2008


A desordem vem de onde se espera


O fim do ano que passou estava cheio de surpresas que o não eram.

Os administradores e gestores do maior banco privado português tinham brincado de faz de conta que o dinheiro dos accionistas era dinheiro dos administradores ou gestores. Emprestavam milhões a amigos e familiares e depois davam por incobráveis essas dívidas sem que nada acontecesse. Sabemos que estão na prisão pessoas que roubaram a milionésima parte dos desvios que ouvimos mencionar neste baile de banqueiros. No labirinto do jogo de faz de conta dos banqueiros e amigos, vimos como eles se deixam filmar em desfiles de pouca vergonha como se nenhum crime houvesse. Há quem diga que, nos casos em estudo, o roubo foi feito de acordo com a lei. E a pouca vergonha que se lhes vê na cara talvez lhes venha de terem acreditado no grande educador cuja ética reside na lei.

Há muito tempo que se vem espalhando a fama das virtudes da iniciativa privada e mais fama ainda têm os gestores privados que passam pelo poder político e até fazem leis convenientes para serem a ética conveniente na troca de favores e aos corredores criados para ir do público ao privado.

Quando a crise se instala no privado, saltam gestores do público para gerir o privado, saltam nomes de conhecidos políticos a querer atribuir a si e aos seus a virtude da boa administração dos bens privados e públicos.

Não, não é a política que dirige a economia. Alguns políticos descobriram que a melhor e mais mesquinha forma de defender os seus interesses mais privados e inconfessáveis é ser político de serviço até passar a gestor privado e depois público e depois privado.

Nunca as viagens entre os sectores público e privado tinham parecido tão privadas. Já nem têm vergonha de vir exigir o quinhão deste ou daquele partido, como se fosse natural dividir a economia pelos partidos que disputam o poder político.

Como pode ser bom o ano que aí vem?

Há alguma irracionalidade no exercício de alguns poderes. Só podemos esperar que a razão e a justiça possam ocupar discretos lugares de onde se deixem ver e ouvir como rigorosos exercícios de liberdade e democracia e não como maus espectáculos sem fim à vista.

Que desordem habita o lugar dos poderosos?

[o aveiro; 04/01/2008]



falar disto e disso e não falar


Os assuntos assumem mais ou menos importância para os cidadãos conforme são mais ou menos falados.
Quando os políticos no poder deixam fora dos seus programas e das suas preocupações um determinado sector, há logo quem pense que esse sector perdeu importância aos olhos da governação e pode sair prejudicado por falta de visibilidade e de medidas viradas para o seu desenvolvimento.
Penso que os cidadãos que actualmente se manifestam contra as mudanças na rede nacional de saúde preferiam que a saúde não tivesse merecido tanta atenção da parte do poder político, já que está a fechar serviços locais de cuidados de saúde. Para o governo, trata-se de garantir os cuidados de saúde com qualidade e ao mesmo tempo garantir a sustentabilidade futura do sistema nacional de saúde. E a atenção centrada no sector faz de cada facto que, noutras ocasiões, não seria notícia e é agora prova disto ou daquilo conforme os interesses em disputa.
Também o sector da educação, que clama e reclama uma atenção especial do conjunto da sociedade, não deixa de reclamar contra as medidas do governo para o sector. Com razão, os professores reclamam melhores condições de vida e de trabalho para um melhor desempenho a traduzir-se em melhores resultados na educação das crianças e jovens. Com apreensão, verificam que as medidas do governo se concentram na organização do trabalho das escolas e nos professores, fazendo crer que os resultados do sistema podem melhorar por simples alterações à organização do trabalho ou do sistema de avaliação dos professores. E cada pequeno facto da vida escolar ganha uma importância extraordinária.

Temos razão quando desconfiamos que, para as medidas governativas actuais, muito contribuíram critérios estranhos à melhoria da saúde ou da educação. E o governo até reconhece que pode estar a explicar mal as suas acções ou sem conseguir encontrar a bondade das ditas.

Já nas discussões locais sobre plano e orçamento para o município, a saúde e a educação ganharam novos sentidos. Pode acontecer que a saúde seja um pau de dois bicos e um parque escolar seja sinónimo de parque de estacionamento. A educação para a saúde da educação ainda vai ser disciplina localmente útil.

[o aveiro; 10/01/2008]



transparece o que se mostra


O nosso país pertence à comunidade europeia. Muitas directivas europeias são transpostas para o quadro legal português e passam a obrigar os portugueses. Muitas outras não são transpostas e, independentemente, de se considerar que isso é bom ou mau, manda a transparência que, sobre a situação de Portugal na transposição das directivas, não haja qualquer omissão por parte do governo. Não se pode esconder uma directiva que é transposta. Mas de certo modo escondem-se as directivas sempre que elas não são transpostas, como se elas não existissem para os cidadãos comuns. Não é bom para a democracia. De certo modo, os cidadãos ficam inibidos de exigir a transposição de directivas que considerem favoráveis.

Também temos problemas com aplicações das leis da república a todo o território. Damos por eles, quando o governo regional da região autónoma da Madeira opta por ignorar ou quando recusa obstinadamente cumprir alguma lei da república. De qualquer modo, os madeirenses e açorianos devem ter informações sobre todas as leis e sobre os aspectos de alguma lei do governo da república não aplicados às suas regiões. A transparência está no respeito pelo direito à informação, não é bom que nos sintamos protegidos por não conhecermos.

Os municípios, câmaras e assembleias municipais, têm algumas competências na aplicação das leis da república ao nível local, por exemplo, na fixação das taxas ou na percentagem desta ou daquela taxa que, a ser cobrada, fica para o município. A este respeito, há uma parte dos nossos eleitos que acha más todas as taxas sobre aspectos que respeitem à iniciativa privada na aplicação de capitais. E reparámos na dificuldade real em aplicar taxas moderadoras sobre casas devolutas há vários anos, até ao ponto de tentarem ignorar a lei e a possibilidade de decisão da Assembleia.
Acho eu e acham outros eleitos que a Assembleia deve tomar decisão pública sobre o assunto ainda que seja para justificar e assumir a responsabilidade da não aplicação de qualquer taxa. Nada é menos transparente que ignorar parte da lei que não se quer aplicar.

O que transparece é o que se mostra.

[o aveiro; 17/01/2008]



a biblioteca ou a vida?


Um dia de cada vez, mais velho um dia me sinto. Lembro-me vagamente de ter vontade de ser mais velho em anos do que era realmente. Também tinha a ideia que sabedoria e experiência eram maiores e melhores quanto mais velho fosse. E, de certo modo, para mim a vida não era interessante e bem a trocava por números maiores a representar a mesma vida. À minha volta, todos me diziam que não tinha razão.

Aceitei passar a viver, acumulando lentamente a sabedoria e a experiência. Lembro-me vagamente de chegar a dar-me por satisfeito com esta lenta acumulação por ver outras pessoas a elogiar este ou aquele aspecto de coisas que eu dizia ou fazia. De certo modo, devo ter incorporado na minha sabedoria e também na minha experiência, os livros e os filmes que ia vendo e, de tal modo o fazia que passava por minha sabedoria e minha experiência o que constava dos livros que lia ou dos filmes que via. Lembro-me de ter como certo ter feito ou descoberto algumas coisas que posso não ter feito e muito menos descoberto. Dava por certo para mim mesmo que uma boa parte da minha vida conhecida se tinha forjado no que ouvia, lia ou via dos outros.

Hoje, duvido dessa razão e lamento o tempo que perdi a ler os livros e a ver os filmes dos outros. Porque não guardo memória dos livros que li nem dos filmes que vi, nem dos meus actos passados, nem dos factos a que assisti. Para mim, eu sou o livro que estou a escrever e começo a pensar que, para os outros, eu também sou o livro. Mesmo para os que me conheceram ao longo de muitos anos, eu sou o livro. O que me tem dado muitos dissabores e complicações que perturbam a minha vida que… não é mais que o livro que estou a escrever.

Por ter tomado consciência de não ter memória de mim, em cada visita à biblioteca, procurava escrever uma fatia da minha vida que permanecesse em condições de ser consultada por mim em qualquer momento. Comprei um caderno de folhas que fui preenchendo laboriosamente. Como o tempo podia ser pouco, tinha de ser rápido na construção da minha vida. Esta, não a outra de que não guardara memória. De manhã, ia para a biblioteca municipal, perdido entre os outros velhos a ler as frescas pelos títulos dos diários. E passava a maior parte das tardes numa biblioteca que me diziam ser na escola onde trabalhara a maior parte da minha vida. Para não ser interrompido pela amizade curiosa das pessoas, que me conheciam não me lembrava de onde, passei a mostrar-me sempre muito ocupado e passei a ir também à biblioteca da universidade. Bem, para ser franco, eu não ia propriamente às bibliotecas. Ia para as salas de leitura e procurava livros que contassem uma história dos anos de vida de alguém que, em cada momento, podia ser a história dos anos que me faltavam à minha vida escrita. E copiava, principalmente copiava, excertos de romances tendo o cuidado de mudar os nomes das personagens. Em vez dos nomes dos personagens dos romances escrevia os nomes de pessoas de uma lista laboriosamente escrita e confirmada pelas pessoas que moravam na casa de que tinha chave e onde me aparecia comida, cama e roupa lavada.

Foi assim que escrevi milhares de folhas que foram sendo ordenadas como um diário da minha vida, desde o nascimento até agora. Por me ter sobrado algum tempo, cheguei a substituir alguns anos da minha vida por outros, se encontrava algum romance que aumentasse a coerência do relato que eu ia lendo com regularidade (era a minha vida que ali estava guardada, que diabo!). Mas tinha sempre pouco tempo, já que o tempo ia passando e eu tinha sempre de acrescentar vida lida por cada dia de vida.

Uma mulher, de que me lembro de ver desde sempre, embora me esqueça das pessoas todos os dias, falou-me do meu caderno e de um outro acontecimento que lá estaria descrito. Fui verificar e lá estava o assunto de que ela me tinha falado. Ela estava afinal a perguntar-me coisas sobre a minha vida!!! Tinha andado a ler o romance da minha vida! Não me zanguei, antes pelo contrário. Na altura, até teve muita piada porque ela corrigia a pontuação e até fazia comentários engraçados sobre a forma como aparecia no meu caderno este ou aquele acontecimento, esta ou aquela pessoa. A confusão só começou quando ela deu a ler o caderno a outras pessoas da família e houve alguém que se lembrou de dizer que aquilo era afinal o diário da minha vida e fez notar que todos os nomes eram reais. Alguém estava muito zangado com a forma como era tratado nos meus cadernos. E foi, a partir daí, que a minha vida se complicou muito. Ainda procurei defender a minha vida tal como ela estava escrita, mas isso só aumentou a zaragata à minha volta.

A partir de certa altura, aquela mulher que era referida por mulher do Arsélio (que sou eu) deixou de falar comigo. Não foi mau. Isso permitiu-me copiar de alguns romances os últimos meses da minha vida.

Agora parece-me mesmo que toda a gente já leu o meu livro ou parte dele. Já vi fotocópias soltas de algumas páginas do meu diário. É fácil identificar-me pela letra.

E tenho reparado que os mais velhos, que antes falavam comigo, vão deixando de me falar.

Uma rapariga mais nova que muitas vezes aparece a ajudar-me confirmou o que eu suspeitava: as pessoas mais velhas que comigo se cruzam constam da minha lista e não têm gostado da forma como são tratadas no livro. Eu disse à rapariga: “Ninguém lhes pediu que lessem a minha vida. A minha vida é minha e eu não dei autorização para tirarem cópias dos meus cadernos!” Ela riu-se na minha cara, enquanto me respondia: “Oh avô, deixa lá. O teu romance já é um best-seller e é considerado o livro mais intrigante que algum dia foi escrito. É mesmo estudado como um caso original de escrita”. Não sei porquê, mas ocorreu-me chamar-lhe Raquel e vi que ela dava pelo nome. Então, contei-lhe como é que fazia e pedi-lhe que me acompanhasse o trabalho de adaptação pelas bibliotecas durante uns dias. Ela assim fez. Quando vi que ela tinha aprendido a completar a minha vida, despedi-me dela e de mim. Penso que ela sabe quando vai escrever a palavra FIM. Só não é a mesma letra. Mas isso não é importante. O importante para uma vida escrita é o método, a técnica, o tempo e a biblioteca.

boletim da biblioteca josé estêvão; aveiro; janeiro de 2008



a escola olha-se ao espelho para ver o quê?


Como estudante e como professor, participei e assisti a muitos confrontos. Não estou a falar só de confrontos políticos que opõem jovens e professores a governos e às autoridades. Assisti a confrontos entre jovens, entre professores, e os que opõem jovens aos seus professores ou que opõem professores aos seus alunos no contexto da escola e da sala de aula. Em todos os ambientes de trabalho (ou de estudo, claro), haja ou não exercício de autoridade de umas pessoas sobre outras, há confrontos e conflitos. Não há professor e não há aluno que não tenha vivido alguma situação de conflito e não tenha sido marcado por boas e más resoluções de conflitos. Naturais são os conflitos na escola, e também o são nas famílias. E, no que toca às relações humanas, todos sabemos que faltam as receitas para os resolver. Uma parte da experiência docente vive dos conflitos que educam.
A profissão docente integra conflitos e resoluções, a um certo nível. Muitos conflitos são educativos para todas as partes e constituem-se imprescindíveis patamares de amadurecimento, de crescimento saudável e de conhecimento de si mesmo na relação com os outros. Um conflito na escola é um problema que pede e espera resolução.

O problema que não tem solução à vista é a ausência de conflito onde parece haver uma agitação parecida com uma guerra sem sentido, travada por crianças e jovens que se movimentam descoordenados, agredindo-se e insultando-se de forma gratuita, traindo regras minuto a minuto como personagens amorais de um video-jogo em que só o movimento doentio conta. Muitos deles esgotam-se num delírio qualquer como se prolongassem uma insónia indisciplinada por uma consola de jogo electrónico montado por outros disciplinadíssimos jovens que, em algum lugar do mundo, se concentram em gestos precisos de que depende a ração diária de arroz.

Não haverá um problema de saúde pública nestas infantis atitudes de desprezo pelas regras que vai até ao desconhecimento dos outros? Parece-me fácil explicar que há. A cura está na escola? Só quando o despertador infantil se afogar em dramas é que vamos discutir a demolição de cada dia? Que nos diz o espelho?

[o aveiro; 25/01/2008]



O que é bom e o que não é


Considero muito positivas todas as discussões públicas de política educativa. Do lado de dentro da esfera de influência das medidas da política governamental, consideramos que, por ser aberta ao público, a opinião dos professores se dissolve e não se forma como opinião técnica insubstituível. De certo modo, arrogamos para os professores um papel especial, subestimamos a nossa opinião como parte da opinião pública. E desvalorizamos a opinião pública sempre que ela se mostra contrária ás nossas razões. Participar em muitos debates sobre as medidas em discussão pública diminui em muito a minha participação individual. Em alguns casos, deixo de exprimir as minhas próprias ideias por elas terem sido prejudicadas em debates dos quais se fazem resumos consensuais.Para não criar incompreensão relativamente a um patamar do debate, pode acontecer que empobreça muito a participação pública. Se é verdade que não devo presumir muito sobre a bondade absoluta das minhas ideias que perdem e se vão desgastando em sucessivos debates, também é verdade que só uma parte dos participantes nas discussões teve acesso a esses pequenos senões. Minúcias? Talvez. Mas como saber que elas se perderam por terem sido apresentadas num sítio, quando podiam ter ganho outro relevo noutro lugar do tempo?
Está em discussão pública o regime jurídico de autonomia, administração e gestão das escolas. Aparentemente, esta questão tem estado na praça pública e não há quem não tenha ouvido cobras e lagartos da parte das organizações representativas dos professores, particularmente, dos sindicatos. Tais manifestações de disputa política reclama a atenção do público, mas pode desviar a discussão dos diversos aspectos, até porque os promotores das manifestações criam a ilusão de que um aspecto é a única coisa importante para esconder todas as outras. Acontece muitas vezes que a praça pública nos leva a recusar globalmente a mudança que podia interessar-nos só por termos concentrado a vontade em rejeitar um aspecto da mudança. O pior disto tudo é que enfraquecemos muito a discussão pública se a trocarmos pela praça pública e isso pode significar que prejudicamos a razão que devia ser dominante para servir de apoio a decisões. Preciso é que todos nos sintamos capazes de tomar decisões conscientes e razoáveis que, pela via da razão, obriguemos a mudar as propostas de decisão ou nos obriguemos a respeitar uma decisão que pudemos discutir livremente e apreciámos as razões que a assistem.
Um abaixo assinado, do qual consta o meu nome, pede o alargamento do tempo para a discussão. Perguntaram-me qual é a minha opinião sobre a proposta em discussão, se tem aspectos positivos, … Assinamos a petição para dar tempo a quem sente que o não teve. Só para isso e para que tomemos a decisão que pratiquemos como a nossa decisão.

[o aveiro; 31/01/2008]



não há semana sem senão


Ouvimos um novo bastonário e temos a vaga sensação de que o que ele diz não carece de prova nem carece de refutação. A sensação vaga de que todos sabem do que se está a falar sem que seja possível concretizar, a sensação vaga de que, por isso, se trata de um mal social qualquer que não se pode cortar pela raíz, porque a sua raíz está no poder e no estado actual das cosias. A vaga sensação de que falamos do inevitável, de uma quadrilha de males menores a quem temos de pagar protecção para que as coisas possam continuar a funcionar.
Lemos as públicas notícias dos truques nas câmaras em que os técnicos de uma delas assinam de cruz os projectos dos técnicos da outra onde podem aprovar os projectos que fazem, embora não possam assinar os projectos que aprovam. Temos a vaga sensação de que em todo o país, em cada uma das câmaras, pode acontecer isso mesmo e não podemos fazer coisa alguma contra isso, porque é assim que as coisas funcionam e, se não fosse assim, nem as casas do desenvolvimento cresciam para cima e já há muito todo o progresso se tinha afundado num mar sem betão. Temos a vaga sensação de que sem esses factos consumados não tínhamos construído as casas em reservas naturais, agrícolas, de orla marítima,… nem tínhamos direito a ver a especulação do oito que se faz oitenta para que alguém ou algum grupo num só dia enriqueça por ter sabido um dia antes o que podia ser feito mais por obra e graça de um técnico do que de outro qualquer nosso senhor do planeamento. Temos a vaga sensação de que não vem mal ao mundo por cada um de nós fazer o mesmo que todos os outros fazem ainda que seja errado e até, por vezes, crime. A vaga sensação de que há coisas que se repetem.
Lemos as letras gordas das brincadeiras de corredor em que cada um dá corda aos seus sapatos e fala sobre educação e sobre professores e sobre o que deve e não deve ser e até sobre a melhor forma de atropelar o parlamento e o bom senso como se houvesse uma autoridade com autorização para atropelar as próprias leis, os próprios prazos, a própria sombra. Lemos as letras gordas e nem acreditamos. Sobra a vaga sensação de que tudo está a acontecer só porque está a acontecer e contra isso nada, porque sabemos que o mal está em tudo o que lemos e ouvimos e contra o céu da boca nos bate, porque não sabemos as regras deste jogo de faz de conta, a conta que fazemos ao rosário que rezamos sem sabermos que oração nem a quem.
Não há semana sem senão? Antes isso que um tiro no escuro?

[o aveiro; 14/02/2008]



frielas


Há sempre o dia antes. Nesse dia, houve quem alertasse para o perigo que está em adiar o que devia ser a mais simples rotina diária em troca da obra necessária para encher o bolso ao pato bravo e o olho aos eleitores embasbacados. Nesse dia, houve quem alertasse para todos os perigos de não se cumprirem os planos e as recomendações a favor do interesse natural e contra as violações grosseiras pela iniciativa local criminosa. Nesse dia antes, os representantes das autarquias desmentem tudo e reafirmam que tudo fazem para evitar o pior e até o menos mau e garantem que onde tinham a ribeira encarcerada, têm agora um vale de águas livres a fertilizar as terras em volta, que nada do que é mau se vai repetir nos mesmos termos de antigamente. Assanhados, os autarcas tornam-se mesmo façanhudos, capazes de todas as façanhas a favor do desenvolvimento e do progresso e contra toda a reacção alérgica ao betão até nos convencerem que a via única do progresso está em cada obra aprovada, com a qual evitam e fintam a chuva e o vento.

Ainda o dia antes não acabou e já pinga. A chuva vai cair sem parar por umas horas. E no dia que se segue ao dia antes, aconteceu tudo o que se tinha dito que podia acontecer de mal. As ribeiras transbordam, galgando as suas margens. E novos rios arrastam dos altos, os aterros ainda que embargados e desaguam um mar de lama numa praça da baixa ou numa rua pavimentada sobre uma linha de água num dia em que a linha de água interpretava um papel de ingénua obediente numa peça de amadores. O que ontem era uma estrada é hoje um rio em que uma camioneta da carreira está tolhida numa confusão de águas. Dentro da camioneta, homens e mulheres presos, até serem salvos por bombeiros, tremendo já de frio e de pavor. É o dia em que as ribeiras, cansadas de serem desprezadas, se fazem rios e crescem. Neste dia, saltam para a ribalta as ribeiras. Arrastam e matam, por ordem de quem? E há autarcas que procuram e encontram explicações novas para os desmentidos de ontem quando falam em frente a um cenário de explosões de água pelas ruas que pavimentam antigas ribeiras, por eles condenadas à clandestinidade mais subterrânea.

Que dirão e farão eles amanhã, quando não se lembrarem da lama e dos mortos de hoje?

Na memória do dia, sobra-nos uma placa a afogar-se num cruzamento de estradas.

[o aveiro; 21/02/2008]



a explicação dos pássaros


Quando um professor participa num debate sobre professores e sobre os malefícios da política da educação na actualidade, pode fingir que as decisões de hoje são as decisões do governo de hoje e louvá-las ou repudiá-las ou mesmo fingir que, mudando o ministro (ou a sensibilidade) ou mudando o governo para dar lugar à alternativa do costume, se resolve algum problema. Assim pensa e faz quem está no governo ou quem esteve no governo passado e para lá quer voltar na próxima volta. E há mesmo quem pense sinceramente isto e acredite que o que lá vai lá vai e que o que interessa agora é manter ou mudar para garantir estas reformas ou outra forma destas reformas. Há mesmo quem admita que um governante que passa por vários governos pode fazer a reforma nunca feita e que o que antes fez não existe ou foi errado sem que se veja uma beliscadura na sua carreira, nem lhe tenha sido exigido acto de contrição ou propósito firme de emenda. Como se os ministros de um novo governo do PS ou do PSD fossem outros, porque (a)parecem como novas pessoas, novas promessas, novos argumentos.

E pode fingir que a vida da educação e dos professores depende da capacidade de fazer cair ministros e governos para os substituir por outros ainda que mais dos mesmos. Isto não é mais do que o reforço e manutenção de uma ideia de resistência, fora dos dois partidos da alternância, como força popular, que vive de organizar grandes movimentos das massas quaisquer que eles e elas sejam como prova de vida e vitalidade. É como ter um desejo centrado no corpo do descontentamento de todos, ou do descontentamento nosso de cada dia. Há uma certa grandeza nisto. E uma tragédia. Os descontentamentos de todos pertencem à ordem das circunstâncias, não são um corpo de política, nem dão o corpo às políticas. Os descontentamentos de que falamos satisfazem-se numas braçadas em mar de enganos ou em marasmo.

Quem escolhe participar e não pode escolher responsáveis para os erros de hoje nem acredita em êxitos de hoje, à pergunta sobre quem é responsável por este ou aquele erro e mal estar, só pode responder “somos todos! somos todos!” para que os culpados saibam que a culpa está, ainda que a diferentes níveis, atribuída a todos e que é preciso discutir para decisões que se coloquem para lá do jogo de cadeiras por alternância.

É preciso discutir do ponto de vista da profissão dos professores, do ponto de vista da educação e ensino das crianças e dos jovens, do ponto de vista dos interesses individuais como partes interessadas nos interesses sociais. Do ponto de vista do outro, o que tem o poder de não estar no poder. Porque, em democracia, não é tolice subir a um banco, numa qualquer esquina, para falar da esperança muda.

[o aveiro; 28/02/2008]



o relatório do medo


Antigamente e agora (como o provam os concursos de televisão) a grande prova de sabedoria passava e passa por dar respostas a muitas perguntas que ou não têm qualquer sentido ou têm sentido em mundos muito reduzidos em tempo e em espaço. As respostas escolhidas como certas podem nem ser as certas para toda a gente que saiba procurar respostas certas e quem as dá pode nem saber do que está a falar. Valorizamos para efeitos de validação de conhecimentos as perguntas e as respectivas respostas certas sem cuidarmos de que alguém as compreenda. Deste modo, fazemos passar por conhecimento o resultado de treinos intensivos em memorizações de detalhes. É importante ter decorado grandes poemas ou canções para os recitar e cantar em família. Sem compreender o sentido do que decorava, treinei competências próprias que, até hoje, me têm ajudado a memorizar, quando quero, textos que compreendo. Mas sei que as incríveis orações decoradas não fazem prova de qualquer sabedoria ou inteligência a merecer louvor pelo seu conteúdo. Talvez mereça louvor a aplicação e a persistência postas nesse treino.
Sobrevive a ideia de que repetindo ensinamos e que quem (se) repete acaba por saber. É verdade que quem repete muitas vezes uma mesma coisa acaba por decorar, e pode lembrar-se dos nomes de certas famílias de rios, de personagens mais ou menos reais, de anos de batalhas, … sem que isso signifique compreensão inteligente sobre o que decorou. Quando as coisas parecem muito mal, repetimos para nós mesmos que levar a decorar é melhor que nada. E é. De vez em quando, em desespero de causa, tendemos a querer uma escola de repetidores.
Ora, neste tempo em que as informações estão em toda a parte e disponíveis em suportes diversos, decorar não tem a mesma importância que tinha quando a transmissão oral de nomes e factos era a via privilegiada.

Basear todo o ensino na transmissão de conhecimentos e esta, na repetição do mesmo, até tudo ficar decorado, criou um sistema. A gestão deste sistema tarda em ser acusada de distribuir tarefas socialmente inúteis a muitas pessoas. Para além de inúteis, nocivas; já que tendem a reproduzir-se que é repetir-se de outra forma. O pior de um sistema de repetidores por obrigação de estado está na criação de um sistema de registos e relatórios inúteis sobre os maus resultados do trabalho inútil. Podemos mesmo estar a assistir à substituição, por relatórios palavrosos e inúteis, dos restos de trabalho útil. Há quem diga ainda que já nem sabemos escrever e que só fazemos cópias. Além de inúteis, os relatórios podem ser todos iguais: um só relatório, afinal.

[o aveiro; 6/03/2008]



a vida dos outros


Recebo todos os dias anúncios nas diversas caixas de correio. Cada anúncio contém uma oferta irrecusável disto ou daquilo, seguramente de alguma coisa que eu não pedi. Atafulho os meus caixotes de lixo com as ofertas. De vez em quando, dou-me ao cuidado de responder recusando as ofertas, na tentativa vã de ser riscado da lista, arriscando-me a perder os laços a quem me quer tanto bem.
Recentemente comecei a receber conselhos, recomendações morais e políticas, reprovações de opções passadas e indicações para opções futuras. Espantoso mesmo é que a maior parte das reprovações e recomendações morais vêm assinadas por um senhor de nome “anónimo” que me conhece e a quem eu não posso conhecer. Não sei quem seja, nem sei se é alguma empresa ou partido,… Algumas vezes, o senhor anónimo tem o cuidado de dizer que já concordou com as minhas opções, sem dizer quais, ou de dizer que nunca concordou mas que é preciso que eu me dê ao respeito e faça isto ou aquilo tal qual ele acha que é bom que seja feito. O senhor anónimo chega mesmo a chamar-me nomes mais feios que o meu nome próprio, levando-me a pensar que foi engano e o recado é para filho da família adoptiva do senhor anónimo.
Outras vezes, toma como referência para as suas tiradas a coerência de posições de algum partido (ou sindicato ou dirigente sindical) que é público nunca me ter servido de referência. O melhor disto tudo é quando o senhor anónimo me recomenda que eu tome cuidado com esta ou aquela posição, por ela ser contestada por muitos dos eleitores de um partido importante no qual eu nunca votaria. Porque será que o senhor anónimo acha que pode influenciar-me com o desgosto de eleitores com mau gosto militante?
Uma característica do senhor anónimo (deve ser só um, penso eu) é ser só orelhas. Cada vez me parece mais que o senhor anónimo não lê um só dos papéis que está a rejeitar quando me escreve. Provavelmente, o senhor anónimo nem sabe ler e decora tudo o que querem que ele transcreva para a letra de forma das suas recomendações.

Volta e meia, também recebo cartas de amor. Detesto ter de admitir que a maior parte das declarações de amor que recebo vêm infectadas com vírus que só não me prejudicam porque elas não me procuram a mim e procuram um sistema operativo que não é o meu. E agrada-me confessar que gosto de receber cartas de amor. Sejam elas quais forem, são as que eu recebo e eu não posso dar-me ao luxo de lhes resistir.

Do mesmo modo, gosto de receber cartas do senhor anónimo. Já não tenho pai nem mãe. Para além do senhor anónimo, quem mais me pode dar conselhos e puxões de orelhas? O senhor anónimo faz de mim a criança que eu nunca fui.

[o aveiro; 13/03/2008]



a velha que dança


Há alturas em que parece impossível não termos assunto. E sobre os assuntos do dia, há mesmo quem espere que todos falem, mesmo que não saibam do que falam ou digam o mesmo que já foi dito. Ler e reler opiniões que não adiantam coisa alguma ao já dito, torna-se tão cansativo! O assunto do dia sai da ordem do dia para passar a ser da ordem do horrível Quando um dos nossos assuntos se torna assunto do dia e da moda, sobre o qual todos temos de falar, tornamo-nos mudos para a nossa vida. Mudos de espanto, diminuídos e tristes!
Perdidos do nosso assunto, e incapazes para qualquer outro assunto. Sem assunto, pois.
Tentando não ceder à avalanche das mensagens dos que cavalgam a onda dos professores e da educação(?) numa euforia sem limites, começamos a dar atenção às coisas e pessoas em que não reparamos habitualmente.

À minha frente, uma jovem de negro segue calmamente. Penso em acelerar, mas desisto porque a jovem de negro vai de um lado ao outro do passeio e eu não acerto com os melhores momentos para a ultrapassagem. Ou é ela que é imprevisível na sua forma de andar em frente? Pelo sim, pelo não, deixo-me ir atrás dela que não tenho pressa. Depois da passadeira, parece-me que ela se integra num grupo que já circulava por aquele passeio.
E eu continuo o meu caminho sem assunto. Até que olho para o telefone e relógio que começara a vibrar como um alarme a avisar-me para não me atrasar e a mandar-me acelerar para, sem pressas, chegar a tempo ao lugar do trabalho.

Ao alargar a passada, volto a olhar para as costas que seguem à minha frente. Para escolher a melhor abordagem ao passeio estreito, para a ultrapassagem perfeita. E vejo que a jovem de negro, de novo isolada no passeio, dança ao som de uma música só dela. Eu não ouço, mas é como se ouvisse o som da brisa que a faz oscilar como um junco, em pé e arrancado das suas raízes.

Contrariado, decido mesmo ultrapassá-la. Um pé no passeio, outro na estrada, faço uma magnífica manobra de ultrapassagem. Magnífica, mas ridícula. Ao ouvir a gargalhada, olho para trás. E vejo as linhas e rugas das mãos dançando na jovem de negro. E vejo os olhos brilhantes e alegres de um belo rosto, rasgado por rugas.

A velha que dança vai ficando para trás, feliz por ver-me pelas costas.

[o aveiro; 20/03/2008]


22/03/2008


atractor


Muitos aspectos da actividade lectiva de hoje podem ser melhorados pelo recurso a computadores e telecomunicações. Se é certo que cada vez há mais computadores pessoais nas escolas, resta determinar que indicações se podem dar aos jovens para os usar com vantagem e resolver a questão de saber que recursos podem ser utilizados pelos professores das escolas com pequenos orçamentos. Isso só pode levar os professores a estudar para abordagens mais potentes e a procurar “software” livre de encargos.
Para o ensino de Matemática, há ferramentas gratuitas para apoiar todos e cada um dos temas de ensino, a partir dos quais podemos preparar actividades que não só permitem introduzir os conceitos e técnicas, como permitem que os jovens aprendam a utilizar computadores com vantagem para as suas necessidades de estudantes. Se é claro que os computadores não podem substituir o estudo e o trabalho necessários, de papel e lápis, o seu uso pode multiplicar as experiências matemáticas significativas dos jovens, criando novas oportunidades para conjecturar com segurança e, pelo recurso à mesma escrita (de papel e lápis) obter um imenso manancial de experiências que o cálculo automático pode propiciar. Usado de forma inteligente, o computador permite ao estudante confirmar com uma grande variedade de exemplos a matemática que lhe é dada e pedida em novas aplicações. Muitas das aprendizagens antes feitas por imitação e mergulhadas em subentendidos, são agora ampliadas por exigências de compreensão real e crítica, já que a tecnologia exige sempre a explicitação de cada relação e uma escrita sem ambiguidades.
A comunidade académica e científica tem produzido uma multiplicidade de modelos informáticos muito dinâmicos para divulgar e tornar acessíveis muitos temas que até agora eram de difícil aproximação Os estudantes podem manipular parâmetros ou posições de elementos de figuras que esclarecem rapidamente resultados, confirmando ou infirmando informações que se transmitem.

De resto, prontos a usar podemos encontrar muitos materiais que podem suportar actividades complexas em ambiente de sala de aula ou em plataformas a que os estudantes podem aceder a partir dos computadores pessoais. Entre todas as realizações, destacamos o Atractor, da Associação Atractor dirigida por Manuel Arala Chaves, e em que participam, como associadas, departamentos, faculdades ou universidades, a Associação de Professores de Matemática e a Sociedade Portuguesa de Matemática. O trabalho realizado está patente em módulos expostos no Pavilhão do Conhecimento Ciência Viva e outros locais, que podem ser revisitados no “site” do projecto.
Qualquer discussão sobre o uso de computadores no ensino ou sobre o recurso a experimentação para ampliar a compreensão de conceitos matemáticos tem de passar pela referência portuguesa que o Atractor é. Não é legítimo esperar que as escolas possam (ou sequer devam) construir materiais do nível dos produzidos para os grandes espaços, mas é legítimo esperar que os professores nas escolas reconheçam nessas exposições a possibilidade de enriquecimento do ensino e das aprendizagens. Do mesmo modo, é óbvio que ninguém espera que os professores produzam módulos, com recurso a ferramentas computacionais, ao nível dos que são produzidos e disponiblizados na rede pela Associação Atractor.
Sabemos que, para serem utilizados em sala de aula ou como materiais de apoio, os materiais produzidos pelo Atractor precisam de ser estudados e trabalhados pelos professores do ensino não superior e precisam de ser objecto de escolhas criteriosas, de modo a serem usados de forma adequada e não servirem, todos e cada um deles, como motivo para não abordar, por falta de tempo, os temas dos programas oficiais. À semelhança da gestão que tem de ser feita do programa e dos manuais adoptados pelas escolas, é preciso escolher e adaptar os materiais do Atractor. O Atractor funciona como uma ferramenta potente para o trabalho do professor, alerta para os assuntos e apoio no seu estudo, pode e deve ser aconselhado para os estudantes e público em geral, sendo certo que cada professor tem de escolher e tornar claro qual a utilização possível em sala de aula para a generalidade dos estudantes.
A Associação Atractor é um projecto generoso. Muitos materiais podem ser descarregados facilmente para os computadores dos professores e podem ser incorporados em módulos definidos e decididos por cada professor de forma adaptada às suas aulas e ao trabalhos dos estudantes de cada turma.
É tão necessário apoiar o desenvolvimento do Atractor, como apoiar os professores no trabalho de adaptação que é preciso fazer para dar aulas com o Atractor.

[a página de educação; Abril 2008]



a escola não é tudo


O filme dos acontecimentos de uma aula na Escola Carolina Michaelis do Porto voltou a chamar a atenção para o que se pode passar no interior das escolas, para o que pode passar-se dentro de quaisquer portas onde há papéis e apostas de domínio.
O filme mostra-nos uma jovem descontrolada a tentar recuperar um aparelho de uso comum usado como perturbação numa sessão de trabalho marcada num certo horário. O filme mostra-nos uma pequena turba de jovens a transformar a aula perturbada num espectáculo a ser mostrado. Há um telemóvel a perturbar uma jovem e uma aula para que um outro telemóvel, projéctil lançado por um delinquente, perturbe a sociedade inteira. É um espectáculo de pessoas-coisas tão degradante como muitos outros, como todos aqueles que foram transformando vidinhas rascas em espectáculos rascas para grandes audiências rascas. Todos os dias, as televisões dizem, pelo exemplo, aos jovens daquele pobre espectáculo, que há pessoas que perecem se não aparecem nas margens da ribalta para onde dão os esgotos de um submundo de sordidez .

Para que o filme aconteça, é preciso que um professor (ou um pai, ou uma mãe) se perca no território da sala de aula e lhe sejam vedadas as portas por onde entraria a instituição da escola inteira.

O espectáculo que se segue é o filme do que não se pode ver e é mostrado a todas as horas em todos os canais, fingindo agora que os personagens não têm cara e que o novo espectáculo é discutir formas de não repetir um espectáculo destes.

Todos sabemos que estamos perante um distúrbio excepcional, mas que distúrbios destes se repetem e provavelmente cada vez com mais frequência na sociedade, em geral, e na escola, em particular. De tal modo assim é que o Procurador Geral da República entendeu por bem inscrever nos seus planos de hoje como uma das suas preocupações com vista ao futuro. Queiramos ou não, estes jovens que não reconhecem as diversas instâncias de autoridade, a começar pelos adultos – pais e professores – que lhes são próximos, ameaçam o futuro com o seu presente de perdedores tão mais radicais quanto é certo que gritam vitória a cada exposição pública dos seus distúrbios rascas.

E é preciso ter consciência que há um problema de papéis. As escolas e os professores podem cuidar de dirigir o ensino e a aprendizagem para o bem colectivo e enquadrar parte das acções e incidentes até um certo nível de estranheza. E devem reconhecer os casos para os quais são incompetentes para os acompanhar até à porta de outros sistemas sociais: de apoio, se o problema é de pobreza; penal, se o problema é delinquência; de saúde, se o problema é doença (mental, também!), etc.

A escola não é tudo. Isso não é um problema. Reconhecer isso é uma parte da solução dos problemas da escola.

[o aveiro; 27/03/2008]



encontro empolgante, precisa-se!


As sociedades modernas ou desenvolvidas científica e tecnologicamente precisam de trabalhadores científicos. A Europa precisa deles aos milhares. Portugal corre riscos sérios se não participar desse movimento de criação de empregos científicos produtivos. Todos sabemos isso, conhecemos as metas a alcançar e os prazos apertados.

Muitos dos empregos científicos dependem da matemática. Sabe-se que uma grande parte dos empregos científicos e técnicos exigem fina especialização em matemática, mesmo considerando que uma parte do trabalho produtivo trata da manutenção dos sistemas e que o essencial da coisa terá de ser assegurado por equipas multi-disciplinares, cada um dos cientistas e técnicos carece de formação matemática de elevado nível.

Há vários anos que os melhores estudantes de matemática do ensino secundário estão a ser atraídos para especialidades científicas, como medicina, arquitectura ou até enfermagem, e não vão para os cursos que mobilizam matemática ao nível mais elevado.

Perceber-se o desespero dos profissionais de matemática (em geral, professores do ensino superior nos departamentos de matemática e faculdades de ciências a leccionar cursos superiores de matemática e engenharia) que só excepcionalmente estão a receber jovens de alto rendimento em matemática e têm dificuldade em transformar a segunda escolha que lhes coube em sorte em estudantes capazes para o nível superior de proficiência matemática que se espera de candidatos a emprego em áreas dependentes da matemática a nível elevado, incluindo professores de matemática.

Já não se percebe que os trabalhadores científicos deixem de exercer pressão contra a degradação das profissões científicas dependentes da matemática que as tornou pouco
atractivas e, em vez de contrariarem essa fraqueza, antes procurem um bode expiatório no ensino secundário geral que, em si mesmo, tem de dar resposta social ao nível da cultura científica e da formação genérica dos cidadãos e não pode ser substituída por resposta parcelar exclusiva em necessidades da comunidade científica, que, sendo verdadeiras, não são mais que uma parte do problema.

Quem se preocupar com o trabalho científico, lutará contra a degradação das instituições de investigação científica e a debilidade do emprego científico. E estará livre para ajudar a melhoria de todo o ensino sem fazer dele o que ele não pode ser e, muito menos, bode expiatório de passa-culpas no atraso científico.

As profissões científicas têm de ser reconhecidas e têm de mostrar resultados empolgantes capazes de mobilizar os jovens, também em Portugal e não só em (neuro)cirurgia.

[o aveiro; 03/04/2008]



os dias miudinhos


Gosto de chuva miudinha nos dias em que me viro para o lado da tristeza simples. Olho para o que acontece e se o que vejo acontecer ou me vem à memória não dá nem para grandes alegrias nem para grandes tristezas dá-me uma vontade de chuva miudinha que me feche num asilo de melancolia. Deixo-me abandonado. E deixo que os olhos vão lá para fora jogar às escondidas com a chuva triste e miudinha. A água anda por aí no ar como se ar fosse. E é como se me fechasse numa bolha onde só pudesse respirar a humidade, uma asfixia lenta.

Vagamente chegam-me farrapos de um debate sobre pontes e cidades gémeas, região multipolar, rodovia, ferrovia, aerovia, etc. Vêm de ontem os farrapos. Surgem-me as palavras embrulhadas em neblina, como fantasmas futuros rompem a chuva miudinha.

Leio que o Tribunal Constitucional ditou para o passado do concurso dos professores titulares um defeito, uma inconstitucionalidade, uma violação da igualdade no direito de acesso. Mais uma declaração de defeito, entre tantas outras. São os erros que se repetem mais vezes? Ou há mais gente a ver os erros de conveniência? Será que há erros plantados para serem vistos na floresta dos pequenos enganos e grandes engulhos?

E leio, seguindo um julgamento de coisa antiga, a humilhação de uma praxe em que uma jovem pode ser barrada com bosta e pode ter a cabeça mergulhada em penicos numa quinta de propriedade da escola agrária, afastada do centro da cidade…. E basta ler o riso das bestas e a descrição das coisas em que pensam para percebermos que alguma coisa funciona mal. Pior ainda se nos lembrarmos que ainda há quem ache normal soltar a besta desde que ela more nas universidades.

E passamos dos actos às palavras, dos actos aos atos, dos factos aos fatos, das palavras mais pesadas que os actos, das palavras sopesadas pelos que discutem acordos e desacordos orográfica e ortograficamente falando de coisa nenhuma. Em vez das palavras, a baba das palavras. E uma flor de calor poisada na língua brasileira. E a pérola nos dentes que colam as palavras que nós antes separámos. E os nós de nós na segunda pessoa do plural. Vejo chegar a discussão como se um príncipe da língua odiasse a língua da princesa, estrangeira só até às descobertas.

Há dias assim que se soltam do ar para dentro da vida como chuva miudinha. Sentimo-nos levemente tristes, desassobiamos, esquecemos as chaves de casa, deixamos que as palavras mais caras nos caiam das mãos e se partam. E damos por nós a colar, com a pastosa chuva miudinha, palavras partidas, noites fendidas por faíscas luminosas, cacos.

[o aveiro;10/04/2008]



Ouvir o olhar


A cada minuto, o escaravelho abria um pouco as asas para voltar a fechá-las e a fechar-se em copas. Eu tinha os olhos postos em cada um dos seus movimentos e se é verdade que eu não queria complicar-lhe a vida, também é verdade que estava disposto a lançar-lhe uma rede por cima se ele decidisse voar dali. Eu precisava dele ali. Talvez ele nem soubesse que eu estava ali para o observar. Não, não estava a usar qualquer lupa. Mantinha os olhos fixos no escaravelho e nada mais.

Quando abria as asas, deixava ver uma combinação de transparências. Talvez asas, talvez novos pares de asas, por sob aquelas asas de carapaça. Talvez abrisse as asas para verificar a humidade e a temperatura do ar ou para condicionar a temperatura do seu próprio corpo. Não sei. Aliás, eu sei pouco de escaravelhos. Para ser sério, eu sei pouco de quase tudo.

Desde há muito tempo que me dedico a observar os bichos. Incapaz de compreender os seus comportamentos, as suas manias e ainda menos as relações entre eles. Não foi sempre assim. Mas, à medida que me concentrava na observação dos hábitos dos bichos percebia como era impossível entender o que se passava nas cabeças deles. Houve um tempo em que me dediquei a estudar com grande afinco as comunicações entre os bichos mais barulhentos, mas nem percebia o interesse e o alcance da maioria das expressões faciais, ruidosas ou palavrosas de alguns bichos mais activos e ainda menos percebia as reacções (palavrosas ou não) de resposta dos bichos interpelados pelos primeiros. E fui desistindo de tentar compreender qualquer comunicação entre os bichos para além da dança, do movimento, da animação das asas e das hastes. Dei por mim a ser um observador fascinado pelas pequenas agitações na vida dos outros bichos.

Hoje preciso do escaravelho. Como observador interessado preciso do escaravelho; a pequena agitação das suas asas e hastes determina os movimentos dos meus olhos, únicos sinais de vida no meu corpo, rígido e tenso em tocaia.

Sem tirar os olhos do meu escaravelho, vejo chegar uma multidão e os olhos não dão para acompanhar tanta agitação. O meu escaravelho agita um pouco as asas e as hastes, mostrando as suas combinações de transparências, apaziguado pela compreensão da multidão.

Eu só observo. Os meus olhos precisam de uma lupa para ver ao longe. Sem a televisão não posso ver o que se passa no Funchal. Dou por mim fascinado a ver as pequenas agitações do Funchal. Antes ouvi com cuidado Alberto João Jardim, a sua alta voz. Ao observador não amofina não compreender.

[o aveiro; 17/4/2008]



O problema pessoal


Para ser boa, a nossa vida deve estar cheia de diferenças de opinião. Não gostaria de viver numa bolha qualquer em que todas as pessoas partilhassem das mesmas opiniões e dos mesmos gostos. Reconheço os meus vizinhos e os meus amigos pelas diferenças. Tenho amigos que em tudo pensam diferente de mim. Penso eu que assim é. Cruzo-me com alguns deles em discussões sobre matemática e sobre ensino e discuto com eles, como se a discordância demonstrada fosse mais um sinal de amizade. De certo modo, sabemos que procuramos mais a verdade (essa a que não existe) do que a unanimidade. Ficamos contentes quando descobrimos que em alguns pontos estamos de acordo ou que, pelo menos, procuramos por caminhos diferentes alguma coisa de fundamental que tem sempre a ver com o bem comum (esse que ninguém sabe o que é, mas existe para ser perseguido por pessoas de bem). Perante as gargalhadas, os abraços e a conversa mansa antes e depois das nossas vivas discussões públicas, pressentimos a perplexidade das pessoas que pensam ver problemas pessoais onde há diferenças de opinião. De certo modo, estas pessoas diminuem a amizade, a individualidade, a opinião, o respeito por quem nos merece respeito. Diminuem-nos.
Se eu tenho uma opinião política diferente de outra pessoa, isso traduz-se ou pode traduzir-se numa divergência política. Nada é mais natural e nada é mais saudável. Há quem pense que só temos opiniões diferentes porque há problemas pessoais. Isso acontece a pessoas convencidas da universalidade das suas ideias, que, na tirania da sua bondade permitem problemas pessoais como desculpa para não terem eliminado os mensageiros das ideias não previstas na doutrina.

Tantas são as pessoas que eu conheço espalhadas por tantas ideias que não partilho, que comigo defenderam as mesmas ideias noutros tempos, que me ensinaram a dizer não e a dizer sim, que me deram voz e deram sentido à minha voz própria e diferente. Tantas são as pessoas que respeito e em que me reconheço porque das suas ideias me separei sem que elas deixem de ser algum esteio do que sou porque sou o que fui, o que fui sendo.

Na madrugada desta terça feira, morreu Francisco Martins Rodrigues. Tiro-o da penumbra como nome, o seu nome próprio para que possa ser procurado. E encontrado.

[o aveiro; 24/04/2008]



dentro de muralhas, a vida…


Andam nisto há várias semanas e já bem podiam ter acabado a obra. Mas eu dou-lhes o desconto do vento e da chuva. Dou-lhes o desconto todo, aliás. Andam a rebaixar os passeios ali aos semáforos junto à Junta da Glória. Para melhorar a vida de cada um de nós nos dias em que temos dificuldades para nos deslocarmos ou nos dias em que viermos a ter dificuldades. Dou por mim a ficar todo contente com cada pequena obra daquelas que valem como pequeno sinal de humanidade inteira. Claro que ainda há muitos obstáculos a remover para nos sentirmos bem uns com os outros.

Os vizinhos queixam-se que o excesso de trânsito degrada muito rapidamente estas ruas que foram feitas para trânsito residencial e acabaram num frenesi de vizinhos de uma escola superior de fim de tarde. Os vizinhos da Chave queixam-se dos buracos, inevitáveis sabemos agora vendo o trânsito de todos os dias úteis. Falo disso hoje, que é um dia de paz por estes lados, sem os carros do costume.

Sobra-nos um ruído de festa ao fundo. Isso até que nem nos incomodava coisa alguma se não tivessemos de ir a outros cantos da cidade e darmos com pequenos bandos de estudantes – a verdade é que somos lésbicos – tão engraçados a escrever disparates machistas quanto tolos a pavonear-se ainda bêbedos nas esplanadas matinais quando estamos a ir para o trabalho num passeio de olhares resignados de quem está nas paragens tremendo por um autocarro que os abrigue do vento frio na falta do abrigo de um vidro que ainda ontem lá estava.

Lá mais para baixo, alguns pequenos comerciantes queixam-se de que uma taxa cobrada para fazer face ao problema dos resíduos sólidos urbanos passou de 4 para 8 euros de um dia para o outro. Queixam-se ainda mais da resposta da Câmara que lhes responde que só pagavam 4 por ter havido um erro dos serviços e estavam por isso a ser beneficiados. O que a vereação da Câmara deve saber é que os pequenos comerciantes viram aumentadas para o dobro as taxas, sem apelo nem agravo. Não resolve problema algum dizer que havia um erro que lhes dava um benefício que nem conheciam. E não devem os pequenos comerciantes da cidade receber algum benefício de sobrevivência, dentro das muralhas cercadas por grandes mercadores a toda a volta? A bolsa ou a vida?

Contente? E descontente. Dentro de muralhas, a vida.

[o aveiro; 02/05/2008]



do que não existe como detonador


Pelos nossos jornais, ficamos a saber que um furacão devastou a Birmânia e sabemos que ninguém sabe a dimensão da tragédia, quantos são os milhares de mortos ou os milhares de desaparecidos. Pensamos mesmo que não houve quem, a mando da ditadura militar, se tenha dado ao trabalho de contar. Qualquer número serve. Se formos a um mapa deste tempo, nem encontramos a Birmânia. As pessoas do meu tempo lembram-se da palavra e é por isso que os jornais portugueses falam da Birmânia e não de Myanmar. Algumas pessoas podem ter ouvido falar de uma frágil mulher birmanesa que lidera a resistência contra o regime militar. Se o país que já nem é o mesmo nome, não tem birmaneses que possam ser vítimas de um furacão. Como chamaremos hoje aos que nomeávamos como birmaneses? Não sei. Onde fica Rangum? O que pode ter sobrado como desolação? Quem, sendo de longe, viu de perto o que aconteceu, disse que nem bombeiros, nem exército, nem quaisquer autoridades apareceram para socorrer quem pediu socorro, como se houvesse a ausência de estado a somar à desolação. Que podemos esperar de uma ditadura militar omnipresente para a opressão?

Um outro furacão está a varrer o planeta, todo o planeta. A subida dos preços no sector da alimentação mundial é o furacão, a maior tempestade. A subida dos preços do petróleo tornou apetecíveis (lucrativos, diga-se) muitos produtos alimentares tornados matérias primas para a produção de combustíveis. E todos demoram eternidade a decidir se os estados devem intervir na regulação forçada do mercado ou se devem deixar o mercado dos especuladores funcionar, que é o mesmo que espalhar a fome a nível mundial, a devastar florestas, a acelerar mudanças na produção agro-alimentar que já não alimenta bocas humanas e se tornou em mais uma prova da voracidade da besta que não hesita em devorar a humanidade. A besta está a devorar florestas e a assistir às marchas de esfomeados e desempregados com a satisfação de quem vê entrar homens nas bolsas de disponíveis para o trabalho escravo, em troca da côdea, sem lhes ver o crispado coração, o punho cerrado.

Cada um dos constituintes da besta garante que não é parte da besta. Ninguém é o que parece. Estamos em Maio, mês do furacão. Aos poderosos, recomendamos uma visita de estudo ao museu de história natural das devastações. Saibam que tão temíveis são os que nem existem como os que resistem.

[o aveiro; 08/05/2008]



viagens como presentes


Estou cansado demais para algumas viagens que a vida me reserva. Mas tenho de reconhecer que o mundo está mais pequeno e que me sinto muito confortável quando tenho de me deslocar ao Porto e a Lisboa. A experiência tem demonstrado que posso confiar nos horários dos comboios nessas deslocações e a minha velhice dá graças por isso. Na última semana tive de ir a Lisboa a uma conferência sobre o ensino da matemática em Portugal e devo agradecer a quem teve a paciência de me levar até lá e de me devolver a casa no fim da coisa.

Nem tudo foi assim tão fácil e lá tive de me levantar na madrugada de sábado para ir até ao Alentejo para onde me guiei o melhor que soube. Levei-me como professor com cabeça para o Alentejo e voltei agarrado a um pão com cabeça. Trocas vantajosas, penso eu.

Nos outros dias da semana, viajei entre a escola e a livraria da Universidade onde, por uns dias, esteve em visita a Exposição ‘Experimentar a Matemática’. Três peregrinações a pé, pela manhã de Aveiro, pelos passeios bordados de árvores entre a Escola José Estêvão e a Universidade. Ida e volta, em boa companhia. Alguma marcha forçada temperada pelo convívio, alguma desconfiança natural até à alegria das experiências e das descobertas a exigir a imposição do regresso inadiável. Coisas simples que ajudam a Matemática e a Ciência. Uma experiência significativa, realizada com êxito, vale mais que mil orações de sapiência. Não me canso de lembrar que os novos meios criados no nosso tempo e expostos para serem experimentados são do domínio dos prodígios para as pessoas da minha idade e do domínio da necessidade que precisamos de entusiasmar nestes dias. Tenho tanta pena de não saber nem poder realizar todas as viagens que é preciso fazer com os jovens.

Reconhecemos (e agradecemos) aos professores e monitores, que ajudaram os jovens na sua viagem experimental, a virtude magnífica da alegria científica de quem gosta da viagem. E a quem não viveu em visita a experiência matemática recomendamos a visita virtual em http://www.experiencingmaths.org. e a http://www.atractor.pt ou às exposições da Associação Atractor, no Porto, ou no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. A Matemática também mora em viagens que não cansam.

[o aveiro; 15/05/2008]



a primavera das escolas


Esta é a semana em que entramos sorrateiros na nossa escola dos outros.

Trabalhamos por ali todos os dias da nossa vida, mas conhecemos uma pequena parte da escola. Vivemos uma atrapalhação, no dia a dia, cheia de pequenas coisas que não funcionam a pedir-nos irritações e grandes exaltações em vitórias sobre pequenas coisas ou em alegrias partilhadas pelos olhares de quem se junta com vontade de ensinar ou aprender a tentar resolver problemas comuns. Trabalhamos ali todos os dias, mas raramente damos pelo que cada parte faz.

Até que alguém aparece a mostrar aos outros o que fazemos da nossa vida. E é na escola dos outros, que não conhecíamos e estava ali à mão de semear, que encontramos a razão para acertarmos o passo com a nossa vida que vale a pena. Corremos atrás da experiência dos outros, das pinturas dos outros, dos poemas e dos contos dos outros, dos prémios que os estudantes ganharam e merecem, … da vida escolar a mostrar-se em todo o esplendor. Há quem diga que tudo isso pode ser nada, que é alguma coisa podendo ser outra muito melhor, que isso não compensa os dias de desamor e desencontro que a escola pode ser e é. Mas, para mim, estes dias valem tudo o que podemos valer e nós só mostramos o que de mais luminoso temos para mostrar. Muitas outras coisas que valem a pena não cabem nestes dias de luz, isso sei eu, contra mim falo, que tenho grande experiência no jogo das escondidas escolares.

Uma parte do que vemos em volta do dia da Escola José Estêvão tem a ver com comemorações dos 20 anos passados sobre o Maio de 68. Mas tem a ver com exposições dos alunos de artes e com apresentações públicas dos produtos da Área de Projecto de alunos do ensino básico e do ensino secundário. Há alguma coisa de prodigioso em cada um dos pequenos acontecimentos que aparecem ao virar de cada esquina. Nós que, dia após dia de labor, vasculhamos para determinar avanços ao nível dos conhecimentos adquiridos e demonstrados em provas e afins, espantamo-nos agora perante a escola das competências em acção, essa escola que é um salto, uma soma de pequenas invisibilidades a recortar-se em detalhes destes dias de luz. E transbordam em animação.

Esta animação, que acontece em cada escola, é o ânimo de que cada escola precisa para se continuar, para se confirmar como uma parte criativa e activa da comunidade. Engenho e arte, afinal.

[o aveiro; 22/05/2008]



a disciplina do regime


No âmbito das comemorações da passagem dos 40 anos sobre Maio de 1968, para uso escolar, realizou-se uma sessão em que se relatavam acontecimentos históricos da década de 60 (do século passado!) e, relativamente a algumas questões, os jovens apresentadores questionavam pessoas presentes que representavam papéis previamente distribuídos. A mim, cabia-me o papel de dirigente associativo ou estudantil e devia responder, nessa qualidade, com uma opinião sobre a repressão policial da época.
Pareceu-me que esperavam de mim que falasse da PIDE, das prisões e torturas de militantes políticos, da tropa de choque e da violência policial contra manifestantes e activistas, contra grevistas, etc…
Eu tinha aceite esse encargo. De facto, parece-me muito educativo, para os jovens que a não conheceram, (d)enunciar os aspectos da violência policial do antigo regime contra todo o tipo de iniciativa popular que escapasse ao seu controle e o pusesse em causa. E isso acabei por fazer, pelo menos em parte, denunciando a proibição e a repressão das movimentações populares, atropelos a liberdades e elementares direitos de associação e manifestação, com descrição breve da situação do movimento estudantil de Lisboa, Coimbra e Porto.
Mas acabei, sem que tal fizesse parte das minhas intenções iniciais, a diminuir a importância da repressão policial do regime fascista, exercida com particular violência contra militantes e activistas que com ela contavam, para dar toda a importância à mobilização forçada de todos os mancebos para a guerra colonial. Reclamei uma importância especial para essa violência que tocava todas as famílias portuguesas mesmo que não tomassem acção, nem manifestassem qualquer desamor ao regime. A guerra mais suja é aquela que se dirige indiscriminadamente contra todos os que, de um lado ou de outro, se tornam parte activa quando percebem, longe de todos os seus, que é matar ou morrer. Sem querer matar e sem querer morrer, sem saber matar e sem saber morrer, de cada uma das famílias portuguesas de cada uma das mais pequenas localidades, vimos partir jovens que regressavam velhos vivos, estropiados mental e fisicamente, ou mortos para sempre jovens. De Angola, da Guiné, de Moçambique. Sem querer matar ou morrer, outros partiam para o estrangeiro sem esperança de regresso.

Dei por bem gasta a minha voz contra a guerra colonial que o regime colonial travou também (e principalmente) contra o povo português.
Abril e Maio cheiram a liberdade. E eu gosto.

[o aveiro; 29/05/2008]



os impostos inaceitáveis


Por dá cá aquela palha, ouvimos badalar a necessidade de baixar os impostos como cura para todos os males. Há dirigentes políticos, a começar pelos autarcas, que anunciam como sua virtude a vontade e a decisão de baixar impostos.

Ao defender a entrega a privados da prestação de alguns serviços fundamentais, com o argumento de que funcionariam melhor, os presidentes de câmara, vereadores e gestores da coisa pública desvalorizam a sua capacidade de gestão e acção. Ou não são eles os responsáveis dos serviços que querem alienar para outros que façam melhor? Ou não são eles que, ao mesmo tempo e a todo o tempo, garantem aos eleitores que são capazes de tudo fazer bem até merecerem ser reconduzidos nos seus lugares de gestores da coisa pública?

Não tenho nada contra os impostos cobrados claramente. Parecem-me baixos para os serviços sociais que suportam, se forem bons serviços e em boa hora prestados.
Serviços bons e claros nunca são caros. Sou contra os impostos que não estão declarados e são cobrados de forma cobarde e clandestina. Caras são as horas de vida que pequenas e poderosas repartições nos roubam. Caras são as horas de espera para o momento de protelar decisões. Caros são os impostos que pagamos ao sermos convocados para reuniões em que os dirigentes não conseguem tomar decisões e se deixam manietar pelos truques e tiques dos pequenos poderes nas suas administrações. Caras são as horas que vivemos sem qualquer proveito e onde a única novidade é o papel (ou a nova informação) que passou a faltar hoje e não faltava ontem e sem que o dirigente em presença denuncie, contrarie e mostre que percebe a incúria, o desleixo, a fraude, o prejuízo que tal arrastar de situações cria aos utentes. A administração aparece-nos tolhida por pequenos técnicos que passam mais tempo em corredores de conversa (de empatar umas vezes para agilizar demais outras) que em trabalho a apoiar decisões.

Por vezes, damos por nós a pensar que esse é o sistema onde vivem os que querem ver reduzidos os impostos com finalidade à vista e, por isso, a exigir prestação de contas, para os substituir por arranjos e combinações entre cúmplices do estado das coisas a que chegámos.

Há quem finja que estes impostos não são cobrados. Como ilusionistas disparam palavras contra todos os impostos. Sob a toalha dessas palavras e do medo, escondem os impostos dos dias e dos passos perdidos.

[o aveiro; 03/06/2008]



a chave da porta de saída


Ainda há pessoas. Cada pessoa, na sua cidade, vive rodeada de pessoas. A cidade de cada pessoa é, em primeiro lugar, a sua vizinhança. Pelas ruas em que passo, há muitas pessoas que conheço e me reconhecem. Em alguns momentos do dia a dia, muitas mais há que não conheço nem me conhecem. De certo modo, ao passar pelas ruas da minha vizinhança, eu sei quem não conheço. De vez em quando, sou assaltado por dúvidas ou estranheza a respeito de uma cara. Talvez porque a tenha visto muito frequentemente na minha vizinhança. A minha vizinhança é visitada por muitos estranhos a ela. Claro que, a certas horas do dia, é como se estivéssemos a ser visitados por automóveis e é como se não víssemos pessoas.

Ainda há pessoas. Quando ficamos cercados por automóveis, ficamos cercados por pessoas que não vimos. E elas também não olham para as pessoas daqui, porque vieram cheias de pressa ver qualquer outra coisa e anseiam ir embora para as suas vizinhanças. As nossas ruas mais frágeis ficam esburacadas em pouco tempo, pelo peso das pessoas que chegam e partem velozes. Quem manda na cidade, deve saber disso. Mas adia a reparação das ruas que não são as suas ou não são as ruas dos que têm poder para mandar nos que mandam fazer. Ainda há pessoas. Mas nas ruas da minha vizinhança, não há pessoa que tenha poder para mandar fazer. O único poder que resta à minha vizinhança é o de falar ou escrever a dar notícia.

Ainda há pessoas. Há políticos que são populares e reconhecidos pelas pessoas, porque as recebem, deixando que elas falem e dando a entender que as ouvem. Ainda há pessoas que esperam mais do falar do que a fala e esperam mais das pessoas com quem falam do que das nuvens a quem rezam. E que há mais desencontro que encontro em políticos que ouvem e falam sem tomar devida nota de coisa alguma, sem dar acção às palavras que ouvem e ainda menos às que falam. Ainda há pessoas que pesam as palavras que dizem e pesam as palavras que ouvem. Ainda há pessoas que sabem o peso do nada feito sobre o tudo nada dito.

Ainda há pessoas que (pres)sentem nas palavras ditas em infindáveis (des)encontros a maldade de quem pode estragar e adiar a vida dos outros como se a vida dos outros fosse coisa pouca. Ao mesmo tempo que, maldosamente, fingem uma simpatia sem limites de tempo para as dificuldades verdadeiras, engraxam e criam facilidades instantâneas aos grandes negócios e negociantes que não podem esperar.

Só que … ainda há pessoas a achar que estes políticos são “estranhos” em qualquer lugar do mundo.

[o aveiro; 12/06/2008]



a vontade


Não aceito um Não. Ainda há pouco disseste que eu era o maior e agora dizes-me Não? Não pode ser. Nada é pior que um Não! O pior Não é aquele que se segue a grandes declarações de amor e dedicação! O pior Não é aquele que está rodeado de pequenos sins, é aquele que nós rodeamos de todos os carinhos para ser um sim. Não me faças isso, não me digas Não!
Quando eu te mando fazer isto ou aquilo é para teu bem e, por isso, está fora de causa que digas que Não fazes! Que diabo te leva a dizer Não? Não consigo compreender o teu Não. Claro que nunca me passaria pela cabeça preocupar-me com um sim senhor, pois claro! Quando dizes sim aos meus pedidos e aos meus desejos isso é tão natural que não me interrogo sobre as razões que te levam a dizer-me sim. Natural é estares de acordo comigo. Todos sabemos quem tem razão. Quem tem razão sou eu. Mesmo que eu mal te explique porque hás-de gostar de mim, natural é que gostes de mim e me digas sim, sim, sim. Não? Que ideia mais infeliz a tua!
Onde foste buscar coragem para me dizer Não? Parece impossível! Todos os meus amigos e conhecidos só podem aconselhar-te a dizer que sim ao que eu quero. Está tudo tratado para o teu sim, Se disseres que sim, vamos ser felizes para sempre! Como podes duvidar? Não te chegam as minhas promessas? Antes de dizer Não, bem podias ter pedido qualquer coisinha que te interessasse. Eu nunca te diria Não! Podia mandar-te mesmo um braçado de rosas, um maço de notas, um beijo, uma carta de amor, um cartão de boas festas e até mesmo boas festas antecipadas. Isso tudo. Não, eu não me importava nada de te prometer mundos e fundos. Ou até dar-te fundos. Agora, dizer-me Não, depois de todas as minhas promessas e depois de teres conhecimento que todos os meus conhecidos e amigos (que são toda a gente, com sabes) já me disseram sim! Parece impossível! Diz-me porquê! Eu preciso de saber porquê. Um Não, porquê?
Quem és tu para me dizer Não? Afinal quem pensas que és? Não, não podemos aceitar o teu Não. O teu Não não tem sentido. É um contra-senso. E é um contratempo!
Não te compreendo! O que é que queres? Um divórcio? É isso que tu queres? Não é melhor pararmos para reflectir? Eu sei que se pensares melhor vais dizer sim, não é? Não é? Diz alguma coisa! Vá, diz alguma coisa que me ajude a perceber. Quem julgas que és? O que é que tu queres, afinal? Dizes Não e pronto? Isso é assim? Isto não fica assim!
Quem é que tu pensas que és?

A Irlanda.

[o aveiro; 19/06/2008]



exames… de consciência


Como passar estes dias sem falar de exames? Há exames. E todos nos afadigamos em dizer que isto vai mal. Os exames vão mal. Os alunos têm melhores resultados? Isso é mau: os exames são fáceis demais. Os alunos têm maus resultados? Isso é mau, mas não são os exames que são mais difíceis, o que acontece é que são maus os ministros, os programas, as escolas ou os professores em geral. Como passar no exame destes dias?
Os exames são mais fáceis? São mais difíceis? São diferentes? São iguais? São tudo isso, devemos dizer em abono da verdade. E há quem diga cada uma das coisas, com toda a razão cada um dos que fala quando compara com alguma coisa que tem na cabeça e que os outros não conhecem.
Hoje em dia, os exames são mais acessíveis? São, de facto são. Desde há um bom par de anos que se tem vindo (finalmente!) a publicar as perguntas que se fazem e se podem fazer sobre os programas e até mesmo as respostas que se esperam. Para esperar o quê? Que os alunos tenham piores resultados? É mau que os alunos saibam que tipo de perguntas se podem e devem fazer no fim de um ciclo de escolaridade? Não, não é. É mau que muitos alunos percebam que as questões que lhes podem ser postas são acessíveis no sentido que procuram que eles mostrem se estudaram e compreenderam o que de essencial se espera deles? Mais transparência do sistema dá mais confiança, e, com mais tempo para pensar, preparar e escrever as respostas não é natural que tenhamos melhores resultados?
Assim é, mas nada nos permite diminuir e espalhar a crença que melhores resultados do trabalho actual só podem ser uma fraude. Uns serão…

Criticáveis são, certamente, políticas e medidas no sistema educativo dos últimos anos. Também dos responsáveis pelos exames.
Quem havia de se lembrar de um motivo para louvar os últimos governos tão diferentes em partidos e em partidas que nos pregam? Eu. Que fizeram eles de bom? Mantiveram uma organização com autonomia – o GAVE – a dirigir a concepção e elaboração de provas de exame, de testes intermédios, de publicações de perguntas e respostas. A todos eles, muito obrigado por esse pequeno nada que é afinal o tudo nada que fez alguma diferença.

Se temos de aumentar a exigência sobre os sistemas, exigindo ao mesmo tempo cada vez mais dos jovens, dos professores, das escolas? Claro, sempre! Como se faz isso? Exigindo. O que é que isso poderá ter a ver com a palavra fácil? Nada.

[o aveiro; 26/06/2008]



o descanso


Pareceu-me poder dizer que, em certas alturas da vida do homem que ando a perseguir, ele traz a cabeça pousada no ombro como se quisesse ver quem o persegue até eu ter a certeza que ele me está a ver. Ele quer que eu veja cada pormenor dos seus pequenos actos desinteressantes até me ver compor o quadro completo de tudo o que lhe tinha reprovado de forma desabrida.

O homem, que eu persigo pertinaz, não se deixa ficar num dos lados da sua vida na esperança que me aborreça e adormeça. Ele mostra-me mesmo nos mais obscuros pensamentos e deixa que eu veja o que ele não sabe. De certo modo, deixa-me ver o seu obscuro modo de fazer ou o seu modo de pensar e até o seu modo de falar nas reuniões. Olho para ele vendo como ele olha os textos. Ele deixa-me ver os acordos e desacordos das primeiras leituras. E deixa-me ver como cada opinião o influencia. Ele deixa-me ver como hesita demasiado até soltar uma tentativa de acordo numa dúvida que deve pairar ou numa sugestão que toma o lugar da dúvida. Ele deixa-me ver como toma o lugar do outro até perceber que mais vale ler como ele, na esperança que todos leiam desse modo esse mal o menos.

De vez em quando, o homem solta-se e deixa que o discurso se solte em alta voz como quem procura respostas nos olhares e nos esgares de quem ouve. De vez em quando, o homem deixa-me ver uma pergunta que se destaca do discurso como se fora uma faca afiada ou uma gargalhada inesperada surgida da dobra onde guarda as memórias detalhadas dos outros, essas que não são para usar. Tenho a certeza que ele dá por mim, que o persigo todos os minutos da sua vida para ganhar a vida, e começo a pensar que ele me dá tudo quanto eu preciso de saber para que eu não me canse. Há detalhes que nem me lembrava de apontar se não fosse a importância que ele lhes dá ao sublinhá-los.

Quando escrevo os meus relatórios, tenho de me controlar para não descrever detalhes que pareçam impossíveis pela observação que eu posso fazer a uma distância que não me denuncie. Tudo me é dado ver e saber sobre o homem que persigo e já sei que só durmo quando ele dorme, sem precisar de pensar nisso.

Eu sou o homem que persigo. Cada vez que um determinado quadro pode ser exposto, descanso. A crítica ao quadro exposto, ainda que errada, é uma crítica sobre o quadro que se pode ver. Porque haverá tanta gente a criticar o que não sabe e nem existe?

[o aveiro; 10/07/2008]



a agenda


Houve um tempo em que Santana e Menezes lutavam denodadamente contra Sócrates. As festas sucediam-se e todos nos sentíamos felizes por vermos o mundo parecer perfeito, agenda de sobras. A bagunça opsdocionista foi de tal ordem que o coro da ordem e da seriedade não tardou a impor-se. Por amor da agenda, devemos dizer que Menezes e Santana nunca chegaram aos calcanhares da agenda de Jardim.

De qualquer modo, há tempos, a agenda da velha senhora veio a votos e recebeu uma maioria de votos piedosos dos seus pares no baile dos pequenos baronatos que dançam com ela a aproximação à agenda do poder que lhes escapa. Alguns deles já debutaram, mas todos fingem que eles se aproximam pela primeira vez da agenda da salvação patriótica.

Os pobres não cabem em si de espanto ao verem como a velha senhora, na agenda de oposição, se apresenta reciclada para a sua defesa quando a única defesa que lhe conhecem foi uma agenda de ataque a todos quantos diz agora defender. Contra o governo que, também ele, se apresenta em agenda de defesa dos que agendam a falta de fé no que lhe dizem.

A semana passada ficou marcada pela estreia de nova agenda na bancada opsdocionista. De tudo se disse antes: virtudes magníficas, todos reconheciam ter o agenda. Depois do primeiro confronto sobre o estado da nação, li o que escreveram os repórteres de escaramuças, os relatores do politiquês, os professores que dão notas de agenda enquanto empurram com a língua, boca fora, as palavras que se despenham no balde do tudo ou nada, cheio de perdigotos e das lágrimas dos contribuintes para a televisão do estado da nação.

Até eu tenho pena de mim por ter de assistir aos espectáculos em volta da agenda. Os espectáculos em volta do discurso humano são feitos para desvalorizar as reais acções humanas. Pobre do homem que, honradamente, estudou e fez o seu papel o melhor que soube. Eu até compreendi o que ele disse e o que quis defender. Sem concordar com ele, pareceu-me uma honrada tentativa de agenda. Milhares de bocas falaram sobre o estado da nação e não há quem se lembre de uma palavra dita pelos actores que usaram da voz no anfiteatro.

Cumpre-se a agenda. Esquecidas as promessas, as políticas, as pessoas… cumpre-se a agenda.

[o aveiro; 17/07/2008]



a revelação


A última semana revelou-se difícil de viver. Sabemos da morte inevitável para cada um de nós e sabemos da possibilidade da morte dos que nos são próximos em qualquer dia do ano. Mais sabemos da elevada probabilidade de que os nossos doentes morram a qualquer momento. Mas nunca encaramos a separação física definitiva, mesmo quando sabemos que ela já está realizada em sofrimento mais que na morte real. O sofrimento separa-nos uns dos outros mais que a vida. Costumo dizer que a vida manda que nos movimentemos para nos afastarmos uns dos outros. O movimento autónomo é sinal de vida e é sinal de separação. Andamos sempre a procurar elementos separadores enquanto crescemos. Só nos consideramos adultos quando nos separamos. Ansiamos pelas separações. Mas não aceitamos a morte como separação e resistimos-lhe. Agarramo-nos aos vivos enquanto estão vivos. Porque a morte serve para efectuar um corte doloroso, uma separação distinta. Doces separações aquelas que a vida opera no seu curso natural – temos consciência disso quando a morte vem separar com um abismo vazio.

Na última semana não deixei de pensar nas separações. As pátrias, as religiões, os ódios e desprezos, as explorações e violações separam em vida pessoas umas das outras e de tal forma que cada uma delas pode operar a morte de outra sem sofrer a dor de separação vazia que a morte é. E vimos as famílias a precisar dos cadáveres dos familiares como condição para a separação entre a vida e a morte provocada pela guerra, embora não estranhem a separação que dá origem à guerra e que está antes da morte dos soldados. Dizem-me que é preciso encontrarmo-nos com o corpo ou o que dele nos derem para fazer o luto, para aceitar a separação. Não compreendo.

Ainda menos compreendo a atitude dos nossos banqueiros e financeiros que conduzem a guerra financeira, abusando e usando o dinheiro de outros para operações que, por não serem controladas, podem gerar lucros fabulosos. Eles não querem saber de onde vem o valor acrescentado ao dinheiro em movimento. Mas sabem que esse valor significa lavagem de dinheiro sujo, venda de armas e material bélico a bandidos, governantes e senhores da guerra, exploração sem limites, … Eles sabem, na sua santidade aparente, eles sabem que as suas operações matam, que são mandantes de crimes sem nome. Sabem que não podem contar as suas vítimas. Também sabem que não lhes pedirão os cadáveres das vítimas dos seus negócios. Esses banqueiros podem ter usado o meu dinheiro para essa guerra suja.

E eles estão no meio de nós.

[o aveiro; 24/07/2008]



a ópera do fantasma


Aqui há muitos anos atrás, escrevi contra exames como se disso dependesse a salvação da humanidade. Atribuía aos exames a maldade absoluta, um último e derradeiro trunfo da reprodução das desigualdades sociais. E tinha razão. Nas minhas tiradas de ira, não precisava de pensar no que era o exame, só pensava no que pensava serem os seus efeitos em termos de selecção social operada pela escola. Contava meticulosamente os jovens oriundos das classes trabalhadoras que chegavam ao ensino superior e os números provavam o meu ponto de vista. Com razão contra o exame, ainda que os meus amigos de infância nem chegassem ao exame.

Mais tarde, professor e em democracia, achava que os exames atenuavam a perturbação social da falta de vagas nas escolas e nas universidades e criavam bolsas de trabalhadores infantis, juvenis e baratos. Reclamava contra os exames e reclamava mais escolas e mais jovens a estudar e menos jovens no mundo do trabalho. E tinha razão. Não me preocupava qualquer noção de exame. Os números do trabalho infantil entre os desfavorecidos existiam para me dar razão. Impossibilitado de me referir a todos os aspectos do sistema social responsável pelo mal, concentrava toda a ira nos exames clamando contra os problemas sociais da juventude. Os exames eram o pretexto. Claro que tinha razões para ser contra.

Tudo foi mudando. Aprovados novos programas de ensino, com base em amplas discussões sociais, muitos problemas persistiam. Havia cada vez mais jovens na escola até me parecerem que já podiam andar por lá todos os que quisessem. Sem haver professores para tanta gente. Estudantes em condições muito diferentes eram submetidos a um mesmo exame nacional? Era contra os exames e, na falta de melhor, aceitava que se compensassem as faltas imputáveis ao sistema nas notas dos exames. Como aceitar perguntas sobre assuntos que podiam nunca ter sido leccionados numa dada escola? Contra os exames nacionais, sempre! E tinha razão. O exame era o momento chave para denunciar a falta de professores, as desigualdades mantidas e criadas.

Na falta de melhor, aceito o corte e costura dos programas para tentar que o essencial chegasse a cada uma das partes do todo nacional. Com professores espalhados por todo o território e programas mínimos exequíveis, podia aceitar-se um exame de perguntas que se pudessem fazer a toda a gente. Isso fazia mau o exame por ser mau e curto o programa. Pior ainda: professores não ensinavam o que estava prescrito, só treinavam para o exame, enquanto outros desistiam da liberdade de trabalhar os temas do programa mais formativos por não os verem reflectidos nos exames. Contra o exame. Com razão.

De certo modo, tinha começado a ser verdade que o exame respeitava o programa de ensino: questionava aprendizagens de todos os temas, sem esquecer verificação de competências necessárias para acções futuras. Ninguém reclamava qualquer compensação, mas ainda persistiam desajustamentos culturais e de linguagem, contextos e práticas dos professores. E tinha razão em ser contra os exames para exigir que o sistema tornasse acessível ao todo nacional textos com modelos de perguntas possíveis e modelos de respostas esperadas para diminuir os desajustamentos. Muitos professores, se feitos para ensinar, não ensinam mais que um discurso seu como resposta em vez de dar livre curso ao pensamento e à iniciativa.

E continuava a ser contra os exames, para pedir mais tempo para pensar sem pressão, para ler melhor, para responder melhor, cada um a seu tempo. Não pedia mais tempo para mais perguntas e mais difíceis ou inesperadas. Nada disso. Contra os exames, pois claro.

Ao longo da minha vida, o exame não foi mais que o nome do momento propício para reclamar e exigir. E nunca houve o exame porque ele sempre foi variável dependente, espelho de mudanças exigidas e consentidas.

Sem saber nada de particular sobre o exame, reconheço este fantasma sem forma na obra colectiva. Cada vez mais complexa e exigente, a obra. Olho para o pormenor do exame: intrigante nada feito tudo, um tudo nada.

[a página da educação; Agosto de 2008]



a visita humana


Marcam-me encontros e ameaçam despir-se, caso eu apareça, logo ao primeiro encontro. Também recebo pedidos lancinantes de ajuda por um ou outro estudante com mães tão doentes que eu nem quero saber, ou mesmo ofertas de noivas jovens vindas directamente do oriente para a minha felicidade europeia.
Escrevem-me em papel timbrado ou lá perto. Apresentam-se algumas vezes como encarregados de negócios ou diplomatas com nomes africanos ou russos (penso eu, que leio romances) a precisar de parceiros que aceitem colaborar com contas de aluguer para que nela depositem dinheiros do outro mundo em passagem por este mundo.
Ameaçam-me com processos de inquérito numa delegacia de polícia em português brasileiro, caso eu não responda a não sei o quê, e mais recentemente acusam-me de entrar em locais proibidos, também em brasileiro que é a língua dos meus crimes pelo mundo fora, e mandam-me abrir um “executável” qualquer em minha defesa. Caso contrário…
Claro que habitualmente recebo postais de alguém que me ama ou me quer bem e, caso eu queira saber quem tanto me ama, bastar-me-á abrir um “executável” qualquer como quem abre uma porta com uma gazua. O brasileiro é também a língua de quem me ama a uma distância confortável.
O meu computador não é muito sensível a “executáveis” e o tempo tem passado sem que eu seja executado por estas iniciativas mais ou menos anónimas. De todas as mensagens indesejadas que diariamente atravancam as minhas caixas de correio electrónico, estas são as mais indesejadas e chegam a ser realmente assustadoras. Estas ameaças electrónicas sistemáticas que são lixo ao lado do lixo dos vendedores de viagra ou de campanhas de viagens aéreas com hotel dentro, de diplomas de universidades fantásticas, … carregaram-me de boa vontade para com a tralha das vendas que atafulha a minha caixa de correio da porta da minha casa. Passei a gostar da tralha física que me visita e chego a ler amigavelmente alguns daqueles papéis antes de lhes encomendar a alma frente ao papelão.

Eu, que tudo faço pela internet, evitando balcões de repartições, de bancos, … dei por mim a pensar que há bondade humana nas anunciadas visitas físicas dos inspectores do fisco que vão entrar nas casas para encontrar jóias ou outras coisas… que possam ser penhoradas. Pelo meu lado, nenhum sinal exterior de riqueza será disfarçado.

[o aveiro; 7/8/2008]



a altura


Este mês de Agosto que finda deixa-me na memória sabores a ouro e prata. Ouro e prata de lei.
Falou-se sempre de muito dinheiro olímpico que bem vistas as coisas é pouco dinheiro para os super-heróis em que nós apostámos todos os sonhos de glória patriótica. De Pequim, os porta bandeiras portuguesas trouxeram o ouro e a prata. Feitas as contas, temos de aprender a não transformar o dinheiro que gastamos em desejos de glória em realizações com resultados garantidos. Porque os resultados das competições humanas não são determinados ainda que possamos saber que um outro aparecem como muito prováveis.
É assim no desporto e na cultura e é assim também na educação. Não corre ou corre bem, corre mal, corre assim assim. Pelo meu lado, acho que a missão em Pequim (dos que disputaram a glória) correu muito bem. Não pude competir em Pequim, porque não atingi qualquer mínimo olímpico. Os que lá foram competir são os melhores de nós nas áreas desportivas em que competiram. Para mim, são o máximo. E estivemos lá, cada um dos nossos a fazer o seu papel – a competir para se superar e para ser superado por outros – e sem roubar o ouro merecido pelos outros. De certo modo, o valor do ouro de quem ganha é muito obra de quem se esforçou denodadamente para o ganhar sem o conseguir. Sem competidores, que valor sobraria para o bronze, a prata ou o ouro olímpicos?

A situação e a circunstância olímpica permitiram que dirigentes de comités, alguns políticos, alguns comentadores, etc se tenham envolvido em competições renhidas pelo ouro, prata e bronze da toleima. Temos muita dificuldade em atribuir as medalhas disputadas. Os disparatadores mostraram uma pontaria fantástica, os disparates levantados foram muito pesados, nenhum dos concorrentes deixou por mãos alheias os disparates que era a sua meta.
Nós sabemos como somos bons nisto.

Claro que o olimpo cá de casa é feito de assuntos mais prosaicos – segurança na linha do Tua e no bairro do Mocho, por exemplo. Escondemo-los enquanto ardia a chama olímpica e continuaram em segunda fila porque voltou o novo seleccionador de chuteiros a seleccionar e começou a liga com as notícias dos seus milhões (de adeptos? de euros? de contratações? de bolas? de pernas?). Claro que a competição de disparates sobre estes assuntos também foi muito animada. Estivemos à altura das situações. Gosto de nós.

[o aveiro; 25/08/2008]



o espírito de Elvas (em 2 de Setembro)


O Encontro da Associação de Professores de Matemática trouxe-me a Elvas. Aproveito para meter os pés ao caminho. Logo de manhã, palmilhei uma longa e larga avenida que passa pelo Coliseu. O Coliseu é, por fora, um cilindro. É um coliseu. As bancadas em anfiteatro cercam uma arena redonda. Nesta altura em que um palco toma conta da arena, de onde os convidados falam para os professores, custa-nos imaginá-la com touros e chocas, toureiros, bandarilheiros e forcados, cavalos e cavaleiros, para além do “inteligente”, claro. Um palco cercado por cabos e grandes máquinas de som e luz vai servir para um concerto de Rui Veloso que vai ocupar parte da minha noite de amanhã. Não me custa imaginar que aquele é um lugar bom para o concerto de amanhã.

Serve isto para contar a forma empolgante como o Presidente da Câmara de Elvas falou da sua cidade, das suas Escolas Secundária e Superior Agrária, dos seus Museus e Cine-Teatro, dos professores de Matemática que ocuparam a cidade e se repartem por todos aquelas instituições em certas sessões e se juntam no Coliseu para grandes sessões plenárias e para as festas.
Seve isto para dizer que o Presidente da Câmara de Elvas sabe da importância da fronteira quando ela serve para separar e sobre ela refere as muralhas e toda a monumentalidade convergindo para o alto centro, sabe reconhecer-se nas linhas de Elvas com que se cose, ao mesmo tempo que sabe da importância da fronteira quando ela serve para ligar, referindo-se sempre a Badajoz, aqui tão perto, como o lugar do vizinho que vem ao Coliseu pela auto-estrada Lisboa- Madrid a passar por Elvas e Badajoz e torna Elvas uma terra de atracção para congressos internacionais e nacionais, de associações profissionais, industriais, comerciais, …

Palmilho o dentro e o fora das muralhas. E encontro a cada esquina caras conhecidas de professores dos ensinos básico, secundário e superior de Matemática. De certo modo, é como se estivesse na casa dos professores de Matemática. Sei que a partir de quinta feira, uma parte destes professores estará em Badajoz a reunir-se com colegas de Espanha num Seminário sobre a Investigação em Educação Matemática. Vão até lá sem sair de casa, sem dar o salto.

Sinto-me bem. Temos muitas dificuldades, é certo. Encontramo-nos no lugar certo para nos darmos conta delas e, quem nos dera, darmos conta delas com o espírito do lugar a ajudar.

[o aveiro; 4/9/2008]



assombração


Estou a escrever quando o lusco-fusco toma conta da terça-feira. Caminho devagar em busca do sentido do dia e da semana. O dia está bom e as palavras chegam vagarosas. Vejo-as em contra-luz e faço um esforço para as reconhecer pelo recorte. Nada. Têm de entrar pela porta e falar para que eu as reconheça. Estou a escrever contra o lusco-fusco, contra o jogo das sombras. Nestas horas, as sombras que nos seguem podem parecer ameaçadoras. Quando dizemos que temos medo da própria sombra falamos da sombra que nos persegue manhã cedo ou tarde da tarde. Ameaçadora, ela segue-nos ou precede-nos na caminhada. Assobiamos e damos graças por não ouvirmos o eco dos nossos assobios, que são as sombras dos assobios, que são assobios assombrados fechados nos túneis que atravessamos em vida.

Hoje, o Ministério da Educação decidiu divulgar alguns números sobre os resultados escolares do ano passado. E foi a habitual lufa lufa da comunicação social em busca das reacções a esses números. O habitual lusco fusco, a luz e a sombra. Todos nós andamos há décadas à espera de dias melhores, de resultados melhores. Muito devagar, temos cada vez mais jovens na escola, sem podermos descansar enquanto não temos todos os que dela precisam. Sempre que o número de jovens na escola cresce, sabemos que os resultados podem aparecer piores.

Mas este ano, anunciam-nos um crescimento da população escolar acompanhando uma melhoria dos resultados escolares. Isso pode significar que os professores e formadores fizeram o impensável lusco: com mais alunos, dos quais muitos jovens regressados do abandono a que votaram a escola, obtiveram uma melhoria dos resultados. A preparação e execução das actividades lectivas são obra autónoma dos professores e, em grande medida (de 70% a 100%), a avaliação escolar também.

Imediatamente se levantou o fusco, a grande sombra. Não pode ser! Pode lá ser! Há quem levante a poeira da suspeita, aponte os canhões de fumo do desconcerto sobre os resultados escolares. E há professores a acender velas neste desconcerto, vagos nas razões, perdidos de si mesmos.

Estes resultados valem o que valem. Devemos acompanhar os números com as cautelas necessárias, manter a exigência que a nossa dignidade exige e garante, estudarmos os factos e a consistência entre aprendizagens e classificações e ficarmos preocupados, isso sim!, por termos resultados ainda muito fracos e a exigir mais esforços.

A ser alguma coisa, uma pequena melhoria é pequena satisfação! Dor e assombração é que não!

[o aveiro; 11/09/2008]



as regras, as ruas, os nomes


Vou sempre pelo mesmo caminho. Como se tivesse medo de me perder um dia a caminho de casa ou a caminho da escola. Que relação há entre a caminho de casa e a caminho da escola? Não são um só.
Levanto-me cedo por saber isso. O caminho da escola é mais rápido que o caminho de casa. Não é por ter mais pressa de chegar à escola, mas é verdade que os minutos são passos contados. Como se tivesse medo da campaínha que marca as horas de entrar e de sair? Nunca saberei ao certo. Vou cedo para evitar contratempos.
Nas primeiras aulas, tenho de lembrar algumas regras aos alunos. Porque é que há a regra da pontualidade? Sempre que uma pessoa chega atrasada prejudica-se a si mesma. Só? Quem chega atrasado a um trabalho colectivo prejudica o trabalho dos outros que com ele contam se é que os não coloca em risco. As regras que nós aprendemos a seguir protegem cada um e todos nós. Nem precisamos de pensar. Sabemos que, ao fazermos a nossa parte, tornamos a vida dos outros mais fácil. E sabemos que a nossa vida é mais difícil quando alguém falha a sua contribuição. É assim em tudo.

Vou sempre pelo mesmo caminho. Olho os carros de frente e escolho o passeio ao lado dos carros que se aproximam de mim. Não sei se é regra, mas é mais fácil fugir do perigo que vejo aproximar-se de mim e é mais confortável sentir-me afastado do possível perigo que não vejo. Mais ainda quando falha o passeio. Faço os meus caminhos a pé e sigo regras e rotinas sem dar por isso. E de cada vez que descubro uma nova rotina que sem pensar cumpro, descubro também as pequenas contrariedades da cidade feita para os carros. E aprecio os carreiros abertos nos relvados por peões que seguem em frente depois de atravessarem uma passadeira. Os passeios em volta ficam cheios do cotão do abandono a que os peões os votam.

Dou por mim a pensar no exercício do poder. Entro na primeira aula em que possso falar de modelos matemáticos que apoiam decisões, escolhas. Ainda nos estamos a apresentar e eu pergunto a jovens, com mais de 15 anos, que vivem por aqui, os nomes das freguesias de residência, dos respectivos presidentes de junta e de câmara.

Eles não sabem os nomes. Não amaldiçoam pessoas por maus traçados, obstáculos, buracos. É tudo culpa do sistema.
A escola deve ensinar nomes próprios? Os nossos nomes?

[o aveiro; 18/09/2008]



Regra dos sinais


Escrevo à terça feira. Não é a terça feira quem me quer ler. Quem escreve para ser publicado, sabe que vai ser lido quando for passado. Se chegar ao dia da publicação, pode ler-se, pode ler o seu passado. Escrevo para o futuro e o futuro só pode ler o passado.

Na manhã desta terça feira, um estudante finlandês matou nove alunos de um liceu. Ao que dizem, publicava num canal video cenas de treino de disparos com pistola. Como se estivesse a atirar para o futuro. Depois do massacre, disparou contra si próprio e morreu no hospital.
Interrogado pela polícia, tinha sido libertado por ter uma licença para disparar. Só depois do massacre é que os videos foram retirados da cena pública. Ficamos transidos de espanto, suspensos neste tempo em que vemos como o futuro acontece. Sempre aconteceram coisas destas e a Finlândia não é o território mais fértil em acontecimentos destes que são desastres em si mesmos e mais desastres são por estarem assinalados por imagens que os precedem e os fazem permanecer para além do tempo em que acontecem.
Sobra-nos o travo de uma derrota. Como podemos interpretar os sinais? Como podemos interromper estas roletas russas? Há uma necessidade doentia de celebrar a própria morte com o assassinato de inocentes como se estes fossem pedrinhas deixadas no caminho a aumentar o impacto de uma decisão desesperada e criminosa. Estes casos repetem-se. Só que agora somos testemunhas atadas aos testemunhos impossíveis de controlar e que nos deixam uma estranha sensação de serem cópias do passado e desejo de futuro. Neste caso, assistimos a alguma coisa parecida com os videos dos campos de treino de suicidas que se suicidam com a obrigação de matar outros para ampliar o acto. Muitas vezes, há grupos humanos a descrever a motivação dos actos suicidas. Será que as motivações dos suicidas empurrados para o martírio são diferentes das motivações deste frio finlandês que parece agir sozinho sem precisar de ser empurrado? Podemos pensar que aqueles que são empurrados são mais humanos, porque talvez nunca pudessem tomar tal decisão sozinhos e, quando têm oportunidade, escapam do acto que lhes procuraram impor.
Percebemos que não há lugares livres destes medos que assaltam os nossos dias.

Nesta esquina de terça feira, olho em volta para ver sinais. Eles disparam mais rápidos que a nossa imaginação. De que nos servem os sinais?

[o aveiro; 25/09/2008]



a linha da mão e a mão que nos embala


Nas palmas das minhas mãos cruzam-se linhas de tudo: a linha da vida, a linha do coração, etc. Cada uma dessas linhas conta uma história: que a vida acabará abruptamente; que o amor chega tarde, tanto tarda a intersecção da linha do coração com a linha da vida; que um pequeno acidente está previsto pela pequena gelha que se esforça para ser vista quase a desaguar na linha do coração.
Ninguém me tinha falado na linha da mão propriamente dita, mas duas médicas juntaram-se para me garantir que a vida das minhas mãos, tal como a conheço, está em risco e que eu devo confiar menos em mim e nas minhas mãos e mais num cirurgião. Fiquei preocupado com as minhas mãos incapazes de prever o seu próprio colapso aos 60 anos de vida, logo elas! que mostram (a quem quiser ver) a cartografia da vida, do amor, da riqueza, da saúde, …. até ao detalhe mais absurdo.

Há quem chame mão invisível ao capital financeiro e lhe atribua o papel de mola real da vida. Nem sempre foi assim, mas, hoje, não há culpados entre os jogadores da alta finança (que pouco arriscam de seu e tudo arriscam das poupanças de todos os outros). Os poderosos deste mundo enriquecem sabendo que muito do dinheiro em movimento não incorpora qualquer trabalho produtivo e transformador e cresce sem correspondente em trocas de mercadorias e bens que aumentam de valor à medida que vão integrando matéria e força de trabalho transformadora. Especulam e atribuem, em bolsa, valores ao movimento real ou inventado, fazendo da especulação uma mercadoria. Neste mercado, a um dado momento já só se transacciona o que não é. O inexistente toma valores independentes da realidade e da imaginação criadora, é especulação sobre a especulação.

Cada geração de especuladores toma os Estados como fontes de financiamento ou retardadores da explosão das insttituições e lojas do mercado de capitais, enriquecendo um pouco mais, enquanto milhões de trabalhadores, cujas mãos não guardaram lugar para a especulação de outros, sofrem o impacto da explosão.

Nestes jogos, os que sofrem não conhecem os carrascos. Estes já começaram a soprar para a próxima bomba bolsista – nos salvados da explosão de hoje, compram barato os activos da próxima.

Sobre as linhas das minhas mãos, que nada me dizem, gosto de especular sobre as linhas da mão invisível. Se desenharmos as linhas, passamos a ver a mão? Que faremos depois?

[o aveiro; 2/9/2008]



o ouvido do ovo


Foge. Se correres na direcção certa ainda vais a tempo de fugir da chuva que aí vem. Qual é a direcção certa? – perguntei eu. A da chuva – disse a chuva. Queres é molhar-me! pensei eu. E fiquei calado. A chuva percebeu o que eu estava a pensar e disse: Para não te molhares deves também correr no mesmo sentido que eu.
Para não te encontrar devo correr na tua direcção e no teu sentido?
Pois, está bem, está!

Nos últimos dias perguntaram-me opinião sobre vários assuntos. Refiro dois:

Uma vez sobre o orçamento de estado. Para onde deve ir o dinheiro? Na mesma direcção e no mesmo sentido que a educação prossegue? Na direcção da cultura e no sentido da ciência, para que os homens sejam tratados pelo nome e não pelo número. Mas se eu caminhar na direcção favorável à cultura e em sentido favorável à ciência não vou a fugir da educação? Vais, claro que vais! Foges da má educação.

Outra sobre a fraca matemática dos estudantes de engenharia. Não é de cultura científica que falam, mas antes da fraca preparação dos estudantes de engenhara e dos jovens engenheiros. O engraçado é que atribuem esse defeito ao ensino secundário. Esquecem-se que a formação secundária é forçosamente tão diversa quantos os desejos de futuro e que às portas de engenharia nada há que impeça a entrada de estudantes com fraca formação matemática. Ao contrário, há convites a todos quantos queiram entrar enquanto forem precisos, mesmo mal formados, para ocupar a instalação. Os melhores alunos de matemática podem não querer frequentar os cursos que mais precisam de matemática, podem não querer frequentar engenharia e até pode acontecer que uma parte dos alunos de engenharia nem tenha pensado nela a não ser como mal menor. O que quer dizer que o sistema de escolhas da universidade não tem quaisquer critérios de qualidade e nem os jovens cuidam de segurar as suas primeiras preferências.

No que ao acesso do ensino superior respeita, tiradas as honradas e numerosas excepções, ficamos com a ideia de que os jovens ao correrem pelo acesso ao ensino superior correm na mesma direcção e no mesmo sentido em que corre a educação científica e é, por isso, natural que não haja encontro entre os jovens, a educação e a cultura científicas.

O ensino secundário só é culpado na medida em que é deste mundo. Como tudo.

[o aveiro; 9/10/2008]



os caminhos estreitos


Nestes últimos tempos, andámos muito ocupados a tratar dos temas que têm de se passear por veredas e caminhos estreitos, como é o caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esta discussão mostrou como em 10 anos mudou o discurso social e cultural relativamente às orientações sexuais e também que não mudaram as cautelas das galinhas gordas que ocupam os poleiros do poder, da oportunidade, o oportunismo de quem não encara direitos se estes estiverem fora da sua agenda cor de rosa.

Os caminhos estreitos que percorri um dia destes levavam-me até uma escola do 1º ciclo. Manhã cedo, os pais e as mães sobem pelo carreiro com as crianças pela mão até ao grande portão fechado. E ali ficam numa esquina inóspita até que alguém abre o portão por onde entram as crianças para a escola. Dei por mim a pensar como vai ser num dia de frio e chuva. Não há forma de escapar à chuva fria para os que sobem a ladeira até àquele portão.

Pela tarde, voltei à escola para uma reunião. Depois de muito tocar campaínhas, lá consegui entrar por uma porta estreita depois de a adivinhar. Lá entrar, entrei. Mas à medida que outras pessoas iam chegando para a reunião descobri que se não tinha sido fácil entrar, o difícil agora era sair já que não podia abrir a porta para os que queriam entrar.

Enquanto esperava, bem tentei encontrar um abrigo ou um simples banco onde um pai ou uma mãe pudesse sossegar na espera das crianças. Nem com a ajuda da imaginação consegui o banco e o abrigo. Não podia imaginar-me sentado naquelas escadas em dia húmido de chuva. E posso garantir que o mais fácil para qualquer responsável é reconhecer que não há o mínimo conforto naquelas salas para o trabalho produtivo de professores e estudo das crianças.

Dei por mim a pensar que muitas escolas são assim e que muitas há com muito menos condições que esta. De certo modo, não há lugar para pais e mães a não ser na compreensão humana dos professores que os recebem e, de certo modo, não há lugar para as crianças que precisam de respeitar regras de trabalho e de trabalhar. Nem há lugar para as crianças que precisam de brincar.

Não há forma de escapar a esta sensação de chuva fria nos ossos despejada dos beirais do desprezo pelas crianças. O desprezo faz da vida um caminho estreito.

[o aveiro.16/10/2008]



o medo que se recomenda



Distraído, o homem segue a rua que o guia para o trabalho. Por momentos, vai esquecido dos problemas da manhã e vai entrando pela calma da tarde. Depois de atravessar a passadeira, ouve um carro que pára a falar consigo. Distraído, aproxima-se. O carro fala pelos cotovelos como se o conhecesse há muito tempo, contando uma história qualquer. O homem distraído vai ouvindo o conto do vigário como se não fizesse parte do que está a acontecer. De certo modo, o homem deixa que o conto se conte para que tudo seja rápido ou passe a passado rapidamente. Mas o carro segue-o e já está atravessado no cruzamento de duas ruas criando uma fila de carros que apitam. Para o carro que fala com o homem não há pressas nem cuidado com os carros que apitam. Só então o homem acorda da sua distracção e pede ao carro que fala que deixe o cruzamento. Para isso, presta-se a ouvir a história do carro com alguma atenção. A preocupação do homem que anda a pé com os carros que apitam é a sua desgraça. O carro que fala começa a fazer convites cerimoniosos para isto e para aquilo e oferece coisas que de facto quer vender e, sempre incomodando o homem e os carros que querem passar, conta o conto do vigário. O homem distraído acaba por ceder e dar algum dinheiro para se libertar do assédio desconfortável do carro. O carro pede mais dinheiro e quando o homem já desperto acelera uma marcha de despedida, o carro que fala começa a gritar: “senhor doutor não me faça isso!” criando em quem passa a ideia que o homem roubado é mal educado por desprezar o carro que fala e o rouba.
O homem que caminha conta a história como se tivesse sido pressionado e roubado por um carro: Porque não quer acreditar que tenha sido pessoa a torturar a sua entrada na tarde, até fazer da sua distracção calma uma irritação assassina a que o caminhante não quer dar guarida no seu coração.
Depois do trabalho, o homem vai para casa. Da caixa do correio, retira as cartas e o papelixo do costume. Ao abrir as cartas, percebe que uma delas é a oferta de um cartão bancário que nunca pediu e não quer. Já recusou aquele cartão várias vezes. De cada vez, tentaram convencê-lo que tinha de fazer isto e mais aquilo para desfazer o que não tinha feito. A irritação assassina volta. Contra quem o rouba insistindo em ofertas que ele não quer.
Começa a ter medo de si mesmo. Desesperado, aos torturadores mascarados de amigos, o homem calmo recomenda medo equivalente.

[o aveiro; 23/10/2008]



pássaros verdes?

Por muito que nos custe admitir, somos pássaros verdes.

Eles dizem-nos que houve desregulação, ganância desmedida, especulação criminosa, irresponsabilidade, etc e ao mesmo tempo dizem-nos que é preciso apoiar o sistema financeiro, criar fundos de garantia do estado para as poupanças dos aforradores e os depósitos dos clientes dos bancos. Como se nós pudéssemos admitir que, sem haver ladrão, as poupanças das pessoas mudem de mãos ou ganhem asas e voem. Como se nós não soubéssemos como foi difícil aplicar taxas ao grande capital financeiro e nos tivéssemos esquecido dos lucros astronómicos de bancos e sociedades financeiras ou do pede e despede gestores bancários que se tornam filantropos ao lavarem o dinheiro sujo ou saem de cena mudando de cenário. Como se nós não tivéssemos sido atropelados por banqueiros bons pais de família a ajudar à missa e a obras de divina inspiração.
Para além de admitirmos a evaporação das poupanças e das pensões como factos normais nestes tempos de crise e de centenas de milhares de desempregados, recebemos ordem para pagar o imposto que garanta aos banqueiros e financeiros o regresso ao casino de sempre com o dinheiro de sempre que é o dinheiro dos outros, esses que deram algum equivalente produtivo pelo dinheiro que guardam nos bancos da roleta russa.
Na sociedade do espectáculo, habituámo-nos ao ar respeitável de administradores de fantasias acima de toda a suspeita, administradoras de viagens pelo universo todo em representação de bairros sociais em jogos de sociedade, de culpados sem culpa formada, de colarinhos criminosos mais apontados a medo que a dedo. E não estranhamos que haja regulação sem reguladores, desregulação sem desreguladores, especulação sem especuladores, ganância sem gananciosos, irresponsabilidade sem irresponsáveis. E não nos podemos espantar que os reguladores continuem sem regular, os especuladores criminosos continuem a especular, os governadores continuem a governar-se e os administradores continuem a ministrar pouca honra e pouca vergonha.

Se não somos pássaros verdes, somos o quê? Vítimas da Dona B(r)anca. Palermas?

[o aveiro;30/10/2008]



A cauda da causa


Por estes dias, não há notícia que não fale do pavão.

O passarão adorava passear-se e pavonear a poderosa cor do seu papo. Sabemos como ele lamenta que as convenções não lhe permitam que exiba a sua magnífica cauda quando ele a abre no máximo esplendor de cauda de pavão. Para as visitas, apresenta-se o ministro com cauda tão brilhante como um piano de cauda.

Mas hoje, as notícias não dão margem a dúvidas e é do domínio público que os negócios do pavão ou são escuros ou são sujos. Alguns passarões ainda passam pelo desfile de vaidades, com a cauda de boca fechada.

O pavão de hoje está discreto, mais do que é seu costume. Não tem comentários a fazer, espera para ver que nada do que parece é. Quando chega a tarde, já a cauda o incomoda, uma manhã inteira trilhada no trânsito dos acontecimentos. Também lhe dói a inacção do papo. As televisões fazem-lhe perguntas sobre o tempo que faz nos paraísos fiscais, sobre o dinheiro que desapareceu, sobre a cauda da causa. Não responde a perguntas quem está habituado a falar por cima de toda a suspeita e até acima dos partidos que fizeram dele o rico ex-governante. Ele só responde a pedidos.

Vai para casa. A mulher vem recebê-lo com o costume do beijo. Pergunta como lhe correu o dia a ele e a todos os seus amigos que ela conhece ou de ouvir falar ou das filas de cumprimentos das tomadas de posse e poder de ministros e secretários. Ela gosta sempre de saber da saúde de cada um deles. Ele diz que estão todos bem, na esperança que ela volte para a fantasia da vida.

Mas sabe que ela vai ouvir notícias e fica à espera. Quando ela aparece a perguntar-lhe se é verdade, ele responde: É. Que tudo está a correr mal e que estão arruinados, ele responde: É claro, mulher, que estão arruinados. Quem? – insiste ela. Nós? Que ideia, mulher! Arruinados estão os do costume. Quem? insiste ela. O estado, os contribuintes, os outros. E a nós? Não acontece nada? Mulher! No paraíso, o que queres tu que aconteça? E podemos voltar à terra? Talvez volte mais tarde, se for bom para os negócios. Como salvador.

[o aveiro; 06/11/2008]



a longa marcha


Criança católica, ainda a cabeça era jovem deu-lhe para pensar de outro modo e abandonei a fé que guiava milhões de pessoas e toda a minha família. Estudante reneguei as tradições académicas da maioria dos meus colegas. Num país fascista e colonial, a cabeça pôs-me contra a guerra e contra o regime. Festejei a democracia e, ainda a festa não tinha bem começado, escolhi as ideias das minorias de esquerda, culpado de nem ser de direita nem participar das unidades festivas da esquerda. As ideias dominantes e lucrativas não me seduziram. Participei em manifestações quase solitárias pelos meus direitos e pelos direitos de homens e mulheres no mundo. Nas batalhas políticas, a minha cabeça não votou em qualquer dos partido do poder democrático. Ao contrário de milhões de pessoas, meus compatriotas e colegas respeitáveis, não votei nem no PS nem no PSD, não votei em Cavaco, Durão, Guterres ou Sócrates. Saí e entrei em pequenos partidos e sindicatos ao arrepio das maiorias. Também profissionalmente assim me construí. Defendi que deviam ser cumpridos programas, mesmo quando isso parecia impossível, e ao arrepio das maiorias combati e defendi ideias para programas e exames. Defendi mudanças de arrepiar para as escolas. Defendi aulas de 90 minutos ou o fim das desocupações dos alunos nas escolas quando havia manifestações de estudantes e professores contra essas mudanças. Ao arrepio das maiorias, defendi professores e estudantes antes e depois do 25 de Abril. Ao arrepio de maiorias, colaborei em grupos de trabalho, conselhos e comissões várias para fazer das minhas ideias alguma acção, sabendo que o país era e é governado por partidos que nunca contaram e não contam com os meus votos. Dando muito valor às minhas ideias, não desprezo as ideias dos outros e presto muita atenção às acções dos outros. Pela minha cabeça, condeno sem rebuços o que me parece condenável. Nunca me passou pela cabeça condenar os outros pelas seus pensamentos, quando estes não ofendem direitos fundamentais, nem pelas suas acções quando legítimas ainda que contrárias ao que penso ser certo. E não sendo tolerante, sei-me limitado e sei o mais simples de tudo: há ideias diferentes que convencem mais gente que as minhas. Todos os santos dias da minha vida foi assim. É assim hoje e continuo assim eu. Até ao fim da vida? Talvez seja afinal a velha honra que me guia a cabeça. Talvez seja assim para ser professor. A liberdade passa por aqui. A democracia também.

[o aveiro; 13/11/2007]



do desalento e do desabafo


Os primeiros dias desta semana deixaram-me na memória impressões de acidentes brutais, da estranha e meio encapotada violência dos membros de claque e notícias de variadas reuniões sobre avaliação de professores, marcações de protestos e greves, …
Devo confessar que admiro a resistência das pessoas que vão de uma reunião para outra, ouvindo opiniões e falando sobre saídas e soluções. Claro que são igualmente admiráveis todos os que, de reunião em reunião, sem dar mostras de cansaço, se exaltam em bloqueios às saídas para as mesmas situações. Fico cansado só de imaginar essas vidas, enquanto vagueio pelas reuniões que me cabem em sorte. Mais cansado ainda me sinto quando tenho de viajar entre Aveiro e Lisboa para olhar reuniões. Começo a sentir-me um estranho nas participações por dever de ofício. De certo modo, é como se não estivesse nos lugares onde estou e não fosse eu a falar quando falo ou não fosse eu que estivesse a ouvir. Muitas vezes, penso que não sou eu quem pensa da forma que penso e, … quem me dera estar noutro lugar e noutro tempo.

Mais estranho ainda me sinto em algumas sessões sobre Matemática e ensino de Matemática. Há conferências em que todos quantos se debruçam sobre o ensino não superior raramente caem nele; personalidades e professores do ensino superior olham-nos como se olhassem para baixo, de um varandim. Muitas intervenções cheiram a já visto; outras cheiram a piada interessante; algumas opiniões são a alta voz do senso comum ou da falta de senso que são coisas de boa e má educação. Sinto-me sempre um pouco insecto preso no fio de ouro dos discursos simultaneamente projectados e lidos. Claro que, em cada sessão, há sempre quem nos ensine e nos lembre alguma coisa.

Sinto-me tão enfadado como tentado a promover uma conferência sobre o ensino superior em que os oradores sejam todos professores do ensino não superior. À semelhança de conferências a que assisti, os conferencistas não teriam mais que dar um exemplo ou outro de algum erro grosseiro ou aspecto mais ridículo de aulas de professores do ensino superior (que, sendo difícil tarefa, não é missão impossível).

Em acto de contrição, a comissão organizadora da conferência sobre as questões e soluções para o ensino superior de matemática assumiria a responsabilidade pela parte da formação dos professores do ensino superior que coube a professores do ensino não superior. Só para marcar uma diferença.

Ninguém tem culpa da incompreensão que me ataca. Sopro para este saco de papel e suspendo a respiração. Até voltar à vida de sempre.

[o aveiro; 20/11/2008]



o homem sem qualidades


Há muitos anos atrás, estava eu a morar e a trabalhar em Cabo Verde, uma professora leu a sina que está escrita na palma da minha mão. Não hesitou muito em comunicar-me a crua verdade da minha vida: em tudo eu era uma pessoa banal e muito desinteressante. Era assim como professor e assim era no amor, como pai, filho, irmão e… seria o mais que provável avô banal. Aceitei muito bem essa maldição. De certo modo, preferia assim e esforcei-me por aperfeiçoar a minha banalidade. Para mim, isso significava ir fazendo o que é preciso e o que me pedem, momento a momento. Dentro do que eu entendia por banalidade, precisava de procurar fazer o melhor possível o pouco e o muito que fizesse. Este ideal de banalidade foi-me colocando nos acontecimentos, mas sempre em segunda fila. Não disputava poderes, abandonava as batalhas mesmo que as pudesse vencer, não me deixava envolver como funcionário de causas para não julgar quem não fosse da causa, não cobiçava a vida alheia, etc: seguia religiosamente os 10 mandamentos da banalidade. Nunca pensei é que alguém um dia viesse somar as pequenas parcelas da minha vida banal e à soma atribuísse sumas virtudes, mesmo que banais.
Como é que um homem banal que passa a vida a esconder-se na banalidade pode tornar-se sombra para alguém? Como um amontoado de banalidades, claro. Sem querer passei a ser visto tal qual sou, um monte de banalidades. Só que agora há quem pense acusar-me da banalidade que eu, qual banal laborioso, construí cuidadosamente.

Tenho de confessar que sou assim, mesmo bom a fazer e a dizer banalidades. Nunca fui secretário de partido ou sindicato e também não sou contra partidos ou sindicatos, nem renego os meus votos neste ou naquele partido. Não sou banqueiro nem joguei na bolsa de valores sem valores. Custa-me a aceitar as mudanças de paleio sobre as virtudes do mercado de valores sem valores e custa-me a compreender como é que os defensores da privatização a todo o vapor se tornam defensores da nacionalização do capital em risco ou de risco. Banalidades de um esquerdista banal.
E sou banal em toda largura do olhar: se a minha profissão precisa de balizas para se dignificar perante a sociedade, digo-o, mesmo quando me confundem com o governo dos meus colegas não banais; se o ministro das finanças do meu país não está disposto a dar aval nem apoio ao banco de um qualquer bem sucedido gestor de fortunas, eu saúdo-o nesse gesto. Coisas banais. Nada há aqui que clame atenção. A minha experiência de banalidades diz-me que as coisas banais só se explicam de forma banal.

[o aveiro; 27/11/2008]



Porta estreita é o presente. E a saída faz-se pela porta de entrada


1.
O governo do presente português é baseado numa maioria absoluta de deputados no parlamento. Os governos de maioria absoluta têm tendência a menosprezar as opiniões (ainda que de grandes massas de eleitores) quando a opinião pública se mostra favorável à acção quase simultânea à decisão da produção do evento substituto da acção.
Por ser público o sistema das escolas e dependentes da administração pública os agentes educativos (em maioria) tudo o que se diz sobre educação e organização educacional assume grande importância no conjunto da sociedade. Mais importância assume o que se faz.

2.
Parte importante das acções do governo do presente influenciaram e alteraram o sistema educativo, afectando tanto a organização central como as escolas e os professores. Se os planos tecnológicos afectam professores e escolas, mais ainda os afecta a política para a formação e certificação escolar de adultos na base da experiência de vida, ou da generalização do ensino profissional a todas as escolas públicas. Obrigou à criação de uma agência de qualificação central e centros de novas oportunidades, alterando em muito a natureza de organizações já existentes, as prestações profissionais dos professores e, ao lado deles, a emergência de novos profissionais que já não se confundem com os professores. Nas escolas, os professores sentiram as transformações quando receberam novos serviços, alguns deles prestados fora de muros. E sentiram-nas nos centros de formação, reorganizados por concentração para novas funções e novos utentes a perder de vista a identidade com que tinham nascido. Sem falarmos do outro aspecto da concentração, iniciada antes, das escolas em agrupamentos, temperada por autonomia e transferências de poder para as autarquias.

3.
Por cada uma das muitas medidas, com carácter de urgência, dirigida ao conjunto dos professores ou a parcelas significativas de professores, o governo definiu necessidades de formação gerais e, dado o carácter de urgência, assumiu a concepção e planificação das iniciativas que entendeu por necessárias ou que foram reclamadas pelos grupos de professores afectados por cada uma das medidas. Para muitas delas, assumiu mesmo a promoção das iniciativas. E tantas elas foram que as fontes de financiamento ficaram secas depois de o governo ter ido matar a sua sede ao bebedouro geral.

Não me passa pela cabeça pôr em causa a legitimidade da administração central para promover algumas iniciativas de formação que considere imprescindíveis para executar mudanças curriculares, mudanças no sistema de administração escolar ou avaliação de professores, para só falar de algumas das políticas do presente.
Mas a actual concentração foi muito além do que é aceitável em democracia. Se é condenável ter secado as fontes de financiamento, a preocupação maior está na mobilização geral pelo governo de todas as actividades e todos os activos do conjunto do sistema. Grave em democracia é que o governo tenha subtraído à sociedade os meios (recursos e forças humanas) para as iniciativas independentes, criando a ideia de um deserto para a acção fora da esfera estreita do governo.
Uma boa parte das instituições criadas para a diversidade foram manietadas para obter efeitos que o governo prosseguia com cada medida. Organizações do ensino superior e não superior, associações de professores e seus activistas ficaram presos a urdir a teia do poder. Esta situação esclareceu-nos que as principais forças para mudanças e adaptações (curriculares ou outras) estão nas associações profissionais e espalhadas pelas escolas do território. E mostra-nos, à evidência, como uma direcção de governo, capaz de usar a seu favor a iniciativa externa, pode criar condições de organização para a esgotar em seu exclusivo benefício.

4.
As escolas e as suas associações, os professores e as suas associações precisam de reganhar a iniciativa na acção e formação independentes e marcar pela diversidade de exercícios de docência reflexiva a sua identidade profissional. No lugar e no papel dos professores. Nem mais. Não menos.

[a página da educação; dezembro de 2008]



tempo de cólera


Esta crónica apanha-me na cólera da greve. A greve, convocada pelos sindicatos de professores, é uma arma contra as políticas de educação do governo. Devo confessar que me sinto pouco convocado pelos sindicatos dos professores e, menos ainda pelos pelos seus dirigentes. Aos estudantes que trabalham comigo expliquei pacientemente o que significa a greve dos professores, que, sendo cheia de riscos, ela é a mais poderosa das greves, levantando graves problemas de segurança, afectando a vida de crianças e de jovens e criando uma falha geral de sistemas de apoio às famílias. Estas greves exigem uma ponderação muito séria da parte de quem as convoca e mais ainda dos governos que devem tomar medidas para enfrentar a situação de emergência criada pela sua realização. Se realizada com êxito, uma greve de professores é uma arma poderosa e rica de consequências, podendo tornar-se entrave sério ao curso da acção dos governos ou mesmo a tornar clara a necessidade da sua substituição.
A manter-se fechada no espartilho das suas reivindicações próprias, uma greve de professores pode sempre atrair a desaprovação social pelas dificuldades que coloca às famílias. E levantar reprovação do todo social face ao sistema público de educação e ensino e à administração pública, para além das legítimas reclamações para alternativas aos sistemas de apoio.

Mas uma greve de um sector pode tornar-se numa manifestação de cólera geral, colectiva, quase esquecendo as suas motivações iniciais. E é isto que está a acontecer com esta greve de professores. O desconforto geral que ela podia ter criado está em segundo plano. Em primeiro plano, está a irritação face a um governo que se mostra autista e incapaz de mostrar verdadeira compaixão para os pobres e desempregados de hoje realmente existentes, ao mesmo tempo que demonstra pressa e preocupação com banqueiros e gestores milionários que, tendo apodrecido em montureiras de lucros especulativos, reclamam do estado que aumente as suas fortunas, salvando as suas instituições, fundações e sociedades. Se, na semana passada, vim aplaudir a posição do ministro que argumentava contra qualquer plano de salvação para os gestores de fortunas, esta semana venho escrever que Sócrates me convocou para a minha greve dos professores contra a política do governo, que, entre outras coisas, destrói a autonomia e independência da banca pública, aprovando (não é o mesmo que mandando?) que se salve o banco privado de que é principal accionista o gestor de fortunas de sempre.

[o aveiro; 5/12/2008]



Como chamar ninguém pelo nome?


Vivemos num estado de direito e sabemos quem faz as leis, quem as fiscaliza nas suas aplicações e consequências, quem as promulga. Ninguém mais que os professores deve saber isso, saber dos passos, dar os passos. E dar lição e testemunho disso.

Cada professor vota e deve conhecer os deputados que elege, conhece os ministros e secretários de estado que assinam leis, os deputados que as podem aprovar ou reprovar. Pelo nome, conhecem quem assina as propostas de lei, quem as promulga, as chama a si e as verifica, recomenda alterações e as pode vetar. O sistema é ainda mais transparente para os dirigentes dos professores, ligados à política activa, a partidos e sindicatos.

Ninguém mais que os professores está habituado a reclamar contra alterações de decretos por despachos. Estas alterações de circunstância que aparecem como esclarecimentos, adequações ou similares parecem trapalhadas umas vezes e trapaças outras vezes. Os professores falam da necessidade do cumprimento da lei e reclamam o direito de cidadania de lutar contra as leis para influenciar as instâncias próprias para a sua alteração ou negação. Os educadores sabem onde estão as sedes do estado de direito e sabem quem representa os seus interesses nestes jogos de poder em que a diversidade da opinião é fundamental. E sabem que essa diversidade de opinião, espelhada na assembleia, garante o sim e o não, o mais e o menos, o equilíbrio feito de pequenos nadas ou gestos do deputado que vota, quando volta da terra do nunca.

Como são professores os ministros, secretários, assessores, directores, subdirectores e funcionários da administração central, regional e local, também os professores podem ser deputados e os deputados professores. Muitos deles representam nada nem ninguém quase todo o tempo e a sua inexistência é má educação, deficiência profunda e ferida.

Os professores sabem que os seus deputados conhecem a agenda da assembleia e podem decidir faltar aos trabalhos parlamentares no dia em que podem mudar o curso da lei – sobre a avaliação de professores, por exemplo.

Mas só vagamente se fala dos deputados que faltam quando são precisos, porque todos sabemos que não sabemos se alguns deles alguma vez foram precisos. Porquê? Porque são nomes… de ninguém.

[o aveiro; 12/12/2008]



O que fazemos aqui?


Na actividade politica e social, cada um dos actores ou agentes na vida pública ganha notoriedade ou visibilidade nacional, regional ou localmente. Grande parte dessa notoriedade é regulada pelos meios de comunicação social, em especial, pela televisão. De certo modo, sempre que alguém se candidata a este ou aquele lugar ou cargo público conta com isso e com a respectiva responsabilidade pública. Quanto mais perto estamos de quem nos elegeu, mais conhecidos e importantes, mais responsabilizados por cada problema local no dia a dia. Mesmo que não reunamos as condições para ultrapassar as dificuldades, sabemos que os nossos vizinhos nos responsabilizam como intermediários entre eles e o poder.

Em cada freguesia, o presidente da junta é conhecido e responsabilizado pelos seus fregueses. Em cada município, o presidente da câmara é conhecido e responsabilizado pelos munícipes. Assim deve ser e é, por isso, que cada pessoa se candidata a cargos públicos locais e é essa ligação de serviço, também afectiva, que dá sentido à representação almejada e conquistada pelos candidatos. Claro que cada um dos eleitos espera o reconhecimento, não só dos seus eleitores, mas de todos os eleitores e de cada um dos membros da comunidade.

Em democracia representativa, é preocupante descobrirmos que, a nível local, os eleitos nem são conhecidos e reconhecidos localmente. A preocupação aumenta à medida da ignorância da comunidade local (e na razão inversa da sua dimensão) sobre quem são os seus representantes, como foram eleitos e por quem, quais são as suas competências e junto de que organizações assume importância a sua representação.

Após dezenas de anos de eleições democráticas para o poder local, ficamos preocupados com o desinteresse dos eleitores e mais ainda com o desconhecimento dos jovens que estão em vias de tornar-se responsáveis, eleitores e elegíveis. Alguma coisa não está certa quando descobrimos que nenhum dos nosso alunos de matemática aplicada às ciências sociais conhece, pelo nome os representantes locais, as sedes das juntas, … Pior ainda ficamos quando descobrimos que, em suas demandas às sedes do poder local, os jovens não retiram qualquer conforto e aproximação ao poder local e devolvem a ideia de dificuldade em obter informações e dados sobre os actos eleitorais e seus actores, sobre os cadernos eleitorais e eleitores.

A vida nos dirá das consequências deste afastamento dos jovens dos órgãos locais. Estamos a falar de jovens escolarizados que escolheram estudar matemática aplicada às ciências sociais, apoio à decisão – teoria das eleições e da partilha, entre outros assuntos sociais.

Temos de fazer pela vida. Cada pessoa sabe que, pela sua acção, pode mudar a vida, a sua e a dos outros. Para o melhor e para o pior. Para melhor! É o que queremos e não nos cansamos de repetir.

[o aveiro; 19/12/2008]