aberturas


Abertura


Andava o professor Sebastião da Gama a correr, de papel em papel.
Os seus olhos corriam pelas linhas dos textos com que se cosia. Ontem, cansados de correr, fecharam-se.
Com o dedo na boca se fecharam para ver as entrelinhas (o melhor das linhas) que não tinham visto.
E, como no sonho, voaram-lhe da cabeça dos olhos, as orelhas para ouvir a música e as palavras, penduradas pelas paredes da sala.
E foram os outros sentidos todos procurar a fonte romba dos sons.
Do rádio escorria a cor e acorrente de uma fonte longínqua de murmúrios

A fala tirou o dedo da boca. O professor Sebastião da Gama acordou de dedo no ar e disse:
– Nós, os professores, somos como que umaa fonte. A nossa corrente faz mover uma viagem: entrada de dedo na boca, saída de dedo no ar.
Satisfeito, fechou os olhos, suspirou e adormeceu descansado.

De todas as linhas e línguas de todos os horizontes humanos, vamos mostrar o som das coisas lindas. Quem ouve pode usar e abusar, porque não há direitos a pagar. Vai tudo para o ar e é de qum apanhar.

E muita música, para que o sábado â tarde não esmoreça. Pesada e leve. Branca e negra. Popular, toda ela. (O Beethoven e o Jorge Lima Barreto gostaram de ouvir esta!) … ,

Fale connosco. Estaremos sempre em movimento. Mais: sobre o movimento. Isto não tem que ser assim. Aquilo que tem que ser, não é ainda. Abertas como estão as nossas janelas, nada vai resistir ao vento que soprarem. Com prazer, apanharemos os cacos.

RIA, 3/1/1987



Artes de navegadores de terra firme


Luis Vaz de Minha, de 40 anos, casado, professor e navegador português destes finais do século XX, partiu deste porto de Aveiro com destino a terras de Castelo de Paiva, já antes descobertas por outros professores-navegadores que por lá estão para divulgar conheciemntos e técnicas modernas.

Por rotas serpenteantes, Luís de Caminha navegou. Por fim, depois de um pouco de rota de terra mal batida e Luís ancorou ao seu porto: Escola secundária de salas de aula só agora abertas, rodeadas de máquinas e guindastes em manobras.

Se Luís Vaz de Caminha, navegador supostamente experimentado, ia para falar e traçar planos de navegação rigorosos, deu por si a ouvir e ouvir. Perante a realidade, baixou os dedos indicadores de caminhos.
E quando pôs o dedo no ar para falar, falou, mas com a voz carregada de dúvidas. Que é imprevisível a navegação em salas geladas, nunca dantes navegadas, com tripulações de turmas que não navegam há mais de seis meses. Tripulações-turmas constituídas pelo critério pedagógico dos horários das carreiras, que chegam de manhã e partem de tarde, nas suas horas. Com diferenças etárias de sete anos.

Quando os professores disseram que escreviam os planos de navegação e os cálculos com as mãos atrapalhadas por luvas e se deitavam antes das 10 horas para quebrar o gelo, Luís de Caminha procurou desesperadamente as frases animadoras para a ocasião. E sim, talvez com frio, nada saíu da sua boca.

Luís Vaz de Caminha sabe que os professores-navegadores fixados nas margens das montanhas de Castelo de Paiva não o ouvem. Mas fala deles. Porque falando deles, lhes aquece, pelo menos, as orelhas.

Luís Vaz de Caminha pôe o dedo no ar, para lhes dar voz neste programa. Com se o nó da garganta em palavras se desatasse.

No regresso e enquanto, na sua sala aquecida, escrevia a crónica, Luís de Caminha tinha os vidros dos olhos embaciados. Limpou-os à manga da solidariedade.

RIA, 10/1/1987



movimento e drama


Quando ela entrava na sala, eles já lá estavam sentados pelo chão. E já tinham arrumado para os lados todas as mesas e cadeiras. Ao meio da sala tinham deixado só a velha cadeira de sempre.
Ela trazia pelos ombros uma manta exótica, a tiracolo um saco de pano, duas rugas cavadas perto dos olhos, o cabelo atado por um elástico de notas e um sorriso tímido deformando-lhe a boca.

Amélia da Fonte Seca pousava o saco na mesa mais perto da porta, despia pela cabeça a manta que a fazia parecer grande e forte e que ia fazer monte por cima do saco. Sobrava a sua figura magra e pequena moldada pelas calças pretas coçadas e pela camisola de gola alta.

Eles já se tinham preparado e por isso o mundo era a sala com o seu espesso silêncio, o de habitantes que esqueceram tudo o que não é a respiração que se ouve.
Neste mundo não corre a mais ligeira aragem

Amélia conhece-os bem. Demorou-os nos primeiros exercícios de relaxamento, de apagar as marcas das inibições do uso do corpo em relação consigo e com os outros corpos. Nos exercícios do mais profundo acordo e desacordo consigo mesmos. Sabe agora que eles estão preparados para a partir de nada criar outra realidade e vivê-la.
E é como se tivesse crescido o corpo de Amélia, quando se ouviu a sua própria voz: “Filipe! Estás a ouvir o vento? Começou mesmo agora a soprar. E é tão bom, neste dia de calor. Primeiro suavemente. Depois cada vez mais forte.”

O Filipe e os outros olharam-se e começaram a ver. Parecia que o cabelo de Amélia se tinha soltado ao vento e ondulava. E o sorriso dela era deliciado e era como se os dedos dela abertos estivessem a ser refrescados e que o vento estivesse limpando o suor. Todos, incluindo a Mariana que não vai em cantigas, sentiam o vento cada vez mais forte e começaram a ver o mar desdobrar-se onde antes o soalho não era mais que o tapete coçado. E viram-na desenhar no ar ondas que no ar ficavam bem visíveis .

Apagou a luz. Fechou as cortinas e disse: “Hoje vamos jogar aos gatos e aos ratos. Os seus movimentos para um drama. Olhem para os meus olhos. São amarelos e brilham.”
E a Mariana viu que havia naquela escuridão os olhos de um gato. Amarelos e brilhantes.

Quando a Amélia fechou os olhos e os voltou a abrir, já nada se via. Disse: ” Os meus olhos de rato são pretos e baços. O gato não me vê e eu vejo-o andar por perto. O meu corpo é cinzento e baço. Quando o gato me cheira, os olhos brilham-lhe” – e viam-se os olhos do gato Filipe brilhando – “mas eu escorro por baixo das mesas e pelos buracos” – e sentiu-se a Mariana correndo para baixo das mesas ao fundo.
A voz da Amélia e, um pouco depois, a voz do tímido Joaquim de Albergaria criaram
uma tempestade. E viu-se a faísca que o Joaquimn criou e viu-se a trajectória dos olhos amarelos do Filipe que saltava para abraçar com as suas garras o rato Mariana, descoberto pelo flash do relâmpago. Sentiram que a Mariana estva morta e era afastada para o canto mais tranquilo onde o gato Filipe despedaçava as suas presas.

Amélia acendeu a luz e abriu as cortinas. E disse que tinha sido bom.
Vestiu a manta, pegou no saco, verificou se tinha o passe para regressar ao Porto e lembrou o ensaio de sexta.

Foi assim e diferente a vida de Amélia. Tinha abandonado tudo no tempo da pura euforia para pegar e largar futuros professores do ensino primário. Capazes do movimento e do drama.

Trabalhou. Recebeu o seu magro salário de contratada a prazo. Feliz uns dias. Cansada sempre. Mas das suas aulas criadoras de vento ficaram sulcos indeléveis nas aulas de gerações de professores. Alguns, regressados à terra, por lá andam criando tempestades e inventando o drama do gato e do rato e mudando a face do mundo.

Mas Amélia da Fonte Seca não tinha uma ciência exacta para dar, nem tinha procurado a licenciatura para se segurar ou outros contratos melhores.

Um dia, o Ministério descobriru que tinha de eliminar uma despesa. Procurou a despesa como gato atrás do rato. Uma faísca iluminou o canto da sala do Magistério em que Amélia se escondia. As garras de tinta vermelha dispensaram para o canto dos desempregados a Amélia de Fonte Seca.

Não é pura coincidência se esta história lembrar alguma realidade que não é das criadas pela Amélia. Talvez a própria Amélia exista e exista este movimento e este drama.

O Filipe e a a Mariana dizem que o Joaquim de Albergaria já não distinguia os dois mundos e por isso partiu para lá onde decretou que nada disto pode acontecer. Perturbador é viver deste lado do espelho.

RIA, 24/1/87



queimaduras da alma


A 25 de janeiro de 1985, de uma explosão na instalação de gás de uma escola secundária de uma localidade de nome cartaxo, de um país da europa ocidental sobraram as vítimas. Alguns estudantes morreram e as famílias cuidam da sua memória. Mas outros ficaram vivos com as suas queimaduras no corpo e na alma.

Os representantes do ministério da educação e outros membros do estado do país citado lamentaram o sucedido, tentaram culpabilizar os membros directivos do estabelecimento de ensino, cujo crime foi o de aceitar trabalhar e dirigir um estabelecimento de ensino sem condições de trabalho dignas e sem segurança. Ao mesmo tempo, garantiram que tomariam contas das vítimas, na recuperação das suas queimaduras do corpo. Muito definitivas e claras as intervenções de um secretário de estado de nome simões alberto.

Mas cada dia que passa arruma o dia anterior na prateleira de trás da memória atafulhada. E é o olvido o que nos espera em vida; que fará depois da morte? Por vezes, alguma memória persistente vai às estantes de trás buscar as vítimas de que o estado, ou pelo menos o seu secretário se encarregou de cuidar. Por isso, quando se descobriu que as vítimas não tinham sido indemnizadas e não tinham iniciado os tratamentos de recuperação (que os primeiros socorros foram administrados, louve-se o estado por isso), os colegas de uma das vítimas, que é professora de educação visual, lançaram uma campanha de angariação de fundos a partir de uma cidade de nome guimarães, para acudir às despesas de tratamento.
E veio a terreiro o mesmo secretário de estado informar o país que tais campanhas não tinham razão de ser (com todaa a razão) pois o ministério de tudo estava a tratar e todas as possibilidades de recuperação seriam tentadas e pelo estado de direito custeadas. Quase se lançaram algumas suspeitas sobre o fundo desses fundos. Descansadas as gentes do país.

Sobre o quotidiano cinzento do povo, foram-se acumulando as camadas de pó que encobrem as amaolgadelas dos tampos das mesas, obscurecem e envelhecem os títulos dos dossiers. O hábito empurra esses dossiers para as estantes de onde só os historiadores aproveitam. Só que o pó não acumula nos rostos e nas mãos queimadas. Os seres vivos sacodem-se.

Dois anos depois, em fevereiro de 1987, um telex informa que dália belchior está desde dezembro, em boston, nos estados unidos da américa, já fez várias intervenções cirúrgicas tendo recuperado o rosto e vai começar a recuperação das suas mãos. Foi tarde, mas foi. Diz-se: afial o secretário de estado simões alberto ainda se lembra e o estado está a cumprir o prometido. Devagar, mas lá vai andando. E descansamos, contentes com estado que é pessoa de bem, como costuma afirmar simões alberto.

Só a mania de ler as linhas todas do telex é que atrapalha a boa consciência e a confiança nas instituições do cronista. E a confiança no eterno secretário simões. Nessas linhas de desesperança vem escrito que a professora dália belchior, acidentada ao serviço do ministério da educação, está hospedada em casa de uma família de emigrantes do seu país e que é a comunidade de emigrantes que está a custear os tratamentos, a partir de uma campanha lançada por um jornal da comunidade de nome “luso”.

Amanhã lerei as declarações de simões alberto. Se ele não for mentiroso dirá: De facto, o estado não pagou qualquer indemnização à vítima, nem pagou os tratamentos especializados, porque este estado só se responsabiliza por tratamentos ou intervenções cirúrgicas feitas em hospitais civis e que não houve durante dois anos nenhum médico que certificasse que se tinham esgotado as possibilidades de recuperação no país e reconhecesse que outras possibilidades existitam noutros países de maiores recursos. Se ele for um homem de bem e rigoroso dirá: Falei várias vezes, como me competia, em nome do estado que imaginava uma pessoa de bem. Agora ao fim de anos sem que se tenha resolvido o problema é justo que a opinião pública me tome por mentiroso. Aqui declaro que agi de boa fé. E obviamente, não querendo mentir mais, demito-me de secretário deste estado de coisas.

se não falar assim, simões alberto virá a terreiro talvez considerar disparatado que dália belchior queira a sua face e as suas mãos de antes das ácidas queimaduras de estado. E talvez levante algumas suspeitas sobre estas campanhas de solidariedade da comunidade emigrada. Ou talvez diga que nada disto é verdade e que o telex que fala disso é obra de um adversário parlamentar.

E eu que já não me lembro se o país da dália é o meu país e se estes são os meus dirigentes no aparelho de estado, mas sei que é do meu mundo que se trata, embrulho-me neste dia de sol no meu impermeável azul da cabeça aos pés e vou passear sem destino pelas ruas todo curvado de vergonha. Porque a tenho e ela passeia comigo como uma culpa, como um cão fiel que me atrapalha os passos distraídos.

RIA, 7/2/1987



a paixão de golias pela história


Há dois anos atrás, golias teve sérios problemas de natureza disciplinar na escola em que frequentava o sétimo ano. Acabou por passar de ano, mas toda a gente aconselhava a mudança de escola. Até ele achou bem. Mesmo tendo de abandonar o mundo dos que conhecia.

Foi assim que o vim a conhecer. Logo em outubro, contrariado me apareceu o golias no conselho directivo. De catorze anos, muito miúdo, o mais miúdo da sua turma do oitavo ano, ali estava o golias do excesso de faltas inexplicáveis para outubro. Com as mãos atrapalhadas, os ombros da camisola azul claro sempre a ensaiar o gesto “já que tem que ser, que seja!”, os olhos abertos para um ponto atrás de mim (talvez um ponto de fuga) e o cabelo espetado da cor das sardas, o golias explicava: “Não se pode fazer nada. Com a minha fama, qualquer pequeno movimento serve para me mandar para a rua, e como não se pode ter faltas interpoladas tenho de faltar sempre às seguintes. Já no ano passado fui um desastre.”

Lá me pus a explicar ao golias que não era assim. E falei com ele até ter a certeza que o golias me estava a ver com aqueles olhos que lhe bailam sempre para lá da linha do horizonte. Que habita fora da escola.

Durante uns meses, quando nos encontrávamos nos corredores acidentalmente, perguntava: – “Então, tudo bem?” E acrescentava:- “Toma cuidado com as faltas que não queiras dar.” Ele mostrava um pequeno esgar de sorriso.

Em março, ilíada, a nova professora de história da turma apresentou várias queixas do golias. Que era muito agressivo, que lhe estragava as aulas com interrupções desapropriadas, que o tinha de pôr na rua para conseguir dar as aulas. Finalmente, fui informado que o golias tinha agredido a jovem professora de história, numa cena de empurrões de corredores. A professora tinha-se magoado no peito, era demais! O golias tinha de apanhar uma suspensão! Para aprender.

A ser assim, o conselho de turma iria suspender o pequeno golias e, com as faltas que ele já tinha, lá ia reprovar o golias pelos idos de março. Que iria fazer golias?

Pedi tempo para falar com ele…
Veio o golias e práli ficámos a vigiar os movimentos um do outro. Como é que havíamos de começar?
Não me lembro sequer se começámos. Mas quando o golias se aproximou o bastante para que eu o visse, eu vi.

O golias tinha tentado tudo para fazer da história a sua melhor disciplina, tinha tentado tudo para chamar a atenção da professora e para a convencer que estava a estudar, tentava falar com ela até nos corredores. Todos os seus esforços foram vãos. Ela só dava a palavra aos outros e, quando ele forçava, ela punha-o na rua.

O golias que estava a crescer todo, estava perdidamente apaixonado pela jovem professora de história, ilíada. Quando mais tarde falei com ilíada foi só para a tentar convencer que nenhuma paixão merece ser ignorada e maltratada.

– “Cá vamos!” cumprimenta-me assim o golias, quando passava por ele. Vi os dois, golias e iliada, a conversar numa esquina do corredor e os olhos de puro azul do pequeno golias não tinham outro ponto de fuga senão os olhos de puro azul da jovem ilíada. Reparei então que eram do mesmo tamanho, ou quase. Porque é o golias me pareceu sempre tão pequeno?

Já passou um ano ou mais. De ilíada não sei. Porque os professores de história viajam mais do que desejam.

Mas o golias passou ontem por mim de mão dada com a miúda mais bonita do mundo. E está mais alto que eu.

Piscou-me o olho, feliz.

RIA, 14/2/1987



brilhantina


Tenho uma confissão a fazer.

Nunca tinha ido à feira dos vinte e oito, apesar de viver por aqui e saber que se está diminuído quando não se conhece. E não conhece Aveiro quem não se deixou afundar e perder-se na magnífica multidão da feira dos vinte e oito.
Abençoados encontrões e palavrões e ralhetes que nos dão. Ficamos reconciliados com tanta companhia e carinho.

Somos todos iguais na feira dos vinte e oito. Quem na Avenida nos cumprimenta cerimoniosamente, pisca-nos umas palavras cúmplices na feira dos vinte e oito e dá-nos uma palmada amigável nas costas: Como para fazer ralhar os que querem passar e lhes dizem:”aqui está uma coisa boa para fazer, convidar um professor para comer uns tremoços e perguntar-lhe o que anda a comprar, .. se os professores também vêm à feira comprar a roupa. Perguntas que não se fazem fora do bulício da feira dos vinte e oito.

Tive de explicar ao Matos, com alguma vergonha o digo, que fui à feira para distribuir uns comunicados dos professores à população, que cheguei atrasado e perdi-me dos meus companheiros do sindicato. Logo depois fiquei com pena de ter dito a verdade. Quebrei um pouco aquela cumplicidade carinhosa que tinha feito parar o Matos a falar comigo.

Afastados do corredor humano, lá me informei.
O Matos começou a trabalhar. Farto de andar na escola, sem conseguir fazer nada e sem saber o que é que o pai e a mãe decidiam separadamente sobre o seu destino, pôs pernas ao caminho e começou a desenhar-se.

Muito alto, com menos borbulhas, algumas farripas com gel a cair para os olhos debaixo de um chapéu de cowboy, um casaco todo bonito e um laçarote de fios a cair de uma chapa presa ao colarinho parecia um herói saído de uma fita. Quase inconscientemente olhei-lhe para os pés. E lá vios seus sapatos brilhantes e bicudos.

Falou comigo sobre o trabalho na construção civil e disse-me que hoje andava de folga a fazer de vaqueiro em dia de feira, a ver as miúdas. É carnaval, professor!

Depois vi-o partir, todo gingão.

E lembrei-me do Matos da escola. Pequeno a atrapalhado. Acusado de não perceber nada, de interromper as aulas, de besliscar os colegas, de andar à pancada. E sentado à minha frente a tentar esconder os saptos de pano, todos molhados do inverno, sujos e rotos. A lembrar-me a infância sem sapatos e a lembrar-me os sonhos em que vou descalço para escola e a tentar esconder os pés sujos dentro dos canos das calças.

Volto aos encontrões dos corredores da feira dos vinte e oito e dou por mim feliz com o Matos. Por ele, que não tendo dinheiro para comer bem, decidiu comprar uns sapatos de verniz e um chapéu inútil. E aproveitar o carnaval para passear um perfume exuberante e gingão.

E ter pena de mim que nunca cresci tanto. Nem pelo Carnaval.

RIA, 28/2/1987



a primavera de volta


Como acontece todos os anos recebi o postal lacónico:

Chego a vinte um, no comboio do costume. Se puderes vai esperar-me à estação.

E como tem acontecido todos os anos não consegui deixar de ficar emocionado e de me sentir mais novo. Tenho até uma certa vergonha de confessar que ao fim de tantos anos ainda sei o horário do comboio.

La estava eu à hora marcada. O comboio até nem chega atrasado quando se trata do comboio dela. Olho com impaciência para todos os lados, como se não acreditasse que ela chegasse. Lá está ela. Sempre na mesma, cada vez mais nova, acabada de chegar a essa idade das muheres na força da vida.

Há um ano que a não via. Dou-lhe o beijo fugidio na face e para ali fico segurando-lhe as mãos ainda ligeiramente frias, não sei se as minhas se as dela. Olho deliciado os seus olhos brilhantes, húmidos. Felizes.

Depois vamos até ao café do costume e só depois das primeiras chávenas quentes pelas mãos e a minha primeira distracção de ataque do meu primeiro cachimbo da manhã é que começamos a tirar os sobretudos da conversa que vai durar pelo mesno uns bons três meses. Sim, que ela vai ficar por aqui uns bons três meses. Não ocupa muito espaço lá no nosso T2 e é contagiante. Embora ela tenha uma relação mais profunda comigo, toda a gente lá em casa gosta dela e nunca alguém disse que ela incomodava.

Mais vale apresentar a minha primavera. Está cada vez mais moça. Ao princípio, irrita-me sempre um bocado com aquelas comparações entre o que fui e o que sou e entre o que ela foi e continua a ser, pelo menos na aparência e com as bocas que ela manda à minha mulher de que pareço cada vez mais velho. Quanto mais eu me irrito, mais os meus filhos se divertem com esta primavera que se lembra de nos aparecer porta dentro todos os anos, sem mais aquelas. Anda um ano sem escrever palavra, mas quando chega a esta altura aí vem ela. Quando eu era moço, já ela era uma mulher feita. Não me lembro dela com outro aspecto. Já vou nos meus quarenta anos e nota-se e continuo sem poder dizer qual é a idade dela. E como isso a diverte! Andámos juntos por muito lado. Corremos por aqui e por ali atrás um do outro, pelos pinhais, pelas matas e tomámos banho em alguns riachos juntos. Às vezes chego a convencer-me que a namorei e fomos tão felizes e tão inocentes e tão claros um com o outro e páro a perguntar-me porque terá sido que não nos casámos. Outras me digo que não era ela que namorava, mas a natureza e o universo todo e que era aminha mulher que afinal me acompanhava sempre nesses devaneios que sonho terem acontecido com a minha primavera. Só isso pode explicar que a minha mulher a receba sempre tão bem e nunca mostre nem uma ponta de ciúme quando ela vem cá para casa.

E como sempre lhe perguntei como tinha sido a viagem e se contiuava a maravilhar-se com o vale do Vouga. Sim, porque ela lá dá as mais incríveis voltas para chegar a Aveiro, descendo no comboio do Vale do Vouga, que era um comboio em que namorávamos ou penso que namorávamos, parando aqui e ali e correndo pela beira do rio e pelos montes. Penso que muitas vezes não utilizámos as reservas que fazíamos antes de viagem.

Ela pôs-se a olhar para mim com aquele ar sério que eu não lhe conheço e disse-me:

Nem me perguntes. Está tudo tão diferente. E não penses que é por tu não ires comigo. Nos comboios em que eu ando não me falta nada.
Não, também não é por causa dos incêndios.
Não sei se valerá a pena explicar o que senti a um tipo das matemáticas que ainda por cima está a ficar velho. Não é nada do que tu possas pensar.
Estou triste. Andei por lá e já tem muitos cabeços plantados de novo, com árvores todas muito certinhas e cheiros e sabores que não acredito que haja bicho daqui que queira trincar. E a terra toda revolvida como se fosse um corpo descarnado. o vento e a água devem arrastar toda aquela boa terra. Alguns dos nossos ninhos não existem. Aquelas árvores velhas com os seus bichos marotos, aquelas folhas espalhadas pelo solo e a sua multidão de habitantes se movendo naquele recatado mundo já não existem. Já não existem muitas daquelas cenas das árvores velhinhas que pareciam estar a tomar conta de nós e das árvores pequenas como se de filhas se tratasse. Aqueles riachos que corriam no meio daquelas arbustos e do matagal que nem por eles dávamos e onde nos molhávamos sem querer, já lá não estão ou então estão para ali abertos como se corressem entre paredes de cimento.
Nunca mais poderás ir comigo por alguns dos carreiros da felicidade. A floresta não é aquilo, meu filho. Aquelas árvores odas iguais, aqueles eucaliptos todos alinhados são muito parecidos com troncos já mortos e empilhados muito ordenados que se vêem em Cacia, à saída. Serão os mesmos?
E vi pior pelo caminho. Ainda foi a linha do Vale do Vouga que me iluminou ligeiramente o olhar e me deu este ligeiro sorriso.

Olhei para a primavera. E, pela primeira vez em muitos anos achei-a triste. Talvez porque seja eu que estou triste e tenho saudade de alguns caminhos de devaneio. Virei-lhe as costas e, pela primeira vez, cheguei a pensar em ir alojá-la num hotel. Depois, pensando melhor, peguei-lhe na mala, passei-lhe a mão protectora pelo ombro e levei-a para casa. Tenho esperança que a minha mulher e os meus filhos façam da minha primavera uma mulher feliz.

RIA, 21/3/1987



o desenho da solidão


Dou por mim a falar sozinho, cada vez com mais frequência. E a chorar a rir sem motivo aparente.
Sempre que pensei ir fazer uma coisa, acabei por fazer e ser outra. Uma coisa é certa e não foi o que encomendei para mim mesmo: sou um estudante de letras e artes e não há remédio para tamanha maldição.
Umas vezes escrevo, outras vezes desenho.. Mas tudo o que faço se reovlta contra mim. Por causa de uma incrível vida que assalta o desenho dos meus dedos, passei a viver sozinho.

Desenhei com o lápis rombo, nas paredes caiadas do meu quarto, os corpos dos meus vizinhos que eu eu desejei ter.Mas eles ficaram a ser sombras que se movem pela arquitectura do esfaqueia-céus, onde me refugiei. Quando eles se deslocam pelos corredores, vão acendendo todas as luzes insuportáveis, e cumprimentam com aqueles movimentos lentos das sombras os outros vizinhos e algumas das minhas amantes que moram nos diversos andares do meu corpo.

Têm os olhos vidrados os vizinhos.
Eu atiro-me aos desenhos das paredes e com a borracha e uma lâmina rasgo-lhes algumas tiras de pele. Destas tiras de pele, ou de cal?, pacientemente faço as minhas sandálias de peregrino. Quando peregrino, entre a janela e a porta, os corpos dos vizinhos sangram as paredes do meu quarto.
Têm os olhos vidarados os vizinhos.

Desenho então a automática dos meus pesadelos, copiando pela fotografia da revista que guardo desde a adolescência guerrilheira. Com ela vou matar misericordiosamente os vizinhos meio apagados e em carne viva. Mortos, os arrasto para o elevador no andar dos olhos e desço-os até ao rés do chão. Empilho-os cuidadosamente sobre os outros desenhos que esperam a passagem da camioneta do lixo.
Assim descansam os vizinhos.

Volto a subir, no elevador, até ao andar dos meus olhos. E decido-me. Com a última bala, desde há muito tempo na câmara, vou estilhaçar o corpo do meu último lápis rombo e doentio. E essa parte da minha alma esvai-se liquidamente para o soalho. Evapora-se imediatamente.

Rasgo a manga do casaco e penduro-a como uma bandeira ao vento tinto do sangue das sombras.

Volto a adormecer no divã que, ileso se dobra no meio dos campos de batalha.

Quando acordar já a manhã vai alta. A mulher a dias que desenhei quando para aqui vim já limpou tudo.
Do ajuste de contas, como únicos sinais sobram dois buracos de balas desenhados no colchão do divã.

RIA, 28/3/1987



serões de dedo no ar


Na última terça feira, a Manuela acendeu ou não acendeu a lareira e dispõe-se a esperar. Pelas nve e meia, o Arsélio e a Esmeralda chegaram. Deram beijos de vai para a cama Vanda. A Manuela apressou-se a dizer: O José Alberto hoje não pode vir e fica à espera que lhe digam o que é preciso fazer.
Um pouco depois chegou a Maria Manuel, com o seu ar de menino tímido. Ao que parece, o Moreira também não vem hoje. E a Céu também não aparece, mas continua com aquela ideia da música portuguesa; até já tem um texto – informa a Manuela.

E instala-se a conversa solta.
Na primeira hora, andam as palavras em volta das bacantes daquela encenação alemã que está a passar na televisão, com o seu palco de prodígios.
Quem viu, quem não viu. Fala-se das coisas que não têm explicação visível e a Manuela salta à procura do texto para ver se por lá se vê o que escapou. Não encontra o que procura. Encontra outras coisas. Conclui-se que talvez a Fátima Bóia saiba dar algumas pistas para aqueles acontecimentos do palco alemão.

Salta-se para as viagens feitas e por fazer. Fala-se com prazer desses passeios fora de fronteiras. E dos livros que a Esmeralda recebeu dessa professora de Alemão que veio desde Paris até à casa da Esmeralda. E fala-se da carta da Fernanda Romão de Manchester. Fala-se das manias do Moreira e das aventuras e desventuras dda última gravação do Dedo no Ar.

Pôe-se o dedo no ar nos serões de uma família muito especial.
Como se houvesse um bolo a partilhar e o bolo que existe é o curso dos nossos pensamentos. Partilhado sem egoísmo, sem garfos, sem facas.

RIA, 11/4/1987



Abertura de azul


Arnaldo Gomes regressa a casa. Tira o casaco e, antes de se sentar confortavelmente no seu sofá coçado, liga o rádio.
Ouve a música, por momentos. Distrai-se. Adormece: Mas continua a ouvir-se.

Dá largas passadas pela sala de aula e fala.

Fala do que vê da janela da sala de aula. Descreve pormenorizadamente a paisagem, em especial descreve aquela esquina de betão da Caixa e a nesga de água que dali se avista, entre parades.

Perde-se e dá por si a seguir aquela nesga de água até ao rio largo a que se junta. Descreve a linha do horizonte, a que separa as duas águas, os dois azuis.

Torna-se difícil distinguir nas palavras os dois azuis. Ensaia fazê-lo com as aguarelas do Jerónimo que está há mais de 15 minutos a misturar cores para obter um azul que não existe.

Mas não consegue nem dar uma ideia. Os alunos, que entretanto se juntaram por ali, riem-se das tentativas confessadamente falhadas para separar os dois azuis. Não há dúvidas de que aqueles não são os azuis que o professor Arnaldo deu a entender que estão lá onde as águas do rio tocam as águas do céu.

Quando a Salomé tropeçou no meio da confusão e virou os três godés para cima da folha de trabalho do Jerónimo pôs o ponto final nas tentativas. Mais duas gargalhadas e uma boca à Salomé e toda a gente regressou ao trabalho.

Só o Arnaldo continuou a pensar nos azuis, agora absorto nas suas longas passadas pelos corredores da sala. Distraído, foi dando instruções avulsas aos diversos alunos quando lhes passava perto.

Agora, ali sentado no seu sofá coçado, é que Arnaldo Gomes está a ver finalmente aquelas manchas de azul que a Salomé arranjou, com a sua trapalhice, na folha de trabalho do paciente Jerónimo: E determina com rigor que essas manchas eram as que procurava: espelho das águas e do céu sem nuvens, separadas por uma incrível e nítida linha do horizonte. E quem sabe se alguns daqueles azuis não era o azul impossível do Jerónimo.

Soergue-se no seu sofá. É como se estivesse na sala de aula a ver aquela folha. Apetece-lhe ir à escola ver se encontra a folha amarrotada. Mas o Jerónimo deve tê-la rasgado meticulosamente.

Amaldiçoa a sua falta de atenção. Se tudo pudesse repetir-se tal qual, incluindo a trapalhice da Salome!

Sabe amargamente que isso não é possível. Aquele azul não voltará a repetir-se. Nem aquela linha do horizonte.

Conforma-se. Acordado, volta a prestar atenção ao rádio. Ouve o seu nome. Levanta o som e vê essa pura aula escoar-se do rádio

RIA, 2/5/1987



leituras do brasil



– Que estás tu a ler? Apaga o candeeiro e dorme.
Quando lhe sentia os passos, já não tinha tempo de apagar o candeeiro e fingir que estava a dormir. Escondia o livro debaixo do travesseiro e fingia-se a pensar.
A mãe ralhava-lhe mansamente.
– com que então a pensar na morte da bezerra? Vamos lá a dormir que amanhã vem o ti Conde, de madrugada, com a debulhadora.

Nada é pior que ficar sem saber como é que o herói vai resolver a situação. E durante o dia não havia hipóteses de ficar a saber. Com um bocadinho de sorte mas só lá para o toque das trindades, depois de dar comida ao gado e enquanto o irmão tirava o leite às vacas é que podia voltar à história e ficar a saber.

O irmão tirava o leite às vacas de cor e salteado enquanto cantava de cor as cantigas da moda. Não precisava da candeia. O pior era quando ele queria que lhe cantasse, pelo folheto da feira, as canções que ainda não sabia. As vezes que tive de cantar aquela do “Marinheiro do mar alto, olha as ondas uma a uma, …” até ele a saber cantar sem falhas.

Nos dias de maior expectativa pelo que se estava a passar no livro, jurva a mim mesmo que nunca mais começava outro livro. Aquele, já que o tinha começado, tinha de o acabar. Embora todas aquelas histórias se passsassem no Rio, Rua do Ouvidor ou do Catete, não lhes resistia. Não sabia se isso se devia aos assuntos das histórias ou ao simples facto de terem vindo naquela mala que o pai tinha enviado do Brasil, acompanhado da promessa de vir, ele próprio, logo a seguir.

Hoje à distância de 20 anos, sento-me a pensar no meu irmão que foi ter com o pai ao Brasil. Não voltaram mais, pai e filho.

Vejo o meu pai através daquela mala de livros todos destruídos, pasto dda estrumeira. Do meu irmão recordo as cantigas decoradas naquele tempo. Letras inteiras.

A minha mãe tem olhos maliciosos. E quando eu vou à aldeia, aqueles olhos hão-de dizer a propósito de qualquer coisa:

– Continuas a pensar na morte da bezerra.

RIA, 9/5/1987



felizmente doente


Estou feliz, hoje. Porque decidi que não sei, ou não me lembro, do sol. Melhor dito, não me lembro das suas medidas. Massa, densidade, brilho, temperatura, raio, distância da terra à lua, duração da sua vida, deixaram de me interessar. E não me lembro. Não quero saber.

Hoje para mim o sol é um raio que me apanhou em cheio, quando eu saí de casa. Saí de casa a correr e fingir que deixava o João Pedro para trás. E o João Pedro a correr atrás de mim quase se estampa, quando eu parei travado por aquele raio de sol. Lembro-me dele em todos os detalhes.

E deu-me vontade de ficar ali com aquele velho conhecido a bater-me nas mãos. Sim, é um velho conhecido aquele raio de sol. Dirá quem me ouve que só a ignorância pode falar assim. Mas eu quero ser por momentos ignorante de algumas coisas, para aceder a outra sabedoria. Concedo que este raio de sol me faz lembrar outros raios de sol. Concedo que isto não interessa nada. Mas não me perdoo, por não ter feito simplesmente o que era simples e natural. Não me perdoo não ser natural, e fazer as coisas que a vida social me exige ou pede e ordena. Ao menos hoje podia ter feito aquilo que gostava.

Sentar-me no passeio encostado à parede de casa, fechar os olhos e ficar por ali a ser acariciado pelo sol do dia e não por aquele outro que, a preto e branco, rechonchudo umas vezes, autopsiado outras, me apareceu nas aulas disto ou daquilo- E na astronomia, como se de uma supernova, igual a milhares de outras, se tratasse.

Para mim, o sol é uma recordação de manhãs de primavera encostadas à parede do alpendre da minha avó, com os olhos fechados e pouca conversa para fora.
A ver partir os outros para a escola ou para a terra.
Dias de tresorelho manso, de pequenas febres, de corpo amolentado, não se sabe por que combates interiores, é deles que tiro a minha ideia de sol. Sol como carinho sem ser pedido e sem pedir nada.

Hoje estou feliz, porque trago um raio de sol na cabeça, de que me lembro tão pormenorizadamente. A única sombra na minha felicidade está na culpa de não ter dito ao meu filho:
“Hoje não vais à escola, eu não vou trabalhar, vamos sentar-nos aqui a apanhar este solinho. Não perdes nada. Eu conto-te porque é que me deu esta vontade e talvez umas daquelas conversas de bruxas e lobisomens que minha avó contava, quando lhe dava a moléstia e se sentava ao pé dos netos adoentados, contra a parede do seu alpendre de nascente. E vais ver como é bom estar aqui umas horas sem ter nada que fazer, de olhos meio fechados, pouca conversa para fora, falas arrastadas.”

Tenho duas desculpas para a minha cobardia:

Em primeiro lugar, os meus vizinhos iriam falar comigo e lá se ia a minha manhã de silêncio e paz. Em segundo lugar, mesmo que me recusasse a falar, eles iriam pôr-se ali à minha frente a tapar-me o sol e a dizer-me que estar assim ao sol faz mal.

E é assim que eu, apesar de tudo estou feliz. Tenho a lembrança feliz e intocada dos meus tresorelhos (papeira é nome que nunca me deu jeito dizer) e das minhas manhãs de sol  e, por cobardia civilizada, não me decidi a tentar repetir essas manhãs que, tenho a certeza, me estragariam.

Além disso, deixei para os livros, dicionários, enciclopédias e televisão, o sol de toda a gente e, em particular, dos que se preocupam com o conhecimento do futuro. Também sou um desses. Mas hoje trago, aconchegado na palma da minha mão, escondida num dos bolsos da minha alma, o meu raio de sol. E  sobre o futuro, as histórias das bruxas, cientistas das minha ladeira e do meu tempo dos raios de sol únicos.

Estou feliz hoje. Troquei a memória das coisas que a vida e a ciência me deram pela memória de alguns dias em que faltei à escola.

RIA, 16/5/1987



um acaso feliz


Não foi por acaso que Palmira da Silva saíu de casa, se arrastou para o carro e arrancou como uma louca, acordando a sua sossegada rua. Nunca tinha acontecido tanto barulho.

O Senhor António Costa acordou e estremunhado olhou, por acaso, para o mostrador luminoso do seu relógio despertador e, registou no seu sonho que continuou persistente, as cinco e trinta piscadoras.

A mulher do segundo esquerdo, acordada desde sempre, ganhou coragem para se levantar e arrastou-se até à casa de banho, onde ficou a olhar pelo espelho as reflectidas olheiras. Pensou, durante um bom bocado, nas cores a usar para melhor as disfarçar. Ou para as tornar mais visíveis e carregadas de significado. Quando voltou para o seu vale de insónias ouviu o locutor falar das seis horas que se aproximavam e com elas um bloco de notícias.

A doce e cândida Josefina Campos passou a mão pelos cabelos, ajeitou a camisa de dormir, puxou mais para si o lençol e decidiu que o seu próximo sonho de amor seria com Omar Shariff fardado de doutor Jivago. Por acaso, ouviu uma porta bater, um carro arrancar com os pneus a guinchar e e vez do Omar Shariff apareceu-lhe Steve McQueen, a seu lado, numa fuga espectacular pela rua deserta do Canal de S. Roque e pela estrada da Barra.

O tranquilo Acácio Silva, depois de ter revisto o último golo do Porto e ter explodido de júbilo, acordou. Estava todo partido. Ganhou consciência de que tinha estado a fazer todo o jogo, que tinha andado aos pontapés, que tinha gritado, que tinha marcado mais golos do que no jogo real. Não tinha perdido uma única oportunidade. Havia de ser possível dizer como tinha sido possível ao Mayer e ao Juári. Estava todo suado.

Estendeu a mão para o lado da mulher, como por acaso. Sempre que acordava por qulquer motivo, procurava nesse gesto algum conforto e segurança. Não encontrou a mulher. Chamou baixinho: “Palmira!”

E, pareceu-lhe ouvir, ao fundo da rua, o seu carro. Não podia ser. A Palmira nem carta tem. Deve estar a fazer qualquer coisa – pensou. E adormeceu.

Acordou, de novo, com o barulo da porta da rua a abrir-se. Já eram onze horas. E o trabalho já era! Levantou-se feliz como um campeão europeu.

Na cozinha, encontrou a Palmira com um saco de gelo na barriga que o médico lhe tinha mandado pôr depois de verificar que ela não tinha nada partido.

Então, Acácio Silva lembrou-se, com todos os pormenores, daquele golo que o Mager tinha desperdiçado, mas que ele, por um acaso feliz, tinha concretizado com um bruto estilhaço.

RIA, 30/5/1987



O comboio das ideias


No dia dez de Junho, pelas vinte e uma e trinta, o professor João das Regras entrou para o comboio. Com a pasta numa mão e o saco da roupa lava na outra, procurou o seu lugar do costume: a um canto, junto à janela de costas voltadas para o destido do comboio.
O comboio estava ainda quase vazio. Não teve problemas em ocupar o seu lugar favorito. Mandou para o gradeamento, por cima da sua cabeça, o seu saco de viagem. Sentou-se com a pasta sobre os joelhos. Por momentos, parecia que estava a acariciar a pele lisa da velha pasta. De facto, estava a pensar no que havia de fazer naquela sua viagem de tranvia. Decidia. Tirar o seu velho caderno, onde escrevia os seus pensamentos íntimos de tranviado? Ou tirar o livro policial? Ou aquela revista com os seus artigos ilegíveis, que lhe davam a sensação de que não sabia nada do que andava a ensinar, umas vezes, e outras de que o gajo que escrevia aquilo estava a gozar com ele? Hesitava.

João das Regras levantou-se. Por momentos, passou a vista pelo compartimento. Lá estava sentada aquela mulher que costumava sentar-se, rodeada de caixotes, no hall de entrada e mantinha um sorriso teimoso. Carregada de silêncio e de solidão. Nunca tinha ouvido a sua voz. Mas no seu caderno de comboio tinha registado o som rouco e melancólico da sua voz e um ou outro longo monólogo que ele pressente que a mulher sussurra naquelas curtas viagens, entre a cidade e o apeadeiro da sua sua vida.

Não. Nenhum dos seus colegas professores vai no compartimento. Preferem levantar-se de madrugada, tomar o comboio dos sonâmbulos e chegar às aulas das oito e meia naquela corrreria desordenada dos professores do comboio. Há professores que vivem esse dia a dia de correr pelas paisagens entre a escola e o relógio longínquo da casa, onde sobrevive o seu cheiro cansado das partidas e chegadas.

João das Regras sentou-se. Abriu lentamente a pasta e dela retirou aquele caderno de capa dura, onde se juntam aquelas coisas tremidas. E não só os solavancos do comboio. Principalmente, de nunca saber o que lá vai escrever e escrever, em rápidas iniciativas, o que escorre daquelas criativas horas de tédio, encorpadas pela janela das paisagens mil vezes vistas. Naquele caderno estão todas as suas ideias. Afinal de contas é isso: está lá tudo. Quando quer ver-se realmente, João das Regras não olha o que o espelho lhe pode dar; lê o seu velho caderno de comboio, que mais ninguém poderá ler. Aliás nunca chegou a comprar espelho para o quarto onde vive os dias da sua semana de trabalho, rodeado por uma estante de poucos livros e alinhados cadernos de comboio, que foi coleccionando, desse tempo em que deambulava todos os dias na ilusão de que, desse modo, era mais garantido aproximar-se de casa. Agora jé nem sabe se isso lhe interessa muito.

Arruma o caderno. Fecha a pasta e pega no seu saco de roupa lavada. Até chegar ao destino, abraça a pasta e o saco, como se de filhos se tratasse. Podem não ser filhos. Mas são os dois lados de que é feita a sua vida: o saco de roupa é a necessidade fingida da viagem, a pasta com o seu caderno de mistérios é a própria viagem.

Quando chega a casa, manada o saco para cima da cama. Meticulosamente, tira as coisas da sua pasta. Vai ao quarto de banho. Passsa água pela cara e pela cabeça. Com os dedos ajeita o cabelo, como se alisasse o pensamento. Deita-se ainda vestido, ao lado do saco.

Adormece e sonha que nada disto é verdade. Sonha com o tempo em que marchava, vestido com a farda da mocidade portuguesa ou com a arrogância da raça. E com as considerações que faziam a respeito do seu nome que era o seu orgulho: João das Regras. No sonho canta o seu hino nacional de guerreiros. Tem baionetas nos olhos.

Acorda a tremer de frio a meio da noite. E vai escrever o sonho do seu dez de junho no caderno do comboio. Cambaleante de sono, imitando os solavancos do comboio, escreve.

Amanhã, nas aulas há-de falar do dez de junho e das raças. Da nossa raça de professores dos comboios: cruzados da educação e da cultura. Nem tanto da fé, porque esta lhe vai faltando. Cruzamentos de mulher com comboio, melhor dito, pensa João das Regras.

Mas amanhã João das Regras vai é meter o artigo quarto. Sem a fibra de um guerreiro, João das Regras vai acordar cheio de febre e totalmente constipado.

13/6/1987



a estrela marinha


Vi-a nascer. No curral, caiu da sua mãe para cima de um monte de feno, que eu tinha acarretado para ali, às ordens da velha mandona.
Raiso a partam que não me deixa ver o mais interessante – resmunguei, quando fui buscar o feno.
Quando se esparramou desajeitada sobre a sua cama, espantei-me como é que aquilo que nem parecia ter espinha, não se partiu todo com os puxões que o ti Zé Lamego lhe deu.

Passado um tempo, depois de ter passado pelas brasas, ao fundo do curral, vi a mãe lambê-la mansamente e vi como, depois de limpa, ela tentava pôr-se de pé. Que espectáculo mais divertido! Que esforços mais desajeitados, desesperados e, pensava eu, desnecessários!
No dia seguinte já se punnha de pé. E daí a uns dias dava cabeçadinhos nas mamas da mãe. Ao passo que o meu irmão, que tem quase um ano, anda por aí a gatinhar.

Quando ela começou a comer erva, ia vê-la esmordaçar umas pontitas. A mãe, que sem falar a ensinou, parecia que estava a rir-se daquelas desmioladas corriditas pelo curral com a erva na boca. E daqueles saltos e coices disparatados. Quando saíram as duas, mãe e filha, pela primeira vez, a mãe sem palavras pô-la nos eixos. Enquanto a minha mãe e o professor andam há anos a tentar pôr-nos nos eixos. E devo reconhecer que não têm tido grande êxito.

Não posso dizer que fomos crescendo juntos, porque em seis meses ela pô-se maior que eu em 8 anos. Mas eu fui acompanhando os acontecimentos em volta da amiga que vi nascer. E não há dúvida que se ela anda em alguma escola aprende depressa. E cresce. A minha amiga está destinada ao sucesso.

Quando apareceu aquele estranho homem com quem a minha velhota tinha falado na feira de Portomar, sempre acompanhada pelo ti Duarte, e olhou a minha amiga, eu bem vi como ele a admirava. Bonita, luzidia, sempre contente. E pronto! Negócio feito. A minha velhota devia levar a amiga às Quintãs, no dia seguinte.

Eu fui também. Não me lembro se ela se despediu da mãe, mas lembro-me que foi todo o caminho com gaiteirices, a parar aqui e ali e a forçar a brincadeira. Sem nunca se cansar.

Nas Quintãs, lá estava o homem da véspera. A minha amiga arranjou logo companhia. E não me ligou mais. Ficámos por ali um bocado. Quando apareceu o comboio dos livros, muito maior do que eu teria imaginado, fiquei embasbacado.mNunca me passoun pela cabeça viajar numa coisa daquelas. Aquilo é só para pessoas de outro mundo.
Quando o comboio começou a resfolegar, procurei com a vista a minha amiga, para ver se ela estava tão espantada como eu. Não a vi.

O comnboio tinha começado a andar finalmente. E, espantado, vi passar em frente dos meus olhos, a minha amiga dentro do comboio com outras companheiras. De viagem. Segui-a com os olhos. Até ela e o comboio se terem perdido pelo mundo que os meus olhos não viram. Nem eu imaginava.

Vim para casa macambúzio. O meu irmão bem me espicaçava para se eu me alegrava e brincava. Diz-me que não havia problema, que havíamos de arranjar outra amiga, que a vida era assim mesmo, e mais uma quantidade de coisas na intenção de me consolar. Ainda hoje ele conta como eu fiquei triste quando se vendeu aquela bezerra.
Mas eu sei que o que sentia e me fazia pensar tanto era o facto de em sete meses, aquela desajeitada que eu vi nascer ter aprendido tudo e, finalmente ter partido sem uma lágrima, a viajar pelo mundo. E de comboio.
E eu, com oito anos, com o rabo entre as pernas a voltar para casa, espantaralhado por ter visto um comboio. Imaginem se tivesse viajado nele. Raiso me partam, mais a raça de que faço parte. Que fraqueza. Até mete nojo.

RIA, 27/61987



a cabeça do medo


Disse adeus. Meteu-se ao caminho. Começou a cantar. Alto e desafinado.

Os lobos bem viram como ele estava nervoso e que cantava para afastar o medo.

Viu, ou imaginou que viu, os olhos dos lobos em volta. Ouviu, ou imaginou ue ouviu, os passos cautelosos dos lobos em volta.

Os lobos cheiravam-no e cheiravam-lhe o perfume enjoativo que o medo exala. O medo cheira à distância – sabem os lobos isso melhor do que ninguém. Fecharam os olhos para não se denunciarem. Não rosnam os lobos. Na escuridão, sem lua, os lobos não uivam.

Não, não viu lobos nenhuns. E recomeçou a cantiga. Para afastar os lobos dos seus medos. Mas pareceu-lhe tocar em qualquer coisa húmida e fria. Pensou que podia ter sido o focinho do lobo mais atrevido da alcateia.

Um dos lobos aproximou-se tanto que o homem lhe tocou. No focinho. O lobo estremeceu de medo a esse contacto. Podia ter estragado a noite a toda a alcateia, com esse acto impulsivo. Os outros lobos estacaram e o ar dos lobos ficou carregado da ameaça muda e cega que a alcateia mandou para o lobo impulsivo.

Sempre cantando, o homem parou, tirou o cachimbo e o pacote do tabaco, encheu o cachimbo com os gestos nervosos dos dois dedos treinados. Com o cachimbo na boca continuou a cantar. Cantar com o cachimbo na boca não bem cantar. Procurou os fósforos nos bolsos. Em todos os bolsos. E nada. Deixou-se ficar de cachimbo na boca, trauteou um verso de irritação e começou a andar mais depressa.

Os lobos sentiam o cheiro do tabaco. Sabem que atrás do tabaco vem o relâmpago do fósforo, que tudo cega inicialmente mas que acaba por tudo mostrar. Como se obedecesem a um sinal combinado os lobos alargaram o círculo, o cerco. Ouviram o homem a praguejar e souberam que ele não tinha encontrado os fósforos. Voltaram a apertar o círculo.

O homem teve a sensação de que tinha estado livre de medo, por alguns momentos. Deve ter sido a expectativa de uma fumaça bem puxada – pensou ele. Ou terá acontecido que na previsão do fogo os lobos se afastaram? – ironizou com o medo. Verdade ou não, isso durou muito pouco tempo. Com o passo apertado, continaua a caminhar, mas sente-se seguido e cercado. Canta, mas a voz sai embargada; mais parece que vai a chorar alto. Acaba por sentir-se pior só por se ouvir. Cala-se. Chupa o cachimbo, vigorosamente, como se respirasse por ele.

Os lobos aproximaram-se ainda mais, quando o homem começou a choramingar na canção. E mais ainda quando ele se calou. Mais ainda quando ele se apressou e quando ele começou a respirar ruidosamente pelo cachimbo. Estranham que ele ainda não tenha tropeçado nos lobos que lhe barram a fuga para a frente. Fazem prodígios aqueles lobos a andar sempre de lado e para trás. Sentem vontade de prolongar o cerco só pelo gozo que a perícia lhes proporciona.

O homem chegou ao fim da rua e virou para a viela. Sentiu-se em segurança, naquele beco sem saída da sua casa. Recomeçou a cantar, na esperança de que algum vizinho o ouça e venha à porta e a viela se ilumine pouco que seja. Tropeça. Deve ter sido nalguma soleira. Não pode ainda ser a sua. A sua porta está mesmo pegada ao tapume no fim do beco. Já não pensa que tenha tropeçado em algum lobo. Acelera.

Os lobos fizeram prodígios para dar a curva. Tiveram de apertar mais o cerco. Sentem o bafo uns dos outros. Um dos lobos tropeçou numa das soleiras saliente e não pôde evitar que o homem tropeçaasse nele. Já não acreditam que o homem não tenha dado por eles.

O homem parou ao fim do beco. Apalpou os bolsos à procura das chaves. Vá lá! Ao menos as chaves apareceram. Pega nelas, e continua o caminho, apoiado na parede.

Os lobos ouviram tilintar qualquer coisa. Não sabem o que é que o homem tem na mão e o que é que prepara. Desconfiados, tomam cautelas e preparam-se . Os lobos da frente bateram numa parede. Não podem recuar mais. Tensos, esperam o sinal.

O homem mete a chave na fechadura. Roda-a. Abre a porta, entra rapidamente e fecha a porta imediatamente. Acende a luz de entrada, tira o sobretudo, vai pela casa fora acendendo tudo quanto é luz. Na mesa descobre uma caixa de fósforos e acende o cachimbo.

Os lobos não perceberam. Mas sentem a falta do homem. Metem os rabos entre as pernas e dispersam-se. Contra a lua, que apareceu no céu, recorta-se o lobo que uiva. Como se de um sinal se tratasse, os lobos dirigem-se para a sede do medo. Planeiam o seu trabalho cuidadosamente na cabeça do homem.

RIA, 4/71987



deserto das ilusões


Antes de nos irmos embora, temos algumas falas por falar.

Presunçoso que nós somos, não podemos ir embora sem vos dizer que os principais problemas são estes ou aqueles e que o que se vai passar é aquilo que nós vimos dizendo que se vai passar e que se nada correr como fomos dizendo é porque alguém fez mal o que podia ter feito bem. E se outras coisas acontecerem sem terem sido previstas por nós é porque deus se distrai ou porque o imprevisível acontece ou porque não valia a pena prever o que não previmos.

Nós não nos enganamos. A realidade é que se engana a si mesma e, sem dar por isso, torna real o que não devia passar de coisa por si imaginada. Depois de falarmos na rádio da realidade, ela não se poderá queixar de que não foi avisada e acusada do que podia ser real e do que não devia ter sido outra coisa senão imaginação da realidade.

Que deus se compadeça da realidade e de todos os que têm de viver com ela. Com ela e com a eternidade que é outra que tal.

As sondagens disseram-nos que devíamos intervir neste processo. Mas é perigoso usar a alquimia das nossas palavras insensatas nestes tempos de eleições perdidas e ganhas por todos. Peerdidas por nós, de qualquer modo. Ficamo-nos por afirmações desprovidas de sentido, porque os homens das políticas têm gasto os sentidos todos. E não há razões fora disso.

Tão presunçosos que nós éramos. Antes de sermos o que somos afinal:

– casas habitadas de esperança desiludida, a quem se disse adeus no princípio do verão, e onde crescem todas as ervas naturalmente daninhas e sem qualquer alinhamento;
– adeus e abandono;
– capelas castigadas pelo vento do alto dos montes, peregrinações erodidas pela distância entre a crença e a desesperança, esta alimentada por estes dias que passam sem deixar rastos, cheiros de gado, rodados de carroças moventes e peregrinas.

Magnífica a nosssa opinião na passa disso.

Os professores tratam das crianças, guardam-nas à vista. Mas nunca o fazem, como o electrodoméstico professor faz com os seus filhos. Esclarecem desse modo a diferença entre o ar e a aragem.

Quando falam dos seus assuntos, os professores usam um disfarce, uma máscara irreal, um carnaval de motivações pedagógicas e de serviço público. Porque a educação trata da irrealidade. Ou porque neste mundo de ligações perigosas não há bem das crianças ou dos futuros homens sem bem dos pais e dos educadores. Diz-se que a felicidade é ensinda por pessoas felizes e é aprendida por crianças felizes, o que é o mesmo que dizer que a felicidade não se ensina e também não se aprende, nem é uma criança abandonada pela sorte dos pais e que seja fácil adoptar.

Um profesor feliz é uma solução de privilégio:
Os seu olhos fazem o cinema todo e viver com ele é uma sucessão de aventuras sem fim ou com fins felizes. Vários são os fins possíveis, mas só um é adequado e esse, o que lhe assenta, está definido desde as primeiras linhas da história. O título é tudo.

Eis como se pode denunciar uma deambulação de palavras e as folhas carregadas de sinais, mas papagaios voando tão alto que torna impossível distinguir se o que o ilustra é um desenho de Miró ou um trabalho colectivo do Jardim de Infância de Vagos.

Adeus. Eis como se diz adeus. O professor infeliz, que ensina a felicidade, passeia numa bicicleta puramente teórica, que ora funambula pelas badanas e margens de um compêndio de retórica erudita, ora se afunda no mar de chávenas fumegante, que lhe deram a beber nos dias em que enlouquece, e bêbedo se despede mais uma vez da vida. Cai em si, do alto da corda bamba esticada entre os dois mastros da cúpula do circo qe instalou no seu próprio coração, com quemem simesma e não abre mais os olhos. Porque sabe que espreitar a impossibilidade é deixar-se sorver no maestro, num redemoinho de almas pendas e incapazes de ser a eternidade qe lhes pedem.

As barcas dos mortos não são barcas de salvação, professor. Muda de vida se não és feliz. Não há regresso para o outro lado do canal, entre um e outro lado do universo há o fundo do mar e dos poços negros que povooam a escuriddão do universo.

A insónia já tomou conta de toda a imortalidade e ele cabeceia sem parar, como um relógiomabsoluto faz cabecear seu pêndulo no vazio, como uma galinha chinesa cabeceia grão a grão o caminho que a engorda e dá para o matadouro.

O animal que nós somos ou perseguimos, morre quando apetece ao perseguidor. Devolvemos ao conforto da água dos úteros das suas mães os peixes pequenos que não nadam em cardume.

O mesmo faz o professor. Feliz não guia cardumes, nem os come. Alimenta-os para o futuro. Sociedade virá que os coma. Cria-os para que comam e sejam comidos. Essa é a finalidade da sua vida.

Mas todos os professores são infelizes. Os sikhs, os xihitas, os maronitas, os brigadistas italianos, os etarras, os deseperados deste mundo andaram pelas escolas, muitos deles foram os melhores alunos e por isso, ganharam consciência até ao esquecimento da dor. Os polícias, os militares, os esquadrões que povoam o mundo da violência também andaram na escola, foram formados, frequentemente nas melhores escolas dos mais avançados países amigos e tiveram o êxito que a escola tem para dar, mais o êxito dos tarzans desta selva da humanidade. E andaram nas escolas os grandes bodes expiatórios da humanidade, por exemplo, os presumidos responsáveis da bomba de hiroxima, de chernobyl, de Jopal. Sabemos que foram os melhores alunos e que deles exala o triunfo sobre o futuro.

O professor diz adeus. E com ele, dizem adeus todos os que se despedem de si mesmos.

RIA, 11/7/1987



última explicação


Há quem tenha a certeza. Há quem prove a certeza que tem. Há quem diga tantas vezes o que quer afirmar que passa a convencer-se disso e a convencer quem o ouve. Há certezas que resistem aos maiores vendavais. As vozes que as proclamam são cristalinas, vibrantes e transmitem convencimento.

Mas há vendavais de verdade. E esses destroem tudo quanto é ou era certeza ou convencimento.

Há quem não tenha a certeza.,Quem tenha dúvidas para esclarecer. Pôem o dedo no ar só para perguntar. E que não se ficam pelo primeiro esclarecimento. E voltam a perguntar. Há quem queira encontrar uma explicação, mesmo que provisória, e que pôe o dedo no ar para ajudar a encontrar um caminho para pensar. As vozes que assim perguntam e começam a explicar ou a contar uma experiência que talvez ajude são melancólicas e suaves, confundem-se com o fundo musical do voto, quase pedem desculpa por serem voz de alguma pergunta. São fundas as vozes das tentativas de encontrar o caminho, de entre os caminhos que se bifurcam ali mesmo onde a voz está. São vozes que avançam, mas não deixam de parar nos cruzamentos e em cada cruzamento deixam transparecer novas dúvidas, ou a mesma. Desconfortáveis as vozes que assim falam. Não ajudam nenhum sossego.

Há quem só constate e leia de forma tao directa que se entende à primeira, sem qualquer esforço. As vozes que lêem esses textos claros e simples são a pele dos textos que só descrevem a pele das coisas. Não há nada dentro do próprio texto. O texto não tem outros nervos que não sejam as regras gramaticais e o visível acontecimento a olho nú. São vozes calmas, dizem-nos que ficamos completamente informados e que podemos repetir, no café ou na roda de amigos, o que ouvimos com toda a segurança.

Há quem olhe e queira ver o dentro e o fora, os nervos e a pele, e os nervos à flor da pele e que, por isso, não encontre uma receita. Nem consiga escrever direito sobre o que vê. Os textos de quem tem tal defeito não são claros e simples. Mas deixam tudo por explicar. Como se nós tivessemos de os completar com o nosso pensamento, os nossos nervos, o nosso gosto.
As vozes que assim nos falam são também suaves, mas não parecem deste mundo e parecem não se preocupar com este mundo. Talvez as devêssemos calar, porque elas brincam com a nossa gramática dos sentidos e misturam tudo, ligam umas coisas a outras, falam de uns assuntos contando histórias passadas com outras personagens que nem existem. E não acabam as histórias que começam. E hsistória sem fim incomoda. Há quem acredite em tudo de modo geral que não acredita em nada de particular. Há quem fale de tudo de modo tão geral que não fala de nada em particular, com se fossem as palavras por dizeer que não os deixam calar. Pôem o dedo no ar para fazer vibrar o ar, como se o mundo estivesse sempre por acabar, ou estivesse sempre a começar e cada passo da obra osse perfeito só no instante da sua criação, e o passo em frente merecesse nova considerada como se de um simples novo passo dependesse a salvação da perfeição , que logo deixa de o ser. E as vozes que assim falam fendem o ar como o morcego de Rilke com o seu voo fende a porcelana da noitinha.

Haja quem os entenda! Mas quem os ouve?

Usam as vozes e a música para isto. Inquietam-se. Comunicam-me inquietação. Eles dirão que é bom, que não querem outra coisa. Dizem-se, os meus amigos e companheiros, que eles são chatos e que quando eu os vir de dedo no ar lhes corte o dedo e o pio e o ar. Que deixe a amargura para eles e que o mundo é como é e que o que tem que ser seja! Que esses gajos ainda pôem em causa a educação e a cultura e que se lhes dás ouvidos ainda ficas como eles. Não penses nisso! – dizem-me os meus amigos.

Eu acabo por ouvir às escondidas estes melancólicos campeões das dúvidas sobre o ensino, a educação, a cultura e o mundo. Descubro alguns clássicos por detrás da voz e ei-los tristes e melancólicos como eles. Às vezes, forço-me a reconhecer profundas ironias, mas todas carregadas de cansaço. Cansaço sem patrão, diga-se!

Hoje eles deixam de põr o dedo no ar! Naquele horário, talvez venha a pele do desporto ou da músia variada que também é bem precisa. Mas eu preparo-me para ter saudades deste texto da dúvida e do perguntar. Começo a dizer-me que, afinal, talvez ali palpite a vida. Porque esta também é assim sem certeza nenhumas.

Pus-me a explicá-los. E eles se calhar não queriam ser explicados. Tirei-lhes algum do seu encanto.
Adeus, de dedo no ar, pus-me a dizer adeus. Despedindo-me me despi. Adeus.

Doem-me as cruzes e a barriga da perna direita. É da mudança do tempo. Apesar disso, viva o novo tempo!

RIA, 18/7/1987