2006


a meia rasa


Só não fui para padre, porque era muito pequeno e seria motivo de risota em qualquer paróquia quando tivesse de pegar na minha meia rasa para chegar ao altar. A meia rasa era uma caixa rectangular que servia para medir cereais e, no meu caso, podia servir-me de degrau para o trabalho no altar ou para que, a ser pregador, fosse visto por cima da balaustrada do púlpito.

Uma meia rasa supriria a minha dificuldade de baixote. Ninguém punha em causa que a criança tímida pudesse aprender a essência da doutrina da igreja para a recitar ao povo dos fiéis ou até argumentar para alumiar alguma comunidade cristã com a chama da fé que me sobrava, ao que me lembro.

Embora os rapazes da minha aldeia (que me lembro de ver partir para estudar as segundas letras) tivessem ido para o seminário, eu não saí da aldeia por essa rua estreita. Nem pela outra que era vir para o sal finda a terceira classe ou, passados uns anos no sol a sol do campo, para a distância das Amercas ou dos Brasis para onde perdêramos de vista o meu pai e outros homens com valia para vingar longe da nossa miséria.

Alguém me empurrou para fora do berço e da aldeia, caí em escolas várias em busca da verdade. Nunca me fez falta a meia rasa para erguer a voz quando comecei a cantar. E aprendendo a ver, ouvir e ler dei por mim a vacilar. Mudei as vezes necessárias para continuar no essencial o mesmo. Gritei e argumentei uma boa parte da minha vida. Fracas armas as palavras nuas de quem não pode oferecer mais que a esperança da justiça e a luta pela liberdade. A democracia vale a pena como o mais rico regime em diversidade de ideias, como construção complexa. Chegámos a pensar que as nossas ideias não valiam. Mas, gloriosamente, renascíamos sempre que nos ouvíamos a falar por cima do silêncio opressivo de quem nos calava e se calava. Mais gloriosamente ainda renascemos quando resistimos à tentação da censura, à tentação da pressa.

A maioria absoluta na Câmara e na Assembleia explica pouco, torna-se rápida e obtém, por via dos votos, a aprovação das suas propostas. Com decoro, a maioria ouve os mínimos da oposição. Feito de regras, formalidades e pouco mais, o debate torna-se pobre e insuficiente. A maioria fez-se surda depois de se ter mostrado pouco menos que muda. Falta-lhe mais que meia rasa para oficiar no altar da democracia.

[o aveiro; 5/01/2006]



contra-reforma! conta-reforma?


Um dia destes, vi uma mulher a caminhar pelo meio do rio. Espantado, dei por mim a chamar por ela, da minha margem esquerda. Ela acenava-me e continuava o seu caminho como se o rio fosse uma rua segura.

Um dia destes, o ministro das finanças disse que a segurança social está falida. Uma ameaça atómica – dizem – esta da falência do estado social para que todos nós aceitemos novas restrições, novos apertos. Disseram-me para viver sem dormir ou vivendo um pesadelo futuro. Um dia destes, os candidatos a presidente da república que apoiam as posições dos governos ps/psd/pp face à segurança social fizeram-se ouvir a dizer que não há problema e se houver vai ser resolvido. Cavaco Silva, para nos sossegar, até nos diz que já é reformado e não teme pelo futuro da sua reforma. Soares não falou da sua reforma, mas parece-me sossegado. Manuel Alegre também me parece sossegado e alegre. Mandam-me dormir descansado e garantem-me um bom sonho.

Perguntei à mulher que toma o rio pela rua se esta bomba atómica da segurança social tem alguma coisa a ver com as novidades atómicas do médio oriente dos últimos dias: pacíficas armas nucleares israelitas e aterradoras garantias do governo iraniano de que retoma os programas nucleares para fins pacíficos. Ela encolheu os ombros de funâmbula enfadada.

Cansado destas coisas atómicas que são sonhos e são pesadelos, preparo-me para acordar. A mulher que pesca espíritos no meio do rio explica-me pacientemente que as bombas atómicas já não são o que foram e muito menos o são em tempo de campanha presidencial. Perguntei à mulher o que vão fazer os velhos presidentes reformados depois de serem eleitos sobre estas preocupações atómicas de que hoje se fala. Ela disse-me:

Amanhã esqueceram-se de hoje. O que eles sabem é que a indústria nuclear, ainda que com bomba, é boa se for a nossa. E que não há problemas com as reformas … dos políticos reformados que nem das reformas precisam. Falarão das reformas … da segurança social, com as intenções do costume.

Por ter dito a verdade, a mulher afundou-se na fantasia. Eu acordei afogado em suor.

[o aveiro; 12/01/2006]



Pela Constituição, … votar! Votar!


A tendência para o aumento das desigualdades entre ricos e pobres está a aumentar em todo o mundo. Portugal é de todos os países da comunidade europeia aquele em que são maiores as desigualdades de rendimentos entre os ricos e os pobres e não cessam de aumentar. Não é só o abismo entre ricos e pobres que cresce e nos diz que estamos a andar para trás relativamente à Europa em que nos integramos: temos a pior (a maior!) taxa de abandono escolar e o maior índice europeu de pobreza persistente. Cerca de dois milhões de portugueses vivem com menos de 350 euros por mês.

Estamos a chegar aos 500 mil desempregados. Há empresas a perder a face humana e a não olhar a meios para maximizar o lucro. Sem pingo de vergonha, empresas descaradas recebem subsídios do Estado em troca da promessa de criar empregos e, logo que cheiram melhores condições de exploração noutro lugar do mundo, abandonam a uma sorte madrasta os que acrescentaram riqueza à riqueza das empresas. Falências fraudulentas, faltas de pagamento das prestações devidas à segurança social, etc.

Quem não se sente mal?

A respeito destes problemas e da preservação do património ou dos serviços essenciais, os governos de Portugal têm vindo a abrandar as políticas sociais correctoras e a acelerar as privatizações e as medidas liberais, fazendo do Estado uma empresa medrosa de fretes ao grande capital financeiro, com o argumento de ser preciso criar condições favoráveis ao capital ?empreendedor?. E tudo isto é feito por governos do PS, do PSD e PP. E ao arrepio da Constituição da República Portuguesa.

De que Presidente precisa Portugal? Basta-nos ter como Presidente um homem sério, solidário e competente. Afinal, o que esperamos é pouco e é tudo: queremos um Presidente que defenda a Constituição da República, à luz da qual é eleito e a qual vai jurar defender. Olhamos para os candidatos e seus apoiantes e sabemos quais jurarão falso se chegarem a jurar defender a Constituição.

Cavaco é um daqueles que faz juras de amor á Constituição enquanto sonha apoiar todas as cirurgias plásticas que lhe mudem a face. Ele é um daqueles economistas que entende que as pessoas de hoje não existem e que o desemprego de hoje, os baixos salários ou a flexibilização dos horáríos são condições necessárias ao desenvolvimento a prometer empregos ao futuro na reparação das ruínas do presente.

O que é preciso é votar pela Constituição contra Cavaco! O que é preciso é votar Louçã pela Constituição, suas garantias e tudo o que de bom lá vive em palavras. Para nos sentirmos bem.

[o aveiro; 19/01/2006]



Nota: Este texto não foi publicado. Em sua substituição, a (direcção ou a) redacção de O AVEIRO publicou um texto de Daniel Oliveira (também do Bloco de Esquerda e que escreve para o Expresso), que não versa as presidenciais, mas a cultura e o seu ministério… Fico à espera. De quê?
Quem não se sente mal?



Onde o que parece é


Concentro-me no meu papel. Preparo cuidadosamente uma aula sobre cálculo de limites. Sem papel, escrevo no ar um exemplo construído para abrir um debate com solução à vista. Sei que, amanhã, mesmo sem pensar nisso, cada estudante vai procurar, na sua arrumação de utensílios recentes, os que sabe usar. vai testar cada um deles até encontrar a chave que abre a porta do problema que dá para a solução. Embora se trate de um cálculo, o limite exige mais que uma operação vulgar, mobiliza conhecimentos que sempre andaram por aí e convergem para este novo cálculo de síntese.Calcular limites é lidar com o infinito, com o infinitamente grande e com o infinitamente pequeno e é, por isso, arranhar a linha do horizonte.

Olho para os estudantes a manejar com naturalidade, aparente negligência ou à vontade, ferramentas que eu reconheço como fim de linha de uma produção humana de milhares de anos. Olhar para eles, olhando para mim. E ver, sem ver, uma aula em toda a sua pequenez cercada por quatro paredes de dúvidas e em toda a infinita grandeza do espírito humano sem fronteiras.

Vivem-se momentos de puro espanto quando tomamos consciência da infinita potência destes infinitamente pequenos acontecimentos. E deixo então que me assalte uma arrogância irracional, um desprezo irracional pelas pequenas coisas, pelo que está fora desta deambulação espiritual de funâmbulo na corda da matemática humana, exclusivamente humana.

E quase esqueço os discursos que são para as ocasiões, para serem soletrados em cada um dos nadas que é preciso sublinhar para sublimar o vazio que aflige as maiorias, para mascarar de decência a falta de pudor.

Nesta paragem do tempo no infinito da sala de aula, nada nem ninguém me pode negar o momento da paz, da harmonia com um pequeno mundo de olhares humanos em harmonia completa e comprometida, mesmo que inconsciente, com este presente do mundo passado. E em harmonia com o futuro que vive da fé infinitamente grande nos homens e nas mulheres em busca, em mudança, em metamorfose.

Nada vale a pena se isto não valer a pena! Uma aula de limites, de infinitamente pequenos pormenores, pode ser o acontecimento mais importante de que vale a pena deixar testemunho, como prova de vida, numa semana como esta.

[o aveiro; 2/2/2006]



Anjos de orelhas quentes


Segunda-feira. Sentada na esplanada virada ao sol da avenida da manhã, a Mariana ri-se ao ver-me passar. Aumentar a luz dos olhos e o sorriso da Mariana é fácil e natural. As palavras da circunstância do encontro soam embrulhadas em gargalhadas saborosas como o pão nosso de cada dia, naquele lugar soalheiro e ainda frio. Ela fecha a agenda. A capa está carregada de anjos sorridentes. Brinco: “O que sabes de anjos? Sabes ao menos as patentes, a hierarquia?” Ela olha para a agenda e, piscando o olho a um dos anjos da capa, responde-me que nada sabe da legião dos anjos. A hierarquia angélica dá-nos para rir. Continuo a rir-me quando retomo o inevitável caminho .
A agenda política é marcada por pessoas que não são anjos. De acordo com os seus interesses, ouço as pessoas concordar e discordar dos assuntos postos na ordem do dia pelos jornalistas ou pelos políticos. Cada um lamenta à sua maneira que a fruta da época não seja a sua fruta preferida, que é o mesmo que dizer que lamenta que a época não seja a sua época, para todo o sempre.
Há assuntos, como os casamentos de homossexuais, sem época propícia à discussão dada a quantidade, a qualidade e a gravidade dos outros problemas de sempre. O que é o mesmo que dizer que as pessoas que o protagonizam não existem ou que, existindo, são um problema artificial a desviar a atenção dos políticos do fundamental para o acessório. O fundamental é coisa que ninguém conhece mas pronto a aparecer, sempre que preciso for.
E lamentamos todos que as agendas sejam contaminadas pela excessiva divulgação dos casos capazes de mobilizar espectadores, ouvintes ou leitores. Lamentamos,… enquanto tratamos os problemas por tu, os classificamos e, com a maior serenidade e urgência que a vida exige, os resolvemos. Não é boa política, na base de uma qualquer lista de prioridades, esconder problemas e pessoas sob o tapete que amortece o sapateado dos especialistas em passos perdidos.
Como não é razoável que se amplifique, em importância política, a denúncia de um jornal diário, sobre “escutas”. Tanto mais que, passado algum tempo, a montanha de audiências e declarações dos políticos pariu um rato digno desse nome e perseguido por supostas secretas socráticas pouco secretas ou controle governamental sobre a “ordenação” dos processos-crime a conduzir. Escuta quem tem as orelhas a arder das escutas.
Da agenda dos anjos alados não consta qualquer debate sobre o sexo dos anjos ou sobre a hierarquia dos assuntos. Com suas plumas caprichosas, os anjos da época desenham uma forma de lei onde cabem todos, livres e iguais. Porque os anjos não emprenham pelos ouvidos. E eu também não.

[o aveiro; 09/02/2006]



a liberdade passa por aqui perto


Nos últimos tempos tenho sido assaltado por vários assuntos. Tento fugir dos assaltantes. Sem êxito.

O primeiro foi um alarido de fogueiras. Ameaçou disparar à queima roupa contra a minha mão que desenha. O assunto era a indignação de alguns crentes e agentes contra os desenhos do profeta, quando os desenhos do profeta tinham partido a embrulhar coisas menos dignas. Houve quem compreendesse a indignação e até justificasse o fanatismo violento, por razões religiosas que a razão reconhece. E houve até quem achasse merecida a vingança fanática contra os loiros, de direita e xenófobos, que desenharam e publicaram. E, de joelho em terra e em nome de governos que nada publicaram, houve quem pedisse desculpa ao profeta pelos desenhos do profeta. Este assunto atirou à queima roupa. Com a roupa queimada de medo, apesar de não gostar dos desenhos, de os achar execráveis e irresponsáveis, venho aqui defender que, quem assim o decidir, tem o direito de os publicar. E dar-me, a mim e a toda a gente, o direito de criticar, de processar e de desenhar esses artistas em indecorosas posições de rabo para o ar. A liberdade é também a liberdade de reinventar os profetas todos. E de escrevermos que, neste assunto como noutros, ?quanto mais nos baixamos, mais o sangue nos sobe à cabeça?.

Na segunda cena vê-se, em primeiro plano, uma manifestação de calções e apitos entredentes de ouro. Um major reformado de barba branca reaparecia reluzente nos seus calções de amador profissional à cabeça da manifestação de calções. Para os calções e para a televisão, vociferava contra um presidente em retirada estratégica por terras de senhorim e outras nunca dantes visitadas. Que rouquejava ele? Firme? Sentido? Direita volvereeee? Nah! Em sua reserva, o nosso major salivava contra o presidente retirante que não se pronunciara sobre as violações do segredo da injustiça. Aquele é o major árbitro do estado de direito. A norte da cena, a televisão segue um bruxo que, a pé e carregando o fardo da sua cruz, vai até ao sameiro para lançar um mau olhado aos árbitros contra a descida do vitória. E, de norte para o centro da cena, Felgueiras, disfarçada de peregrina vai a Fátima. Fatinha monta uma feira em Fátima: depois de uma missinha, distribui comes e bebes, lencinhos brancos bordados com seu nome e outras miudezas.

O que é que estes assuntos têm em comum? A animação! A animação! Roguei a Deus que tudo isto se passasse com bonecos animados e nós, finalmente acordados, nos pudéssemos rir porque tinha sido tudo fruto da imaginação.

Já não adianta rezar! Os assaltos são reais! O sobressalto é grande. Lá terá de ser! Aceitamos o exorcismo.

[o aveiro; 16/02/2006]



Sentado!


– Senta-te! Vá lá, senta-te! Já estás sentado?
– Estou! Vá lá! Diz o que queres dizer!
– Não sei se o quero dizer. Porque para o dizer, vou dizer-te coisas que não queres ouvir. Embora eu ache que é vital para ti e para toda a gente ouvir a verdade. O que tem faltado afinal é uma política de verdade.
– E tu sabes o que é a verdade? E sabes o que é a política de verdade? Aquela que ninguém tem coragem para explicar e aplicar aos portugueses. Mas…
– Não há mas nem meio mas. Tem de ser.

Ha qualquer coisa de estranho nos economistas e especialistas portugueses que falam de política. Eles sabem qualquer coisa que nunca virão a dizer. Aliás, eles sabem duas coisas. Porque quando estão num lugar do poder estão a fazer o bem possível e quando estão noutro lugar do poder dizem que o bem necessário é coisa que os políticos não têm coragem de fazer. E há sempre um especialista que desmente com números insuspeitos as suspeitas intervenções do outro especialista, que não chega a dizer o que ameaça dizer. Pelo menos, assim parece. Porque da próxima vez que aparece virá anunciar qualquer coisa que nunca foi dita… por falta de coragem.

E o dilema que me sobra é sempre entre escolher se serão mais mentirosos que cobardes ou mais cobardes que mentirosos. Quando estou mais lúcido, pergunto-me se haverá aquilo a que chamam política de verdade. Outras, quando é a cabeça que voa, pergunto-me se haverá verdade ou se a verdade pasta neste prado.

Há dias em que acordo a meio do pesadelo. Depois de comer o verde da verdade, uma manada pisoteia o prado da verdade até não sobrar coisa alguma digna de ser lembrada por esse nome. Há manadas a disputar a propriedade da verdade, como gatos disputam os novelos de que puxaríamos o fio da meada até saber.

A coisa fia mais estranha quando em cena entram cavalheiros especialistas de grandes lombadas do combate greco-romano. Nas suas costas, abre-se um anfiteatro. É então que nós sentimos que há um corredor no ar por onde se voa a direito. E por onde voam os direitos. As palavras normais deixam de existir. Somos obrigados a reconhecer as tonalidades da verdade, porque tanto a virtude como o vício mergulham as suas raízes mais fundo que na metafísica dos costumes traduzida e comentada.

– Estou sentado! Podes dizer!
– Já não digo. Li o que escreveste e fiquei a saber que não acreditas no que eu disser.
– Acredito! Podes crer! Diz lá.
– Se eu te disser que o país está falido, acreditas?
– Claro! Porque não havia de acreditar? Não tens andado a gerir isto?

A verdade é que lá fora chove torrencialmente. Cada pingo dói na minha cabeça.

[o aveiro; 23/02/2006]



o soco no estomago


Marinamos a vida normal na calda dos nossos brandos costumes. A violência extrema faz parte do noticiário estrangeiro, de um filme alheio. O desprezo absoluto pela vida do outro vem como notícia de tempestade ou calamidade ou praga de outro continente que nos faz benzer e dar graças. Admitimos pequenas trovoadas, derrocadas e acidentes de trabalho.

Nós, por cá, todos bem. Ou, no pior dos cenários, assim assim. Andamos confiantes e distraídos até ao dia em que nos informam que um grupo de miúdos de escola, portugueses numa cidade a menos de uma hora de comboio, persegue até assassinar um homem de 45 anos. E perturbamo-nos enquanto explicamos o que se poderá ter passado nas nossas costas, mesmo à nossa frente, em nossas casas, nas nossas escolas. E assobiamos aos melros, quando cercamos o acontecimento com o arame farpado das circunstâncias do lugar, da natureza da escola e da experiência de vida dos miúdos, da vida específica do adulto morto até tudo ser estranho e estrangeiro em casa. Até tudo ser passado de uma cave da nossa casa que mandámos emparedar.

As nossas famílias, igrejas e escolas, os nossos pais, padres e professores não podem prever todos os comportamentos, favorecendo uns e prevenindo outros. Cada vez menos, na medida em que o desenvolvimento da sociedade se faz acompanhar pela inexorável criação de franjas de excluídos da casa e causa comum em valores e bens essenciais. Os sistemas dizem que desejam a inclusão enquanto gritam pela segurança e constroem muros altos para separar.

O soco no estômago dos últimos dias obrigou à discussão das escolas, das escolas especiais de acolhimento, orfanatos e reformatórios, em particular. Ainda que falsamente, desculpabilizar e desresponsabilizar as crianças e os jovens foi palavra de ordem, desde a educação familiar e escolar até ao direito. Face à perda da inocência e, ainda que aceitando que há meninos que nunca o foram, há políticos a favor de tratamento adulto para os criminosos juvenis. Este é o outro soco no estômago. Esperávamos por ele. Mas ainda dói mais. Ele, por si só, é nada quando quer parecer tudo.

[o aveiro; 02/03/2006]



O que é assim tão importante?


Uns dias deixamos que os nervos nos levem para os cantos mais escuros da tristeza. Nesses dias, a boca fica azeda e as palavras que dela saem são azedas e sem cor. E é também nesses dias que queremos mudar de vida como se não fossemos nós também culpados dos dias que vivemos. Como se não fossemos nós quem tem pernas para andar e sair do canto escuro e azedo. Nesses dias azedos e escuros, chegamos a pedir que nos empurrem para o fundo da vida ou, sem forças, que nos carreguem para fora do buraco onde nos trancámos em azedume.

Outros dias deixamos que os olhos se espantem em brincadeiras solares e parece que nada podia ser melhor que a pobre vida que levamos ou nada tem mais valor que cada pequena coisa que fazemos ou cada pequeno acontecimento em que participamos com outros, outros iguais a nós. Exaltamos, então, cada ínfima participação nossa na vida comum.

Entre uns e outros dias, vivemos realmente numa corda bamba que esticámos entre dois mastros altos, para cairmos para os fundos escuros uns dias ou para saltarmos, elásticos como somos todos, a cumes luminosos.

Os últimos dias da vida política peneiraram algumas dúvidas.

Preciso de acreditar, para poder concordar e discordar – digo eu. Discordar do que diz o mentiroso é concordar com a verdade que o mentiroso afinal conhece e esconde. E concordar é discordar. Numa floresta de enganos, ficamos sem saber o que é certo e o que é errado e ficamos sem saber quem somos afinal.

E precisamos de saber quem é quem fala. Uma das dificuldades da política é não encontrarmos a política onde ela aparece só fingida. Em muitas alturas, parece-nos que os políticos emprestam voz a funcionários ou técnicos subordinados, e atribuem uma qualidade superior, do nível da decisão, ao parecer por eles produzido para apoiar a decisão. E esperam, dos eleitos políticos, uma aceitação acrítica da sugestão de aparente sabedoria absoluta e insuspeita dos técnicos ou dos cientistas, da técnica e da ciência. Isto é tanto verdade para as ameaças do regresso da co-incineração para o tratamento de resíduos e do nuclear como alternativa para a produção de energia eléctrica, como para propostas constantes de uma qualquer agenda municipal.

Na última semana, a peneira não separou as dúvidas das certezas. Mas deixou vislumbrar algumas pepitas luminosas, alguma esperança solar que só pode ser verdade se assentar afinal na fragilidade humana. Ao espelho, a fragilidade humana é uma força sobre-humana que nos atira para a luz dos dias mais alegres.

[o aveiro; 9/03/2006]



Vencido pelos votos, votos de vencido.


A boa educação na nossa democracia representativa tem obrigado o vencedor a declarar que vai representar apoiantes e adversários de igual modo. Os vencidos bem educados declaram aceitar a derrota e endereçam parabéns e votos de bom exercício aos vencedores, rogando a estes que cumpram o que prometeram e defenderam durante a campanha eleitoral, mesmo quando acham que eles defendiam o errado e o prejudicial. Para o bem de Portugal de aquém e de além, continente e ilhas. Assim tem sido.

Desta vez, Cavaco Silva não disse que ia ser o presidente de todos os portugueses como ditava a moda iniciada com a magistratura de Soares. E, em vez disso, declarou que ia ser presidente de Portugal inteiro. E está bem assim. Eu gosto mais assim.

É verdade que eu tenho o direito de exigir a Cavaco Silva que defenda a Constituição da República já que jurou defendê-la tal como ela é, por muito que isso lhe seque a boca. Eu tenho o direito de exigir que, como Chefe do Estado, represente o melhor que souber o meu país, que nos afirme como nação independente, que seja chefe supremo das forças armadas sem as amarrar a guerras decididas por outras potências, sem deixar de as associar a missões decididas por concerto na sociedade das nações. Na Europa. E no mundo. E tenho o direito e o dever de lhe rogar que olhe para e por cada um dos portugueses tal como cada português olhou e olha por ele livrando-o do desemprego. Como garante dos direitos dos cidadãos de Portugal inteiro e não especialmente dos financeiros, banqueiros e demais parceiros privilegiados.

Cavaco Silva é o legítimo Presidente da República. Procurará pôr em prática as suas ideias políticas e eu não deixarei de estar em desacordo com todas as suas decisões que, do meu ponto de vista, são prejudiciais. E não deixarei de desejar que fracasse nos seus intentos em tudo quanto não concordo. Ao mesmo tempo que espero os maiores êxitos para o meu país, mesmo quando ele estiver a ser representado pelo Presidente Cavaco Silva do Portugal inteiro.

Enfim, na altura da sua tomada de posse, aqui deixo os meus melhores votos de vencido. Sem hipocrisia alguma, os melhores votos.

[o aveiro; 15/03/2006]



Onde é que fica a França?


Na televisão de segunda, ouvi um comentador falar da situação em França quando chamava a atenção para dois aspectos das actuais movimentações.

Do lado dos trabalhadores e dos sindicatos, o movimento está a ser dirigido pelos católicos e suas organizações, tradicionalmente consideradas próximas das políticas dos governos e disponíveis para assinar acordos. Claro que ele não acusava o erro fundamental do governo que quer libertar os patrões de qualquer explicação, justificação ou responsabilidade quando despedem um jovem durante os seus primeiros dois anos de trabalho e criam, por essa via, um a bolsa de mão de obra sem direitos disponível como pau para toda a obra. A sua atenção ficava presa a eventuais falhas na comunicação e de concertação do governo francês com os parceiros sociais.

Do lado dos estudantes, o movimento está a ser dirigido pela esquerda estudantil. Chamava a atenção para o aumento do abandono escolar e, em particular, para os números a provar que os últimos anos de governação tinham feito descer e muito a percentagem de estudantes oriundos das classes trabalhadoras nas grandes escolas superiores francesas. Ao referir estes números, não falava do erro que é o empobrecimento das políticas sociais que, ao contrário do que alguns analistas afirmam, são responsáveis a longo prazo (e não só no curto prazo) pelo agravamento das desigualdades sociais, pelo abandono escolar, pela exclusão social. E apontava medidas correctivas de pequena política para a política do grande erro.

Uma analista de um jornal de domingo também vinha alertar estes jovens (manifestantes a desempregar) que mais vale aceitarem já o destino tal qual lhes é proposto antes que falte tudo para toda a gente. Acusava a geração anterior (de Maio de 68) de ter delapidado tudo o que havia, a seu favor, esquecendo estes seus vindouros filhos e netos. Diga-se que, em boa verdade, os manifestantes e grevistas franceses não passam de maus exemplos para os portugueses. Não disputam, por enquanto, os diamantes lapidados e as frases lapidares destes analistas lusitanos presos pela barriga à mesa do banquete.

Mas já inseguros, os analistas pedirão mais dinheiro para mais polícia ou para uma rede de capoeira que os separe dos excluídos, esses que teimam em invadir as confortáveis salas de estar destes analistas de bem-estar, bem-pensar e cacarejar.

O canto das sereias portuguesas é uma seca mas é rico do ponto de vista nutritivo e deve ser tomado pelas orelhas. Para os trabalhadores são bem-aventurança dormideira, ópio do povo.

Há outros que dizem para quem os quer ouvir: Até os comemos! a pensar nos rabos de peixe … das sereias portuguesas.

[o aveiro; 23/03/2006]



O estado da arte


Encontrar um português que não tenha um familiar emigrado é praticamente impossível. Na minha aldeia, falava-se de pessoas no Brasil, nos Estados Unidos, na Venezuela, na França e na África, claro. Famílias inteiras ou pessoas isoladas, a salto, de comboio, de barco a vapor, de avião, com carta de chamada, com contratos e sem contratos, com documentos e sem documentos,… eles lá iam. Para nós, iam iguais no segredo das partidas, das dolorosas e medrosas aventuras. Muitos deles não voltavam ou voltavam tanto tempo depois que nem os conhecíamos e ouvíamos falar de cidades estrangeiras onde havia mais portugueses que nas nossas cidades. Encontrar um português que não tenha tido um familiar e amigo indocumentado em terra estrangeira é encontrar uma alma estranha, um extra-terrestre, um desmemoriado.

Por isso é que me é tão estranho ouvir como falam alguns responsáveis a respeito dos imigrantes e das políticas de imigração. Soam mal aos meus ouvidos todos os maus tratos e toda a sobranceria com que se fala das autorizações de residência, do trabalho sem garantias, etc, ou se fazem observações judiciosas sobre pedidos de asilo e sobre o estatuto de refugiado que, sem outra esperança, os imigrantes (económicos) chegam a pedir.

Vimos como muitos trabalhadores estrangeiros, ao serviço das grandes construtoras, saltaram de um para outro estaleiro escapando de uma inspecção incapaz e cúmplice. Sabemos que muitas obras públicas foram feitas com trabalhadores estrangeiros, indocumentados, em situação irregular. Muitos patrões e também responsáveis políticos acharam esta situação muito conveniente: mão de obra barata e não reivindicativa, trabalho sem garantias, trabalhadores descartáveis de que se livrariam com ameaça de deportação. Ilegais! Os trabalhadores ou os mandantes?

Damos pouca importância aos tratamentos degradantes a que sujeitamos os nossos imigrantes. E todos os dias, há pequenas notícias de incidentes de legalidade, de intervenção despropositada de autoridades, agentes e serviços, em choque com trabalhadores imigrantes.

No Canadá, há portugueses que chegaram a pedir o estatuto de refugiados. Leram bem: refugiados! O governo conservador do Canadá não cedeu aos pedidos e deportou os portugueses. Um jovem veio dizer que o seu governo tinha outros problemas, outras prioridades. Os nossos jovens velhos conservadores fariam o mesmo se pudessem. Enquanto vão dizendo que isso não se faz… a portugueses. Não?

[o aveiro; 30/03/2006]



o dia do meio


Hoje mais do que nunca, estou em dia do meio que é dia nem sim nem não, como se me tivessem encolhido a história do passado e me ameaçassem com uma história sem futuro.

Há arautos dispostos a anunciar que o fim da época de ouro em que vivemos está próximo, embora a maioria nunca tenha dado pelo ouro da época. Falam do fim, do fim da assistência na doença, do fim da segurança social, do emprego, do subsídio de desemprego, do fim de todos os serviços universais e essenciais para os quais há estado providência. Falam do fim.

Um porta-voz há-de vir dizer que estão a ser egoístas os que querem manter o emprego estável e com direitos ou que apelam à solidariedade social intergeracional e acrescentam às empresas papel social ao papel cotado em bolsa. O porta-estandarte dirá que quem luta pela manutenção do seu posto de trabalho, combate a flexibilização das leis laborais ou exige o pão nosso de cada dia está a estrangular o desenvolvimento económico e a pôr em risco o futuro dos filhos do futuro.

O mesmo dizem das organizações e partidos que, fora do circo do poder económico, procuram os olhos das pessoas reais e, sem os evitar, defendem as crianças de hoje enquanto exigem a modernização da economia sem o sacrifício dos que comem para trabalhar, produzindo sempre mais do que comem. Sabe-se hoje que a tragédia da nossa economia não foi nem é criada pelos trabalhadores e produtores e muito menos pelo seu egoísmo e incapacidade de adaptação, antes é criada pelo egoísmo e voracidade do capital que não quer ser produtivo para ser só financeiro e, vidrado pelo lucro fácil de cada dia, está incapaz de se ver como capital humano e social.

A modernização do tecido empresarial e económico só pode ser feita pela instauração da lei da selva cotada no mercado que não respeita nada nem ninguém do dia de hoje? Dizem os porta-notas que a libertinagem capital e o desenvolvimento económico vai criar obrigatoriamente novos postos de trabalho a compensar os sacrifícios exigidos ao presente.

Contra a invenção da solidariedade sacrificada ao futuro sem compromissos com o presente e a acusação de egoísmo lançada contra todos os presentes levanta-se um pequeno senão: os trabalhadores também amam os seus filhos hoje e eles precisam do pão nosso de cada dia.

[o aveiro;13/04/2006]



fruta da época


Quando dou por mim a escrever, nunca imagino que tenha de seguir algum caderno de encargos feito por terceiros que têm as suas prioridades legítimas, as suas preferências legítimas, as suas esposas legítimas, etc. Também não acho que tenha de seguir à lupa a actualidade que o parece ser e parece fugir.

Para mim, podem ganhar força de actualidade, a constituírem encargo para palavras minhas, assuntos que a mais ninguém interessam. Nos tempos que correm, a actualidade não existe em rigor. Um jornal, um grupo económico ou editorial (nem sempre são coisas diferentes), um canal de televisão ou um partido pode criar uma actualidade que pode não ser senão a artificialidade conveniente a um qualquer propósito quase sempre inconfessável.

Nestes últimos dias, há vários assuntos que são falados ou soam a falados. Frequentemente nem assuntos dignos de nota são, até porque não são mais que palavras, anúncios de anúncios, podem não passar das palavras aos actos e ser passos em falso. Há quem me acuse de não dar aveirística atenção a tão magnos assuntos. Não dou para esses peditórios.

Jornalistas há que até nos perguntam sobre pormenores dos assuntos que os “pormenorizadores” encartados têm de inventar por os não conhecerem. Não gosto de escrever sobre cenários que um professor alinhava do mesmo modo que classifica ministros com notas entre 8 e 12, debita o tamanho das bolas do estoril aberto, folheia o livro das memórias da razão de um novelo da linha, notícia nacional de estrangulamento ali aos cabos ávila. Nada me diz a actualidade propagandística do governo autoritário e servil, ou a do governo local que anuncia num dia o anúncio do dia seguinte ou a de algum facto político desejado pelo protagonismo da oposição a coisa nenhuma.

Outros que falem dos novos pecados, da regionalização encapotada e da vantagem da cidade dos doutores e cantores (e de ditadores também, claro), do juízo perdido entre cidades ip5, da demissão do polícia que devia ser a do ministro, das lições a tirar da manga e da magna carta da educação do “tory blair”, etc.

Eu escrevo a respeito do nada, comentando a actualidade do relatório de um tempo passado sem presente.

A actualidade pinga da dentada na polpa da fruta da época e obriga-me a uma vénia.

[o aveiro; 20/04/2006]



beijar a boca do dia


Caminhavas rente à madrugada. Entre os vinte e os trinta anos, bastava a tua sombra para te assustar. E uma folha de papel furtiva que transportasses era uma tonelada de medo a ser movimentada pela grama de coragem que voava à tua frente.

Caminhavas rente aos muros arrastando um pincel de sono e sonho, vermelho e amarelo, branco e preto. Escrevias cartas curtas sem saber quem as iria ler. Com a fadiga própria das noites longas, abrias os teus olhos de mocho mudo no beco e escrevias a carta necessária que mais valia ter ocupado rua onde passasse gente. Pensavas que era triste esconder a carta de amor no beco e pensavas que se fosses apanhado no beco não tinhas por onde fugir. Mas não deixavas de fazer esse gesto de amor, o mais irracional de todos.

E, mal rompia a manhã, lá te levantavas para o trabalho aos olhos dos vizinhos e dos colegas e encenavas a alegria de estar vivo. A alegria de estar vivo. Como hoje? Lembras-te da música das marchas que assobiavas nas manhãs sujas? Ainda hoje te perguntas: Se eras tão medroso como dizes que eras, porque assobiavas aqueles desafios?

Passaram tantos anos e a fadiga da idade reduz-te a passada de todos os dias. Nunca houve fadiga na tua liberdade.

Há uma irritação surda com todos os que se penduraram na boleia da liberdade (que não lhes custou a ganhar, embora já tivessem idade para fazer por isso), e dela fizeram carroça da fortuna, do poder e da glória mais vã. Passeiam-se em liberdade, fazendo gala da boçalidade e da imbecilidade mais atrevida contra a liberdade dos outros, dos que dela mais precisam. Porque sabem que só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, saúde, habitação… que era letra de canção e é ainda em grande parte… promessa por cumprir.

Quando a guerra acabou e a vida se tornou um rio de pura euforia, a alegria breve do amor fez-se eterna e murmuraste a terna promessa de que tudo quanto era bom podia ser possível. E, com liberdade, beijaste a boca dos dias.

Já avô e ainda podes mostrar a marca perene do beijo que guardaste do 25 de Abril de 1974. Que mais queres? Tudo o que era Abril e não era sonho. Tudo de tudo.

[o aveiro;27/04/2006]



o lugar no tempo


Representando o Bloco de Esquerda, estou na Assembleia Municipal. Lá, não optei pela truculência e tenho de admitir que não consigo argumentar por argumentar para o máximo de impacto, nem consigo interromper os outros e o trabalho da Assembleia até chamar a atenção para as posições do Bloco e para as minhas opiniões. E convivo muito mal com ofensas vãs. Levo a sério o que me dizem e a falta de respeito ou as ofensas pessoais num debate diminuem-me. Olho para trás, para outros lugares, tempos e combates e sei que não sou tão sensível como aqui apareço. Então o que aconteceu?

Talvez por ser educador e professor, tenho sérias dificuldades. Não consigo participar em debates de maneira diferente (e muito menos contrária) daquela que defendo junto dos jovens com os quais trabalho. As regras de argumentação nos debates e nas apresentações são mais que instrumentos formais na educação. Para os educados, tais regras nem carecem de estar escritas.

Para além disso, há o espírito do lugar. Naquele lugar, não me permito “performances”. Não é de esperar que, naquele lugar, a democracia e a liberdade sejam ameaçadas de forma consistente. E os debates podem conduzir-se nos limites das diferenças de opinião, da discordância frontal face a decisões e intervenções de outros, da denúncia do que se considera errado (ou mesmo criminoso) e da aceitação de propostas alternativas.

Nunca tinha sido claro para mim que a simples memória do aniversário da revolução de Abril de 1974 desse pano para mangas numa Assembleia que não podia existir antes e existe depois dela. Escrevi: existe depois dela. Não escrevi apesar dela.

Para mim, e disse-o na Assembleia para efeitos da participação democrática, ‘o antes’ do 25 de Abril foi nada e ‘o depois’ foi tudo. Porque antes eu não podia participar livremente e toda a minha vida era ‘contra’ ou ‘obediente e cega’. Porque depois eu trabalhei, participei, escolhi representantes, falei, gritei, escrevi, tomei decisões boas e más. Posso criticar os que tiveram mais responsabilidades e posso nem lhes perdoar. Posso denunciar o mal que fizeram. Posso ser responsável e responsabilizar. E posso reconhecer que ficámos longe de cumprir o Abril possível em justiça social e solidariedade verdadeira e mesmo em democracia participada e viva.

Que lugar é a Assembleia Municipal?

[o aveiro; 4/5/2006]



o canto chão


Várias vezes ao dia, passo ao lado do que foi a Pizzaria Parque. Para trás dela posso ver um pequeno bosque que ladeia uma bela rua interior e sossegada do meu Bairro de Santiago. No Bairro de Santiago, há vários lugares simples e magníficos – alguns deles da iniciativa de moradores que dão vida a jardins inesperados, outros da iniciativa da autarquia.
Várias vezes ao dia, passo ao lado do que foi a “Pizzaria Parque”. Para trás dela posso ver um pequeno bosque que ladeia uma bela rua interior e sossegada do meu Bairro de Santiago. No Bairro de Santiago, há vários lugares simples e magníficos – alguns deles da iniciativa de moradores que dão vida a jardins inesperados, outros da iniciativa da autarquia.

Vimos crescer as árvores do pequeno bosque. Tempos houve em que dávamos a volta por lá para ir propositadamente até à “Pizzaria Parque”. Por puro prazer, por lá ficávamos muitas vezes a ouvir a babel de Santiago. Não precisávamos de perceber as palavras soltas naquela grande esplanada aberta. Em alguns dias, juntavam-se famílias inteiras batendo palmas e cantando. Pareciam-me toadas dolentes, gritos de paixão ou desesperadas renúncias que contadas para a brisa da tarde esconjuram todo o mal de que elas falam quando falam dos outros em vez de nós. E, não raro, alguém deixava o corpo ondular levado pela marcação ritmada das mãos até à volúpia dos braços apontados ao céu ou desencadeado pelos pés impacientes por rasgar de sons o chão sagrado.

Nunca soube porquê, mas esses puros momentos da nossa comunidade de Santiago foram interrompidos. E a partir dessa perda, nunca mais parou a degradação do lugar até ser um lugar de olhos vazados pelo abandono. Mais triste não pode ser. Mais triste ainda me parece por ter sido terra de alegria colectiva.

E vejo-me a pedir aos poderes deste nosso pequeno mundo que decidam pela criação de novas áreas verdes, mas também pela preservação dos jardins existentes com recuperação e salvaguarda dos equipamentos de apoio. Grandes obras? Queremos só pequenas grandes decisões para proteger o quotidiano com garantia da liberdade e apoio às expressões culturais das comunidades. Naquele lugar de Santiago, há palcos, há campos de jogos, há escola, há biblioteca, há centros de apoio e acolhimento, há… vida a conservar.

Caminhos sem obstáculos para andar, ar para respirar, cores naturais para olhar, bancos para descansar, ler e conversar – esta é a lista dos pedidos. O que pode ser mais importante? Queremos ser vistos a dar a volta ao nosso mundo, em cada um dos nossos lugares de cada uma das nossas freguesias.

[o aveiro; 11/05/2006]



a corda que puxa os cordelinhos.


Olho para a corda receoso. Cada uma das minhas mãos prende uma ponta da corda. A corda prepara-se para me fazer saltar. Sei que vou saltar. Ainda que contrariado, sei que vou saltar. Ainda pensei em iludir a necessidade de saltar o desafio da corda caminhando sobre ela como um palhaço funâmbulo que se equilibra sobre uma corda pousada no chão. Mas desisti de mim assim e procurei coordenar o movimento dos braços com os pequenos saltos dos pés. Animo a corda para me animar. Sei que se me distrair, a corda interrompe o seu voo e eu transpareço na sombra das paredes como o saltimbanco desengonçado que perde as linhas com que se cose.

Olha para as sombras na parede. Podia ter previsto aquele movimento das pedras vivas em seu tabuleiro vital. Um peão que avança para proteger uma raínha e um cavalo que tropeça em seu trote e morre à passagem de um bispo com os olhos marejados de lágrimas minerais. Os países dividem-se em pequenos quadrados e nós quedamo-nos a ver os movimentos das peças de uns quadrados para outros. Podemos prever as escaladas da violência e nada podemos fazer porque vimos o jogo tal qual se nos apresenta instante a instante, sem sermos capazes de ver a mão que mexe os cordelinhos e movimenta as peças de xadrez. Se olhássemos para fora do tabuleiro, víamos como as mãos dos manipuladores abrem e fecham frentes de combate. Umas vezes, o mundo é um tabuleiro e há um jogo para ser jogado. Outras, é o teatro da guerra a ser representado por actores de segunda, às ordens de um encenador histérico como um macaco preso no seu próprio circo de feras.

A guerra que se trava pode parecer um ajuste de contas entre quadrilhas. E é sempre isso, mesmo quando ela quer parecer uma guerra da civilização contra a barbárie ou da barbárie contra a civilização. Nas guerras não há maneiras. Há as boas maneiras da guerra; terroristas, bandidos e senhores da guerra usam luvas, são bons pais de família e amigos dos seus amigos. Não sei se é o medo que nos distrai dos sinais. E decidimos ignorar um gesto e outro até que eles somam os nossos medos e bombardeiam os nossos sonhos de paz.

Distraídos, acabamos por saltar a corda. Distraídos, ignoramos os sinais. Somos apanhados distraídos. Pelas guerras iraquianas, pelas guerras brasileiras, pelas guerras da selva, pelas guerras… Muito tarde reconheceremos uma só guerra em todas as guerras.

[o aveiro; 18/05/2006]



a lágrima que corre


A nascente do rio não é mais que um fio de água, uma lágrima.

[Se os dias passam por mim, eu fico para trás. Esforço-me por ser eu a passar pelos dias até que sejam eles a perseguir-me, domésticos dias de enfado. Ouço os meus dias, olhando para o passado. Complacente com o passado, responsável por ele e sem os “ai, se eu soubesse o que sei hoje…”. Habituei-me a ser tudo o que fui e a não ser ex-isto, ex-benquisto, ex-malquisto,… Sou tudo o que fui, somado ao que sou. O futuro é a nascente de perguntas a que vou respondendo.]

Se posso não ter razão, que mal há em perdê-la? Só que os dias recentes não falaram da razão que há em fazer prevalecer a preservação do ambiente, tal como ele existe, sobre as estradas desbravadas pelo desenvolvimento. Achincalhar os “ambientalistas” todos pode retirar chão à minha razão, mas não belisca a razão. Dizem que quem tem sensibilidade apurada para as questões do ambiente se coloca fora do círculo virtuoso dos que querem o desenvolvimento necessário ao futuro de todos. É por ouvir o passado do futuro presente que nos asfixia que eu os vejo mais presos em círculo vicioso dos que entram na rotunda com saída para o abismo. Os dados disponíveis e as previsões científicas não servem para cautelas e caldos de galinha. A ciência que interessa ou a ciência dos interesses desenvolvimentistas é aquela que há-de fazer o milagre de resolver mais adiante os problemas que criamos ontem e hoje, desafiando limites. A sustentabilidade que defendem tem por base um desafio que já não é sustentável. Contra tanta sede de beber a água quase toda e misturar a que sobra ao pó de cimento, só nos resta defender o absurdo do marasmo.
Todos os desenvolvimentistas esperam uma aberta, uma pausa na defesa da fragilidade da nossa terra povoada por bichos, para nela fazer lugares de estacionamento e pequenos desfiles de automóveis entre estacionamentos humanos.

Sabemos que eles sabem que os problemas do ambiente não se vão resolver se abrirmos a estrada e edificarmos a casa que sobra contra a ria e… construirmos a central nuclear que sobra e sorve a água toda do rio que corre e… seca até que a foz seja um fio de água, uma lágrima.

[o aveiro; 25/05/2006]



O ministro ministra


Um cordão humano erguia-se como uma só voz para gritar contra a extrema-unção. Alguém tinha levantado a lebre acima da própria cabeça e todos, sem excepção, acreditaram que tinham visto uma lebre. Mais tarde, soube-se que o animal a que tinham chamado lebre não era mais que um boato posto a correr numa pista de corridas de galgas. O homem do boato falava para quem o queria ouvir que a visita do ministro às instalações do sistema educativo, há muito votadas ao abandono, se destinava a ouvir a confissão dos trabalhadores culpados e a ministrar-lhes uma extrema-unção como passaporte para o futuro sombrio. Soube-se muito mais tarde que não se tratava de um boato, mas de uma fuga de informação e que o homem usava a fuga a tiracolo, de uma maneira tal que não podia ser boato. A fuga, mais rápida que se fosse boato, estava a dar, aos apostadores, muito cacau para os dias frios que aí vinham. Os trabalhadores culpados, quais são? Um professor idoso, desmemoriado, garantia que não era culpado e queria saber se constava de alguma lista de culpados. O homem da fuga que em tempos tinha sido boato afiançou que de listas não sabia, mas que tinha ouvido falar de um rol de culposos. O velho virou-se para o homem da fuga na ponta da língua para lhe perguntar o que é isso de culposo. Ao que o língua de fuga, que sabe tudo e nunca sabe muito bem se assim é, respondeu que culposo e culpado são bem diferentes. Diferentes como? – insistia agora um auxiliar da acção educativa. Culpado é aquele que pratica uma falta e tem culpa no cartório. Já culposo é o que cometeu culpa ou revela culpa no cartório. Esta informação caiu como um pano encharcado na varanda do vizinho de baixo. Um pano encharcado nas trombas de um gerânio ofende qualquer vizinho e a um tal nível que, mesmo sendo de baixo, se irrita até subir pelas paredes. Já no andar de cima, onde estão os de nível mais elevado, eleva o tom de voz até os vidros partirem como partem os culpados e os culposos sem que lhes ministrem a extrema-unção que é para todos, tenham confessado ou não.

Uma mulher foi lendo. Chegou aqui de testa franzida por não perceber. E o que escreve sentiu-se na obrigação de escrever como último gesto de fuzilado: Bem se vê que não é professora ou não é portuguesa.

O presente? – ouviu-se a pergunta sumida. Ministro, ministras, ministra – respondeu um aluno surdo a todos os apelos à calma.

[o aveiro; 1/06/2006]



o cálice de calma


Dos últimos dias recordo sucessivas bebedeiras de chá. Para esquecer os dias demasiado claros. Para sobreviver à molenguice dos jovens que se encostam mais às paredes que à vida e ao trabalho. Contra as dores nas costas, nas cruzes.

Quando saio de casa, fico mergulhado numa amargura quente. Posso andar de um lado para o outro, saindo de uma rua para entrar noutra, com a sensação de passear por corredores de um forno onde estou a arder lenta, mas seguramente. Só os corredores da escola me refrescam a alma. Se me sentar? Não me sento pelo sim e pelo não.

Para esquecer os dias demasiado claros, fecho-me descendo todas as persianas da casa e fingindo, sempre que possível, que cá dentro o dia não é vida e que a noite não tardará a substituir a tarde. Tento trabalhar de pé, tento escrever de pé com o computador elevado sobre um cavalete.

O pior disto tudo é que as folhas rabiscadas por dezenas de estudantes esperam dedos ágeis e laboriosos que cumpram as ordens de uma cabeça que veja as dores pelas costas. Parece que acontece o menos provável ou que não acontece e é a cabeça doente quem inventa tudo. Logo agora que nem tempo há, dores nas costas?

O mais entusiasmante ainda foi o fisioterapeuta que, na manhã de segunda, soltou expressões de júbilo quando eu obedeci, sem saber como, a alguma das suas ordens com um movimento de um milímetro que existiu sem que dele eu tomasse conhecimento. Ali se fazem perguntas sem resposta à vista, porque não sabemos bem se é dor ou outra coisa o que sentimos Naquele mundo, cada movimento infinitesimal é saudado com expressões combativas como “bravo!”. O que é verdade é que mal saí desse combate, ainda antes de chegar à escola procurava um novo analgésico pelo caminho, antes de voltar a assumir o meu ar mais empertigado e feliz.

Na terça de manhã, saudei cada pequeno esforço dos jovens estudantes espapaçados com expressões de entusiasmo típicas de um fisioterapeuta treinador e aceitei uma soma irritante de pequenas falhas de disciplina individual com uma surpreendente calma. Sem compreender tanta canseira que, pouco depois das oito da manhã, abranda os movimentos juvenis à entrada para a sala de aula. Terão dores nas costas? Nâo.

Sou eu que tenho as costas largas!

[o aveiro; 8/06/2006]



As paredes lavadas


A chuva veio e lavou o ar. Gosto de dar a face ao ar lavado da manhã enquanto caminho entre alas de notícias armadas até aos dentes.

Procuro o lado da paz em Timor Leste e procuro distinguir algum lado da disputa que dispense as tribulações da gente. Procuro desesperadamente um lugar onde uma verdade mesmo que desinteressante paire. Sei bem que a paz não se encontra seguindo as pegadas dos interesses dos deuses, porque o seu descanso é o desassossego dos homens de fé. Sei bem como é difícil esperar por sinais, porque os sinais estão todos misturados e há quem agite os seus fantasmas e os misture aos sinais do outro mundo. Chegam-nos de novo imagens de homens que afiam catanas ociosas em campos de batalha adiada. Se me fosse dado ver as catanas que desbravam caminhos nas matas para semear, plantar e colher as novidades estaria a ver os campos da paz.

Procuro o lado da paz na Palestina e procuro distinguir algum lugar na disputa que dispense as tribulações da gente. Que dispense as humilhações, as aflições, a morte, o desamparo que é a eternidade feita em pó por conflitos sem fim. Sei bem que a paz não se encontra seguindo as pegadas dos interesses dos deuses, porque o seu descanso é o desassossego dos homens de fé. Onde a falta de tudo se respira no pó que se vê em vez do ar, vimos as metralhadoras a tricotar os dias e as noites e a destruição de edifícios a sangrar o tempo. De onde vem o cimento que nos arranha a garganta? De que nadas se fazem milhares de balas?

Procuro o lado da paz. Vasculho os caixotes de lixo atómico em Israel, Irão, Paquistão, …. Vasculho os lugares das pilhagens no Iraque ou no Afeganistão, para levantar, até à altura dos olhos da humanidade, fantasmas da nossa comum civilização que se soltem do seu passado e amaldiçoem a estupidez humana. E, em vez disso, há professores engravatados a explicar-me a inevitabilidade de um jogo de guerra em que a estupidez vence como mal menor. Está na moda, como gravata. o nó corredio da forca.

Procuro afincadamente um lugar livre. Chegam-me pequenos farrapos da guerra e da paz, como se nem existissem num dilema de hoje. Porque o dia inteiro é dedicado ao outro mundo, … e à nossa pátria de olhos perdidos em outra pátria… expatriada para a Alemanha.

As notícias ganham pernas. Há quem diga que um pontapé certeiro pode parar o mundo. Em volta da terra parada, o abismo engole-nos a todos.

[o aveiro; 15/06/2006]



lugares comuns


Repito alguns lugares comuns. Quem diria que o que eu escrevo hoje é um lugar comum?
Escrevo sobre lugares comuns impróprios para consumo de quem tem uma pátria no goto e por ela deita lágrimas como qualquer crocodilo em ânsias de a comer.

Eles dizem que quem não vai em futebóis não é bom pai de família e nem é patriótico, porque a afirmação da cidade é a afirmação do clube de futebol, a afirmação do país é a vitória europeia de um clube de profissionais de futebol ou as vitórias das nossas selecções de futebolistas profissionais que já são tudo menos selecções nacionais, qualquer que seja o ângulo por que as veja. Dizem-me que sou o lugar comum das frases feitas que recusam o espectáculo da actualidade da pátria que se cumpre a pontapé.
Já escrevi as mesmas tolices quando a pátria decidiu que as grandes obras do regime eram estádios de futebol onde coubessem todos. Quantos? Então? Vamos lá cambada, todos à molhada.

Eles dizem que não é patriota quem não dá o devido valor ao dinheiro que entra na pátria e entra em bolsos dos filhos da pátria. Para muita gente, o que é preciso é haver dinheiro a circular. Até pode ser que pingue algum para lado de cada um. Com o novo quadro comunitário de apoio, Portugal prepara-se para receber, nos próximos seis anos, cerca de 20 mil milhões de euros em fundos comunitários. Há quem saia à rua de arquinho e balão a cantar louvores aos negociadores. Recebemos muito dinheiro. Viva. Só que isso significa o reconhecimento pelos restantes países da união do nosso subdesenvolvimento relativo e significa que os milhões que entraram no país não foram utilizados para o desenvolvimento. Dizia o poeta que Portugal é a face com que a Europa olha para ocidente e para o longe, mas todos reconhecem que a incompetência na gestão dos fundos pelos políticos e gestores portugueses fez de Portugal a cauda da Europa. E onde estão os grandes responsáveis pelas políticas seguidas?

Sabemos que eles estão onde sempre estiveram, que não assumiram os desastres nem fizeram propósito firme de emenda. Por isso, tememos que seja uma euforia de patos bravos e afins a tomar conta do dinheiro. Já conseguiram conduzir-nos até à cauda do tal “pelotão da frente”. Em 2013, quantos à nossa frente? (Menos no futebol, dirão, com a glória pela mão.)

Eu quero estar enganado. Mas eles habituaram-se a ganhar nas negociações e nos negócios. E vão desenganar-me, não é? E eu não saio dos meus lugares comuns.

[o aveiro; 22/06/2006]



inveja da crítica


Quando comecei a escrever aquele conto que podia ser uma novela e acabou romance entre mim e a dactilógrafa que batia na sua velha máquina, letra a letra, as letras das palavras que eu ditava, disse para mim que mais valia ler antes a crítica que do meu livro fariam. E assim fiz. Peguei em dois maços de jornais que estavam para sair daí a alguns meses e pus-me a ler as críticas. Fiquei mais ou menos assarapantado ao constatar que nenhuma das dezenas de recensões críticas, publicadas na época, se referia ao meu livro. Telefonei a um amigo que andava pelos corredores das redacções a perguntar-lhe o que se passava, se ele não tinha ouvido falar do livro que eu estava prestes a concluir muito a tempo de merecer um comentário crítico antecipado. Ele disse-me que sim, que tinha sabido, mas que não lhe viera à memória e tinha escrito sobre o anunciado livro do conselheiro. Disse-lhe que ia esperar mais uns meses para ler alguma coisa que ele quisesse escrever a respeito do que pensa que eu estou a escrever. Ele disse-me que podia fazer a referência de favor, até porque me tinha em grande consideração e a tudo o que eu nem pensava. Agradeci-lhe e desliguei. Despedi a dactilógrafa a quem me tinha afeiçoado e comprei uma máquina eléctrica que podia ajudar nas lides da casa. E adormeci. Tinha uns meses para descansar sobre as ideias que pululavam entre a minha cabeça e a chocadeira eléctrica.

Lembro-me de ter ouvido, no sonho, a voz de um antigo primeiro ministro, em lugar mais elevado agora, a tecer considerações sobre acções do seu antigo governo, do que devia ter sido feito e ainda estávamos a tempo de não fazer, para o bem de todos nós. Mas o melhor de tudo, foi quando ao falar de uma cimeira ainda fresca, o comissário disse que, mais voo menos guantanamo, tinha aprofundado alguns problemas com o seu colega de cimeiras passadas, presentes e futuras. Esquecidas as babas do jornalista, assessor não tarda, dei comigo pasmado! O comissário reconhecera finalmente a verdade: ele aprofunda problemas.

Com a realidade a portar-se assim, nem me cansei a ver o que os jornais escreveram sobre o meu romance quando chegou a hora de não escrever. Ouvi o grito do povo: Golo! E da minha mãe: Menos um pinto!

[o aveiro; 29/06/2006]



um pouco mais de azul


1. Temos o direito de comentar todas as decisões e comportamentos das figuras públicas, mais ainda quando as suas acções influenciam directamente a vida colectiva. Não achei descabidos os comentários sobre actos de Freitas do Amaral enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros. Nem achei desproporcionadas as reprovações feitas em alguns momentos e os pedidos de remodelação ministerial a partir de algumas declarações do Ministro ou deste ou daquele acto.

Mas não posso concordar com a exploração que foi feita sobre a figura de Freitas do Amaral quando foi consumada a sua substituição objectivamente por razões de saúde. Acrescentar desnecessariamente cansaços políticos ao cansaço físico ao momento da exoneração, para além de rumores, é baixa política a roçar a baixa vingança sobre a diferença de opinião. Temos de reconhecer que, a partir do momento em que é clara a doença e se consuma a substituição, as fotografias da debilidade e os comentários oportunistas servem para diminuir os jornais que aceitam brincar sobre a glória dos vencidos… pela doença. Para mostrar força e estabilidade do governo e apesar da doença de Freitas do Amaral, Sócrates insistiu em mantê-lo como Ministro? Se isso tiver acontecido, Sócrates merece as mais duras críticas, como merecem as mais duras críticas todos aqueles que insistem em aproveitar estes acontecimentos para vender papel e alma.

2. Descalcei os sapatos do inverno para olhar e escutar o vaivém das ondas uma a uma, uma depois de outra depois de outra. O verão aparece-me como uma borda que separa a luz da sombra, o calor do frio, a areia da água,… Muitas vezes dou por mim a pensar que o verão me aparece de noite. Imagino-me a descalçar os sapatos do inverno numa noite escura e estrelada, Ainda sinto por dentro dos pés a água gelada, mas sinto que passei para o meu verão. Nada disto me acontece. Nada disto me acontece, mas falo disto como se pudesse ter acontecido.

Posso fazer a passagem de uma estação para outra em S. Jacinto, onde a bandeira azul se agita. Damos a cara à brisa salgada e, à queda da estrela cadente, acrescentamos um desejo à boa sorte que a bandeira azul é. Que a bandeira azul não apague as estrelas que precisam da escuridão para se acenderem lá no alto. Se perdermos a visão dos luzeiros no céu, o que nos resta?

[o aveiro; 6/7/2006]



o milagre de antón fernán


Antón Fernán vem a Portugal duas vezes por ano. O resto dos dias passa-os por cá, mas é como se cá não morasse. Nos celebrados momentos da visita de Antón Fernán ao nosso país, ouvimos uma frase de circunstância que ele prepara antecipadamente para ser comida como entrada. Embora possamos jurar que ouvimos as palavras de Antón Fernán, a verdade é que elas nunca foram ditas. Não por serem impronunciáveis ou indizíveis, mas por serem inaudíveis acima do silêncio sobre a visita de Antón Fernán, infinitamente mais sossegada que a visita de qualquer outro português que dê à costa.
Também é verdade que ninguém sabe muito sobre a nacionalidade de Antón e há mesmo alguma confusão a respeito da atribuição desta ou daquela nacionalidade a um cidadão da Península Ibérica. Se há quem diga que ele é catalão, outros dizem que descende de um vilão fenício dado à costa durante uma viagem marítima efectuada entre os dois pólos que, por culpa dos achatamentos polares, ficou menos celebrada que o extraordinário cruzeiro de Fernán de Magalhães, essa outra celebridade entre os ibero-mundanos.
Há mesmo quem insista que Antón é galego, talvez mesmo português. Quem tal pensa, não sabe explicar porquê. Muitos pormenores de todos os dias aumentam para o dobro a dificuldade em aceitá-lo como português. Numa das suas últimas visitas a Portugal, país de onde raramente saiu, hesitámos em propor-lhe que aceitasse a nacionalidade portuguesa honorária. A hesitação acabou por vencer e salvámo-nos da vergonha de o ver sujeito a responder sobre a linha sucessória dos vice-reis da Índia e dos cognomes atribuídos aos infantes da nossa sétima dinastia constitucional e à vergonha de não conhecer os nomes de família dos heróis que, no regresso das batalhas entre os teutões, muito justamente se batem pela isenção do imposto sobre os prémios, condecorações e lucros da venda de bandeiras.
Para cada trabalho de verificação patriótica, havia um juíz a preparar-se para o pior e para o melhor. Conta-se mesmo à boca pequena que havia quem estivesse a decorar os versos da septuagésima estrofe da Portuguesa para atirar à cara de Antón Fernán, quando ele, reconhecendo humildemente a falta dos saberes requeridos, se dissesse pronto a recitar a tabuada, uma estrofe d’Os Lusíadas ou d’Os 12 de Inglaterra.
E nem um pontapé? Inaceitável! – disseram-lhe. Na gramática? Posso tentar? – perguntou ele.

[o aveiro;13/07/2006]



amanhã


Em tempo de guerra, há frases soltas que deflagram como bombas à minha volta.
Estamos a fazer todos os esforços para evitar baixas civis. Todos sabemos como é difícil bombardear áreas densamente povoadas. Acabar com os bombardeamentos é o objectivo da diplomacia. Os terroristas aproveitaram um incidente em território palestino para provocar o estado de Israel e os israelitas aproveitaram o momento para cortar as vias libanesas usadas pelos terroristas, bem como para destruir todos os incómodos que vivem no Líbano.
Ouço e parecem-me de outro mundo cada palavra e cada sorriso dos diplomatas, em suas reuniões cercadas por escombros e mortos.
Em tempo de guerra, olho para todas as vítimas e fico à espera de ver os poderosos a olhar pelas pessoas todas e, de tal modo, que lhes seja inaceitável que qualquer pessoa passe a vítima pela via do terror e da guerra. Vejo-os carregar com seus dois pesos e suas duas medidas sem nunca sagrarem cada vida humana. Eles olham os mortos nos olhos fazendo deles nós de um bordado quando tecem considerações sobre o conflito regional, ou quando anunciam subidas e descidas do preço do barril de petróleo nas grandes praças do mundo civilizado dos banqueiros. Em tempo de guerra, olho-os mais pelo prisma do veto que do voto e algumas referências da democracia deixam de ser referências. Os poderosos que vetam resoluções das nações unidas e apelam à contenção reúnem-se aos que usam o poder para aperaltar biquinhos transatlânticos em convívios mais ou menos (g)astronómicas no nosso mundo em guerra. Os poderosos andam feitos e em festa uns com os outros. Já nem percebem que os seus jogos de salão fazem estremecer o salão. E ouço as traças que mastigam os fatos dos poderosos quando eles fazem de traças do mundo.
E ouço generais que parecem comentadores e comentadores que parecem marechais a falar de mortos como peças de um xadrez qualquer. Pensam eles que sempre que aumenta o número de mortos, diminui a probabilidade de lhes caber a morte em sorte. E descuidam as defesas contra a estupidez que tudo come e consome.
Parece-me que todas as partes conspiram para evitar a paz. Uma diplomata israelita disse que quando salvamos uma alma, salvamos o mundo. Há alguém a pensar em salvar uma alma?

[o aveiro; 20/07/2006]



a guerra pela janela


Pela rasgada janela da televisão, os olhos abertos de um cadáver parecem fixar-me. Nada do que o morto possa ser me aflige. O que me aflige é o vivo que ele foi ontem sem saber que ia morrer. Contra ele se levantaram os que quiseram matá-lo sem quererem saber quem ele era e sem cuidarem de saber quem ele viria a ser. O soldado que disparou a morte vai morrer algum tempo depois e não pode saber se matou uma esperança de paz duradoura. Não pode saber se quem acaba de matar não seria aquele que amaria perdidamente por toda a vida e já lhe falta. E pensa, para acalmar a culpa e remorsos de não saber, que o mais natural é ser um dano colateral acrescentado a tantos outros de que já não há conta nem medida. Os mortos não me incomodam.

Na última década, as guerras mataram milhões de crianças. É o que dizemos para fingirmos que não foram homens, tão civilizados e industrializados fabricantes e vendedores de armamento, os que assassinaram as crianças e as esperanças que elas podiam ser. Mais no Líbano que em Israel, crianças jazem destroçadas. Os assassinados não me comovem.

Comove-me a pergunta, a dúvida que leio nos lábios fechados do soldado que ainda vive. Sem saber quando vai morrer, sabe da sua fé na vida além da morte e sabe da mesma fé no coração do corpo abatido pela fúria do seu disparo. Ainda vivo, o jovem soldado treme por acreditar que do lado de lá vai ser apresentado aos que matou sem conhecer e sem odiar. Do outro lado do tempo, em que acreditam encontrar-se todos perante quem tudo sabe, no julgamento em que comparecem todas as vítimas olhando os carrascos nos olhos. O soldado já prepara a sua defesa e clamará então que não fez mais que cumprir ordens. Se lhe disserem então que matou o seu messias ainda este era uma criança a experimentar a sua humanidade, ele dirá um silêncio espantado. De outra das suas vítimas, a que era mulher destinada a amá-lo, após o dia do juízo, o crente soldado vê-a sem ser visto e sabe que foi ele quem a cegou.

Não me incomodam os mortos nem os lugares onde jazem mortos. Incomodam-me os destroços vivos, os agentes da morte, os fabricantes de destroços capazes de imaginarem a sua própria vitória sobre a vida.

[o aveiro; 27/07/2006]



aldeia a…gosto


Sermpre contrariado, quando Agosto ataca, sou enviado para fora do meu lugar. Dizem-me que sou enviado para descanso de férias. Só que isso acontece sempre um pouco cedo demais e sou perseguido por pequenas coisas que foram sendo adiadas e são agora inadiáveis e por compromissos inevitáveis que foram assumidos para setembro e pensados agora. Começo por resisitir a todas as mudanças até desistir de lutar contra o invevitável, pensando que o computador e as comunicações funcionam. Sei que as férias não são para descansar o corpo, já que me canso só a ver as pessoas que andam daqui para ali e fazem projectos para bulir mais longe. Descansam o espírito, ao que me dizem. Talvez haja alguma coisa de pacífico e saudável nessa tentativa de estar mais tempo com a família e a fazer coisas diferentes. Também não me repugna acreditar nas pessoas que garantem lucrar com a mudança de ambiente – da cidade para as aldeias ou da montanha para a beira do mar. E tenho uma sincera inveja das pessoas, de tal modo organizadas, que ficam completamente livres no dia 1 de Agosto estando cheias de trabalho no dia 31 de Julho.
Pego em meia dúzia de coisas e deixo-me levar para uma casa de aldeia. Agora, tão perto que a casa do costume fica a menos de uma hora, mas tão longe que não possa atar lá o fio dos dias. O telefone da aldeia não vai resolver o problema do correio electrónico: nem recebo mais que os cabeçalhos e remetentes das mensagens e enviar este texto ameaça tanto o computador como o rural aparelho de telefone. A aldeia já é vila e revela-se num animado bar nocturno e num cemitério enorme. São muitos os que vivem neste dormitório do Porto, sem que da aldeia conheçam mais que as ruas por onde saem nas visitas de fim de semana à família.
No jornal da terra, vi uma fotografia de sacos de lixo a esmo em torno de um “ecoponto”. Não há contentor de lixo comum à vista. A legenda da fotografia condena a falta de civismo dos moradores e não condena a câmara municipal que, sem cuidar das suas obrigações, atrai gente para dormir nos andares da aldeia. Nesta aldeia cheia de gente e de carros, não há passeios para os peões, não há contentores para o lixo dos “sem terra” nem há recolha de lixo todos os dias. Há ecopontos. Há lixos vários que não são para o ecoponto. Há lixo em algumas cabeças.
Aldeia por ainda não ser vila. Vila por já não ser aldeia. Canseira!

[o aveiro; 3/8/2006]



abençoado frio da paz


A minha casca de verão protegia-me do calor abrasador que fazia lá fora e de que ouvia falar. Parece-me que vivi numa bolha de frescura por uns dias.

Fazia umas curtas surtidas fora da casca durante o dia para procurar o jornal diário e um ou outro olhar humano. E, enquanto bebia um café, escrevia umas frases curtas em pequenas folhas de papel de embrulho e, de soslaio, olhava as fotografias dos dias incendiados. Fazia surtidas mais longas fora da casca quando a noite caía e se libertava o ar da fresco da noite por força do apagamento do sol inclemente.

Uma dessas noites tornou-se mais fresca quando a dona do café da aldeia puxou da cadeira e se sentou para conversar sobre a vida que tinha sido dantes. A vida que ela contava passava-se com pobres sem agasalho, seus pés descalços em inverno frios e longos. Chegávamos a sentir o ar gelado do passado a passar pela esplanada e vímo-la, aos 12 anos, a passar no caminho de lama com a ?giga? cheia com os tachos do comer que ela transportava à cabeça para os operários que trabalhavam nas fábricas dos lugares vizinhos.

Será que procuramos outros tempos e outros acontecimentos porque nos sentimos cercados pelos incêndios?

Notícias da guerra mediterrânica não fazem mais que aumentar o calor destes dias e abafar a minha vontade de compreender. Há alguém que ordena que se bombardeie o ar quente e se exalta a ver as núvens de fogo e de poeira que se levanta dos escombros. Cada vez mais rápidas e urgentes as bombas partem de um e outro lado antes que a humanidade argumente tão fortemente que não seja possível continuar de um e outro lado. Esta guerra tem qualquer coisa de encenação de espectáculo irracional, nem clássico nem moderno, que obedece a marcações sem ter marcações nem limites, como se fosse uma dança infinita que começou noutro tempo e quer continuar porque só pode ser interrompida noutro tempo, no porvir.

Vejo pessoas desfocadas pela turbação que o ar quente provoca. Tanto lá como cá, na terra queimada.

E foi assim, incapaz de compreender, que me deixei chegar a este dia em que dentro da casca está tão quente como fora dela. E a vida se torna insuportável se perdermos a esperança de uma aragem fresca que assobie e da chuva miudinha que faça renascer um bosque onde agora sobra cinza e pó.

[o aveiro; 10/08/2006]



cessar fogo


E agora? O que fazemos? – perguntou a criança, levantando os olhos para o pai. O pai pareceu distraído por uns largos momentos, como se não tivesse ouvido nem visto os olhos do filho inquieto. Também para mim, não foi claro que os olhos da criança não se fixassem numa nuvem muito acima da cabeça do pai e, por instantes, perguntei-me se a pergunta não teria sido feita a alguém mais acima, a alguém mais poderoso que o pai. Porque as circunstâncias são de tal forma que não nos permitem a veleidade de acreditarmos no poder humano das pessoas simples em decidir a sua vida com os seus.

Voltamos para casa! – respondeu o pai, sem hesitação, mas minutos passados sobre a pergunta. Soube que a mulher tinha ouvido, quando a vi movimentar o seu quadril gigantesco e puxar para si uma toalha colorida. Rapidamente, vi um grande embrulho feito; grande, para ser a vida inteira, e pequeno, para caber na bacia que o homem vai amarrar na grade que se vê sobre aquele automóvel azul empoeirado.

Para casa? – enquanto solta a pergunta, a criança está a lembrar-se do pátio pequeno onde até há um mês atrás brincava. Percebo que está a ter memória da casa pelo sorriso que lhe vejo nos olhos.

O homem tem os olhos semicerrados, como se tentasse ver muito longe dali, onde está e finca o seu pé direito sobre o pneu careca. A mulher está a ajeitar o seu corpo volumoso dentro do carro. Ela sabe que ele deseja ver a casa e teme ver escombros. Ela sabe que ainda falta acertar no caminho, fazer andar aquele carro azul empoeirado por estradas que já o não são, esperar um milagre em cada ponte destruída,… comer todo o pó de uma viagem que chegaram a pensar nem ter regresso.

A mulher redonda olha o rosto do seu homem, tisnado da inclemência do sol e chupado por rugas, fundas fronteiras entre vales de lágrimas, cólera ou ódio. À mulher não interessa encontrar a casa. Ela espera encontrar o seu lugar, reconhecer um cheiro, ver um trapo perdido, … esperar os outros que hão-de voltar ao lugar.

Sentimos o que ela pensa: Talvez a casa já nem exista. Mas o lugar existe e saberemos que o encontrámos quando cada milímetro de chão for reconhecido por quem volta. Se um vizinho levanta um calhau e, do meio dos destroços levanta uma franja da sua vida, eu sei que posso sentar-me uns metros ao lado. Em meu lugar. Não preciso de mais para descansar e para que o meu filho recomece uma brincadeira interrompida pelo meu medo.

[o aveiro; 17/08/2006]



o avesso do direito


1.
Onde guardas o que ouves? Não pode ser na cabeça, que a cabeça não chega para tanto. Quando te pergunto o que me ouviste dizer-te um dia qualquer do passado, tu recitas palavra a palavra o que eu te disse. Ou assim me parece.
Ou guardas realmente o que eu disse em todos os dias da nossa vida e lês a memória das coisas que dissemos ou inventas o que eu podia ter dito e eu, falho de memória, aceito como muito plausíveis aquelas frases adequadas à circunstância e ao dia que, sem lembranças, rememoro por intermédio da tua memória ou da tua imaginação.
De qualquer modo, não podes guardar tudo na tua cabeça. Memória gravada ou ferramentas da imaginação de memórias não cabem. Ainda pensei que usavas uma competência qualquer para guardar a informação rarefeita e para a reorganizar instantaneamente sempre que dela precisavas, mas isso também ocuparia espaço que não sobra na tua pequena cabeça.

2.
Onde guardas o que sentes? Há quem pense que guardas no teu coração o que sentes, mas o teu coração não é mais que um músculo para cumprir rotinas de músculo – sístole e diástole – e alimentar em todos os sentidos a canalização do saco de sangue que tu és. Há quem pense que guardas as emoções dentro do teu peito, mas eu acho que não cabem no teu peito os disfarces para as alegrias e tristezas e para as dores que se derramam da nascente do pensamento que é exterior a tudo o que sejas tu.
Umas vezes estás cheio de alegria e não cabes em ti de contente.
E já te vi suar indignação na voz e a rebentar de fúria. Vi que as emoções que experimentaste não cabem em ti e vivem num lugar longínquo e inacessível. Há uma lista rabiscada que se enrodilha no bolso dos segredos.

3.
As tuas ilusões acordaram cansadas e nem tens força para juntar a voz da tua mão ao silêncio. E não podes senão escrever o silêncio de tempestade por te sentires obrigado a ouvir vociferar dirigentes de faca na liga e de federação do interesse privado em negócios milionários que viram interesse público e viram do avesso o estado de direito.
Já é mau saberes que existem. Horrível é saber que eles estão em toda a parte e até dizem o que pensam.

4.
Onde guardas o que calas? Para onde vais, quando o ar é irrespirável? Fechas os ouvidos ao que precisas de ouvir para não ouvir a boçalidade criminosa? Um vendaval de silêncio dissolve no oco as palavras que ouviste e não podes devolver.

[o aveiro; 7/9/2006]



O que é importante


Esta semana recebemos a prova da nossa normalidade social. Todas as crianças e jovens regressam à escola – básica ou secundária. Há quem já nem pense na importância deste acontecimento e, embora seja sempre notícia, o facto dos regressos gerais à escola aparece muito diminuído comparado com uma pequena nódoa na gravata de algum importante, mesmo que mal educado e iletrado.

Nestes tempos que vivemos, podemos saber que nem tudo está perdido se, numa data prevista, as crianças e jovens forem chamados e respondam a cumprir um imperativo social que ninguém discute por princípo e todos discutem no fim. O regresso à escola em cada ano é um facto e todos saúdam o regresso à escola. O abandono da escola é um facto e todos condenam o abandono escolar.
A sociedade destes tempos que vivemos é uma escola. Assumimos hoje que todos, desde o nascimento à morte, são aprendizes e de escola. Vivemos numa sociedade onde todos precisamos de aprender ao longo de toda a vida, porque tudo se passa num mundo feito de mudanças. Para sobreviver neste mundo em mudança, precisamos de mais escola e mais escola de todos para todos. Por sabermos isto, saudamos o regresso à escola e lamentamos quando alguém abandona a escola básica o que nos obriga a novos esforços para inventar o regresso ao futuro de quem se refugiou em algum espaço exterior à sociedade escola.

De que escola precisamos? Há quem pense que a escola necessária a todos não é a escola daqueles que podem dirigir e salvar este nosso mundo do estado em que está. Há quem pense que a escola para todos dá conhecimentos e competências técnicas como instrumentos de vingança. E que a escola única para todos é uma ficção, por poder ser sempre recusada por uma parte, e uma realidade terrível, porque prejudica os melhores sem fazer coisa que se veja pelos que estão longe da escola.

À margem de todas estas discussões, neste mês de Setembro em que recordamos tantos terrores, horrores e.. guerras preparadas e travadas nas melhores escolas do mundo, escrevo aqui a celebrar o nosso país do regresso à escola, este acontecimento que nos diz que ainda não nos perdemos uns dos outros e ainda acreditamos nuns e noutros para mais um passo desta dança de paz… Mesmo sem esperança nos milagres que nos pedem, voltamos a tentar. Prometendo não pisar o nosso par, esse outro que ainda nem conhecemos. Sabemos que foi convidado e que isso é o mais importante.

[o aveiro; 14/09/2006]



aprender para ensinar não é secundário


1. Nascido na década de 40 do século passado, lembro-me vagamente de um ou outro dos meus professores. Como se estivesse inibido de levantar os olhos para ver e conhecer os professores que eram pessoas do outro mundo. Lembro-me de ter feito parte da escola na aldeia. Mas não me lembro de ter feito parte da escola na cidade no sentido de que a aldeia que eu era me separava das pessoas da cidade e ainda mais das pessoas da escola na cidade.

2. Tento lembrar-me dos verbos. Que ordens me dava a minha mãe ou a minha irmã para que eu as trocasse por aquela escola? Ia para a escola para aprender ou para ser ensinado? Aprendíamos a trabalhar, aprendíamos um ofício, … E na escola? Lá íamos, nem cantando nem rindo, para sermos ensinados.

No liceu, os professores ensinavam e reprovavam-nos ou passavam-nos. É verdade que nos faziam perguntas verdadeiramente assustadoras e até nos repetiam as respostas que devíamos dar para ver se nós decorávamos algumas delas. Não me lembro de alguém se preocupar em distinguir quando eu tinha decorado o que queriam ouvir de quando eu tinha compreendido e aprendido. Porque talvez se pensasse que o importante nos liceus era o conhecimento armazenado e conservado para ser debitado e não o conhecimento para a acção. De vez em quando ponho-me a pensar que não era assim nas outras escolas. Mas não sei.

3. Ser professor era ensinar. E um professor ensinava bem mesmo quando ninguém aprendia com ele. Havia mesmo algumas supernovas que quanto mais brilhassem a recitar frases incompreensíveis mais magníficos professores eram. Padres e professores assim afiavam as suas línguas do alto das suas cátedras e púlpitos.

Ainda há artistas desses. Nem dão pelo deserto na sua vizinhança ou gostam de pensar que tudo é mais sossegado quando estão sozinhos e que tão grandioso é o vazio que os cerca como a multidão que imaginam ululante, canalha e incapaz de se maravilhar com os perdigotos das suas citações.

4. Dos professores sabíamos que tudo sabiam e ensinavam. Aprender era ocupação dos outros, se a tanto se atrevessem. Sabemos de quem nada compreendesse e fosse capaz de repetir tudo tal qual o que era ouvido e achado até ser certificado como repetidor. E apesar de tanto ensino puro e duro, para poucos realmente, sempre houve quem aprendesse.

O verbo aprender não constava dos documentos dos ministérios da instrução. Mas não me consta que a falta do verbo impedisse de aprender, até a quem fosse só ensinado.

5. Dizem que nos últimos anos, o sistema educativo trocou tudo e agora foi banida a palavra ensino e a ocupação do sistema passou a ser verificar e garantir as aprendizagens dos jovens. De tal modo que aos estudantes se desculpa que não tomem a iniciativa de trabalhar e aprender e que aos professores se proíbe que ensinem.

6. Reconhecemos facilmente que precisamos hoje mais do que ontem de ter certezas sobre o que aprendem e como aprendem os nossos jovens. Aumentámos muito a quantidade e variedade dos meios de comunicação e a incerteza sobre os seus conteúdos. Eu soube repetir as orações que me ensinaram sem lhes dar sentido e ainda hoje as posso repetir e com a compreensão que as tornou inúteis e à sua finalidade primordial de relação com o fantástico para lhes restar pouco mais que um pó de nada. E sei que os jovens vão à catequese e lamentavelmente não recitam os 10 mandamentos, embora saiba que, de entre esses, jovens há que cantam todos os andamentos de complexas obras musicais. Precisamos de ensinar.

7. O problema do falhanço da instrução no regime fascista não foi a falta do verbo aprender nos documentos oficiais. A falta do verbo ensinar nos documentos oficiais actuais não é a causa do falhanço da educação no nosso regime. Seria fácil melhorar rapidamente se o problema fosse de palavras, se o problema não fosse precisarmos todos de trabalhar e aprender muito para ensinar o que é preciso.

[a página da educação; 10/2006]



o dia em que descobrimos o país que era


O governo admite impor taxas moderadoras à prestação de cuidados de saúde até agora gratuitos. E acrescenta que tal não tem apenas razões económicas. É mais uma forma de moderar o acesso ao internamento ou à cirurgia de ambulatório.

Ficamos a saber que há alguns portugueses que têm tendência para abusar do internamento e outros com uma queda pela auto-flagelação com cirurgias desnecessárias.

Quem poderá desejar estar internado, sem disso precisar, num hospital português? Talvez os idosos abandonados pela família e pelo estado providência incapaz de criar sistemas de apoio eficazes à pobreza da nossa terceira idade.

Se há quem queira abusar destes serviços e precise de ser moderado na sua gula, é preciso sabermos em que país vivemos e como deixámos que concidadãos europeus tenham caído nas malhas de tal degradação da sua qualidade de vida. Não estamos a falar de auto-marginalizados que, quando a má sorte aperta, não têm força nem ânimo para abusar de tais serviços. A não ser que sejam apanhados na rua pelas organizações de caridade ou pelos serviços de urgência do estado a que chegámos. Mas não pode ser a estes que o ministro se refere porque estes nunca poderão pagar qualquer taxa moderadora e há muito tempo que moderaram a sua esperança em serviços públicos de saúde.

Ele está mesmo a falar dos remediados pobres e dos pobres que vão pagando as taxas. Ele está mesmo a falar de mais uma medida das muitas destinadas a liquidar o serviço nacional de saúde. Mais um prego para o caixão do serviço público gratuito quando essencial e insubstituível e insuprível para quem não tenha dinheiro que o pague. Uma a uma, como coisa pouca, cada medida é uma contribuição inestimável de cada ministro capaz de liquidar os serviços que jurou defender no acto de posse. E dirão sempre que cada vez que tomaram uma medida impopular o fizeram com o fito de viabilizar o que vão liquidando. Nós sabemos que serviços que não há são viáveis e até são a custo zero para os contribuintes Só que, deixando os ricos sem obrigações solidárias, os pobres vão ter de pagar tudo para sobreviver ou nada… para morrer.

Um dia ainda vamos acordar sem país.

[o aveiro; 21/9/2006]



a cultura no olhar


Dia a dia, lá vamos mudando. Damos pelas mudanças reais já elas tomaram conta de nós, já nos acomodámos a elas e, mesmo que o quiséssemos, não podemos mudar de passeio e acabamos a falar com as mudanças que dentro de nós moram.

Algumas mudanças seguem-se a pequenas decisões, a pequenas desistências, a pequenas guinadas nos pontos de vista.

Há pouco tempo, decidi apurar ainda mais a vista a olhar para o ensino no pequeno círculo em que me movo. Trabalhamos aqui, mas se não focamos o olhar para ver perto, acabamos por falar do nosso círculo, contaminados pela ideia do que acontece em geral. Se apuramos o olhar sobre a realidade da nossa esquina, esquecendo o que sabemos de ouvir falar, vimos aspectos que nos escapavam mesmo sendo parte da nossa circunstância. Ou nos tornamos mais optimistas ou nos tornamos mais pessimistas, porque desistimos de muitas desculpas e porque recusamos culpas que, não sendo nossas, são a nossa circunstância.

Deixamos também de tentar ser exemplo para fora de nós. Desistimos um pouco, para tentarmos ocupar um espaço feito tanto de intimidade como de exposição. Contamos pouco. E sabemos que somos esse pouco que é tudo o que podemos dar. Precisamos dos outros só no que eles nos possam dar e recusamos nos outros o que eles nos podem tirar. Não queremos receber qualquer totalidade de outros e celebramos os pequenos detalhes.

Por exemplo, comecei a ficar muito sensível a todos os comentários que apoucam a matemática no que ela tem de parte da cultura geral ou que diminuem a matemática, ao considerá-la tema impróprio para o quotidiano, desnecessidade, actividade improvável e interesse exótico de excêntricos, razão particular tanto quanto a literatura ou a tecnologia respondem a necessidades e se tornam razão da sociedade toda. A escola trata do culto da cultura geral, dos bens do espírito e da saúde do corpo. Pequenos disparates que se repetem, dia após dia, constituem a persistente vontade de amputar a cultura em nome do maioritário (des)gosto.

Estou a mudar-me para dentro do olhar. Como estão a ver.

[o aveiro; 28/09/2006]



da indústria pesada


A última semana de alguns é a primeira semana de outros, sendo que uns e outros podem ser os mesmos enquanto afirmam a diferença que farão no futuro relativamente ao que foram no passado próximo. Para muitos estas diferenças têm sido negativas ou dão resultado negativo, porque os da primeira semana de futuro têm uma última semana de passadão e de passivo.
Os noticiários alertaram-me para a novidade do novo dirigente da indústria não vir de qualquer clube de industriais. Em nenhum pormenor do cenário da cerimónia transmitida em directo consegui vislumbrar razões para o alerta. Aliás, todos os figurões e até os figurantes pareceram-me caras conhecidas do mesmo clube. Percebo pouco de indústria, mas tenho de confessar que me senti a assistir a uma celebração do clube central do país. De que clube falavam os comentadores? Ainda estou para descobrir.
No discurso, muitas frases do ex-secretário presidente começavam por “Comigo,…” para parecerem ora uma ameaça ao porvir ora uma promessa de diferença relativamente ao passado ali omnipresente e, diga-se, omnipotente e omnipatente de major para cima. Queria ele dizer-nos que nunca tinha estado naquele mundo e eu sem ter imaginação que chegue para o ver fora daquele mundo. E gostei de o ver ex-secretário a falar ao secretário do respeito sagrado que a indústria pede e merece e de como exigirá isto, aquilo e transparência nos números das relações da indústria com o estado das secretárias polidas até à transparência. Como terá sido ao tempo em que foi secretário o ex-secretário do estado a que isto chegou? Não tenho memória. Sei que foi transparente até passar de secretário de estado a estado maior da indústria. E dou graças a deus por não ter estado presente quando se mostraram transparentes (e certamente medonhos).
O mais medonho foi quando, sem passar procuração, o ex-secretário começou a transferir as nódoas dos fatos dos industriais da sua liga de metais raros para as togas das justiças interna e externa à indústria. É uma piada bem portuguesa.
Com mais um peso pesado na direcção da indústria, Aveiro arrisca-se a precisar de tratamento… por excesso de peso político.

[o aveiro;5/10/2006]



lá fora, a vida


Ouço os gritos lá fora. Não sei de onde, eles chegam até mim voando. Alguns são guinchos entre palavras de ordem. Percebo que os guinchos e os grunhidos fazem parte da integração na universidade, são o santo e a senha ou o código que abre a porta da horda. Está tudo como dantes. No meu tempo de estudante, assim eu levantasse a voz tímida contra qualquer dos poderes estabelecidos, as forças da ordem apareciam para me calar como quem esmaga uma voz. No meu tempo de estudante, havia estudantes que gritavam obscenidades e bebedeiras pelas ruas e as forças da ordem apareciam para os aplaudir, porque a ordem então imposta era a obscenidade de um regime fascista. Continuo sem compreender como é que esta ordem democrática aceita as agressões ao vento que passa de uma turba que se dá ao luxo de gastar semanas e semanas de aulas e trabalho a impedir os novos estudantes de começar a estudar. Os governos do país e das universidades riscam estas semanas do calendário; até parece que quando marcam o início das actividades estão a marcar o início destas actividades performativas que enchem ruas da cidade de jovens pintados, borrados, encharcados e manchados, a marchar ao ritmo marcado por estupidantes e depois, educados para boas maneiras ao chá, para a boçalidade e para a classificação rasca que o rendimento escolar lhes atribui, ao tempo em que prende a realidade, a mesma na mesma, e, como sempre mergulhada no mar dos discursos dos piores do costume a clamar por melhores dias. Fingem mesmo que as actividades performativas degradantes são boas e não perigosas, fingindo acreditar que os meninos só usam produtos antialérgicos, que os humilhados até gostam de ser humilhados quando se defendem não atacando, que as agressões psicológicas não deixam marcas físicas. Eles são doidos. Eles são doidos. E só acordam para a parvoíce quando alguma bebedeira corre mal ou quando o terrorismo faz vítimas que não cabem no armário do costume e do esquecimento. Começo a seguir a teoria da conspiração: o poder político e económico, com seu material genético a dar provas de incapacidade e estupidez criminosas, deixa a coisa andar por estas veredas para que tudo se reproduza da forma mais conveniente e as suas crias, ainda não geneticamente melhoradas, não tenham de enfrentar a concorrência de uma inteligência popular qualquer que se levantasse para os pegar de cernelha, pelas orelhas, pelos cornos, pelo norte magnético. Se eles podem permitir estes luxos asiáticos aos estudantes subsidiados para isso mesmo, ao mesmo tempo que reclamam resultados do sistema educativo, eu posso acreditar numa conspiração, qualquer que ela seja. Eles são doidos! Que me perdoem os doidos verdadeiros que, num acesso de lucidez, fugiram deste filme e berram ainda mais alto para não ouvir o eco disparado para as nuvens. Nestes dias, falha-me a paciência mesmo para o tempo que voa: agarro-o pelo pescoço e sopro com toda a força até que este rebente e se estilhace no ar. Eu quero ouvir a chuva grossa lá fora, um chão que abafe os passos destes batalhões incapazes que brincam como quem dá provas de vida ao sistema (tão tímido a fazer saber que a vida é outra coisa e outro lugar) para que este as subsidie nem que para isso corte nos subsídios à vida produtiva. Todos somos cúmplices deste intervalo oco. Por ser oco? Por não ser oco.
Ouço os gritos lá fora.

[o aveiro; 12/10/2006]



a greve


Todos sabemos que os estatutos das carreiras dos profissionais da administração pública foram aprovados pelos partidos socialista e social democrata. Não houve outros responsáveis. O estatuto da carreira docente de que se fala muito nos dias de hoje é um desses estatutos encavacados, pré-socráticos ou mesmo socráticos. E, como é óbvio, o estatuto definiu escalões ou patamares e formas de progressão ou de passagem de um para outro escalão e isso não foi mais que definir a avaliação dos professores.
Ninguém consegue aceitar ou sequer perceber as faltas de memória destes eternos governantes (alguns deles nunca foram outra coisa senão deputados e governantes por turnos). Não é possível que se tenham esquecido do que andaram a fazer com a avaliação de professores e outros funcionários, contribuindo ao nível da minúcia do abandalhamento do sistema. De cada professor pode ser dito que tentou passar de um escalão para outro com o mínimo esforço e talvez para ajudar a que o mesmo acontecesse aos seus amigos e colegas. Não acreditando na desmemória dos políticos, o que eles nos dizem hoje é que transformaram em sistema o que não devia ter passado de tentativa falhada deste ou daquele professor menos honesto. Podemos saber que todas as instâncias da administração procederam no sentido de deixar passar a uma progressiva fraude toda a avaliação até porque estes governantes encharcaram a administração pública, em particular, a administração da educação, com criaturas que nada tinham a ver com a coisa pública bem educada. Alguns secretários de estado, directores gerais, directores de serviços, … destas andanças dos partidos no governo apresentaram-se como gestores da educação que nunca tiveram. Se a tivessem, nunca teriam aceitado a máxima humilhação de aceitarem cargos, como quem aceita pagamento excessivo para ser burro de carga… perigosa e leve.
Os governantes dizem-nos que a avaliação dos professores (aquela que eles decidiram ontem) não existe hoje e que é preciso fazer outra para amanhã. Eles dizem-nos tudo sobre o que eles foram, e, não havendo confissão nem propósito firme de emenda, estão no mesmo passo a dizer-nos quem são e quem serão enquanto puderem engolir.
A greve é uma porta estreita, uma excepção. Nela entramos de lado, olhando de soslaio todos os que se governam tanto quanto nos diz a memória que nos resta.

[o aveiro; 19/10/2006]



a privada


A semana entusiasmou-se com o êxito em bolsa de uma nova energia, aquela maravilhosa energia limpa soprada para dentro de milhares de balões coloridos (a uma só cor adequada, diga-se!). Nós devemos ficar contentes com os encaixes dos governos e devemos entusiasmar-nos com os desfiles dos dentes mais brancos e afiados acabadinhos de sair de um governo para as administrações das empresas. Essas empresas são ou foram públicas no todo ou em parte até que a parte pública se torna interessante como privada e a iniciativa pública se desvela em zelos para tornar privado o que era público. Quando vejo ex e actuais ministros, ex e actuais administradores nestas festas bolsistas, chego a pensar que há uma unidade de missão para meter o país na privada.
A semana pública entusiasmou-se com a semana privada. Os balões laranja nem chegam para as encomendas.

Do governo vieram todas as indicações e leis que obrigariam a mexidas nos preços da electricidade. Mas o instante da divulgação pública da coisa calhou em má altura, logo em cima de negociações salariais que o não são e em cima da apresentação do orçamento, etc. Ministros, secretários e outros escribas das leis que obrigaram ao aumento lançam-se em declarações contraditórias. Com tal bagunça, acabámos a assistir a um debate sobre custos e preços da energia eléctrica e sobre a política energética do país. Na primeira parte, ouvimos esclarecimentos sobre custos e preços praticados e sobre a composição do preço que os consumidores pagam. Na segunda parte, ouvimos falar de políticas energéticas, numa discussão que uniu o conjunto dos interessados no actual sistema de produção da energia, incluindo as renováveis, contra o nuclear. Mas interessante mesmo foi ver os ministros e secretários do estado de ontem a apresentarem-se hoje como presidentes de empresas dos sectores que tutelaram. E aparecem tão independentes, tão defensores do interesse público até à ânsia de não vender a energia que vendem.

São eles que afagam a lâmpada para receber o soldo devido ao génio.

[o aveiro; 26/10/2006]



esconder para esquecer


Aproveito uma aberta entre dois temporais para escrever uma clareira, para escrever uma “branca”. Nós escrevemos uma “branca” quando não nos lembramos de coisa alguma que interesse escrever. Por enquanto, a “branca” ainda é de outros.

Na semana passada, foi lançado o livro “Desastre no ensino da Matemática: como recuperar o tempo perdido”. O livro reuniu intervenções de notáveis sobre o passado e foi lançado numa conferência de outros notáveis sobre o futuro do ensino da Matemática. Esta conferência reuniu vários ex-ministros da educação e conselheiros que são representativos de todos os os governos e partidos com pastas da educação desde o 25 de Abril.

Houve desastre e ficamos a saber que responsáveis pelas políticas da educação dos últimos 30 anos estão de saúde e, apesar do desastre, estão bem na vida e continuam capazes de dizer ao país do futuro o que deve ser feito para recuperar o tempo perdido por eles, com eles, apesar deles, …

[Porque o empreendimento da educação correu mal, todos os educadores e professores são condenados, com pouco direito a defesa, todos os dias. Destes se diz que progrediram até ao topo das suas carreiras, sem qualquer avaliação. Ao contrário, os coitados dos ministros do tempo perdido foram avaliados e, por isso, voaram tão mais alto quanto mais contribuíram para o êxito do desastre ou para o fracasso da educação.]

Nos intervalos das aulas de matemática do dia seguinte à conferência, tentei descortinar o que teriam dito aqueles ministros do tempo perdido do título do livro. Aos ouvidos chegaram-me as banalidades com que os passa-culpas palitam os dentes e coçam a consciência. Dei por mim a pensar que mais valia comprar e ler o livro logo que pudesse, para saber mais.

E só à noite percebi o vazio que acontecera, quando um dos responsáveis da coisa disse, para quem o quis ouvir, que não lhes interessara o passado e que tinham combinado só falar do futuro. Estão a ver a maravilha?

Para os efeitos, o passado é um desastre. Para parte das causas, o passado é uma branca.

Dia a dia, dou por mim mais velho e incapaz. Fico feliz por conseguir reconhecer os erros passados e corrigir, quando dou por eles, os erros de hoje. Peço a Deus que não me deixe cair na tentação da irresponsabilidade e prefiro, apesar dos erros, pensar que o passado não foi uma completa bronca, e desejar que não venha a ser… a grande “branca”.

[o aveiro;2/11/2006]



a língua da tecnologia


As novas tecnologias de comunicação global permitem novas formas de ensinar e aprender. Os professores portugueses podem aproveitar a tecnologia para multiplicar as possibilidades de levar até aos outros os conteúdos de ensino, mas também para organizar os trabalhos necessários aos aprendizes para aprenderem a matéria do seu ensino. Podemos mesmo utilizar, a favor do nosso ensino, os contributos que um mundo de pessoas cria e nos dá de mão beijada no momento propício. Uma parte do que precisamos aparece em outras línguas e, por via disso, o nosso ensino fica acrescentado de valor com aprendizagens úteis.
Neste mundo de oportunidades, somos infinitamente mais livres que a geração que nos precedeu. Mas podemos cair na tentação de deixarmos de ser utilizadores e produtores de conteúdos próprios e podemos deixar que as línguas dominantes nos comam a língua até ao ponto de deixarmos que, no nosso trabalho quotidiano, todos os textos do nosso dia a dia estejam impregnados de termos de outras línguas e, particularmente, de termos e palavras de outras línguas registados como marcas de produtos a vender. Por esta via, os professores podem emigrar da pátria da língua para, sem sair das escolas portuguesas, se transformarem em coveiros da língua portuguesa tal como a conhecemos e é o mais notável traço da nossa identidade.
Em todas as nossas lições, devemos deixar marca da língua tanto pela fala como pela escrita. Mas a nossa marca portuguesa também deve estar nos lugares da rede global em que nos integramos, sem deixarmos de ser nós, nem deixar os outros ser por nós. Por isso, não são aceitáveis iniciativas dirigidas para o ensino básico onde se não respeita a norma da língua e aparecem diversas línguas numa mistura que parece informar os jovens da aceitação escolar de uma nova língua. Não há qualquer razão para aceitar isto em ambientes escolares de jovens a crescer em graça e sabedoria até uma identidade que ou tarda ou é, já agora, bastarda.
A conversar é que a gente se entende e que a gente também se afirma e se confirma. A escola ensina outras línguas, porque disso depende compreender o mundo e ser parte dele. Ao mesmo tempo, afirma a mãe língua de todos os dias, porque esta escola serve uma parte independente e notável deste mundo em rede.

[o aviero; 9/11/2006]



perto de longe


Uma vez por outra, dou por mim a prometer que não volto a fazer isto ou aquilo. Porque sou velho demais para continuar a fazer isso, porque é preciso deslocar-me e as pernas não ajudam, porque é muito importante dedicar-me às minhas aulas e à minha escola e a nada mais que isso, porque posso estar a perder o norte e já começam a amontoar-se disparates à minha porta da boca, na ponta da língua. Depois, acabo por ceder a quem manda (que são outros que não eu) e lá vou fazer uma ou outra viagem para defender pontos de vista sobre a matemática e o seu ensino. Depois de cada surtida para fora de mim mesmo, ensimesmo e penso nas tiradas que me parecem excessivas. É claro que, se há debate real, mais do que a descrição da ideia e dos seus contornos, é preciso atrair atenção para o ponto de vista que empurramos da penumbra dos bastidores para a luz da ribalta. Precisamos de empolgar uma mente até que suba ao palco e contracene com a nossa ideia, ainda que seja para a condenar. Nesse instante trágico em que damos lugar a uma ideia, prometemos não voltar a sair de casa. Até que um novo compromisso nos atira para longe de nós e contra nós.

Na semana passada, atei os olhos no abandono da estação dos caminhos de ferro de Oliveira do Bairro. O que mais me espantou nesta viagem foi a distância real entre Aveiro e Oliveira do Bairro para quem lá vai de comboio. Não devia ser longe. Mas é.

Na mesma surtida, espantou-me ver como são curtos os caminhos entre as pessoas que se ocupam do saber, da educação, da cultura científica no futuro, da fala entre as gerações. Onde alguns me apontaram a distância de um abismo, vi como fica perto a porta da casa onde comungamos o privilégio de chamar pelos nomes os jovens que trabalham e se destacam nas escolas locais. Havia uma ponta de vaidade e orgulho na voz dos responsáveis do “Jornal da Bairrada” quando chamavam pelos melhores filhos da terra. É esse fio de voz que nos leva daqui até ao futuro. Os jornais locais são o fio em que nos equilibramos quando encetamos a nossa travessia de funâmbulos. Se cairmos nesse caminho, caímos em casa. Esse é o conforto que anseio ao procurar uma casa comum em Aveiro

A ver passar os comboios em Oliveira do Bairro, liguei os quatro cantos da casa comum de Aveiro por comboio. Linha por linha.

[o aveiro; 16/11/2006]



a exacta medida


Aquelas caras não me são estranhas. Aquelas caras não me são estranhas! A mulher repetia a frase como se estivesse a falar com os seus botões. As vozes não me soam estranhas. As vozes não me soam estranhas! A mulher repetia a frase como se precisasse de falar para si mesma para reconhecer o som da sua voz e, quem sabe?, identificar as vozes gordurosas, suadas pelos poros da televisão ligada.
O homem esticava a sua atenção para tentar perceber aquelas contas que se faziam com um grande número de pequenas quantidades, soma milionária de parcelas pequeníssimas. Vinham-lhe à memória as histórias dos golpes de bancários vigaristas que tiravam um cêntimo a cada conta de cada um de milhares de clientes do banco. Sempre se tinha deixado fascinar por esses golpes e chegava a imaginar caras patuscas para os seus autores. Acordou para olhar com atenção para aquelas caras. Os seus golpistas eram uns vigaristas simpáticos parecidos com o Robin dos Bosques que roubavam os banqueiros ou os clientes dos banqueiros para si mesmos ou para um grupo de amigos ou mesmo para uma seita de pobres tipos que de pouco precisavam. Tinha começado a perceber que o golpe tinha sido feito legalmente pelos próprios bancos sob as ordens daqueles senhores.
Não! Ouviu-se a dizer em voz alta, falando para a mulher. Estas caras que estás a ver não podes lembrar-te delas das nossas conversas sobre os heróis que associámos ao golpe dos centavos. Continuou ele. Também duvido que te lembres das caras e das vozes por serem banqueiros. Dos bancos nunca conhecemos mais do que o pessoal dos balcões.
Está bem. Tens razão. Eu nunca ouvi falar um banqueiro dos nossos dias. Concordou ela.
O homem e a mulher calaram-se para continuar a ouvir os senhores. Ouviram os senhores defender que é legítimo o que é legal, que, enquanto o vigarizado não reclamar, o vigarista não pode ter culpa nem remorso, até porque isso seria perda de iniciativa e eficácia. Ao determinar um fio de irracionalidade sem vergonha nos discursos dos senhores, a mulher virou-se para o homem para lhe dizer: Não estranho as caras e as vozes destes senhores e nem estranho o que dizem. Eles e as suas ideias devem ter passado por algum governo português ou pela administração de alguma empresa pública portuguesa.
Só pode! Concordou o homem.
E calaram-se.

[o aveiro; 23/11/2006]



os dias seguintes



De todas as coisas simples que fiz na vida, uma há que, quotidiana, me enchia de prazer e até alguma vaidade estética, confesso! Chegava a preparar-me para essa actividade com alguma demora mental e espreitava o espectáculo antecipadamente, criando momentos para deixar respirar a minha obra ou demorando este ou aquele aspecto para contemplação do meu público.

Estou a falar de antigas aulas de matemática falada, mas principalmente da escrita em quadros negros de ardósia. Desde a primária que cuidava da escrita, mas só muito tarde dei por mim a acrescentar a emoção da matemática manuscrita à escrita. Eu sei que o que escrevia era pré-determinado pela transmissão desta ou daquela ideia ou conceito, pela demonstração, pela técnica, … Só que o que me dava prazer era a letra, os símbolos, as figuras limpas – brancas sobre o negro – que constituíam o quadro (igual e diferente dos outros dias) cheio de palavras, de expressões, … cheio de gestos que me pareciam irrepetíveis. Houve mesmo alturas em que dava por mim a atribuir-me o papel de mestre escola que, pelo exemplo, pede imitação e pede autorização para ser exemplo de organização e pede admiração para aquela estrutura de andaimes seguros por nexos lógicos, humor emprestado e poesia. Se fosse hoje, teria fotografado muitos quadros antes de os apagar para todo o sempre. Do mesmo modo, tarde demais, tantas vezes desejei fotografar a memória da poesia que guardava em gavetas (de memória mesmo): a que tinha lido e a que improvisava cantando entre dentes ou discursando ao vazio.

A preocupação em sair desse palco para dar cada vez mais a ribalta aos aprendizes, felizmente ou infelizmente distantes da aprendizagem por pura imitação e memorização, fez com que fosse abandonando os gestos treinados para o quadro negro. Sem mágoa, fui substituindo o modelo que era por outro e por outro e por outro, na tentativa, talvez vã, de ser o caminho. Com nostalgia, vejo-me a voltar atrás num desejo absurdo de voltar ao tempo em que me pendurava nas paredes para colar o cartaz das minhas mãos treinando o quadro que viria a ser.

Ontem sentei-me a ouvir o debate sobre a universidade de hoje em diante. Acabei por adormecer e voltar a outra universidade onde crescia por dentro para fora de mim. Quando acordei, desenhado no quadro negro, olhava a nostalgia desenhada ao meu lado.

[o aveiro; 30/11/2006]



talvez dormir


Quando chega o Natal, dou por mim a seguir com redobrada atenção os anúncios. Recorto anúncios de bonecas quase vivas, as roupas, as casas para elas viverem, as máquinas, os heróis repetidos das bandas desenhadas e da televisão, os telemóveis, os jogos, as consolas, etc. Não, não os recorto dos jornais e revistas. Recordo-os da televisão que vejo e ouço. A televisão mostra o mesmo e mais qualquer coisa que o rádio, o mesmo e mais qualquer coisa que os jornais, etc. A televisão mostra mais.

E a televisão esconde mais que todos os outros meios juntos. Cada um dos três canais populares mostra-se a si mesmo, mostra o que afirma, mostra as suas meninas e os seus meninos feitos modelos, locutores, apresentadores e actores nos seus papéis e depois como actores que representam as suas próprias vidinhas, para voltarem como as personagens dos anúncios publicitários que tudo pagam e tudo compram e nos compram. Os três canais populares fazem de tudo para nos convencer que não há vida fora da vida que nos mostram. São a escola que finge vidas de sonho quando cria o vazio, quando levanta o biombo a separar a realidade… do sonho que comanda a vida.

Talvez seja por isso que a indústria se desdobra em canais e mais canais na obsessão doentia de chegarem a todos e a cada um, sem excepção. Os últimos anúncios para o estertor do mundo que conhecemos, dizem-nos que qualquer de nós deve ter acesso a 65 canais por toda a casa para que cada um faça a sua escolha de solidão em família. Acrescente-se isto aos telemóveis dos fala-sós pela rua e em casa, os computadores que nos ligam ao mundo virtual e nos separam do real, as consolas que fazem da nossa vida um jogo de guerra,… Tudo e em todos os lugares onde cada um possa grunhir a sua individualidade, até que o egoísmo supremo do desconhecimento dos outros transforme em nada as pessoas tipo pai, mãe, irmão, avó,…

Os mandantes destas indústrias e deste estado de coisas enchem a boca de declarações a favor da família e dos altos valores, enquanto vendem trincheiras que fazem das casas das famílias campos de batalha onde ninguém fale para se entender. Sem sabermos como, velhos e jovens aceitam o que antes era individualmente inaceitável – a tortura do sono e o isolamento em quartos minguantes.

De dia, as escolas abrem as salas de aula para jovens. Os jovens comparecem, uns para dormir, alguns para não despertar, outros para desesperar. Se isto é um pesadelo, é melhor acordar. Ou dormir?

[o aveiro; 7/12/2006]



o natal dos guarda-costas


“Já poisou toda a poeira que tinha de poisar sobre a capa do livro. Já ninguém se lembra e todos se lembram daquele natal em que os patrões da indústria do bem rebolado acabaram todos presos. Depois de alguma agitação, o silêncio caiu como chuva miudinha sobre todo o bem e todo o mal. Para o bem e para o mal, uma nuvem de sossego ficou a pairar sobre o país. Como se fosse uma nuvem de algodão doce, a nuvem de sossego foi lambida pelos meninos que até aí tinham sido comprados e vendidos pelos patrões da indústria e mercadores do bem bolado. Sossegados, os meninos começaram a jogar à bola e, tão bem jogaram alguns deles, que houve jornalistas a ir ver, para dar notícia sobre as suas habilidades, e não, como antigamente, sobre as cotações no mercado dos meninos ou sobre os escândalos bovinos dos bacanalneários adjacentes aos relvados, pastos e repastos.”

Nas histórias do bem, há sempre uns homens velhos e umas mulheres novas. Estas nunca dormem para ganhar a merecida fama de dormir com os velhos. Um dia, tendo sido espancada e despedida da profissão de dormir com o velho capitão da indústria, uma mulher jovem viu-se livre para a memória sobre a sua passagem pela claque da indústria do bem bolado. Gostava de falar alto sobre a sua participação para combater a solidão tricotada por guarda-costas. Uma mão atenta da indústria do bem impresso deu à estampa em livro uma encomenda de terror mesquinho, de amor mesquinho, de humor negro mesquinho. O lançamento do livro atingiu em cheio a letargia que acordou e, ainda estremunhada, mandou começar uma instrução qualquer sobre a melhor maneira de escrever velhos recados amorosos não comprometedores.

Pequenas estátuas da jovem mulher que apita aos velhos foram vendidas como balas ou gomas para grandes batalhas entre claques do deixa estar, do deixa andar e do desleixa. A mulher jovem apita arrependimento sobre o bem que encomendou contra este ou aquele e há quem disfarce a sua capacidade de fazer o bem com declarações não declarativas enroladas em sorrisos afiados como facas.

Eu só estou preocupado com a escritora. Antes de ser despedida da vida difícil para se dedicar à escrita fácil, a jovem vivia rodeada pelos que guardavam as costas dos velhos. Agora anda pelas sessões de autógrafos rodeada de guarda-costas dos centros comerciais ou da indústria do bem impresso de sucesso. Quando é que me deixam ver as costas da rapariga? Quando é que me deixam vê-los a todos pelas costas?

Defendo que lhes seja indicado o caminho da salvação e que sejam ajudados a procurar e a ir com as suas armas e bagagens para algum paraíso… Fiscal, como lhes convém. Pode ser longe?

[o aveiro; 14/12/2006]



o que nos falta saber


Entre um ano e outro, apetece falar do que foi feito de nós e logo de quem gostávamos de vir a ser em vez de nós. Alguns de nós, os que fazemos propósitos firmes de emenda, ficamos contentes quando nos convencemos que uma versão melhorada do que fomos é possível. Outros, os que fazemos juras de vingança do passado, não nos satisfazemos com menos que uma mutação que nos faça vedeta da rádio e da tv. E, a alguns de nós, aos que desistimos todos os dias, satisfaz-nos escrever pequenas prosas em que não assumimos a culpa a seguir-nos para todo o lado, solteira e desengonçada desculpa para um retrato infeliz, triste e sem cura.

Gostaria de pensar em mim como versão melhorada pela idade.

Ser isto ou aquilo, assumir uma ou outra daquelas posturas na viagem de um ano para o outro, influencia as nossas decisões e isso é tanto mais importante quanto elas podem influenciar a vida de outros. Se eu acreditar que a minha humanidade pode ser melhorada, avalio os outros de forma consistente com essa ideia e a minha avaliação é feita com o único fito de consagrar o que está bem e indicar o que pode ser melhorado e isso é também em parte fazer luz sobre o que deve ser deixado para trás. Quem ensina, modifica e participa das mudanças individuais e, logo, de lentíssimas mudanças sociais. Quem aprende, muda.

A ninguém se pede que ame abstractamente a criação. Nós crescemos quando nos incorporamos no que os outros em potência são e quando lhes fornecemos a energia que os faça livres e diferentes e capazes de criar outros. Quando amamos, os pequenos vincos e as fundas rugas têm nomes de pessoas. Uma grande parte do esforço vem do exemplo, da forma de estar, do riso de vivos com a força da fragilidade, da recusa do absoluto, da fraqueza que é a crença vital de que podemos ser melhores amanhã e que podemos educar para o bem.

Acreditem ou não, por estes dias somos forçados a olhar para o espelho para nos vermos de frente. Na aparência, descrevemos os estudantes que apreciamos mesmo quando os julgamos. Na realidade, rabiscamos notas que, todas juntas, formam afinal um retrato – o nosso. O que nos falta saber é quem se esconde do outro lado do espelho à nossa frente.

[o aveiro; 21/12/2006]



a alegria da despedida


Assisto à morte deste ano com as frases de circunstância de que antes assim, coitado que sofreu tanto, coitado que viveu toda a sua vida no meio de tanto sofrimento, ocupado por guerras militares, paramilitares, sujas, santas, satânicas, religiosas e civis, por ataques terroristas, por danos colaterais, por contrabando de polónio, por isto e mais aquilo.

Mas foi também o ano em que os poderosos deste mundo tiveram de engolir mentiras e reconhecer erros do tamanho dos milhares de mortos militares e civis inocentes que foram contabilizados como danos colaterais até serem demais. Alguns políticos ficaram cercados por muralhas de mortos que mandaram matar enquanto rezavam, enquanto juravam justiça infinita, invocavam o nome de deus ou da democracia e ofereciam liberdade aos mortos quando os libertavam desta vida.

Assisto à morte deste ano com as frases de circunstância de que antes a morte que tal sorte, coitado que sofreu na carne dos seus contemporâneos a perseguição de catástrofes naturais, as mudanças climáticas, a vingança da terra mãe torturada até se retorcer nas dores de um parto de dor, a vingança do universo inteiro contra a viagem do predador maior, o vento tornado furacão correndo pela terra como se a terra fosse um desfiladeiro a devastar, o vale de lágrimas, a água violenta galgando as margens e tomando de assalto as suas linhas, as rugas por onde antes a terra escoava lágrimas de felicidade.

Mas foi também o ano em que poderosos deste mundo juntaram as suas vozes às vozes que, desde há muito anos, andam clamando até serem roucas e loucas defensoras da mudança, da paragem da ocupação selvagem do mundo natural que cria reservas naturais para a vida vegetal e animal e impermeabiliza a terra com pele de betão e alcatrão e nos fecha numa estufa, no efeito da estufa, de fronteiras atmosféricas artificiais com venenos emanados das chaminés que arranham os céus até deles fazer a ferida, a gangrena de uma civilização que se esqueceu de o ser.

Assisto à morte deste ano seguindo curiosamente as missas e pompas fúnebres, as pateadas e os aplausos a quem morre. Há quem guie os seus últimos dias para um rio poluído e podre, mas também para um rio de esquecimento.

Assistirei ao nascimento do novo ano com o optimismo desmedido na força de quem sobrevive e renasce despedindo as dores, despindo-se das dores e de todo o mal. Um ano bom é o que nos espera. Não quero menos.

[o aveiro; 28/12/2006]