2007


missa cantada


Hoje levantei-me cedo como em todos os outros dias.

Gosto de ver aparecer a aurora quando ela quer aparecer e não só quando a minha imaginação a convoca por precisar dela. A claridade rósea que antecede e anuncia o nascer do sol dá-me a luz que me levanta e anuncia-me a luz que me guia os passos até ao dia claro.

E lembra-me alvoradas estremunhadas, o pé adolescente a explorar a nesga fria aberta entre a enxerga e a coberta pelo clarim da minha mãe, a hesitação da cara a aproximar-se do espelho do tanque de água para onde as enérgicas camponesas da minha vida lançavam em golfadas a água puxada do mais íntimo do poço.

Em cada dia, repito o arrepio estremunhado de quem acorda como quem nasce para sobreviver. Em cada dia da semana, domingo incluído, ouço os mesmos ruídos para me refazer até ao dia em que vivo. Como se eu fosse uma memória que se refaz infatigavelmente, um novo dia que é novo porque é feito de todos os dias que o antecederam. Se não ouvia a requinta da boca da minha mãe ou de alguém por ela, já ouvia o sino quebrado sobrepondo-se à neblina espessada na tentação do silêncio. Chamando o povo para a missa da alva, chamando-me para os braços da aurora, reclamando o furor da gente da terra até tudo se desfazer no falsete da alegria que é prova de vida da aldeia e vingança do tempo sobre o dia de ontem.

Algumas raparigas apressavam-se e, ainda antes da missa, já se confessavam das noites mal dormidas. Logo depois, mal refeitas da penitência e das juras de não repetir pecados confessados, mas agradecidas pela absolvição dada a todo o bem que lhes soubera, langorosas piscavam os olhos ao dia claro, aos namorados, aos amantes, ao desejo. Para que a vida se repetisse e dela sobrasse sinal de vida. Desta corrida dos dias, destas alvas estremunhadas, muitas memórias são esbatidas fotografias antigas, adivinhações, o que não se fala e o que se cala, o que se desmancha, o que é sem ser, o que foi confessado e absolvido para não mais ser visto nem achado e até o que foi morto e enterrado como uma pena ou um anjo antes de ser a alma. Se nos distraíssemos, ecoava na nave desses dias passados o sermão que contava a história inteira na voz do padre a encenar cobrança do perdão.

Fui mais poupado aos sermões da aldeia que aos sermões da televisão de hoje. Ainda ontem nem sabia que existiam e hoje há claustros de igreja que são notícia e alerta geral ao que dizem pelo que dizem sobre o aborto. E nem uma palavra sobre a absolvição, a misericórdia divina ou a misericórdia do estado!

Hoje levantei-me para mudar de país ou foi sempre assim?

[o aveiro; 11/01/2007]



a arte da bicha


Muitas pessoas da minha geração acreditam piamente que aprenderam tudo o que era realmente importante e lamentam profundamente que os jovens desprezem a possibilidade de aprender esse essencial. Chegam a desprezar os novos saberes e competências que se tornaram necessárias por via do desenvolvimento científico e tecnológico, literário ou artístico. O estado moderno, em contra-corrente, não pode deixar de, apesar disso, introduzir os temas que são vitais ao futuro da comunidade embora a ignorância popular tenda a recusá-los. O estado paga este serviço e obriga até as escolas privadas a ensinar esses temas. A minha geração ensina e promove a leitura, a audição e a visualização de filmes e peças teatrais ou obras literárias, musicais, pictóricas e escultóricas que não tinham sentido há 50 anos.

Verdade seja dita que a minha geração está na idade do poder, político, económico e cultural, nos governos regionais e locais, nos jornais, nas instituições todas. E só muito contrariada tem de acalmar o seu desfavor contra o que não conhece e nem pode adivinhar. Alguém esqueceu que teve de lutar pela música eléctrica, pela poesia que não rimava ou pela literatura de Almada a negar Dantas, pela arte de Amadeo, pela liberdade de ir ou não ir para as bichas.

O acontecimento cultural das bichas para a exposição de Amadeo Souza-Cardoso serviu a um editorialista para reclamar contra apoios e subsídios aos agentes culturais que não conseguem merecer a companhia de uma bicha de povo. Diz ele que estas bichas são a prova de que não é preciso criar públicos e que o “nosso problema é responder a solicitações dos públicos que existem e que só não aparecem porque muito do que lhes é oferecido pura e simplesmente não tem qualidade”(?).

Eu não sei adivinhar o futuro de uma coisa ou de outra, mas acho que o ensino e a criação artística são bons usos para os impostos. E sei que uma bicha ou uma procissão de consagração do que está estabelecido não é a estrada real para o futuro. Amadeo não se faz fundamental para a cultura por ser motivo desta bicha gulbenkiana. Amadeo é fundamental por ter continuado persistente a fazer caminho depois de ter sobrevivido às agressões dos ofendidos visitantes da sua primeira exposição de há 90 anos. E é fácil imaginar, ameaçador e de bengala em riste contra o Amadeo de então, um editorialista capaz de louvar as bichas culturais do seu tempo.

[o aveiro; 18/01/2007]



21.1.07
planos da fé


1. “A Página da Educação” de Janeiro incluía artigos com vista sobre o “Plano de Acção para a Matemática Básica” da iniciativa do Ministério da Educação. Jaime Carvalho e Silva lembrou um outro plano de acompanhamento da Matemática, morto prematuramente por uma mudança de ministro. No ensino secundário, nenhum plano foi prematuro em seu parto e quase todos têm morte prematura já que raramente resistem a mais que um ministro. Quem se preocupa com estas coisas do ensino, não pode deixar de se preocupar com a doença que ataca tudo quanto mexe. Tudo o que mexe é obra de um governo e, por isso, morre às mãos do ministro que se segue.

Cada novo plano para o ensino nos vem lembrar isto. Tudo o que é nacional é bom para quem colhe louros no jardim do poder. E é por isso que morre, mesmo que seja para ressuscitar sob outro nome mais adiante.

2. O que é verdade é que muitas notícias sobre o ensino da matemática são fabricadas sob tutela centralista, genérica e… fatalista. Escrevemos pouco sobre as iniciativas locais ou talvez nem haja iniciativas locais ou específicas dignas de ser notícia. De certo modo, os governos aparecem como donos da iniciativa e isso tanto dá para a vida como para a morte. Os governos são donos da vida e da morte dos sistemas de ensino. Não porque a maioria dos serviços de educação e do ensino são prestados pelo Estado (por instituições públicas ou privadas sob tutela), mas porque os governos reservaram para si toda a iniciativa. De tal modo e tão concertados agiram, ao longo de décadas, que atrofiaram as autonomias e criaram um sistema globalmente ingovernável e localmente deficiente. Nenhuma autonomia local sobrou da montanha de letra morta que foi crescendo a cada nova lei escrita sobre a autonomia que devia ser tanto mais potente nas palavras quanto mais impotente fosse em actos.

Não podemos deixar de louvar as iniciativas centrais viradas para melhorar o ensino. Mesmo que elas sejam a prova provada da incapacidade local, a falta de capacidade para iniciar o que verdadeiramente conta. As escolas e os professores reagem com vigor a todas as iniciativas centrais porque tudo lhes falta ou porque é preciso agradar em entusiasmo e dar mostras de interesse e optimismo. Neste sistema de passa culpas é fácil condenar cada elo localizado e frágil, porque é um sistema onde ninguém tem desculpa.

3. No território onde vivem os factos, a crença de alguns actores e organizações está virada para avivar o esplendor de alguma ocasião que possa ligar-se ainda que artificialmente com a iniciativa. Outros não deixam de gritar a quem passa o desconforto do desacerto dos prazos desde a candidatura de papel à execução embrulhada na rigidez cadavérica das normas, do desacerto entre a candidatura da instituição de papel, os professores do papel da candidatura e as escolas ou professores que vivem a realidade de cada circunstância sem saber do tempo necessário a verdadeiras mudanças no território. Professores autores? Só actores ou não mais que factores, cobradores de bilhete numa viagem que a todos é recomendada e a poucos aproveita.

É verdade que quem quer fazer as coisas andar, sabe encontrar os meios necessários. E que quem não quer fazer coisa alguma, saberá encontrar as desculpas certas. Ou de outro modo: Não perguntem o que pode o governo fazer; interroguem-se sobre o que pode cada um de vocês fazer pelo vosso país. Também há quem se tenha interrogado e tenha vivido para a experiência de ser tolhido e atropelado por quem pode, louva e trava ao sabor dos ciclos de governação. Quem pode? Os grandes poderes são pequenos, mesquinhos e mal-educados muitas vezes. Os pequenos poderes armaram-se até aos dentes ou até parecerem grandes e mal-educados.

4. Os planos de acção reclamam da acção que os salve. Declarações de fé não produzem resultados em educação republicana. Digo eu… a quem sabe.

[a página da educação; 02/2007]



uma flor de frio


Muitas vezes, ouço-me a dizer “Antes morrer!” reagindo a alguma oferta de apoio ou de ajuda. Isso acontece quando não quero incomodar os outros que teriam de mudar algum momento da sua vida para um apoio imprevisto a mim, o outro, o estranho. Ou acontece porque eu tenho de provar todos os dias que não precisa de ajuda e que se precisasse mais valia morrer? Antes a morte que tal sorte!

Muitas vezes, ouço-me dizer “Porquê?” em resposta a cumprimentos de bom dia ou boa tarde. Não sei porque digo essas coisas que nem sempre são bem entendidas por quem faz e refaz os cumprimentos, tecendo a sua manta de relações. Quando a iniciativa é minha lá vou dizendo “Boa tarde vos dê o Senhor já que eu não tenho competência para tanto” como quem não dá valor a votos embrulhados na circunstância dos cumprimentos. De facto, só me dou ao luxo de desvalorizar os votos que eu mesmo faço. Os votos dos outros preocupam-me porque não quero vir a responsabilizar quem me desejou a boa tarde sem garantias.

Há, de facto, alguma tentativa de sinceridade nas palavras que acrescento às palavras ou em vez das palavras que uma rotina nos cola na boca como quem cola etiqueta. Já me aconteceu queixar-me do sorriso afivelado em empregados desta ou daquela empresa por técnicas grotescas de boas maneiras que aprendemos e importamos como técnicas de venda e como mercadoria. Importamos tiques, sorrisos, expressões e até as formas de andar de manequins, modelos e esqueletos que devem andar como ninguém anda e devem vestir ou despir-se ao arrepio da mudança das estações. Costumo dizer “Não, não me importo!” para acrescentar “Nem me exporto!” no sentido que não sou coisa completamente importada nem é saudável ser exportado. Expulso-me deste mundo que tende a querer tudo igual ou muito parecido para que seja garantida a venda desta ou daquela mercadoria, desta ou daquela ideia, desta ou daquela guerra.

Quem só dá valor à vida depois da morte, fala da vida pelos cotovelos. Virando os altifalantes para o céu, acotovelam todos os deuses de maculada e humana concepção. Cambaleantes modelos sem peso voam pelas catedrais da moda com uma flor de frio presa entre os lábios roxos. Animados pelo voo da voz, mostram penas de gelo a quem passa a caminho da vida tal qual é e vale antes da morte.

[o aveiro;25/01/2007]



a sorte pequena


1. As boas notícias chegaram à câmara da capital. Uma barraca foi montada na capital da capital até ser pública e notória. Provavelmente, o acampamento está lá montado desde há muito e ninguém nos mostrava a fotografia. Finalmente, diários e semanários estão a informar-nos dos pormenores na fotografia do acampamento. Há mesmo indicações sobre quem finge nunca ter aparecido na fotografia.

E tudo se torna tão ridículo até nos tornarmos uma meia nação ridícula. Alguns actores destas corruptelas do filme da corrupção corriqueira nacional puseram-se em bicos de pés para serem arautos de uma nova era livre de toda a corrupção. Alguns actores que são também malabaristas aproveitaram a oportunidade para cavalgar uma oportunidade de poder. Quando é desvendada ou é mostrada à luz do dia, a corrupção transforma-se em circo. Os espectadores começam a seguir as peripécias das cenas que se sucedem vertiginosas na arena do circo até esquecerem o cheiro nauseabundo das traseiras onde se alimentam os felinos – corruptores e corruptos.

Já tínhamos visto algumas cenas do tipo noutras câmaras e vimos como se transforma a claridade em embrulhada.

2. As boas notícias chegam ao parlamento. Um deputado socialista prepara um pacote legislativo contra a corrupção. Os anúncios feitos sobre a produção da coisa, transformam a coisa em finalidade vital para quem propõe… Depois tudo se precipita quando o autor do pacote é convidado para um alto cargo no banco europeu para a recuperação e desenvolvimento. O deputado procura consenso em volta das suas propostas. Sobre o consenso (im)possível sai ao terreiro do parlamento o nosso primeiro e canta o que pensa sobre as propostas do deputado a caminho do cargo europeu. A maneira como o nosso primeiro solta a língua na câmara é considerada muito deselegante, mais ainda por não resistir a adjectivos que um governo não pode colar a quem vai para um cargo onde todos os adjectivos contam.

Porque será que o nosso primeiro pensou que precisava de diminuir quem estava na linha de partida? Porque será que tinha de diminuir tão claramente a bancada que o apoia e ainda mais o inefável chefe da dita?

O deputado parte com a consciência do dever contido. E a protecção dos rabos de palha não é descurada. Mantém-se a reserva. Se a corrupção está em todas as bocas, o combate à corrupção é só bocas, da boca para fora.

[o aveiro; 1/2/2007]



nem bem que não acabe?


Para pior, já basta assim.

Quando estamos apanhados no delírio de uma gripe entusiástica, não nos vêm à memória frases batidas. Nada nos vem à memória. Enrolamos o que nos sobra de dignidade num lençol molhado e soçobramos, deixamos o corpo afundar na solidão do vale de lágrimas choradas por todos os poros. O corpo tudo faz para se afogar. Desses dias de puro desvario febril, não guardo memória de qualquer esforço que tenha feito para voltar a respirar, assobiar ou cantar. Deixava-me ir até à porta. Nem guardo memória de qualquer dor real. Sei onde estive por pura especulação a partir do que antes fora e do local onde me reencontrara depois. A fala e os gestos são mais cuidadosos por medo. A tosse ecoa na cabeça até esta ser uma caixa oca com as paredes a ameaçar ruína a cada novo ataque. A quem vive e trabalha comigo, dou um avanço para que possam fugir com segurança. Não guardo memória de guinada que dê novo sentido à vida. Nada terá acontecido que valha um esforço de memória.

Para melhor, está bem, está bem.

Dou por mim a desejar que uma parte do meu povo tenha querido conversar, para tomar decisões ou fazer escolhas sobre assuntos importantes. Não, não estive alheado dos debates sobre o referendo e nunca tive qualquer dúvida sobre a minha resposta à pergunta do referendo de domingo passado. Mas fiquei espantado com as leituras que se fizeram das palavras da pergunta. Uma parte importante do meu exercício profissional (e de cidadania, também!) depende da arte de perguntar e da vontade de responder a todas as perguntas. A pergunta de domingo precisava e merecia que a reflexão não fugisse dela. E fugiu-se até confundir as pessoas para que respondessem a uma pergunta sobre o segredo (in)confessável. O mais provável é que a última semana tenha sido apanhada em grande medida pela febre. Como eu tinha sido.

Mas não há mal que sempre dure.

Neste referendo, muito mais gente votou. E bem. Espero agora que governo e deputados actuem em conformidade com a boa vontade (expressa) da gente que “concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado”. Pesadas e medidas, só estas palavras faziam a pergunta. Nenhuma mais. Nenhuma menos.

[o aveiro; 15/02/2007]



Tudo e nada nem ninguém


Nem sempre o que acontece no Carnaval pode passar por brincadeira. Ainda que de mau gosto, brincadeira?

Um governante regional fez de bobo em carnavais vários. Com a sua participação nos corsos carnavalescos encarnava o seu verdadeiro papel e mostrava que a razão para ser eleito estava em ser presidente de um carnaval regional, ser o dedo gordo de um país inteiro que exibe a pérola do atlântico presa num anel como se fora uma aliança.

Nada mais apropriado que o carnaval para anúncios de demissão e de eleição do governante regional. Já confundido com um eterno carnaval, o governante regional cacareja agora o seu instante de glória suprema. Sabe ele que o seu poder jorra de várias fontes, sendo que de uma delas jorra a notícia que é o poder unipessoal quem distribui migalhas pela ilha como chuva miudinha de riqueza, recolhida em chapéu alto de palhaço rico, atraída pelo espectáculo ruidoso do gordo bonacheirão em fato brilhante.

O governante está na ilha onde a extrema miséria social partilha um território promíscuo, contíguo ao desaforo de uma exótica vilanagem que não se farta. Fartos de saber de que barro se faz o populismo mais boçal, os tiranetes de carnaval marcaram à dentada arraiais e mesas populares em todos os cantos do território.

Dizem-nos que, em termos relativos, a região do governador de carnaval está entre as regiões de maior produto interno bruto. Neste carnaval, o governante regional contesta ao seu modo carnavalesco a lei da nação que altera a distribuição da riqueza, não mais que um nada do todo. Com a sua demissão, o governante ensaia uma saída, uma tocaia para o glorioso regresso aos ombros da costumeira maioria absoluta. Jogos. Demissão, recandidatura… plebiscito.

O governante do carnaval sabe que pode esperar os votos garantidos sobre o abuso e o uso capião. E sabe que pode contar com o bom partido que o seu partido é. Pode ter acabado com todo o decoro, pode ter assassinado toda a boa-educação, pode ter gritado ofensas aos ouvidos de todos, contra todos e a sua própria família… partidária. Mas ele sabe que o casamento partidário não treme. Casamento?

Nem sempre o que acontece no Carnaval passa por brincadeira. Afinal o todo é feito de tudo e nada nem ninguém. Não é?

[o aveiro; 22/02/2007]



à falta de melhor luz


Já há mais horas de luz foi o que me disseram ontem, quando saía de uma reunião de trabalho. Naquela sala, a luz do sol entrou desaforada para aquecer e para cegar. De tal modo, que algumas crianças que queriam ver-me e ao quadro branco tiveram de procurar um lugar mais para dentro na sombra da casa grande.

Para compensar, segunda e terça, a luz eléctrica foi e veio sem aviso. A tardinha de terça apanhou-me sentado tacteando as teclas da máquina de escrever. Estou convencido que posso escrever sem olhar para o teclado. E chega a ser verdade quando nem penso nisso, embora troque muitas vezes a ordem das letras seguidas se uma vier de um dedo da mão esquerda e outra vier de dedo da mão direita. Mas quando é mais preciso mostrar essa habilidade é que as coisas não correm mesmo nada bem e dou por mim incapaz de escrever correntemente se me falta a luz como está a acontecer enquanto escrevo este texto. Nestes momentos, lamento ter desprezado a possibilidade de comprar um computador com teclas a brilhar contra o escuro. Não, não me chega o branco brilhante da folha branca onde estas letras se alinham.

Sei, por isso, que a minha escola de dactilografia não bastou para escreviver num mundo sem luz . Será que eu passaria imediatamente a ser capaz de escrever se me tornasse incapaz de ver? Quem me dera que nunca o venha a saber!

Aqui ao lado, há quem tire do teclado do piano uma melodia contra a noite escura. Vibrante, ouço um texto ocupar o ar. Há textos que eu gostava de ter escrito para serem música. Não, não são grandes textos os que a melodia sugere. São os textos que só ganham sentido como parte de um bordado de sons.

Nesta escuridão, os meus dedos escrevem sobre a luz de que me falaram e eu senti na ternura da manhã clara, dos sons que se juntam para guiar as mãos capazes de bordar sons quando falta a luz. De certo modo, estou a aproveitar a oportunidade da falta de luz para falar do que simplesmente falta. Para não falar do assalto feito pelos meliantes e comediantes que entram na casa da minha cabeça pela porta da frente, olhos e ouvidos, capazes de todas as ofensas e vandalismos. Talvez a falta de luz me obrigue a descansar até que o sol volte.

Oh! Veio a luz e está na hora do telejornal. Voltemos à vida eléctrica.

[o aveiro; 01/03/2007]



o caso independente


A Independente é um caso. Mais um caso. Quando ouvimos falar os responsáveis e ex-responsáveis daquela Universidade ficamos sem fala. Sem qualquer ponta de vergonha, os amigos de ontem esfrangalham as hipóteses de honra que sempre se presume existir em responsáveis por estabelecimentos de ensino homologados pelo nosso governo. Num combate sem tréguas, travado num terreiro de lama, os frangos velhos dizem quem são quando falam de si mesmos e de cada um dos outros. Mais claros ainda, quando falam de milhões, de dinheiros mal parados ou de origem duvidosa para não dizer tenebrosa, quando dizem eles mesmos o que fizeram por cada um dos outros com o dinheiro de quem não sabemos. Pela boca do escol da universidade independente, ficamos a saber de que escola se trata. Cada um deles é dono daquilo, cada um deles está cheio de papel, de razão, de despachos, de processos em segredo de justiça e sem segredo nenhum, acções entregues e depositadas aqui ou ali em algum vão da escada da justiça portuguesa.

Por uns tempos, a universidade independente fica fechada e, em vez das aulas dos professores, os estudantes assistem a aulas dadas pela televisão, em directo da boca do magnífico reitor ou de algum magnífico qualquer outra coisa. Em directo também, assistimos a uma cerimónia de reabertura das actividades da universidade com as aves raras fardadas de negro com enfeites amarelos nos chapéus magníficos. Quando assim aparecem, ficamos mudos de espanto. Mais espantados ficamos com a nomeação de alguns figurões pescados da imensa lista dos novos figurantes negociados sob a pressão do fragor dos combates dos frangos que se depenaram em público até termos visto as vergonhas que as togas nunca conseguirão esconder.

Cada um dos três melhores deste processo independente disse de cada um dos outros que é gatuno, sem esquecer menções especiais aos membros da família do citado. Esta universidade continua e continuará aberta e como universidade, porque o governo homologou cursos e graus e há jovens envolvidos cujos interesses têm de ser acautelados. Já não é a primeira forma de universidade que sobrevive por via desta chantagem, com prejuízo para todas as instituições de ensino superior.

Será que não há outra maneira de acordar destes pesadelos?

[o aveiro; 8/03/2007]



o passeio que passeia


Antes de mais nada, devo dizer que ando contente com coisa pouca. Como é natural em mim, devo confessar. Há mais de uma dúzia de anos que vim morar para o bairro da cooperativa. À volta da casa, continuaram as pequenas e grandes obras. Antes da minha rua que nem demorou muito a ser feita, viveram-se tempos desesperados para as primeiras ruas do empreendimento cooperativo. Só que uma rua ainda é a rua dos carros e a rua que os meus pés pisam só agora está a surgir completa. Fico contente e vou fingir que esqueço de toda a lama e poeira que nos cercou todos estes anos passados. De facto, tudo foi feito para acolher os automóveis e, por isso, já nem estranho ter ficado rodeado de carros por todos os lados e até ver que eles galgaram das ruas para os passeios dos peões. À porta da escola onde trabalho, as horas de entrada e saída de jovens mostram o atraso da minha cidade: jovens fazem manobras com grandes automóveis para mostrar a máquina às catraias, mães e pais fazem filas de blindados para despejar as crianças e jovens, … Tudo está feito para os carros e, mesmo quando não está, a vontade das máquinas tomou de assalto o espírito dos lugares e ouve-se um ronco de (a)celerado. Mesmo assim, fico contente por ver o passeio da minha rua e ganho nova esperança em ver nascer passeios nas ruas de entrada de Esgueira que os meus pés não encontram hoje, quando lá chegam vindos do outro lado da linha. Contente também fiquei por ter conseguido pisar passeios (ainda em obras em alguns sítios) desde a cidade até ao Parque de Exposições. É bom pisar passeios. Dá-nos algum conforto e segurança. Coisa pouca e fico contente.

Na sexta e sábado passados, discutiram-se tecnologias da informação desde o passado até ao futuro, desde o Portugal até ao Aveiro-Digital. E veio Ministro, para o enceramento. Na segunda, vieram as tecnologias limpas até Aveiro pelas mãos do Presidente. O dia seguinte acordou as PME com um deputado despertador… Os porquês dos temas desfilaram? Quem é quem desafiou o futuro?

Claro que nenhum deles pode perceber o meu sapateado de alegria pelos passeios. Talvez nem saibam da importância do tema dos passeios de Aveiro. Talvez saibam.

[o aveiro; 15/03/2007]



a pontaria dos cegos


Não dei pela passagem do tempo? Ou não dei pelo tempo que passou? Ou foram os acontecimentos que se repetiram em tempos diferentes para parecerem um só num só tempo? Já não são as pessoas que se acotovelam. Não podemos deixar de ver que são os acontecimentos que se acotovelam uns aos outros. É estranho ver os acontecimentos a ser as pessoas em vez delas e a ocupar o lugar do tempo.

Há pessoas que aceitaram existir como personagens ou figurantes de acontecimentos previstos para ser a sua existência. Fora desses acontecimentos filmados para serem reais, tais pessoas não existem. Podemos imaginar que há um tempo de vida fora das câmaras, mas todo dedicado à preparação das cenas, aos costureiros, ao cabeleireiro ou peruqueiro, à maquilhagem e ao aquecimento dos músculos ou das próteses e das cordas vocais. Não há pessoas arrebatadoras, há acontecimentos arrebatadores.

Ainda não estava recuperado do arrebatador recomeço independente com uma cerimónia presidida por um reitor quando o vi a ser interditado por um tribunal do comércio cuja sentença foi executada por um ex-vice-verde-reitor acompanhado de advogados e seguranças para ser reposto em seu poiso com apoio da polícia para ser de novo retirado daquela cena já não sei por quem mas com certeza por razões puramente comerciais e substituído por um conselho de reitores. Se ouviram e viram aquelas personagens têm de concordar que elas não parecem particularmente interessantes em si mesmas, mas os acontecimentos urdidos são arrebatadores, comercialmente falando. E aterradores, se nos lembrarmos que tudo se passa numa unidiversidade.

Paulo Portas passa os dedos pela testa. Mostra com gestos firmes como controla a melena. Enquanto nos olha de frente com olhos bem abertos e riso mais branco que franco, domina o partido do passado no tempo presente, tomando a via directa pela direita. Insensível à informalidade do colarinho de portas abertas, uma mulher decide abusar do seu poder formal momentâneo para afirmar a formalidade do respeito pelos estatutos como condição da democracia partidária e nela inscrita para emperrar portas à entrada dos penetras – ora invasivos, ontem evasivos. Ficamos a ver como uma reunião pode ser arrebatadora. Viram que não há pessoas envolvidas, mas só figurantes e figurões para uma peça sobre a receita de poder instantâneo, filmada numa cozinha de um partido com dote.

Quando o alvo fala, nem o cego falha.

[o aveiro; 22/03/2007]



ouro sobre ouro sobre azul


Vivemos um tempo de comemorações. Para exemplo, tomemos as bodas de prata da Comunidade europeia e as bodas de ouro da RTP.

Recentemente, dei por mim fascinado com um passeio marcial de poderosos numa daquelas praças desertas que se abre para um arco de triunfo berlinense. Ouvi os tacões picando o chão até que um eco ficou a pairar no ar enquanto os poderosos se perfilavam em duas filas para a fotografia oficial das bodas de prata. Como se a Comunidade fosse uma “passerelle” onde desfilam modelos de poderes públicos, em vez de uma casa habitada pelas pessoas dos defeitos vulgares.

Na Rádio Televisão Pública, tal como em qualquer outra Rádio Televisão Privada, falaram das bodas de prata da Comunidade e mostraram os passeios marciais e as fotografias oficiais. Alguns entrevistadores perguntaram sobre a Europa para que entrevíssemos algum ar europeu. Pouca coisa, pouca prata. A RTP foi um portador sovina em mensagens sobre a prata comemorativa da comunidade. Daí resulta um empobrecimento na importância do acontecimento da prata europeia.

Inversamente ao desdestaque atribuído à realidade europeia pela RTP, esta andou mergulhada na criação de múltiplos eventos e programas comemorativos das suas próprias bodas de ouro. A RTP destacou todo o esplendor dos seus 50 anos de vida. Tratou de coleccionar as fotografias de toda a sua vida para as mostrar. Desde o preto e branco até às cores todas de hoje. Sem distinguir a realidade da televisão de antes e depois do 25 de Abril, mostrando as notícias e imagens consentidas pelo regime fascista como se não tivesse havido censura, mostrando a grande família da RTP como se a RTP de hoje fosse a RTP de ontem, modelos culturais sucedendo-se como se o molde fosse o tempo que passa e o regime salazarento não tivesse sido molde para coisa alguma.Vimos sucederem-se os diversos tempos louvando-se e beijocando-se mutuamente.

Chegámos ao espectáculo deprimente do festival rtp da canção deste ano que podia ter sido, a menos do detalhe da cor e da coreografia, o primeiro festival da rtp em que rezámos de tal modo mal que fomos abandonados por Deus desde então. Os dentes de ouro da RTP brilharam em todo o seu esplendor.

E, finalmente, este ambiente podre desembocou no último acto designado como “o diz que é uma espécie de benção ou de eleição” do benzido por um cardeal e eleito de deus.

O ouro que brilha esconde e cega as falhas, as rupturas – por exemplo, a democracia portuguesa e a comunidade europeia.

[o aveiro; 29/03/2007]


Nota: A RTP teve as suas bodas de ouro ao mesmo tempo que a Comunidade Europeia? O Portugal salazarento não queria ser uma democracia europeia e é por isso que escrevo sobre as bodas de ouro da rtp e as bodas de prata (ianda futuras) aproximadas e já diminuídas da Europa com Portugal dentro. O ano de ouro é só o da rtp.



levanta-te e anda!


Todos os dias recebo vários folhetos e desdobráveis. Alguns deles mais parecem as obras completas de um especialista em carne de porco e em vinhos de marca de região bem demarcada; outros são pequeníssimos votos piedosos ou pedidos de socorro de uma alma que precisa de ser salva e só conhece um processo: apontar o caminho da salvação das almas de clientes dispostos a pagar dez mil reis de mel coado por uma vaga esperança. Há especialistas no aquém e no além que oferecem soluções para o mau olhado, as dores nas cruzes, o azar no jogo, a má sorte com a amante.
Dou por mim a ter cuidado na rua. Pela quantidade de papéis que recebo, tenho de admitir que há muitas pessoas envolvidas em negócios de inveja e raivas surdas capazes de todas as vinganças e crentes certas nos efeitos de uma cerimónia em que um pequeno e roliço boneco parecido comigo é espetado por nervosos alfinetes antes de ser atirado de um quarto andar para ser pisado por um pintor que se desequilibra e cai do andaime quando estou a passar. Começo a ter cautelas que antes não tinha e desconfio das minhas naturais dores nas cruzes ou dos ataques de espirros.
A caixa de correio manda-me para algum hipermercado ou pede-me que telefone a quem me quer salvar do mal que me deseja por eu não telefonar. Carne e osso batem-me à porta e perguntam-me se lhes posso dar um minuto da minha vida por uma oração. Se tiver sorte, tocará o telefone e, se aproveitar para me livrar do bem bom da porta, acabo a atender uma má leitura do anúncio sobre o que já ganhei e posso ir buscar a um hotel daí a uma hora. Contra tanta bondade, só silêncio. E vejo o correio electrónico que enche a casa digital de muito mais do mesmo.
Dou por mim a ter cuidado na rua e em casa. Começo a ter medo de ir à porta e atendo o telefone com um arrepio. O computador tem o aspecto de um caixote de lixo. Estou cercado por ofertas e por ameaças, pelo mal que me farão se eu não aceitar o bem que me prometem.
Desligo e desligo-me de tudo. Deixo-me afundar numa cadeira, enquanto ligo a televisão. Da televisão alguém disparou uma ameaça certeira. Não dá mais para aguentar, o coração desiste e eu perco os sentidos. Quando acordo, apanho os sentidos um por um.

[o aveiro; 05/04/2007]



nim


A semana que passou foi rica de acontecimentos. O Ministro do Ensino Superior veio dar por conveniente o encerramento daquilo a que chamaram universidade independente. Ainda considerou um prazo para reclamações. A vida tem destas coisas: ainda se dá um prazo a uma espécie de universidade em que aparece um reitor que é vereador de uma câmara e a tempo inteiro funcionário da nossa caixa geral. Há gente com capacidades espantosas. Sobredotados estes verdadeiros artistas! E eu sou um artolas, embasbacado perante tanta competência!

Aproveitou e bem o Ministro para falar de tudo o que não é independente da independente. Precisamos agora de saber onde começa a degenerescência. Num país atrasado como o nosso, com tantas faltas em cidadãos com formação secundária e superior, não podemos dar-nos ao luxo de amputar o sistema de uma universidade acreditada pelo estado por ser notório o descrédito da empresa privada e sem sabermos quando e quem deixou abandalhar o sistema de acompanhamento pelos governos da nação.

E confessemos que isto passa das marcas. Neste confuso país de doutores e engenheiros, cada dia se descobre mais uma tolice. Afinal, antes de ser o nosso primeiro, o nosso primeiro foi deputado e alguns três anos antes de ser engenheiro já era engenheiro deputado. Coisa mais tola e desinteressante! Que raio de ideia leva uma pessoa, aparentemente inteligente, a deixar-se enredar numa teia destas! E para quê? Por norma, vou perdendo de vista os meus amigos à medida que a sua importância vai crescendo, seja na vida política, seja na vida académica, seja na riqueza… Mas, ao contrário do que faço acontecer-me, ao longo da minha passagem por este mundo, dou por mim a ver muitos amigos entre os importantes a encontrarem-se em todos os lugares. Na política e no futebol, na política e na vida académica, na política e nas finanças, … Somos levados a pensar que talvez não sejam encontros casuais. E se trate antes de magníficos encontrões num jogo a que assistimos de olhos vendados.

O nosso primeiro atou os seus sapatos de verniz aos títulos provincianos e tanto tropeça que o país tropeça até se gastar num mal estar de estúpido. O sítio certo para explicar o que se passa é a televisão ou é o parlamento?

O major pode recusar os tribunais comuns e ser julgado na praça pública da televisão? Nim.

[o aveiro; 12/04/2007]



a primeira fila


Depois da primeira aula da manhã desta terça, alguém me disse que passasse pela secretaria da escola a levantar uma cópia do meu registo biográfico. Para verificar e confirmar os dados da minha biografia de docente, provável candidato a titular. Assim fiz.
Aproveitei o momento para fazer pequenas perguntas e observações de circunstância sobre a vida passada e sobre o futuro. O debate de segunda sobre as universidades tinha aguçado a minha curiosidade sobre a idade da reforma e, particularmente, sobre a idade que convencionaram ser a mais própria para que um professor como eu se reforme. E lá consegui saber que o mais normal é que me reforme depois dos 64 anos quando o dedo mindinho da minha mão direita atingir a perfeição como obra de artrose em mão de artista.
Fiquei preocupado comigo. Dei por mim a pensar que posso, sem dar por isso, vir a dizer os disparates que aqueles velhotes falam quando perguntam coisas à primeira fila dos debates televisivos.

As universidades privadas podem ser novas (e sabemos agora que podem ser muito inovadoras) mas os reitores são velhos, alguns muito velhos. Do alto da sua magnífica experiência de 40 anos de universidade pública, acusam esta de ser a mãe da desgraça nacional (e ao vê-los falar, tenho de acreditar nisso). Uma parte daqueles velhos a fazer de reitores recebem, com certeza, uma reforma honrada, mas pobre a precisar de ser acrescentada dos trocados da sorte que os cansa. Alguém lhes disse que o país precisava dos seus serviços e, corajosos como só eles, abrem a boca para esclarecer, em cada uma das suas tiradas, que a situação a que chegaram as instituições é essa de terem de recrutar reitores em concorrência aberta e desleal com os lares de idosos e reformados.
Alguns daqueles nomes também me cheiram a velhos ou novos exercícios de poder. Fico cansado só de ver a agilidade de que alguns deles dão prova e maravilhado com o desequilíbrio que usam para o passeio na corda bamba dos seus exercícios de reformadores reformados.

Sinto-me cansado e sinto pontadas de saudade da reforma que tarda em chegar para eu poder viver a velhice do meu trabalho, descansado para renunciar se for capaz de dar pela toleima quando ela chegar.

[o aveiro; 19/04/2007]



Onde estás depois do 25 de Abril?


Ainda antes da revolução de Abril, já eu era um improvável professor de liceu.
O meu irmão mais novo já tinha morrido em Angola e o meu irmão mais velho já tinha emigrado para França, a salto. Um irmão do meio tinha partido para pé do pai, no Brasil, de onde nem irmão nem pai voltaram. Fui criado pela ti Francelina, minha mãe camponesa, e pela Armanda, minha irmã mais velha e, coisa rara nesse tempo da minha terra!, com estudos superiores.
Quis ser padre em menino e depois quis ser marinheiro, para seguir o exemplo do meu cunhado, mas acabei na Faculdade de Ciências a estudar Matemática. Comecei em Lisboa a dedicar-me a actividades associativas dos estudantes e vagamente políticas. Quando a família se mudou para o Porto, continuei estudante e militante, contra a guerra e a ditadura, no movimento estudantil até acabar o curso, casar e receber uma guia de marcha para professor do liceu de Vila Real, em Trás-os-Montes.

Ainda antes da revolução de Abril, já eu era um improvável militar de um exército em guerra.
Não podia entrar na escola da marinha mercante porque tinha falta de peso e de altura. Mas fui, na mesma altura, apurado para todo o serviço militar obrigatório. Cheguei a esquecer-me dele, mas o serviço militar obrigatório nunca me esqueceu e é, já com uma filha nascida, que sou incorporado para começar uma recruta, em Mafra, seguida de uma especialidade em topografia e cartografia num quartel em Cascais, onde sou surpreendido pela revolução antes dela chegar.

Ainda antes da revolução de Abril, já eu era tudo o que sou hoje?
Só na ignorância do medo e, mais tarde, no instantâneo esquecimento do medo podia ser feliz e isso era como viver hora a hora. Não era preciso mais que um momento para ver a miséria e a tristeza espalhadas por dentro das fronteiras de um país irrespirável, sem liberdade, de onde se fugia a salto. Não sei o que seria se não tivesse havido a revolução. Talvez fosse professor de Matemática, mas não era o mesmo. E todos os portugueses eram outros ou os mesmos em suas celas. Sem darmos por ela, como no ar que respiramos, vivemos em liberdade. Só que a liberdade está sempre em construção e, se não podemos tropeçar nos invisíveis andaimes da obra, temos de reparar a casa todos os dias até que todos possam viver realmente e em liberdade.

A revolução de Abril paira em tudo quanto nos parece natural estar por aí, ao alcance da nossa mão. Sem nos pedir em troca um dever maior do que ser livre na liberdade dos outros todos.

[Escola José Estêvão, 24 de Abril de 2007]



a frente de abril


Não foi para isto que fizemos o 25 de Abril. Isto é o quê? O 25 de Abril foi feito para quê exactamente? Não pode ter sido para mais que restaurar as liberdades e a democracia representativa que foi feito o 25 de Abril. Do 25 de Abril sobrou mais do que isso? Errado ou certo, tudo o que veio depois é obra de portugueses livres, livres para a acção colectiva, livres para a eleição, livres para participar, livres para responsabilizar e fazer pagar os maus governantes pelos seus erros. Cada um de nós não se revê nos resultados, no que sobrou?

Atribuir a uma acção sublime de alguns e a um instante magnífico da história colectiva o mal feito por outros ao longo de gerações é tão disparatado e maldoso como pedir aos desempregados de hoje que aceitem a sua miséria em nome de um futuro radioso para os seus filhos. Eu posso adiar parte da minha felicidade de hoje em nome do futuro dos meus filhos. Mas há quem queria roubar-nos o presente em nome do futuro e esse futuro é sempre um presente envenenado pela nossa demissão. Há quem nos aponte o futuro, apontando a entrada do beco onde montaram um assalto.

Há quem fale repetidamente das conquistas de Abril. Alguém se lembrou de dizer que lutamos pelas conquistas de Abril e isso significa recusar cada mudança sem discutir se ela é alguma coisa para além de inevitável. Para logo na etapa seguinte, passar a gritar em defesa do que então existe sem lembrar que isso não é mais do que dissemos ontem que não aceitávamos por ser ser intolerável. De certo modo, a luta contra a mudança é a luta pela situação existente que é o que não queríamos anteriormente. De certo modo, é aceitar que a vida popular é uma sucessão de derrotas e um certo tipo de luta em democracia não é mais do que a animação montada por profissionais. Um novo fado português?

A liberdade e a democracia são conquistas de Abril. Se não for participada em todos os campos de actividade, que podemos esperar da democracia? Votamos para nos fazer representar. Não votamos para entregar a outros o poder nosso de cada dia. A democracia constrói-se. Do mesmo modo, precisamos de reconhecer as liberdades nos seus exercícios. O espírito do Abril português não faz contas à idade e desde de 1974 que nos pede que o honremos nas palavras e nos actos e em nenhum frete.

De frente para o nosso passado, olhemos para a frente.

[o aveiro; 26/04/2007]



essa é que é essa



Finco os olhos no chão para seguir os passos dados nos dias entre o 25 de Abril e o 1º de Maio de 1974. A partir de certa altura, o movimento era tudo até ser voo. E eu não guardo memória do momento em que levantei os pés do chão e muito menos me lembro do tempo em que poisei o corpo para viver o seu cansaço. Deixei-me levar pela pura euforia e só sei que fui levado por rios de multidão, saltando da minha pacatez tímida até aos gestos insensatos de correr as ruas e as veias do meu país. Com receio de ser encontrado, antes mudava de passeio muito frequentemente. Depois deixava-me voar nos encontrões do movimento.

Muitas vezes, me pergunto porque é que fui por aqui e não fui por ali, porque é que fiz isto e não fiz aquilo. Deixei-me tentar pela resposta que me dizia que eu sabia o que fazer e o que queria e para onde ia. Mas, depois, dei por mim a procurar a verdade e a aceitar que nos caminhos que ia percorrendo encontrava os meus amigos e eles não deixavam de me ver. Porque afinal eu queria ser visto. Todos nós queremos ser vistos e achados, penso eu agora.

Não me parece um erro seguir uma margem da multidão, ser parte de um cordão humano que procura constituir-se em fronteira entre a maldade que não poupa a miséria e a miséria filha da maldade humana. Lembro-me dos olhos e de lágrimas de dor. Mas também me lembro dos olhos para me lembrar das lágrimas de alegria, lembro-me das bocas e dos punhos erguidos para me lembrar das palavras que antes não podia gritar. E estou sempre a lembrar-me dos meus amigos, muitos deles perdidos na distância onde se guardam todos aqueles que vivem connosco mesmo quando não lhes pomos a vista em cima há décadas, que vivem connosco porque fazem parte da nossa história simples, talvez sem o saberem. Talvez sem o saberem, eles fazem parte de um sonho que não morre embora se vá refazendo noutro sonho. Olho para esse passado e é como se visse um álbum de retratos. Há quem veja acontecimentos determinantes e dentro deles os seus protagonistas. Eu só consigo refazer a pura euforia com uma galeria de retratos que só importam a mim. Porque foram eles que se fizeram ao caminho comigo até eu continuar a ser o que podia ser – sem me obrigarem a ser outra coisa que não fosse o que podia ser.

Não havia tempo a perder, não perdemos tempo, nem nos perdemos no tempo. O que passámos para aqui chegar! Onde?

[o aveiro; 03/04/2007]



fazer o meu número


Em tempo de eleições na Madeira, Jardim abre uma clareira na floresta de enganos que o sistema democrático representativo pode ser. O espectáculo rasca do candidato Jardim é a verdade, parte da verdade, toda a verdade? Vale tudo para vencer eleições? O caso da Madeira é o modelo que todos seguem, fingindo cada um ser outro em tudo diferente do Jardim? Em cada voto, quantas caras há? A pose do recém-eleito presidente de todos os governos regionais da Madeira representa o quê?
Logo a seguir às eleições, passam-nos como boa uma ideia que separa o Jardim eleiçoeiro do outro presidente vencedor. Ainda ontem todos se maltratavam e hoje cumprimentam-se formalmente e felicitam o vencedor. Se ele é o que parece e o que dizem que é, porquê e para quê se deve felicitá-lo? Ele entende o que disse? Saberá ele o que representa o espectáculo que montou? Ele entende o que dele dizem? Eles entendem-se?
Espalha-se a ideia que tudo é permitido para ganhar votos e que não há mal em ganhar votos pelo disparate e pelo crime que se dispara boca fora. De tal modo assim é que, mal acaba o processo eleitoral, há comentadores e analistas prontos a desvalorizar como excesso “natural” de campanha qualquer ideia xenófoba, racista ou até ilegal que tenha sido debitada durante a campanha. Há mesmo quem afiance a insinceridade como uma boa característica dos candidatos.
As ideias radicais de direita que Sarkozy não se cansou de repetir durante as campanhas para a eleição de Presidente da República de França nada representam senão uma mentira inteligente para captar os votos que, a não ser assim, acabariam votos em LePen da Frente Nacional. Devemos ficar descansados já que Sarkozy não foi eleito pelas ideias que exprimiu, mas antes por aquelas que não chegou a exprimir. De certo modo, dizem-nos que o espectáculo eleitoral é um espectáculo e que as ideias de nada valem a não ser para serem sopradas quando servirem para ganhar um voto.
Já houve fraudes eleitorais e foi triste. Mas nada pode ser mais triste do que ouvir que só temos farsas eleitorais nos nossos sistemas democráticos. Ou não há nada mais alegre? Ou não há nada?

[o aveiro; 10/05/2007]



dar a volta ao texto


Não sabia que tinha saudade das salas de espera, mas sei hoje que a leitura das salas de espera pode tornar-se um vício. Enquanto esperava uns minutos pelo futuro, fui atraído para o turbilhão de inteligência e vida palpitante de um suplemento que, não podendo ser vendido separadamente, sobrevive nas mesinhas de apoio das salas de espera ao tal jornal que o transporta até nós. Os minutos da liberdade que me deram não deram para ler mais que as chamadas à capa ou à primeira página. Mas fiquei com a alma consolada e não resisti a apontar as frases no meu caderno de viagem por este vale feliz.

a) Enchia a capa um cromo de rapariga pateta com jeito para o negócio de promover e vender tudo, desde fraldinhas ilustradas e roupinhas até bochechas e covinhas de queixo. A legenda punha-lhe na boca a frase: “Gostava de fazer uma personagem perturbada para mostrar que não sou só a flor”. Lá na sic-shop não há quem lhe explique devagar que é a mais perturbada das personagens e que a frase solta é prova de que ela não se enxerga, não é flor que se cheire e foi inventada para as tele-vendas?

b) Outra notícia balsâmica rezava assim: “O leão marinho é uma espécie em alta no zoo de Lisboa. Depois de ter recebido uma visita calorosa da actriz patrícia tavares, o bicho foi adoptado pela banda d’zrt. Há famosos que começam com muito menos.” Fico cheio de pena do leão marinho e dos golfinhos que, para sobreviver em cativeiro, têm de aturar estes bichos que vão fazer habilidades e tirar fotografias ao zoo. Estes famosos podem começar com muito menos, mas com muitos mais tiques, mais saltos e gestos disparatados que os que se podem ver na aldeia dos macacos. Ninguém pode começar com menos vogais que os d’zrt.

c) Numa das chamadas ao sumário da coisa, escrevia-se: “helena coelho separada e feliz nega novo namorado”. Estava a tentar ver se chegava a alguma fotografia do coelho desta cartola quando me acordaram do sonho em revista que não pode ser vendida separadamente.

Enquanto respondia a perguntas sobre novas configurações das famílias e sobre os problemas das crianças nas famílias e nas escolas, dei por mim a querer saber quem será a helena da família dos coelhos. Não descanso enquanto não souber.

[o aveiro; 17/05/2007]



19/05/2007


a sorte dos pais


Embora haja alguns estudos sobre a evolução da relação dos pais com os filhos ao longo da escolaridade destes, as crenças dos professores são dominantes para integrar a acção dos pais e outros agentes na cultura da escola. Tanto para estabelecer um padrão de comportamento que pretende assinalar como aceitável ou inaceitável esta ou aquela acção dos pais e encarregados de educação no quadro da relação com a escola, como para dar sinal da rotina da escola. De certo modo, podemos dizer que os professores estabelecem, com os seus discursos, a rotina das relações, promovendo ou despromovendo o papel dos pais e encarregados de educação.
Parece acertado para muitos professores aceitar que os pais acompanham com tanto mais empenho a vida escolar das crianças, quanto mais elas dependem da sua protecção e que o acompanhamento pessoal dos pais vai diminuindo na adolescência até ser substituído completamente pela ausência ou pela contratação de serviços especializados.
Os professores podem afirmar que há um fenómeno de abandono pelos pais da escola dos filhos. A rejeição dos filhos a esse acompanhamento como forma de afirmação no seu crescimento soma-se à incapacidade dos pais para acompanhar as novas competências (tecnológicas, também) escolares e não escolares adquiridas pelos jovens. Assume especial importância a falha de conhecimentos científicos e literários de uma geração menos escolarizada que se sente incapaz para compreender e ajudar o crescimento em graça e sabedoria dos filhos.
As escolas esperam muito (e isto é uma forma de dizer que os professores esperam muito) da acção dos pais nas escolas do ensino básico e chegam a desesperar sobre essa acção no ensino secundário.
Esta afirmação precisa do seu contexto. Pode ser diferente e referida a níveis etários diferentes conforme é dita no ambiente rural ou num ambiente urbano e citadino. Assim como é diferente o sentido que se dá a “básico” e “secundário”. Sendo que, para os estudantes que querem e são empurrados para o mundo do trabalho aos 15 anos (se não antes), o último ciclo do ensino básico é já um ensino secundário (tanto para os jovens como para os pais), enquanto que para outros jovens que não imaginam a sua vida sem prosseguimento de estudos superiores, aquilo a que convencionamos chamar ensino secundário é, de facto, básico.
Talvez pudéssemos dizer que o abandono escolar de hoje foi precedido do abandono escolar dos pais quando jovens e é denunciado pelo abandono a que os pais votam a escola dos filhos. Podemos mesmo dizer que o abandono escolar de hoje é a confirmação de outros abandonos. E é a mais desgraçada confirmação do abandono dos filhos pelos pais, mesmo quando não parece.
O mais dramático deste fenómeno de abandono das escolas pelos pais é que ele significa a incapacidade para os pais de acompanhar culturalmente a escola dos filhos. Os pais não têm tempo e principalmente não estão no tempo dos filhos e não compreendem a matéria de que é feita a escola dos filhos. Incapazes de conversar sobre o que os filhos aprendem ou deviam aprender, deixam de conversar com os filhos e não são exigentes (nem com os filhos, nem com a escola) ao nível das aprendizagens, dos conhecimentos e técnicas, da utilidade do que aprendem, etc. Confundem-se até ao ponto de perder o sentido da educação para a responsabilidade social.
E substituem tudo pelo único indicador escolar de que compreendem uma utilidade: as classificações numa escala numérica. Em vez da compreensão da complexidade e da qualidade das aprendizagens, os pais pressionam a escola sobre as classificações que, ainda que sem conteúdo, permitem a transição para o ingresso no mundo do trabalho ou no ensino superior.
Neste tempo, os pais são eleitores. A preocupação dos eleitores reduzida a classificações escolares é uma tentação para os políticos no poder que, na luta pelo poder, abrem campanhas com o único fito de melhorar classificações em vez de tomarem medidas de longo fôlego sobre as condições de vida das populações e sobre as condições das escolas onde os jovens aprendam a viver melhor, responsáveis e… livres.
Há escola dos pais dos estudantes na escola dos estudantes e professores? Abandonados à sua sorte, saberão os professores que as escolas não podem abandonar os pais à sua sorte?

[a página da educação; Junho de 2007]



Outra vida toda a vida.


“Quando dei por ela, já tudo aconteceu. Não sei quando começou, nem como e muito menos porquê. Como se às escondidas do tempo, um pequeno senão de coisa nenhuma tivesse aparecido não se sabe de onde e por ter tropeçado no pequeníssimo e desconhecido obstáculo tivesse desenrolado outra passadeira de descer escadas até aos altos céus. E o que é certo é que quando procurei olhar para trás para ver o tropeço, o tal pequeno senão, não havia nada para ver. Quando falo disto, não há nada para dizer em minha defesa e já estou cercado por tantas dúvidas que mais vale acreditar quando me dizem que ainda sou professor.

Apareceu alguém a dar-me a mão a puxar-me de um passeio para o outro lado da rua por onde nem pensava ir, e eu dei por mim a agradecer a passadeira estendida só para mim e mudei de passeio, de professor ao espelho, para professor do outro lado do espelho.

Como é que é possível que eu não tenha percebido quando deixei de ser professor? Não dei aulas nos últimos 20 anos e sou professor? O que é que me aconteceu, durante os últimos 20 anos, para ocupar um cargo na administração pública da educação? Sem qualquer concurso e seleccionado por ser obediente militante de um partido do poder, deixei-me estar até me deixar sobressaltar por uma piada sobre o inominável. Quem me suspendeu também se diz professor e anda pela administração pública ou sindicatos, por outros partidos. Também não deu por nada?
Quem é que me fez assim funcionário deste modo desmemoriado da vida até que tenha deixado de ver o ridículo da situação? A piada é que sou professor sem exercício. Foi acontecendo. Às tantas, já respirei tanto gás ridicularizante que perdi o norte. Eu e os outros como eu.”

Professores de quê? Educadores? Que doença ataca os partidos que transformam pessoas até elas se convencerem a ser o que não são e, para serem alguma coisa, dizem-se professores de uma vida inteira sem escolas, sem aulas e sem alunos.

Sem espanto algum, damos pelo disparate. Nos últimos trinta anos alguns deuses menores e portugueses andaram a criar um mundo paralelo e só deles, como contra-exemplo, para desmentir tudo o que disseram, dizem e dirão.

No nosso mundo, ouve-se uma campaínha de alarme. Na escola real, o professor dá corda aos sapatos, com o livro de ponto na mão, toma o seu lugar no corredor cheio de crianças e jovens. Nas próximas horas, a profissão toma conta de tudo o que dá sentido ao título de professor. Pode ser fácil. Pode ser muito difícil. Tem de ser. E tem muita força.

[o aveiro; 24/05/2007]



22/05/2007


As políticas vão a exame? Nós também


Nenhum dos últimos governos ignorou a importância do ensino da matemática. Não se trata de mera propaganda política. É antes sinal do reconhecimento da necessidade de formação matemática de todos os cidadãos. Os governos têm sido obrigados pela opinião pública (o que quer que isso seja) a prestar contas, informar os resultados e prometer políticas para superar deficiências.

A generalidade dos eleitores pouco reclama sobre a qualidade da formação e a natureza das aprendizagens e mede o desempenho estudantil por resultados das provas nacionais. Nos últimos anos, os governos que tentaram eliminar provas nacionais de português ou matemática esbarraram em oposições poderosas. Essa oposição é exterior às escolas básicas e secundárias e ao conjunto dos agentes educativos. Os governos e os agentes educativos sabem que não é possível obter resultados globalmente positivos em provas de aferição dos conhecimentos essenciais pré-definidos. Resultados positivos só pelo reconhecimento das aprendizagens que a primeira aferição validasse. Os exames nacionais esquecem as diferenças entre escolas e esquecem a diversidade de condições sociais dos jovens chamados a prestar provas, bem como esquecem a diversidade das interpretações e das práticas dos professores no cumprimento dos programas nacionais em contextos diferenciados.
Pode estar a acontecer um acerto feito pela realização estável de exames, se estes estiverem a ser acompanhados de estudos detalhados sobre resultados consolidados e as respostas dadas ao longo de vários anos. Reconhecermos que os governos podem aplicar exames leva-nos a recomendar aos professores que mobilizem a favor do ensino todos os materiais publicados pelo GAVE para os diversos níveis de ensino. Para aumentar a compreensão dos problemas e exercícios que podem ser objecto de exame sem que possam ser enfrentados com êxito por rotinas, pela execução acrítica e pobre em compreensão dos conceitos e técnicas matemáticas.

As iniciativas dos governos viradas para um ou outro aspecto do ensino da matemática, sejam elas adaptações curriculares, formação de professores, apetrechamento das escolas ou ampliação dos impactos dos resultados dos exames nacionais e testes internacionais, aumentam a pressão sobre as escolas e os professores no sentido do cumprimento de programas escolares. Tem força a ideia de que os professores tendem a abordar os conteúdos aque mais lhes agradam e se demorem em temas que consideram importantes. Sempre que as competências a desenvolver apareceram independentes de um corpo completo de conhecimentos, conceitos e técnicas, os professores têm tendência a empobrecer a variedade de conceitos leccionados. Sem exames nacionais, há áreas de conhecimentos básicos em matemática automaticamente prejudicadas. A existência de exames condiciona fortemente a acção dos professores que mantêm, ainda assim, uma separação artificial entre a sua acção e os resultados dos exames. As medidas dos governos na melhoria das condições das escolas tende a criar na opinião pública uma exigência maior sobre os resultados e pretendem passar a responsabilidades para o corpo dos professores, enquanto procuram separar a acção dos professores dos resultados de outras acções (ou inacções). Chegam a sugerir que os resultados dos exames são independentes das condições económicas, diferenças culturais e de escolarização das famílias.

Iniciativa central, os planos de acção para a matemática escolar básica tornaram-se planos locais por adesão voluntária(?) de escolas espalhadas pelo país. Mais de um milhar de escolas aceitaram tomar iniciativas locais com vista à melhoria dos resultados a matemática. As escolas puderam escolher as oportunidades e os grupos de estudantes sobre os quais se comprometeram a intervir especialmente. Assim, esta iniciativa central constituiu-se numa grande variedade de aplicações locais – variedade de públicos, variedade em estratégias de intervenção, variedade na distribuição no tempo, etc – o que retira todo o sentido a que se considere que influencia qualquer melhoria dos resultados de exames ao fim do seu primeiro ano de aplicação. Cada escola deve responder pelos resultados da sua iniciativa local que, em muitos casos, pode ter sido intencionalmente dirigida a estudantes em início de um dos ciclos do ensino básico e que, obviamente, não estão a prestar provas ao fim do primeiro ano. Pode mesmo ter acontecido que esta primeira candidatura tenha correspondido mais a compromissos de gestão do que a compromissos dos professores sobre as suas práticas.

Nenhuma destas considerações pode iludir a necessidade de avaliar as intervenções locais pelos resultados obtidos. Não são os exames? Não são. Cada plano de escola deve responsabilizar os respectivos professores pelo compromisso que assumiram. Não se espera mais, mas isso é o mais importante. Até porque é sobre isso que, ao fim de cada ano e dos três anos de aplicação, estaremos a medir o impacto das iniciativas do governo.

[Educação & Matemática. APM. Agosto de 2007]



quotada


Hoje, duas mulheres puderam ouvir as notícias do costume e ocupar a viagem do dia na conversa sobre a forma como são tratadas: trabalham mais e recebem menos, são mais habilitadas e são mais desempregadas, etc. À distância, para quem me quisesse ouvir, eu ia murmurando que as mulheres eram responsáveis pelo acidente do presente. Argumentava eu que, há várias gerações, elas estão em maioria em todo o sistema educativo e escolar e, por isso, têm sido elas a reproduzir o sistema de ideias desfavorável (ou não) à afirmação das mulheres. Se as mulheres estão em maioria absoluta nas escolas, porque é que há um grande número de homens que são dirigentes no sistema educativo? Se a gestão dos homens tem sido a desgraça que se sabe e em desfavor das mulheres, porque é que as mulheres não tomam as rédeas? Elas lá conversavam sobre o assunto enquanto eu lhes aquecia as orelhas com o meu feminismo. Mas, das duas, a que me parecia mais radical começou a discursar contra o sistema de quotas. Ela acha que as mulheres devem ser consideradas pelo que valem e em todos os lugares que ocupem seja claro que é pela competência demonstrada e não por serem mulheres. Estive quase para desistir. Mas não me contive. E lembrei-lhes que os homens mantêm o poder com um apertado sistema de quotas. Já tentaram ver se há homens da multidão do poder e da gestão a ocupar cargos por critérios de competência? Uma boa parte desses lugares são protegidos por um sistema de quotas rígido entre as diferentes tribos de tótós dos partidos do poder. Uma autêntica quotada. Nem concursos, nem provas dadas… Ou melhor com provas dadas… a denunciar a borrada da sua própria acção no poleiro que abandonam quando sobem para outro poleiro, a enriquecer enquanto arruinam o país, etc. De alguns dos espécimes protegidos pelo poder, só sabemos que parecem homens pela forma de andar. Mal os ouvimos falar, a opinião piora. Adquirem notoriedade pelo disparate, para logo depois fazerem o que eles chamam gestão de silêncios. Tornam-se discretos até passarem à fase madura em que definitivamente não falam … porque estão em segredo de justiça. Ouvimos falar deles como suspeitos. Uma suspeita? Também.

[o aveiro; 31/05/2007]



Crítica da razão vazia


A avaliação de um ou outro programa de acção e de uma dada situação sectorial ou do desempenho global de uma dada classe ou sector trazem para a ribalta alguns especialistas. Como autores de estudos que (cor)respondem a encomendas de entidades e organizações é que os cientistas sociais são apresentados à generalidade dos cidadãos. Para apoiar alguma decisão controversa é que se realizam estudos. Para as encomendas, estes especialistas escolhem um quadro de referência, indicadores de resultado e de impacto, etc, e, como é óbvio, raramente chegam a conclusões diferentes daquelas que interessam às entidades que pagam o estudo. Estes trabalhos científicos de encomenda feitos com e sem a necessária seriedade têm um efeito devastador sobre a credibilidade do trabalho científico, lançando a suspeição sobre tudo o que seja ciência como método de apoio à decisão social, económica e política. Estes cientistas sociais estão a conformar o discurso político, impregnando-o de terminologia científica desnecessária que oculta retrocessos para a consideração da individualidade humana, de tal modo que ao analisar fenómenos como o desemprego fazem desaparecer cada pessoa concreta até ela ser uma unidade estatística ou um dano colateral de alguma guerra decretada pelo mercado livre.

Para gerir escolas (ou hospitais), para decidir e avaliar programas de acção escolar e até a acção dos professores, encontram-se pessoas que não têm qualquer experiência das escolas ou do ensino da disciplina que vão gerir ou avaliar. Estas não têm que saber coisa alguma sobre contexto e conteúdo em concreto, porque tudo sabem sobre teorias e práticas de gestão, técnicas de análise de conteúdo e de estudo de casos, etc. Equilibram-se numa corda esticada sobre o abismo de um aterro de palavras.

Trocam as pessoas por miúdos, pelas palavras que enchem os relatórios. E, na sua infinita ignorância citacionista, defendem como única síntese possível, a sua leitura vazia de experiência e de conhecimento, a leitura interessante para o dono da encomenda. E são a voz do dono.

Nota-se demais quando algum deles muda de dono. Os estudos estão publicados para nunca serem lidos por pessoas.

[o aveiro; 08/06/2007]



A terra dos …


No último ano, um Ministro andou a cantar aos quatro ventos que iria haver um aeroporto ali para os lados de Alenquer. Disseram-se coisas sobre interesses escuros, obscuros e claros relacionados com essa decisão política. Anda-se nisso há quantos anos?

Mudanças de interesses e de parceiros e o que era uma decisão política certa passou a sofrer da doença de moratória. Por iniciativa da indústria, acolitando a Presidência que ajudaram a eleger, acendeu-se uma nova luz e decidiu-se uma alternativa em Alcochete, ou melhor, numa pequena arena montada mesmo ali em plena Assembleia. Olé! – grita o inteligente.

Na apresentação da alternativa de Alcochete lá estava o autarca da nova opção aeroportiana a defender o desenvolvimento para Alcochete deixar de ser Alcochete.

No dia seguinte à declaração de que o governo iria prosseguir os estudos, os autarcas otários vieram reclamar de tal decisão por já se terem comprometido com investimentos na ordem da cruz de milhões. Hotéis, hospital, e, como jóia da coroa de todos os investimentos, um santuário. Já tudo me tinha passado pela cabeça, até voos rasantes de aviões ansiosos por oterrar, menos um santuário à maneira. Há tanta coisa para fazer quando o céu nos aterra no quintal!

Desde que anda o aeroporto no ar, nasce uma novidade em cada dia. Um dia ficamos a saber de quantos quilómetros de deserto se faz uma alternativa de sul, noutro quantos quilómetros cúbicos de terra temos de movimentar se formos otários, no seguinte quantos quilómetros por hora pode atingir o tgv para dar o passo que separa Alcochete do oriente, ou quantos minutos mede um metro entre Lisboa e a Ota. Os planos mais arrojados já falam da Lisboa que chega a Ota, de Lisbota. Alen…quer até ser Lisboa.

Já Alcochete arma todos os campinos. De varas afiadas apontadas ao céu de Alenquer, os campinos têm batido todos os recordes de lançamento de dardo e de salto à vara no assalto aos céus. De campinos a campeões é um passo.

Nada de parar, devemos procurar novas oportunidades e alternativas. Portugal só tem a ganhar em ter mais estudos – é o que dizem os estudos. E há exemplos a seguir.

[o aveiro; 14/06/2007]



a praça do peixe


Temos para nós que as mães querem o melhor para os filhos. De um modo geral, queremos dizer com isso que as mães tudo fazem para que os seus filhos tenham acesso a mais conhecimento do mundo até que nada de essencial lhes falte e lhes seja mais leve a sua quota de criação. Ao mesmo tempo, cada mãe espera que os seus filhos transportem para o futuro a sua melhor memória, uma história de portadora dedicada e solidária de esperança na sua contribuição infinitesimal para um mundo mais fraterno. As mães sabem que entregam os seus filhos ao mundo que, já não sendo o mundo tal qual era o seu, é um mundo cheio dos sinais que elas reconhecem e integram a identidade do seu filho, a contribuição única que ele é para a riqueza colectiva – a diversidade como colecção e mistura das contribuições. Nenhuma mãe quer desaparecer da memória cultural do seu lugar e isso significa ideias, cultura, juízo, produtos agrícolas e industriais, trocas comerciais, etc… enfim, valores.

Que engano de mãe abençoa a mão do filho que apaga todos os puros sinais do seu tempo?

Nos nossos lugares, estamos sempre a procurar os sinais que acrescentamos. O nosso futuro tem um passado e um presente que é escolha do que interessa e rejeição do que não interessa ao futuro. Globalmente e localmente. A sobrevivência depende da diversidade em que nos reconhecem pelas diferenças. E isso obriga-nos a avivar os nossos sinais, a não nos disfarçarmos noutra identidade. Os eleitos locais devem ajudar a localizar os seus eleitores na sua história, no seu tempo, no seu lugar. Cidadãos do mundo, queremos saber qual a nossa contribuição exclusiva, ao mesmo tempo que queremos conhecer e saborear as contribuições dos outros. O comércio global pode e quer vender-nos tudo. Os eleitos locais não precisam de aprofundar essa globalização, precisam de preservar os nossos produtos e a memória do que fazemos e, talvez, ajudar à sua inclusão nas listas de vendas do mercado global.

A que cheira uma Praça do Peixe? A alguns dos nossos eleitos, a praça do peixe já só cheira a cerveja.

[o aveiro; 21/06/2007]



Praça de peixe


Outros poderão vender. Mas eu dou mesmo, dou de barato a verdade de quase todos os governos das autarquias portuguesas estarem em grande sofrimento. E eu, pequeno contribuinte, com eles sofro quando a dor deles é pontada de desgosto pela herança de dívidas acumuladas. A dor da dívida inicial curou-se com pêlo do mesmo cão: quanto maior o montante em dívida, maior a capacidade de endividamento! Até um certo nível. Acima dele, os cães invadem a rua. No espaço social exterior ao canil das dívidas do município, as vítimas dos cães e os cães uivam.

Ainda a procissão ia no adro, e aparecia em cena uma especialização em controle de cães e afins a que chamaram engenharia financeira para as primeiras perseguições e reengenharia financeira para as fintas à realidade. Não sei em que faculdade se formavam estes engenheiros nem sei que refaculdades especiais são exigidas aos reengenheiros. Nem sei se há ordem para estes casos e muito menos ouvi falar em qualquer reordem. Dou de barato que há por aí uma dor em redor da banca branca.

Dar de barato para a dor é uma coisa.

Engolir tudo o que nos dizem para esquecer a dor é outra. Já cheiravam a peixe podre as notas explicativas para a obra de encerramento da praça do peixe fresco. Como justificar que não há notícia a chamar à responsabilidade os técnicos suspeitos de terem cometido os erros de que fala o encerrador? Pior fedor tem a notícia de que, com apoio em técnicos certamente e tendo 9 talhos disponíveis no novo Mercado, a anterior câmara prometeu um talho a cada um de 13 talhantes. A verdade mente? Seja o que for que tenha acontecido ou tenha sido dito, o que está a ser dito agora é uma baforada de mau cheiro vinda de lá, desse lugar que começa a ser incapaz para um mínimo de decoro.
Há quem pense que os políticos podem usar de alguns descuidos na linguagem e que isso é normal na luta política. Chamam-lhes peixeiradas para ofender as peixeiras. Eu preciso de acreditar no que me dizem os responsáveis para formar opinião, estar de acordo ou em desacordo. Também não dou de barato enxovalhos aos técnicos da autarquia.
Não faço ouvidos de mercador. Disparates risíveis presos do lado de fora das minhas orelhas não fazem de mim louco, nem tão pouco mouco. Fazem de mim.

[o aveiro; 28/06/2007]



Praça do peixe


Nos dias que correm, para serem elegantes e poderosos, os homens mostram-se a correr pelas ruas e praças. Aproveitando a frescura da manhã ou da tardinha, um homem poderoso e elegante deve tomar a dianteira de uma fila de homens seguros treinados em ordem unida e em limpeza de bermas do trilho. Há fotógrafos que correm, em rápida marcha atrás, tanto como os homens poderosos e elegantes, para fotografar o andar saudavelmente enérgico dos homens elegantes estampado nas caras sorridentes que trazem sempre afiveladas. Os fotógrafos que tiram estas fotografias são admitidos nos trilhos e chegam mesmo a aparecer como matilha.

Os homens poderosos e elegantes são optimistas, nunca esquecem o sorriso, o brilho no olhar e a palavra fácil sobre uma grande cimeira, razão directa da ciumeira oposicionista e invejosa.

Podem surgir do nada os homens elegantes e poderosos, podem ser feitos de nada, podem ter sido feitos para nada como se fosse para serem tudo que é o nada do outro lado. O maior encanto dos homens elegantes e poderosos reside no milagre da sua criação por uma revista de recados, modas e bordados. A essência “chic” dos homens elegantes transparece tanto na passada elástica sobre passadeiras vermelhas como na forma do tornozelo que se vê nas fotografias das tão significativamente importantes saídas dos automóveis negros. Há mesmo quem diga que neste mundo atapetado e apatetado importa mais a riqueza do pormenor que o pormenor da riqueza e que um homem poderoso pode ser elegante na medida da marca do sapato ou do verniz.

Em momentos de grande pompa, o mais importante para os homens elegantes é não mostrar uma única estaladela no verniz e dar para a fotografia a ruga de simpatia, quase humano sinal de compaixão por quem precisa de ver a fotografia para acreditar na benção da sua existência.

As pompas civis repetem-se: assembleias de accionistas, cimeiras, estreias de teatro superbemestar ou exposição de rica colecção em instituições subsidiadas pelo estado, velórios, baptizados e casamentos de estadão. O cerimonial com artistas poderosos e elegantes não é subsidiado, porque é o estado a representar(-se). Até um mosteiro pode virar camarim. Não falta arte para representar, nem ponto para a asneira mais artística, nem fresco papel moeda.

Quem lhes dá corda aos sapatos?

[o aveiro; 5/07/2007]



o exercício do dever.


O funcionário público sempre se levantara, manhãzinha cedo, para o seu exercício diário. Com a surdina ligada, para não acordar os vizinhos, o funcionário público marcava o ritmo dos movimentos: um, dois, três, quatro, cinco, um, dois, … Depois do duche rápido, vestia-se e saía para a rua. Chegava cedo e ajeitava os papéis ao longo da pequena bancada, ao seu alcance e fora do alcance de quem se dirigia ao guichet onde se escondia e se mostrava o funcionário público para distribuir o exacto papel e não um qualquer papel. Ali sentado do lado de dentro do balcão antigo, não deixava ver mais que os seus olhos de ave, uma gravata e a mão cuidada que entregava o papel exacto, necessário para um determinado acto.

Uma destas semanas, às ordens do governo, o funcionário público deu por si espantado sem saber qual o seu papel nem que papel havia para dar. Sem aviso aos utentes e ao funcionário, o papel de ontem que e ainda não se cumprira em qualquer acto, já não servia, porque os actos e serviços, ontem necessários para os utentes, tinham deixado de o ser para o governante que os tinha altianunciado. O funcionário público nem sabia o que acontecia para fazer acontecer a ordem do dia. E isto começou a repetir-se com uma frequência assustadora. Alguns trabalhadores que, a confiar nos governantes, ontem desempenhavam tarefas absolutamente necessárias, revelavam-se inúteis e mesmo prejudiciais hoje, por ordem do governo. O funcionário público via como cada uma das pessoas acolhia a dor ao deixar de ser a pessoa que era, pessoa em si mesma e para os outros que a reconheciam pelos serviços imprescindíveis que prestava. Não só tinham baralhado os papéis no seu guichet, como as pessoas da fila em espera tinham perguntas para as quais as respostas de ontem não podiam ser repetidas hoje e nem havia resposta que se pudesse dar. E que papel para as pessoas à sua volta?

Num instante, os governantes mudavam decisões para nenhumas decisões mais caras.

Sem saber bem qual é o seu papel, o funcionário público levanta-se manhã cedo, desliga a surdina e acorda toda a gente a gritar para quem o quer ouvir que é urgente mudar estes governantes antes que eles gastem todo o dinheiro a desfazer o que ontem era uma boa razão para gastar o dinheiro de amanhã.

O dever de um funcionário público pode ser pedir a demissão dos seus governantes?

[o aveiro; 12/07/2007]



o que sobe, cai


Um homem seguia pela vereda, incomodado com os silvados a roçar-lhe o fato. Com o cotovelo levantado, protegia a cara dos ataques. Entredentes, não parava de falar de si mesmo para si mesmo. Um pouco atrás, a mulher caminhava ligeira. Sorria para dentro. Parecia que lhe dava algum prazer a atrapalhação do homem e não conseguia esconder a satisfação. Isso era o que me parecia enquanto olhava para baixo a vê-los, subindo encosta acima. A certa altura, do meio do matagal, vejo sair o garoto. Pareceu-me ver o homem embaraçado pela finta do garoto. Não tardou muito, aos meus ouvidos chegavam os palavrões do homem, os gritos do garoto e a gargalhada feminina cantada por cima dos palavrões e gritos. Pouco depois, deixei de os ouvir e também deixei de os ver. Tinham entrado num daqueles túneis vegetais que as veredas nos reservam. Não me preocupei e fiquei à espera de os ver reaparecer mais perto do cimo do monte, onde me encontrava. O tempo fez-se mais lento e dei por mim a preocupar-me. Não me parecia que pudessem ter tomado outro trilho diferente daquele em que eu os vigiava. Porque terão deixado de falar? O que aconteceu ao garoto? Que é feito da gargalhada da mulher para as costas do fato tão inadequado para a subida montanha acima? Parecia que a terra os engolira naquela curva da vereda. Já começava a desesperar no meu posto de guarda, quando os vi ao longe seguindo pela vereda que dava uma grande volta, para poupar na subida inevitável. Verifiquei que a partir dali, onde eles reapareceram, o trilho se alargava e aparecia desenhado como um risco em volta da montanha. Se o pudesse ver de mais alto, pareceria uma escada em caracol para o céu que o monte arranhava. Contente por voltar a vê-los de novo, fiquei preocupado ao constatar que me veriam ao passarem por aqui. E tinha razões para temer que reconhecessem a cara da campanha de todas as promessas.

Ainda nem tinham chegado ao cume do poder, já o homem perguntava: “Sócrates?” E, sem pausa, a mulher atirou certeira: “Vens pagar alguma promessa?” Não me lembro do que se seguiu. Disseram-me depois que o garoto, que nem me conhecia, enquanto me empurrava, repetia: “Prometeste, subiste!… Mentiste, não cumpriste e…caííííste!” E mais nada!

Porque é que o homem me chamava pelo nome de um grego?

[o aveiro; 19/07/2007]



mau exemplo, mau é


Ainda na oposição, com os olhos na cadeira do poder, a um povo que se revia grego, Sócrates bradava garantias referendárias para as grandes questões. Também para as questões do tratado que estabelece uma constituição para a Europa. Dar a palavra aos povos tinha chumbado aquele giscardiano texto assinado então, em nome de Portugal, pelo fantástico Lopes de Lisboa. Passados poucos anos, Sócrates é um poderoso primeiro ministro de uma presidência europeia (em) investida contra referendos a uma nova versão de tratado agora destinado a ser votada nos parlamentos. Sócrates vem enaltecer a democracia representativa e lança anátemas aos que, por defenderem os referendos e a participação popular, diminuem a representação democrática e parlamentar. Opinião de sofista. Ninguém melhor que Sócrates para saber que a Assembleia onde o PS tem maioria absoluta foi eleita para defender o referendo. Pretérito mais que perfeito, imperfeito, condicional? Mudam-se os tempos para que futuro? Ninguém melhor que Sócrates para saber que o que apouca a democracia parlamentar são as palavras por cumprir, a falta à palavra dada, a desonra e a pouca vergonha.

Eles têm agora a espinhosa missão para nos convencer que tudo o que fazem colhe o seu valor nos resultados futuros, nos maravilhosos frutos do exercício do seu poder. Os fins, os fins, os fins justificam os meios. Se perdermos tempo a discutir, perdemos eficácia, competitividade, a oportunidade de ouro, etc. E já há quem queira ver assim e ache coisa pouca a participação popular mesmo quando ela foi prometida em troca da maioria cor de rosa. Até porque ela é tão pobre! Não é? Não é tão evidente?

Nestes tempos de comunicações rápidas, para uma parte dos nossos políticos, até a participação (que não se puder dispensar) pode ser representada por figurantes recrutados entre velhinhos da província que aceitem pagar uma excursão à capital com uma hora de bandeirinha em campanha de autarquia de costa ou entre jovens que, bonitos, empenhados e bem comportados pela mão de uma agência de modelos, aceitem vender-se por 30 dinheiros ao serviço da ministra da boa (?) educação tecnológica. A ministra acha que isso é nada quando comparado com o anúncio tecnológico. Mau exemplo, má educação democrática são pequenos nadas, sendo tudo.

Ainda que tenham bom aproveitamento como eficazes figurões tecnocratas, nunca lhes perdoaremos o mau comportamento como democratas.

[o aveiro; 26/07/2007]



des envolvimento

O que mais me incomoda é a distância feita de desprezo e é, por isso, que muitos dos governantes modernos me parecem selvagens.

Educados para a compaixão real, feita de gestos tão anómimos quanto dirigidos a pessoas reais que se cruzam no nosso caminho, não atinamos com aqueles que falam dos desempregados como se eles não fossem nossos vizinhos e não fossem mais que unidades estatísticas. Não atinamos com políticos que justificam as suas políticas com um futuro radioso para todos os filhos dos que nem vislumbram o pão nosso de cada dia presente e menos ainda o futuro dos seus filhos. Não nos entusiasmam perspectivas de desenvolvimento se elas existirem em detrimento das pessoas reais, sem se fundarem e fundirem com pessoas realmente existentes.

Estes jovens governantes selvagens falam de pessoas em abstracto, livres de qualquer comoção humana perante as dificuldades das pessoas reais, ganharam uma falha de carácter e uma desmemória sobre os cíclicos descalabros da espécie até ao desprezo pelas pessoas reais quando elas são o contra-exemplo para as suas políticas. E enriqueceram.

Depois olhámos esses políticos como parolos a tentar agradar a patrões e a padrões estrangeiros. Habituaram-se a pensar em desenvolvimento e progresso como coisas neutras iguais para todos em todo o mundo e para os quais há uma só receita universal. Parecia-me uma desculpa inventada por tolos. Nunca me passaria pela cabeça que houvesse alguém tão tolo que pudesse impingir esta ou aquela teoria ou tese de uma ciência social como se fosse tese de uma ciência exacta, válida para o exótico e imprevisivel universo humano.

Nesta última semana, fiquei a saber pelas organizações não governamentais a trabalhar no Iraque, que, em nome da democracia, os políticos selvagens fizeram a guerra que lhes permitiu agitar o mercado que, mesmo selvagem, funciona bem até num país transformado num campo de batalha. As ONG não denunciam a falta de interesse dos países da coligação. Não. Dizem que eles estão a sacrificar grandes massas de crianças e adultos de hoje às suas estratégias de desenvolvimento. Fome e penúria mais extrema, ao lado do mercado florescente e, porta com porta, com a riqueza mais obscena.

Os políticos selvagens não reconhecem os seus pares humanos, não se envolvem. Eles são a favor do des envolvimento humano.

[o aveiro; 1/8/2007]



a cor do agosto


O acordo de governo de Lisboa celebrado entre Sá Fernandes e António Costa (ou entre o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista) é um acontecimento novo na política portuguesa. Não há nada de novo do ponto de vista do reagrupamento de forças à esquerda ou à direita já que houve antes concertos de esquerda para o governo de Lisboa e a vereação da câmara foi composta por vereadores de vários partidos. Surpresa perante o facto do independente Sá Fernandes ser vereador com pelouro sob a liderança do PS? Nah…

Novo é o texto do acordo tornado público: tão simples que não permite várias leituras, tão claro que faz saltar interesses instalados à esquerda e à direita. O problema para os críticos não pode ser encontrado na circunstância de Lisboa, já que o acordo fala de medidas elementares, de denúncia fácil se não forem executadas. O quê para o saneamento financeiro e o quê sobre quais empresas municipais, estão a ver? Sobre os transportes, assume-se a defesa do transporte público em detrimento do privado e uma simples medida de reserva de canal para extensão de uma linha de eléctrico, estão a ver? É claro que há assuntos que dependem de negociações com o governo ou ferem interesses que vão resistir por todos os meios. Os construtores civis portugueses não vão aceitar ser tão civilizados como os que operam em Barcelona, Madrid ou Nova Iorque e já começam a faíscar os dentes de ouro dos patos bravos contra a obrigação da quota de 25% para habitação a custos controlados tanto em novos projectos como em operaçoes de reabilitação, como contra a escolha da reabilitação do edificado em detrimento das novas construções. Estão a ver?
No que respeita ao pelouro do ambiente e espaços verdes, assumido por Sá Fernandes, não houve invenção alguma e promete-se que o velho Plano Verde de Ribeiro Teles vai ser vertido para o PDM, como molde vinculativo de futuro, enquanto são referidas, uma por uma, as acções a concretizar até ao final do mandato. Estão a ver?

Eu estou no acordo. Para ver fazer a parte de cada parte. E porque o que António Costa aceitou assinar, faz dele um político de respeito. Há muita gente à espera que falhe. Eu só quero que dê certo. Lisboa é gente e merece que um acordo assim seja respeitado em acções. Por todos. E que todos ganhem na medida do que forem e fizerem.

Por lá e … por cá, também. Que cada um receba em dobro o bem que faz e dobrado castigo para o mal de que é capaz.

[o aveiro; 9/8/2007]



Outros estercos?


Alguns dias por semana, sábados e domingos de Agosto, o homem e a mulher têm de dar comida ao porco. O porco enorme exige algumas refeições de confecção rápida. Uma lavagem especial de fim de semana para o porco da casa? Abóbora cortada sem grande cuidado para um balde sujo com restos de vegetais da cozinha humana, uma medida de farelo, uma couve e água e… já chega! A “suite” porcina consta de duas acomodações. Ao ar livre, sob um céu de parreira, um quadrado amplo para desentorpecer os pernis durante o dia. E um coberto murado com cama de palha fofa para as noites do porco, aconchegadas e calmas. O curral está integrado numa instalação onde há ainda espaço para guardar palha e utensílios e onde brincam galo com galinhas e adoecem pintaínhos.

De manhã, mal fica preparada a lavagem, o homem do serviço de quartos entra no curral. Pelo lado de fora, carregada de batatas, a mulher aproxima-se do recreio do porco, como se fosse preparada para uma pateada a um espectáculo. No cercado hoteleiro, o homem poisa o balde perto da porta do quarto do porco e, por um estreito corredor, entra no recreio. O homem vai abrir a porta do quarto de dormir para a varanda. O porco não tarda a aparecer e, grunhindo descumprimentos e impaciências, agita-se numa passada rápida. O homem sai do recreio coberto e, já no extremo do corredor, pega o balde. A mulher chama porco! a quem o merece e atira algumas batatas em forma de prémio, protesto ou projéctil à passagem rebolada do porco. A mulher chama o porco para o recreio, enquanto o homem despeja o balde da lavagem na pia ao lado da cama. Ainda o homem não saiu e já o porco chafurda a abóbora fresca, com total desprezo pela pateada de batatas. Modelos! – resmunga a mulher.

Cumprido o serviço do porco, o homem olha para as galinhas de que se fala pouco. Uma das galinhas parece manca. Onde estava um esporão e um dedo com garra aparecem duas mal-formações perturbadoras. O homem tenta agarrar a galinha e acaba com ela ao colo. Hesita, antes de tentar retirar o que impede a galinha de andar. Aquelas massas muito duras parecem parecem fazer parte das patas da galinha. Com força puxa e até parece que a pata se vai quebrar. O operador do milagre acaba com duas pequenas bolas de esterco muito secas nas mãos e uma ágil galinha a esvoaçar e a correr… sem lhe agradecer a cura.

Aconteceu mais alguma coisa?

[o aveiro; 30/08/2007]



o mês depois


Um mês depois voltamos aos mesmos lugares. Refrescamos alguns lugares que sabemos de memória. Ainda que o tivessemos desejado, os lugares físicos da memória não desapareceram e nós voltamos a eles tal como eles eram antes do abandono a que os votámos. Eles estão aí com mais uma pequena ruga ou estaladela a acrescentar dados seus à nossa memória deles.
Umas vezes, partimos a desejar que tudo mude. Outras, rezamos para que tudo esteja como dantes ao voltar. Mesmo quando as notícias nos deram conta de muitas mudanças. Nunca desejamos que venha um furacão que tudo arrase e, se vier, ficamos prontos para a reconstrução como se tudo tivesse de voltar a ser o mesmo, mesmo que seja para ser renovado logo que possível. As reconstruções raramente se fazem sem que das cinzas se erga uma imagem antiga que persiste no novo.
Quando nos refugiamos no outro lugar, damos por nós a procurar as notícias sobre o que quisemos abandonar. Fingindo não querer saber, vamos colhendo notas breves, que nos permitem chegar inteiros ao nosso lugar. Sem esperança, mas sossegados, porque sabemos que tudo continua na mesma, o que quer dizer reconhecível. Não fico contente ao ler uma notícia de uma grande patifaria mesmo quando a esperaria de quem a faz. Por ser uma grande patifaria que é sempre contra alguém e contra todos nós. Mas dou por mim a pensar que me sossega saber dos escândalos, das pequenas canalhices, das patifarias negocistas, dos argumentos estúpidos, do ridículo, … E sinto que posso voltar ao meu lugar imperfeito. De certo modo, um lugar imperfeito é onde há sempre lugar para pensar na perfeição ainda que ela não seja deste mundo.
Voltar a casa é voltar a um país e a uma cidade que viveu os seus dias carregando pequenas grandezas, tolices grandes e pequenas e a miséria do costume. Para lidar com isso, lutando contra a miséria e insistindo na denúncia do mal para que este não se sinta em casa em lugar algum. Para que não se repitam os erros. Afinal nos golpes deste Agosto político e partidário não houve novidades de tal monta que envergonhem o passado do mal.
Voltar a casa, no meu caso, é também voltar à escola que tenta ser a mesma quando tem de ser outra, quando a velhice a obriga a retocar-se até deixar de ser a escola de antigamente. E é voltar às ruas de Aveiro, como se fossem os corredores da imperfeita casa que é a nossa.

[o aveiro; 06/09/2007]



s. martinho de mouros


De vez em quando saímos da casca e vamos para um lugar tão distante a que possamos chamar remoto. Quando nos ataca o desejo de sair da casca, ficamos prontos para ir até onde está o exemplo que queremos inaugurar. E se lá chegamos, ficamos tão excitados que nem resistimos a dar uns murros no púlpito de onde pregamos ao mundo inteiro o sermão da excelência do exemplo inaugural. O exemplo inaugural serve sempre para inaugurar uma nova era – a era das coisas como devem elas ser para todo o sempre e enquanto nos lembrarmos do nosso actual ponto de vista.
Este ano saímos nas vésperas da abertura do ano escolar e fomos inaugurar a nova era num lugar não muito longe do lugar onde um presidente sardento tinha presidido a uma desinauguração da era do excessivo abandono do interior. Inauguramos o exemplo inaugural mostrando-o a todos quantos se deixem fascinar pelo que os seus olhos vêem.
Vizinhos felizes do exemplo inaugural, para todos nós, as distâncias são coisa pouca e poucas horas de vida serão gastas para chegarmos à altura do exemplo inaugural. Chegamos a pensar em organizar excursões de curta duração e visitas de estudo para admirar o exemplo inaugural replicável como um marco que assinala onde começa a nova era. Outros de nós preferem esperar um ou dois anos até que numa outra saída da casca nos dê para desinaugurar o exemplo que já era.
Um centro escolar moderno sempre é em qualquer lugar do nosso mundo um bom propósito e um bom tema de conversa. Mas sabemos que é um despropósito toda conversa fiada sobre o que seja o saber, a cultura, a educação e o ensino – humano e frágil lugar de espírito – como coisa intrusa que possa ser criação de uma forma de organizar o espaço habitável. Fora da casca, ímpossível é travar a língua.
Parecia uma nova era anunciada por figurantes numa passarela inerte? Passemos a participantes de uma nova era de ocupação dos nossos mais belos lugares e vivamos uma disciplina do espírito que nos poupe o sermão do exemplo inaugural que já era antes de o ser.

[o aveiro; 13/09/2007]



sobre as águas, o olhar.


Sempre li com atenção especial as entrevistas a pessoas que respeito e os artigos crónicos escritos por pessoas que admiro. Dou por mim a concordar com os seus argumentos e, por vezes, com um estudo inteiro. Digo para mim mesmo que se concordo com a análise e até compreendo as suas consequências, para ser coerente, devo defender isto ou aquilo. Mas não.
Tenho dado por mim a acreditar nos profetas que admiro quando escrevem e dizem que mais vale atinar com alguma corrente para diminuir aspectos negativos de alguma acção ou reacção. Afectam-me especialmente os amigos que argumentam a favor de que o crescimento das cidades e das metrópoles, das redes de distribuição de bens (também culturais) tem um sentido único para onde somos levados como tralha sem utilidade para o futuro que parece querer ser o futuro de ninguém. Mais me aflige a ideia que a cultura popular só pode ser uma concertação comercializável em bolsa.
Mas é o nosso olhar sobre o descampado das águas que avista a nossa substância e o nosso espírito vive mais no que não fizemos do que nas grandes rodovias e construções que levantámos contra o céu. Das cidades que se juntam numa só cidade que é a nossa (Aveiro, Ílhavo e Gafanha da Nazaré, por exemplo), para a fala da alma, sobram-nos as coisas que sempre foram, como se não houvesse memória do tempo em que não eram. O mar, a prata da água, os canais, o lodo, os cricos, o isco, a pesca, o porto, o bacalhau, a faina, a companha, a arte chávega, o sal e os mercantéis, o junco, o moliço e os moliceiros são tudo o que reivindicamos como nossa matriz e mãe de cultura. Até os grandes negociantes (também da política), comerciantes e industriais ou empresários que vivem para o culto do betão, dos rasgões rodoviários e do movimento frenético para nenhures usam e abusam das palavras da matriz.
E, contra toda a razoabilidade da tal inevitabilidade, dou por mim a pensar que a única grande obra entre Aveiro e Ílhavo pode ser uma ciclovia sempre efémera, um caminho pedonal que nos aproxime da água e do que lá está como dantes estava. Nunca uma estrada e muito menos uma rede de ruas, casas e esgotos. Sempre que fazemos uma coisa onde estava outra, estamos a cegar-nos para o que deixamos de ver. A pior cegueira vive numa casa desnecessária.
Como oposição, apresento alternativa: não fazer disparates é o contrário de fazer disparates.

[o aveiro; 20/09/2007]



a história em que ninguém conta


Estou a olhar para o dia que aí vem. Não consigo ver muito bem o que vai acontecer. Ao longo dos anos, os poderosos foram escrevendo, página a página, ano a ano, os nossos anos por viver. Deram-lhe a forma de leis, estudos, projecções, etc. Para nós lermos. Cada uma das páginas reclamava para o futuro que prometiam um ou outro sacrifício, esta ou aquela taxa, etc, garantindo sempre que ninguém melhor que eles podia compreender o que precisava de ser feito… Pediam que acreditássemos até porque nunca se enganavam, raramente tinham dúvidas e estavam de pedra e cal para governar por décadas e décadas, e embora parecessem diferentes seriam sempre os mesmos governos. intermitentemente.

De tudo o que eles escreveram, metade aconteceu mesmo. Os governos repetiram-se por força dos votos de vencidos e convencidos de que para a alternância não há alternativa. De resto, tudo mudou. Os eternos gestores dos dinheiros públicos vieram dizer aos pelintras da Europa que tinham sido esbanjadores, pouco produtivos, nada competitivos, e que, em consequência das políticas erradas e de decisões insensatas e tolas, o país estava a braços com uma crise difícil de superar. Para a combater, novos sacrifícios, mais anos de trabalho, congelamento de salários, etc, tinham de ser feitos pelos pelintras da europa. De um dia para o outro, tudo o que tinham escrito já não tinha sentido e outras medidas se impunham. O que tinham dito ser possível e desejável para amanhã, passou a ser impossível e digno de radical rejeição. Agora, era claro que se tinha trabalhado mal e pouco até agora. E aos velhos de quem dizem que trabalharam mal e pouco, produzindo ruínas pouco competitivas, reclamam agora que trabalhem mais anos, sem esclarecer como podem fazer melhor do que quando faziam tudo mal.

Agora, ficaram tão espertos e atrevidos que dizem hoje de manhã o que devemos fazer amanhã para que tudo corra bem e desmentem hoje á tardinha as ordens que deram de manhã e já tinham provocado mudanças na nossa vidinha. E logo nos repetem a cada desmentido do que dizem que tudo sabem e tudo fazem pelo nosso bem, sendo que o nosso bem vai mudando todos os dias para pior.

Quem são eles? Uma parte de uma história verdadeira que ninguém conta e em que ninguém conta.

[o aveiro; 27/9/2007]



escrito e feito.


Sentado nesta varanda de vendavais, imagina-se a ler um romance. Mais capaz de ler do que escrever, o escritor falhado tenta apanhar o fio da trama. Se um romance é sempre uma teia de relações, bem sabemos todos que há uma aranha que tece a teia e a cada vibração sonha uma vítima. Cada um de nós sonha uma teia para não estar só.

O herói quis contar a sua vida de uma forma muito peculiar. Como se tivesse querido apagar-se, o herói descreve uma paisagem, uma nebulosa de gestos de uma multidão que se move à sua volta. Talvez tenha desisitido de ter vida própria e diz-nos que a sua vida é a vida dos outros. Pede ao leitor os olhos para ver.

A azáfama dos passos em volta faz de personagem e a realidade até pode ser uma azáfama tonta. Será que o autor faz figura de corpo presente e escreve para abençoar uma azáfama de formigas perdidas num labirinto? De nada soube e só sabe por lhe terem contado ou porque apontou num caderno de merceeiro, uma a uma, as andanças que vendeu fiado para ser desapontado a dedo como instigador.. O autor terá inventado um alvo voador para ser em vez dele?

O romance faz perguntas. A verdade pode estar escrita a várias mãos independentes que buscaram contar, sob um nome único, várias contas de um rosário de penitentes. Ou numa única mão de bonecreiro manipulador que dá fala às várias vozes e se comove até às lágrimas do pormenor quando na fala faz as vezes das crianças, dos jovens, dos velhinhos. Sinais exteriores de extravagância estão espalhados por todo o romance até iluminarem o dono do dom da fala em cena.

Fazem perguntas ao romance. E o romance desata um nó de garganta, um soluço perturbado, uma dor de alma. Conta-nos como são feitos os dias: da manhã das migalhas a todos quantos vão comer na mão à tarde peregrina que tudo colhe e tudo doa… a quem doer. Assim se fez um dia para vestir uma voz de povo e outro para ser voz de um dono, um dia de cada vez ou todos num só dia – disse o cuidadoso romance ao ouvido da novela que por ali passava, toda aperaltada.

Novela? – chamou ele, com voz doce. Novelo? – perguntou ela.

[o aveiro; 4/09/2007]



os lados opostos


A propósito de documentos e propostas a precisar de aprovação na Assembleia Municipal, confrontei-me com as duas dúvidas que, mesmo sem dar por elas, sempre viveram comigo.

Uma delas é também uma inquietação e tem a ver com a natureza do voto na democracia representativa. Embora todo o articulado das grandes leis aponte no sentido do voto individual (e intransmissível) e rogue a consciência como única substância da decisão em Assembleia, onde, como tal, vive o eleito, sabemos que, para além da consciência individual, pesa uma pertença a um grupo, a um quadro de ideias ou de doutrrina que incorporou o eleito e tende a impor-se como fundamento de voto. Se defendemos a consciência individual como garante da afirmação da liberdade individual não é menos certo que é garantida a cada eleito a liberdade de optar por votar de acordo com o seu grupo. Aceitamos uma falha no exercício radical da liberdade? Devemos reprovar os eleitos que não exprimem no voto o sentido das suas intervenções? Que sabemos nós dos outros? Capaz para defender quem seja amordaçado, torno-me incapaz de reprovar quem decide optar pelo interesse do seu grupo na hora do voto. Respeitar tal decisão não é também dar liberdade à liberdade individual? Inquieta-me saber que me torno compassivo com alguma coisa que não quero para mim próprio. Deixando que haja dúvida, desmonto armadilhas morais?

A outra inquietação tem a ver com os raciocínios plausíveis e as recomendações de sentido das palavras que podem significar coisas diferentes. Dou por mim, a opor-me ao excesso de rigor que pretende tirar dos argumentos as palavras de múltiplos sentidos, bem como ao excesso de precisão. Os articulados não existem independentes das pessoas que os lêem, a quem se aplicam e que os aplicam… O regulamento escrito regula e pode ajudar, mas não resolve o problema humano. Recomendamos leituras integrais e isso significa ter sempre todos os artigos presentes e não só aquele que radicalmente dirime o conflito de interesses, para além do contexto dos interesses em jogo. E mandamos tudo para o saco do bom-senso dos técnicos e responsáveis políticos. E se eles não tiverem esse bom-senso que nem sabemos bem o que é? O bom-senso é tanto deles como nosso – eis o que eles (e nós) precisam saber. Quando faltar a uns, que aos outros sobre o bom-senso de puxar o alarme e ir à luta.

[o aveiro, 11/10/2007]


16/10/2007


curso de mudanças subterrâneas


Cada governo ou cada partido ou cada ministro sabe que não pode pedir para o seu tempo médio de vida (enquanto ministro da democracia portuguesa) a possibilidade de executar mudanças sustentáveis e verificar, por resultados escolares consequentes, o alcance das suas políticas. Cada ministro sabe que estará reformado ou morto antes de se conhecer o impacto de uma ou outra das suas decisões de política educativa.
A revisão participada do currículo, iniciada por um governo do partido socialista, foi um processo longo por ter chamado à participação efectiva todos os parceiros sociais, mais ou menos organizados e com interesses contraditórios (mutuamente exclusivos em muitos casos), e pela ambição de definir adaptações aos perfis de competências do ensino secundário a exigir adaptações nas ofertas de ensino e de organização das escolas, muito além de simples adptações de programas de ensino. Os responsáveis governamentais por tais decisões políticas puderam assistir ao arranque do seu programa de mudanças. A proposta original não passou completa para a acção e, mesmo já transformada em acção, veio a ser alterada por medidas avulsas dos ministros que se seguiram, sem que os documentos técnicos tivessem recebido adaptação.
Uma revisão participada, lenta, constitui uma fonte de legitimação das mudanças pela sociedade, procura um sentido social para a mudança que seja consentida pelos agentes educativos que acompanham a sua génese e evolução. Uma boa parte da formação para uma mudança por parte dos professores e outros agentes fica consolidada, ao menos como necessidade sentida, na fase preparatória.
Reforma alguma se compadece de poderes que almejam principiá-las e vir a colher frutos. Em democracia, os poderosos têm contrato a termo certo. Mas incapazes de cumprir os seus nobres papéis de executantes honestos das grandes políticas de regime, os políticos de ocasião anseiam por arranhar uma eternidade de circunstância.
A actual nova ministra actua nessa revisão curricular participada, ainda não completamente transformada em acção. Grande parte dos documentos reguladores da organização de oferta educativa e dos programas de ensino mantêm-se aparentemente em vigor. Mas, ao arrepio da lei escrita, este ministério tem conseguido realizar uma clandestina revolução curricular e organizacional. Estão a ser postas em prática por via autoritária muitas medidas que não passaram nas negociações da revisão participada e sem constarem em papel timbrado. Recados e telefonemas das direcções e secretarias fizeram nascer de quase nada cursos profissionais e transformaram os, até há pouco, cursos tecnológicos de futuro em coisa nenhuma do presente. Sem qualquer ligação às empresas das suas regiões e sem quaisquer acordos protocolares, previstos em lei, as escolas públicas ganharam cursos profissionais e os estudantes que tinham pedido a sua matrícula em cursos tecnológicos acabaram matriculados em cursos profissionais com currículos diferentes, em alguns casos, mesmo com novas disciplinas em que não se inscreveram. E tudo feito sem que aos professores fossem dadas quaisquer oportunidades de formação para os programas que conheceram em Agosto e leccionaram a partir de Setembro.
Estes falsos cursos profissionais têm falsos aspirantes a profisisonais. Professores impreparados para programas práticos e para avaliações subordinadas ao desempenho profissional que nem sequer está no centro das preocupações já que não há empresas de serviços, comerciais ou industriais envolvidas como ambiente, presente ou futuro, de algum desempenho.
Mesmo que a razão prática nos diga haver justiça na aproximação ao trabalho, nada sobrevive em adversativa ideológica, em recusa ao trabalho de hoje, ao estudo. E nada sobrevive no ambiente de desregulação completa da profissão de professor. Profissão, sim! Mas que profissão? Com quantas ferramentas trabalha um professor? Com quais e com quantas pessoas trabalha um professor?

[a página de educação; Novembro de 2007]



6.10.07
as pequenas parcelas


Olho em volta. Rodando sobre os calcanhares, olho a toda a volta. Tento ver tudo. Mas sei que não vejo tudo o que quero. Há pormenores que me escapam, sei de alguns detalhes que de mim são escondidos e até sei que, em troca, detalhes há que se agigantam mesmo debaixo do meu nariz, pequenas parcelas que, em pontas de pés, acenam a chamar a atenção do meu olhar.
Há paisagens de que reconheço os detalhes. E de tal modo que estes perdem sentido se os tiramos da paisagem em que os vemos. Quando assim acontece, o meu maior interesse está no jogo do máximo prazer: reconstruir a paisagem com o máximo de detalhe, com todos os detalhes. Por conhecer bem a paisagem, sei reconstrui-la tanto a partir de poucas como de milhentas pequenas parcelas, fazendo variar a densidade do olhar.
O pior para mim são os detalhes que se agigantam a meus olhos como taipais sem que saiba de onde chegam, nem para onde vão ou onde querem chegar. E a discussão política local, a decisão política a que preciso de dar uma atenção fina aparece-me mais como uma sucessão de casos do que como uma paisagem que vamos pintando, retocando ou restaurando. Queria a paisagem em que cada caso fosse caso consistente com a paisagem da nossa vida colectiva ou erro a evitar.
A vida política local está cheia de passado e de decisões regionais ou nacionais que nos tolhem os passos. De certo modo, o nosso presente de dúvidas tem de sobreviver sob uma chantagem permanente de compromissos vindos de outros tempos ou de outros lugares. Se procuramos dar um lugar ou uma paisagem política a um caso ou outro, ficamos a saber que não há nada a fazer ou há a resignação que sobra para o caso em estudo. E não depende de nós. Haverá outros casos em que, por serem casamentos já consumados, apelam à revogação dos compromissos dos planos e companhia e com carácter de urgência.
Dou por mim a pensar que sempre que apoio uma decisão para um osso – caso descarnado – estou a dar um passo, antes de outro e outro, no vazio da queda para um abismo cheio de casos fechados em si mesmos, cuja soma quer ser a verdade toda da política. Por vezes, dou por mim a olhar a vida comum como um caso sério, caso e casa de estranhos.

Pode alguma coisa ser o que não se vê?

[o aveiro, 18/10/2007]



mais os mesmos


Todos sabemos que a maior parte dos programas de ensino são nacionais. Todos sabemos que os professores têm todos a mesma formação superior, mais coisa menos coisa. Todos sabemos que as escolas fazem planificações do trabalho lectivo de modos muito semelhantes. Todos sabemos que os professores ensinam as mesmas coisas e que os alunos que aprendem alguma coisa aprendem a mesma coisa. Todos sabemos que os jovens portugueses são, na generalidade, muito parecidos, com acesso a produtos culturais massificados e transmitidos pelas centrais mundiais que uniformizam gostos, atitudes e valores. Todos sabemos que as formas de vida da generalidade das famílias são parecidas no que toca ao tempo disponível para os filhos. Todos sabemos quais são os hábitos gerais de leitura juvenil e sabemos os números a esse respeito recentemente publicados. Todos sabemos que as notícias garantem que o país está a equilibrar as finanças públicas e que o défice está controlado. Todos sabemos que não sabemos o que isso quer dizer a não ser que os nossos consumos se reduzem por medo e por pouco tempo. Todos sabemos que a taxa do desemprego não parou de subir, mesmo quando nos dizem que desceu. Todos sabemos que não sabemos como é que as famílias tocadas pelo desemprego de longa duração sobrevivem e todos sabemos qual é o cheiro da pobreza. Todos sabemos que os jovens dormem pouco e chegam estafados à escola diurna para confirmarem que não rendem. E todos sabemos que quem frequenta a escola nocturna lá chega estafado pelo trabalho que não rende e é natural que a escola não renda. Todos sabemos que, no nosso mundo, para a escola vai quem não trabalha e para o trabalho vai quem não estuda. Todos sabemos que fazemos parte da europa e que dela pinga a ajuda que nós precisamos mesmo quando não sabemos de que ajuda precisamos. Todos sabemos, porque nos disseram, que nós precisamos de estar actualizados e que a nossa capacidade de competir vem de termos tecnologia, mesmo que a não saibamos usar de forma inteligente e a favor da nossa humanidade. Todos sabemos que é muito importante sermos presidência europeia e termos conseguido o tratado porreiro mesmo sem sabermos ler nem escrever o que quer que seja sobre o tratado. Todos sabemos que não sabemos o que fazer de nós mesmos para não sermos mais os mesmos e sermos… os outros portugueses que prometemos aprender a ser.

[o aveiro, 25/10/2007]



As listas ordenadas


As perguntas não se fizeram esperar. Logo que o Ministério da Educação tornou acessíveis os dados dos exames deste ano, começaram as perguntas sobre as listas ordenadas das escolas. Pela primeira vez, o Ministério forneceu os dados para a comunicação social ao mesmo tempo que para o público em geral. E este facto acrescentou ainda mais controvérsia à controvérsia de sempre em torno dos resultados dos exames nacionais. Redacções houve que imediatamente publicaram as suas listas, enquanto outros reclamaram tempo para tratar os dados e publicar análises mais trabalhadas.

Pudemos passar os olhos por duas das listas publicadas. À procura de sinais, lemos os critérios e sigo os meus dedos linha a linha até encontrar uma ou outra escola. Guardo de memória algumas escolas que possam ser comparadas, por exemplo, as da mesma cidade. Os quadros de professores e as culturas profissionais são muito semelhantes, embora possam variar as instalações e as pessoas – professores e estudantes.

O exemplo de qualquer escola dá para olhar com olhos de ver. A Escola José Estêvão ocupa a posição 95 na lista publicada no DN/JN, e, na lista da SIC, ocupa a posição 39. Tudo depende das disciplinas cujas notas contribuem para a ordenação. E é claro que tudo depende do número de alunos que realizam os exames em cada disciplina, o que é o mesmo que dizer que tudo depende do número de alunos que a escola leva a exame. O que faz toda a diferença: uma escola que leve a exame só os melhores alunos ocupará um melhor lugar na lista ordenada. Porque ninguém pergunta quantos alunos se excluem da lista ao longo do ciclo de ensino. Perguntam-me muitas vezes: Então as escolas deixam ir a exame alunos que não estão preparados para concluir o ciclo de estudos? E a resposta não pode ser sim ou não. Eles podem estar em condições de concluir um ciclo de estudos sem que isso signifique prestarem obrigatoriamente boas provas de exame. Eles podem estar preparados para uma boa prova de exame sem que estejam preparados para concluir um ciclo de estudos.

Parece complicado? Não é. Para as escolas, pais e professores que se ocuparam do crescimento em graça e sabedoria das crianças e jovens nada disto é estranho. Mas quem mais quer saber das pessoas quando as pode substituir pelos seus números? Estes números, agora publicados, são muito relevantes e ajudam muito quem precisa de compreender para actuar. Mas não são tudo. E isso é tudo.

[o aveiro; 1/11/2007]



os dias que faltam


Tenho ouvido falar muito sobre o estatuto dos alunos. Governo, partido do governo e parte da oposição falam sobre o assunto aparentemente com alguma paixão política. Mas em tais termos que dou por mim a pensar que é como se ninguém quisesse saber dos verdadeiros problemas actuais que enfrentamos e antes estivessem todos interessados em descansar clientelas – de interesses, partidárias, ideológicas, … não consigo perceber bem.

Do estatuto dos alunos, o assunto dominante é feito de faltas que se podem dar e de efeitos das faltas que se dão. Um dos dilemas aparentes a separar a direita da esquerda é sobre isso.

Do estatuto do aluno ou outro qualquer regulamento aplicável a pessoas que requerem serviços do estado com mobilização de recursos da sociedade não devia constar especificação sobre o direito de faltar. Não é normal esperar que falte às marcações quem pediu os serviços. E não é normal que se diga quantas vezes pode faltar sem consequências de maior. Como não é normal esperar que o agente prestador do serviço falte e muito menos se estabeleça quantas vezes pode ele faltar sem problemas. Pode ser preciso e inevitável ao requerente e ao agente faltar a uma marcação. Mas isso deve ser objecto de tratamento e apreciação dos responsáveis dos jovens e dos serviços, caso a caso, falta a falta.

Sobre este assunto, as garantias estão na exigência dos cidadãos quanto ao direito de base do respeito pela sua vida individual e quanto à qualidade dos serviços que tornam a vida social democrática possível, de cada um e de todos.

A minha mãe nunca me falava de faltas que se dão e só de faltas que se cometem. Eu sei que me apetecia faltar, que queria abandonar as coisas de que não gostava no momento. Mas a voz da razão de outros lembrava-me todos os dias que, ainda que mal feito e desajeitado, os outros contavam com a minha contribuição infinitesimal. Não me lembro de faltas sem consequências, nem me lembro de reprimendas quando tinha mesmo de faltar.

Os alunos que dão faltas às aulas e a quem os pais faltam, faltam ao respeito a toda a gente. Temos de conquistar o seu respeito, dando-nos ao respeito. O governo deve dar meios às escolas (autoridade, por exemplo) para tratar deles e acompanhá-los até à saída desta vida se a recusarem persistentemente. Os professores, que conhecem os alunos que cometem faltas contra eles, precisam de saber o que acontece ao jovem se sair da escola como jovem e problema. As instituições e os agentes educativos precisam de saber o que o estado está decidido a fazer para além de mandar para debaixo de um tapete de palavras os jovens e os pais que dão faltas uns aos outros.

[o aveiro; 8/11/2007]



o estendal


Vejo poucos estendais quando passo nas ruas de Aveiro, como se a roupa lavada desta aldeia tenha sido escondida em vãos de escada, ou quem sabe, em tambores de milhares de máquinas de lavar e de secar roupas. O número de máquinas é prova de desenvolvimento e progresso da cidade? Ver poucos estendais nesta cidade de vento à solta é prova de parolice de novos-ricos e isso nada tem a ver com desenvolvimento e progresso. Tem a ver com compra e venda de um bem escasso, de energia eléctrica num país doentiamente dependente do estrangeiro, e incapaz de criar formas alternativas para a produção de energia eléctrica.

Não me parece que a esta situação sejam alheias decisões políticas, urbanísticas. E não me admiraria muito que entre os entusiastas das varandas livres de roupas voadoras estejam alguns dos que falam a favor da energia eólica, da poupança da energia e de outras coisas que o actual senso comum não dispensa.

Não me chega que os responsáveis se mostrem politicamente correctos em geral (e são-no muitas vezes ao mostrarem-se favoráveis a políticas de que não são decisores) enquanto tomam decisões erradas e contraditórias com a necessidade da poupança de energia e de favorecer a produção alternativa de energia ou, ainda mais simplesmente, a utilização de energias renováveis para a … secagem de roupa, por exemplo.

Vejo poucos estendais na cidade de Aveiro. Vejo poucas pistas cicláveis fora da cidade e ainda menos caminhos exclusivamente pedonais, cuidados e sinalizados, para os aveirenses que, quotidianamente, passam marchando esforçadamente. Procuro carreiros que levem os caminhantes por aí fora, atraídos por bosques e parques, pela beira-rio, pelas beiras dos braços da ria. Mas se não vejo carreiros, nem quem reze por sua intenção, vejo quem seja capaz de lhes encomendar a alma falando de futuras estradas onde elas estão.

Algumas medidas importantes para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos de Aveiro não custam fortunas nem são impopulares. O que lhes falta para atrair a acção dos responsáveis?

Dêem-me carreiros e estendais, passeios em volta e roupa ao vento. Poupem-me o retrocesso à idade da idolatria das máquinas.

[o aveiro; 15/11/2007]



o estendal à chuva


Há duas semanas, o céu dos Açores desabou. Não posso dizer que tenha sido apanhado de surpresa. Até recebi a pancada de água com algum prazer. De certo modo, senti algum conforto ao receber por lá a água de que sentia a falta por cá. As máquinas que me acompanharam na descida daquela rua de Angra é que não gostaram. Mais tarde conheci o desagrado das máquinas, ao ver como elas se despediam do emprego alegando justa e húmida causa.

Habituei-me a esperar as estações do ano como me lembro delas e custa-me ver quando elas se aproximam de nós a fazer-se passar pelas outras.

Por isso, quando chegou a manhã de segunda feira, mal levantado do chão da noite onde tinha adormecido, agradeci ao manda chuva aquele escuro céu de mágoa. Quando saí de casa, já me apoiava à bengala que, quando não suporta o peso dos meus passos, se abre ao peso da água que cai. Sem precisar do guarda-chuva, cheguei à escola com todos os sentidos em alerta para não perder o instante da água. O vento não nos roubara o céu escuro e o cheiro do ar dizia-nos que a água do alto ansiava juntar-se à terra de água. E aquela mágoa feita dor finíssima, descendo do ombro até ao dedo que apavorado adormece, anuncia aos quatro ventos a tempestade.

Não me valeu de grande coisa a intenção da atenção. Não dei por ela quando ela começou a cair. Quando ela chegou, estava eu a prestar atenção às pessoas que aparecem em cada dia e em todos os dias, aparentemente as mesmas e sempre diferentes a reclamar a parte que lhes cabe na vida dos outros.

Saí mais tarde para a rua, o chapéu aberto contra o céu fundente. Para sentir o bafo húmido do dia, para molhar as mãos no ar, para ouvir o céu pingar e resvalar até às pontas das varetas do (ex)guarda-sol. Gosto de sentir a água na cara, de a saber a andar por aí em volta a dar peso à poeira que, ainda no último domingo, levitava à luz como se fosse poalha de ouro.

Sem corantes, sabores ou cheiros, de água simples se faz uma chuva de prazer e paz. De palavras de água, também. Mas também sei que de ácidos e ácidas palavras se formam nuvens e se fazem armas de chuva.

Não hão-de ser algumas gotas de chuva ácida a tirar-me o prazer do ar da minha rua.

[o aveiro; 22/11/2007]



dos impostos


A toda a volta, a nossa vista pode demorar-se em montras. A nossa necessidade é reconhecida pelo grande catálogo que se abre para mostrar todas as formas de a satisfazer. Nem escolhemos. Estendemos a mão e a mercadoria encaminha-se até uma passadeira rolante que passa por nós. Ou assim parece.

Serviços, produtos industriais e agrícolas, bens de cultura, serviços religiosos e espirituais, moral, maus e bons costumes são mercadorias e cada um de nós produz alguma coisa para o mercado e cada um de nós procura alguma coisa que com certeza há no grande mercado global.

Aprendemos a maravilha deste mundo seguindo ao longo da montra sem princípio e sem fim. Pode mesmo acontecer que não possamos comprar o que queremos ou nem sequer o que precisamos, mas sabemos que tudo o que podemos querer está em alguma prateleira do grande mercado. Como é que tudo isto funciona? Localmente vimos todos os nossos defeitos e parece que, a partir de nós, nada pode funcionar bem. Mas sabemos que, globalmente, tudo parece que funciona. E há quem sossegue com as aparências.

Quando paramos para pensar no processo, percebemos como o sistema é complexo. Basta pensar na diversidade de mercadorias e na composição de cada mercadoria. A compra de uma mercadoria (serviço, produto, bem,…) efectua-se contra um pagamento. Uma parte significativa do valor a pagar parece não ser trabalho incorporado, nem matéria prima, nem lucro do investidor. São taxas, impostos e similares.

Há quem diga que essa factura devia ser paga pelo produtor ou o prestador do serviço e não devia ser mostrada ao cliente final. Mas todos sabemos que uma parte significativa do valor das mercadorias vem da organização social e económica que garante as condições para a sua produção – no que respeita à educação e aos cuidados de saúde dos produtores, investigação em ciência e tecnologia, produção e transporte de energia – e para o seu transporte até ao comprador – estradas, caminhos de ferro, portos, aeroportos, ….

E sabemos também que, em cada nível de decisão sobre impostos, devemos ser capazes de esclarecer e provar a justeza e a necessidade da cobrança. Só depois? Com obra feita?

As últimas sessões da Assembleia Municipal de Aveiro trataram dos impostos. Cada um de nós é parte nessa decisão. Não é?

[o aveiro; 29/11/2007]



a última palavra


No sábado passado, em família, fomos ao(s) concerto(s) de encerramento de “Sons em Trânsito”. No regresso, o músico da família comentava a natureza da adesão que cada um dos concertos reclamara e obtivera. Como se o público tivesse estado dividido em duas partes, uma para a adesão ao primeiro concerto, outra para o segundo. O monólogo separava as propostas estéticas em categorias tais que só públicos diferentes poderiam aderir realmente a uma e a outra. O monólogo argumentava especialidades a separar as sensibilidades e exigia alguma razão científica e literária como suporte de adesão. Fui pensando no que teria sido a adesão a uma e a outra das propostas ou aos seus vários andamentos, já que ambas oscilaram entre registos distintos, da adesão imediata ao corte por via de referências inacessíveis.
A discussão sobre a adesão a propostas estéticas é a discussão sobre a adesão a qualquer proposta. Há níveis de adesão distintos uns dos outros; a adesão de uns pode ser mais fundada em critérios estéticos ou científicos, podendo chamar para si uma razão para a emoção que explica a emoção. O chamamento de pareceres técnicos e científicos para apoiar uma determinada decisão serve mesmo, muitas vezes, como almofada de consciência em decisões onde prevalecem imperativos morais. Parece estranho? Muitas das decisões que pisam o risco do sustentável em termos da humanidade e da terra onde se reuniram as condições para a sua criação, chamam uma particular razão científica em seu apoio, sempre que a razão científica geral desaconselha. A razão científica particular releva sempre do interesse particular e da ordem do imoral: “se não for eu a fazer, outro fará pior!”
A discussão sobre o aeroporto para Lisboa é exemplar a este respeito. O conjunto, ainda numerável, de pareceres científicos que apoiam decisões diferentes para um mesmo problema são da ordem da machadada. Já assim tinha acontecido com a localização das unidades de incineração e, por isso, Sócrates pode reclamar uma vitória a dois tempos. A ciência apoia mas não toma decisões, os políticos decisores somam razões para colher adesões à sua decisão.
A forma como aderimos e apoiamos ou rejeitamos pode afinal ser muito variada. Mas será que há adesões (ou rejeições) melhores que outras? E haverá um“a última palavra”?

Concertos desconcertantes!

[o aveiro; 6/12/2007]



publicidade paga


Neste segundo semestre de 2007, Portugal tornou-se o país de todas as cimeiras. Não só por ter assumido a presidência da União Europeia.

Logo por sorte ou por azar a cimeira ibero-americana deu pano para mangas. Com o “Porque não te calas?” em castelhano real, os nossos Presidente e Primeiro ganharam altura e tempo aos nossos olhos presos até prejudicarem a atenção aos problemas com emigrantes portugueses na Venezuela.

Já no âmbito da presidência europeia, foram tantas as conferências e cimeiras que chegamos a pensar que, depois do tratado de Roma, são de Lisboa todos os grandes documentos de tal modo se colam virtudes e importância aos papéis europeus começados e acabados em Lisboa.

Alguém se lembra das promessas europeias da Lisboa de Guterres? Ninguém se lembra dos compromissos de Lisboa tão saudados e adiados. Portugal associa o nome da sua capital até a compromissos porreiros sobre futuras assinaturas comprometedoras, emendas, corrigendas, dito por não dito.

Outros países europeus que receberam grandes conferências para convenções e acordos associaram tais eventos a pequenas cidades mais ou menos desconhecidas. Tratados e acordos verdadeiramente importantes (para o bem e para o mal) são conhecidos por estranhos nomes.

A cimeira Europa-África trouxe a Portugal os chefes dos estados africanos, parte deles déspotas terríveis, alguns recauchutados ainda com tripas no lugar do coração, reconhecidos criminosos com passaporte diplomático, etc. Neste grande mercado de influências, os direitos humanos ficaram guardados à vista dentro de uma mala diplomática.

Jornais portugueses publicaram anúncios de página inteira em que um ditador promove as suas ideias contrárias a convenções internacionais e às instituições de justiça e direito internacional que os governos europeus assinaram e promovem. Esta campanha publicitária paralela associada à cobertura da cimeira – o teor das notícias sem teor combinado com a ostentação simbólica de movimentações em circuito fechado – leva-nos a pensar que, afinal, talvez tudo, mesmo tudo, não passe de publicidade paga.

[o aveiro; 13/12/2007]



à maneira de almada


Nos Jerónimos, há nove dias, um repórter de televisão perguntava a um operário do cenário o que pensava ele sobre qualquer coisa. Ele respondia que, se não fosse para a televisão, podia ouvir-se o que ele pensava. Nada pode ser mais claro sobre o acontecimento histórico do dia seguinte em que os gestores da europa de risco assinaram um papel, sob um fundo construído para o momento de um espectáculo. Pouca gente já conhece o enredo da telenovela, da qual vai ser transmitido a bicha das assinaturas, o cenário. Vagamente nos disseram que se tratava da carta dos direitos dos cidadãos europeus, omitindo que cidadãos europeus da primeira linha tinham votado contra a primeira coisa alterada e piorada para que políticos de hoje dispensem as consultas populares que ontem exigiram ou prometeram caso fossem eleitos.

Os políticos do poder pensam sossegar-nos quando dizem que esta carta é mais pobre que a nossa constituição. Mas se a carta de direitos dos europeus é mais pobre em direitos que a nossa constituição, será que estão a pensar em alguns cortes nos nossos direitos? Porque se esforçam eles para não falar do conteúdo da coisa?

Destes feitos históricos, sobram os cenários, os fatos, os vestidos, as canetas, a forma como se senta, a cor das meias, os olhares, os bocejos, os passos, o instantâneo de um pé de orelha, a luz, o azul, as estrelas, a canção do mar, … O feito histórico está na fotografia frente ao cenário, é o discurso em louvor do momento e das assinaturas do acordo: esse oculto.

Pelas televisões, os doentes acamados seguiram a história a ser feita, fato a fato, por senhores dos passos e assinaturas treinadas para estas ocasiões de prata. Dos transistores, os ouvintes que se distraíram pensam que ouviram uma missinha mal cantada, sussurrada por um crente agnóstico, a partir do Mosteiro dos Jerónimos.

As pessoas comuns, que passam sem parar, lembram-se de deputados europeus mal educados a quem o Sócrates convenceu com imensa piada que defende isto em vez daquilo e o Sócrates que nós conhecemos defende o que é melhor para os portugueses que é o que, em cada momento, é melhor para que os rios continuem a nascer no mar. E lembram-se do operário que, sem dizer, disse o que toda a gente pensa.

[o aveiro; 20/12/2007]



Quem somos quando chegamos?


As pessoas comuns existem desde que sejam chamadas pelo nome. A existência confirma-se no chamamento feito por um familiar, por um vizinho, por um companheiro de trabalho. Termos um dia ouvido dizer um nome, chega para garantir a existência de alguém que nunca vimos. Para alguns de nós, tal existência depende da fé em quem diz, em quem nomeia. Sem distinguir a realidade da ficção, a existência de um ser pode não passar de um enredo de poucas palavras ditas por uma autoridade.

Cada pessoa escolhe as autoridades que podem nomear. Assim passamos de geração em geração, pela fala dos mais velhos, a existência deste ou daquele ser. Mesmo depois de reconhecermos a falta de documentos de prova, há pessoas e seres que existem por terem sido nomeados por alguém a quem reconhecemos autoridade para o conhecimento e sua transmissão. Há palavras que valem mais que mil documentos. Algumas dessas palavras ouvidas foram escritas e até gravadas numa voz serena a convencer-nos da existência do inexistente.

As autoridades modernas, reconhecidas pela maioria, acrescentam imagens às palavras e criam documentos complexos. Acabamos a aceitar que o que nos mostram existe e é importante a ponto de merecer ser apresentado a milhares ou milhões de pessoas. Por esta via, passam a existir pessoas importantes e poderosas ainda que não existam. E são essas que afinal existem mais vezes ou que aparecem mais vezes. A partir de certa altura, deixamos de ter a certeza se são manequins que estão em todas as montras por onde passamos ou se somos nós que passamos pela montra onde os manequins se repetem em cenas da ficção de vida que lhes foi atribuída.

Perdidas de vista as pessoas, ficámos apanhados por personagens. Olhamos, sem ver, as pessoas que conhecemos enquanto se preparam para serem personagens das televisões. Apareço ou morro? – perguntam umas às outras.

Quem entra neste combate, morre. Ou desaparece em parte, sempre.

Como um cortejo de tragédias e inexistências que queremos esquecer, morre o velho ano velho. E há os que vão nascer ou renascer. Como saber quem chegamos a ser em 2008? Somos o que fazemos? Ou o que fazem de nós?

[o aveiro; 29/12/2007]