preferido por ser leve e talvez também por ser teimoso e quase raivoso. Também não admira. Só quem fosse parvo é que pensava em cair de cima do calmeirão do Silvestre.

E subia às árvores, Experimentava as maiores alturas e os ramos flexíveis numa vertigem voadora. Os pinheiros bravos eram as minhas árvores favoritas. A pele rugosa dos pinheiros permitiam-me fixar os meus pés sensíveis.

Há um escritor germânico que fala disto, mas para ele a subida é boa, feita a pulso porque tem confiança na sensibilidade das mãos, enquanto a descida o inibe, por não ter confiança nos pés ou na sensibilidade dos sapatos. Mas, para a criança que fui, nada me dava mais segurança que as solas dos meus pés.

Quando eu subia muito alto e os ramos estalavam, algum dos meus irmãos gritava tão alto que os gritos subiam até aos ouvidos da minha mãe. Ela esperava-me, com as suas largas solas enterradas na areia em que também o pinheiro enterrava as suas raízes. Apetecia-me não descer sem antes lhe mandar com uma pinha. Mas quem acabava por apanhar na pinha era eu.

Ainda hoje escrevo as subidas com as solas dos pés. Com as mãos assino as descidas até à segurança dos braços armados da minha mãe.


quarenta e nove

Tenho vários amigos gordos e baixotes como eu. Mas estão a rarear, não tanto na gordura e formosura que o peso lhes dá, mas mais na base de toda a felicidade que a fluidez do tempo é.

As revistas da moda, os médicos e as mulheres dos amigos perseguem a falta de elegância com tanta tenacidade que os nossos corpos acabam por sucumbir. Depois do argumento da doença, só nos resta fazer ginástica, comer as receitas, marcar as horas para tudo o que fazemos. Não podemos acordar as noites com os nossos sonhos mais loucos e escrever as horas tardias mais enlouquecidas por álcool ou pelo tabaco mais mal cheiroso. Todo o nosso esforço para sermos com a fluidez do tempo, sem o repartir entre dia e noite, entre exercício e descanso, entre a vida e a morte vai ser então chamado tempo perdido.

Devia ir correr para o parque as duas horas que aqui estive sentado a escrever. Cansava-me menos, E ganhava mais um dia de vida para correr atrás de mim.


cinquenta

A mulher de um dos meus amigos gordos e baixos deu-me um par de calças velhas. A minha mulher sentenciou que também a mim não serviriam. Ele, que já usa suspensórios, para não perturbar a sua protuberância, também joga à defesa e diz que não me servem. E eu verifico cheio de pena de mim mesmo que elas me servem e ainda me estão largas. Não há nada melhor que usar as calças de um amigo gordo, com quem já trocámos a juventude das nossàs camisolas magríssimas e mesmo alguns pensamentos que não se devem usar em comum.

Enquanto puder, hei-de calçar os chinelos e alguns pensamentos dos amigos ou vestir as calças dos amigos ricos. Quando a minha irmã foi assistente social e eu não tinha dinheiro, dava-me roupas usadas dos americanos. Ainda agora, quando a minha irmã me oferece uma camisa velha (ou nova, não interessa!), sinto-me protegido e salvo na teia de relações em que fui criado.

Nenhuma riqueza me pode tirar esta velha comodidade. Quando for velho e estiver abandonado à minha sorte, deixem-me usar as calças de flanela coçadas por mil tempestades minhas ou dos meus amigos e deixem-me vegetar na fluidez do tempo. Deixem-me as teias, as malhas, os cotovelos rotos da minha camisola mais estragada pelas mesas dos cafés dos poetas, o abandono nos braços da memória dos gestos calorosos e mútuos. E se eu não me sentir confortável, ajudem-me a encontrar o o rio da escuridão por onde flui o esquecimento absoluto.

Eu quero guardar os meus amigos que passaram pelo meu tempo, sem nunca me terem pedido as coordenadas e, por isso, comigo estiveram nos pólos, no deserto e no equador. Não precisaram de me seguir para me agasalhar quando tive frio.


cinquenta e um

Ouço todas as notícias, ouço tudo. Quando leio, falo para mim – só eu me ouço. Quando leio em voz alta deixo de ler e começo logo a inventar e a acrescentar enredos ao texto. Eu gosto de falar em voz alta como se estivesse a ler. Já mais do que uma vez fiz isso: falar como se estivessse a ler. Já mais do que uma vez tive um desgosto com isso. Mas também já me defendi bem dessa maneira: já disse muitos disparates e não apanhei com uma chuva de dissabores, porque as pessoas pensaram que eu não fazia mais do que ler em voz alta uma página de livro.

As pessoas perdoam-me as páginas dos livros, não me perdoam as opiniões. Quando me ponho a falar, fingindo que estou a ler, deixo perceber um certo tom teatral próprio de quem declama. E as pessoas desligam-me do texto – olham pra mim como se eu fosse um actor, altifalante das palavras do outro. É confortável.

Um dia subi a urna cadeira de uma esplanada, com os olhos vendados e de livro na mão, recitei um longuísssimo poema, aparentemente decorado. Não era poema nenhum evidentemente. Eu estava a dizer, com o ar dramático dos cegos, uma ladínha longa em que cada frase era inspirada pela anterior.

Quando caiu a primeira moeda no meu chapéu ao fundo da cadeira, soube que o poema era bom.
Os meus melhores textos nunca foram escritos. Só foram lidos, … e de olhos vendados.


cinquenta e dois

Um dia da semana passada fiquei contente. Portugal tinha sido considerado um bom pagador de dívidas e Braga de Macedo veio dizer-me como isso era importante para mim, que passaria a ter acesso mais fácil ao crédito internacional.

Um dia da semana passada fiquei triste. O comunicado sobre os pobres da Europa deixou-me no limiar da pobreza. A mim e à maior parte dos portugueses. Sinto-me pobre e digo-o nesta praça pública sem que me paguem o que quer que seja. Dizêlo não atenua a minha pobreza. Sobre este assunto, já náo ouvi o Braga de Macedo.

Um dia da semana passsada fiquei contente. Um trabalho da Nações Unidas ou de alguma das suas organizações veio dizer-nos que Portugal estava bem de correios – poucos países haveria com mais postos de correio por cada mil habitantes. A administração dos CTT deve ter logo começado a pensar em racionalizar – fechar uns postos nas regiões mais isoladas e despedir o trôpego carteiro do fim do mundo.

É claro que no mesmo dia da semana fiquei muito triste, porque Portugal é campeão numa série de desgraças.

Não aguento muito mais tempo. Numa semana, o meu pobre coração bateu, ora descompassadamente alegre, ora descompassadamente triste. Poucas vezes, bateu ao seu ritmo normal. E dessas vezes eu estava tão distraído que nem dei por isso.


cinquenta e três

Os mais optimistas olham para a Europa e vêem Portugal como a cabeça da Europa, a Itália como urna das suas pernas calçadas e a Inglaterra como uma maçadora mosca. São poucos. E vivem nos litorais, com os olhos perdidos no mar e na América por descobrir.

De resto, toda a gente fala de nós como estando na cauda da Europa, ou mesmo sendo a cauda da Europa. Os espanhóis têm levado isto tão a sério que procuram escoar toda a escória nuclear e outra o mais perto possível da cauda e nas margens de algum dos rios – canais e intestinos da europa – que vêm desaguar a Portugal.

Habituado como estou a procurar consensos, direi que os dois lados têm razão e verdade. A Europa tem cara de cu.


cinquenta e quatro

Tenho andado preocupado com as mudanças de clima. Os invernos sem chuva levaram os membros do governo e outras criaturas a planear campanhas publicitárias sobre a poupança de água, sendo o mote sugerido pela secura do inverno. E deve dizer-se que foi bem esgalhado.

Assim ouço dizer todos os dias que devo poupar água porque ela não cai do céu. E todos os dias destes meses primaveris, não há núvem que não me persiga e dispare a sua pistola de água contra mim.

Para mim, está tudo bem – eu preciso da água “por mor” da terra que dela precisa.

O inverno primaveril disparou contra mim, além da água, um vendaval que me partiu o guarda chuva. Um castigo para a cabeça. Uma vantagem: deixei de comprar aquele amaciador que dá o efeito de molhado.

O pior de tudo também já me aconteceu. Seguindo os mesmos caminhos que antes, onde era passear pelas ruas, agora é passeio pelos rios. Caminho sobre as águas e só se isto não acontecesse a toda a gente é que era bom acontecer -me a mim.

Com os sapatos molhados e enlameados, chego a casa a tempo de ouvir o conselho: poupe água, ela não cai do céu.

Já na banheira, decido seguir o conselho de tomar duche. Com cuidado, para não desperdiçar, torço os sapatos e as meias sobre a cabeça. Depois ensaboo-me. A gabardine bem torcida dá para tirar o sabão.

Já limpo e enxaguado, sento-me na poltrona coçada. Apesar de seguir todos estes conselhos, não posso deixar de me sentir culpado, por ter andado todo o dia a tomar os desaconselhados banhos de imersão pelas ruas.


cinquenta e cinco

Tem-se discutido muito sobre o pagamento das propinas no ensino superior. Muitos estudantes recusam pagar. Há muita gente escandalizada com isso, a começar pelos membros do governo que sabem que os seus filhos e os filhos dos seus amigos e de todos os ricos e poderosos vão para a Universidade em potentes motos e carros.

É claro que a maior parte desses jovens ricos não vão pagar propinas, até porque são os que descobriram as melhores formas de declarar os rendimentos: conseguem declarar pouco e conseguem descontar no IRS as motos e os carros. Mas para mim até o saxofone de um filho que estuda saxofone é dificil provocar abatimento ao IRS.

No meu tempo, quase não havia carros e outros luxos e lixos em redor das universidades, muito menos conduzidos por estudantes.

Sei que é preciso estudar as formas de financiamento do ensino superior público e privado e vale a pena dizer que os processos se vão generalizar até ao ensino secundário que já não é obrigatório. Só vão escapar a isto os 9 anos do ensino obrigatório que, evidentemente, nem os liberais do estado se atreverão a dizer que não é obrigação do estado. Embora digam que da mesma forma se deve financiar o ensino privado, como se da mesma coisa se tratasse. Estes liberalismos têm arranjado maneira de deixar degradar as condições do ensino público, enquanto subsidiam, para além do que a vergonha permite, o ensino privado ou algum ensino privado. Não tenho nadacontra os subsídios ao ensino privado quando eles não significam a degradação das condições de trabalho e estudo da massa dos estudantes que não têm escolha, mas não são cidadãos com inteligência de segunda escolha. Bem, antes pelo contrário, como toda a gente sabe.

Tem-se falado de muitas boas razões para não pagar as propinas. E tem-se falado de muito boas razões para pagar, e eu sei que quem vai pagar – mais uma vez – não são aqueles que o senhor primeiro ministro diz que devem pagar, mas eu e outros como eu – trabalhadores por conta de outrem, mesmo que o outrem seja o estado. E a maior parte destes pagantes estão, como eu, no tal limiar da pobreza europeia.

A minha mulher não se mete muito nestas discussões. Mas quando alguém lhe pergunta a sua opinião ela diz que é contra o pagamento das propinas. E se lhe perguntam pelos argumentos, ela simplesmente refere que é por não ter dinheiro. E mais não diz.


cinquenta e seis

Por muitas razões que não vêm ao caso, António Florentino poderia ser considerado o outro. Não se sabe bem porquê, mas várias vezes ele declinou essa identidade e profissão. Da lista de mil nomes que lhe apresentaram à data de nascimento, ele assinalou a última linha correspondente a Outro. Quando, no nono ano, lhe pediram que assinalasse a profissão que escolheria entre as 300 páginas de profissões presentes no catálogo do orientador profissional, ele escolheu “Outro”. No estado civil, ele não escolhe solteiro, nem casado, nem viúvo, nem divorciado, nem separado de facto. Ele escolhe Outro. No que respeita ao sexo, incapaz de optar pelo M de masculino ou pelo F de feminino, ele desenha cuidadosamente um novo quadradinho, onde escreve a sua cruzinha e por cima Outro.

Quem não o conhece, deve pensar que António Florentino não se enquadra nesta sociedade e é completamente marginal. Mas não é verdade. Ele é sociável, não morde e parece-nos feliz à vista desarmada.

Um psicoterapeuta, que o queria ajudar, deu-lhe a escolher entre um dos diagnósticos: “problemas na infância”, “problemas na adolescência”, “problemas na puberdade”, “problemas na hipófise”, “problemas na mão direita de deus”. E ele, depois de muito pensar, escolheu “Outro”.

António Florentino é um caso. Dual é o caso do Outro, mas para este muito mais dificil. Sempre que Outro tem de efectuar uma escolha, escolhe António Florentino.


cinquenta e sete

Às vezes a vida torna-se tão complicada que nós desejamos ficar doentes, para ficarmos em casa a descansar ou a fazer o que bem queremos e precisamos de fazer. Mas quando ficamos doentes, o corpo torna-nos incapazes de qualquer voo elogo deixamos de ter paciência connosco e com quem se chegue perto.

Nem a liberdade de pensar nos resta. Até ler é um exercício violento que exige grnade concentração. Parecia-me que me restava o exercício de ver televisão, mas memsmo isso me faz chorar. Menos mal estou eu de ollhos fechados, deitado no quarto escuro. Nem o cacimbo é boa companhia, a partir de certa altura. Deixei de fujmar neste mundo doente.

Estou assim incapaz vai para três dias. E já não tenho qualquer pachorra comigo. Já não me apetece continuar a obedecer a este corpo apodrecido. Isso é um ténue sinal da cabeça que ainda não está completamente podre. Mas é nela que eu sinto mais dores e a sensação mais desagradável é a que me vem da garganta entupida. O nariz em ferida recusa o lenço e a tosse traz-me todos os sabores da doença à boca.

Durante a semana, várias ideias brilhantes tinham piscado como pretextos. Maas hoje, que me sento aqui encostado a esta parede de insanidade, não tenho quaisquer pretextos. A deoença levou-me até as ideias.

Pronto. Já estou convencido: a doença física não é uma boa fuga à vida que levo.Só me resta experimentar as minhas outras ilusões: a prisão, por exemplo.
E depois, se essa ainda não funcionar, hei-de tentar a derradeira fuga ppara a loucura ou o salto para a morte. Não há doença que lhe resita. Nem eu.

Entrementes, compro o jornal e vou fechar-me, por umas horas naretrete.Contra tudo e contra todos.


cinquenta e oito

Li uma crónica do José Vicente Lopes sobre as andanças da toponímia da Cidade da Praia. A Cidade da Praia é a capital da Ilha de Santiago e da República de Cao Verde e a seguir à independência todos os nomes das ruas foram alterados e as estátuas dos colonialistas portugueses não foram poupadas. Pareceu-nos normal que tal acontecesse e ao José Vicene Lopes também, embora ele fosse contra todos os excessos do governo de partido único de então. Não se dava lá muiot bem com as autoridades de então e tinha alguns problemas.

Com a mudança que sobreveio com eleições e pluri partidarismo, parecia-nos que o José Vicente Lopes iria encontrar alguns acordos com a nova situação. Nada disso aconteceu. Ele continuou a dizer bem do que acha bem e mal do que acha mal. E, é claro, lá tem vinda a pagar a sua liberdade.

A crónica que ele agora escreve refere que a Câmara, com a sede de voltar aos nomes de antes do PAIGC, caba por misturar tudo – há ruas em homenagem a assassinos colonialistas, incluindo cabo-verdianos, a desembocar em ruas com nomes de lutadores nacionalistas. Voltaram a pôr os nomes antigos e José Vicente suspeita que ninguém conhece sequer os homenageados com nomes nas ruas. Ele diz que há quem defenda que Cabo Verde vai ter de comprar um dos antigos manuais de história de Portugal, para que as crianças de Cabo Verde saibam quem são os heróis que lhes impingem nas ruas da Praia.

O que é verdade é que o José Vicente Lopes é daqueles que nunca se dará bem qualquer que seja o regime.

O que é verdade é que o José Vicente é daqueles que nunca se dará bem qualqeur que seja o regime.Também eu não.


cinquenta e nove

Sei que vou ter
uma casa para morar
um carrão para andar
um emprego para curtir
sei que vou ter
porque tenho a escola toda

Nem uma só vez este anúncio do Ministério da Educação fala do que se aprende e do que se ensina.

O anúncio é estúpido. Porque é um anùncio português, é bem feito.
Em troca da escola toda, tem-se uma casa para morar, um carrão para andar, um emprego para curtir. É verdade. Na minha terra, quando alguém diz “aquele tem a escola toda” está a dizer o que o Ministério da Educação também quer dizer e não se refere ao que se aprende ou se devia aprender na escola. Os que têm a escola toda são os que prenderam toda a aldrabice, toda a arte do sacrifício do outro, todas as formas de trepar. Há quem tenha andado na escola toda a vida e não tenha casa, nem carrão e o emprego não é para curtir.

Mas há uns putos que passam pela escola, não sabem coisa nenhuma, aprendem a falta de moral de um jota, e, se não tiverem aprendido a conjugar o verbo haver ganham um emprego para curtir, pois nem sequer sabem o que é que há para fazer, um carrão para andar e até uma casa para morar. O que é preciso é ser a voz de um dono, ignorante obediente. É preciso não saber conjugar o verbo duvidar, e é preciso conhecer todos os tempos do verbo engolir. Se tiver vícios que os tenha em privado, se não tiver virtudes que as invente para o público telespectador, se tiver uma anedota na ponta dalíngua que não a conte à forças do bloqueio. Se tiver um bloqueio que ele seja tudo menos encefalite espongiforme. Uma vaca loura tmabém pode ter a escola toda. Uma vaca louca tem de ser escondida pela vacaria da escola toda.

A escola toda é isso: um emprego para curitir e uma casa para morar. Se correr mal, sempre sobram os carrões e casarões em nome da tia avó ou da mulher com quem se realizaram convenientes acordos nupciais. E uma prisão é sempre uma casa para morar e para concluir a escola toda.

Não há anúncio mais estúpido e mais mentiroso. Não há anúncio mais inteligente nem mais verdadeiro. Eles têm a escola toda.

sessenta

Dia de Portugal e das comunidades usava, ainda não há muitos anos, o breço esticado no ar. Era um sacrifício. Nos tempos modernos, já não é preciso fazer essa promessa terrível. Dia de Portugal e das comunidades sabe como isso lhe custava: o braço adormecia assim esticado e era um trabalhão para o dobrar pelos cotovelos.

Nestes tempos modernos, Dia de Portugal continua a usar muito o braço, mas para gesticular e para falar pelos cotovelos. Há os discursos, há os heróis nacionais, incluindo ases do volante, há o dia de portugal edas comunidades e há o grupo coral de nafarros a cantar oa desafio com o grupo coral de boliqueime. Há os marechais com monóculo e há os marechais com óculos. E há uma cadeira vazia para a chuva que queira cair, ou para a tristeza que tudo isto já é. E há uma cadeira ansiosa por cair.

Dia de Portugal e das comunidades juntou-se com Doia do corpo de deus e moldaram no barro moderno a mascote para a expo 98. E se a mascote da feira de sevilha tinha um alto na cabeça, a nossa mascote não podia ter menos alto na cabeça. Dia de Portugal e das comunidades está contente porque aquilo não é mais que onda na cabeça do “mascote” azul – cruzamento de um turco e de uma vaca louca e oceânica em vias de extinção.

Dia de Portugal deu uma taça ao benfica e um rebanho de multidão ao presidnete da república e ao primeiro ministro que, quando querem falar um para o outro, falam para o Dia de Portugal.

Dia de Portugla fala pelos cotovelos. Dia do corpo de deus vai de andor em andor e às costas do Dia de Portugal e das comunidades. As comunidades queixaram-se do lumbago e espirraram como uma manada de elefantes brancos. Ainda hoje se andam a limpara as ruas e se ouve o eco do santinho que a multidão foi incapaz de conter dentro dos limites da decência.