círculo virtuoso


Carnaval


1


Ao quadragésimo dia, Deus condoeu-se da chuva. Noé não podia esconder o seu estupor perante a novidade. As gotas caíam agora lentamente, cada uma com o seu pequeno pára- quedas.

E estes chuviscos pós-diluvianos tomaram o lugar das mantas de água. Ainda antes de parar de chover, já Noé tinha fechado o seu guarda chuva. Foi até às celas da Arca e soltou todos os animais. Por fim soltou os filhos e a mulher. E começou o carnaval.


2


Uma coruja voou contra a escuridão que cobria o espelho das águas. De repente, alguém acendeu uma luz e a coruja estampouse. O rato que trazia nas garras caiu então na banheira em que Luva ele Cozinha tomava o seu banho. Ao ver o rato, Luva de Cozinha saíu a correr pela casa, nua como Deus a deitou ao mundo. O que safou o rato foi o seu sangue frio de rato de cano de esgoto. Nadou até ao fundo, abriu o ralo da banheira e deixouse levar na corrente. A coruja ainda lá está encostada à parede, com os olhos brilhantes mas cegos, cheiinha de sais de banho.


3


D. João II virou-se para Marramaque e ameaçou:
– Vou mandar-te para morreres sozinho como um cão no Poio do Judeu.
Marrarnaque tornou-se mais corcunda, mais anão e mais feio e disse imitando o rei:
– Vou mandar-te para morreres sozinho com um cão no Poio do Judeu.

Desatando a correr, como se fosse a fugir do rei, Marramaque foi estatelar-se no colo da dama de honor do casamento que ali estava a preparar-se. Deu um beijo no seio da dama, entretanto descoberto. E o rei acabou por lhe mandar com uma perna de porco nas trombas.

Meio combalido, Mamarraque meteu a perna de porco no saco e fugiu para Loures. Durante três dias reinou sobre aquela vila como D. Marramaque, o Bobo.·

Quando D. João II descobriu, já Marramaque tinha embarcado numa nau para o Poio do Judeu. Lá o foi buscar D. João II, com um nó corredio ao pescoço. Quando viu o rei, Marramaque não viu outra exigência a fazer senão aquela do mundo às avessas nos três dias de Loures. O rei não podia aceitar, mas fê-lo par do reino e consultor civil da Causa Militar da Residência da Ré Pública. Marramaque passou a usar muita brilhantina, penteou as suas barbas e aos costumes disse cavaco.


4


Faz hoje anos que morreu seu avô – galhofava D. Rosa, equilibrada na perna direita enquanto com a esquerda coçava a sua orelha direita.

D. Maria I hesitava em perdoar aquele desaforo à sua boba. Mas D. Rosa já se sentava no leão de pedra e abria a sua boca desdentada para dela sairem bolas de sabão.

A raínha ainda correu para ten tar agarrar a boba, mas esta, dando mostras de uma agilidade espantosa, já estava pendurada de cabeça para baixo e com as duas dobras das cortinas simulava o martírio do Duque de Aveiro. D. Maria I acabou por desatar a rir-se. O cronista não soube apurar a razão de tanta gargalhada real: as maluqueiras de D. Rosa e suas raquíticas pernas ao léu, ou as traquinices do seu avô brincando com o sol de pombal e de oeiras?

D. Rosa parecia que ia cair de cabeça. Mas deu uma cambalhota e caiu com a boca mesmo ao pé da orelha de D. Maria I e começou logo a cochichar. Q. cronista suspendeu a pena e a tremura nervosa apoderou-se dos seus lábios. Ele era o primeiro a não se esquecer do que tinha escrito às ordens do desterrado de Pombal.


5


Quando os estudantes cercaram o Arlequim, a mando da praxe, só pensavam pregar-lhe um susto e tirar-lhe aquela máscara negra que ele sempre usava.

Mas acabaram por exagerar, principalmente para vencer o terrível medo que se tinha apossado de Arlequim e lhe dava forças sobre-humanas. Quando Arlequim caiu finalmente, violentamente agredido, só o Rui Sérgio ficou a apoiá-lo. Da fenda aberta na porcelana da máscara negra de Arlequim, escapava-se um fio de sangue. Rui Sérgio tentou tirar a máscara de Arlequim. Não era propriamente uma máscara, verificou então. Era um rosto.

Enquanto chorava, com o coração destroçado, Rui Sérgio construia a sua máscara negra e aprendia todo o dialecto bergamasco. Quando abriu os olhos para a luz do sol, virou as costas às aulas e passou para dentro de la Commedia delI Arte.


6


Colombina traz a sua máscara negra e nela pregado o seu olhar de serviçal. Esconde-se atrás do anúncio, enquanto os dois rapazolas passam cuspindo pastilhas elásticas que ficam coladas no céu.

Colombina não sabe de que tem medo. Mas algumas notícias de que há quem persiga os que usam máscaras negras provocamlhe calafrios quando se tem de deslocar pelo mundo dos personagens. Já pensou em tirar uma das máscaras brancas de um outro presonagem da Commedia, mas duas máscaras é demais.

Colombina chega finalmente à falésia altíssima. Atira-se para fora desta Commedia della vita. Abre as asas e fica a pairar. Quando finalmente abre os olhos para o público, percebe que já é uma personagem da Commedia dell Arte e fica tranquila.


7


Arlequim vestiu o seu fato de losangos de várias cores. Saltou do anúncio em que o querem prender e disse trinca e cinco palavrões no seu dialecto bergamasco. Afivelou a sua bela máscara negra, antes de sair para a rua e para o seu novo emprego.

Arlequim já foi expulso de cinco empregos que tinha ganho por méritos próprios, porque não aceita tirar a sua máscara enquanto os outros também não tirarem as deles.

Hoje, como é dia de Carnaval, Arlequim não será despedido no seu primeiro dia de trabalho.


8


Os professores não vão em Carnavais.

A professora levantou o dedo e apontou a porta da rua. O menino, mascarado de diabo, saiu da sala, balbuciando desculpas. A professora marcou a falta com tinta vermelha e registou qualquer coisa na caderneta.

Só depois disse: Meninos, hoje vamos representar o auto da barca do inferno.!


9


Surdo de Jesus linha nascido num dia aziago.

Seu pai, Margarida de Campos Lodosos, tivera uma zanga com sua mãe, Márcio Sax Alto e Borgonha, momentos antes de esta ter dado à luz. A violenta discussão tinha origem na oportunidade do nascimento do mais tarde baptizado Surdo de Jesus. De facto, Margarida de Campos Lodosos entendia, e não deixou de o dizer a Márcio, sua mulher, que se deveria adiar o nascimento até dai a seis meses, mais pelo calor. Márcio contrapôs que não era bom ter um filho de quinze meses, além de que já andava cansada de o transportar e, ele ou ela, andava batendo à porta da pele cada vez mais insistentemente, avisando que ansiava pela luz. Não podia ser. Ela, Márcio, já tinha decidido dar à luz. E seja o que Deus quiser! – rematou Márcio. Margarida gritou-lhe que, se o bébéIosse dado à luz durante aquele dia, não era ele que se consideraria pai, até porque se lembrava muito bem de ter regressado, fazia agora dois anos, da Arménia onde tinha estado a fazer escavações durante seis dias. Márcio não se conteve sem lhe dizer: Antes assim, que ser filho de uma múmia!

Margarida tinha saído de casa, batendo com a porta. Estrondosamente! – disseram os vizinhos. Passados minutos, Márcio dera à luz uma linda menina. Tinham-lhe posto o nome deSurdo, parser muitoparecída com opai e porque tinha dado provas de não ter ouvido a violenta discussão que precedera o seu nascimento. O pediatra tinha garantido que Surdo não guardara qualquer traumatismo das dramáticas circunstâncias do nascimento e, à parle aquele ar apalermado, era uma criança saudável e apta a fazer qualquer guerra da Crimeia que entretanto alguém decidisse desencadear, para dar sentido às crianças nascidas na época. Dessa primeira consulta a respeito da saúde de Surdo, datam os primeiros arrufos entre a mãe de Surdo e o pediatra espeleólogo. Nunca se confirmou ocaso de Márcio, mãe extremosa de Surdo, com o pediatra Arturia Espinhosa de Jesus. Mas as más línguas atribuem o apelido de Jesus de Surdo ao facto, nunca provado, de haver uma antiga ligação entre Márcio e o pediatra.

Até aos sete anos, Surdo de Jesus cresceu rodeada de todos os carinhos maternos mas sem ter conhecido pai. Margarida de Campas Lodosos escavava agora uns campas de arroz na Tailândia, procurando vestígios da passagem dos americanos pela guerra do Vietnam. Essa intervenção americana era referida em diversos filmes de épocas remotas, mas suspeitavase que tal não passaria de ficção. Quando Margarida voltou a casa, num interregno do seu trabalho de arqueólogo, já Surdo andava de capacete. Só devido a esse facto e porque Surdo chegava e partia velozmente na sua motorizada é que Margarida nunca pôde verificar as tremendas parecenças que tinha com a filha enjeitada.

Surdo não deu grande importância àquele velho que estava em sua casa. Não sabemos se foi por causa do capacete que não ouviu as explicações patéticas da mãe, 011 se era verdade aquilo que toda a gente sabia – que S urdo era surda.

Márcio teceu duas mantas para o acampamento de Margarida, enquanto este bebia chá e mascava scm parar alguns chicletes que tinha desenterrado na escavação da Tailândia onde afinal sempre encontrara vestígios de desertores americanos e russos. Um dia Margarida de Campos Lodosos voltou a partir, agora para o Afeganistão, onde esperava encontrar vestígios de russos e com certeza de americanos.

Quando Surdo viu a fotografia de Margarida, tirada na cerimónia de entrega dos troféus da primeira eliminatória de arqueólogos, percebeu que aquele devia ser o seu pai. Surdo, surda a todos os apelos, pegou na pá e na picareta e foi desenterrar O seu pai e o seu passado. Encontrou-o a comer mariscos na cratera de uma bomba atómica aberta a trinta quilómetros do atol de Máláviáda, entre duas indígenas jovens, as irmãos Momo.


A tentação do atalho


A Morgadinha dos Canaviais põe com muita frequência um travesseiro debaixo da cabeça do meu amigo Paulo Gamelas.

Paulo Gamelas queixa-se com igual frequência que a Morgadinha lhe dá sono e pede ao seu professor que o dispense da companhia de tão fastidiosa criatura que o persegue em caminhos de leituras que não desejou. Chegou ajurar que não adormeceria a ver a Morgadinha na Televisão, apesar de ela ser o que tinha adivinhado, aquela que aconchega o travesseiro a quem, sem qualquer respeito, lhe diz na cara que ela só inspira fastio e bocejo. Mas o professor de leituras não esteve pelos ajustes e proferiu a sentença cruel: toda a leitura exige um esforço e nada do que se aprende vale a pena se não tiver por base algum sacrifício. E concluiu, para o angustiado Paulo, que só mais tarde é que ele compreenderia a importância desta leitura e só então lhe agradeceria por não o ter poupado.

Paulo ficou completamente arrumado com este último argumento, porque não sabe nada do futuro e fica estupidamente gelado quando alguém se apresenta a dizer-lhe que vai perceber no futuro a utilidade dos seus aborrecimentos de hoje.

A Morgadinha ouve todas estas discussões e sorri para o professor de leituras, enquanto pisca o seu olho mais cúmplice, que é também o seu olho mais inocente, para o Paulo Gamelas.

Convence-o, de piscadela em piscadela, a segui-la até à página 101, para uma folga de comendadores, conselheiros, brasileiros, irmão, primos falsos, boticário naturopata e apaixonado doentio. Só então, com o Paulo Gamelas sentado num bucólico muro coberto do musgo que já fez de musgo noutras cenas, como a do presépio, é que a Morgadinha lhe conta o que se passou nos Canaviais. Foi com a voz reduzida a um murmúrio que ela conclui u a história, dizendo: Se eu tivesse contado isto ao Júlio, o romance teria sido outro.

Paulo Gamelas promete à Morgadinha que a vai acompanhar até ao fim do livro. De vez em quando, volta a jurar-lhe que da sua boca ninguém saberá

a verdade e ela beija-o e ensina-lhe um atalho para cortar umas quantas páginas. Paulo Gamelas nunca encontrou o fim do livro. Pela mão da Morgadinha foi ter sempre aos canaviais.

E homem de palavra, nunca respondeu às perguntas do professor de leituras sobre a Morgadinha. Para não se descair, preferiu sempre manter um silêncio obstinado sobre o livro. No fim do período, o professor de leituras escandalizou o Conselho de Turma. Propôs-se dar zero ao Paulo Gamelas. Felizmente que a Morgadinha insistiu na defesa do Paulo e o Conselho optou por atribuir uma nota que permitisse a recuperação noutras leituras, tendo em vista o seu aproveitamento global nas diversas disciplinas.

Acordado, Paulo Gamelas levantou-se. Estranhou a almofada e alguns restos de folhas de cana secas presos à camisola. Levantou o livro do chão. Mais uma vez tinha-se fechado ao cair. Dirigiu-se à estante, poisou o livro e pegou no resumo da obra. Pensou num dos atalhos do sonho e sorriu.


Em louvor da citação


Quem me ensinou a nadar? – perguntava insistentemente a cantora. E respondia: Foi, foi o peixinho do mar.

Maria Felizbela não ouvia. Absorta, procurava lembrar-se da citação apropriada para confirmar aquela ideia que ia encher uma página A4 da sua tese. Acabou por desistir e fez o que era costume quando não encontrava a citação. Escreveu qualquer coisa como: “Como disse um autor famoso (ninguém vai admitir que não sabe quem disse) o treino não é mais do que uma das vertentes do ensino. De facto, o professor deve, após.ter introduzido um determinado conceito ou uma nova técnica, apresentar alguns exercícios que sirvam para treinar a nova aquisição e para a consolidar.”

E acrescentaria:
“Mas é preciso combater a ideia errada que alguns professores têm de confundir”treino” com a aprendizagem centrada noaluno, cm contraposição ao ensino esse centrado no professor.O treino não é.por si só, aprendizagem, nem é a outra única face do ensino.”

Maria Felizbela escreve coisas destas todos os dias. Habitualmente, nem precisa de escrever estas frases.

De um modo geral, a sua prosa resume-se a escolher algumas partículas apropriadas para ligar duas citações de autores conhecidos e a numerar convenientemente as citações.

O seu trabalho é transcrever as citações que guarda num ficheiro que manipula com alguma languidez nas tardes de sábado.

Não havendo a profissão de “transcritor”, optou-se por atribuir a Maria Felizbela, antiga professora, a profissão de investigadora de ciências da educação ou talvez por formadora de formadores, ou talvez qualquer outra coisa.

Também não interessa O nome. O que interessa é que é um emprego. E como é suposto que pensa profundamente, ninguém lhe pode exigir muito mais. Quando dava aulas aos miúdos e àqueles adolescentes insuportáveis a vida era uma canseira.

Agora tem consciência que trabalha muitas horas por dia. Sempre a pensar como é que se dão essas aulas e a investigar a melhor maneira de dar essas aulas.

Aos professores no activo dirá: “Façam assim, assim e assim. Devem evitar levantar a mão direita quando a ideia a exprimir se formou na bochecha esquerda”

Os professores adoram os investigadores que tanto se preocupam com O magistério e que publicam as melhores receitas coleccionadas depois de copiadas em variegadas obras.

Maria Felizbela é feliz, porque ajuda os outros. Ela está convencida da imprescindibilidade do seu trabalho. Muito raramente se lembra que não conseguiu fazer aquilo que pretende investigar.

Maria Felizbela é bela, porque tem um sorriso sossegado por trinta citações. Maria Felizbela é Maria que é nome de portuguesa: As portuguesas usam muito esse nome, continuaram a usá-lo mesmo depois de terem passado de moda os brincos de filigrana e os cordões de trinta voltas.

Maria é nome de mulher séria e pode também ser nome de “pedagoga”. As pedagogas não têm culpa. O nome não tem culpa. Maria Felizbela também não. Aliás, sempre se disse que quem não sabe, ensina. Então porque não levantar o dito e dizer o outro e mais moderno modo do dito: Quem não sabe ensinar, ensina a ensinar.

Não, não é verdade que Maria Felizbela tenha consciência que o seu trabalho de citar não tem utilidade. Até porque tem. O professor que, coitado não tem dinheiro para comprar o livro estrangeiro, nem pachorra para o procurar na biblioteca, gastará o seu dinheiro numacolecção de resumos bem portuguesa. O trabalho de Maria Felizbela é gratificante, de facto. Até é patriótico. Maria Fclizbcla tem andado a pensarem copiar as suas fichas de leitura para o computador. Vai ser mais fácil copiar as citações de uma obra para outra e ninguém vai olhar para ela como ultrapassada pelas novas tecnologias. Já no tempo em que dava aulas, usava muitos meios audio-visuais para não ter que estudar. Lia as citações que projectava. Nunca percebeu porque é que os alunos não ficavam maravilhados com a sua sabedoria. Era verdade que não sabia muito bem oque andavaaensinar, mas sabia fazer as transparências e sabia lê-Ias.

Foi assim que aprendeu a arte.

Maria Felizbela ouve a música: Quem me ensinou a nadar? – perguntou a cantora.
E ela respondeu: Foi, foi o peixinho do mar!, cantando para si, feliz e bela.
Levantou-se. Com ternura, Maria Felizbela beijou o ficheiro.


Desporto


1


Formei uma equipa, ainda era puto. Treinávamos os nossos pontapés-martelo e a resistência das cabeças contra a parede da garagem de um puto mais rico. Umas vezes jogávamos com bolas de trapo e meia outras vezes com pedras da calçada. Outras vezes com moedas e com botões que arrancávamos da blusa da farda da mocidade. Quase mandámos o muro abaixo e na altura lembro-me que não fomos compreendidos.

Hoje ressuscitam os nossos antigos procedimentos para deitar abaixo o muro de Berlim. E, por isso, fomos reabilitados. Pudémos voltar a falar da habilidade de disparar feijões pelos dois canos da espingarda do nariz.


2

Outra vez tentei ser massagista de uma equipa de mouros que a nossa equipa de cristãos defrontava numa trégua estabelecida para afiar as navalhas de ambos os lados. Fui acusado de lesionar gravemente a ponta de uma lança ou um ponta de lança e dei origem a combates mais sangrentos do que aqueles que travávamos em defesa das respectivas fés e impérios .

Entre as condições da nossa rendição uma cláusula estabelecia que os cristãos dispensavam os meus serviços e me entregavam para ser supliciado pelos infiéis.

Felizmente que estes não fizeram nada disso e me tomaram ao seu serviço para ser árbitro em’ jogos entre as selecções dos países irmãos na fé, mas inimigos no futebol.

Fui também treinador de uma equipa de camelos. Em pleno deserto, ensaiámos algumas das tácticas que chegaram até aos dias ele ouro do futebol americano. Ainda agora, seguindo esse antigo exemplo, todas as armas secretas são ensaiadas no deserto.

Assisto a tudo isto, com a indiferença característica dos pioneiros.


3


Também praticávamos outros desportos, no meu tempo. Só muito recentemente percebi a sua nobreza.

Quando o barro amolecia, esgalhávamos alguns ramos e pinheiro e montados nas pequenas ramadas deslizávamos pelas encostas de S. Romão. Talvez porque sujávamos a roupita que levrivamospara a catequese, é que o nosso desporto de inverno só recolhia aplausos das mãos da família no nosso pêlo.

Também jogávamos à pedrada, ao coice e à guerra no ar. Fazíamos de cavalo e cavaleiro.

Hoje há quem pratique desportos parecidos, mas os olhares dos animais são mais compassivos e inteligentes que os dos cavaleiros.


4


Devo confessar que não percebo de futebóis. Até costumo dizer que não vou em futebóis. Mas não deixei de jogar quando foi tempo disso. Não me lembro de ter acertado na bola, mas lembro-me que me acertaram nas canelas. Tenho as marcas nas canas das pernas. E joguei descalço nos barros de S. Romão, contra bolas e cardos. E joguei calçado, participei até num torneio internacional. E até já fui qualquer coisa como manager de uma equipa de futebol de salão, tendo apresentado reclamações contra uma organização destemperada que prejudicou seriamente a minha equipa. Também já fui claque, em mais do que um país do mundo.

Uma vez fui claque da equipa da minha escola que se deslocou a Cantanhede, para perdermiseravelmente. Às tantas, desvairei. E em vez de puxar pela minha equipa, comecei a gritar impropérios contra a minha avançada que se escondia atrás do nosso guarda redes e contra a minha defesa que se escondia atrás da balisa do adversário. Só me acalmei quando o meu ponta de lança tirou uma das suas botas e tentou deitar abaixo uma das maçãs mais vermelhas do meu rosto.

Atirei pedras. E cheguei a agredir um capitão, atirando o apito com um sopro mais irritado, quando acreditei que fazia passar um penalty contra a equipa adversária. Fui preso a uma ceia de leitão. Posso falar de futebol. Não posso?


5


Desde ontem que ele anda no ar. Fala, fala sem parar. A mulher disse-lhe: – Oh! homem! acalma-te.
Ele fala em surdina:
– As mulheres não percebem nada. Mais te valia estar calada! Não era para ela ouvir, mas ela ouviu e pensou:
– Vamos tê-la boa: se o Beira-Mar ganha vai ser piela pela vitória, se o Beira Mar perde vai ser piela para afogar o desgosto.

O pensamento não era para ser adivinhado, mas ele adivinhou-o, enquanto puxava a grade de cerveja para o pé da telefonia. Nervoso, acabou por perguntar em voz alta demais:
– Um homem já não pode beber uns canecos depois de uma semana a trabalhar?

A mulher calou-se. Magicou que era bom que o Beira-Beira ganhasse. Ele acabava por beber uns copos, mas ficava contente e era bom quando ele estava feliz. O campeonato de felicidade acabava por sobrar para ela. E ela gostava dele, até do que sobrava dos combates.
– Oh, homem baixa o som. Ainda falta muito para o relato.
– Que é isto? Oh, Artur, estão a falar de nós. Põe um bocadinho mais alto, já agora.

Subiu os três lanços de escada, sempre a correr. No segundo já ouve a telefonia. Com o coração a bater “Beira, Beira” pára para descansar. “Não pode ser o TóZé. Ainda é muito cedo. O Artur deve estar a preparar os copos” – pensa o Emiliano, enquanto compõe o cachecol auri-negro.

Emiliano bate à porta. Ausónia vem abrir com o seu ar de ave, óculos muito graduados e embaciados da água quente do lava-loiça. É a mão que está a limpar no avental que lhe é estendida. Entra.

Na sala de estar, em cima do sofá, lá está a águia negra. Emiliano olha para o Artur, Artur olha para o Emiliano. Caem nos braços um do outro, espalhafatosamente.

Ausónia vê a cena. E lembra-se do tempo em que hesitava entre os dois amigos, sem dizer sim a nenhum deles. No mundo da sua juventude só havia aqueles dois rapazes completamente malucos, sempre a gritar, a dizer disparates e a dar gargalhadas malucas enquanto corriam atrás um do outro pela avenida do parque no fim dos desafios de futebol, e se esqueciam dela. Tremoços, pevides e anedotas. E ela sentada, entre os dois que fingiam agredir-se sem parar.

Eles gostavam um do outro. E do Beira-Beira. Ela gostava deles, daquela energia.

Quando fez 17 anos, aceitou o namoro do Artur. Durante uns tempos, aconteceu-lhe passear sozinha com o Artur. O Emiliano afastara-se. O Artur parecia então um homem sério e reservado, traçando planos para o futuro. E, apesar de toda a ternura do Artur, nesses passeios de namoro, ela sentia a falta das gargalhadas brigonas dos dois. Continuava a ir ao futebol com o Artur e de vezem quando com o Artur e o Emiliano, mas eles tinham crescido de repente e a vibração como que tinha esmorecido. Alugaram a casa, ainda antes de se casarem. Mobilaram-na e forraram algumas almofadas a amarelo e negro. O Artur trouxe a telefonia de solteiro. Quando o Beira Mar jogava em casa iam sempre ao Mário Duarte. Quando o Beira-Beira jogava fora, se não aproveitavam para dar o passeio, ficavam em casa a ouvir a velha telefonia. Mesmo depois de terem comprado a nova aparelhagem, para ouvir o Beira, o Artur ligava a velha telefonia. E vinha sempre o Emiliano, com dois saquinhos: um com pevides, outro com tremoços. E voltaram as gargalhadas, os murros, os palpites, as anedotas.

Ausónia olha para a sua juventude. Para os seus dois homens.
Eles gostam um do outro e do Beira-Beira. E gostam de mim, cada um à sua maneira – murmura para si mesma.

Assim pensava Ausónia.
E despejou a primeira g arrafa de cerveja nos dois copos, enquanto o primeiro tremoço era disparado direitinho ao coração da águia. E desejou mais uma vez a vitória do Beira Mar, mesmo que não seja o melhor em campo.

Da telefonia escorriam os diálogos e até os seus pensamentos. O tipo que fala está a gozar comigo – pensou Ausónia. E sorriu.
E pensou, repetindo o espelho da frase batida do Artur: “Eles não percebem nada disto.”
Mas interrompeu-a a meio e disse, agora em voz alta: “Mas tem piada que falem disto.”

Artur e Emiliano, que estavam envolvidos numa conversa sobre mulheres e jogadores e mulheres de jogadores e treinadores, entreolharam-se quando ouviram Ausónia. E desataram à gargalhada.



Amigo


Manuel Caldeira de Sousa caminha sem pressas. Na manhã.
À mesa do Palácio, troca algumas palavras cortezcs com o Sr Amadeu. Abre a sua pasta pequena. Meticulosamente, coloca sobre a mesa algumas folhas de papel e escolhe a caneta.
Com cuidado, sem pressas, Manuel Caldeira de Sousa escreve. Cumprimento-o. Falamos de algumas pontas soltas. Logo mais nos encontraremos na escola e ataremos as pontas.

Com a sua letra bem desenhada e respeitando uma organização experimentada, Manuel enche uma página. Dessas linhas bem escritas respira-se alguma emoção estética, mas principalmente retira-se uma satisfação íntima de coisa legível, ordenada e pronta para si e para os outros.
Manuel Caldeira de Sousa, professor de Matemática, escreve assim Matemática.

E escreve assim tudo. Livros de termos, horários, recados, despachos. Para nós, os outros, percebermos tudo sem grande esforço.
Não nos aflige com pressas, mas não nos aflige com coisas ainda por fazer. Não se adia. Quando é preciso trabalhar muitas horas, trabalha muitas horas metodicamente. E nós, os outros, sabemos que ali está a companhia discreta de todos os dias, realizando todos os dias os trabalhos da nossa rotina. Sem cair na nossa tentação de os deixar para amanhã. E ajudando-nos quando a nossa tentação foi grande.

Manuel Caldeira de Sousa compreende-nos. Desculpa-nos. Ele e a Maria Teresa chegarão no momento mais oportuno para nos resolver o problema mais complicado. Ela desperdiçará uma energia imensa, uma ânsia de ajudar os outros, uma inteligência viva, uma compreensão rápida dos diversos pontos de vista. Ela saberá resolver o puzzle, da adequação das directivas à realidade de cada um dos colegas. Ele permanecerá no fundo de alguma sala, elaborando minuciosamente um quadro, passando a limpo um horário. Sem pressas, para que o objecto das nossas pressas esteja pronto atempa.

Ela ouvirá as reclamações, procurará entender com toda a paciência, construirá as pontes impossíveis. Ela ouve as recriminações, as insinuações, as tolices … e fará o seu trabalho apesar disso.

E ele estará lá. Sempre esteve lá, mais ao fundo da sala. Escolhendo uma caneta para isto, outra para aquilo, com as suas borrachas, os seus clips, as suas lâminas.os bocadinhos de papel colante. Para que fique bem escrito e pronto a ser lido, como um jornal mural laboriosamente construido.
Ele sempre esteve lá, para nos ouvir as urgências e as impaciências. Ele sempre esteve lá para nos fazer a lista dos precisos e nos devolver algumas palavras tranquilizantes. Mas não entorpecentes. E quando isso nos foi preciso, para nos contar os instantaneos da sua vida, os exemplos como contra-exemplos.

o Eduardo Júlio Bizarro contou-me que as aulas de Matemática de Manuel Caldeira de Sousa assim fluiam: escrita cuidadosa e metódica, com economia científica e sem grandes deambulações. Discurso rigoroso e despido de toda a retórica. Matemática simplesmente vivida, transmitida, discutida e exercitada em limites precisos.
Matemática ensinada. Assim, sem mais. O Eduardo Júlio, professor de Matemática, não se preocupa em esconder o seu modelo. Assim, sem mais. Só temperado pelas coisas do seu tempo e algumas preocupações que não despreza, mas menospreza.

O António Aurélio, professor de Matemática, disse que nunca conseguiu tratar por tu o Caldeira.

Carinhosamente, chamamos-lhe o Caldeira. Os Caldeiras. Mas nunca usámos outras formas de tratamento senão «professor Caldeira, Doutor Caldeira»
A primeira vez que reparei que dizia «o Caldeira» ou «o Aurélio» percebi que tinha deixado de ser o que vem de fora. Primeiro dei por mim a pensar que envelhecera. Depois percebi que só tinha passado para o interior de um círculo virtuoso.

Afinal os protagonistas desta história são protagonistas desta história.

Se o José António Moreira quisesse entrar bastaria dar-lhe dois dedos de fala para dizer: “Uma caneta rotring não pode ser usada assim. Se fosse 0.1 era um desperdício. Também não saberiam escrever com ela.” E deixar entrever Manuel Caldeira de Sousa escrevendo com a errada posição de caneta deitada, sem a mais leve hesitação.

Mesmo eu, o que escreve, vivo dentro da história das deambulações pela vida de Manuel Caldeira de Sousa.

Manuel Caldeira de Sousa levanta-se da mesa, depois de ter arrumado muito cuidadosamente os seus papéis e as suas canetas. Eu ainda fico uns momentos a conversar com a manhã.

Na última 5ª feira de Janeiro, Manuel Caldeira de Sousa levantou-se. Doseou os analgésicos de modo a poder ir dar as aulas. Viveu a última 6ª feira e viveu o último Sábado de Janeiro.
No Domingo, talvez por não ter aulas, Manuel Caldeira de Sousa pôde descansar e esquecer-se que tinha alunos à sua espera. E morreu.

Dei por mim a sentir-me dorido e triste, como se tivesse arrancado um pedaço de mim, um pedaço guardado. E a segunda feira foi chuvosa e fria. Um vendaval esticou uma corda na minha alma, por onde se passearam sonâmbulas guinadas de dor.

A terça feira amanheceu fria mas brilhante e sem chuva. Acompanhei o Manuel Caldeira de Sousa num último passeio pelas ruas de Beja. Foi-me recordadndo algumas pontas soltas de antigas conversas. Deu-me contra exemplos contra a dor.

Ri-me de alguns tiques virtuosos que o António Luis Matos Santos ou o Nelson Mota ou a Aurora pensam que não têm. Percebi que afinal Manuel Caldeira de Sousa vai estar onde sempre esteve. Ali, ao alcance da mão. Ele está onde sempre esteve.

Herdei uma cumplicidade a respeito de canetas, da preocupação com a escrita. E uma pontada de espírito de serviço que se amaldiçoa, mas vive connosco, tão naturalmente como se a nossa alma fosse casa sua. Aí está o Manuel Caldeira de Sousa limpando uma caneta antes de a colocar com cuidado no estojo.tornando O lado de fora do passeio, comose fosse preciso proteger-me e dar-me a mão para atravessar a rua.

Ouço um roçar de asas, num canto do coração. E abeiro-me de uma conversa calma sobre um problema que tem a forma de núvem. Manuel Caldeira de Sousa conta como foi que resolveu há muitos anos um problema que tinha a forma de nuvem.

Ele está onde sempre esteve.

Páro. E parto as minhas unhas a querer pendurar-me na janela da eternidade. Depois, bato com o guarda chuva na pedra solta da alma e recomeço a caminhar.



Estatuto


1


Aureliano Virguloso pousou a chávena. Isménia Túlia já tinha lido a notícia duas vezes. Entredentes, comentou qualquer coisa como: De qualquer modo é aos Sindicatos que se devem as coisas boas do estatuto. Ricardo Soares, do outro lado da mesa, procurava chamar a atenção para um poema que acabava de sublinhar. Como ninguém lhe ligou, Ricardo Soares voltou a página do livro, enquanto levava a chávena do Aureliano à boca. Sebastião da Gama abriu os olhos sonhadores e disse:

O estatuto é um papel pintado. Não vai ser um estatuto que melhorará a nossa profissão. Os professores vão continuar a trabalhar com as suas mesmas cabeças e olhando para os alunos com os seus mesmos olhos. O que seria preciso mudar? A nossa visão.

Frederico Zuído afagou maquinalmente a mão de Isménia Túlia e disse: Que interessa o estatuto se vamos continuar a dar aulas naquelas salas estragadas e vamos continuar sem ter tempo para conversar com os alunos. Mal acabo as aulas, começo a minha maratona Albergaria-Porto. Isso não vai mudar.

Aureliano Virguloso verificou que a chávena estava vazia e grunhiu irritado.

Ricardo Soares fechou o livro e disse: Acabou a hora de atender os pais.


2


QUEM QUER FAZER ALGUMA COISA DESCOBRE UM MEIO

QUEM NÃO QUER DESCOBRE UMA DESCULPA – disse. E continuou:

Até agora os colegas diziam que o sistema não merecia qualquer esforço. Eramos mal pagos, não havia condições de trabalho, nem sequer tínhamos um estatuto de carreira. Agora que temos um estatuto, devemos começar a agir no sentido de provar que os professores são capazes de realizar um trabalho que projecte uma imagem realmente digna do nosso magistério. Só desse modo poderemos fazer jus ao estatuto que obtivemos após tantas lutas. Não é o estatuto ideal, pois não, mas foi o que conseguimos de melhor. Temos de nos organizar para alterar a actual situação das escolas. É preciso criar um movimento potente que contrarie a ideia que tudo ficou resolvido com a publicação do estatuto e lance a exigência de novas escolas. Apesar de tudo há condições para abrir novas perspectivas para a educação em Portugal.

Assim falava Zeca Trusta. Entre os dois toques da campaínha e com um rissol na mão.


3


Uma manhã, Afrânio Pinto encontrou-se com o seu periquito. Travaram um diálogo interessante.

Disse o Afrânio: Não te tenho visto. Andaste fugido.

Ao que o periquito respondeu: Não é que não goste de si, meu benfeitor, mas até os periquitos precisam de experimentar alguma liberdade e autonomia.

Afrânio calou-se, por momentos. Quando voltou a falar, foi para perguntar:

Queres voltar para a gaiola?

O periquito, de asas caídas, respondeu:

Pim. Pim.

Afrânio explicava pacientemente que não se diz PIM, quando sentiu a queda de mais um PIM na cabeça.


4


Feliciano de Castilho tacteou à procura do jornal. Sem abrir os olhos, Feliciano de Castilho pôde adivinhar o grande título de sexta feira:
Governo aprova estatuto de carreira para os educadores e professores do básico e secundário.
Imaginou o título a vermelho. E não imaginou mal.

Embrulhou-se no roupão e levantou osolhos até à altura do lugar do espelho. Deu uma arrumadela à sua comprida barba e com os dedos das suas mãos nodosas revolveu a cabeleira. Às apalpadelas encontrou e vestiu as calças, a camisa, o colete e a casaca. Maquinalmente ajeitou o laço.
Passou água pelas mãos e pela cara. Maquinalmente limpou-se ao lenço das mãos.

Com a bengala na mão, Feliciano de Castilho saiu pela porta da frente. O miúdo escanzelado que o observa todos os dias àquela hora e lhe costuma passar a rasteira, a que Feliciano já se habituou, grita: Professor é cego.

Enquanto se dirige para a escola, Feliciano de Castilho sorri e cumprimenta ~I esquerda e à direita. Os vizinhos já se habituaram e não ligam. Feliciano não vê ninguém enquanto caminha, mas tem um tique cumprimentador e as pessoas que por ele passam murmuram “Bons dias, Sr Professor. Hoje vai muito contente!”
De facto! – pensa Feliciano de Castilho. E revê o título do jornal que o seu colega de quarto, São Bernardo, lhe levou logo de manhã, como de costume. Apetece-lhe dizer: “Vocês não sabem! Vocês não sabem! Vocês nem imaginam o que este estatuto vai modificar.”

Ao entrar na sala de aula, ainda a pensar no estatuto, Feliciano de Castilho não se lembrou da cova de lama que ali se formou com as primeiras chuvas, tropeçou e caiu. Os rapazes riram-se.
Feliciano de Castilho procura limpar-se o melhor que pode. Agora o jornal está cheio de lama. Feliciano de Castilho imagina o título a vermelho, agora com raiva.
Os rapazes ficaram lá fora, enquanto Feliciano de Castilho verifica, com amargura, que o pequeno radiador continua avariado.

Chama o São Bernardo, seu companheiro de quarto, e abraça-o.

Quando entra o delegado e lhe comunica que se vai suspender o funcionamento da sua escola, Feliciano de Castilho não reage. O delegado pergunta-lhe que diabo é que lhe aconteceu para estar assim todo molhado e sujo.

Feliciano de Castilho não responde. Chama o São Bernardo, seu companheiro de quarto e seu melhor aluno, mete o jornal de lama debaixo elo braço, pega na bengala e sai. Volta a tropeçar na poça de lama. Os rapazes riem-se enquanto ele tenta salvar o resto do jornal. “Comó Camões”, dizem os rapazes.

Nem pensa na Dulce. Felizmente que o médico insistiu com ela para que ficasse a convalescer em casa dos pais.

Dulce de Castilho acordou de manhã cedinho. Também ela leu a notícia ela aprovação do seu estatuto de carreira.
Já não apanha a sua boleia para Fenícia. Está calada. Pode ser que alguma coisa melhore – pensa com os seus botões – e mantem-se em casa, como manda o médico.
Que estará o Feliciano a fazer agora? Gostava de poder falar com ele, mas só no fim de semana.
Terão mudado o aquecimento do jardim de Fenícia? E vêm-lhe, de novo à memória, aquelas horas em que queimou a cara e as mãos para evitar que as crianças se queimassem. Com a cara queimada pôs as crianças fora da sala e mandou-as para casa, antes de pedir ajuda à colega da primária.

o estatuto terá mudado o sistema de aquecimento da sala do jardim? – pergunta Dulce de Castilho, enquanto as lágrimas lhe queimam a sua nova pele.



Ida e volta


Franqueava-se um grande portão de ferro e, antes de entrar no grande, edifício, percorria-se uma estrada rodeada por bancos vermelhos, plantados nas margens de um grandejardim, mais ou menos selvagem,em que cresciam palmeiras ao lado de grandes macieiras e outras árvores de grande parte. Do meio da relva destacavam-se duas esculturas de ferro. Uma delas estava muito corroída pela chuva. Adivinhava-se que devia ter sido uma mão rasgando a terra e que nessa luta teria perdido quatro dos cinco dedos de tubo metálico.

De ambos os lados do edifício, dentro dos muros, adivinhavam-se grandes superfícies pavimentadas, de onde voava uma vozearia juvenil.

Ao edifício tinha-se acesso por um outro grande portão de ferro. Desembocava-se, então, num grande átrio de pé muito alto. Em grandes placards podiam ler-se instruções e informações de actividades.

Amaral Dias Nunes parou no átrio. Hesitou, por momentos, antes de se dirigir a uma funcionária alta e magra, muito morena, que parecia estar ali plantada para controlar as entradas.

Tossiu. A funcionária virou os seus olhos negros e brilhantes para o intruso e ficou à espera. Amaral Dias Nunes tossiu de novo, como se fosse para aclarar a voz.

De facto, Amaral Dias Nunes tossia para ganhar tempo. Mas a funcionária olhava inquisitorialmente e Amaral não pôde deixar de se apressar e perguntar, em voz menos segura do que tinha ensaiado, onde é que poderia obter algumas informações. A funcionária olhou-o de cima para baixo e disparou:
– Quais informações?

Amaral Dias Nunes não soube imediatamente o que responder. Não sabia muito bem o que perguntar e ficou-se a sorrir com os olhos piscos.
A funcionária deixou de esperar pela resposta à sua pergunta, pegou numa vassoura, que ele não tinha visto, ecomeçou a varrer um átrio que lhe parecia muito limpo.

Amaral ficou por instantes a olhar para os gestos enérgicos da funcionária que parecia ter-se esquecido da sua existência. Quando lhe pareceu que aquela funcionária fardada já não se lembrava dele, Amaral caminhou para o corredor, lentamente, sempre à espera de ouvir a irada voz da funcionária a perguntar-lhe para onde é que ele ia. Mas não aconteceu nada e ele progrediu no corredor. Virou na segunda porta à direita, que estava aberta, e espreitou.
Lá dentro, num gabinete pequeno para tanta gente, várias pessoas falavam ruidosamente, como se ralhassem umas com as outras.

Amaral ficou um pouco intimidado, até que descobriu, ao fundo, sentada e debruçando-se sobre uma montanha de papéis, a sua velha amiga, Alves de Campos. Era oque tinha pensado. Aliestavaelaouvindoos outros sem ouvir, meio perdida por detrás daquela mesa enorme, escondida por um monte de papéis.
Durante uns momentos, esteve para ali a espreitar a sua amiga. Teve tempo de ver os vincos nos olhos pequenos e o cabelo branco. E teve tempo de ver a distância que o separava da sua juventude.
Por fim, tossiu. Alguns olhos voltaram-se para ele, mas só por momentos, enquanto não retomaram a animação da conversa, cortada por algumas gargalhadas.

Finalmente, viu os olhos de Alves dos Campos a fixá-lo por detrás dos papéis e ouviu a sua voz:
– Entre, entre! Diga lá qual é o seu problema.

Amaral Dias Nunes entrou hesitante e avançou por entre as conversas. Quando chegou perto do fundo da mesa, murmurou para a figura pequenita de Alves dos Campas, mergulhada de novo na montanha de papéis:
– Olá, Alves dos Campos!

Alves dos Campos ouviu o murmúrio. E estremeceu:
– Não pode ser!

Só uma pessoa podia lembrar-se de lhe chamar Alves dos Campos e essa estava perdida na sua adolescência. Olhou de esguelha para o recém chegado. Não o reconheceu imedia-tamente, naquele bigode branco, nos óculos redondos, na calva luzidia. Disse:
– Como disse? – E levantou-se, ficando defronte do intruso. Intruso?

De repente, estavam defronte um do outro, de mãos dadas. E começaram uma conversa lenta sobre tantos anos sem se verem e como é que ele a tinha descoberto ali. Dali saíram para o corredor e para o átrio.

A funcionária fardada viu passar os dois, disse “Boa tarde, sctôra” e voltou para dentro da sua posição de vigilância aparentemente agressiva. Só mais tarde reparou nos dois, ali sentados a conversar no banco, de mãos dadas. Deve ser um irmão da setôra – pensou, pois toda a gente sabe que a setôra não é casada. Passados uns tempos foi comentar com a telefonista e ficaram as duas a espreitar a cena, pela janela do PBX.
Houve momentos em que lhes parecia que a setôra encostava a cabeça no ombro daquele velhote e, também lhes pareceu, que ela chorava. Não sabiam o que haviam de fazer. Nem sabiam se havia alguma coisa a fazer.
Na hora de assinar o correio, viram passar uma funcionária da Secretaria que foi trocar umas palavras com a setôra. Esta levantou-se e entrou na escola.

Amaral Dias Nunes manteve-se sentado no banco vermelho. Puxou de um cigarro e ficou a olhar as núvens de fumo, pensativo.

Alves de Campos assinou várias vezes o seu nome A. de Campos e quando acabou, disse:
– Vou sair. Não sei se volto hoje. Não deve ser preciso nada. Volto amanhã.
E saíu, depois de pegar na pasta. Passou pela telefonista e disse:
– Até amanhã!

Amaral Dias Nunes já se tinha levantado. A mão de Alves de Campos acariciou-lhe a cara e, lado a lado, saíram para a rua.

Mil olhos nas mil janelas viram partir Alves de Campos com o desconhecido. Nunca a tinham visto sair tão cedo.

No dia seguinte, viram entrar a setôra, serena como sempre.
Os estudantes repararam que a voz da setôra estava mais vibrante, mas, fora isso, não notaram nada de especial e não tiveram coragem de brincar, como faziam sempre. E bem lhes apetecia perguntar sobre o que tinham ouvido dizer do namoro da setôra.
As colegas reparam que havia qualquer coisa de novo, mas não tocaram no assunto.
A funcionária do expediente reparou que a setôra assinava agora Margarida Campos. Pela primeira vez, assina como mulher – pensou e sorriu. A setôra reparou no sorriso e sorriu, no seu modo tímido.

Amaral Dias Nunes não voltou nesse dia, quando todos o esperavam. Nem nos dias seguintes.

Uma das colegas da Margarida Campos não pôde deixar de insinuar uma pergunta e esta respondeu enigmaticamente:
– O Amaral e eu fizémos uma viagem aos nossos 19 anos.
A colega insistiu:
– E então?
Margarida sorriu e disse:
– Fizémos a viagem de ida e volta, minha querida.
– E na volta?
-Ele ficou na mesma estação de sempre. Eu voltei para a escola. – concluiu Margarida.

Com os dedos, Margarida ajeitou o cabelo e sentou-se.
A reunião com a Associação de Estudantes ia começar e, Margarida de Campos, ainda tinha muito que fazer.



Aldeia


1


A rapariga andou toda a quaresma agasalhada com uma samarra de gola de raposa. Aparecia nos ofícios da tardinha (ou noitinha) sem estar embrulhada como as outras mulheres que se embrulham em xailes negros e grossos.

De cabeça descoberta, a rapariga assiste ao ofício. O padre não deve perceber que é uma mulher, senão já a tinha posto para fora da igreja.

Do meu canto, vejo-a bem. A vela do altar da Senhora das Dores ilumina-lhe os olhos e a boca. Tentei rezar ao mesmo tempo que ela, olhando-a fixamente. Depois deixei de rezar e passei a tentar adivinhar a que palavras o” movimento dos seus lábios corresponde. Não me parece que seja a oração que todos estão a rezar. Ainda antes de acabar o ofício, aproximo-me da porta estreitinha por onde saem os homens e maIo padre nos dá o último olhar de pastor e se ajoelha para sair para a sacristia eu tresmalho a correr para a saída das mulheres. Vejo-a partir e vou atrás dela como uma sombra.

Sigo-a pelo rasto louro do seu cabelo iluminado pelo luar. Fico sempre parado na entrada do carreiro para onde ela vira. Hesito e fico ali uns momentos, enquanto a perco de vista.

Foi assim toda a Quaresma. Ela nunca me viu. E eu nunca confessei isto a ninguém.


2


Hoje é o dia de lua cheia. Nos barros, por detrás do cemitério, vêem-se pequenas chamas movendo-se como se fosse uma procissão de pequenas velas a vir de cima do monte até quase junto do cemitério.

As bruxas juntaram-se. Estão nuas e ensebaram-se umas às outras, especialmente ensebaram as covas dos braços. As mais velhas acenderam os pavios dos pêlos dos sovacos das mais novas. Então a ti Celestina, a mais velha das bruxas dos barros de S. Romão, abre o braços e começa a batê-los como se fossem asas. Grita: Voa, Voa, por cima de toda a folha. E eleva-se no ar, graciosamente.

As outras imitam-na. Pode ouvir-se ao longe uma cantilena:

Voa, voa por cima de toda a folha ….

E enquanto as bruxas voadoras evoluem em círculo no alto dos barros, sob a direcção da ti Celestina, a Maria Deolinda corre pelos barros abaixo, gritando a frase motora e batendo com os braços.

Acaba por se estampar contra um silvado que ladeia o caminho. Toda arranhada, nem se veste. Vai para casa, cheia de vergonha e deita-se na enxerga de solteira.

O ti João Santo, esquece a lepra, levanta-se da cama, enche o balde de água e corre a apagar o silvado incendidado, mesmo ali ao lado de sua casa.


3


Rais partam a ti Ana Rendeira, mailos espíritos que a acompanham a penar por este mundo! – gritava a li Francelina.

Temos de ir à bruxa, Manel! É o Augusto que nunca mais caminha e agora o raio do poço que arrunha e leva o boi para dentro dele com o engenho e tudo. É o raio da ti Ana Rendeira qu’anda por aí para nos atentar.

Tá bem, mulher. Quando houver pouco que fazer vamos ú Carregosa. Mas deixa passar o S. Miguel.

Agora, que tinha começado a Quaresma ali estava ela sózinha na bruxa, com o Augusto ao colo e a ser perseguida pela alma da Ti Ana rendeira que, feita vassoura, não obedece à raio da bruxa e a persegue à vassourada. O estupor cio Manei bem pode no acreditar em bruxas. Já apanhou o barco pró Brasil.


4


O João Ângelo subiu para cima do telhado escorregadio. Não se preocupa muito em não fazer barulho. Dali, encostado à grande laranjeira que pousa uma parte do seu carrego de fruta no telhado do ti António Seroto, João Ângelo começa por comer uma laranja calmamente descascada com os dentes. Quando acaba e depois de mandar um monte de cascas para o sítio do silvado em que nos escondemos à espera, é que começamos a ouvir o trabalho metódico de arrancar laranja a laranja e encher o saco. Quando lhe dá na veneta, manda-nos uma laranja em cima. Faz um barulho cios diabos – parece-nos dizemos todos à urna: cheecc, o que só aumenta o nosso nervosismo.

Só quando tem o saco cheio, é que o João sai do seu esconderijo e de saco às costas começa a descer pelas saliências dos adobes que parecem surgir debaixo dos pés do João. Ainda antes de correr para o caminho ladeado de silvados, o João grita: Adeus Rosa Serôta da minhalma. Não rezes tanto.

Ouvem-se risos femininos e o ralho do ti António a perseguirnos pelo caminho de lama.

Ofegantes, paramos na casa da eira onde o Mário Sapateiro tem a oficina e começamos a comer as laranjas. Sobram sempre algumas laranjas, que o Mário Sapateiro oferece ao ti António Serôto quando este vem de manhãzinha matar o bicho à estrada. O ti António Serôto não deixará de gabar as laranjas do Mário Sapateiro.


5


Nas noites dos dias de jejum, as raparigas juntam-se na sala. Acendem o candeeiro, mas com pouca torcida. Sentam-se pelo chão deixando algum espaço entre elas. Cobrem-se com aqueles montes de trapos que vão começar a rasgar em longas tirinhas. Riem-se com gargalhadinhas cúmplices.

Daí a algum tempo, como se fossem atraídos pela luz que tremula, chegam alguns rapazes. O namorado de uma delas senta-se ao seu lado e puxa os trapos para cima de si mesmo. Os outros rapazes ficam hesitantes alguns momentos, até que como se tudo tivesse sido destinado antes, distribuem-se nos lugares sobrantes entre as raparigas que cantam nervosamente enquanto rasgam os trapos. Daí a pouco todos os rapazes estão cobertos de trapos e fazem verdadeiros prodígios de contorcionismo para manter o tronco bem separado das raparigas enquanto as pernas procuram tocar as pernas das raparigas por baixo daquela manta de trapos por rasgar.

Quando a velhota que parece estar ali por acaso se distrai, as mãos de rapazes que rasgam afoitam-se pela farpela das : cachopas. Estas fingem-se muito iradas e dão cotoveladas. Quando a velha volta os olhos para este lado da vida, ouvem-se novas conversas e nascem risos de disfarce. Mal disfarçado! – sorri a velha, lembrando-se das rasgadelas das Quaresmas da sua juventude.


6


Ó Arsélio, vai ó ti Ismael comprar uma chaminé pró candeeiro. Vai já. Manda assentar. – gritava o João.

Tá bem. Tá bem. E se quando a mãe chegar, ficar danada? Ela no deu orde. – atreveu-se a falar o pau mandado.

Perseguido pela tenaz que tinha partido das mãos do João ângelo, Arsélio começou a correr comuma alma danada e num repente já tinha galgado a estrada e ofegante pedia uma chaminé ó ti Zé vendas. Este deu-lha e disse pró Ismael: Aponta aí uma chaminé.

Pra quem? gritou o Ismael. Prá tua cunhada Francelina.

Um homem bem posto, cuma gravata às bolinhas, saiu do meio dos homes que estavam a falar e a beber, e olhou o miúdo sujo. E voltou à conversa quéra ele que estava a pagar as despesas da conversa.

O Arsélio tomou a berma da estrada e correu até casa. Quando chegou a casa, a mãe já tinha chegado. Não ralhou, nem lhe perguntou nada. Disse-lhe: Vai-te lavar. Vê se surras bem essas mãos e a cara questão encardidas.

Arsélio já cabeceava depois de ter debicado, da bacia, as batatas com molho de carne frita. Ouviu a voz da mãe: Já comeste Manei? A mãe tinha os olhos brilhantes enquanto falava com o home bem posto qu’há bocado o tinha olhado na taberna. Devia ser o pai vindo do Brasil, pensou. E foi-se deitar atrás dos outros irmãos. Nenhum dos filhos disse nada. No celeiro, antes de se meter debaixo dos cobertores, bebeu um golito de cachaça.


7


o Ti Manel virou-e prá mulher e disse: Hoje vamos a Ílhavo a tirar umas fotografias. A Francelina no disse nada, mas ficou danada. “Com tanto por fazer e aquele malandro a pensar em ir tirar fotografias. Mas tá bem, ele é quem manda. Deve estar pra sir embora outra vez. E nem água vai!” Acabou de dar a lavage ós porcos, atirou pró galinheiro um braçado de couves, e dirigindo-se a casa começou a gritar pelos dois filhos mais velhos. É Augusto! É Armanda! venham cá! Onde raio se meteram esses estupores?

Teve de gritar mais até eles aparecerem, cada um de seu lado. Ó primeiro que’apareceu enfiou-lhe o focinho na bacia e começou a esfregá-lo. De vez em quando o miúdo resfolegava e tirava a tromba da áuga, mas para lá voltava logo de seguida. A rapariga evitou o ataque, começando ela mesma a esfregar a tromba com todo o vigor.

Quando os tinha prontos e já tinha vestido a sua blusa de crepe nova, disse: Tamos prontos pra partir.

Com cuidado atravessaram a estrumeira e saíram do pátio. O ti Manel pegou na biciclete e subiram até à estrada. Já na estrada, pegou no miúdo e puxou-o para o suporte da biciclete, passou a perna por cima do quadro e segurando a biciclete inclinada, ajudou a mulher a instalar-se no quadro e a ajeitou-lhe a filha ó colo. Com um pé no pedal e com um empurrão do outro, Manei pôs a bicileta em andamento prá fotografia.



Ventura da Silva


Se eu tivesse escrito um livro na minha língua, gostaria de lho ter dado a ela para traduzir. Porque eu trilhei a minha língua na porta da sala, as palavras do meu livro, se livro existe, são intraduzíveis.

Se eu tivesse plantado uma árvore no árido pátio da minha alma, gostaria de lhe ter lembrado para que ela a regasse com a água das chuvas.

Se eu tivesse rezado a oração que em sonhos rezo, recitava-lha para que ela lhe desse outra entoação e então talvez Deus a ouvisse.

Se eu tivesse decorado as paredes da minha sala com os retratos dos meus antepassados, apresentar-lhos-ia um por um, e talvez ela me ajudasse a reconstruir a minha memória das coisas que não admito ter vivido. .

Mas os meus antepassados não tiraram retratos, eu não rezei, não plantei a árvore, nem escrevi o livro. E é por isso que estou desamparado.

Ventura da Silva tem passinhos miúdos. Trá-los sempre com ela. Um em cada bolso.

Convido-a para beber um café, dou-lhe o braço e subimos alguns dos degraus que faltam. Brincando com os passinhos miúdos.
As aves que saltitam à nossa frente são os olhos dela.
Ventura da Silva ri-se de mim, com gargalhadinhas miúdas.
Enquanto bebe o café, em pequenos golinhos, Ventura da Silva fala-me do livro que vai traduzir. Eu, em troca, dou-lhe um círculo virtuoso que uso pendurado da orelha esquerda. E ela promete que vai ler o meu destino, disperso no ar dos gestos. Para isso, agarra-me nas mãos e verifica, linha por linha, as palavras alinhadas mas por dizer.

Ventura da Silva pergunta-me pelo abraço que lhe tinha prometido e eu tiro uma frase de dentro do meu chapéu: “Agora que já te vi os olhos e o riso dos olhos posso mandar-te um abraço”. Ventura da Silva diz que fica à espera.

Quando ela virou as costas, a vida continuava como até ali. Mas eu estou melhor do que antes.Talvez um pouco mais leve. Para o provar escrevo um abraço que só Ventura da Silva pode aceitar, porque ela sabe como é difícil escrever abraços e sabe que abraços se dão com os braços, ou com as mãos, ou com os olhos. Para provar que estou mais leve, abro o meu chapéu. E começo a subir, primeiro, lentamente, para depois, rodopiando loucamente, desaparecer rapidamente no céu.

Ventura da Silva pode trair o meu livro. Ou seja, pode reescrevê- lo. Ficará sempre melhor depois disso. Ventura da Silva, professora de Inglês, pode sempre regar a planta que eu não plantei. E pode, se conseguir ler os lábios da alma, murmurar a oração que eu nunca tive coragem de recitar acordado. E se Deus me ouvir então, Ventura da Silva será a primeira a saber.



S. Tomé


1


O meu amigo cubano deu-me o braçado de havanos e a garrafa de rum. Não me disse grande coisa. Não me abraçou.

Mas eu passeei-me por toda a cidade capital a fumar aqueles havanos, como quem passeia o abraço de um irmão.

As ideias discutem-se. Mas um abraço, não.


2


Uma bicicleta chinesa era o que eu mais queria.

Jorge Vacas prometeu ir pensar no assunto. Um comerciante nunca diz que não vende. Em S. Tomé não há nada, mas um comerciante português pode sempre vender alguma coisa. Mandou esperar um momento, enquanto ia atender a mulher do camarada presidente que não queria ou tra coisa senão uns cigarritos de contrabando, esguios e muito americanos.

E arranjou-se uma bicicleta chinesa por duas mil dobras. Mas também se arranjou um rádio, dois relógios, uma máquina fotográfica e o diabo que carregue o Jorge Vacas.

Devo confessar que nunca gostei tanto de andar de bicicleta pasteleira como em S. Tomé. E que nunca gostei tanto de ser enganado como pelo Jorge Vacas, português, comerciante de loja vazia que não tinha mãos a medir. Nunca vi vender tanto a quem tão pouco tinha. Pelo menos à vista.


3

A nêga ia passando pela minha barraca sem nem reparar. Ondulante. O movimento do seu corpo ou seu corpo ficava a pairar, desenhado no ar, depois de ela passar.
Gritei: Vai um tirinho?

Ela olhou-me. Trespassado pelos olhos negros, vi-a avançar para mim, pegar na espingarda e apontar bem para onde tenho o coração.
Não sei se disparou. Tenho a bala, dentro do peito, como uma língua de fogo.



Cabo Verde


Critiquei-o. A minha posição parecia-me correcta, naquele momento e achava que tinha o direito de me irritar para a defender.

José Vicente Lopes dizia-me baixinho, com a sua incrível paciência, que não tinha pretendido irritar-me, mas que devíamos ter cuidado relativamente à crítica ela directora do liceu. Era claro que ela não tinha razão, mas não era conveniente entrar em choque com as estruturas.

Eu explicava-lhe que, fazendo aquilo que ela queria, nunca teríamos jornalismo juvenil livre, que não educaríamos ninguém e que isso não era o que os estudantes cabo-vcrdcanos mereciam. Eles mereciam ter o direito de criticar o que achavam errado e nós devíamos garantir-lhe esse direito. Nós iríamos proteger a nossa fonte e escrever um artigo, em que defenderíamos esse ponto de vista. EII estava certo que o PAICV não esperava outra coisa de nós.

O José Vicente aqui discordava. Não sabia muito bem se isso era assim tão evidente, mas que fosse o que Deus quisesse.

Aqui começava a minha cruz. Eu era estrangeiro, ele tinha de compreender e assumir isso. Eu dava-lhe toda a força, mas não podia fazer mais do que isso. Se não fosse assim, não haveria qualquer interesse numa posição da redacção do despertar.

Finalmente, o José Vicente virou-se para mim e disse vamos a isso. Eu ainda lhe falei do exemplo da Voz di Povo que, num editorial recente, defendia a protecção das f on tes q ue cri tica vam este ou aquele aspcc to da adm in i stração de Cabo Verde, mas ele lembrava-me outros aspectos de repressão de opinião por parte do governo. Já não valia a pena discutir mais. O Despertar do Liceu Ludgero Lima não ia entregar os nomes das fontes críticas e ia, ao contrário, defender esse direito de crítica.

Lá escrevemos o nosso artigo “Em defesa do jornalismo juvenil” e publicámolo. Nesse artigo censurávamos a directora do Liceu Domingos Ramos, por não ter escrito para o nosso pequeno jornal, usando o direito de resposta, em vez de se ter queixado ao Partido eao director do nosso liceu. Publicávamos a carta que ela tinha mandado ao director do Liceu e comentávamos ironicamente o seu conteúdo, especialmente nas partes em que ela se revelava policial,

Eu ensinava a escrever à máquina, a montar as páginas do jornal, a trabal har com o stencil electrónico e com o stencil vulgar, a trabalhar com o duplicador, a prestar contas do dinheiro recebido, a controlar a distribuição, etc.

O José Vicente acabou por não ser o herói, vítima da repressão da liberdade de opinião, que talvez tenha esperado ser. E eu, que nunca tinha esperado ser um estrangeiro repatriado e criticado por ter ensinado um princípio simples, fiquei satisfeito.

Eu ganhei uma batalha. Uma das minhas batalhas africanas a favor da minha confiança no bom senso.

E hoje o José Vicente, licenciado em Jornalismo, é jornalista do órgão oficial, Voz di Povo, e vários dos outros putos do Despertar trabalham no mesmo Voz di Povo.

De vez em quando escrevo-lhe. E ele escreve-me.

Há pouco tempo,o José Vicente escreveu a meu respeitono Vozdi Povo. Fiquei a saber que ele pensa que eu sou anarco-sindicalista.

Eu não sei se sou anarco-sindicalista, mas sei que gosto dele e que gosto da sua liberdade no seu país, onde pode escrever que tem um amigo português e anarco-sindicalista.

E gosto de Cabo Verde, também por isso.


Aveiro


Ele não se lembra nada da terra onde nasceu. Quando, por acaso, tem de referir onde nasceu cansa-se a copiar laboriosamente, letra a letra, com a língua espetada na bochecha, o nome da sua terra. Do bilhete de identidade.

Quando, por acaso, alguém aguça uma curiosidade de explicação, esclarece que foi por acaso que ali nasceu. O pai tinha sido colocado naquelas paragens, supõe-se que para educar aqueles gentios, como pastor, guarda republicano, ou juiz de fora, ou simplesmente como pequeno funcionário do notariado. A mãe nunca foi colocada em sítio nenhum, mas foi arrastada atrás do pai por uma coleira de fidelidades e interesses mais ou menos confessados ou identificados por algumas letras protestadas ou pelo amor escrito em gótico.

A sua terra amada é Aveiro. Mesmo que Aveiro tenha sido um acaso da vida, ele há-de construir uma teia de explicações para tão grande e apegado amor. Ou foi o azul da ria que o prendeu para sempre. Ou foi um monte de sal que lhe trespassou a alma. Ou foi a cordialidade das gentes. Ou foi a voz traída de uma salineira. Ou foi o liberalismo aveirense. Ou foi a proa decorada de um moliceiro. Ou foi o espírito empreendedor dos empreendedores de Aveiro. Ou foi o vinho. Ou foi Deus. Ou foi o Diabo a tecê-las. Talvez o cheiro do ar, talvez o cheiro da água, talvez a praça do peixe, talvez a feira de março, talvez o Beira Mar.

Ele ficou por aqui. Conquistou um lugar no coração da cidade. Mas deu, nas palavras, todo o coração a Aveiro. Aveiro nunca conseguirá agradecer ao mundo,e muito menos a ele, essa sua decisão de ter ficado. Sem ele Aveiro seria muito mais pobre. Sem ele, aquele que fica, talvez Aveiro não fosse o que é. E sendo outra coisa, que seria de Aveiro?

Ele ficou por aqui e transformou Aveiro naquilo que Aveiro é hoje. Os que cá estavam, nados e criados e perdidos em Aveiro estavam perdidos para o que era preciso: transformar Aveiro no que Aveiro é.

Ele, aquele que par aqui ficou, deu fama a Aveiro, transferiu para Aveiro alguma da sua fama ou a glória das coisas que só ele podia fazer. Ele elegeu Deus para sua testemunha.

Ele foi guarda fiscal, mas foi também provedor da misericórdia e adrninstrador e talvez contrabandista.

Ele construiu esqueletos de casas, vendeu-as e pôs-se a milhas. Ele fez negócios.

Ele escreve notícias para os jornais locais, e escreve uma ou outra local cultural ou um ensaio.

Ele descobriu um azulejo de retrete e descobriu mais trezentas páginas de história em torno desse azulejo do que a falta de história que o azulejo tem.

Ele sabe que pode ser em Aveiro, aquilo que não foi, nem é. Aqui ele utiliza toda a sua lata, para fazer artesanato. E os aveirenses têm de lhe agradecer, que ele faça o que não é preciso fazer porque não faz falta. Ele quer convencer Aveiro que Aveiro tem algumas coisas que mais nenhuma cidade tem e se A veiro não as tem ele inventa-as, às vezes, de forma pirosa e meio vigarisada. Aveiro até que nem estaria interessada em tanta originalidade que não existe. Mas tem de comer, com medo de estar a cometer algum sacrilégio, ao negar-se a vestir as originalidades que lhe atribuem.

Aveiro tem um porto. Talvez seja por isso que Aveiro tem de assumir a sua AveiroConnection. Aveiro tem uma indústria a nascer e quer vê-la crescer. Talvez por isso ache natural ver indústrias, que não se sabe se existem, a crescer rodeada de malhas que a justiça tece e em que tropeça. Aveiro tem umas famílias na indústria. Talvez por isso aceite que essas famílias tão aveirenses mantenham famílias sem salário meses sem conta. Aveiro vai ser o terminal de vários itinerários principais. Talvez par isso aceite que as estradas rasguem a paisagem, como se ela fosse a fingir, e que os comerciantes das mais variadas desnecessidades passam prosperar, trocando de carro para limousine e de limousine para Ferrari. Aveiro até tem a possibilidade de ter um benzido de Deus que ganha a lotaria por inspiração.

Aveiro cresce. E a ela acorrem gentes das mais variadas e honestas paragens.

Para trabalhar. Mas não é para esses que se estão a construir casas e mais casas. Estão a construir-se casas para forrar de ouro a alma daquele que veio para ficar.

Ele, aquele que fica, também pode ser aquele que constrói. E especula.

Encontrei-o. Veio direito a mim. Estendeu-me a mão. Ele apalpou com a mão esquerda o pacotinho dentro do bolso. E riu-se. Provavelmente todos os dias me cumprimenta. E eu que não o reconheço, cumprimento-o.

Alguns deles, os que eu reconheço pela escrita parola, cumprimentam-me com dificuldade. Com mais dificuldade ainda os cumprimento eu.

Uma virtude eles têm: são capazes de beijar o chão de Aveiro, para mostrar que amam este chão sagrado. Eu não sou capaz. Talvez porque não queira beijar o chão que eles macularam com as suas botas de lama, nem o ar que eles empestaram com seus arrotos de postas de pescada sobre o amor que se deve a Aveiro. Que Aveiro me perdõe.


Moldes


Foi-se Abril e veio o Maio. Tinham aparecido bandeiras às centenas, por todo o lado. E as gargantas não secansavamde gritar.

Tinham aparecido os chefes políticos, vindos daqui e dali. E tinham aparecido até uns novos chefes políticos vindos expressamente do nada.

Estavam todos unidos – dizia-se. E a multidão encheu ruas, praças, avenidas, estádios para os ver de braço dado rendidos à união de todo o povo.

Pensa-se agora que, enquanto caminhavam de braço dado, à frente das manifestações, já se belisacavam furtivamente. No primeiro de Maio de 74 falaram todos de unidade para construir um país novo. Sabemos agora que era para construir diversos países novos. E sabemos que este país por inteiro não cabia em nenhum dos moldes.


Ary dos Santos


Os músicos entraram no palco, a correr. Ninguém sabe bem porquê, mas acontece em todos os espectáculos. Eles entram a correr, como se fossem perseguidos por uma manada de búfalos.

Os guitarristas correm brandindo as guitarras como se fossem armas. O baterista brande as baqueias. Ameaçam quem os persegue.

O que é verdade é que os inimigos, se eles existem e os perseguem, não entram no palco.

Depois dos músicos, que se ligam à corrente e começam a experimentar o som, só entra um homem desajeitado e tírn ido que rica para ali, meio perdido, com o microfone na mão. Para ele, ouve-se a maior ovação.

Primeiro, pareceu-me um dos técnicos que vinha ajeitar este ou aquele altifalante. Mas eu não o vi fazer qualquer dessas coisas, e também O não via com vontade de sair. Ao contrário, ele procurou urna cadeira e sentou-se, enquanto se instalava um espesso silencio, cm toda a sala.

Passaram uns longos minutos. Dcpois, o homem aproximou o microfone da boca e começou a falar. Parecia-me que estava a falar com uma voz grave e mansa, mas rapidamente me dei conta que ele estava a cantar, sem qualquer acompanhamento musical. Ele dizia coisas como

“Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso”

Decorei os versos? Ou já os conhecia de outras leituras? Quando ele começou este último verso, uma guitarra vibrou rouca como se fosse um sublinhado. E o verso saíu como se fosse um grito violento mas baixíssimo.

E foi então que todos os instrumentos se ouviram, enquanto ele, mais quieto e perdido que antes, cantou:

“Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente …
Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco,
A arma do ladrão,
A marca do vencido”

Para voltar a repetir como um refrão as palavras que lhe tinha ouvido ao princípio:

“Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos.
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.”

A canção era longa. Ele, o cantor, nunca se mudou de lugar. Manteve-se sentado, A voz era tudo. Havia momentos em que a voz era um gesto acusador, outras vezes, a voz recolhia-se tão profundamente que me parecia ouvi-Ia, entrando pela pele, empurrada pelo vendaval da música que a açoitava sem a calar.

Quando acabou a canção, o homem desajeitado levantou-se e sem olhar para ninguém saiu do palco. A multidão aplaudiu longamente, mas o homem não voltou.

Eu ainda o procurei. Nunca mais o vi. E ninguém o conhecia.

Os músicos tocavam agora as melodias prometidas e o guitarrista cantava esforçadamente, mas eu saí dali à procura do monólogo que o cantor não tinha feito mais que iniciar.

Já identifiquei o poema e o seu autor. Não interessa.

Aprendi que há palavras que só existem dentro da voz que as diz no instante propício de as dizer. Ou talvez tenha aprendido que há instantes propícios para ouvir.

Para dentro de mim, repito o monólogo e ouço mesmo os sublinhados da guitarra rouca. Chego a convencer-me que fui eu que cantei, ou recitei, aquele “ln memoriam” par mim.


Maio


Em Maio rasgo as saias da primavera e faço-a dançar nua nos jardins da minha cidade. A primavera com seus ventos, velas enfunadas e acesas, a primavera de cabelos desgrenhados traz para Maio um grito de bocas abertas. Uma palavra de ordem altíssima para trespassar o coração das multidões. O primeiro de Maio é essa fenda, essa ferida, por onde se escoa o grito da esperança combatente.



Páscoas


1


[Sintra]

O Manuel e o Ruivo partiram ontem para a serra. Começaram a subir perto da meia noite. Pela estrada, claro. Aqueles dois não se cansam por atalhos. Eles têm a noite inteira para subir e se não chegarem a tempo outras noites e outras madrugadas haverá.

O Manuel é pequenito e feio. No convívio com a rapaziada, parece seguro e mostra-se jovial; e quando é preciso fazer alguma coisa mais arriscada ele parece ser o que não hesita.Mas mal fica sozinho ou com O Ruivo, Manuel transforma-se num homem amargurado e envelhecido, discute-se, discute tudo, põe tudo em causa. Para ele parece que nada vale a pena.

O Ruivo é um rapaz alto, bem parecido, de cabelos louros ondulados, uns olhos verdes meigos. No convívio, ele é calmo e discreto. Nunca levanta a voz. As raparigas dançam com ele. As mães deixam as raparigas sair com o Ruivo. Inspira confiança o Ruivo. Mas, mal fica sozinho, o Ruivo parece um rapaz calmo que se agarra como um danado à companhia desagradável do Manuel amargurado e desiludido, desejoso de ser um autor maldito, um revolucionário violento, um homem morto pela polícia, um poeta suicida e na maior parte dos dias, nada. Ruivo só quer viver. Mais nada.

Manuel e Ruivo atravessam ambos uma grande crise. Contra tanta coisa. Não sabem bem o quê. Estão muito divididos. Até porque as pessoas, mesmo as mais velhas, gostam muito deles e eles gostam muito das pessoas. Sintra é uma colecção de pequenas ilhas, pequenos bairros de gente boa que se entrecruzam. Os mais pobres e os mais ricos cruzam-se no João sapateiro, um velho gordo e calmo, que faz as chumbadas para a pesca e ensina tudo a todos. Os miúdos cruzam-se todos no Bilhar, onde o Zorba faz as suas exibições de fúria quando perde às três tabelas e onde o Zorba, com a sua paciência de gigante, ensina os putos e lhes apresenta como amigo o seu amigo famoso Torres do Benfica.

Naquele Sábado de Páscoa, decidiram subir a serra. Para ver o Sol nascer. Ninguém lhes levantou qualquer problema. Toda a gente confia neles e toda a gente sabe que se deve ver nascer o sol na serra de Sintra. Para ver o sol nascer.

No cimo da serra, o céu está pousado na terra. De cá de baixo, parece que urna estrela está a descansar numa das ameias do castelo dos mouros.

Àquelas horas, as estradas da serra são escuríssimas, raramente rasgadas por faróis de carros ora rapidissimos clandestinos corredores da rampa da pena, ora lentíssimos clandestinos namorados voltando à terra povoada de mães vigilantes. Enquanto sobem lentamente, Manuel e Ruivo falam. De tudo.

Das mulheres que pensam que desejam ou amam até ao delírio e a quem não podem dizer mais do que banalidades, dos amigos que os não compreendem e dos quais não esperam compreensão, metafísica e política. Manuel chega mesmo a ler, enquanto caminha e com a lanterna de bolso a tremer, o último poema desesperado que escreveu e que mais ninguém leu, nem lerá.

Ruivo fala também do Técnico. Ainda não compreendeu nada e não sabe se deve ir votar nas eleições para a Associação. Manuel faz-lhe perguntas sobre os tipas do Técnico e o que eles defendem. Ruivo não sabe mesmo nada e Manuel enfurece-se e muda de assunto.

Quando chegam ao cimo e se sentam numa esquina protegida do vento do castelo dos mouros, já chegaram a acordo sobre várias coisas.

Manuel defende que não vale a pena acreditar, no sentido de ter fé. Acreditar significa aceitar alguma imutabilidade e significa não aceitar as crenças contrárias. Mesmo quando se diz que se é tolerante. Manuel diz que quando alguém se afirma tolerante em relação a qualquer ideia que lhe é estranha, está jáa menosprezá-la. E Manuel prefere odiar a tolerato que lhe é estranho. Ruivo dirá que deixa as crenças para os outros e respeitará todas as crenças. Está de acordo que não vale a pena acreditar em absolut.o e está de acordo com o Manuel quando ele diz que a tolerância é sempre menosprezo. Ruivo fala da páscoa. Dos judeus e dos cristãos. Dos católicos. Ele sabe muito de intolerância e conta alguns episódios àcerca da implantação do estado de Israel.

Manuel atalha as considerações do Ruivo, referindo a própria criação da Páscoa, da passagem de Deus pelo Egipto matando todos os primogénitos e esclarece o sentido da sua negação da religião católica ou de qualquer religião em favor da humanidade. Ruivo sorri, quando diz que Manuel se está a tornar intolerante cm relação à sua própria educação na religião católica e fala de complexos e de Freud. Manuel irrita-se.

Mas no cimo já resolveram muitas conversas e Manuel já não quer mais ouvir falar da Páscoa. Logo mais terão de estar com os outros nas suas Páscoas e de bico bem calado hão-de comer algumas das amêndoas da hipocrisia católica. Vão calar-se uma hora, cada um deles metido nos seus próprios pensamentos. Na serra faz um frio dos diabos. Manuel e Ruivo estão de olhos muito abertos, fixos no vazio ou no céu. Embrulhados e muito encostados vão bebendo goles da garrafa de cachaça que levaram para combater o frio. Da serra e da alma disseram quando partiram.

Os primeiros alvores do Domingo de Páscoa apanharam a serra desperta com sempre. O Manuel e o Ruivo é que estavam a dormir encostados um ao outro. Não viram o nascer do sol e quando um raio de solos acordou já a manhã ia alta e a ressaca ia baixa. Meio derrotados, levantaram-se e começaram a descer pela encosta e pela desculpa do nevoeiro maldito que lhes tinha encoberto aquela manhã que devia ser de pura glória.

Cá em baixo, perseguiram a barba que tardava, vestiram roupas dedomingo. Às duas horas lá estavam na mesa do costume e fizeram o espectáculo da subida e descida do seu gólgota. O Madeira dos concursos ouvia-os, curioso. Talvez o Madeira tenha adivinhado as insones discussões desesperadas que os dois tinham travado. E pagou-lhes o café.

O Ruivo acabou o curso, passados dois anos. Tendo tudo preparado para o seu casamento com a mulher e a dúvida dos seus sonhos, o Ruivo tinha tudo preparado para morrer. Mas casou-se mesmo assim e morreu logo a seguir.

O Manuel andou a fazer várias revoluções, a acreditar, a ser intolerante, a estudar, a ensinar, a envelhecer. Talvez que essas noites de pura euforia e de pura amizade o tenham sempre impedido de acreditar completamente no que quer que seja e por isso tenha sido expulso de todas as seitas. Da seita Manuel & Ruivo só a morte o expulsou, pensa o Manuel à distância. Está quase preparado para voltar a Sintra e ir despedir-se do Ruivo, passados 20 anos. Da
adolescência. Da páscoa.

Entre as campas, procurará sinais dos castelos dos mouros que assaltaram. Sentado, esperará o nascer do sol. Desta vez acordado. Já ninguém o reconheceria, mas ele vai esgueirar-se colado aos muros do cemitério católico em que o seu amigo esteve, por momentos após a sua passagem momentanea pela terra dos homens.


2


A próxima sexta feira é santa. E calha a 13. Os ramos das árvores, os fios eléctricos e os fios telefónicos não chegam para as aves negras que já compraram bilhete para assistir ao espectáculo do meu azarado dia santo.

A delegação dos gatos pretos e dos espelhos prontos para partir já se encontra na cidade, ocupando um hotel inteirinho.

Um escadote fatídico já tem o pintor e o balde de tinta. E eu que sei disso tudo, vou sair de casa pelas ruas do costume.

Costumo assobiar para afastar o azar. O destino que não é surdo segue-me e é ele que leva o azar cego pela mão.


3


O Senhor disse a Moisés e a Aarão: «Esta é a Lei referente à Páscoa: estrangeiro algum poderá comê-la. Depois de circuncidade, todo o escravo, adquirido a dinheiro, comê-la-á; mas o estrangeiro e o mercenário, não poderão comê-la.

Estrangeiro que sou, pedi a Woody Allen que me deixasse comer a sua Páscoa e ele repetiu a velha lei. Tendo-me recusado à circuncisão, fiquei olhando pela sua janela de Greenwich Village, enquanto ele comandava a Mia Farrow e a prole nos ritos da Páscoa. Um escravo, comprado a dinheiro para ser anotador no último filme do Woody, compartilhava a Páscoa.

Um mercenário também compartilhava a Páscoa, mantendo em respeito toda a família do Woody com a sua metralhadora ligeira.


4


À frente vem o miúdo com a campaínha a avisar. Logo atrás, o cortejo. Entram na sala. O homem dá a beijar a cruz. O padre asperge com água benta a casa. E diz umas palavras, apressado. Um outro homem recolhe do pratinho o dinheiro que lá está para ser levado. Os miúdos atiram-se às amêndoas de açúcar, enquanto os mais velhos bebem uns golinhos de vinho doce. E saem a correr, como se fossem perseguidos. Omiúdo pôe as amendoas num saco e recomeça a dar à campaínha.

As pessoas que estavam na sala, saem apressadamente para o quintal e dirigem-se apressadamente para a sala do vizinho, enchendo a sala. Quando o cortejo lá chega já está a sala cheia de gente para beijar a cruz e ouvir a ladaínha apressada do padre.

E vai mais um copo.


5


“Nessa mesma noite, comer-se-à a carne assada ao fogo com pães sem fermento e ervas amargas. Não comereis dela nada que esteja cru ou cozido em água, mas somente assada ao fogo; comê-lo-eis com a cabeça, as patas e as entranhas. Não deixareis nada para o dia seguinte, e se ficar algum resto, queimá-lo-eis. Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, as sandálias nos pés e o bordão na mão. Comê-lo-eis apressadamente, pois é a Páscoa do Senhor.

Passarei nesta noite através do Egipto, e ferirei de morte todos os primogénitos nascidos no Egipto, desde os homens até aos animais, e exercerei a Minha Justiça contra todos os deuses do Egipto, Eu, o Senhor.”

O livro sagrado do ocidente enche-se de noites de maldição como esta da Páscoa de Deus. Herodes Antipas faz-se de Deus dos Hebreus quando o imita na tragédia. E divide o seu povo e o mundo, pela oportunidade de uma profecia. E ainda hoje, de cada lado do mundo se levantam os punhais escondidos nos mantos e esfaqueiam sem piedade os outros, os eternos outros.


6


“Vais para a sombra das oliveiras. Lá encontras o espírito. Ordenas um sentido ao vento, falando a voz dos espíritos das areias do deserto. Às águas do rio ordenas que deixem de correr.”

A pomba branca desliza da tua mão para a beira d’ água.

O soldado que dispara é cego. Não vê que o sangue da pomba tingiu todo o rio e todo o mar. Mas tu vês. Tu vês. Tu vês. Tu não podes deixar de ver, mas não sabes a qual Deus pedir contas.


7


[Espantalho]

o homem tinha dois braços. Uma boca e dois olhos. Duas orelhas nos sítios certos. Mas havia alguma coisa de estranho no brilho fixo dos seus olhos. Era de facto um estranho.

Durante alguns dias, manteve-se encostado ao cabanal. Sempre quieto e calado, de tal modo que a pardalada pousava nele.

No dia em que o homem abriu a boca para dizer que gostava daquela terra e que queria ficar, porque a amava mais do que ninguém, e para o mostrar começou a morder o pó, os homens da terra penduraram-no na árvore dá igreja e queimaram-no como costumam fazer a Judas todos os sábados de páscoa.

Para me consolar, a minha mãe começou por me dizer que era um fantoche, um espanta pardais. Depois, já muito irritada com os meus prantos, gritou-me que havia muitos iguais nos campos. E que alguém tinha de dar um Judas prá fogueira.

Guardei os dois vidros dos olhos de Judas Cabanal.


8


[Judas]

“No primeiro dia dos ázimos, quando se sacrificava a Páscoa, os discipulos perguntaram a Jesus: «Onde queres que façamos os preparativos para a Páscoa?» Enviou, então, dois dos seus disci pulos e disse-lhes: «Ide à cidade e lá encontrareis um homem com uma bilha de água. Segui-o e onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O mestre manda dizer: Onde está a sala em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?’ Mostrar-vos-á uma grande sala no andar de cima, mobilada e já pronta. Fazei lá os preparativos.

Os discipulos partiram e foram à cidade; encontraram tudo como ele lhes tinha dito e prepararam a páscoa”.

Judas chegou tarde. Não deixou de comer de acordo com o rito antigo. Mas preparava já um novo rito. De vez em quando, apalpava a sua colecção de trinta moedas.


9


Para a criança que fui, a Páscoa era a festa da ressureição de Cristo. Realizava-se uma vez por ano. Mal eu sabia o que a Páscoa tinha sido, mal eu sabia as disputas que a Páscoa tinha sido.

Sabia do verdadeiro massacre que tinha sido a primeira Páscoa e aceitava-o como legítima obra de Deus. Talvez por isso, compreendesse e aceitasse uns massacres enquanto condenava outros massacres. Prepararam-me para aceitar os massacres feitos pelos cristãos. Preparei-me para aceitar os massacres que eram ditados pela defesa, das minhas boas ideias. Desculpei tantas Páscoas, antigas e modernas, cruzadas, conquistas e goulags. Condenei outras tantas.

E hoje não me consigo desculpar. Não tenho desculpa nenhuma. A minha humanidade tem índios, judeus, negros, mouros, cristãos, ateus.

E tem novas cruzadas. Tem sempre homens vestidos de lobos do homem. Se eu tivesse vergonha, já me tinha mudado. Mas não posso recusar-me a ser o que sou: um entre outros.



Paixão


Ele cantava litanias. Não sabia o que era isso de litania, mas cantava.

Desafinava a avenida e esta atraída pelo ar gingão do cantor ia atrás dele, quase como se estivesse hipnotisada.

Quando o cantor de litanias caiu como qualquer bêbedo perdido à porta da estação é que a avenida viu que se enrolara como um tapete atrás dos passos do cantor.

Não conseguiu autocriticar-se de tanta falta de senso. Dificilmente se desenrolou. Uma boa parte das árvores ficou mesmo perdida e a avenida ainda não sabia se tinha ouvido bem: litanias ou ladaínhas?

O que ela sabia de cor era a cor daqueles olhos do cigano cantor.



Despedidas


Pegou na funda e colocou a pedra com cuidado quase excessivo. Pensativo, ficou com a funda armada na mão durante largos momentos. O professor explicava que não podia ficar mais tempo, que tinha de se ir embora para outra terra. Que ia tentar a cidade. O miúdo não dizia nada. Crispado, esticava as borrachas da funda. Ao máximo.

O professor calou-se. Então o miúdo fez pontaria para címa, como se quisesse agredir o céu. E atirou.

O professor seguiu a pedra. Pareceu-lhe ver a pedra chocar contra a nÚVC1l1. Pareceu-lhe que a núvem se partira. Encharcado pela chuvada repentina, o professor puxava o miúdo para o alpendre. Este parecia aliviado. Pela cara corriam as grossas lágrimas ao lado da água da chuva.


Professor de política


Um professor primário chegou a Santo André. Era uma aldeia muito atrasada. Pouco tempo lá quiz ficar. As crianças gostavam dele e tiveram muita pena quando ao fim do segundo ano ele foi colocado na vila mais próxima.

Aquele professor, vindo da Guarda, não se apaixonou pelos campos verdes de Santo André, nem pelos pinheiros altos, nem pela água corrente das fontes e das valas. O adolescente está espantado a ouvir o seu antigo professor, que se fixou na vila, a jurar o seu amor àquela terra, que até nem se vê terra nenhuma. Pela primeira vez, não acredita no professor. Vai para casa e queima o livro da primeira classe que tinha guardado como lembrança daquele professor.


Ensino das lágrimas


Ontem vi a mãe entrar com um bébé pela mão. E o bébé chorava lágrimas verdadeiras.

As lágrimas verdadeiras afligem os professores. Mais do que qualquer outra coisa. Os professores cxpl icam sistemas, arranjam explicações para tudo, ensinam tudo. Depois ele um jovem passar pelas mãos do sistema educativo está preparado para tudo compreender e aceitar. Todas as lágrimas perdem valor. Porque as explicações, a aquisição da capacidade de compreender, de enquadrar nos sistemas e relativizar, servem para segurar as emoções com rédea curta.

O ensino é urna luta para a racionalização. Afinal, os professores só servem para transformarem inutilidades as lágrimas verdadeiras. Tudo se explica, tudo se compreende, tudo é relativo. Mesmo quando o professor ensina História ou Geografia c dá dados sobre a humanidade sofredora e sobre o calvário percorrido não faz mais do que desvalorizar a infelicidade individual, não faz mais do que combater as lágrimas verdadeiras.

Um professor não pode comover-se com lágrimas verdadeiras.



Desenho


A criança deixou cair dois pingos de tinta no papel. Depois, com a língua de fora, e numa atitude de profunda concentração dobrou a folha de papel mais ou menos ào meio e de novo ao meio.

Por momentos, calcou com as duas mãozitas o papel dobrado. Depois deixou o papel dobrado a descansar na mesa. E com a cabeça entre as mãos, ficou a olhar para ele.

Com gestos cautelosos, começou a desembrulhar o papel. Parecia que nem queria ver. Quando o papel ficou finalmente liso sobre a mesa, a criança tinha os olhos muito abertos e um sorriso rasgado. Pegou na sua obra e desatou a correr.



Cegos


1

Em círculo de cegos quem tem um olho é rei. Dizem-me.

PossiveImente é verdade, mas no meu círculo de cegos verdadeiros, que encontrei na faculdade, na vida, na política, nas esquinas polidas do mundo, na profissão de professor, senti-me muitas vezes o maior cego e nunca me senti rei e muito menos bis-rei, apesar de ter os dois olhos bem abertos.


2


Às vezes eu tentava passar por ele, sem dizer palavra. Porque palavra puxa palavra e o Joaquim Baptista, português, cego, matemático e tudo, gostava de conversar e nunca compreendia, e muito menos via, as nossas pressas.

Mas penso hoje que isso era impossível. Quando ele queria falar, ele falava: “Então, Arsélio? Já não se fala aos amigos cegos?”

Que sentido tinha ele apurado para reconhecer as minhas sombras nas paredes.?

Muitos sentidos tinha ele que eu não tinha. Ainda hoje ando à procura de saber catalogar as minhas deficiências.


3


Na minha vida, ouvi muito. Para depois escrever. Escrevi discursos para serem lidos por cegos vulgares. E ouvi cegos falar dos seus problemas c dos problemas das suas associações para escrever os discursos que depois iam ser escritos em Braille para que um activista cego os fosse ler em algum momento do comício.

Reparei muitas vezes que os cegos vulgares, essse militantes que vêem, liam os discuros, que me pareciam entusiasmantes para quem tinha aqueles problemas, de tal forma monocórdica que a aparelhagem lhes recusava a emoção e eu não ganhava nada com aquilo.

Nunca tive qualquer desilusão com o activista cego. Ele lia o discurso como se o tivesse na cabeça ou lhe estivesse a escorrer, gota a gota, do seu coração sofredor.

Mais tarde ouvi-dizer que esse activista cego era um bom traste de um oportunista, mas cu estar-lhe-ei grato para toda a vida. Por ter ressuscitado as palavras.

As palmas para esses discursos de pura euforia ficaram para sempre gravadas na alma deste humilde copywriter.


4


Discutia-se política. A questão principal prendia-se com o papel da associação de estudantes de ciências no conjunto do movimento. Em particular, estudavam-se as sequelas resultantes da luta prolongada contra os gorilas do Saraiva. Apesar de aparentemente vitoriosa, porque os gorilas tinham desistido de querer ocupar os seus galhos no jardim botânico, a luta dos estudantes de ciências tinha-se isolado e acabara por ser cansativa e desmobilizadora para a massa dos estudantes.

De facto, podia dizer-se que o pequeno núcleo de combatentes que tinha vencido a gorilagem tinha ganho um prestígio de intocáveis, mas estava isolado e acabara por facilitar, tendo transformado a associação numa ferramenta da pequena organização política em que militavam. Com o 25 de Abril, o aproveitamento político da Associação tinha sido decisivo para iludir as tremendas dificuldades e o isolamento em que se vivia na organização.

Os três homens, ou rapazes, falavam sobre isso, enquanto passeavam ao longo da praia. A reunião tinha sido interrompida e eles tinham ido aproveitar o fresco da noite para a praia da linha que ficava muito perto da casa ainda clandestina.

O homem mais alto parecia que ia distraído, olhando o céu. Os outros dois acompanhavam-no, hesitando nos passos. Por vezes, o homem mais alto que era estudante de Biologia, deixava de falar de política e punha-se a falar da noite, da praia e chamava a atenção dos amigos para este ou aquele aspecto da paisagem, em que eles adm itiam nunca ter reparado. Apesar de ser noite, os dois amigos, que conheciam bem a praia, podiam perfeitamente identificar os pequenos sinais que só agora.que lhes chamavam a atenção, estavam a ver. Não só os viam, como lhes percebiam a importância.

O homem mais alto falava muito alto. Parecia haver uma certa autoridade na sua voz quando falava da natureza visível, nos seus pormenores. Quando voltavam à política, os três conversavam em voz baixa. O mais pequeno dos três mantinha-se em silêncio, por largos períodos, e parecia que amparava o homem mais alto que voltava a falar de bichos, em especial de peixes. Como se vivesse entre eles e falasse dos vizinhos, o homem mais alto entusiasmava-se e ouviase ao longe a sua voz que parecia romper a noite.

Do lado da casa, um vulto assomou ao muro da praia e gritou em surdina:

Oh Vitor, vamos trabalhar. O homem mais alto rodou então a cabeça e disse qualquer coisa como: Temos de voltar. Estão a chamar.

Os outros dois, que não tinham ouvido nada, arremesaram às águas as últimas pedrinhas que traziam nas mãos e seguiram o Vitor, no caminho de regresso a casa. O Vítor tinha sido chamado e os outros homens que não tinham ouvido nada, seguiam-no sabendo que ele tinha sido chamado. Acompanham as suas grandes passadas quase a correr. Sobe as escadas sem hesitação.

Ao chegar à estrada, o homem mais alto monta com grande rapidez uma bengala articulada, enquanto fala do trânsito caótico da linha.

O homem mais alto, estudante de Biologia, é cego. Os outros dois que o acompanham não são cegos.



Estudo do homem


As árvores vergavam-se ao Vento. O Vento tudo vergava, porque não haveria o vento de vergar as árvores que lhe tolhiam os passos.

Nos prados, as ervas ondulavam como ondula um mar verde fustigado pelo Vento. A chuva que se cheirava, começou a cair em grossas gotas, apesar do vento, como se o vento não fosse capaz de as dispersar. Depois, grossas bátegas começaram a fustigar os passeios e um ribeiro de lama formou-se na esquina dama. Aumentou rapidamente de caudal e arrastou os ramos quebrados das árvores pela encosta até ao prado, onde se perdia. Ao fim da pequena encosta, antes das ervas ondulantes do prado, viam-se as pedras, os paus, os ramos afogados, garrafas com mensagens para esse destino de lama.

As árvores vergam-se ao vento que não deixou de soprar. As árvores vergam-se à chuva que, empurrada pelo vento, come os corpos das árvores. As mais fortes mantêm-se de pé. Pelas faces das árvores antigas escorrem as águas da chuva e as lágrimas de seiva que golfam das feridas abertas nos troncos. Limpam-se com os seus grandes ramos ondulantes, como se tivessem vergonha de serem vistas a chorar.

A mulher, vestida de preto, ou pelo menos coberta com um grande xaile preto caminha, tropeçando, pelo prado. Vista de longe não é mais do que um ponto preto em movimento, ondulando corno a erva alta ondula ao vento. A mulher não é mais do que uma erva preta castigada pelo vento e pela chuva. E é porque não é mais que urna erva preta entre as outras ervas que ela se mantém de pé.

A mulher de preto tem uma face como as árvores e um corpo esguio como as ervas.
Mas ondula e avança. Nada a prende ao solo e é só isso que a distingue das suas irmãs ervas altas e esguias.

Quando chega a meio do prado, pára e tira uma foice de dentro do xaile.
Por momentos, no meio da tempestade, a folha lavada da foice mostra o seu brilho de aço como um relâmpago. A mulher baixa-se e, com movimentos fortes, corta as ervas que ficam a repousar numa pequena clareira aberta no meio do prado.

Durante uns minutos, a mulher de preto mantém-se acocorada e repete os mesmos gestos de degolar as ervas e amontoar os seus corpos ainda com vida na clareira aberta. Depois, faz uma corda com algumas das ervas e, mantendo bem presas debaixo dos joelhos as ervas degoladas, ata-as num feixe de erva e água. Põe uma rodilha na cabeça e, com um movimento bem calculado, levanta o feixe no ar e pousa-o na cabeça. Vê-se que arruma a foicinha na dobra da cintura, antes de iniciar o caminho de regresso, pelo meio do prado e contra a fúria do vento, da chuva e das ervas ondulantes, Pela cara, escoam-se as suas próprias lágrimas, a água da chuva, a água do feixe c o sangue das ervas degoladas.

A mulher de preto sobe a encosta pelo carreiro, transformado na cascata de água e lama. De vez em quando, uma das suas mãos é uma garra que segura um ronque de ervas e a apoia na subida. Parece, nesses momentos, que a mulher progride como uma cobra. O xaile de escamas pretas brilha a espaços.

Quando chega a casa, a mulher de preto dirige-se aos currais e aos gritos de “chega para lá castanha!”, “quieta torina!” descarrega e desfaz o feixe de erva na manjedoura.

Só então se dirige a cozinha da casa que é a casa. Lá passa-se tudo ou quase tudo. A mulher acende com gestos calculados uma fogueira.

A mulher começa a despir-se. Tira o xaile e sacode-o com violência até que grande parle da água que o ensopa vá ensopar o chão. Depois tira as botas de borracha, a blusa e a saia e fica a enxugar-se bem perto da lareira. Há uma certa volúpia nesses momentos de descanso em frente da fogueira.

A mulher de branco revê a sua viagem ao prado. Ela sabe que a mulher é o único animal doméstico, criado em cativeiro, que é capaz de enfrentar a tempestade para procurar alimento. E tem saudade do tempo em que os seus bois e as suas vacas eram animais em liberdade e procuravam pachorrentamente o seu alimento, sem ficarem espavoridos com a tempestade. Ela não conhece esse tempo, mas sabe que ele existiu em algum lugar do tempo.

Uma galinha espreita à porta da cozinha. A mulher sente-se vigiada pelos olhos saltitantes da ave e pegando numa farpela seca veste-se apressadamente. A mulher de preto levanta-se, pega num cesto com couves, acrescenta-lhe um punhado de milho que tira do saco e vai despejá-lo no galinheiro.

o homem chega da taberna com os olhos turvos e pergunta pelo jantar.

A mulher de preto resmunga qualquer coisa enquanto se afadiga a descascar batatas para a bacia. A mulher de preto pensa que o homem é o único animal doméstico que quando cai a tempestade corre a recolher-se na taberna, solta palavrões contra oS. Pedro e joga as cartas não para ler o seu destino, mas para fugir dele. O homem pousa a cabeça na toalha de quadrados e começa a sonhar com o jantar.



Poeta Russo


Uma sombra tinha nome. Outra não. Uma alongava-se pela avenida. A outra nem uma largura do estreito passeio atravessava.

Guilherme Shakes Pires, filho de uma mãe inglesa e de um argonauta de língua portuguesa tinha crescido à sombra dessas duas sombras ou influências.

Quando caminhava pelas avenidas, noite alta, entretinha-se a brincar com as suas duas sombras que os dois pontos de luz de cada candeeiro projectavam. Guilherme fazia profundas e rigorosas reflexões trigonométricas. Escrevendo com as sombras do seu dedo indicador no quadro preto de asfalto, Shakes Pires calculava as razões trigonométricas. As outras razões, aquelas que o faziam insone, nem calculava quanto lhe doíam.

As avenidas corriam todas para o mar. Desaguavam como rios. E ele imaginava-se um calhau rolado transportado por essas avenidas de sombra para uma foz. Saltava o murete e espraiava-se no areal. O dedo indicador que escrevia sombras, desenhava agora, na areia húmida da praia, um poema.

Guilherme Calhau Rolado era muito organizado. Enquanto se lembrava da frase inspirada, corria a registá-la no areal. Maiakovsky trazia sempre um pequeno bloco e um lápis para registar todas as ideias, palavras, frases, versos. Guilherme trazia um areal e um dedo espetado. Depois de escrever as palavras, recolhia a areia nos bolsos e ia deitar-se.

De manhã, Guilherme Shakes Pires, ainda com os olhos inchados de sono, despejava a areia dos bolsos para uns pequenos cadernos de capa dura, que guardava numa gaveta secreta da escrivaninha.

Numa noite de inverno, em que a chuva quase não o deixava ver as suas duas sombras, Guilherme caiu na avenida e foi levado pela enxurrada até à foz da avenida. Quando sentiu o corpo embater no murete, deu um pequeno jeito e rolou para cair no areaI. Desaguou, entre outros calhaus rolados, num mar furioso que tinha comido todo o areal. Ainda tentou escrever uma frase desesperada, mas o dedo indicador escreveu-a na água e o desespero ficou diluído. Quando tentou agarrar a frase para a meter no bolso, viu que estava desfeita em água. Desistiu de lutar e deixou-se afundar no desespero.

Guilherme foi então salvo da avenida e do mar, por um poeta e guardador do canil. Acordou entre dois cachorros grandes como São Bernardos e o primeiro gesto de Guilherme foi procurar o cantil no pescoço dos cães salvadores. Não tinham qualquer cantil ao pescoço. Ameaçados, os cães rosnaram ameaçadores, antes de voltarem a adormecer.

A maldição de Pires foi acompanhada por um velho ancião, baptizado como Sombrio Funesto. Ele, que tudo tinha adivinhado, sabia qual o próximo passo para o abismo a dar por Guilherme Shakes Pires. Angustiado, não arredava pé, havia 35 dias, do paredão do velho porto. Vigiava, com extrema atenção o velho barco de bandeira soviética, ali atracado para reparações definitivas. Seguia com atenção os gestos dos pintores que davam pinceladas de zarcão no casco roto.

Quando Guilherme chegou amparado por dois marinheiros matulões e começou a subir a rampa para o navio, Sombrio Funesto ainda disse: Podias ter publicado os teus poemas de areia, antes de partir.

Disse-o mansamente e em voz baixa. Para ninguém ouvir.

E tal como previra, os guindastes afastaram-se. Os pintores escreveram à pressa as últimas letras de um nome intraduzível, enquanto uma sirene lúgubre anunciava a partida do navio. Do navio, do poeta, da avenida.

Sombrio Funesto viu quando o barco desaguou no mar vermelho de fúria e os rebocadores recolheram as amarras. Sempre adivinhara a verdade. Sombrio Funesto podia agora ver que Guilherme Shakes Pires era um poeta russo, afogado numa avenida de álcool.

Página, por página, Sombrio Funesto rasgou Shakes Pires e atirou-o ao mar.



Pires & Funesto


Guilherme Shakes Pires voltou de uma viagem aos mares do norte. Encontrou Sombrio Funesto e começou a falar-lhe na intraduzível língua dos sapos russos. Sombrio Funesto perdeu a esperança de entender e concentrou toda a sua atenção no barulho dos pássaros das árvores da avenida.

Incapaz de ouvir Guilherme, porque o que ele dizia ou era intraduzível ou era ilegível, Sombrio Funesto dedicou-se a aperfeiçoar a arte de traduzir as andorinhas do seu beiral Falaram, no caso, nas páginas de um jornal ilustrado.

Sombrio Funesto percebeu depois que a música era a mesma e percebeu o que era óbvio: Guilherme Shakes Pires nunca tinha sido outra coisa senão uma ave de arribação.



Norte


Cada cidade tem a sua rua predilecta. Cada pessoa tem a sua cidade predilecta. Uma cidade é sempre um acidente, um desembarque.

Elias tinha nascido numa aldeia do norte da Antártida e foi adoptado por um explorador que, enquanto durou a viagem para norte e um carregador era absolutamente necessário, tratou Elias como o bem mais precioso que um filho é.

Mas logo que o norte apareceu no horizonte, o explorador aproveitou o primeiro desencontro para perder de vista o jovem Elias.

O jovem Elias não percebeu imediatamente que tinha sido abandonado e sinceramente procurou as pistas do seu pai adoptivo. Sempre para norte.

Foi aprendendo a soletrar algumas palavras das diversas línguas que no caminho para o norte foi ouvindo. E quando chegou a um pequeno país entre o sul e o norte, Elias parou por momentos a olhar, ora o mar ora a terra, e a pensar nos meses de viagem em busca do norte. Elias parou. E ficou.

Elias tinha encontrado a sua cidade predilecta. E não voltou a embarcar no cargueiro que até ali o tinha trazido. Sem saber uma palavra da língua da cidade, Elias palmilhou as ruas da sua cidade predilecta. Identificou a rua predilecta e começou a percorrê-la ora num sentido ora noutro. Ficou a conhecêla, localizou-a no espaço, deu-lhe o norte e deu-lhe o sul.

Quando se tinha familiarizado com os lugares da sua cidade predilecta e em especial com a sua rua direita, Elias foi abordado por um agente da polícia que o tinha observado durante as suas andanças de reconhecimento da sua cidade predilecta.

O agente procurou falar com Elias. Elias não percebia nada e mantinha-se distraído, mas o agente intimou-o a acompanhá-lo, enquanto fazia a sua ronda. Elias, sem vontade nem plano, acompanhou o agente e foi conhecendo o quarteirão. Com a sua extraordinária aptidão para a música das línguas e ouvindo pacientemente o polícia que não parava de falar para desentorpecer a língua da noite, Elias acabou por aprender pequenos rudimentos da língua e preparou-se para a sobrevivência,

No dia seguinte, depois do polícia companheiro ter abandonado a ronda e o Elias, este encostou-se a uma parede da rua direita e deixou-se escorregar até ao chão. Adormeceu virado para o norte da madrugada e da rua direita. Por momentos. Quando a cidade predilecta acordou para os ruídos da vida de todos os dias, Elias acordou com ela e acompanhou a primeira carroça até ao mercado. Comeu as primeiras laranjas, sem perder uma gota de sumo e comendo a casca agridoce.

Nesse dia, procurou embarcar um primeiro emprego. Estudou os jornais.
Não percebeu nada. Percorreu os jardins. Aproximou-se de pessoas que passavam.

E ouviu várias frases acerca da juventude que buscava o norte, tal como ele. Compreendeu que o norte era assunto de estudo da maior parte dos jovens. E que para isso haveria vários especialistas, de diversos níveis. Soube até que havia uma estrela especializada que indicava o norte.

Não teve dificuldades em perceber a originalidade de saber muito sobre o sul. E o dia seguinte veio encontrá-lo como professor de Sul na nova Universidade local.

À semelhança do que acontecia com muitos outros professores da Universidade, os estudantes não percebiam patavina do que o convidado Dr Elias ia dizendo. Por isso, ninguém estranhou a actividade de Elias e ninguém disse que Elias ia nú, mesmo sendo verdade.

A Universidade estava mesmo orgulhosa. Era a única que tinha um professor indígena com canudo. De bambu verdadeiro.
Sombrio Funesto percebeu depois que a música era a mesma e percebeu o que era óbvio: Guilherme Shakes Pires nunca tinha sido outra coisa senão uma ave de arribação.



Gaia


«Viva a liberdade! Nós queremos viver! Morte a quem nos mata! Queremos o poder!» ouvia-se em todo o jardim da cordoaria a voz do Tino Flores.

Isabel pegou no filho e foi sentar-se à sombra, longe de todo aquele bulício. Aquelas árvores antiquissimas aconchegavam-na. Ela sentia-se protegida, ali. Podia desejar nunca dali sair.

Mas amanhã, logo de madrugada, tinha de levar o seu filho à avó que tomava conta dele durante todo o dia. Enquanto ela ganhava varizes em frente daquela máquina de moldes, sua companheira de vida.

Sim, ganhava mais varizes que salário. Ali ouvia o Tino Flores e perguntava-se sobre o que tinha mudado na sua vida?

Ouvia o Tino, e depois?

Inconscientemente, Isabel colou-se mais à árvore, arrastando com cuidado o filho adormecido. E as lágrimas cavaram vales no seu rosto.



Pedinte


Ele falava. As pessoas passavam apressadas. Quando alguém parava e aparentava dar-lhe alguma atenção ele balbuciava uns versos estranhos, como uma ladaínha. Ninguém lhe perguntava nada. E também ninguém percebia nada. mas todos contribuiam com alguns escudos. Se soubesse o que ele murmurava, talvez pedissem a deus que o levasse.


S. Tomé


[Caranguejos]

Os caranguejos adivinharam as chuvadas intensas. Em bandos saem do mar e ficam a aguardar em filas compactas ali na borda de areia. A chuva tamborila nos dorsos daquele chão falso de caranguejos.

Quando pára de chover eles cheiram a humidade que ocupou as ruas todas e então começam a deslocar-se ao longo das ruas. Quando a luz os assalta eles encostam-se às casas e continuam a caminhada pelos fios de sombra e humidade. Não têm qualquer dificuldade nessa caminhada. Porque andam de lado. Em cada porta fica um. Na sombra. Ficam tensos, talvez por terem ido longe demais e pressentirem que já não há humidade que chegue para o regresso.

Quando abro a porta para sair, o caranguejo ataca. Bato em retirada por momentos. Depois, com peito cheio de ar e uma vassoura vou empurrar mansamente o caranguejo. Só então reparo que o chão está juncado de caranguejos pisados pelos inquilinos. E, romano entre romanos ou membro de uma multidão assassina, com uma pancada seca da vassoura esmago o atacante.

Outras vezes são as palavras que tomam as ruas. Incapaz de as esmagar, mando os canhões apontar para a boca.



[Tempestade]


Não se pode perder o que se não tem. Com estas e outras frases, mais ou menos batidas pelas ondas, Eustáquio virava as conversas como quem vira mesas, no meio de uma discussão salutar tipo “acaba em pancadaria”.

Naquele dia, Eustáquio exagerou. Não só disse uma das frases definitivas, como virou as costas àquele que dizia que ele o estava a fazer perder o seu precioso tempo.

Virar as costas é feio – disse-lhe a mulher quando ele chegou, no seu passo elástico, para o desafio diário de ténis e para a sua torradinha barrada com uma margarina que faz bem ao coração.

Estava Eustáquio sentado no banco do jardim. E contava mentalmente o número de verdes que ia discriminando, a olho nú, na folhagem dos arbustos. A seu lado, a esposa de Eustáquio, que não é chamada para a discussão, tinha os olhos.corno brilhantes, perdidos nos movimentos de uma criança que se mantinha, ia para 15 minutos, prestes a cair no lago verde azeitona.

Estava Eustáquio em sossego, eolhendo do mês de Maio os doces frutos, quando se ouviu o trovão da discussão atravessandoocéu de um extremo a outro da linha do horizonte. Eustáquio viu que os verdes se tinham tomado mais sombrios. E, antes de acabar de uma frase sobre os verdes sombrios, uma tempestade de palavras desabou.

Não era uma chuvada qualquer. As palavras caiam grossas do azul cinzento dos céus. Eustáquio acrescentou maquinalmente: E há quanto tempo a não ouvia e que saudades, Deus meu!

A esposa de Eustáquio sentiu as palavras cair-lhe na cabeça, com extrema violência. Em poucos segundos, ficou encharcada de palavras. Olhou para o marido e começaram ambos a correr para o primeiro abrigo.

Bem encostados à parede da casa do chá, Eustáquio e esposa abraçados, ficaram a observar a cortina de palavras eaindo dos beirais. Viam-nas. Não as ouviam.

A tempestade demorou uns minutos. Quando a chuva de palavras amainou, Eustáquio e a esposa, sairam do seu abrigo e voltaram ao seu antigo baneo.

Eustáquio voltou a procurar os verdes, agora mais brilhantes. A esposa olhou para a borda do lago verde azeitona. E lá estava a criança. A tempestade parecia não a ter afectado. Olhava interessada os círculos concêntricos que as palavras que, empurradas pelo vento da ira, caíam no lago.

Eustáquio ainda disse, como se murmurasse:
– Eu não lhe podia ter roubado o tempo. Toda esta discussão foi um disparate.
A esposa disse:
– Não devias ter-lhe virado as costas. A discussão não deixa de ser, enquanto a sua núvem não se desfaz.

E calaram-se.

Ao longe, ainda ribombam algumas palavras. Não se compreende o sentido do que troveja. .

E a voz da criança começou a dominar o espaço, só quebrada pelo ralho do cisne.




Nomes


Comecei por ler uma lista telefónica regional. Rapidamente me cansei da limitação regional e pus-me a devorar uma lista nacional, do fim para o princípio.

Quando reconhecia o sabor de um nome ou de uma morada, comia mais devagar. Com um fio dental, desalojei os nomes entricheirados. Quando cheguei à página do meu nome, arranquei-a e queimei-a. Só então percebi que dói destruir os nomes.



25 de Abril


A manhã acordou os seus tambores. A criança segue às cavalitas do pai, que marcha ao compasso dos tambores. O entusiasmo da criança é visível.

O soldado que a olha pensa que é a excitação do 25 de Abril e da alegria das gentes em redor.

A criança não compreende o olhar do soldado, mas sabe que o pai nunca galopou tão bem e por tanto tempo.



Daniel


Daniel saiu da cova dos leões sem uma única beliscadura. Também não era caso para mais.

Daniel é o trigésimo filho de uma família leonina. A velha mãe leoa, já muito depauperada, raramente sai da toca e não pode receber mais do que um filho de cada vez. É por isso que raramente os irmãos se encontram. Quando por acaso dois se aproximam da porta da toca, um polícia sinaleiro, expressamente contratado para o efeito, manda parar um deles e manda avançar o outro.

Um velho leão, antigo companheiro da mãe leoa, procura defendê-Ia de emoções acima de determinada intensidade e procura também evitar que os irmãos de Daniel se encontrem frente a frente.

Daniel saiu da cova dos leões sem urna única beliscadura. E não era caso para menos.

Daniel é o trigésimo filho da leoa e é também o seu preferido. A velha leoa, no entanto.já não tem forças para lhe fazer festas como antigamente fazia. Se lhe tivesse feito as antigas costumeiras festas, Daniel viria ferido profundamente pelas garras ela afeição. .

Não há feridas mais profundas do que as feitas pelas garras da afeição doentia de uma mãe. Vários romances policiais nascem desse crime que é o extremo amor das mães, sejam elas leoas, sejam elas mulheres. Felizmente para Daniel que necessidades de subsistência da família fizeram com que este abandonasse a toca por longos períodos. Foi só por isso que Daniel não se transformou em mais uma vítima do amor materno. Parece ao velho Senhor Leão que o jovem Daniel é, de toda a família, aquele que mntém a compostura na desgraça. Não chora perante a mãe, não faz perguntas acabrunhantes, nem brinca para fazer esquecer a doença da mãe. O velho Leão admira essa faceta do jovem Daniel, sem lhe falar nisso. E é assim que o polícia sinaleiro recebe ordens para dar prioridade nas entradas ao jovem Daniel.

o Daniel saiu da cova dos leões sem uma beliscadura. E não era caso para tanto.

O jovem Daniel teve uma educação espartana, adequada aos leões de juba ruiva e a mesma educação foi proporcionada aos seus vinte e nove irmãos. É por isso espantoso que Daniel tenha chegado a rei dos animais, enquanto que os seus irmãos nunca conseguiram acabar o secundário do Colégio militar. Mas é mesmo assim. Os leões são todos diferentes e alguns deles estão destinados a ser reis, enquanto outros se destinam a formar o séquito dos que chegam a reis. No reino dos leões, é possível que o mais jovem chegue a rei, desde que cuide da juba e saiba cuidar de adquirir gestos majestosos. Daniel é que sai da cova dos leões, sem uma beliscadura, como um rei.

Daniel saiu da toca dos leões, sem uma única beliscadura. E o polícia sinaleiro indicou-lhe a estrada destinada aos profetas e aos reis dos animais. Ele tomou esse caminho do inferno.

Mas não é caso para falar tanto disso. Um facto como este não devia provocar uma história. Devemos precaver-nos contra futuras histórias de qualquer epaminondas saindo da cova de qualquer onça, mesmo que cheio de beliscaduras.



Torreira


As grandes máquinas passeiam pela praia. Parecem grandes insectos, meio perdidos, vagueando de um lado para o outro sem encontrar a entrada do abrigo que um homem monstruoso tivesse tapado com o seu grande pé.

As grandes máquinas têm uma grande pá escavadora à frente. De vez em quando, mergulham a pá na areia e empurram teimosamente a areia para um monte, como se construissem uma grande entrada de formigueiro.

O menino, sentado longe dessa azáfama, olha, fascinado, os movimentos das grandes máquinas-insectos. Já não as vê como elas são realmente, mas como as imagina. Não vê os homens que as comandam e atribui-lhes vida própria de insectos laboriosos. Tem medo deles, mas não consegue despegarse deles. Está hipnotisado.

Pensa que os grandes insectos o vão descobrir. Sabe que não poderá resistir -lhes. Imagina que, quando o descobrirem, eles vão dar-lhe uma pancada entorpecente e vão transportá-lo para o seu abrigo, dentro da pirârn ide de areia. E prevê antecipadamente a forma como irá ser devorado pelo formigueiro. Aliás ele não prevê nada. Ele sabe como vai ser, porque ele viu na televisão e leu no seu livro sobre os hábitos dos animais.

O menino olha, fascinado, os movimentos dos grandes braços das máquinas-insectos. Chega a pensar várias vezes em fugir para longe, para casa. Quando está mais tenso, puxa com vigor a coleira do pequeno cão que o acompanha.

O que mais lhe custa, caso o venham a descobrir a espreitar por detrás da pequena duna, é ter de enfrentar os olhos do seu pequeno amigo, quando forem apanhados. O cão não pode fugir. Se ele fugir já, o pequeno cão foge com ele, mas se ele ficar o pequeno cão fica preso. Tem a sensação estranha de poder decidir, na sua fascinação, o destino do seu amigo. E não o larga.
Já ouviu falar lá em casa sobre o trabalho dessas grandes máquinas. Até já ouviu falar sobre as tentativas da população para impedir a extracção da areia. Quando pensa que há homens a conduzir essas máquinas, imagina-se a construir uma arma poderossísima com os bocados de pau apanhados na praia e o resto da coleira que lhe ficou nas mãos, para salvar o seu pequeno cão apanhado pelas garras mecânicas daqueles homens. Imagina-se um herói da televisão.

Quando chega a tardinha, as máquinas insectos param. A noite é rasgada pelas sombras daquelas máquinas de pás mergulhadas na areia.

O menino sai do seu posto de vigia, quando as máquinas param. Passa a correr pelo estaleiro. Os últimos grandes camiões acabam de ser carregados.

O menino monta a sua bicicleta e parte pela estrada fora. O pequeno cão, atado à hciclcta, corre atrás da bicicleta.

O último grande camião de areia avança pela estrada. O motorista vai irritado pelo atraso. Quer chegar depressa a casa e, por isso, pisa raivosamente no acelerador.

O motorista vê o miúdo momentos antes de passar por ele. Parece-lhe ouvir um grito. A Dulce, do outro lado da estrada, gritou para o miúdo. Mas este já tinha sido tragado com a sua bicicleta e o seu cão pelo vórtice formigueiro do camião, na sua passagem.

O motorista vai parar. E dirá, entre outras coisas, “quanto mais depressa, mais devagar”.

Pode ser verdade. Na estrada da Torreira. Todos os dias.



Ciência


A minha cunhada deixa que as andorinhas negras tomem conta de todos os beirais. Elas voam como projécteis, descrevendo harmoniosas curvas no pátio. Para nós vermos. Elas travam instantaneamente. Sem inquietação, as vejo chegar e partir.

São professoras estas andorinhas. Não sei se são licenciadas, mas isso não lhes deve interessar muito. Não trazem aquele anel com brilhante. Penso que elas devem ter posto pelo menos o grelo ou talvez até queimado fitas. Vestem batina e não trazem água no bico.



Andorinhas


As andorinhas chegam com a primavera. São bem recebidas. Tomam o lugar nos nossos beirais. E ainda não estamos cansados delas, quando elas voa, para não voltar mais.

É por isso que ansiamos pelas andorinhas da próxima primavera.



A ciência do anel


Não sei se há cientistas que pousam nos fios eléctricos em frente da minha janela. Não sei se os cientistas voam. Mas aquele passarão que me olha fixamente tem um anel na pata e com um brilhante azul.

Andou comigo em Ciências. Aceno-lhe tristemente. Ele abre as asas para que eu veja como as suas penas são azuis e brilhantes como as dos verdadeiros executivos e dos verdadeiros vendedores grossistas.

Quando ele parte, tentando voar, lembro-me que tinha razão quando lhe chamava galinha na faculdade. É desajeitado, mesmo a 3 milimetros do solo.



Aves


Coçara o seu bico na palha de um ninho alheio. Era uma ave desengonçada que nunca tinha sido vista por ali. Devia ter arribado de algum país estranho.

O homem tinha-a medido com os olhos. E conversara com ela. De onde vem? Para onde vai?

A ave disse o seu nome estranho. O homem que era dali deu-lhe um nome dali. E a ave gostou do homem e do ninho alheio e para ali ficou.

Às tantas, aquela ave desengonçada já era mais importante que as gaivotas naturais e que os pardais.

Foi proibido atirar às desengonçadas. E a desengonçada nunca mais daqui partiu. De tal modo que nos livros se diz que a desengonçada é natural da ria, que sempre buscou o seu alimento entre o moliço.

o homem que a acolhera nunca deixara de a acompanhar e conversava com ela. Um dia, não resistiu e já não pôde esperar mais.

A ave de arribação desengonçada nunca mais saiu de Aveiro. Mais concretamente nunca mais saiu daquela posição desengonçada em que foi empalhada, com a palha do ninho alheio, pelo homem.



Conhecimento do incesto


Filipe XXXV era rei da Macedónia, ao tempo em que o meu tio avô Romualdo XVI governava Veneza. E eu namorei a concubina de Filipe XXXV, às escondidas de Filipe e às escâncaras de Romualdo. A Concubina tinha vindo como chefe de uma delegação de Filipe XXXV, que negociara com Romualdo e com o chefe da cristandade e se demorara nas delícias dos meus braços.

Ela nunca me disse o nome e eu passei a chamar-lhe Bina, abreviatura de Concubina. A maior parle do tempo passámo-lo a comer uvas importadas da Anatólia e a trocar inocentes carícias. Mas o meu tio avô Romualdo não acreditou na inocência da nossa ligação e mandou-me seis embaixadores para me convencer a emigrar para Cartago, como encarregado de negócios junto do reino de Aníbal XLV.

O meu tio procurava convencer-me a iniciar uma carreira diplomática no estrangeiro.

Apesar de eu ter sido um fracasso nos estudos diplomáticos, o meu tio avô não ltnha desistido de me iniciar na carreira. Durante alguns anos, esperara, em vão, uma vaga num país mediterrânico. Mas agora que ela tinha sido finalmente declarada, eu desconfiei do meu tio avô. Comecei a suspeitar que não estava em causa a melhoria das relações com Aníbal, mas evitar os problemas com Filipe que as minhas relações com Bina poderiam acarretar a Romualdo. Cheguei a desconfiar que o meu tio-avô, apesar da sua idade, tinha um interesse muito especial na Bina.

Ainda cheguei a propor à Bina que fosse comigo para Cartago, mas ela receava que a influência de Filipe chegasse a Cartago. E,embora me aconselhasse a aceitar o cargo em Cartago, recusava-se a partir comigo. Aliás. ela sempre me tinha dito que voltaria brevemente para Macedónia e para o Filipe e que só estava a demorar um bocado o regresso, descansando do impetuoso Filipe. Tentou mesmo convencer-me a ir para Cartago, prometendo que, em futuras viagens, me procuraria cm Cartago e contando-me maravilhas a respeito da vida, da paisagem e do clima em Cartago.

Eu, a brincar com Bina, dizia que só aceitaria um cargo em Anatólia, de onde vinham aquelas uvas maravilhosas que comíamos ao longo dos nossos dias de prazer. Não sei como o meu tio veio a saber, mas eu acabei por ser colocado em Anatólia. Enquanto a Bina, que não se tinha despedido, voltava para Macedónia e para Filipe.

Nos primeiros meses, passeei-me desesperado por Anatólia. Ouvia a doce voz de Bina, no sussurro do vento e nas conversas que em voz baixa reconstruia. A minha cabeça fervilhava de conversas inteiramente decoradas ou reconstruidas e representadas pela ruas. Não tratei dos negócios de Rornualdo, mas fiz prosperar o negócio de um taberneiro pouco escrupuloso que, em vez das uvas, me dava a beber uma saborosa aguardente. Quanto mais aguardente bebia, mais me esquecia dos negócios de Romualdo e mais me lembrava de Bina.

Os meus subordinados na representação diplomática, desde que eu tinha chegado a Anatólia, não tinham feito outra coisa senão seguir-me pelas ruas e transportando-me para casa quando começo a gatinhar, a chorar e a chamar pela Bina.

Num dia muito abafado, em que uma brisa tórrida aquecia mais do que refrescava, eu encostava-me a uma parede caiada, batida pelo sol inclemente e sonhava. Não estava a beber qualquer refrigerante pós-moderno, mas estava a cozer uma grande bebedeira.

Senti a sombra. Levantei os olhos e entrevi a Bina. Ela não se ria. Pareciame que estava a chorar. Senti alguma vergonha e fiquei sóbrio, imediatamente. Foi então que vi Romualdo, Filipe, Aníbal e mais quinhentos guarda-costas, por detrás de Bina. E foi então que percebi que Bina chorava por ela e não por mim.

Ouvi-a dizer: Meu filho! Ejá tinha sido trespassada por várias rajadas de metralhadora. Nos olhos de Romualdo li a verdade. Procurei, com ansiedade, os olhos do meu pai que não conhecera. Aníbal? Filipe?

Romualdo? Um guarda-costas? O taberneiro de Anatólia? Só vi olhos gelados, em volta. Senti-me muito mais fresco.



Aníbal


Aníbal não via qualquer razão para não invadir a Suiça, com os olhos postos em Roma. Mandou aparelhar os seus elefantes alpinistas e partiu. Os elefantes revelaram-se brilhantes equilibristas nessa travessia, tendo surpreendido toda a gente. Aplaudidíssimos, os elefantes acabaram por ser elefantes. A eles se ficou a dever a vitória de Canas.

Mais tarde, quando Aníbal tentou fazer uma reforma do estado, acabou por ser derrotado pelos elefantes que tinham ocupado os postos da administração pública.

Antes de se suicidar, na Bitínia, Aníbal ganhava a vida, exibindo a beleza dos seus elefantes.



Rimbaud


João Artur já arrasta os pés. Não é a primeira vez que foge de casa. E talvez não seja a última.

A mãe e a irmã sempre conseguiam fazê-lo voltar à velha casa, à vigilância dos seus olhos. Elas querem-lhe bem e tudo farão para que ele seja bendito a seus olhos.

Ele consegue sempre fugir. E procura ser maldito, separado dos valores da casa anccstra 1. Ele não procura nada. Arrasta os pés para se separar. Simplesmente.

Isabel, sua irmã, há-de amarrá-lo a uma cruz no leito da morte. Mas ele há-de salavar-sc do céu com que o ameaçam e há-de despenhar-se no inferno que não construiu, mas que o separa do céu.

João Artur chega a uma pequena vila. Antes de cair, exausto, João Artur conseguiu ordenar cinco ou seis palavras e todas elas eram enigmáticas para os ouvidos da’) pobres pessoas que acorreram em seu auxílio. Mas João Artur já não podia conter-se e repetiu-as aos gritos. Com o entusiasmo, João Artur conseguiu erguer-se e gritou as suas palavras enigmáticas. João Artur sabe que se o seu poema não excitar, nada se vái passar.

João Artur espera que as suas palavras intimidem aaldeia eque todos se afastem dele, impelidos pelos ditames de um horror sagrado. Para que não seja um homem, João Artur articulará as palavras enigmáticas. Para que os outros o julguem Deus e qualquer um o possa matar.

João Artur sai do círculo. Cambaleante procura um baldio fora dos olhos da aldeia para se esconder. João Artur traz uma pele esticada. Percute-a. E vai dizendo as palavras que foram ditas antes e serão cantadas um século depois pelo Roberto: «os grandes livros foram escritos, os grandes ditos foram ditos; sei que morreremos algum dia eque não vai ser aminhamorte a deter o mundo».

João Artur não quer reincarnar. E é só aí que ele se engana. Porque as suas palavras enigmáticas irão ser traduzidas, tal como ele traduziu e ele sobrevirá nelas. Tal como a história da aldeia é a história de outra tribo.

O que ele não sabe é que nas palavras que profere, com os gestos das suas mãos rudes e desproporcionadas molda a vida de poderes antigos e desperta os deuses do seu torpor. E que verá, com estupor, que os deuses despertos não sabem articular as palavras certas, não têm o dom. Os deuses despertos não dirão mais que guinchos.

João Artur ainda não sabe que terá de disparar contra todos os deuses, para os poupar à infâmia da sua inabilidade oral. João Artur não sabe, mas será a mão que queima os seus versos profanos, aquela que lhe fecha misericordiosamente os olhos.

João Artur não sabe que o futuro o vai traduzir. Mário Cesariny prepara-se para desenterrar as palavras de João Artur, limparos ossos das palavras e guardá-los nesse lençol branco que os livros são antes de serem livros.

João Artur já não tem forças para fugir desta vida. Mas, assim como passou a vida a fugir da mãe, da velha casa e desta vida, João Artur vai fazer um último esforço para morrer. Vai separar-se. Nós esperamos que reincarne sem a inabilidade dos deuses.

Isabel queima poemas, palavras enigmátícas. Outro poeta, tão maldito como qualquer poeta, escreverá as palavras que Isabel queima com afã. Amanhã.



Verbo dar


1


Dei-lhe um braçado de lírios. Dei-lhe dois beijos. Dei-lhe dois beliscões carinhosos. Dei-lhe três frases animadoras. Dei-lhe um livro de poemas, um romance de capa cor de rosa e uma reprodução de uma gravura japonesa. Dei-lhe, em promessa, uma dedicação para a vida inteira. Quando começou a chover dei-lhe o casaco e o guarda chuva. Dei-lhe setenta e cinco escudos para comprar um jornal diário e dei-lhe um pacote de pastilhas elásticas. Dei-lhe mais dois beijos.

Depois chegou o namorado dela e ela partiu com ele e com tudo. Deu-me com os pés. Fiquei com os pés dela, mas transido de frio e todo molhado. Deu-me um ódio!


2


O professor deu-lhe para olhar para o lado errado. No lado errado, o alunodo lado errado desenhava laboriosamente o logotipo de um grupo da pesada.

O professor encaminhou-se cautelosamente para o lado errado da sala de aula, enquanto a turma sustinha a respiração.

O aluno do lado errado da sala não deu por isso. Aliás nem estava para aí virado. Tinha desligado.

Quando chegou perto, o professor começou a sorrir descontraído. O aluno do lado errado desenhava bem o símbolo do grupo de rock preferido do professor e o professor sentiu que ali estava um aluno inteligente.


3


Já ninguém se deixa enganar pelo verbo dar.

Passei uma hora a dar lições de moral e ninguém me deu nada. Eu até podia dizer que nada esperava. Mas isso toda a gente sabe que não é verdade. Eu esperava dar lições de moral.

Nós passámos uma hora a falar do verbo dar, sem darmos uma para a caixa sobre o verbo dar. O verbo dar é muito dado a dar-se aos textos que damos aos ouvintes.

Há até quem não dê pelo engano.


4


Dei-lhe uma flor campestre. Aliás duas. Uma prendi-lha no cabelo e outra dei-lha para que ela ma prendesse na minha botoeira. Passeámos lentamente pelo prado verde e amarelo, de erva, tremoço e amarguinha selvagem; como são os campos da minha terra depois do inverno e antes de serem lavrados pela primavera. Mastigámos caules das amarguinhas juntos. Estivémos muito perto um do outro.

Mas eu nunca usei botoeira, nunca lhe dei uma flor campestre, nunca passeei nos prados verdes e amarelos com ela e nem sequer sei quem é ela. Mas deu-me para o romantismo e hoje vou tirar uma fotografia a todos os meus gestos românticos. Nem que tenha de os inventar para a fotografia.


Desenho o Reinaldo


Um dia a Vitália levou ao Conselho Directivo uma folha desenhada. E muito mal educada, diga-se. O rapaz não fazia nada na aula e passava o tempo a desenhar.

Quando o rapaz chegou com uma gabardine do Humphrey Bogart eu fiquei para ali a vê-lo expor-se a defender o seu direito de desenhar nas aulas de matemática.

Hoje pode ir vê-lo expor os seus desenhos no Conservatório de Música de Aveiro. Até segunda.


Partidas.


Quando o meu irmão mais velho partiu para a França e eu soube que ele tinha partido depois de ele ter partido, deu-me para ficar melancólico e ter pena de mim, por não ser capaz de dar o salto para França.

Quando o meu irmão mais novo partiu para Angola e eu soube que ele tinha partido ainda antes de ter partido, deu-me uma grande raiva triste e incapaz. Quando ele partiu desta vida, deu-me para ter pena de mim porque não tinha conseguido evitar a sua morte.

Quando o meu pai partiu para o Brasil, pela última vez, eu fazia oito anos e já não me lembro o que me deu.

Há quem diga que Portugal se formou com as partidas. Às vezes penso que Portugal não aprendeu nada com as partidas, não pregou partidas, não andou nas sete partidas do mundo. Portugal é aquele que só dá sinais propícios para partir. Portugal é um braço esticado que dá partidas. E, só por acaso, Portugal é uma meta.



Autoridade


Após seis laboriosos anos ao serviço da qualidade da água da ria, o funcionário escreveu um ensaio para ser publicado pelos serviços coordenadores. Não lho publicaram, com o argumento de que continha algumas incorrecções científicas e que talvez não fossem muito escorreitos os critérios de escolha dos locais de recolha das amostras que serviam de fundamento a algumas das conclusões alarmistas do seu relatório.

Paciente, o funcionário esperou mais três anos. Durante esses três anos não fez nada, nem recolheu amostras, nem enviou análises. Nunca ninguém estranhou.

Finalmente o funcionário mandou publicar no Diário da República que mudava de nome. Passava a chamar-se Agapito da Silva. Com o seu novo nome, recortou pacientemente o seu relatório-ensaio em pequenos excertos que mandava para publicação num jornal local. Assim todo o relatório acabou sendo publicado no cantinho dos poetas.

Só por acaso, houve uma pessoa, das cinco que compravam o jornal, que leu o relatório. Denunciou o Agapito a um amigo que era Secretário de Estado e este teve o cuidado de mandar comprar os 30 expernplares de tiragem do jornal, durante 43 meses. E como amava Aveiro, publicou o relatório em seu nome.



Portugal


Vaticínio Kaspa tinha decidido escolher uma segunda pátria. A sua pátria já não lhe chegava. Ou melhor, Vatic já não cabia na sua pátria.

Procurava uma pátria, desesperadamente. Vatic Kaspa chegou mesmo a procurar nas páginas amarelas anúncios de pátrias com futuro. Um dia, em conversa com a sua amiga Intriga Stalladone, ouviu-a falar de uma pátria com passado e para a qual se previa um grande futuro, A sua amiga Intriga asseverava que havia muitas hipóteses de fazer dessa pátria com passado uma pátria com Futuro. E chegou a dizer a Vactic que tal pátria só estava à espera da sua chegada para arrancar para o futuro.

Vatic procurou esclarecer o significado das palavras pátria e futuro. Com Intriga leu alguns trechos de física teórica e leu cinco dicionários, mas não fez mais do que aprofundar as suas dúvidas. Discutia período a período com a sua amiga e via que as palavras ganhavam um novo sentido, quando as ouvia da boca da sua amiga. Em Vulgar, aldeia em que se tinham isolado, aqueles que tiveram a felicidade de com eles conviverem viram que Vatic bebia as palavras da boca de Intriga. Não era usual beber palavras, naquela aldeia.

Foi sem ter descortinado uma pátria que Vatic se separou de Intriga, depois de cinco anos e violentas discussões sobre as palavras. Vatic só não ficou surdo, porque bebia mais as palavras do que as ouvia. Dessa discussão nasceu a Luz, o Vatic Júnior e ainda o Curso de Filologia, que os dois abandonaram à caridade da aldeia adoptiva.

Vaticínio continuou a sua busca de pátria. Vatic, que se tinha mostrado incapaz de criar os seus próprios filhos, queria adoptar uma pátria. Foi, por isso, que tentou apagar todos os vestígios da sua passagem por Vulgar.

Até que um dia, num bar perto do Aeroporto de Lisboa, Vatic ouviu por acaso falar Agostinho da Silva. Agostinho da Silva falava da manha do nascimento de Portugal e do extraordinário passado de Portugal. Ouviu falar dos descobrimentos, daquela explicação estranha de Portugal ter trazido o mundo até perto dos olhares da Europa. E ouviu o vaticínio nebuloso de que as crianças portuguesas hão-de instaurar um futuro feliz, uma idade do ouro ou do espírito santo. Vatic ficou estupefacto, Nunca lhe tinha passado pela cabeça adoptar esta pátria, mas naquele dia decidiu que não partiria no próximo avião. Com os olhos vazios, esperou no bar oito dias até que Agostinho da Silva voltasse a falar. Os empregados do bar já se tinham habituado ao cheiro daquele bife que dormitava durante a madrugada e a manhã e à tarde e noite não despegava os olhos do pequeno écran enquanto despejava cerveja atrás de cerveja. Na semana seguinte, Vatic ouviu Agostinho da Silva falar de que tinha sido professor do presidente da república e de novo do portugal messiânico. Ficou ainda mais curioso àcerca desta possibilidade de pátria a adoptar.

Decidiu-se definitivamente quando ouviu dizer que Mário Soares, o Presidente da República, teria dilo que Portugal era o modelo de transição para a democracia, que o 25 de Abril tinha inspirado o mundo inteiro e que as actuais modificações no mundo em busca de democracia política poderiam ter sido apontadas pelo dedo de Portugal.

Não havia dúvidas que tinha encontrado uma pátria, se não com futuro, pelo menos a indicar o futuro ao mundo.

Vatic levantou-se do bar. Foi até ao aeroporto, levantou as malas e foi entregar-se à polícia. Pediu asilo político. E declarou que queria ser português.

Intriga soube por acaso que Vaticínio já tinha iniciado um processo de adopção de uma pátria e soube que tudo estava bem encaminhado, até porque a pátria portuguesa, também ela, gostava e muito do Vaticínio.

Soube também que a pátria adoptada já tinha manifestado vontade de ter um verdadeiro lar e influenciava Vaticínio a voltar a juntar-se a Intriga. Por ela tudo bem. Sempre tinha querido ter uma filha como a pátria portuguesa.



Sábado


Sábado acordou com os pés frios. Tiritando, Sábado meteu os pés debaixo do – cobertor. Mas já era tarde. Começou a espirrar com violência e desistiu de adormecer de novo.

Acendeu a luz do candccirinho partido que tem na mesa de cabeceira e pôs-se a ler o livro da noite.

No exterior, a escuridão tinha tomado o lugar de todos os objectos, das ruas, das casas, das pessoas. Os olhos perdem a utilidade nesse exterior.

Por isso, Sábado descalça as luvas e antes de dar qualquer passo no absimo que a escuridão é, para além de tactear o caminho com as pontas das botas, verifica com as mãos nuas, atiradas para diante, que a escuridão não é sólida.

Na escuridão, Sábado nunca recua. Se quer tomar outro sentido, vira-se lentamente, apalpando cada falia de círculo rodado. Quando vagueia na escuridão, Sábado perde a noção do tempo e do espaço e não identifica os objectos que o rodeiam, tão habituados a ele. Os objectos não se esquecem de Sábado e são eles que se escondem nesses momentos em que cheiram a escuridão de Sábado.

Na noite, calma e sem núvens, não há lua, nem estrelas se vêem, e, no entanto, destacam-se formas de mulheres nas varandas. Vêem-se os olhos brilhantes, coruscantes como estrelas. De vez em quando, como se obedecessem a uma ordem, os olhos das varandas fecham-se e a escuridão é então total.

Elas são as mulheres que esperarn a vinda de Sábado. Sábado há-de chegar no seu jeito de cego, com os braços esticados para diante e os olhos vazados pela ignorância que a escuridão cria. E Sábado não deixará de chegar como habitualmente.

Quando Sábado chega, mudo e cego, e toma o seu lugar de estátua no meio da praça, as mulheres voltam para dentro das varandas e acordam os maridos e os amantes.

Quando o dia amanhece, Sábado está exausto e não consegue levantar-se. Nunca se lembra do pesadelo do livro da noite. As mulheres também não se levantam cedo, cansadas da escuridão dos seus olhos fechados.

Os médicos não têm solução para o Sábado. O diagnóstico foi feito, mas todas as tentativas de cura falharam completamente. Nem a hipnose deu qualquer resultado. Sábado sempre punha os pés fora do cobertor e acordava tiritando. Qualquer livro de cabeceira era livro da noite e quando o livro caía, dos dedos abertos de sono, Sábado levantava-se sonâmbulo para enfrentar a sua escuridão de pesadelo. Os médicos experimentaram mesmo iluminar com holofotes a avenida do abismo e nem assim acordaram o Sábado.

Só a morte poderá salvar o Sábado. Sábado sai para a avenida da noite e com seus gestos cautelosos toma o eixo da avenida deserta. Pára. Durante uma hora, será a estátua de Sábado.

Uma equipa de professores insones, contratados pela Câmara Municipal, ocupa as margens do rio que corre ao longo da avenida do abismo de Sábado. Foram contratados para ensinar Sábado. Escrevem no quadro preto que a noite é um sumário para Sábado. Dois deles, os mais possantes, agarram Sábado pela cabeça e pelos pés. Arrastam-no, abrem uma brecha na fila de professores que, tomando balanço, atiram o Sábado bem para o meio do rio.

Os professores estudaram o problema de Sábado e sabem que, em contacto com a água fria e mal-cheirosa do rio, ele vai acordar e, respondendo aos seus gritos de comando, Sábado começará a esbracejar e desesperadamente procurará a margem oposta ao seu pesadelo. Provarão que os médicos não podem ensinar caminhos de saída. Professores modernos sabem que nadar não se ensina, aprende-se.

Não vêem nada. Mas acreditam que se Sábado não acordar é porque tomou o caminho do fundo para sair do abismo. Ainda hoje defendem que o Sábado prefere ser afogado a acordado.



Evidência da Verdade


A Evidência encontrou-se com a Verdade numa tarde de Sábado. Sábado sempre tinha guardado as tardes para a Evidência e as manhãs para a Verdade.

Sábado acreditava na Tradição. E a Tradição garantia que a Evidência surge tarde, enquanto a Verdade pode nascer com o sol, mas esconde-se à medida que a luz ilumina a Evidência.

Quando a Verdade encontrou a Evidência na casa de Sábado, ficou verdadeiramente indignada e procurou saber de quem se tratava e insistiu especialmente em saber qual a sua relação com a nova inquilina.

Ninguém estava preparado para responder à Verdade. E a Evidência, que é surda muda e cega, parece que olha para a Verdade, quando esta a questiona, não lhe responde. Porque a Evidência é vidência, visão, ela mostra-se simplesmente.

A Verdade – confessa o Sábado – que não sabia das deficiências físicas da Evidência, teve razões para se irritar durante a altercação,

O problema maior foi esclarecer as ligações que existem entre Evidência e Verdade. Porque a Evidência não é um facto, um corpo em si, mas Verdade do facto, Verdade do próprio corpo que Evidência mostra.

Verdade linha razão. Sábado eslava agora a convencê-Ia que, por intermédio de Evidência, as pessoas se aproximavam da Verdade e que esta só tinha que aceitar Evidência e estar-lhe grata por existir, apesar das deficiências físicas que apresentava. Sábado explicava pacientemente a Verdade que não valia a pena preocupar-se com Evidência, até porque esta, ao contrário da Verdade. só existe no seu presente e no passado presente.

Verdade ficou ainda mais irritada, por ter descoberto que afinal Evidência é uma espécie de borboleta efémera e que, havendo Evidência sempre, a Evidência de hoje, habitando a tarde do coração de Sábado, não é a mesma de ontem e não é a do próximo Sábado. Verdade sabe que ainda é muito mais difícil competir com Evidência, se esta se apresenta variada e nova aos olhos de cada Sábado.

Sábado, para tentar acalmar a Verdade, acabou por lhe dizer que, enquanto a Evidência morre em cada Sábado, para renascer para cada Sábado, o mesmo não se passava com Verdade. E para reforçar o seu argumento, Sábado disse-lhe mesmo que a Verdade era velha, até eterna que seria a mesma todos os Sábados. Aquilo que ele disse, como uma mentira piedosa, acabou por transtornar Verdade, definitivamente.

Aos gritos, Verdade desceu as escadas de Sábado.jurando que não mais voltaria. Sábado, desesperado, entrelaçou os dedos da manhã nos dedos da tarde e ficou-se prostrado de dor. Já pensava em pedir a Evidência que saísse para o deixar só.

Mas Evidência, que se guia por impulsos e deixando de receber sinais de Sábado, corria atrás da Verdade, como sua sombra.

Sem Verdade, nem Evidência, Sábado ficou mergulhado na sua parte de noite. Levantou-se lentamente e foi procurar, como um cego, outras luzes, outras mulheres.

Embrutecido pelo álcool, pelo barulho da discoteca e pelas luzes artificiais, Sábado imaginou outras manhãs e outras tardes que lhe pareceram artificiais, mas compensadoras.

Sábado caíu de borco num beco. Domingo só teve de o apanhar do chão e lançá-lo no contentor de lixo.



Javali


Até ontem, o meu nome era para mim um mistério. Não tem sido fácil apresentar-me como Javali Fogo Negativo. Até porque nem os mais chegados aceitam facilmente chamar-me de Javali. Um amigo meu chegou mesmo a mentir quando lhe perguntaram qual era o meu verdadeiro nome. Ele chama-me Ali, desde que nos conhecemos. Quando lhe perguntaram o meu nome completo, fingiu primeiro que nunca o tinha sabido, para finalmente responder que devia chamar-me Alípio.

Desde ontem que sei porquê. Comprei uma pequena brochura sobre o horóscopo chinês e verifiquei que, de acordo com a minha data de nascimento, eu sou do signo javali, um dos doze animais que responderam à chamada de Buda, imediatamente antes deste entrar no Nirvana. E descobri que, se o meu pai não é chinês, deve ter andado por perto de algum negócio da China. Pode até ser que o seu negócio da China lenha consistido em abandonar-me a mim e a outras 14 pessoas que declaram ser seus descendentes. A maior parle deles tem nomes de animais, um chama-se Paulo, outro Crisóstomo e o mais novo chama-se Joaquinze. Penso que percebi as suas razões e não lhe levo a mal pelo nome que me pôs. Pior está um irmão meu que se chama Cabra. Ou uma irmã que se chama Macaco.

Ao ler mais coisas sobre javalis, como eu, fiquei a saber que são gentis, leais, escrupulosos, indulgentes, conscienciosos, cultos, sensuais, decididos, pacíficos, ternos, profundos e sensíveis. Fiquei muito contente por fazer parte de um círculo virtuoso de adjectivos. E não acreditei numa das palavras que a seguir pretendiam caracterizar-me: ingénuo, vulnerável, inseguro, sarcástico, epicurista, fraco, entediante, crédulo, vulgar e fácil de enganar. O livrinho esclarecia que o javali pode ser definido como uma pessoa boa, que a sua tendência para o equilíbrio faz com que suporte pacientemente até agressões fortes. Concordei. O texto continuava esclarecedor: o javali costuma ser um bom amigo e tem uma sensibilidade cavalheiresca; que, sob uma aparência frágil, o javali é incrivelmente resistente em lodos os sentidos e que é capaz de defender os seus próprios interesses com inteligência. No livro também se podia ler que ao javali não faltam interesses intelectuais, embora os seus conhecimentos nunca sejam mais do que superficiais e que ele prefere as conferências e as manifestações culturais mundanas à leitura solitária e ao estudo. Enfim.

Mas onde me senti mais identificado e lisongeado foi na parle do sexo. De tal modo me senti identificado que, por timidez, não transcrevo nada a este respeito.

Uma parte que me impressionou vivamente foi aquela que se refere à minha ligação com uma boi. Lê-se: «A seriedade e a sobriedade da mulher boi costumam assustar o javali, guloso e sensual, a ponto de até sair correndo. Além disso, ela não suporta as suas formas de diversão que considera grosseiras»

Como sou um javali de fogo, vale a pena lranscrever o bocado de prosa que segue esse título: «Corre sério risco de ser tragado por um ritmo alucinante de trabalho, reduzido a uma máquina de fazer dinheiro em favor da família e dos amigos. Pode mostrar-se prepotente e obstinado, mas em geral arrespende-se dos seus erros.»

Li de uma ponta à outra tudo o que se refere ao Javali. E fiquei a conhecer-me. Já não tenho tantos problemas com o nomee muito menos estranho estar casado com um boi.

Satisfeito, espetei o livro numa das presas, empinei-me sobre as duas patas traseiras e gritei. Depois desatei a correr como um doido javali fugindo da serpente, cujo erotismo refinado e cerebral não combina bem com a minha sensualidade primitiva. Boi, que pastava calmamente perto do charco, ao ver-me naquela excitação e antevendo que iria chafurdar na sua água, não deixou de me chamar o costume: Javardo!

E foi então que, ao passar por mim, um caçador disparou. Já moribundo, assisti à glória do caçador de javalis letrados. E quando fechei os olhos, deixei de ver.
Buda, que me tinha inspirado para ler, anda agora ocupado em ensinar-me a escrever à maneira dos javalis cegos.


Rádio Independente de Aveiro, entre Janeiro a Julho de 1990….