2009


os anjinhos e o anjo papudo


O nosso anjo mais sisudo está sentado no banco central. Nós olhamos para ele e sabemos que ali acontece o milagre. Não há melhor que ele no jogo do sério: mesmo nos momentos mais hilariantes, para o seu ponto de vista de rico menino, ele não se desmancha. Para o jogo do sério, ele é o ídolo popular. Nem as cócegas na consciência, que a miséria do povo é, o tiram do sério.

Quando ele se arma em nosso anjo da guarda e desata as contas do nosso rosário de tudo querermos para tudo perdermos, eu rendo-me e saio para a rua pregando a má velha e a boa nova:
“Pedintes, pobres de pedir, pobres de espírito, verdadeiros pobres, só pobres, pobres no desemprego e no emprego, pobres sem abrigo, pobres ao abrigo da caridade alheia, escutem a voz da razão, do deve e do haver. Concentrem-se em frente das televisões, aguardem a sua chegada e, repetindo em voz baixa as sensatas palavras e os piedosos conselhos do nosso anjo mais papudo, afastem para todo o sempre e para bem longe de vós toda a ganância, toda a inveja, toda a luxúria, toda a arrogância e toda a preguiça. Trabalhem mesmo que a fome aperte, mesmo que não recebam tostão, mesmo que reconheçam a mão que vos rouba, mesmo que a vossa vida fuja com outro. Sede ao menos uma vez sinceros e reconhecei que o anjo sisudo merece cada um dos tostões do seu salário, por seu sábio acompanhamento cego seguido de salvação do esquema de fraude geral até este patamar de crise global, soma esquecida das suas parcelas locais, a acabar no conselho avisado: invista-se tudo em ajuda aos cotados em bolsa e inventariem-se sacrifícios para os os coitados sem bolsa, de cotão no bolso cheio de côdea nenhuma!”

Habituados a todos os trampolins, os anjos papudos treinam-se para voar, se possível. para lá do fulgor caseiro . A estes anjos não foi a divindade a dar-lhes asas. As asas, que eles usam afiveladas, foram oferecidas por uma geração de peralvilhos, a de todos nós. Eles têm a escola toda e vergonha nenhuma. A sua indiferença foi ensaiada frente aos nossos espelhos de lata e é lata mesmo!
Cegos pelo brilho do sol na lata, louvamos os anjos que nos anunciam os seus termos e condições. E damos graças por arder no lume brando português.

[o aveiro; 08/01/2009]



A escola e a escala do optimismo


Perguntaram-me recentemente se gostava de crianças. Respondi que obviamente um professor só pode gostar de crianças. Na vida profissional, acompanhei crianças diferentes umas das outras: sossegadas e traquinas, curiosas e desinteressadas, activas e passivas, pobres e ricas, … A minha única lição de vida é que elas lutam por aprender o que lhes interessa e lhes parece vital e recusam aprender o que não lhes interessa ou que não lhes parece de utilidade alguma, sabendo que a escola é um mundo de transmissão de conhecimentos e construção de competências, em grande parte, estranhas às crianças. A grande luta é, pois, ganhar a sociedade toda para o interesse e a importância do saber escolar, para oportunidade e adequação das escolhas curriculares. Se é preciso e importante, aprende-se. Aprende-se com esforço e interesse. Se as famílias e a sociedade não sentem ou não sabem que a escola é um importante sistema de criação de riqueza, as crianças não aparecem motivadas para o esforço escolar.
Nesta semana, o exemplo de um jogador de futebol aparece mais uma vez como um contra-exemplo sobre a necessidade da escola normal. Só que um jogador de futebol não representa o futuro da população.
É, por isso, que aqui relembro o interesse de tornar claro para a população o significado da escola. No Público de 3ª feira, Desidério Murcho chama a atenção para os dados de um inquérito do INE realizado em 2003 e esses sim é que interessam: na mesma faixa etária dos 30 anos, quem tivesse concluído o secundário, sem ter uma licenciatura ganhava 400 euros menos que os portadores de uma licenciatura; e isso aumentava com a idade, sendo que aos 50 anos um licenciado ganhava em média 2000 euros mensalmente, para perto de 1000 euros se tivesse só secundário e não mais de 800 se tivesse só 9º ano. Estes são os dados que interessam à maioria dos comuns mortais. Desidério Murcho tira daí razões graves para admitir que os poderes estão a favorecer os jovens mais perto do sistema escolar por origem familiar em detrimento dos pobres e desfavorecidos que, se perceberem o interesse da escola, podem aprender e ser mais empreendedores, mais diligentes e mais competentes, caso percebam a vantagem, também económica, que a escola dá.
Os pais das crianças querem o melhor para elas. É preciso tornar clara a vantagem da escola para a sociedade toda e para que a competição entre competências seja justa. Melhor para cada pessoa comum, melhor para a sociedade. Nas sociedades em desenvolvimento, precisamos de todos e de cada um no seu melhor. As habilidades e as vantagens do berço não são uma benção para o país.

[o aveiro; 16/01/2009]



QUAD


Em textos matemáticos, escrevo muitas vezes “\quad” para forçar um espaço entre duas coisas que quero separadas. Ouço “quad”, por vezes. Já não sei quando foi a primeira vez, mas foi numa pequena sala da Fábrica da Ciência, que ouvi o “quad”. Não sei quando começou, mas passei a ouvi-los repetidamente. No fim da semana passada, fui ouvi-los ao “Performas”, depois de ter adormecido brevemente sobre uma viagem a reuniões sobre ensino de Matemática e associativismo profissional e passagem por um encontro de professores em Torres Novas.
Acordo para me forçar a um espaço entre afazeres que quero separar. Que interesse tem isto de falar dos intervalos na vida de um professor?

“Quad” é um clássico quarteto de saxofonistas. Três deles conheço-os desde muito jovens. Não, nunca fui professor de qualquer deles. Mas acompanham-me a vida de professor e são uma parte da vida da minha esperança na educação. Simultaneamente alunos da escola generalista e do Conservatório de Música, servem-me de modelo quando me ponho a pensar sobre ensino e educação, sobre escolas, sobre cultura e seus públicos. Olho para eles e decido-me a favor de umas políticas e contra outras. No mistério das suas vidas de pessoas que realizaram, com êxito, a sua formação geral, humanista e científica, e, com maior êxito ainda, se tornaram instrumentistas. De quantas horas diárias de treino precisa um atleta ou um instrumentista até estar capaz de ler, interpretar e executar um exercício complexo, sem falhas em frente do público que segue, com todos os sentidos alerta, a execução? De que professores e treinadores precisam os instrumentistas?

“Quad” é um moderno quarteto de saxofonistas. Quantas horas mais, quanta força mais, precisam os músicos (ou os actores) para compreender o seu tempo e forçar, pelas suas escolhas, a divulgação das obras que são novas e só habitam o espaço popular por obra de mãos magníficas que não ficaram paralisadas na teia de argumentos da aranha industrial do entretenimento, essa que vende sabores alisados sobre verdetes consagrados. A cultura musical é obra de cada nesga de tempo e ouço-os – Quad – também na escolha do estilo de vida difícil de educar públicos, criar públicos de novo e puro prazer. Sem sugá-los, nem segurá-los, antes soltá-los livres para o seu tempo. Alunos das escolas, colegas e professores uns dos outros como instrumentistas cultos, eles constroem-se como exemplo.

Como podem as comunidades conhecer e proteger os seus Conservatórios? E os “Quad”?

[o aveiro;23/01/2009]



o primeiro ciclo de um relatório


O Ministério da Educação encomendou um estudo internacional sobre os resultados das medidas de política de valorização do primeiro ciclo do ensino básico. O estudo foi encomendado a uma equipa de 5 especialistas (do Reino Unido que dirigiu, da Irlanda, da Holanda, da Hungria e de Portugal). Trata das medidas tomadas desde 2005 até 2008, que vão desde a reorganização escolar, à avaliação e à formação contínua dos professores do 1º ciclo.

Um prefácio da Chefe da Divisão das Políticas de Educação e Formação da OCDE aparece, aos olhos do público, como um acordo geral dessa organização com as políticas postas em acção. Normalmente, este estudo não levantaria qualquer problema e não passaria pela cabeça a ninguém levantar problemas à credibilidade do prefaciador e dos peritos envolvidos. Mas, no clima que se vive actualmente na educação portuguesa, a primeira reacção dos professores e educadores é questionar a validade da avaliação e das conclusões do estudo. E parte da comunicação social acrescenta desconfiança à desconfiança instalada, pressionando professores e outros responsáveis a fazer considerações sobre um texto que ainda não puderam ler. As declarações são muitas vezes feitas sobre as citações dos jornalistas que, apesar de serem o contexto das intervenções, desaparecem das notícias.

Na comunicação social generalista sobra um conjunto de ideias vagas que criam o clima encomendado e que vende. Raramente, estas notícias podem ser refeitas ou retomadas em reflexões publicadas pelos mesmos órgãos e que, por seu intermédio, integrem uma opinião de massas informadas. A encomendas de estudo pelo governo respondem encomendas dos interesses instalados noutro lugar de poder que visam contrariar o optimismo dos estudos do governo.

Nestas condições só nos resta apelar à leitura (crítica, claro) do relatório pelo público. E deixar claro que é natural um relatório desta natureza falar de aspectos positivos. Que diabo! bastará lembrarmos o que todos conhecemos e que sempre constaram das reclamações de professores e pais sobre o estado das instalações e equipamentos escolares, fracos e inexistentes sistemas de apoio e formação ou as condições de trabalho e estudo dos professores, crianças e jovens. O interesse do governo e as realizações não podem piorar o pior. Há muitas melhorias que devem ser saudadas com optimismo.

Não deixemos de criticar o aproveitamento político que pode resvalar para danças de melhores resultados escolares ou de proficiência de professores, que não podemos considerar estáveis e consequência desta ou aquela medida que pode mesmo ter sido vítima de realizações locais medíocres. Nem deixemos de ler o relatório que precisamos de ler, mesmo que seja para criticar e para… exigir mais.

[o aveiro;30/01/2009]



memória e procura


Arrumamos a nossa vida em pequenos cubículos. Uma parte da minha vida passa-se entre papéis poisados em estantes. As estantes são sólidas e a maior parte dos livros aparecem poisados em lugares que não são disputados por outros papéis. Mas a maior parte dos papéis parecem ter sido despejados a esmo por cima de outros e a desordem que nos dão a ver não é aparente. A família diz que aquele lugar e outros dos meus lugares só merecem uma classificação na porta ou na lombada: DIVERSOS. Para toda a gente, a desordem. Para mim, a ordem. Sabia onde se encontrava este ou aquele papel e sabia onde entra o computador e onde se alimenta, onde as mãos cabem e podem esticar os dedos, onde está o papel em branco, onde estão as canetas, onde me posso sentar, como posso escalar até aos papéis do alto.
Mas, recentemente, dei por mim a ter medo de arrumar este ou aquele conjunto de folhas. Ali, naquele mundo ordenado na minha memória passada, passaram a suceder-se jogos de gato e rato. De gatas, procuro o rato que arrumei. Como um gato me vejo pendurado, gestos cautelosos de felino para nada ser mexido e meticulosos exercícios de rememorar os lugares do papel que arrumei antes com tal cuidado que nunca me esquecesse do seu lugar.
No meu mundo, sei agora que arrumar é esconder e perder. E descobri que foi assim no passado. Ao procurar os papéis que preciso hoje sem falta, descubro papéis que devo ter arrumado cuidadosamente no passado e de que nem me lembrava agora. A busca de um papel arrumado ontem é um exercício lento e laborioso hoje, mais lento porque encontro o que já nem existia por não poder ser nomeado por mim, que lhes dera existência.
O mesmo se passa com o que só existe em discos, vários ali perdidos entre os papéis e vários em outros países e paraísos onde memórias minhas ficaram guardadas e de onde podem ser visitadas. Quando procuro isto, aparece-me aquilo. As palavras que eu associo ao perdido não nomeiam o que eu perdi, mas nomeiam, muitas vezes, o que eu esqueci e, por isso, não existe.

Nestas condições, sigo com muito interesse e atenção, a campanha negra. Leio notas de jornal, ouço investigadores e procuradores sobre os rastos do dinheiro, das agendas e das vidas virtuais dos suspeitos. Algumas vezes, pensamos que eles tinham destruído os rastos quando afinal os tinham arrumado para os perderem. Rezo pelo sucesso dos investigadores e procuradores.

Confiarei num procurador para os “diversos” onde a minha vidinha se perdeu? Depende muito da campanha em curso.

[o aveiro; 7/02/2009]



as perguntas e as respostas


Caminho pelas manhãs dos dias, respondendo a cumprimentos vagos. Habitualmente. Mas agora, cada vez mais frequentemente, as pessoas que me conhecem acrescentam perguntas do tipo: Ainda está no activo? Ainda não se reformou? Porque é que tira o chapéu com este frio? Hoje assim aconteceu. Nunca sei muito bem o que responder. Mas respondo mais ou menos maquinalmente, porque todas as perguntas têm resposta. Não posso responder que não sei, mas também não posso responder que sei. Respondo que sim, que estou activo, que ainda não me reformei, que tiro o feio chapéu num gesto automático de cumprimento. Outras perguntas mais raras: Então a avaliação? Ainda vai querer ser avaliado? Para quê? Anda sempre a contestar políticas e leis e ainda vai cumprir a lei feita por um governo de que discorda e não elegeu? Podia responder: Sei lá. De facto, a minha vida democrática é feita de desacordo com os partidos de governo e com muitas das leis que são promulgadas. E, sem deixar de as discutir, cumpro as leis da minha república. Da república das bananas? acrescentam. Parece, mas não é. E eu, que só respondo pela minha cabeça em vias de reforma, digo que discuto as leis e as respeito quando aprovadas pela maioria dos eleitos. Se assim não fosse, não podia esperar dos outros que cumprissem as leis que, em minha opinião, são boas. E teria de achar que vivíamos numa república de bananas, onde cada intenção de grupo vale como lei ou mais que a lei. E nada vale, valendo tudo de igual modo. Por isso, vou cumprindo as leis desta república sem qualquer desejo de voltar ao tempo em que as leis do governo não passavam pelo crivo do parlamento, da presidência, do acordo constitucional, dos tribunais, das eleições. Está bem. mas para o seu caso, o governo já abriu excepção em lei. Pois, abriu excepção, mas não me retira o direito de ser igual aos outros que cumprem a lei geral. Já antes isso me aconteceu. Abriram excepções para os presidentes dos conselhos executivos e eu, presidente do conselho executivo, recusei ser tratado de forma diferente dos meus colegas de profissão que continuavam a ser avaliados com as regras da altura. Que me podem perguntar a seguir? Vai ganhar mais? Não. Então para que é que isso lhe serve? Para ser o mesmo. Isso não é grande coisa. Pois não. Mas sou eu. Diferente de todos os outro? Diferente, claro. Mas mais igual, me parece. E depois? Sei lá. As respostas não são boas? E as perguntas?

[o aveiro; 13/02/2009]



quarta de cinzas


Há 70334 novos desempregados – escreve-se nos jornais destes dias, apesar de Janeiro ter sido simultaneamente o mês de mais oferta (8821) e mais colocações (4219). As empresas aproveitaram os fins dos contratos a prazo para os não renovarem. O exército de desempregados conta agora com quase meio milhão de portugueses (447966). E é no norte do país que o contingente de desempregados é maior.

A este respeito, os partidos que se têm revezado na governação fazem declarações de carnaval a roçar o obsceno. Para além das almofadas do emprego no sector público, os dirigentes políticos cansam-se em acusações mútuas sobre as políticas que cada um deles seguiu. De tal modo se cansam nisto que parecem cegos na realidade. A realidade que importa considerar está nas pessoas e famílias de pessoas em busca de solução para o dia a dia difícil e intolerável e não em abstractas considerações estatísticas de mais ou menos pontos percentuais. Todos os dias, dia a dia, os desempregados são pessoas que buscam uma oportunidade de trabalho produtivo pelo qual recebam salário que viabilize a vida familiar e dê curso a uma vida produtiva, socialmente útil.

O discurso directo de cada um não pode ser ensopado em caldo de estatísticas que se usam como espadas de brincar nas mãos dos foliões dos governos. Não há optimismo que subsista no mundo de cada desempregado se o seu mundo se mantiver em derrocada. E não há pessimismo que nos salve se o pessimismo sobre as políticas do aparente inimigo esconder o que ontem fizeram e querem voltar a fazer no poder a que anseiam voltar. Sem nada fazer para devolver à sociedade a vida produtiva de cada produtor e consumidor.

A época também revelou que das nossas empresas, registadas como tal, há 71882 que empregam ninguém. Máscaras? A maioria destas empresas não representa iniciativas familiares de auto-emprego a confiar na sua classificação por sectores de actividade. Empresas de nada e de ninguém? Ou é a sua força produtiva que mantém a lucrativa indústria de recibos verdes?

Carnaval? Quarta de cinzas..

[o aveiro; 27/02/2009]



a conta calada


José Sócrates vestiu o (ul)traje da solidão obcessiva. Como se um partido pudesse deixar-se substituir por uma pessoa. Identifica-se e determina-se por oposição, rejeita-se por oposição. Cego e surdo vive num deserto. Há uma multidão de mãos de apoiantes sem cabeça e ideias a erguerem-se para ele como esperança no poder, parece que o levantam aos céus de um filme épico, não sendo eles mais que migalhas ou grãos de uma areia movediça que tudo consome. Há uma multidão que o rejeita como solução e ele não vê mais que uma campanha de rostos encapuçados por negros presságios de desgraça. Todos os dias recebe os mesmos avisos por altifalantes estrangeiros como ecos dos avisos que cá dentro compoem uma paisagem assim não, e ele afasta com gestos impacientes esses sinais voadores e a mosca que não se deixa apanhar e zumbe em vários comprimentos de onda. Já não discrimina o que cada um dos outros diz e tudo reduz a uma mancha sonora de desaprovação insensata. Prega no deserto a maioria absoluta como a criança espeta pregos na areia da praia, só que a criança sabe que prego que se espeta é prego que se desprega para recomeçar sempre do mesmo modo, até que o regresso a casa limpe o rasto do jogo. Mesmo que venha a obter uma maioria absoluta de mãos que pregam como ecos dele, ela só servirá para o reduzir a si mesmo ou a nada. O poder ensurdece e cega. A partir de certa altura, passeará de uma sala para outra por sombrios corredores do poder, movido a ar comprimido numa atmosfera de ar condicionado. O pior que lhe pode acontecer é ser cercado por criaturas de ar resignado que colhem os votos populares como se fossem um só: ele. Ele verbaliza uma razão trágica quando declara que governa, não quem representa, antes, quem é escolhido ou ungido, e, por isso, pede uma maioria absoluta para ser ele o primeiro ministro. E nós já sentimos como isso é verdade.

Por amor das pessoas, de Sócrates, da cidade e dos cidadãos, elevamos a voz contra a resignação e em apelo ao julgamento crítico. Em modo de oração democrática, humildemente, declaramos a nossa esperança nos que tudo ouvem, discutem e levam em conta para criar opinião própria e, em consequência, agir livremente em votações, livres e não condicionadas por fantasmas que confundem a saída da crise com a porta da casa do poder atravessar paredes…

[o aveiro; 6/03/2009]



astronomia


2009 é o Ano Inernacional da Astronomia (ver http://www.astronomia2009.org/). Em toda a parte se celebra a ciência que nos demos e damos uns aos outros, a partir de maravilhas que vemos e adivinhamos. Há uma celebração do nosso planeta e, a partir dele, de todos os astros que a humanidade não desiste de procurar. Há uma celebração da humanidade no olhar para dentro da sua acção aparentemente perpétua em busca do que nos escapa, mas também nos explica. Todos os dias criticamos a nossa acção humana que destrói, todos os dias nos maravilhamos com a nossa acção que constrói as pontes para fora de nós e nos deixa ver os outros astros que só podemos adivinhar e imaginar quais pintores de sonhos. E, na ciência, celebramos o que de melhor somos na compreensão do que não podemos atingir com as nossas magníficas mãos, despidas de tecnologia, mas podemos comprender com a inteligência despida de preconceitos e ancorada no conhecimento que herdámos. Por isso, celebramos todos os que olharam para os céus em busca da verdade por saber e sofreram horrores para nos darem a visão das coisas que não são conformes aos sentidos ou às crenças dominantes. O que as escolas ensinam, sem mistérios, é o resultado de um lento desenvolvimento, de uma luta milenar, de uma busca tão mais humana quanto nos parece sem sentido e sem utilidade para cada geração. O Ano Internacional da Astronomia aí está, não para nos fazer esquecer a crise e a obra nefasta de parte da humanidade, mas para lembrar a todos que há esperança sem fim e há esperança até nos confins do universo limitado que nos vem desde o princípio dos séculos humanos e nenhuma crise humana (e foram tantas!) foi capaz de travar a meio do caminho.

Aveiro tem um céu especial que deve ser olhado em si mesmo por todos os que se maravilham com o que ao longe podem ver e podem compreender, nas suas relações, pela via da ciência. É altura de chamar a atenção dos jovens para os modelos matemáticos que nos fornecem explicação para o funcionamento actual das coisas no universo, tal como as vamos conhecendo, e nos alertam para tudo o que, com base nos modelos, pode acontecer com elevada probabilidade.
Cada um de nós aparece e, um momento depois, desaparece deixando um rasto de memórias e não mais que isso. Assim pode acontecer com a humanidade inteira.

O céu por escalar é um impulso. Olhemos para o céu. E olhemos por ele, amorosamente. O céu não pode esperar.

[o aveiro; 13/03/2009]



os dias que contam


Nenhum de nós sabe quanto custa um abraço. Com gosto, pagamos todos os abraços solidários sem contarmos os tostões. Não regateamos o preço de cada escola que construímos, de cada encontro com o conhecimento, de cada momento de cultura, de cada momento de criação. Porque pagamos um alto preço quando falhamos uma (re)construção cultural, quando falhamos um encontro com a ciência ou com a literatura, quando falhamos a festa do cidadão em construção.

Vem tudo isto a propósito da festa que é o Campeonato de Jogos Matemáticos, cuja final se realizou este mês na Covilhã. Milhares de jovens e professores das escolas do país envolvem-se no estudo dos jogos e na competição entre jovens que se mantêm atentos por saberem que tudo depende da atenção presa a cada passo de uma estratégia ganhadora. Não se trata de jogos de azar ou de sorte e é preciso não cometer erros de estratégia, nem erros de raciocínio combinatório e manter uma grande disciplina de espírito temperada pela criatividade que desequilibra. Milhares de jovens, muitos milhares de jovens portugueses revelam-nos o interesse mágico da matemática, uma outra vida. Começa a ser claro que a matemática da escola já vai muito para além da matemática das aulas tal como nós a pensamos e que, para muitos jovens, essa é a matemática que importa, essa é a matemática em que revelam competências insuspeitadas. No tabuleiro e nos movimentos das peças com vista a um objectivo preciso há intuição e matemática da melhor, cujos pedaços vão sendo organizados ao longo da vida escolar mesmo quando não parece, ainda que a teoria não faça o jogador.

Pela primeira vez, este ano, participaram jogadores cegos no campeonato nacional dos Jogos Matemáticos, com jogos matemáticos construídos expressamente para serem jogados por cegos. As peças e os tabuleiros podem ser diferentes, mas a matemática em jogo é a mesma. Assisti à festa e estive na entrega dos prémios a campeões, sabendo que ao lado de cada jovem que sobe ao pódio há um animador e professor que recebe o prémio e o percebe de um outro modo. Ganhei o dia. Ganhei um dia glorioso por, sem mérito algum, ter entregue o prémio a um jovem campeão cego com a consciência de que, naquele tabuleiro, ele sabe muito mais matemática que eu.

Os dias que contam contam-se pelos dedos das mãos.

[o aveiro; 27/03/2009]



a democracia do negócio


Pelo meu lado, todos os actos da administração pública devem ser simples, rápidos e eficazes. Sou a favor da certidão e dos bilhetes de identidade na hora, da empresa na hora, do tratamento na hora, etc. É bom tudo o que permitir que verdadeiros empreendedores prossigam objectivos individuais e sociais sem calvário de perseguições burocráticas que os convide ao desânimo. Verdadeiros empreendedores, capazes de criar ou aproveitar a sua oportunidade. Há negócios de ocasião justos e necessários que não podem ser travados.

Há ocasiões. Só que da ocasião também vive o ladrão. Há ocasiões que são forjadas, há coincidências que são forjadas na base de informação privilegiada e muitas vezes ilegítimas (ainda que legais, a maior parte das vezes, ou legalizadas por quem de direito) para determinada ocasião. Uma medida política pode fazer da necessidade do estado a manjedoura para negociantes oportunistas que criam empresas para negócios instantâneos aptas a falir ainda crianças com fundos a investir noutro país qualquer ou a desaparecer numa nebulosa. Lemos os jornais e custa-nos a acreditar na inventiva dos criadores de empresas locais, beneméritos criadores de emprego e desemprego (subsidiados, claro!) que fazem emigrar o capital e o lucro do seu labor patriótico.

Em muitos aspectos, parece-nos que vivemos uma democracia do negócio. Claro que não podemos dizer que o negócio foi democratizado porque os nomes a que os jornais se referem estão ligados em teia, em famílias de mães, tios primos, amigos de longa data e afilhados… muitos deles sempre a jogar ao centro ou no centrão do poder. Não há muito tempo, o banco privado ou o banco português dos negócios apareciam-nos como enigmas portugueses. A crise veio para fazer do charco enigmático um espelho de água, bancos de fachada, opacas fachadas de banco de onde somos vistos pelas coisas que não vemos.

Finalmente o espanto vai para a novidade das famílias nos jornais. Que sabe cada um de nós do que faz ou deixa de fazer um qualquer dos primos? Andamos nós a falar das famílias e da fragilidade dos laços de família. Esta crise veio mostrar que nada há a temer quanto aos valores das famílias, pelo menos de algumas. Unida como poucas, a família dos negócios prospera. Há uma moral material.

[o aveiro; 17/04/2009]



um dia daqueles


Todos os dias olho um pouco para a frente – uns minutos de futuro que logo logo se tornam em passado – olhando para trás. Nunca saberei se o sentimento de mim no passado envolve o que chamam a saudade de outros tempos. Sei que há uma dose de melancolia que não inclui culpa ou arrependimento. De certo modo, para mim mesmo construí um estatuto de pequeno nada, um estatuto de partícula de memória com registos das circunstâncias e dos movimentos entre elas. Um entre outros, uma partícula entre outras – acções e reacções, instantes feitos de eternidade, um ou outro dia a ser o tamanho da vida inteira. Os meus olhos perdem-se de espanto perante um dia como o 25 de Abril de 1974. Apesar de não guardar senão uma memória de farrapos de evidências de uma desorganizada fila de espera de orelhas aptas a ouvir um grito do tipo: dispersaaaaaar ap!

Há quem aponte a bondade e a segurança do passado contrapondo a maldade e a insegurança do presente e do futuro, sem memória de ter feito o mesmo todos os dias da sua vida. Há quem aponte o aumento do custo de vida e se lembre do que podia comprar com cinco tostões ou com o escudo guardado em cofres de memória, ainda há quem fale em fortunas de vinte mil reis num tempo em que a unidade monetária é mais ou menos tanto como duzentos mil reis. E há quem compare os números da corrupção de hoje com os números da corrupção do tempo da outra senhora que nunca dava a conhecer os números e muito menos deixava discuti-los na praça pública. E todos os dias me pedem que fale dos últimos 35 anos no que valeu a pena, apontando-me todos os erros de toda a gente como sendo os erros do 25 de Abril e este dia brilhante dia de 1974 como o primeiro dia de todos os erros até ao erro de termos chegado aqui.

Resuma, resuma. Diga numa palavra, vá lá. E eu fico tentado a resumir tudo na palavra democracia que nos permite escolher a forma e a composição do poder, da soberania e dos seus órgãos. E eu fico tentado a pensar na palavra paz e na palavra independência que tantas vezes escrevi nas paredes do meu país. Mas não a digo.

Porque é a liberdade que é tudo. Mesmo quando parece nada, a liberdade é tudo o que é preciso para que cada um seja parte inteira do todo. Uma palavra, um só grito: Liberdade! A liberdade de Abril? A liberdade de todos os dias. A liberdade.

[o aveiro; 24/04/2009]



a voz cansada


O Pedro telefonou-me hoje, dia 27 de Abril, ao princípio da tarde. Raramente falamos ao telefone e muito mais raramente me encontrei com o Pedro, embora escreva quase todas as semanas ao Pedro. Uma mensagem sem abraços nem cumprimentos, em cumprimento de uma promessa. Nenhuma obrigação de parte a parte, nenhum deve e haver. De mim, ele não esperava mais que uma crónica livre e pessoal para “o aveiro”. Nos últimos anos, a minha correspondência mais regular foi esta com a imprensa local que, de certa forma, foi a correspondência com o Pedro.

O Pedro telefonou-me hoje ao princípio da tarde e pediu-me que antecipasse a nossa carta semanal, a última carta para “o aveiro”. E eu escrevo. A pensar que devia ter conhecido melhor o Pedro de “o aveiro” e também o próprio “o aveiro”, escrevo a última carta, aquela em que alinho despedidas mais ou menos tontas enquanto declaro o apreço por todos quantos mantêm viva a imprensa regional e local e um particular apreço pelo finca-pé posto no respeito mútuo, na independência, na lealdade e na liberdade.

Reconheço que muitas vezes não dei o devido valor ao acto apressado de escrever o compromisso ou comprometimento semanal assumido sem qualquer comprometimento ou compromisso ou obrigação. E isso manda que eu peça desculpa por tudo o que não fui ou por não ter sido o que de mim esperavam se é que alguém esperava alguma coisa de mim. A minha liberdade andou a passear por aqui como se “o aveiro” fosse a rua da minha liberdade. Com melancolia, dou agora por isso. Nunca é tarde para reconhecer.

Amanhã, fecha-se a última edição de “o aveiro”. A 30 de Abril, os leitores lerão a despedida e saberão que agradeço a todos a paciência de tentarem entender as minhas hesitações. Saberão que lamento a tristeza do meu pessimismo a contrastar demasiado com o meu optimismo militante e a alegria que, à minha volta, rodopia o tempo todo.

Aos trabalhadores e leitores de “o aveiro” peço que aceitem um abraço solidário. Raramente, muito raramente me telefona o Pedro Farias. Muito menos à segunda. Em resposta, a voz cansada murmura: Abril em Aveiro, para sempre.

[o aveiro;30/04/2009]