2005


Pingo de vergonha


Há uns dias, uma página de um Diário da República de 14 de Outubro chegava-me anexada a uma mensagem que chamava a atenção para um Despacho da Presidência do Conselho de Ministros a nomear uma jovem professora para Vice-Presidente do Instituto do Consumidor. O Despacho descreve funções do Instituto e considera que a nomeada “reúne capacidades pessoais e técnicas, a que associa qualificada formação e experiência, decorrente do desempenho, ao longo da sua carreira, de funções técnicas e de formação, coordenação e organização de recursos, nomeadamente no sector cooperativo, que permitem concluir pelo seu adequado perfil para o exercício do cargo”.
O currículo da nomeada, também vem na página do Diário da República, desmente vergonhosamente esse parágrafo. Esclarece que a nomeada foi professora de Filosofia e, na falta de melhor, acrescenta em linhas autónomas que esta elaborou e corrigiu provas (membro da elaboração – escreveu ela!), ou que frequentou acções de formação (na área da educação e conhecimento, escreveu ela!). Não é o que fazem os professores? Como cereja no bolo das suas competências para o cargo, diz-se que foi da direcção da MoviJovem. Tropeça até na escrita do seu currículo – insignificante até para professora!
No dia 4 de Janeiro, em artigo do Público, o mandante da nomeação declara que está bem justificada a nomeação pelo que se pode ler no despacho e a nomeada ainda joga ao ataque, achando que foi bem nomeada e que se fosse a levar em conta os currículos ela não teria oportunidade de mostrar o que vale. E que bem que ela mostra o que vale! Já várias vezes falei das duas faces das nomeações destes governos. Criminoso é quem nomeia sem critérios de competência – prejudicando e desacreditando a administração pública. De baixo estofo é quem aceita sabendo que não tem condições para o exercício e que não pode merecer qualquer respeito de subordinados e parceiros.
Este caso não é o único, é só mais um caso público que diz tudo sobre este governo. E sobre outros governos que assim procederam. E diz tudo sobre a nomeada que vai ter no seu currículo uma passagem como Vice-Presidente do Instituto do Consumidor para não parar de subir na vida fácil. O mesmo aconteceu com Ministros, Secretários de Estado, etc.
São formas de vida. Vende-se de tudo: corpo, alma, honra, dignidade. Sem pingo … de vergonha.

[o aveiro; 6/1/2005]



O sistema


Ansiamos a despedida definitiva deste governo de Santana Lopes. Ansiamos mesmo. Há algo de pestilento num governo como este. O mau cheiro não vem do desacordo que sempre tivemos e teremos das políticas de partidos com o Social Democrata ou o Popular. E nem terá a ver essencialmente com esta ou aquela medida de grande política, já que não houve tempo senão para a baixa política.
O que provoca a pestilência é um mundo de pequenas coisas, qual delas a mais ridícula ou a mais triste e perigosa. Um ministro que diz que não disse o que disse, outro que gasta à tripa forra ao mesmo tempo que debita postas de pescada para emagrecer o estado e matar o estado providência, outro que mostra cicatrizes de facadas enquanto esfaqueia um amigo qualquer, o que freta aviões para aviar um passeio oficioso, o que nos faz pagar um kit para a sua emergência médica, etc. Festival pimba!
Com a dissolução da Assembleia da República, Jorge Sampaio devolveu-nos a ilusão de podermos escolher outros deputados e, por essa via, escolhermos outro governo. Mas mal nos deixa viver a ilusão, porque sempre vai dizendo, entredentes, que é a política do centro que salva o país e que é preciso até arranjar leis eleitorais que facilitem maiorias, sendo que na sua cabeça só pode o governar o país um dos partidos siameses – socialista ou social democrata – que coincidem em muitos detalhes e genericamente em tudo o que de importante se pode dizer para Portugal e para a Europa.
Já os ouvimos dizer como usurpam o estado para os interesses dos grupos e das pessoas que vivem como suas borboletas. E que as pessoas sérias desses partidos aceitam a corrupção como doença da democracia e uma factura a pagar para que o país progrida em liberdade.
Para fora, defendem que não pode haver estado providência para os pobres e desvalidos. Sem quererem admitir que há um estado providência para demolir – o deles mesmos e das gamelas legais onde a legião do centro come o dinheiro que tem de ser tirado da boca dos pobres.
Não admira que Pulido Valente, cronista ex-deputado do PSD, diga que o problema não está na falta de maiorias para governar. O problema está nos partidos que obtêm as maiorias, no que eles são em sua essência. Não tendo feito favor ao PSD, Santana Lopes fez um favor ao centrão. Pode mesmo haver quem vote no PS para derrotar o PSD. Para quê?

[o aveiro; 13/01/2005]

A memória minada


1. As asiáticas ondas assassinas deixaram um rasto de morte e destruição, não só por terem provocado directamente a morte de cerca de cento e sessenta mil pessoas, mas também pelas pragas que acompanham a destruição em grande escala. Os efeitos mortais da sede de água potável, da fome, da doença, etc podem ser contrariados com ajuda humanitária. E são.
Uma das pragas simbólicas tinha a ver com campos minados pelas guerrilhas, cujas minas tinham sido localizadas e assinaladas para serem destruídas e, por efeito da calamidade, foram dispersas e ficaram fora de qualquer controle.
Passam os dias e as imagens da tragédia começam a ser substituídas por outras imagens, mesmo que algumas sejam retratos de penteados com franja de nervos de alguns políticos que farejam com o nariz um destino para o país.
É assim que nos habituamos a passear por um mundo minado. Camadas de pó de arroz escondem a falta de arroz para os famintos do mundo. A Organização das Nações Unidas publicou novo relatório sobre a crescente fome no mundo que vem dizer o óbvio: se os governos poderosos tivessem cumprido as promessas a fome não era flagelo. Será que os governos vão cumprir o que prometeram relativamente às vítimas do “tsunami”?
A memória dos povos é também um campo minado.

2. Na semana passada, uma notícia importante ocupou as traseiras da discrição nos jornais e televisões. Finalmente, os Estados Unidos encerraram a busca das armas de destruição no Iraque. O relatório final fecha a questão dizendo que nunca houve armas de destruição maciça do lado do Iraque. Na base de uma mentira, fez-se uma guerra de invasão para transformar o Iraque num imenso campo de treino do terror. E Bush foi reeleito. E devastado que está o Iraque pelas armas, já se discute se é ou não razoável nova guerra, agora contra o Irão.
E os nossos cabos de guerra, Durão Barroso à cabeça, que nos podem dizer sobre a guerra passada? Que guerras anseiam apoiar? Que assassinatos preparam? Pelas armas? Pela fome? Que arma de destruição maciça vão usar? A manipulação da informação na sua génese e formas de propagação é a guerra das guerras transformando a memória dos povos num imenso campo minado.

3. Não esquecer é resistir.

[o aveiro; 20/01/2005]



Por uma maioria de razão


Estamos em tempo de eleições. Diz-se um pouco de tudo.
O retrato do negócio do poder é feito pelas afirmações e acusações trocadas entre o PS e o PSD, sobre o modo como cada um deles serve as suas clientelas quando está no governo. Cada um deles espera que os seus simpatizantes pensem que é mentira o que deles dizem ou que achem muito bem na esperança de ver chegar a sua vez. Sobre o outro no poder, sabemos que cada um fala verdade em grande medida. Há qualquer coisa de paradoxal nestas acusações mútuas.
Há quem diga que o actual modelo partidário está esgotado. Mas sabemos que o modelo não está esgotado para os fins das clientelas. A defesa acérrima das maiorias absolutas para os partidos que venham a formar governo é disso o sinal mais óbvio. A seriedade de um partido mede-se pela capacidade de se colocar como parceiro em plataformas negociais sobre processos sociais que as decisões políticas podem melhorar. Um programa de governo que juntasse diferentes forças políticas seria uma nova dimensão e teria extraordinária força, acima dos interesses partidários, pela defesa da sociedade e da protecção e melhoria das condições de vida do povo todo, no seu presente e no seu futuro.
Exigir a maioria absoluta para um partido é a prova de que se quer governar sem contestação, logo para fins menores ou para interesses que não são os da sociedade inteira. Na sociedade portuguesa, as maiorias absolutas significaram sempre o desvio grosseiro para o abuso do poder, para interesses ilegítimos de clientelas partidárias e para a corrupção. Claro que há os que dizem que nada disto é com eles e até fazem reuniões sobre a sua verticalidade nesta questão das clientelas, como se cada um de nós não reconhecesse o imoral das suas nomeações locais.
Um outro aspecto prende-se com palavras como competitividade e produtividade, etc. E falam-nos dos exemplos de países como a Finlândia, dando a entender que lá se pratica a receita que eles nos querem aplicar. Mas não é nada do que eles defendem que lá vinga. Por lá há pouca corrupção, impostos muito elevados, estado com muito peso na segurança e assistência social, e os bens sociais como a saúde, as pensões, a educação e ensino ou o fomento científico são todos produzidos por serviços públicos.
A receita não é a maioria absoluta para a libertinagem dos liberais. Nós precisamos de uma maioria da razão.

[o aveiro; 27/01/2005]



a canção do bandido


1.
Ainda não tinha assistido a qualquer debate ao vivo desta campanha. Para suprir essa falha na minha cultura, na segunda feira fui ao Porto assistir a um debate sobre a cultura em geral. Lá estavam representantes dos cinco partidos ou coligações com assento no parlamento para um debate proposto pela Plateia – associação de trabalhadores das artes cénicas – e moderado por uma jornalista do Público.
Pelo que me foi dado ouvir, o documento da Plateia recolhe o apoio de todos os partidos, apesar de levantar problemas, reclamar de injustiças e apontar faltas a quem tem governado e objectivos para quem venha a governar. Gostei de ver um conhecido actor de teatro e da televisão a actuar (e bem) como agitador de ideias, mas devo confessar que os políticos da direita presentes no debate são mesmo muito bons actores. Mostraram-se fabulosos e capazes de se dominarem mesmo quando foram denunciados os vencimentos milionários dos capatazes e comissários do poder nas instituições culturais ou quando foram denunciados os critérios e os loucos juízos emitidos pelos júris dos concursos nas áreas da cultura. Será que alguém mente por razões culturais?
2.
Na semana passada, participei em jornadas nacionais sobre educação ambiental em que se debatia a década das nações unidas da educação para o desenvolvimento sustentável. Não me espantou muito que o governo não se fizesse representar num debate alargado sobre um programa mundial que vai marcar uma década em aspectos tão importantes como a educação, o ambiente e o desenvolvimento sustentável. Não me espantou, mas é triste. Mais triste ainda termos constatado a inexistência de quadros superiores da administração pública que tivessem autonomia para participar nesse debate. Sabemos que o que se vai passar não pode depender em absoluto deste ou daquele governo.
3.
Nas artes cénicas, representações boas. No ambiente, representações em falta. Para compensar, uma revista semanal fez mais um génio português a partir de um meco de estrada e fez um apelo desesperado contra a esquerda e a favor do centrão como se estivesse em perigo o estilo de vida das tias da linha e isso fosse a identidade nacional que é preciso preservar. Agora têm sido apontados a dedo génios portugueses, um por semana, todos nos partidos do poder. Génios da lâmpada? Sabemos que é o nosso mau génio farsante, um fado menor, a canção do bandido, a fruta da época.

[o aveiro; 3/2/2005]



carnaval


Na sala de estar, a mulher tinha pendurado várias janelas – daquelas pequeninas reproduções em alto relevo. Quando olhava para elas, sentado do outro lado da sala, o homem ficava sempre incomodado a pensar que alguém por trás daquelas cortinas o estava a observar. Nesses momentos, para ele era certo que estava na rua dos outros, exposto aos olhares. Porque ele está no exterior das janelas. Outras vezes, optava por aproveitar o facto de ter aquelas janelas ali na pacatez da sua sala. Ninguém saberia que ele espreitava as casas dos outros pelas janelas que a mulher tinha comprado para a sua sala. Mas não havia o que ver. Não havia os outros de que o homem fala, porque não é uma janela que faz as pessoas. E muito menos não estão perto da janelas as pessoas quando as queremos ver.
Ao fim de um certo tempo, o homem procura ver pessoas mais palpáveis e procura os lugares de ver para fora da sua casa onde está fechado. Como a janela é pequena e é muito alta, o homem só pode ver um cortejo de carros que passam numa avenida que só tem carros. Uma bicha de carros que passam ininterruptamente, com uma paragem obrigada pelas mudanças de luz do semáforo. O homem sabe que há pessoas em algum sítio, mas a sua vista não as alcança. Desiste destas janelas que são molduras de paisagens longínquas, espantosos quadros ao pôr do sol. Passa a vida a tirar fotografias aproveitando o enquadramento das suas janelas. Acaba por decidir-se e arrasta-se para a varanda onde pode debruçar-se e, com um pouco de sorte, alguém há-de estar a passar para ser visto. À hora em que tudo isto se passa, o homem só pode ver carros dos dois lados da rua. E desiste.
Há sempre a esperança da nesga que faz de janela da cozinha. Já sem esperança, o homem levanta-se e vai para o único lugar que dá para as casas dos vizinhos. E confirma que todos fugiram para onde não são vistos nem achados.

Volta à sala. E, de comando na mão, abre a última janela. Nesta, pode escolher o que quer ver como estando lá, fora de si. Pode escolher o carnaval (e vê-lo prolongado por duas semanas). As primeiras tentativas dão-lhe imagens e notícias do carnaval inaugural no Palácio de Cristal do Porto e de dois corsos em Castelo Branco. Mais uma vez, repete que não é uma janela que faz as pessoas. Sem coragem para mais carnavais e para esquecer as dores nas costas, o homem fecha os olhos que é uma maneira de fechar todas as janelas. E adormece.

[o aveiro; 8/2/2005]



Olhar para eles.


Escrevo ao ritmo da transmissão do grande acontecimento que é a chegada de cinco dos líderes partidários ao único frente a frente geral televisivo desta campanha.

Antes tinha assistido ao espectáculo das transmissões das cerimónias fúnebres da carmelita Lúcia, a que não faltaram estrelas políticas e da quinta das celebridades que entraram sem passar pelas dificuldades dos populares e fiéis. O célebre Castelo Branco da quinta da TVI e sua mulher foram protegidos por alas de agentes da Polícia de Segurança Pública(?) como um fiel ou fã especial. Espantoso foi ouvir familiares de Lúcia queixarem-se que a nossa polícia de segurança pública os impedia de entrarem no local do culto e de homenagem. Quem definiu em que consistia o serviço público a prestar? Quem paga isto? Muitos daqueles a quem dificultaram as entradas. Não é?
E voltemos às transmissões das aparições dos líderes partidários. Uma repórter aparece a entrevistar os aparecidos e iluminados. Alguns deles, à saída dos automóveis são cercados por guarda costas e guarda peitos, um deles de gravata preta. Para além da repórter da RTP, há dezenas de outros fotógrafos a fotografar o movimento. Nunca me tinha interessado pelo movimento das personalidades políticas. Mas têm piada estes movimentos de personalidades nas aparições fulgurantes nos estúdios em contraste com as aparições fulgurantemente discretas nas cerimónias católicas.

Ouço agora os políticos em debate. E estou espantado. O mais extraordinário são as declarações sobre decisões políticas. Para os políticos da coligação do poder as decisões contestadas foram boas quando foram legais. Isto começa a ser recorrente. Uma coisa pode ser legal e miserável ao mesmo tempo. Mas parece que os políticos querem fazer passar a ideia de que tudo o que é legal pode ser feito. Um banco pede uma isenção sobre uma operação e ela pode ser concedida à luz da lei. Deve ser concedida? Não.

Há muitas pequenas coisas que decidem o voto. Os corpos de guarda costas, a mentira, a hipocrisia nas aparições dos políticos e nas suas declarações podem determinar o sentido de voto.

Olho para eles e sei em quem posso votar. Olho para eles e acendem-se alertas na consciência a dizer-me em quem não posso votar.

Dou aqui sentido ao meu voto nos desengravatados. Espero continuar a pagar impostos e que estes não possam ser gastos a pagar segurança a artistas de baixo nível como reverso da insegurança do povo.

[o aveiro; 17/02/2005]



Contra o triunfo dos porcos


Esperámos que o povo nos devolvesse pelo voto um país sério e viável. Assim aconteceu.
Eles tinham começado a pensar que podiam manipular o público como se o país fosse o lugar de passagem dos sem cabeça e o poder como uma banheira cheia da água suja do banho de uma manada de criaturas dependentes de mama alheia. Era preciso que houvesse alguma coisa que abalasse a fé desta manada que começava a achar que todo o povo era feliz a ver como a manada engordava e se mostrava luzidia nos rodeios em sua arena.
Era preciso que acontecesse um abalo. E aconteceu. O povo votou todo o empenho em desmentir que o país estava a transformar-se em “quinta de celebridades”. De tal modo o fez que os comentadores e analistas de serviço se apressaram a dizer que estes país não corresponde ao país real deles. Imaginem um país que é real quando se comporta de acordo com o império dos sentados comentadores da televisão e não é um país real quando vota na esquerda. Eles são doidos, mesmo não sendo romanos.
Esperámos que o povo nos devolvesse uma esperança qualquer. E o domingo amanheceu com um povo diferente dos conformados com o desemprego, com a corrupção, com o barulho das luzes da hipocrisia. Levantou-se o povo para mostrar aos amanuenses da tolice patética que nada é seguro para todo o sempre e que, para eles como para toda a gente, a porta por onde entraram é também porta de saída e serventia da casa política.
Esperámos que o povo nos devolvesse uma esperança qualquer. E tudo o que queríamos nos foi dado em dobro: a maioria mais que absoluta à esquerda. Os dirigentes socialistas vão ter de controlar os seus apetites e de cumprir a sua obrigação para resolver a grave crise em que o povo trabalhador foi mergulhado. Esperamos políticas de esquerda? Mais que isso: exigimos políticas de esquerda em que as pessoas sejam mais pessoas e menos unidades estatísticas.
Exigimos cultura. E civilização. Depois do que nos foi dado ver e viver com Santana Lopes, Paulo Portas e seus apaniguados arrogantes, qualquer ?nico? de educação será melhor que o nada que tínhamos. Mas não queremos pouco, queremos tudo a que temos direito e isso é mesmo muito, sendo para cada um e para mim nada mais que honra e trabalho social.

[o aveiro; 24/2/2005]



desnorte e vergonha


1. Há quem jure a pés juntos que não há lugar algum que dê pelo nome de Agras do Norte. Há quem diga que o lugar existe, mas ir até lá é como ir ao outro lado do mundo, passando por baixo da linha ou procurando seguir os caminhos mais estreitos ao longo das linhas de ferro. Há mesmo quem pense que o melhor é não ir lá e que olhar por cima e para nascente dos últimos palheiros e outras ruínas ao fundo do Canal de S. Roque é o bastante para captar o espírito do lugar.
Agras do Norte é nome de lugar da autarquia com terrenos para construção, todos sem serventia de rua ou caminho. Quando se trata de adiar uma autorização do projecto de que já se lançou a primeira pedra, aparece Agras do Norte desvelado da sua bruma e pleno de sortilégio.
Finalmente Agras do Norte aparece ligada por uma magnífica parcela de uma montanha russa. Se tivessem esperado pela inauguração da Feira de Março e o seu parque de diversões fosse ali montado nos terrenos em volta daquela magnífica rotunda de Esgueira, Agras do Norte sairia definitivamente do seu isolamento para se apresentar como o lugar das experiências de radicais rodoviadutas sobre as ferrovias renovadas, embora pouco.
As televisões anteciparam a inauguração da montanha russa de Agras do Norte e não a deixaram diluir na Feira de Março. O Presidente da Câmara deu a cara para, assumindo metade do erro, logo o desvalorizar. Não há desculpa possível para os departamentos técnicos e de fiscalização da Refer e da Câmara que planearam e permitiram até ao fim a construção da coisa para que fosse vista em todo o seu esplendor.

2. Eu ando sempre atrasado e cheio de remorsos por tantos atrasos. À medida que me vou atrasando em alguns compromissos e muitos deles com prazos marcados por mim para mim, vou perdendo o pio e cada vez se torna mais difícil criticar os que se atrasam. A nossa Câmara acusou a CCDRC de atrasar o Plano de Urbanização da cidade por esta comissão ainda não ter emitido o parecer que já devia ter saído há 10 meses. Ficamos por aqui a achar muito bem que a Câmara critique os atrasos. Vale a pena perguntar se a Câmara sabe quantos dos seus despachos, assinaturas, pagamentos, … estão com mais de 10 meses de atraso.

3. Se perdemos o norte, perdemos a vergonha.

[o aveiro; 3/3/2005]



Ao fim da tarde


Ao fim da tarde do dia 8 de Março, o Presidente da República condecorou 30 mulheres que, em seu entender, se destacaram por altos serviços prestados à República. Ao fim da tarde, o Presidente da República chamou a atenção para as práticas discriminatórias no desempenho de funções e no emprego de um modo geral. Ao fim da tarde, lembramos as raínhas portuguesas verdadeiras e as consortes que tivemos e lamentamos que a república só possa apresentar primeiras damas consortes de presidentes.
Ao fim da tarde, sabemos que foi morto o chefe dos terroristas que tomaram de assalto o teatro de Moscovo ou uma escola em Beslan e fizeram reféns e vítimas de milhares de inocentes, tanto às mãos dos terroristas tchetchenos como dos terroristas russos. Ao fim da tarde, sabemos que ainda se atiram para as lixeiras os restos das infantis vítimas, cujos restos mortais ainda nem todos foram identificados.
Ao fim da tarde, sabemos que foram resgatadas centenas de crianças africanas que tinham sido raptadas para irem engrossar redes de escravatura, seja ela a prostituição, dos rituais de morte, de carne para canhão de alguma guerra a travar, de exploração da força de trabalho.
Ao fim da tarde, sabemos que nem o governo italiano acredita na versão americana de acidente mortal para o agente secreto italiano no caminho da libertação da jornalista italiana que tinha sido raptada no Iraque.
Ao fim da tarde, sabemos que em Madrid se reúnem ?notabilíssimos? especialistas, técnicos, académicos e políticos que contribuirão para compreender e combater o fenómeno do terror.Ao fim da tarde, em Madrid, ouvimos falar do 11 de Março do terror – esse dia sem heróis ou em que as surpreendidas vítimas são os heróis que não queriam ser heróis.
Ao fim da tarde deste dia ainda não tomaram posse das suas pastas as duas e só duas mulheres do futuro governo.
Ao fim da tarde dá-me uma vontade louca de ir aos últimos Diários da República alegrar-me. Eu sei que os Diários da República destes dias estão cheios de louvores a motoristas, secretárias, chefes de gabinete, estafetas, assessores, etc. Magníficos funcionários públicos! E para me rir, com vontade de chorar, ver as listas de nomeações para pequenos grandes lugares de todos os fiéis deste governo defunto. Quem me dera que nada disto seja verdade!
Ao fim da tarde, olho aterrorizado para o que acabo de escrever.

[o aveiro; 10/03/2005]



Chuva na eira e no nabal


No meio de uma grande seca, estamos a mudar de governo. A coisa boa da coisa é não estarmos presos de milhares de boatos sobre pequena política e pequenos políticos. Sócrates tem-nos livrado do diz que disse. Só por nos ter livrado da visão daquele beija mão eterno e maluco da tomada de posse lhe estou grato.
No mesmo dia em que Sócrates tomou posse do cargo de Primeiro Ministro, Santana recuperou a posse do cargo de Presidente da Câmara de Lisboa. O mais fantástico é que para este regresso à Câmara, Santana Lopes conseguiu manter uma discrição de fazer inveja. Dias inteiros sem badalar a sua viagem de volta à Câmara! Deus meu, o mundo está virado do avesso.
Não lamento a falta de notícias diárias sobre o que vai ser a política de educação do governo. É interessante esperar por notícias certas e decisões que se possam discutir. E, quando for tempo disso, concordar e discordar, discutir ou até lutar contra. Até lá, podemos divulgar quais são as nossas opiniões para que elas possam ser contrastadas com as decisões do governo quando elas forem públicas.
Pelo meu lado, depois de ter levantado muitas dúvidas sobre o interesse de decisões apressadas tomadas por David Justino sobre as reformas propostas pelos governos de António Guterres fico agora dividido a respeito do que se pode fazer perante os remendos de leis de David Justino que ainda mal entraram em vigor. Não estou a ver forma de evitar imediatas alterações a parte do quadro legal. Nem estou a ver muitas possibilidades de manter nos cargos alguns nomeados da coligação PSD/PP para funções nas direcções-gerais e regionais, ou sequer manter os cargos que já nem fazem parte da orgânica do Ministério. E o mais natural é que Aveiro venha a perder o seu lugar de capital do estado da educação que tanto prestígio trouxe para alguns e tão disparatada coisa foi para outros, sendo certo que foi nada.
O que mais me preocupa no imediato? Coisa pouca. A alteração no ensino secundário de adultos está no início do processo e mais nos valera que se parasse com a mudança em curso. Será possível? Pode remediar-se?
Será que o novo governo pode reparar no desacerto existente entre os programas escritos para a revisão curricular e as decisões políticas de David Justino? Será que pode reparar o desacerto?
Que espero eu? Chuva na eira e no nabal.

[o aveiro;17/03/2005]



A fé dos simples


1.
Dizem-nos que a fé move montanhas. Nós preferíamos que o vento movesse nuvens carregadas de água pura, as aconselhasse a despejarem-se como água bendita sobre o nosso chão cheio de sede. O que nós preferimos é uma invernia na primavera quando ela é precisa mais que pão para a boca. Queremos que a feira de Março seja inaugurada e vivida em invernosos dias a fio. Queremos que a água nos molhe os pés. Queremos molhar os pés, beber água que nos escorra pela cara abaixo, pelas rugas abaixo, pelas ruas abaixo. Acompanhados pelas gaitas galegas em delírio, quem não dançaria à chuva!
2.
Mover montanhas? Como montanhas imóveis sobre vulcão esperamos. Esperamos que os jornalistas não encontrem a minhoca a cada cavadela no chão seco onde não sobrevivem minhocas. Queremos ouvir os debates essenciais e não mais do que esses sobre programas de governo e que seja este que se debata e não os de cada papagaio ou cada marionete.
Dizemos que é bom ouvir algumas frases que fazem sentido. Como aquela em que o primeiro ministro diz a Portas que não tem de corrigir Freitas do Amaral porque está de acordo com ele no essencial – que o governo deve, na sua política externa, um estrito respeito pelo direito internacional, sem dizer que Durão e Portas fizeram política fora da lei internacional e das organizações das nações. Alguns exemplos de sobriedade e seriedade como este já nem lembravam aos portugueses cansados da guerra do alecrim do psd e da mangerona do pp.
3.
Em verdade vos digo que se é a fé que nos move em frente, o que nos dá alento para o caminho são algumas frases simples sobre o que é viável e pode ser feito. Podem não ser tudo nem o que é mais importante fazer, mas são coisas que podem ser feitas e podem ser boas. Produtos químicos que podem ser vendidos sem prescrição médica podem ser vendidos fora das farmácias – é uma frase simples. Viram bem a sua potência? Ou: a interrupção da actividade dos tribunais (aquilo a que chamam férias judiciais) passa de dois meses para um mês….
Quem é que não percebe as frases? E a sua potência? E a facilidade na execução? Não interessa se estou ou não de acordo. Percebo.
4
Quem me dera que houvesse uma frase simples que nos garantisse meses de chuva branda e persistente, pouco alarido e nenhuma cheia calamitosa.

[o aveiro; 24/03/2005]



Escola de condução


Num debate sobre o código de estrada, ao falar do ensino da condução, um dos intervenientes definiu bem a tragédia da escola. Disse ele que as pessoas vão à escola para tirar a carta e que não há quem lá vá para aprender a conduzir e que pode acontecer que o instruendo assine o livro de ponto num número de vezes superior ao número de aulas frequentadas. De outro modo, um outro interveniente disse que os instrutores ensinam as pessoas para passar nos exames e não a compreender a lei para a respeitar nem a conduzir nas diversas situações que vai enfrentar na vida corrente. Por isso, dizia ele, o ensino da condução é mau só porque os exames são maus e mal feitos. Noutra altura, um dos intervenientes afirmou que há centros de exame vizinhos estando um sempre engarrafado de examinandos inscritos e outro quase sempre às moscas. Pretendia ele denunciar o facilitismo ou corrupção de algumas instituições acreditadas que fazem favores para garantir a afluência de clientela.
Esta é a tragédia do ensino da condução. Não tanto por termos escolas más, exames maus e pouco rigorosos, centros de corrupção como centros de certificação e mais por termos pais e jovens que não aprendendo o código nem condução querem obter certificação, carta, autorização dada por tais centros. Para tomar em mãos um volante como quem prime um gatilho de uma arma que não se segura e vai disparar descontroladamente.
A ser verdade o que se ouviu, o problema essencial é das condutas morais, da má educação à má condução, do desrespeito pelos direitos e pela vida dos outros.

Mas serão essas tragédias exclusivas do ensino da condução? Ou são as tragédias de todo o ensino e, só por isso, acabam como tragédias do ensino da condução? O bom senso comum diz-nos que as denúncias feitas pelos responsáveis para as escolas de condução não são estranhas às concepções de muitos pais portugueses sobre o valor de uso da escola em geral. Pouca preocupação com o conhecimento, pouca exigência com o trabalho, permissividade relativamente à assiduidade dos filhos e ao cumprimento de horários de trabalho, … controle e reclamação sobre o quê? As notas e a certificação.

Que podemos fazer? Se a situação for esta, precisamos de políticas simples, muito simples. Não é?

[o aveiro; 31/03/2005]



A regra dos três simples


José Sócrates é Primeiro Ministro, Lurdes Rodrigues é Ministra da Educação e Valter Lemos é Secretário de Estado da Educação. Escrevo aqui os nomes, porque ainda hoje há professores nas escolas públicas sem saber quem é quem no Ministério da Educação.

Vi os três juntos em visita a uma escola dos arredores de Lisboa. Juntos e ao vivo enunciaram a regra falhada e a que chamo agora a regra dos três simples, enunciada também em comunicado do governo: “Os tempos escolares devem ser totalmente preenchidos…”, isto é, que “em caso de falta de alguma actividade lectiva prevista, a escola disponibilize imediatamente uma resposta para os alunos” e, para conseguir isso, diz-se que “há em todas as escolas professores cuja disponibilidade deve ser plenamente utilizada pela escola para ensinar e acompanhar os alunos em todo o dia escolar” e que “as escolas dispõem de recursos como bibliotecas,”etc… para “a ocupação plena dos tempos escolares”.

Esta regra toca um dos pontos nevrálgicos do sistema – disciplina do horário escolar dos estudantes e horário dos professores. E, se é verdade que felizmente começa a haver instalações equipadas para o trabalho escolar com os estudantes não é menos verdade que não há condições mínimas para o trabalho não lectivo dos docentes e que é, por isso, impossível garantir a presença dos professores quando não estão a dar aulas aos seus alunos. Os professores do ensino não superior carregam toda a vida numa pasta ambulante, podem não ter sequer uma gaveta, não têm certamente mesa ou cadeira para o seu trabalho não lectivo que pode ocupar mais tempo que o lectivo.

Num país em que se lê pouco, não devia ser difícil fazer o mais simples: sempre que há tempo, cada um lê, todos lêem. Porque é que uma coisa tão simples como essa não funciona? Não deve ser só por dificuldades dos professores e das instalações.

É preciso criar condições para a permanência dos professores na escola e restaurar a exigência sobre a qualidade dos serviços de educação e ensino, exigindo aos estudantes responsabilidade e cumprimento de obrigações, iniciativa e disciplina.

Sem questiúnculas sindicais de horários a contaminar o que é um problema cívico de exigência, aproveitemos para lutar pela dignidade e exigir respeito e condições para o trabalho dos profissionais nas escolas públicas.

E se faça escola rigorosamente simples.

[o aveiro; 7/04/2005]



A aranha


Não há dia que passe sem que se desvele uma ou outra faceta mais ou menos confidencial de algum ex-ministro. Não fico muito perturbado ao saber que eles são quem são e o que são e o que fazem ou fizeram.

Na última semana, ficamos a saber da natureza das habilidades de Paulo Portas quando utilizou militares fardados para dar credibilidade aos ecos da propaganda americana durante a guerra do Iraque. Os militares cumpriram ordens expressas do poder político. Durante o tempo que durou a guerra, isso aconteceu sistematicamente. Há quem saiba que os militares não podem tomar a iniciativa de serem comentadores. Mas há muita gente que pode ter pensado em liberdade na iniciativa dos fardados e que essa presença dos militares era enriquecimento da informação e não manipulação pura.
Sabemos agora que mentiam com quantos dentes tinham na boca quando falavam das decisões sobre a Bombardier e a produção disto ou daquilo, ou quando enchiam a boca com a segurança interna, o reequipamento das polícias, etc.
Para além dos louvores e das nomeações de conveniência, ex-ministros trataram de formalizar negócios de milhões em fim de linha, em que o dinheiro corria dos cofres do estado para os cofres das empresas dos amigos. Apressados negócios feitos por governantes sempre de boca cheia para a moralização das contas públicas, para o controle do défice, … para a necessidade de sacrifícios por parte dos trabalhadores, a começar na função pública. Os nomes a lucrar do lado do sector privado são figuras, figurantes e figurões que aparecem nas televisões como vasos comunicantes de sabedoria e honestidade. Andam por aí esses políticos que são banqueiros ou administradores por serem ou terem sido influentes políticos, etc. Sabemos dos negócios e sabemos dos nomes dos figurões, badalados em congresso. Sabemos até dos negócios porque o novo governo teve de anular alguns deles.

Não fiquei perturbado por saber o que afinal sabia.
O que me perturba é que estas actuações de Paulo Portas e governos só foram analisadas e criticadas pelos jornalistas e suas organizações depois da queda do governo. E dos negócios? Soubemos quando? De quantos?
Fico perturbado, porque me sobra uma ligeira sensação de controle da comunicação social que conta mais poderosos políticos comentadores que jornalistas livres de exercer a sua profissão.

[o aveiro; 14/04/2005]



Como vamos de amores?


O homem olha para trás, por cima do ombro. Os olhos pouco vêem, mas não lhe escapa uma sombra na parede. Apressa o passo para o lugar inundado pela luz. Ali chegado, descansa encostado a uma parede que nem existe. Ali sente-se bem e seguro: tem governo europeu, nacional, regional e local, tem presidente, tem pároco, bispo, cardeal e tem… papa. Não lhe falta nada porque ninguém lhe falta.
O homem olha para trás, por cima do ombro. Agora que o afastaram de todas as sombras e de todas as dúvidas, o homem pode descansar. O homem, da sua varanda de luz, diz para quem o quer olhar que nem tudo o que lhe é dado ver merece ser olhado com compreensão.
[ Cada um de nós sabe que algumas verdades apregoadas já foram desmentidas pelo rigor dos factos observados e dos resultados das experiências vividas e não mostramos compreensão pelo relativismo. Podemos combater as ideias perniciosas e opostas a evidências científicas sem condenar ou agredir fisicamente quem as defenda. E não mostramos a mínima compreensão para quem defenda a violência, viole os direitos de outros, destrua o património natural e construído de todos e de cada um, … ]
O homem olha para trás, por cima do ombro. Ensinaram-lhe isso, mesmo antes de lhe darem a sua quota parte de ciência e de lhe cederem um lugar humano. Ensinam-lhe isso dando-lhe a beber crenças que o incluem numa parcela humana e o excluem das outras.
[Mas a aldeia global que o mundo é oferece-nos a visão do outro com suas crenças, muitas vezes tão opostas nos interesses sectários como unidas em origens comuns. E isso fez-nos olhar para os outros, para compreender e não excluir. Sem nos obrigarmos a mudar de crenças, sabemos da variedade e da unidade e aprendemos a olhar.]

O homem olha para trás, por cima do ombro. Por medo das sombras e das dúvidas. Nesta semana, ouvimos muitas vezes falar da necessidade de negar e renegar o relativismo neste sentido das crenças religiosas. De que falamos quando falamos de relativismo? No que respeita à universalidade dos direitos humanos não aceitamos qualquer relativismo cultural ou étnico nem relativismo contra as evidências científicas.

Da obra humana, o que mais há que não seja relativo?

[o aveiro; 21/04/2005]



A família e os amigos.


1.
Há assuntos de família. Os assuntos de família dos outros não me dizem respeito. Não me interessa minimamente a família de Freitas do Amaral. Mesmo quando algum membro da família de Freitas do Amaral foge ao fisco e aos credores, penso que cabe à justiça tratar do caso. Não é assunto que me leve a escrever.
Mas quando o membro da família de Freitas do Amaral que foge ao fisco e aos credores (também trabalhadores por conta dele) aparece com cargo (e mais que bem remunerado) no Ministério dos Negócios Estrangeiros já tenho de me preocupar com ele e com Freitas do Amaral. É mau sinal. O homem não paga ao estado o que lhe deve e recebe do bolo para o qual não dá. E o estado paga-lhe mesmo quando não deve? Não temos um Ministério de Negócios Estranhos.
Denunciado, o familiar demitiu-se. Mas é preciso não esquecer.

2.
E as amizades? As amizades de alguns políticos são curiosas. O nosso Durão Barroso é uma das maiores atra(i)cções de amigos. Há menos de 30 anos, Durão Barroso era um jovem militante maoísta e os amigos que então tinha não vêm ao caso. Há cerca de seis anos chegou ao topo do PSD e a primeiro ministro. Nessa altura, ainda mal aquecera o seu lugar de primeiro quando um amigo de Durão Barroso, com ilha no Brasil, o convida (família incluída) para uma de boas festas com viagem em jacto particular. Quanto custará a prenda do milionário amigo? Durão não deu cavaco ao espanto do povo que maldisse entredentes a compra pelo governo de um magnífico topo de gama à empresa do amigo, bem como a concretização de outros chorudos negócios.
Ainda não passou um ano de chefe dos comissários da União Europeia e já nos dizem que Durão e família teve direito a um cruzeiro de milionário. Durão Barroso alargou o seu leque de amizades milionárias e foi um milionário grego quem lhe ofereceu o cruzeiro. Por acaso, é alguém que não quer ver-se grego nos negócios que mantém com a união de que Durão é chefe executivo.
A família não se escolhe. Os amigos escolhem-se. Os negociantes milionários escolhem, para amigos, primeiros ministros e presidentes de comissão. Há um primeiro ministro e presidente da comissão europeia que é português e aceita prendas milionárias. Em exercício.
Quem disse que estes tipos prestigiam o nome de Portugal? O bom nome?

3.
Foi para estes que se fez o “25 de Abril”?

[o aveiro, 28/04/2005]



os pés de barro


Quantas vezes passaste as mãos calejadas pelo rugoso tronco na esperança de veres o tempo recuar? Quantas vezes sentiste ou imaginaste sentir no cavado da tua mão de escultor o cabo do canivete? Olhas a lâmina escondida, por breves instantes faiscando ao sol, com que cavas a tua jura de amor na velha casca da árvore. Sentado na balaustrada norte do jardim, com uma indiferença sobressaltada, disfarças os gestos meticulosos com que talhas o nome dela.
Lembras-te de cada sobressalto, do medo de seres descoberto pelos guardas do jardim ou por quem por ti passasse ou por algum colega que, se adivinhasse, não deixaria de troçar de ti, cantando o nome dela. Lembras-te de tudo. E não podes encontrar vestígios desse gesto.
Sentes a marca que fizeste, como sentirias uma mão depois de ter sido amputada. Sabes que não está lá, que não sobram vestígios desse baixo-relevo insensato e, talvez por isso, vejas agora mais nitidamente que antes o nome talhado e ainda impossível de nomear.
Tu sabes que ela nunca soube que o nome dela cavou o teu peito tão fundo quão fundo foi o teu desespero ao nomeá-la na velha árvore do extremo do jardim onde esperavas a camioneta para voltar à aldeia, ao fim da tarde, depois das aulas. Ninguém pode calcular a ternura que esta memória carrega, porque ninguém tem balança que pese paixão que nem ousou levantar os olhos e nem foi reconhecida para não ser rejeitada. Vivida por uma solidão maior, fez-se maior paixão, sem sim e sem não, e … sem compaixão. Nunca foi além desse gesto de esperança na eternidade do nome em casca daquela árvore e abrigo.
Passavas pela tua árvore e imaginavas que ela ali estava, tão perto da entrada do parque e tão escondida pelo pequeno café-bar. De vez em quando, fotografavas a árvore como ias fotografando outras. Era isso o que dizias a ti mesmo, sabendo que ela era uma irrepetível escultura do tempo… e tua. Como vais aceitar que a tenham encontrado seca e enrugada, indefesa como tu, e tenham decidido ceifá-la? Tinhas-te convencido que ela não incomodava ali atrás do pequeno café e era, como era para ti, a mais bela árvore de torturados ramos.
Sempre soubeste que uma parte de ti ali ficara. Passados quase cinquenta anos, incapaz de perdoar a quem matou o sonho, não podes fazer mais do que tirar mais uma fotografia e passar a tua mão pela ferida vegetal, cheirar a serradura e olhar as tuas unhas que se quebraram a arranhar a eternidade.

[o aveiro;5/5/2005]



Se fosses andando? …


Há na praça quem escreva contra a limitação dos mandatos dos autarcas. Argumentam eles que os autarcas adquiriram grande influência e poder e aos aparelhos partidários centrais ou aos deputados interessa limitar a sucessão de mandatos nas autarquias. E é pela democracia que se limita a sucessão de mandatos já que ela é o cimento da troca de favores, dizem os limitadores. Patos bravos, empresários vários e presidentes de câmara foram a nascente de rio de influências mal cheirosas. E é nele que se afoga a honra da nação?
É verdade que, em muitos concelhos, assistimos ao milagre do presidente. Ouvimos falar de dívidas e mais dívidas e de mais capacidade de endividamento. Anda tudo pelos milhões. E quando cresce o clamor da falta de vergonha e de dinheiro para cumprir compromissos básicos, de precariedade dos contratos de trabalho municipais e abusos, tudo se cala e acalma nas garantias dadas pelo presidente. À nossa volta, cada vez se aperta mais um colar de betão.
Os partidos começam a apresentar os seus candidatos às presidências das câmaras das grandes cidades. E ao lado das candidaturas dos partidos, tomam lugar nas linhas de partida os nomes de alguns dos modelos das “virtudes” criticadas. Os casos de Isaltino Morais e Valentim Loureiro são os mais conhecidos.
Há um fascínio especial no exercício do poder autárquico? Dinheiros mal parados a parar na Suíça não podem ser excedentes dos vencimentos de autarcas que são tios. Que é que uma câmara pode ter a ver com um banco suíço? Porque é que há autarcas que usam apitos dourados ou os contratam? Que é que uma câmara tem a ver com apitos dourados e porque é que os presidentes usam ligas e até abusam de superligas? Eu queria ouvir falar de uma câmara daqui perto que não tivesse dívidas e tivesse obras sociais para mostrar, que não suscitasse dúvida sobre a sua independência dos construtores civis na construção da cidade.
Estamos a começar a campanha para as autarquias. No ar, poeira do cimento e um certo cheiro a cobre. De que limpeza falamos quando falamos de autarquias?

[o aveiro; 12/05/2005]



a pressa dos feios


Sábios governantes do PSD/PP disseram que nos tínhamos afundado com o PS até ficarmos de tanga e prometeram que nos salvavam do monstruoso défice, saneando as contas públicas com receitas extraordinárias e contenção da despesa pública, etc. Os novos sábios, agora governantes do PS, fazem apelo aos mesmos sacrifícios de ontem, levantando pontas do véu onde se esconde o défice orçamental do estado a que chegámos pela via do PS e do PSD. Tem piorado sempre – dizem,mentindo, a verdade. Nah! Para alguém isto está a melhorar. Cada vez mais se alarga e aprofunda o abismo entre ricos portugueses e portugueses pobres. O que quer dizer que têm sido os pobres e a tal classe média a pagar todas as crises. E talvez algumas das crises não tenham sido mais do que invenções chantagistas para que os pobres aceitem pagar mais ainda, ajudando os patrões na “criação de riqueza” para seu gozo pessoal que não para melhorar o país do povo. São cientistas estranhos estes sábios economistas da situação! As suas teorias são feitas à medida. Ao povo vão sendo desvendados factos à medida que são precisos para confirmar a justeza dos interesses dominantes na circunstância. Melhor será dizer que não há ciência nisto. Técnica há! Mas é só técnica de engate!
Como em todos os engates, quando o povo percebe a traição muda os seus votos. A fidelidade eterna jurada ontem pelos grandes servidores públicos desfaz-se em fumo. E é ver como os antigos governantes, perdidas as maiorias, sem qualquer respeito pelos seus eleitores tentam mudar de vidinha e não cumprir o mandato para que foram eleitos. Parecem pulgas saltitantes à procura de esconder os negócios daquilo a que chamam a retaguarda segura e à procura de tachos milionários aqui, ali ou no estrangeiro.
Esse é outro aspecto tenebroso! Nesta coisa, não interessam as políticas, as ideias. Pensa-se e diz-se que as pessoas votam mais nos políticos do que nas políticas, votam mais em caras feias que em ideias. Quando o povo vota em ideias fortes, a confusão é total. Todos os jornais e todos os partidos procuram pessoas que sejam o corpo das ideias ganhadoras. Tem de haver pessoas a justificar cada voto como mau hálito de alguma influência. Porque tudo se passa como se fosse um repetido engate rasca num picadeiro global.
Ainda não li ideias fascinantes nesta semana das pré-campanhas autárquicas. Mostraram-se as cabeças nomeadas e coroadas. E são feios os candidatos, tão feios como eu! Se acaso tiverem uma ideia, não quero pensar nela como mais um enfeite de maquilhagem.

[o aveiro; 19/05/2005]



Rios que correm


Aqui onde me lêem, a vida corre como um rio.
Aos vinte e quatro dias do mês de Maio, a Escola Secundária Mário Sacramento lembra o seu patrono. Eu fui visitá-la para falar de um aspecto da batalha mundial pelos direitos humanos – o trabalho da Amnistia Internacional. A educação para os direitos humanos nunca foi tão necessária e tão urgente e ela só ganha sentido se constituir em si mesma participação cívica para a juventude de hoje, felizmente tão longe das graves violações de há uns anos atrás, mas preguiçosamente convencida da perenidade das garantias dos direitos democráticos, incapaz de dar pelo perigo se ele tomar conta do caminho.
Ninguém pode imaginar a alegria que é para um professor como eu visitar uma escola que está melhor, limpa e acolhedora… e a fervilhar. Sentindo-me em casa.
Aos vinte e cinco dias do mês de Maio, a Escola Secundária José Estêvão abre-se para um dia especial. Olhamos para ela e sentimos que ela precisa de obras para melhorar. Melhorar as condições para todos os que nela trabalham e estudam e de acolhimento a todos os que a ela acorrem. Todos nos queixamos disto ou daquilo, mas temos de reconhecer que as escolas estão a mudar para melhor e isso só pode acontecer porque elas são habitadas pela humanidade inteira. Comparamos as bibliotecas de ontem e de hoje e salta-nos a tampa para o lado da alegria.
Quem nos dera que os patronos destas escolas de Aveiro fossem anjos da guarda! As vidas e obras de José Estêvão e Mário Sacramento, bem como a dos patronos de outras escolas de Aveiro, devem ser lembradas e estudadas pelos nossos jovens. Procuramos muitas vezes fora de nós o que nós fomos, somos e podemos ser. Porque não uma ou outra pública leitura de trechos de José Estêvão e Mário Sacramento? Na esperança de lhes ouvir a viva voz por nossa interposta voz e promessa de os honrar.
As escolas levantam em ombros as figuras maiores da cidade. Por muitos problemas que as escolas tenham, o maior reconhecimento de um cidadão honrado é o que uma escola lhes pode dar, confirmando que a eles se deve a escola e que eles fizeram escola.
José Estêvão é uma escola. Mário Sacramento é uma escola. Não podíamos dizer melhor.

[o aveiro; 26/05/2005]



A geração rasca


Ao referir-se aos jovens estudantes de há uns anos atrás, Vicente Jorge Silva criou a designação de “geração rasca”. Desde essa altura que debatemos se a atribuição dessa designação tinha sido bem ou mal feita, com base em acontecimentos como aqueles de propagandear o rabo descoberto ao virá-lo para a ministra, pedindo fotografia e filme para jornais e televisões. Infelizmente para nós todos, os jovens estudantes (e não só) não resistem a promover espectáculos e piores bebedeiras sem qualquer intenção política – veja-se o que se passa nas praxes, queimas, … ou nos públicos locais de deboche autorizado e até incentivado pelo estado.
Sempre tive por certo que as designações são tão correctas como incorrectas. Depende do observador e do observado, do ponto de vista, do local de observação. No caso em estudo, eu sempre considerei que Vicente Jorge Silva tinha errado o alvo, até porque nem havia lugar a fechar aqueles manifestantes numa geração com o sentido que lhe era atribuído. Hoje e ontem, muitas daquelas manifestações são feitas por jovens (e encorajadas por adultos que as fizeram antes) e olhadas com complacência tolerante por muitos adultos (incluindo dirigentes das universidades, deputados, membros de governos, etc). Há várias idades para incluir numa mesma geração e há pessoas da mesma idade que não fazem, para esses efeitos, parte da mesma geração.
Já depois disso, Vicente Jorge Silva teve oportunidade de passar pelo parlamento com a eficácia conhecida. Nestes últimos dias, Vicente Jorge Silva deve ter percebido que tinha errado o alvo. Basta ver como todos os responsáveis se (des)tratam uns aos outros e como demonstram que não recuaram perante nenhuma aldrabice para conquistarem o poder ou parte do poder. António Guterres e Durão Barroso, Cadilhe e Cavaco Silva, Marques Mendes e Isaltino ou Valentim Loureiro, Santana Lopes e Portas,… mas também Constâncio, Pina Moura, Sócrates e Fernando Gomes e a chusma de economistas e advogados que mandaram no país desde o tempo em que este não sabia ler nem escrever até ao tempo em que se transformou numa quinta de celebridades sem saber ler nem escrever. Se há uma geração rasca, ela tem estes e muitos outros expoentes. Toda a semana passada li argumentos do punho dos expoentes a favor desta tese.
Se há alguma geração rasca, ela é a de Vicente Jorge Silva. A minha geração, afinal.

[o aveiro;2/6/2005]



Marcha lenta.


No dia em que escrevo esta crónica, é notícia a marcha lenta dos agricultores da margem esquerda do Guadiana. Não lhes chega a decisão do governo que os dispensa dos pagamentos à segurança social por um determinado período e exigem a declaração de calamidade como forma de responder à grave situação de seca extrema deste ano. Notícias são os alertas vermelhos, laranjas e amarelos face ao calor excessivo que afectará particularmente alguns ou todos os distritos. E os alertas do Serviço Nacional de Bombeiros para fazer face à época de fogos florestais que se adivinha extraordinária. Vemos os incêndios apressados a quererem bater os seus recordes em hectares de pasto das chamas. E os maus votos europeus. E os desempregados que vão nascendo. As notícias aí estão mais que muitas e apressadas, capazes de incendiar o país até onde não há fumo nem fogo.
Mas é a marcha lenta a tomar conta de tudo. Os meios aéreos ainda não chegaram para os fogos. Trocam-se acusações sobre os negócios que se fizeram e fazem neste mundo de contratos de prestação de serviços para o combate ao fogo. Os ingleses adiam o referendo. Os trabalhadores, cansados e desgastados pelas notícias, temem perder empregos e salários e movem-se lentamente como sombras nestes dias de calor excessivo. Os agricultores do sul movem-se lentamente e obrigam o resto do trânsito à velocidade moderada por tractores e máquinas agrícolas que tomam conta das estradas. As manifestações nas cidades são também feitas em marcha lenta. Eu escrevo lentamente.

As palavras dos poderosos ameaçam sobre as consequências do não no referendo ao tratado constitucional europeu e do défice excessivo, tudo a provocar sacrifícios enormes a todos os portugueses. Ficamos a saber que o que decidem entre eles não pode ser posto em causa pelo voto dos povos e que o voto dos povos se transformou num perigo para a democracia. Os economistas acompanharam e guiaram o país até aqui. Puseram a economia e as finanças no centro de tudo. Exigem do povo que vote guiado pelos medos financeiros que eles vão ateando. O Durão vai mesmo cobrar uma multa pelo excesso de défice, em grande parte realizado sob o seu alto patrocínio. A vida olha-se sentada numa sala de espera.

Marcha lenta. Combustão lenta. Fogo posto seguramente. A combater por um povo de bombeiros voluntários.

[o aveiro; 9/6/2005]



A partida

Recebi uma carta. Escreve o meu amigo: Quando soube da morte de V. Gonçalves, tive a intuição que A. Cunhal se seguiria. Não gosto destas intuições se bem que baseadas em cálculos de probabilidades…

Escrevo uma carta: Lá mais longe, onde o amarelo das searas dá lugar ao azul do céu, um poeta declama o silêncio. As palmas das mãos abertas ao vento norte, o poeta vira as costas a esta vida, ao sul do sol. Que frágil espelho separa a vida da morte!

Escrevo uma carta: Nós pintámos paredes quando o que queríamos dizer não cabia na voz. Enchemos a vida de fantasias e de fantasmas, companheiros de viagem, passageiros amores ou passageiros ódios que acendiam as nossas noites de Abril. Há dias em que nos parece que a memória não vai chegar para tantos fantasmas que decoram a multidão das paredes da nossa vida. E, no entanto, sabemos deles por os termos ouvido falar ou termos visto como caminhavam ou como piscavam os olhos quando nos olhavam sem nos ver.

Recebi uma carta. Escreve o meu amigo: As mães, hoje, perante as asneiras dos filhos nos autocarros, dizem-lhes alto “É isso que te ensinam na escola?” quando dantes, envergonhadas, diziam “É isso que te ensinam em casa?”

Pergunto-me muitas vezes como é que a escola nomeia os nossos fantasmas a quem os não conheceu. E muito menos sabemos como os nomearão as mães. Porque nós não vimos um filme nem ouvimos uma história. Porque vivemos o filme e vivemos a história, em cada partida do destino, perguntamos pelas sombras das nossas paredes. Na minha escola, havia um quadro na parede, desesperadas lantejoulas feitas de escamas brilhantes coladas no pano crú que é o melhor fundo para o poema de Eugénio que, no quadro, se pode ler bordado a linha verde esmeralda. Quem o irá ler?

Há dias em que nos lembramos que é a nossa vida que está de partida para outro lugar na memória. E percebemos também que é, por não nos habituarmos ao presente do futuro, que inundámos o nosso vale de sombras.

Como será nomeado o nosso tempo? Que dirá a escola sobre o que fomos? Que dirão as mães aos filhos? Nestes dias, em que os nomeados do nosso tempo deixam o seu lugar de pessoas ser tomado por personagens da ficção histórica, fincamos os pés no chão que pisamos e damos destino ao passo seguinte.

Aos meus filhos pequenos, eu só declamei o silêncio com a desculpa de não saber mais versos. Que lhes ensina a escola sobre a partida para fora de nós e do nosso tempo?

A partida não se ensina. Aprende-se, … partindo.

[o aveiro; 17/06/2005]



Sociedade dramática


Meses e meses de trabalho a ensinar e a aprender e ninguém nos liga coisa alguma. Ninguém está interessado no que ensinamos e muito menos no que aprendemos, dia a dia. Todos pensam que esse labor quotidiano nem existe. Para todos os efeitos essa escola do dia a dia é uma sociedade recreativa. Fora da escola todos têm a certeza sobre a sociedade recreativa de estudantes e professores. O melhor do mundo são as crianças – disse o poeta. O pior do mundo são os professores e já não há professores que prestem – diz o pateta.

Um locutor da RTP1 disse que os jovens procuram nos professores explicadores a explicação sobre aquilo que os professores professores não sabem explicar nas salas da sociedade recreativa. Não há tolo que não acredite piamente nas suas tolices. Tolices professorais são inventadas por professores que desertaram.

Ao chegar a época dos exames, a sociedade recreativa apresenta-se como sociedade dramática e toda a gente quer saber o que fazemos em todos os minutos do dia a dia desta sociedade. E toda a gente, que não quis saber o que ensinamos nem o que disso sobrou em aprendizagem, quer saber o tamanho do que os alunos escreveram como respostas nos exames mais de consciência que de ciência. Se cada acto do dia a dia do ensino pouco ou nada vale para fora da escola, já cada acto e acontecimento do dia a dia dos exames é tudo, é o todo, é o drama, é o clímax, é … o máximo. Não é? Em tempo de exames, cada palavra de ministra ou secretário de estado é amplificada pelo megafone do drama sindical. Cada acto legítimo dos sindicatos agiganta-se no medo de governantes que falam e não fazem o que deviam e dizem fazer. E até aconteceu, neste país dramacrático, ver professores e educadores a chorar e a lamentarem ter sido obrigados a assinar contra sua vontade isto ou aquilo por medo de represálias. Temos de confessar que assim é difícil imaginar a escola da educação cívica, se ainda for verdade que civismo tem a ver mais com a coragem da decência que com a docência. O que nós passámos para aqui chegar. Aqui? E agora, 30 anos depois da revolução democrática!

Para completar o meu desgosto, vai o Presidente da República até Leça do Bailio, do alto seu senso comum, confirmar-nos que, como outros políticos, não conhece as escolas portuguesas e conhece as escolas finlandesas. Alunos finlandeses informaram o nosso presidente que, por semana, têm 22 horas de aulas e os professores estão pela escola 50 horas para os apoiar em tudo o que é preciso. Para o nosso Presidente poder concluir: “Está tudo dito!”

E eu? Eu quero ser um professor finlandês.

[o aveiro; 23/06/2005]



o absurdo que dói


A minha vida é um copo de tempo vazio de dores. É tão banal que há pessoas convencidas da minha extrema banalidade e, logo, da minha (in)felicidade feita de rotinas (in)felizes.

Numa noite já passada, o meu filho guiava o automóvel que nos trazia do Porto para Aveiro. De repente, na auto-estrada, pus a cabeça fora da janela. Podia ter perdido a cabeça se ela tivesse voado inteira para longe da parte do corpo que, incapaz de voar, ficasse preso ao assento. Em vez disso, voaram os óculos e foi como se a cabeça que olha tivesse voado com eles.
Por ter deixado de ver claramente, o princípio da minha passada semana fez-se um copo de tempo cheio de problemas. Com antigos óculos fui vendo o que precisava até que enjoei e passei a sentir-me tão miserável que o meu copo de tempo transbordou de tristeza. Cada pequena dificuldade passou a ser tudo e convenci-me que o que dói a cada pessoa pode ser a dor do mundo, ser o mundo dorido a vaguear nos nossos nervos e medos. Da dor e da impotência nascem desesperos e raivas surdas, partes do sentimento de quem se sente para ser filho de boa gente.
A doença acabou expulsa pela minha resistência interior, mesmo sem ter sabido de ordem da cabeça que pensa e devia conduzir as operações no campo de batalha do meu corpo. Tenho estado a escrever sobre as minhas maleitas e das ideias tenebrosas que podem assaltar quem sofre ainda que pouco.

Agora imaginem o sofrimento físico e psíquico das pessoas adultas que ficam sem emprego num dia qualquer e recomeçam a vida como uma via sacra dolorosa em busca de outro emprego quase impossível (a confiar nas notícias), sendo que isso significa procurar alimento e fé para si mesmo e para dependentes, filhos ou não.
De cada vez que um patrão ou um político desvaloriza cada desempregado como coisa pouca a somar a outra coisa pouca, agita uma mistura de desespero, desesperança e raiva. Esta mistura já é perigosa em si mesma e, à pressão da vida de todos os que sofrem, ganha um detonador apropriado no comentário da moda que banaliza este sofrimento individual e colectivo.

Convencidos da impunidade de novos-ricos cegos, alguns jovens comentadores a brilhar hoje ainda não sentem o rabo que lhes atrapalhará a fuga por ordem do medo do irracional que ajudaram a criar, palavra a palavra.

O que faz mover o mundo? O absurdo que dói.

[o aveiro; 7/07/2005]



O crime despido.


Quem nunca se deixou afundar em irracionalidade e aceitar ou justificar perseguições, deportações, guerras, invasões, assassinatos? Em nome disto ou daquilo, de pequenos deuses, nações e interesses quem não seguiu as palavras de ordem dos pequenos lideres do nosso mundo para participar, ainda que contrariado ou cheio de medo, em doentios delírios colectivos? Se não participamos directamente, fincamos os pés no nosso chão e, em defesa dos “nossos”, justificamos o injustificável. Na nossa história, quantas vezes? Na história dos outros, quantas vezes?
Estamos a chegar ao tempo do mundo pequeno demais para não sabermos reconhecer as vítimas ou os carrascos nos acontecimentos que nos são relatados em detalhe enquanto acontecem. Mesmo que fiquemos a milhares de quilómetros não deixamos de ver as caras das vítimas. Como se fossem nossos vizinhos. Na semana passada, reconhecemo-nos a viajar de comboio e autocarro em Londres e ouvimos as explosões e os gritos de terror. E reconhecemos, com os londrinos, que não podemos deixar de sair para os autocarros e comboios do dia seguinte.
Para vivermos nas nossas sociedades abertas temos de olhar para o que acontece, para o que pode acontecer-nos, com olhos de ver tão bem ao longe como ao perto. Usando modernas lentes progressivas, sabemos que nenhuma razão (política, religiosa ou outra) justifica a morte de inocentes ou qualquer dos ferimentos físicos e psíquicos deliberadamente infligidos. Nestes últimos acontecimentos, não consigo nomear qualquer política, não consigo falar de terrorismo político ou religioso. Já só posso nomear criminosos e constatar crimes hediondos.
Não é possível continuar a justificar politicamente ou a dar razões políticas para a demência criminosa. Os crimes de Londres vão ser muito provavelmente assumidos e atribuídos a criminosos que vivem na Inglaterra. Podemos vir a saber que eram fanáticos religiosos ou outra coisa qualquer, mas isso não os torna menos vulgares criminosos, sem razão e sem coração.
O nosso pequeno mundo não pode embrulhar em razão política os criminosos sérvios (ou quaisquer outros) que continuam a monte após os 10 anos dos massacres, como não pode deixar de perseguir criminosos terroristas, fabricantes e negociantes de armas, criminosos ditadores ou modernos senhores da guerra, incluindo os promotores das guerras que, em defesa dos valores sagrados da nossa civilização, transformam os sacrifícios de inocentes em danos colaterais.

Todos os dias, as liberdades acenam gestos de paz. E de combate.

[o aveiro; 14/07/2005]



Má nota


Sete em cada dez estudantes portugueses tiveram classificação negativa nas provas de exame de Matemática do 9º ano. E da primeira fase de exames do 12º ano, ressalta que é negativa a classificação média dos estudantes portugueses que concluiram positivamente a frequência do ano escolar. E ela tem vindo a baixar nos últimos quatro anos.

Estes resultados negativos são consistentes com os resultados das provas de aferição e com as prestações dos estudantes portugueses nas provas internacionais.

Estes resultados revelam que a escola pública (e a privada também) está a falhar. Se acreditarmos no que se diz sobre as explicações e a sua generalização a uma grande parte dos estudantes, o falhanço é ainda mais dramático. Aparentemente, as famílias estão a gastar o que têm e o que não têm, aceitando que os jovens não trabalhem na escola e pagando mais falta de trabalho fora da escola.

Temos de saber que, para lá de todas as razões, há falta de disciplina e de trabalho dos estudantes e das famílias que mobilizam pouco os recursos disponíveis tanto quanto nos é dado ver no dia a dia das escolas. Tanto quanto nos é dado imaginar pelas reacções aos resultados dos estudantes e da comunidade em geral. Há uma certa displicência nacional inaceitável.

Temos de saber. Temos de discutir para evitar que todas as apreciações da situação apareçam derrotadas e sem sentido por atribuirmos todas as falhas a uma mutante entidade abstracta que muda com os governos que mudam as políticas. Temos de saber que o problema da educação é um problema nosso e que nos cabe a nós todos a responsabilidade de fazermos diferente, impondo disciplina e trabalho constantes que se sobreponham a políticos e políticas inconstantes e à indisciplina que o aparelho deste estado está a criar. [Afinal temos de fazer as pequenas revoluções opostas às reformas desta união nacional de multireformados palradores. Sabemos hoje de que é que eles falam quando falam de impulsos reformistas e da inevitabilidade das reformas da sociedade. Falam das suas reformas antecipadas e da sociedade anónima em que transformaram o país, como o mau exemplo… a não seguir.]

Temos de saber que nos podemos salvar. Opondo trabalho persistente à tralha arranjista e negocista. Podemos passar nos exames trabalhando. Podemos exigir de nós e das escolas. Podemos contar connosco. Nada de conformismos! Quem precisa de mais explicações? Não vale a pena dar mais explicações para tão maus resultados.

[o aveiro; 21/07/2005]



O mau tempo que se faz sentir.


Estas últimas semanas que por nós passaram a correr deixaram-nos para trás suados de calor e… de medo. O calor propriamente dito apareceu acompanhado pelo terror nos vários países do mundo agora acrescentados dos Reino Unido e Egipto. E pelos incêndios nas florestas (e fora delas) muito por todo o país. E por candidatos à Presidência da República. E por mais um Ministro dos que espera para chegar a Ministro das Finanças para mandar notificar-se a si mesmo sobre a necessidade de apresentar a declaração relativa aos impostos. E por mais um discurso incendiário de Alberto João Jardim.

Muito mau tempo. Muito mau mesmo. Até me custa escrever, mas… ardentemente espero uma nesga de bom tempo que para mim é, só pode ser, tempo fresco e molhado. Para apagar velhos incêndios e evitar novos incêndios, para arrefecer ânimos, para estragar a estação tola da espuma das cervejas e das ondas neste ano doente, para nos devolver a esperança da água doce e fresca.

É por isso que eu não consigo compreender os meteorologistas e locutores da televisão que, apesar dos incêndios e da falta de água para beber, para a agricultura e pecuária e de outros tremendos dramas que o calor dilata, chamam bom tempo a este tempo de calor e mau tempo a qualquer arrefecimento ou ameaça de chuvisco. E quando, como aconteceu hoje, tendo de falar da possibilidade de aguaceiros, falam de possíveis melhorias só lá para quinta feira com ar de quem lamenta a curta interrupção no inferno em que vivemos.

Onde é que vivem estes tipos que falam deste calor doente como sendo bom tempo? Não vivem no mesmo país que eu. Vivem com gosto na tripa de areia e betão que não está a arder, numa foz para onde corre a água das nascentes do país da seca.

Dou comigo a rezar por bom tempo – fresco e molhado em todo o país. Se Deus for grande, e quiser agradar a todos os gregos e troianos, que distribua bençãos agradáveis a todos. Pode deixar cair sol inclemente na eira deste hospital psiquiátrico do bronze, melanomas e afins. E deixar cair a água onde ela é precisa para apagar incêndios, para nos regenerar e repor a água necessária à vida.

Até porque suspeito que nesta terra de bueiros entupidos pelas folhas e pelo bom tempo, muita chuva dá inundação. Deus nos livre e guarde, já que a câmara pode estar entupida até não ver.

[o aveiro; 28/07/2005]



danças de verão


O governo decidiu tomar medidas para preservar a imagem do grupo da Caixa Geral de Depósitos. Como é que um governo preserva a imagem do grupo Caixa? Demitindo administradores. Claro!
Nós sabemos que as nomeações de administradores do que quer que seja público não segue quaisquer critérios de competência e é antes uma distribuição de prémios entre políticos que se compram e se vendem no mercado. A nomeação de uma advogada para administradora da Caixa depois de ter sido Sinistra da Justiça não causa espanto a um único português e isso há-de ter uma explicação. Do mesmo modo, a nomeação seguida de desnomeação de administrador da Caixa de um antigo Sinistro da Indústria é coisa da ordem da vulgaridade portuguesa, mesmo que a desnomeação signifique uma reforma milionária. Tornaram-se vulgares as reformas e indemnizações milionárias que são pagas mesmo quando os gestores são dispensados de arruinar uma coisa pública por terem sido recrutados para arruinar outra igualmente pública.

Nós sabemos que o anterior governo usou o banco nacional para distribuir currículos e ordenados de administradores a alguns dos mais feios testas de ferro dos partidos apoiantes, tendo despedido os igualmente feios administradores da batota do anterior governo.

Novidades nesta dança de cadeiras da administração da Caixa? Terem acrescentado mentira à mentira? Dizem eles que diminuíram o número de administradores sabendo eles que nós sabemos que, no que a pagamentos diz respeito, o banco do povo vai pagar e bem a todos os que estavam e ainda mais aos que passam a estar. E não sabemos a quanto monta a indemnização aos que saem. Pode ser que ainda venhamos a saber, louvada seja a democracia por nos permitir ao menos saber o montante do rombo (para não dizer o montante do roubo). Novidade é também o reaparecimento daquele sinistro do tempo de Guterres (colega do Sócrates) que ficou embrulhado em engenharia de fundações por onde escorriam dinheiros do estado sem regra nem roque. Deve ter hibernado numa aceitável prateleira do centrão (na caixa do estado, portanto). Estava a ver que nunca mais aparecia a cobrar pela bitola máxima os serviços prestados ao consulado guterrista pré-socrático!

O Marques Mendes denuncia esta dança como saneamento político. Com toda a razão! Não é espantoso este nosso eleito Marques Mendes? Perspicaz! A minha mãe acrescentaria: E sem vergonha naquela fronha!

[o aveiro; 4/8/2005]



a lista exaustiva


Mesmo que o não quiséssemos, acabávamos por falar nas últimas nomeações do governo para a Caixa. E o mais natural era não querer, até porque temos opiniões diferentes sobre o assunto ou sobre todos os assuntos. Mas na reunião de um sector alargado da família com entradas ao longo de todo o dia, acabamos por falar de tudo o que nos une e de tudo o que nos divide. Os negócios da política e do futebol acabaram por aparecer nas conversas mais do que alguns de nós desejaríamos.
Para mim, não tem qualquer sentido distinguir em competentes e incompetentes os nomeados pela direcção do partido do governo para cargos ou funções na administração pública (central, regional e local), nas empresas públicas ou em outras instituições dependentes do estado. Para mim, a competência técnica pode ser exercida com salvaguarda do exercício das instituições e das empresas ainda que no cumprimento de políticas diversas. A autonomia dos gestores relativamente aos partidos no poder seria garantia de que a opinião pública saberia das intromissões abusivas ou contra os fins estatuídos. A confiança política não pode sobrepor-se à honra das pessoas, à necessidade da competência para o exercício como não pode substituir-se à responsável prestação de contas pelos agentes que só o podem ser se puderem cumprir planos sem estarem sujeitos aos humores rasteiros do governo. A actual dança das nomeações e indemnizações são da mesma natureza das que foram feitas por outros governos, mas o que soubemos a mais sobre a prática do governo de portasantanetes continuada socraticamente comprova que a degradação moral dos coveiros do regime ultrapassa a nossa imaginação. E o pior é que esta dança se faz entre o público e o privado, o que nos diz que a nível das administrações, os administradores rodam entre o privado e público o que é pouco saudável para todas as partes.
Não acredito que em Portugal não haja pessoas formadas, responsáveis e competentes para compor administrações das empresas públicas e privadas. A conversar sobre o que sabemos, fazemos uma lista exaustiva dos gestores privados e públicos, conhecendo-os dos partidos do poder, das festas de verão, das revistas cor de rosa ou laranja. E é aqui que chegamos a um acordo de pasmados!
Pobre país em que os gestores constam de lista exaustiva que anda na boca do povo.

[o aveiro; 11/09/2005]



Não há fumo sem fogo


Altas temperaturas e seca são o que falta ao desordenado território português para ser incendiado naturalmente com pouca ou nenhuma ajuda de ventos soltos. Há brilhantes fundos de garrafa perdidos ou guardados na floresta por uma população abandonada tanto pela educação como pelos sistemas de recolha e tratamento de lixo. Há casas cercadas de mato seco. Há mato seco. Há matas secas. Há incêndios por todo o lado e há ainda mais incêndios na televisão de todos os dias. Todos os dias. A televisão serve para nos mostrar o retrato completo da situação, desde a tragédia das populações e bombeiros até às danças dos políticos neste baile mandado da negligência na prevenção e no ordenamento. O que será o desenvolvimento sustentável de que eles falam?
A televisão serve também para nos mostrar a luta dos bombeiros, voluntários na sua imensa maioria, contra os fogos de verão. Os bombeiros são duplamente vítimas da incúria nacional. Queremos que os bombeiros existam e bem treinados para não serem precisos nem usados na realidade quotidiana. Dito de outro modo, os bombeiros deviam ser recursos bem equipados para a excepção. Ora estes dias do verão português são todos de excepção, os bombeiros passaram a ser usados pela realidade de todos os dias e duvidamos que as comunidades e o governo da nação tenham tratado de os recrutar, treinar e equipar para este regime quotidiano que não é o seu por não ser conforme ao voluntariado simples. Vimos os filmes dos acontecimentos e o cortejo das tragédias (incluindo casas destruídas e mortes de bombeiros) e ficamos sem compreender o mundo em que vivemos.
Apesar das televisionadas provas diárias de anarquia na limpeza da floresta e das suas margens e da limpeza em geral, bem como o agravamento dos factores incendiários(incluindo a divulgação intensiva dos filmes dos acontecimentos), ouvimos muitos argumentos a favor da tese de que a maioria dos fogos são de origem criminosa e que isso só pode combater-se pelo recurso a maior severidade nas medidas penais contra os criminosos. Ouvi mesmo argumentos a favor da pena de morte por alguém que lamentava haver um paiol ali perto cercado por intocáveis vizinhos matos secos prontos a serem ateados pelo incêndio em marcha.

Este é um paiol de ideias explosivas. Precisamos de um contra-fogo…

[o aveiro; 18/8/2005]



A circunstância da riqueza


Quando foste jovem eras mais intolerante do que quando foste velha. Dizem os que te conhecem que vais amolecendo à medida que vais envelhecendo. E que isso vai ser a tua morte! Assim te falam, velha Europa civilizada!

Dizem isso para apoiar todas as iniciativas guerreiras, em apoio de todas as cruzadas ocidentais. Mas dizem-no também para te justificar como fortaleza de fronteiras fechadas, para acabar com a livre circulação de pessoas e bens cá dentro e de fora para dentro da Europa, para justificar as acções agressivas das polícias nacionais contra os suspeitos do costume que são aqueles que não usam os nossos costumes. Dizem à Europa civilizada que não pode ser multi-cultural e multi-racial. À Europa tolerante dizem que ela é a Europa dos cobardes sem princípios e sem fé própria.

E apontam como exemplos morais a seguir os Estados Unidos da América em que a religião tem lugar até nas notas de dólar e é utilizada, pelo seu presidente, como razão de estado para aplicar castigos ou prosseguir guerras e agressões ao arrepio do direito internacional. Acabam por encontrar uma razão de direito para todas as agressões na miséria da diplomacia de blocos que acaba por levar todos os governos a participar do esforço da reconstrução, mesmo daqueles que estiveram contra a destruição do que é preciso reconstruir. No rescaldo dos actos terroristas que afectam a Europa, ganham relevo as opiniões que vão no sentido do regresso às cruzadas. Os directores de grandes jornais e de grandes grupos de comunicação ligados a grandes grupos escrevem as opiniões mais radicais.

A fé destas novas cruzadas é transversal a todas as religiões e ideologias. Eles recomendam, entre outros, como exemplos a seguir, as emergentes potências industriais e comerciais asiáticas (a China, por exemplo), e estas baseiam todo o desenvolvimento industrial e a acumulação capitalista no desrespeito dos direitos humanos, na repressão e exploração da força de trabalho.

A fé comum aos teóricos da agressão sistemática não está em uma qualquer religião ou na democracia para os povos – reside mesmo na violação do direito nacional e internacional, na violação dos direitos humanos. Na exploração competitiva. Na circunstância. Na oportunidade.

Já devíamos ter juízo de tão velhos que somos. Os patrões desta comunicação guerreira estão a fazer a sua guerra em todo o mundo. Não há fronteiras para as suas companhias de pilhagem de recursos, sejam eles matérias primas ou trabalhadores humanos. Nunca o lucro foi tão grande e tão globalmente baseado na instabilidade.

[o aveiro; 25/08/2005]



declaração de freguês


Há uns anos, defendi publicamente a importância da participação dos grupos de cidadãos unidos em volta dos problemas locais, para os quais se mostravam incompetentes os poderes locais eleitos na base da divisão por partidos e nas obediências a interesses que não são o que é melhor para as populações residentes numa freguesia ou num município. Pensava eu, e ainda penso, que nada pode impedir um grupo de cidadãos de participarem activamente, e com exercício do poder, nas decisões que afectam as suas comunidades. As divisões partidárias impedem muitas vezes que as competências se juntem em colectivos de consciências livres para a busca do bem comum.

Fui então mandatário de uma lista de independentes candidata à Assembleia de Freguesia da Glória. Não conhecia a maioria das pessoas nem as suas intenções. Pessoas conhecidas umas das outras, interessantes nas suas diversas ocupações e preocupações sociais, ensinaram-me parte da vida, ouvindo e conversando com elas como quem conversa com a Glória. Lamentável foi que o grupo não se tivesse mantido em volta do único eleito, já que este não precisou dos seus companheiros nem se mostrou interessado em prestar contas a eles ou à freguesia dos seus eleitores. Fiquei a saber que mais do que reunir pessoas é preciso reunir vontades fortes e vozes capazes para a fala, que não percam as cabeças para serem uma “cabeça de lista”.

Aproxima-se uma nova campanha para eleições autárquicas e sou candidato a voz dos munícipes de Aveiro na Assembleia Municipal, pelo Bloco de Esquerda, depositando as minhas esperanças nos jovens das listas do Bloco. Não é possível atribuir-lhes mesquinhos interesses pessoais, nem têm esperanças estranhas. Temos a ideia que nada os move a não ser a defesa de um nova ideia de Aveiro, na Câmara e na Assembleia Municipal. Ingénua coragem?

Não há qualquer arrependimento sobre a minha passada participação como mandatário dos “Independentes à Glória”.

Já vivia nesta casa há 4 anos. Hoje, como então, saio de casa para a rua e não posso atravessar. Do outro lado ainda não há passeio. A minha aventura mais perigosa deste ano? Foi tentar ir a pé ao Pavilhão das Feiras. Há alguma amargura nisto? Há.

Candidato contra tantas pequenas mas persistentes desgraças, registo cuidadosamente os dias de hoje. Quero ser parte nas soluções dos problemas de Aveiro. Só isso. E é muito.

[o aveiro; 1/9/2005]



ontem até amanhã


A semana passada passou como só um furacão sabe passar pelas nossas vidas. Nova Orleães passeia-nos nos nervos e ecoa-nos na cabeça porque dela fizemos templo ou rua apinhada da estridência de todas as misturas que o nosso sagrado mundo nos deu a ver. Toda a destruição nos custa, mas mais do que tudo nos custa a destruição dos pobres e daqueles pobres que ali vivem. ali naquele caldo cultural com todas as especiarias do mundo dos espíritos a boiar à superfície para que as possamos ver. Nenhum outro lugar do mundo escrito, gravado, fotografado ou filmado pode ser a montra fantástica que Nova Orleães sempre foi.
O furacão devolveu-nos a ingenuidade ao olhar. Lá onde está Nova Orleães, face à adversidade de uma calamidade natural há a mesma fragilidade da pobreza de qualquer outro lugar do mundo. Nova Orleães ensina-nos que estamos abandonados em todos os lugares e que nos resta clamar por ajuda naqueles dias em que a televisão já veio para nos mostrar ao mundo inteiro sem podermos ter o mundo inteiro de volta já que a ajuda ainda não se avista no horizonte.
Eu sou um velho, com a barba por fazer, sentado numa cadeira de baloiço do alpendre que ameaça cair. Olho para longe que é nem sei bem onde. Sonho tirar uma voz rouca de uma orquestra que só quer ser rápida mesmo quando cai numa sonolência de não saber bem que língua falar quando falo ou toco seja que instrumento de melancolia for. Não sei se me vi assim nos filmes dos meus desejos, ou se fui capa de um disco de não sei quantas rotações.
Fico-me para aqui a passar as contas de um rosário entre os dedos e a rezar para ter este meu mundo de volta, não tão pobre e abandonado como o furacão mostrou estar, mas com tudo o que é do mundo bom e mais protegido das tempestades naturais e humanas. Este velho crioulo não tem forças para mais do que para juntar a sua voz ao coro dos amigos do mundo inteiro que querem Nova Orleães de volta.
Volto para lá onde nunca estive. Revejo-me a passear de memória nas ruas, a esquecer-me de mim no carnaval, a caminhar na arquitectura do lugar, nos sopros e seus ecos dos corredores que se abrem como ruas do romance que li ou vi.
Quem pensar que pode fugir a esta reconstrução dos alicerces do espírito que Nova Orleães exige, está a pensar em fugir para uma terra de ninguém, vazia.
Volto para Nova Orleães. Quem não volta?

[o aveiro; 8/09/2005]



A roda


A campanha das autárquicas aproxima-se. Desta vez, ainda não assistimos a grandes actos de pré-campanha, embora sintamos o cheiro fervilhante do alcatrão em muitos lugares e seja previsível um aumento de actos inaugurais em que intervêm autarcas em fim de mandato e à procura de votos para o próximo. As inaugurações ainda podem esperar uns dias. Os debates televisionados em que entraram valentins, adelinos, isaltinos e outros ricos meninos mal-crescidos não animaram especialmente a pré-campanha. Instalou-se uma calmaria paradoxal na aldeia, nas aldeias, vilas e cidades.

O partido do governo procura que estas eleições não apareçam dramatizadas para que eventuais maus resultados não possam ser confundidos socraticamente com qualquer desgosto face à actuação do governo. Isso contribui para acalmar os fogosos desgostos locais que querem ver eleitos para as câmaras. E o calendário dos candidatos a Presidente da República, ao cavalgar as campanhas autárquicas, também é uma boa contribuição contra o campo da participação local no poder local.

Tudo se complicou também para os partidos da direita. Numa altura em que se apresentavam lavadinhos, capazes até para a rejeição de algumas das suas nódoas mais visíveis, sai-lhes na rifa a denúncia global e o debate geral sobre as ligações perigosas entre autarquias, partidos, construtores e outros empreendedores. A televisão logo havia de começar a dar visibilidade às nódoas em geral, desvalorizando as nódoas particulares, essas que as máquinas partidárias tinham posto em evidência pela vassourada. Não é azar? E o pior de tudo é que no debate sobre a corrupção, apareceu como consenso que a criação das empresas municipais foi tudo menos o que disseram que foi. Ouviram-se vozes amplificadas dos que denunciam com conhecimento de causa e de casa. Porquê inventar formas enviesadas de agilizar a administração? Só é preciso re-inventar a prestação de serviços públicos.

A campanha para as autarquias vai mal. Para não falarmos mais de autarquias, Sócrates nomeou para o Tribunal de Contas um reputado independente. Quem é pau para toda a obra?

Quem inventou a roda?

[o aveiro;15/9/2005]



a maldade


Dou por mim a pescar na memória. Pequenas coisas, palavras cortantes, interjeições maldosas, pedras no sapato, areias nos olhos,… aqueles actos e factos desvalorizados um a um á medida que foram acontecendo. E que, neste momento, teimam em amontoar-se à porta dos meus olhos. Dou por mim a pescar na memória o dia em que a operação (est)ética foi feita sem que eu tivesse dado por ela.

Falo de mim e dos amigos que vou perdendo de vista. Falo de mim e das pessoas que me habituei a admirar por esta ou aquela razão num ou noutro momento: coragem física e capacidade de sacrifício, conhecimento, sabedoria, capacidade, humor, competência, acção, pensamento, estudo. Muitos deles nem os conheci pessoalmente, mas uma frase certeira que escreveram ou disseram fez com que olhasse para eles como pessoas admiráveis.

Sou muito influenciável, devo confessar. E atribuo sentido e valor às frases certeiras, às palavras da sabedoria, a livros. Mesmo quando não concordo com as ideias, atribuo cor e vida própria às pessoas por essa via das palavras e da sageza que me ponho a adivinhar. Até que passo a esperar a concordância entre as palavras e os actos, consistência entre as palavras de ontem e as de hoje, coerência entre a sabedoria e a educação. Quanto maior a admiração intelectual, tanto maior se torna então a minha exigência. Ingénua, eu sei.

Eis porque é para mim muito mais doloroso assistir ao espectáculo do debate entre Carrilho e Carmona do que aos espectáculos em que entram avelinos, valentins e isaltinos. É dramático ver um intelectual, professor e ex-ministro da cultura descer por avenidas que dão para o largo da decadência e que a televisão não se coibiu de mostrar variadas vezes para aumentar o nosso desconforto e vergonha.

Dou por mim a pescar na memória antigos debates, a tentar vislumbrar o lugar do tempo em que o atoleiro quebrou a casca do seu ovo. O tempo em que as estaladelas fenderam a porcelana da cultura cívica.

E sobra-me uma imensa pena de mim mesmo, ao perceber que há quem tenha expulsado as suas ideias e educação, para não dizer os seus ideais, para um campo de refugiados longe do campo da acção onde quer exercer influência e poder. Para quem, o poder?

[o aveiro; 21/9/2005]



Perder e… achar.


1.
“Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda da sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta: Que procura? – Uma agulha. Caíu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. – Porque na cozinha está escuro – responde a mulher.”

Citada por Herberto Helder, esta parábola vem ter comigo uma e outra vez. Há muitos anos, encaminhou-me a desaprender o que se tinha tornado incompreensível e insuportável para que aprendesse outras coisas e retomasse a respiração vital que tinha sido interrompida por uma dúvida do tamanho da vida.

Nestas últimas semanas, a parábola voltou a instalar os seus arraiais na minha cabeça e a guiar os meus passos e decisões. A necessidade de procurar alguma verdade perdida pareceu-me a busca de agulha perdida em palheiro escondido por um manto artificial de escuridão política. E dei por mim a procurar uma nascente de luz numa varanda virada para a vida comum. Em vez da verdade? Não. Como verdade humana que importa.

2.
Num livro de divulgação matemática, Paulos refere-se ao espanto de um jovem perante um Rabi que tem sempre uma parábola adequada para cada assunto, para cada pergunta ou inquietação.

E é verdade que Paulos põe na boca do Rabi uma parábola muito interessante para reagir ao espanto do jovem. Trata-se da surpresa de um guerreiro recrutador que, ao percorrer as ruas de uma aldeia, dá com uma sucessão de alvos desenhados nas portas dos celeiros. O espantoso é que em cada alvo há uma seta espetada exactamente no seu centro. Quando procura o extraordinário atirador (certamente para o recrutar), descobre que se trata de um jovem muito especial que atira setas às portas e depois desenha em volta uma roda centrada na seta espetada.
Depois de mais essa parábola, o Rabi da história de Paulos conclui para o seu jovem admirador que não é verdade que tenha uma parábola para cada assunto, mas que distingue os assuntos para os quais conhece uma parábola. E só fala desses.

3.
Sem mais lições do que essas, mais uma semana passou. E tudo que era bom querer, para sabermos e saborearmos como verdade de todos e para todos, soube a pouco.

[o aveiro; 13/10/2005]



A culpa dos simples
Olho as tuas mãos enquanto lês. Vejo nítidos os tendões dos dedos que batem furiosos as teclas do piano sensível da mesa. E até há pouco a mesa parecia a lisa praia em que as tuas mãos descansavam. Sei que tentas reconhecer a voz de quem escreve o que agora lês. Vejo-te incrédulo, enquanto tentas controlar uma revolta que os dedos nervosos não escondem.

O que te perturba é sentires-te parte do grupo dos simples que, sabendo da imperfeição das pessoas, não deixam de se revoltar contra os erros, as injustiças, a corrupção, … O que te perturba é leres o que os teus amigos não se cansam de escrever, acusando-te do crime de denunciar uma crise geral de valores do ponto de vista da moral, da ética e da justiça. Chegam mesmo a ameaçar-te com a possibilidade de se virarem contra ti os teus escrúpulos morais e éticos, já que estão convencidos que não és senão um náufrago mais entre outros em cruzeiro pelo mar da lama num barco de luxo. Tu estás perplexo porque eles pensam isso de ti. Será que, por não aceitares as manobras dos crimes financeiros e a contabilidade imaginativa, virás a ser um criminoso de colarinho branco? Será que, por usares colarinhos brancos, vais acabar por lucrar com algum negócio menos limpo ou com acesso ilegítimo a cargos ou favores?

E começas a rever o filme do passado da tua vida para descortinar alguma coisa menos correcta ou mesmo reprovável que tenhas feito sem pensar e que eles dirão que é da mesma natureza e gravidade de actos criminosos.

Estás a sentir que alguns dos teus amigos estão quase a convencer-te a não criticar a acção política do ponto de vista da moral e dos bons costumes, dizendo-te que sabem que tu sabes não ser perfeito.

Os dedos tensos batem na mesa. Quando a batida dos teus dedos se torna solta, sei que venceste a batalha interior contra quem usa a tua imperfeição simples e a ignorância do futuro como argumento para desculpar os crimes deste passado presente..

Há adeptos que gritam. Mais pelas derrotas dos clubes que não podem nem sabem perder do que pelas vitórias dos que nem sonham ganhar. Descansarão quando degolarem algum bode expiatório. E tu?

Escrevo por ti e por mim. Sobre futebol? Ou sobre política?

[o aveiro; 21/10/2005]



Banca!


Os discursos políticos falam de crise geral. A solução para todos os males está na redução do défice e na criação de incentivos ou benefícios atractivos para o investimento e para os empresários. Dizem-nos que se não adoptamos novas empresas, não resolvemos os problemas de emprego. Há empresários sem empresa. Esperam lucros de negócios e não razoáveis retornos de uma empresa saudável, desempregados que aceitem trabalho sem estabilidade e com salários baixos, que não se cobrem os impostos devidos, que subsidiemos a implantação do negócio e que não haja castigo quando, apesar de todas as ofertas, abandonarem a mão de obra desesperada por novo noivado. Na aldeia global, a elevada rotação dos produtos e serviços afluem a uma arena de comércio que não se esgota na satisfação das necessidades por acesso aos bens essenciais e cria necessidades artificiais.

A esta situação económica desequilibrada, difícil e em crise – trabalho e necessidade, salário e produto – ou propiciada por ela, opõe-se o florescimento das movimentações financeiras, optimistas, em delírio por não corresponderem, na sua imensa maioria, a quaisquer equivalentes em produtos verdadeiros. Nunca houve tantas operações financeiras como actualmente e nunca os bancos e similares deram tanto lucro. Muitos dos empreendimentos produtivos foram abandonados e trocados por deambulações e orgias financeiras. O dinheiro, que antes crescia pela troca de mercadorias, cresce agora mesmo quando não há quaisquer mercadorias, bens culturais ou trabalho incorporados na troca. Mesmo quando nada mais há além de dinheiro nesta virtual riqueza das nações.

Apesar dos lucros astronómicos, os bancos requerem privilégios fiscais e mesmo dispensas de pagamento de algumas taxas. E o governo dá. Quando a cupidez é muita e saltam fora da legalidade já de si tão favorável, alguma alma os há-de informar da eventualidade da busca de ponta de crimeada. Até o Banco de Portugal, que controla suspeitas movimentações de capitais, não dá por nada. Olha como mudo, denuncia calado.

Não é português um banco (ou instituição financeira) sem antigo ministro, secretário de estado ou similar na sua administração. Mesmo banco estrangeiro, com negócios ligados ao estado ou coisas públicas, não escapa a administrador político luso. Ética legal em acção!

[o aveiro; 27/10/2005]



prova de vida


De vez em quando, vejo o mundo aperfeiçoar-se. São pequenas coisas, fragilíssimos gestos os que me reconciliam com a vida e me lembram a exacta medida das humanas falhas.

Fiz parte de um pequeno grupo que concebeu e discutiu com professores os programas de matemática. Há poucos processos que tenham merecido tantos debates como esse. Anos passados nesse trabalho e de reflexão sobre ele, podemos ver-nos reflectidos em parte nas opiniões que se fizeram ouvir, ver estabelecidas novas formas democráticas de autoria e autoridade.
Apesar da qualidade da discussão, reconhecemos que poucas vezes sentimos a necessidade do debate fora das multidões que aderem tecnicamente aos argumentos a favor e contra as decisões programáticas. Na falta de melhor participação cidadã, comparamos com o que foi antes de nós e aceitamos as limitações como sendo coisa inevitável.
Convencidos sobre a fatalidade das limitações e munidos com a arrogância de quem não espera aprender em discussões sobre as adaptações do geral a este ou aquele subsistema específico, aceitámos adequar programas gerais de ensino ao ensino recorrente, ao ensino profissional ou à educação e formação. Nem nós, nem outro além de nós se lembrou de ouvir uma ou outra comunidade sobre quaisquer aspectos da nossa acção.
Essa acção influencia a vida toda de muitas pessoas em cada comunidade. Não estranhei que toda a decisão fosse feita longe de todas as ribaltas de discussão pública.

Nem imaginava que podia ser de outro modo, até que me convidaram para moderador e provocador de um debate sobre educação e formação na Murtosa. No Centro Recreativo Murtoense, na sequência de outros encontros e debates sobre variados assuntos em espaços associativos, vi-me cercado de pessoas com projecto, interessadas em levantar pontos de vista sobre o ensino e sobre a formação como quem levanta pesos e o mundo em ombros, capazes de acrescentar cor local, sabedoria e experiência ao saber de teoria feito.

Ao surpreender-se a si mesma em vida comunitária, a vida não pára de nos surpreender e, se encontra fresta aberta, cria um ensinamento maior que o anunciado no gesto de toca a reunir. Bolos e cafés, sala com história, pessoas com memória. E boas falas.

[o aveiro; 3/11/2005]



ciência prática


No último mês, convivemos mais uma vez com a estupidez boçal dos mandantes das praxes estudantis. Sei que faltaram às aulas, sei que houve quem fosse obrigado a faltar a aulas, sei que há quem ache tudo isso normal e até desculpe as faltas às aulas, sei que se embebedaram repetidamente, sei que houve festas “de acolhimento” que duraram noites inteiras de uma semana, sei que houve mesmo quem achasse intrigante a insatisfação dos vizinhos das festas. Vi os bandos pelas ruas da cidade e também vi a manada em frente da Reitoria. Não me conformo com o regresso das trevas.
E, a respeito das praxes, ouvi (e li n’O Público de 7/11 ) o Ministro da Ciência afirmar que as escolas do ensino superior “não devem ser escolas de submissão e de iniciação a práticas fascistas” e que é “absolutamente contra aquilo que se designa, com algum humor sádico e machista, por praxes académicas, como se nos devêssemos rir disso”. Acrescentava que essas praxes “são uma escola de falta de democracia e fascismo” e que “devia haver uma atitude de menos complacência por parte de todos, nas universidades e fora delas”.
Sabemos bem como a Universidade tolera a actividade das hordas praxistas. E é intolerável essa atitude que acaba por legitimar a um certo nível as palhaçadas que, por vezes, acabam em verdadeiros crimes (sem culpados?). Afirmou o Ministro que é preciso “aplicar a lei e exigir o seu cumprimento dentro das universidades”, que não se podem aceitar assédio e humilhações em sítio algum e que “não há paraísos para a humilhação ou para práticas fascistas” e que, se os houver, “esses paraísos não podem estar dentro do ensino superior”. Mariano Gago afiança que irá tomar “o máximo de medidas que seja possível” e pede “que aqueles que sejam vítimas se queixem”, pois “”se o não fizerem estarão a ser cúmplices dessa barbaridade”.
Somos solidários com a revolta do Ministro e com as vítimas. Sem aceitar que haja patrocinadores para esta vida selvagem nem a cumplicidade das autoridades das academias e das cidades, tenho de lamentar que, para falar disto, seja preciso haver novas vítimas capazes da denúncia.
Não são públicas e notórias estas demonstrações dos velhíssimos veteranos da parvoíce juvenil? Um dia ainda vamos ser espantados pelo espancamento dos veteranos às mãos de jovens cansados de tanta humilhação e cansados do estado descansado.

[o aveiro; 10/11/2005]



Pormenorçamento


Todos ficamos envolvidos nas discussões sobre um orçamento de estado quando este desce do do governo ao parlamento com vista a receber o voto do partido do governo e a condenação dos restantes partidos.

No fundamental, o orçamento do Partido Socialista é o orçamento dos partidos à direita e estes, garantido que está o seu orçamento, podem votar contra para afirmar-se como ainda mais radicais defensores dos interesses do grande capital e não desdenhando um ainda maior ataque aos papeis que cabem ao estado social moderno. Aliás, o melhor para os partidos da direita será ver o estado social exaurido e atacado por quem se reclame de esquerda.

Para cada ideia de sociedade e de estado, até mesmo para cada classe social ou para cada grande grupo de interesses, há um orçamento. Há muitos orçamentos na discussão de cada orçamento de estado. Para a esquerda, o orçamento baseado nas grandes obras públicas e no aprofundamento de todos as vias que conduziram o estado e o país até este buraco não pode ser aprovado. O orçamento do PS não aposta nas pessoas, na sua qualificação e no que sejam competências humanas em acção. Aposta antes em actos inaugurais de uma nova era de grandes obras e eventos para movimentar capitais no sentido do costume, do estado para os do costume, continuando a aprofundar o abismo entre os mais ricos e os mais pobres.

Este é o orçamento que nos permite sair da crise? – é a pergunta destes dias. Não sabemos responder. Para quem nunca esteve em crise, banca entre outros, o orçamento do PS ainda lhes garante mais umas coroas… e de louro, por terem visto subir os seus lucros aproveitando o presente da crise dos outros. Para o estado social, o orçamento vem dizer que a sua crise deve ser aprofundada. Os pobres e desfavorecidos, desempregados, etc irão ver as suas condições de vida prejudicadas porque é sobre a sua pobreza que um futuro radioso vai ser construído. Para esses, o orçamento vem aprofundar-lhes a crise do presente em nome de um futuro que lhes escapa.

Ao ler o orçamento, assalta-me uma curiosa comichão com o cuidado extremo posto nos artigos que se referem à Caixa Geral de Aposentações, com cuidadosas notas sobre inscrições dos titulares de cargos dirigentes. Quem fica a dever à Caixa? Certamente que não são os que descontaram toda a sua longa e normal vida activa e carreira retributiva! Finda a resistência ao cerco, imaginemos como vai ser o saque.

[o aveiro; 17/11/2005]



A cobrança de pt-nadas.


Passavam os anos e eu mantinha dois números de telefone da rede fixa – um da pt e um outro ligado a outro serviço Para não mudar o número antigo, para não sei o quê. Até que um dia de Junho ou Julho, ao ver que pagava coisas espantosas, tirado dos meus afazeres, dirigi-me à pt que reclamava a presença do assinante que queria ser desligado da máquina.

E lá assinei uns papéis a desligar-me. Mantive o pagamento disponível no banco até porque haveria a pagar o que ainda estivesse por pagar. Pelo sim, pelo não, lá desliguei tudo e avisei que não havia ligação para o número antigo. Abençoados meses sem aquelas contas.

Um dia destes, fui assaltado. A factura da pt tinha voltado e, pelas datas, o banco já devia ter liquidado a coisa. Nela constavam o custo de uma assinatura mensal, o custo de um plano de preços e uma taxa municipal de direitos de passagem relativo ao mês de Outubro. Não havia mais cobrança porque não havia qualquer serviço prestado. Fiquei perplexo e fui perguntar o que se passava. Em particular, perguntava como era possível estar a pagar o que não tinha comprado nem tinha sido vendido. A funcionária simpática e eficiente explicou-me com paciência que, em Junho, eu só tinha suspendido o serviço por alguns meses e, como não tinha dito coisa alguma, o serviço tinha voltado a estar disponível automaticamente e eu tinha de pagar, utilizasse ou não. Mais uma vez amaldiçoei as minhas pressas a impedir-me de não ter percebido isso da outra vez. Lembro-me bem de ter insistido então para acabar com a coisa de uma vez por todas.

E vi-me a pedir, de novo, agora a esta funcionária, que me desligasse da máquina definitivamente. Preferia morrer sozinho a continuar vivo ligado à máquina da pt. Mais um papel para eu assinar! A razão “não quero!” não serviu para cortar o cordão umbilical com a pt. O computador não considerava essa possibilidade e eu tinha de justificar o fim destes pagamentos indevidos como se crime fosse, como se recusasse pagar imposto para serviço público.

Finalmente, entregaram-me o papel, com o aviso de que ainda teria de esperar e pagar mais uns sete dias úteis. Cansado, assinei no papel – “Burro Martins” – com a minha bonita caligrafia.

[o aveiro; 24/11/2005]



cruzes canhoto!

Tanto quanto posso lembrar-me da minha infância, a escola primária pública da minha aldeia tinha duas salas expressivamente separadas por muros. Numa das salas, as crianças ficavam de costas para a porta. Na outra, as crianças ficavam viradas para a porta. As grandes janelas, viradas a nascente, ficavam à esquerda das crianças . Sentados em carteiras alinhadas, os estudantes olhavam por vários anos para uma parede em que pontificava um quadro negro. Sobre este quadro negro, uma cruz. Craveiro Lopes ficava de um dos lados da cruz e Oliveira Salazar ficava do outro. Há muitos anos que me interrogo a respeito de algum deles poder ter sido um bom ladrão. [E lembro-me também de um ano em que entrava na igreja – essa outra escola aldeã da minha infância – e via na parede o contra-almirante Américo de DEUS Rodigues Thomaz a velar pela minha educação religiosa, adornado com faixas sobre a farda imaculada, nessa parte da igreja só para os homens eleitores. A maioria, feminina, ocupava a nave central e era poupada à ameaça da Armada.]

Nesse tempo, nem imaginava que houvesse crianças que não fossem católicas apostólicas e romanas. Aprendia então cuidadosamente que os infiéis ou tinham sido derrotados e assassinados ou tinham sido convertidos e já não eram infiéis.

Passados cinquenta anos, nem tudo é diferente. Mas olhamos para o passado de heranças culturais de outro modo e sabemos que há batalhas que se perderam na bruma dos tempos, mesmo quando parecia que as vitórias eram nossas, dos nossos cruzados e eternas.

Ainda nos parece que a maioria da população se reclama de uma matriz católica, mas sabemos e aceitamos que há portugueses de raiz ou visitas bem vindas das mais variadas religiões. E defendemos que, nas salas de visita da democracia portuguesa, todos quantos por cá vivem e trabalham se devem sentir iguais independentemente da raça, do credo, do sexo, …. As primeiras salas de visita são as salas de aula das escolas.

O mediterrâneo lembra-nos todos os dias de que caldo cultural somos feitos e a nossa língua não nos deixa esquecer a herança que recebemos. Por isso, desejamos ardentemente que as iniciativas das comunidades das margens do mediterrâneo tenham sucesso. O nosso futuro depende disso.

Onde falha a Cimeira Euro-Mediterrânica de Barcelona? Lá, claro. E por cá? Cavaco Silva, candidato à Presidência da República, declara-se contra a retirada dos crucifixos das escolas públicas do nosso estado laico. A derrota mediterrânica está a passar por aqui.

[o aveiro;1/12/2005]



Candidato


As campanhas políticas passam por nós e pelos dias da nossa vida. Agora passa por nós a campanha dos candidatos à Presidência da República. Passam pela nossa vida os candidatos, o que dizem os candidatos e o que dizem dos candidatos.

Por mim, passa tudo e passam todos duas vezes.

Numa primeira volta, ouço os candidatos todos apresentar as suas posições e as suas propostas políticas, para concordar com pequenos detalhes num ou noutro discurso e escolher um lado, um candidato.

E, por força das minhas escolhas, começa uma segunda volta. À minha volta, as vozes levantam-se gritando a inutilidade da candidatura do meu candidato e sobre o facto de ele não ser afinal candidato já que não se afigura provável a sua eleição e ele levanta problemas que não os triviais das candidaturas à Presidência da República, referindo principalmente opiniões divergentes das ideias e planos dos governos. Perguntam-me algumas vezes se ele é candidato ou não ou se não é mais que uma campanha. Perguntam-me se não seria mais sério e responsável ele desistir a favor de algum outro que reuna condições para uma disputa real. [Conselhos e opiniões muito semelhantes foram utilizadas contra a candidatura do Bloco de Esquerda às Câmara e Assembleia Municipais em que participei recentemente. Se os tivesse seguido, tinha aceitado que as minhas opiniões não contam e podiam ser perfeitamente contidas nas opiniões de algum eleito de um outro partido. E eu sei que isso não é verdade.]

A democracia empobrece quando alguma corrente de opinião desiste da sua afirmação pública e desiste das suas candidaturas. Até porque desiste de fazer representar na luta política as pessoas que lhe dão vida e se revêem na opinião política do seu candidato e porta voz.

Cavaco Silva é o economista também responsável pela desgraça a que chegámos , o cara de pau salvador do país com as mesmas artes da desgraça e apoiado nos mesmos artistas. Há mesmo quem acredite que desgraça após desgraça é graça certa.

Louçã é também economista. Vem dizer-nos que o que nos salva são as pessoas em acção e que Cavaco Silva não é mais que ministro de uma cerimónia ritual da alta finança em que os acólitos são os banqueiros por ele libertados das ameaças de crise que aflige tudo o que não é capital financeiro.

Escolho Francisco Louçã.

[o aveiro; 15/12/2005]



A festa


Todos nos queixamos da falta de avaliação rigorosa dos sistemas. Dizemos que quando pensamos em avaliação, estamos a pensar na avaliação dos outros e, forçados a aceitar que temos de ser avaliados como tudo o que mexe, tudo fazemos para contornar as mudanças a que uma avaliação séria nos forçaria. Falamos de avaliação e avaliamos todos os nossos dias.

É isso. Nestas vésperas das festas passamos os dias em avaliações do desempenho dos estudantes e sentimos há tanta avaliação a mais como consequências a menos. Sabemos que uma boa parte dos nossos fracassos não têm origem no trabalho de todos os dias, mas antes na falta do pão de todos os dias em cada uma das casas que habitamos. Falar de pão é falar de espírito, de cultura, da língua e das linguagens, de reconhecimento do trabalho como prestação social, ou de respeito pelos outros, de fraternidade, de solidariedade.

A avaliação nas escolas dá pela falta da primeira demão na pintura. Como se fosse natural, assume-se que nada há a esperar do lado dos primeiros pintores e a escola, sabendo que não pode dar a tal primeira demão, cobre a falta ou a ferrugem com uma demão de máscara e sobre a qual cola a sua marca, uma marca de instrução.

Os sistemas de recuperação, ao nível da marca da instrução especializada, não fazem mais que acrescentar máscara à máscara. Que se deixa cair e se perde a cada pequeno distúrbio ou sempre que alguém acerta com uma pergunta no essencial.

A frequentíssima avaliação nas escolas diz-nos o que não vale a pena e alerta-nos para o que valeria a pena mudar se o princípio de que partimos fosse que somos todos iguais em oportunidades que valem a pena, resultantes do esforço, se nutrem de mais esforço, que o que interessa é antes de mais o que se aprende e o que se sabe. E que a felicidade não tem como medida o vil metal e o privilégio. A frequentíssima avaliação nas escolas deixa-nos cansados ao mesmo tempo que diz à sociedade que estamos em férias e em festa. A sociedade fala disso avaliando-se. falando do que não sabe fazer.

Não foi a escola que contaminou a sociedade com o seu modelo de avaliação. É o contrário que acontece.

Boas festas, pois!

[o aveiro;22/12/2005]



o saco de gatos


Sem saber que Neo estava escondido atrás da cortina pesada da sala imensa, mergulhada na penumbra da tarde ao fim de verão, a Mãe fez parar o afogueado Leo. Leo não escondia a agitação. Neo andava a esconder-lhe os números de brincar há muito tempo e agora até mesmo ele tinha decidido desaparecer para não mais ser achado.

A Mãe maquinal sentou Leo no seu colo e tentou sossegá-lo, contando-lhe uma fábula ou história sobre o tempo em que era menina e sonhava que tinha partido em busca da sua irmã Tia. Sem hesitar, contou ela, que caminhou por vários dias (meses ou anos, não sabia dizer) sempre em frente. Passou por perigos extremos nesse caminho estreito que não parava de desenrolar-se à sua frente como o tapete de corredor infinito. Às tantas, em seu sonho, adormeceu extenuada para não ver os olhos dos perigos. Ao acordar no cheiro da manhã, continuou a sua busca e logo reconheceu as árvores e as flores do espírito do lugar onde ela brincava com sua irmã, a Tia. E ali estava ela a brincar com o seu sorriso maroto entre os dedos ágeis. Riram-se a bom rir quando contaram uma à outra os seus sonhos que tinham vindo até ali e ao mesmo tempo, sem se perderem uma à outra.

Sem compreender a história, Leo não sossegava. Já cansada, Mãe levantou-o ao ar e prometeu-lhe outros números iguais de brincar, ainda mais coloridos. Largou-o, enquanto lhe passava as mãos pelo cabelo e desamordaçava a ternura da boca com alguma coisa como “menino mais mimado do mundo!”. E afastou-se nos seus passos de silêncio.

Neo, que sempre pensara ser o mais mimado da Mãe e da Tia, saíu em fúria da sua caverna de cortina. Com os olhos lavados pelas lágrimas, rasgava os números de brincar de Leo. Daí a pouco, os dois, Neo e Leo, estavam a gritar um ao outro números de brincar. Atiravam palavras de doer um ao outro. Quando as pessoas voltaram à sala viram, com horror, que Leo e Neo se tinham cegado para não verem os olhos mais mimados do mundo nos olhos do outro. A mãe desmaiou ao entrar com dois conjuntos de números de brincar iguais como iguais eram os olhos dos seus dois gatos siameses.

As pessoas apanharam os números caídos nas suas orelhas voadoras. Os números não são para brincar! – disse a voz do desenho triste. A semana ainda mal começou.

[o aveiro; 29/12/2005]