2003



Nem tudo o que se passa é passado.


1. Parece que afinal ninguém procurava neutralizar uma ameaça à paz e segurança dos vizinhos e do mundo quando se invadiu o Iraque. Diz o administrador da coisa americana que se pretendia tão só derrubar um regime ignóbil e devolver o poder ao povo. Mais descansados por saber que não havia armas de destruição em massa fora dos Estados Unidos da América? Estamos menos descansados porque há tantos regimes ditatoriais ali onde o estaleiro da guerra foi montado que isso pode ser tentação a mais para o empreiteiro norte-americano. A julgar pelas manifestações religiosas e o peso dos ayatollahs que regressam. o voto democrático transformará o Iraque em mais um estado islâmico sob as ordens dos chefes xiitas. A guerra preventiva contra o terrorismo pode vir a dar em guerras santas do terrorismo.
2. As nomeação e tomada de posse de Nobre Guedes como membro do Conselho Superior da Magistratura são bombásticas. Autor das cartas de desagravo do nosso ministro da defesa reativamente ao caso Moderna, Nobre Guedes toma o seu lugar de conselheiro da magistratura e todos nós descansamos sobre o acréscimo de independência e imparcialidade trazida por Nobre Guedes ao Conselho. Fica bem Nobre Guedes como membro de um Conselho que decide sobre nomeações, transferências e promoções dos juízes dos tribunais judiciais, bem como nos parece bem talhado para o exercício da acção disciplinar sobre os juízes o autor das tão conhecidas cartas e confesso autor de estratégias interessantes e logísticas a que Portas se manteve alheio. Há quem diga que quem de alheamento se veste, na praça o despe e … se despede.
3. Fátima Felgueiras foge para o Brasil, para fugir da justiça e procurar a verdade que teima em esconder-se dos olhos dos investigadores e dos juízes. A verdade tinha medo de Fátima Felgueiras e pode ser que agora decida deixar-se agarrar pelo rabo. Os apelos de Fátima ao povo de Felgueiras partiram-me o coração. Uma carta dirigida a António Guterres, por um ex-vereador socialista, descreve pormenorizadamente o acordo de cavalheiros e a prática dos cavalheiros dos PS e PSD na Câmara da Amadora. Foi agora tornada pública. Apeteceu-nos dizer: Volta Fátima, estás perdoada!
Já ninguém fala dos casos das corrupções autárquicas do nosso distrito de Aveiro. Quem se lembra? Já só se ouve falar de Águeda de vez em quando.
4. Tantas notícias, tão boas e fantásticas! Se não fossem estas notícias, eu atrever-me-ia a dizer que o mais importante da semana tinha sido a terceira Convenção do Bloco de Esquerda. São importantes as teses que analisam a actual situação do país e servem de orientação para a acção política da esquerda socialista nos processos para uma globalização alternativa aos projectos do neo-liberalismo conservador e imperial. Mais importantes ainda são as teses que definem o europeísmo de esquerda. A cidadania europeia (tantos milhões contra a guerra!) passeia-se em movimentos livres… pela esquerda.

o aveiro, 15/5/2003



Os olhos nas máscaras.


A máscara cobre o desespero das mulheres à beira da vala comum que o Iraque foi e desvenda.
Nas últimas semanas usámos máscaras na China, Vietname, Canadá. Para tentar escapar ao contágio da pneumonia atípica, usamos máscara. Olhamos uns para os outros perplexos.
Nas horas de ponta de Tóquio e das cidades mais poluídas, as máscaras brancas começam a colar-se nas caras. Os nossos olhos estão diferentes. E as nossas vozes saem distorcidas pelo medo e pelas máscaras.

Na última semana, os napolitanos andaram de máscara pelas suas ruas. Duas semanas sem recolha dos lixos urbanos e um ar, apodrecido e nauseabundo, vagueia pelas ruas de Nápoles. Há quem diga que tudo talvez tenha acontecido por manobras dos donos do negócio do lixo. O lixo pode ser transformado num negócio fabuloso e, a exemplo de Nápoles, as comunidades podem ser manipuladas por um novo terrorismo. Vimos os carros a abrir caminho empurrando e esmagando sacos de lixo pelas ruas de Nápoles e vimos os perdidos olhos das pessoas em surtidas para as compras do pão de cada dia.

Em Portugal também se falou de lixo, das novas opções para o tratamento de lixos perigosos, mas também para o lixo em geral que não cessa de crescer à nossa volta, como cintura às nossas vidas. As freguesias sobrepovoadas optimizaram de tal modo a ocupação do espaço para os produtores de lixo (que somos todos nós) que não sobra lugar onde se guarde o lixo. E há comunidades a suspeitar de quem lhes compra o quintal para nele depositar as sobras de quem se empilha nas concentrações urbanas. Podemos deixar que o lixo se transforme num grande negócio? Na última semana, ouvimos falar da área metropolitana de Aveiro que vai democratizar ainda mais o acesso aos bens, estabelecer as ligações que faltam, atrair mais gente para a vertigem do desenvolvimento e… para mais lixo. O lixo que depositarmos na definição de políticas nacionais, regionais e locais pode vir a ser morte e mortalha. Conheço localidades do nosso distrito que são tanto dormitórios como lixeiras: as câmaras construiram ou autorizaram a construção das casas sem cuidarem de criar sistemas de transporte e tratamento dos resíduos que concentraram. Esses autarcas usam a máscara da distância para não cheirar o seu apodrecimento.

Olho os olhos assustados de Nápoles nas ruas assoladas pelo lixo que voa das casas e olho como metáfora triste os sacos de lixo que, contra a democracia e o direito, a fúria de Felgueiras atira com as catapultas irracionais.

Hoje mais que ontem, o lixo é uma arma global pronta a ser disparada. Um pouco acima das máscaras, os olhos apontam ao céu azul para distrair as crianças do pesadelo do caminho.

[o aveiro, 22/5/2003]



Um dia não são dias. Não?


Por onde eu caminho, o tempo não comeu a vontade de ser feliz e acreditar nas pessoas que conheço e não conheço. Calcorreamos as ruas trocando “bons dias! como está?” sem nos determos um momento a pensar no mal e no bem, porque sabemos que o bem é a normalidade e o mal esconde-se na excepção para ser encontrado e ser transformado pelo bem comum.
Saio assim pelas ruas de Aveiro. Saio de casa e sossego o olhar na relva em frente cercada por uma moldura de árvores que ensinam o caminho às estradas velozes. Olho a praceta Afonso Gomes. É uma praceta cuidada pela cooperativa Chave, a relva está verde e as plantas estão a crescer em todo o seu esplendor. No campo de jogos, dois jovens atacam-se com bolas de brincar.
Atravesso o meu bairro de Santiago e procuro e encontro o sossego das praças públicas entre as bandas de casas. Nestes dias calmos, descansam nos bancos os olhares que vigiam as crianças nas suas aleatórias viagens pela relva. Atravesso o meu bairro de Santiago pelos jardins públicos (só tenho pena que alguns gestos construtivos tenham sido interrompidos e possam ter sido o início da degradação que só os humanos sabem acrescentar), mas principalmente atravesso o meu olhar feliz pelos pequenos paraísos de flores que as mãos dos pobres sabem fazer crescer nas portas de entrada e nas varandas do sonho. Quando o vento é forte (e é muitas vezes forte) caminho apressado. Quando é brisa de Santiago ou quando está muito calor, vagueio pelas arcadas dos comboios amarelos numa viagem de sombra fresca e não me canso desta companhia das cores vegetais em que quero tropeçar. Tudo depende do olhar.
Passo pelo quiosque e o jornal devolve-me uma tristeza fria. Mas persisto no caminho da gente comum da cidade, esta que nos habitua a andar. Passo pela praça do Marquês. Ainda o pó (agora amarelo avermelhado da cama da calçada) nos acompanha na passagem de uma praça em obras com cheiro a pedras e cimento para outra praça com pessoas e cores vegetais. Na rua dos Combatentes, as cores estão penduradas à altura dos olhos voadores e lá em baixo a água para a esquerda acrescenta-nos a serenidade dos espelhos naturais. Quando subo para a Sé, descanso na relva do museu. A Natália C. pergunta-me pela família. As árvores da rua Passos Manuel encheram-me de folhas contra a agressão da poda. Entro no cercado da escola José Estêvão pelo lado das árvores de majestade sem nome. Dentro do edifício, os corredores estão frescos e os jovens atropelam gargalhadas. Deixo que os meus olhos se prendam no jardim nascido entre as pedras do pátio interior de mim mesmo. Entre as casas, dentro das ruas de Aveiro, pé ante pé transporto o ar da vida comum até aqui. Escrevo: “a semana que passou não é só o que está fora de cada um de nós.”

o aveiro, 29/5/2003



Para onde vai o grupo dos 8…


O grupo dos 8 governos dos países mais ricos do mundo tinha o hábito de se reunir aqui e ali para discutir a estratégia dos 8 para o governo global do mundo. Eles acertavam as agulhas para questões, como as da energia e da distribuição de interesses na produção e no comércio mundial, e resolviam algumas das suas divergências. Assim aconteceu mais uma vez na recente reunião de Évian (França). Tiraram-se fotografias de Chirac com a mão no ombro de Bush e anunciaram-se os convites para os churrascos texanos.

Só que de há uns anos a esta parte, o movimento pela globalização alternativa acompanha a agenda das reuniões dos grandes. E lá se foi a tranquilidade. Até há poucos anos, países ou cidades ansiavam por ser anfitriões dos 8. Os movimentos anti-globalização ou pela globalização alternativa estão a criar tantas perturbações e tão graves que as cidades vizinhas das reuniões querem ver-se longe dos 8. Pelo menos, as cidades que precisam da livre circulação das pessoas ficam a braços com movimentos que as polícias do mundo civilizado (?) não conseguem controlar. Ironias.

Ironia maior vem de um país rico, como o Brasil, que combina a maior riqueza de uns poucos com a maior pobreza da imensa maioria, ter eleito para presidente um da multidão da globalização alternativa. Enquanto Bush se propõe financiar programas de investigação sobre a sida para vender os resultados comprimidos, Lula da Silva pede um fundo mundial para o combate à fome e diz que o dinheiro deve vir de imposto sobre a indústria e o comércio das armas. Lula sabe que não há resolução de qualquer problema global, incluindo o da sida, sem travar a miséria real da imensa maioria da população do mundo, e que isso não pode ser feito com “ajuda alimentar”, mas com desenvolvimento sustentado das regiões deprimidas.

No rescaldo da guerra, com as Nações Unidas a caucionar o facto consumado da guerra e a ocupação ilegítima por parte dos países agressores, os grandes reúnem-se para se alinharem na distribuição dos despojos e do saque. E conseguem-no em parte. Só em parte, porque as opiniões públicas e as oposições dos Estados Unidos e da Inglaterra começam a cheirar a verdade que sempre transpirou. Nas suas terras, para as suas gentes, Bush e Blair têm de responder sobre a mentira da ameaça das armas de destruição que não existiam.

Para onde vai o grupo dos 8, vai o mundo. Uma multidão humana de milhares e milhares de pessoas com milhões de perguntas e propostas e uma infinidade de ideias, estas últimas definitivamente impossíveis de controlar. Onde é a próxima reunião dos 8? Não, no meu quintal! – diz quem recusa a lixeira.



O singular abandono do plural.


Em dois momentos distintos da semana que passou senti um mesmo tipo de desconforto.

1. Ouvia dois políticos ou comentadores que falavam sobre justiça, como se vivessem em mundos distintos. Ambos garantiam a sua confiança na justiça e, em particular, na seriedade de cada um dos juízes no acto de julgar cada caso. Ambos consideravam que, na base da lei, das provas e das argumentações das acusação e defesa de cada caso em julgado, era possível e acontecia que os juízes agissem sem intenção maliciosa e sem atender ao estatuto social dos julgados. Mas um dos comentadores argumentava que, apesar dessa singular independência de cada juíz, a justiça era desigual para pobres e ricos. Bastava para isso saber que os meios de defesa se pagam e que isso não pode ser escondido por haver acesso a um advogado oficioso. Nem aludia às estatísticas que mostram que a maioria dos presos são provenientes das classes desfavorecidas. Até podemos ser todos iguais perante a lei e, pelo simples facto de haver muito mais pobres que ricos, mais pobres do que ricos apodrecem nas prisões. Os pobres são a imensa maioria e os ricos são uma imensa minoria? Aceitamos que a desigualdade não está só na justiça? Haver ainda quem negue que há pobres e fracos perante a justiça… acrescenta cegueira e mordaça aos olhos vendados em cada acto de julgar o que pode ser só o que parece..

2. Participava num seminário sobre o abandono escolar aqui mesmo em Aveiro. Espero que a nossa autarquia tenha dado um primeiro passo na compreensão do fenómeno para o tentar travar. Todos podem vir à escola e esta, ou cada um dos agentes educativos, trata todos de igual modo – diz-se. Então o abandono é de um só tipo e é alguma coisa tão independente das classes sociais como pensamos que a escola o é. Não é assim que pensamos. De facto, as diversas camadas sociais tomam lugares diferentes na grelha de partida, conduzem carros radicalmente diferentes e nem as metas que perseguem são as mesmas. Também aqui de nada nos valem as estatísticas. De facto, podemos sempre pensar que há mais pobres iletrados pelo simples facto de haver mais pobres que ricos. O problema é afinal sempre o mesmo? Mas todos aceitamos como certa a necessidade da escola e do que ela pode proporcionar. Só temos dificuldade em gerir as definições nacional e local sobre a escola dos “precisos” para o exercício limpo da cidadania, sendo que o abandono vem sempre da nesga de desacerto entre os “precisos” individuais e sociais a prazo e o que cada indivíduo quer no exacto instante em que está na escola querendo estar noutro lado. Quem é que não confia no futuro que consta das promessas? Também me pareceu ouvir intervenções seguidas em que cada uma delas finge a inexistência do mundo da outra.

3. Certo, certo é que tanto na justiça como na escola para todos não nos sossega baixarmos a percentagem de erros e de abandonos, porque o que queremos é um mundo sem vítimas e… para descalabro basta-nos uma só que seja. Cada comunidade precisa de conhecer as suas vítimas pelos nomes e apelidos para acompanhar os seus processos e, quem nos dera!, fazer com eles o caminho de regresso à casa comum.

4. Enquanto não houver casa comum, esforçamo-nos por alguma causa comum.


o aveiro, 6/6/2003



O homem que dita as cartas.


Vê-se uma cúpula de luz. E ouve-se a multidão dos sons indistintos que ocupam uma grande estação de comboios ou autocarros. A câmara acaba por se fixar numa cara tisnada e cortada por rugas profundas e nas palavras que a boca desdentada solta desordenadamente para o ar. Percebe-se saúde e saudade. Um ligeiro movimento da câmara e aparece-nos um balcão e um computador. Depois um teclado e duas mãos finas espalham os seus dedos ágeis pelas letras. A imagem fixada momentos depois é de uma cara de jovem fardada para a circunstância do seu serviço. Ficamos a saber o que está a acontecer. Naquele ponto de chegadas e partidas, o homem analfabeto dita a sua carta desordenada para a jovem que a organiza para ser impressa e enviada para um destinatário tão longínquo daquele lugar e tão próximo do homem que ganha o impulso para regressar em palavras . Mais tarde no outro lado da mesma vida, os ouvidos do coração destinatário ouvem aquelas palavras, lidas por alguém que saiba lê-las e escreva a carta de resposta ditada como prova de vida e de reconhecimento: – Espero que esta carta te vá encontrar de perfeita saúde que eu vou bem graças a Deus. Gostei muito de saber que estás vivo na grande cidade. Fico cheia de saudades e espero vir a receber notícias na volta do correio.

Com dez milhões de analfabetos, o grande Brasil é atravessado por multidões de deambulantes que, ao procurar terra e trabalho, deixam atrás de si não mais do que as memórias frágeis que se vão desbotando. A mulher que recebe a carta do homem que lhe escreve com as mãos de outro lembra uma boca outra atropelando palavras que não são aquelas que uma carta ditada pode transportar.

No drama filmado, ao lado do engraxador da estação central, a personagem interpretada por Fernanda Montenegro ouvia e escrevia as cartas. Nos envelopes, remetente ou destinatário eram não mais do que um gesto na encenação das grandeza e franqueza humanas. O serviço, que a notícia de hoje nos mostra, talvez tenha sido criado sobre a vida de que o belo e terrível filme não é mais que retrato retocado a sépia. O serviço garante a interpretação do jacto das palavras ditadas e a sua abençoada traição em carta, os envios para endereços fiáveis. E fornece um endereço para as respostas que serão procuradas por quem não habita outra casa além de um canto na estação central. E promete que ensina a ler e a escrever a quem assim o quiser.

Sobre um fundo de barulho da estação, fica gravada a torrente da voz do homem que dita as cartas. A multidão de vozes protege a intimidade da carta ditada a uma só voz.
Nenhuma outra notícia pode sobrepor-se a essa torrente de voz que salta entre vida e filme e vida (de novo filme), subindo os degraus do andaime que montámos para nos restaurar e à esperança arranha-céus.

o aveiro, 19/06/2003



As festas dos políticos populares


No tempo em que havia festas populares, as pessoas organizavam as suas pequenas coisas ao seu gosto e ocupavam os seus bairros ou a sua cidade para darem largas à alegria que podiam construir enquanto comemoravam ou louvavam algum santo da sua predilecção no seu dia assinalado. Hoje já não há uma única grande festa que seja da iniciativa popular, embora haja mais gente envolvida em cada uma das grandes festas.

A televisão deixou de cobrir noticiosamente as festas, fazendo directos sobre o que vai acontecendo. Faz muito mais que isso. Vai para os locais onde havia a festa popular, monta os seus palcos e faz acontecer outra festa, a sua festa com os seus apresentadores, os seus convidados e os artistas de variedades que contrata. E as pessoas que andavam de um lado para o outro, dançando e falando umas com as outras, assistem agora à festa que lhe propõem e, em bicos de pés, lutam por um fugaz momento de glória nacional e internacional. Os palcos da televisão são animados durante dias inteiros e revezam-se nas transmissões em directo. Em notas de rodapé aparecem ainda as mensagens mais íntimas que as pessoas mandam para a televisão em vez de as sussurrarem aos ouvidos de quem amam.

Diversos palcos são montados, mesmo quando não parecem palcos. Há palcos para artistas de variedades e há palcos para os políticos do poder, cujo papel consiste em aparecer para dizer, por exemplo, que é noite de festa e não é altura para falar de política. Que é afinal o que fazem quase sempre. Aparecem e são encontrados (?) nos lugares públicos por algum motivo e muito raramente por razões políticas. Quem diria? Começo a pensar que não há política que lhes valha e que lhes sobra o espectáculo de estar onde está o povo quando este está em festa e longe dele quando as manifestações são outras. As festas deixaram de ser em louvor dos santos populares e, na maior parte dos andores, a televisão carrega mundanos mais ou menos políticos que não se dão bem com o anonimato popular.

Assim se fez a noite em nome de S. João do Porto, com fogos artificiosos em ambas as margens do mesmo rio Douro e do mesmo partido, com palcos e barcos à deriva pelo continente e ilhas. E também o Santo António de Lisboa tinha sido um produto de televisão.

A comédia dos costumes culturais do S. João do Porto é o cenário da farsa em volta da administração da Casa da Música e lateralmente do Rivoli ou mesmo do Teatro Nacional de S. João. A ignorância que toma as rédeas do poder é uma mula fascinada pelo cavalo que monta. O coice da emenda demora tanto quanto dura uma tragédia em quatro anos de drama.

Santo António e São João já se acabaram. O que nos reserva o S. Pedro?


o aveiro; 26/06/03



O que se vê de um buraco?


Nesta última semana, os buracos apareceram com toda a falta de elegância de que só os buracos são capazes. São uns autênticos buracos. A alta finança é o mundo dos buracos – fecha-se um para abrir outro; às vezes um grande buraco aparece disfarçado de floresta de buraquinhos. Quem passeia entre os buraquinhos, vê buraquinhos; na fotografia aérea vimos um buraco. De acordo com os interesses, é interessante falar dos buraquinhos umas vezes e outras só tem interesse falar dos buracos de uma tal dimensão que engulam o país.

O melhor buraco, o mais rico de todos, é o buraco do governo regional da Madeira por onde corre o dinheiro a um caudal de milhões/ano . É um clássico e reproduz-se de ano para ano. Mostra-se indiferente à sua contribuição para o grande buraco nacional; orgulhoso na sua gordura de nódoa, ameaça tornar-se um buraco independente. Não cumpre regra alguma imposta pela madre financeira, nem se deixa intimidar pelo tribunal de contas. Faz de conta.
Presta contas como quem não presta.

Outros buracos interessantes são os das sociedades anónimas do desporto financeiro. Destes, o buraco mais espectacular é aquele em que ameaçam enterrar o novo estádio do Benfica que foi erguido para o euro2004 dentro da euroárea. Percebem o buraco? Uns dizem até que nem há buraco e não devemos preocupar-nos. Outros dizem que o buraco tem dimensão da ordem dos milhões. Os responsáveis dizem que o buraco é de uma sociedade anónima do benfica, e esta garante não haver lugar a qualquer responsabilidade da sociedade anónima criada para as obras do estádio pela primeira sociedade anónima. Ainda não conhecíamos o sistema de canalização estabelecido entre os buracos?

E quando são as câmaras a cair no buraco financeiro criado com a construção do estádio para o euro2004? Ouvimos dizer que um buraco criado para um novo estádio não cria buracos onde se deixam cair todas as restantes obras e actividades das câmaras, já que são coisas diferentes. Há alguém que acredite que os dinheiros não circulam pelas canalizações entre buracos? Haverá mesmo alguém que acredite que o buraco do futebol não tenha arruinado o chão que dava uvas para as outras artes e tenha, por essa via, aberto o novo buraco? Em Aveiro, como é? Acreditamos em quê?

O que é certo é que há obras magníficas que se levantam sólidas e sem parar sobre buracos, enquanto outras se deixam cair pelos buracos do tempo com andaimes desequilibrados à maneira de Santa Engrácia.

Esta dança entre buracos tornou-se um desporto. Por ser um desporto com futuro e capaz de animar a actividade económica é grande a atenção que merece. E a teoria manda que cada buraco seja tapado com o entulho retirado de um buraco que se abra. Talvez até criemos uma sociedade anónima de buracos cotada numa bolsa de buracos, que não é o mesmo que uma bolsa com buracos. Só quem está num buraco, pode falar tanto sobre buracos. Onde é que eu ia?


o aveiro, 3/7/2003



O exemplo que se segue.


Ouvimos de novo falar dos atrasos no pagamento do subsídio de desemprego. Particularmente chocante é a situação dos desempregados que não recebem há sete meses. Como vivem as pessoas que não têm salário nem qualquer subsídio? Estes desempregados são pessoas como cada um de nós: operários, trabalhadores do comércio e serviços, professores, artistas, etc. E vivem em algum sítio da mágoa, em alguma dobra deste tempo, entre passado e futuro. O presente destas pessoas é o que esconde a dobra em que os políticos passam o discurso que as sacrifica num altar de salvação do futuro. Estas pessoas deixam de existir e não são mais do que unidades estatísticas para o governo, para os empresários, para os analistas… Claro que na boca dos políticos do poder há sempre palavras de caridade, solidariedade e similares. Mas no que é essencial a boca cai-lhes fina e reptilínea para a verdade:
– umas vezes, em vez das pessoas sem subsídio de desemprego falam de apagão informático em vias de reparação como se as máquinas fossem culpadas de alguma coisa e uma avaria em reparação fosse a reparação das pessoas irreparavelmente abandonadas e prejudicadas nos seus direitos quotidianos;
– outras, as pessoas não são mais do que casos isolados que não são significativos ou não poem em causa a eficiência do sistema, como se cada pessoa pudesse ser não significativa em si mesma e como vítima da maldade do poder e da sua insensibilidade.
É claro que os políticos do poder de hoje nos dizem que sacrificam agora alguns para salvar o futuro de todos, sabendo nós que eles podem não ser os políticos do futuro ou que podem mesmo ser políticos sem futuro. E que quem quer que venha a seguir há-de gerir uma nova crise e inventar as suas próprias vítimas que podem mesmo ser as mesmas.
É claro que quem se interessa pela realidade social e sua evolução, utiliza as medidas estatísticas para descrever o que se vai passando. Mas ninguém de bom gosto pode referir-se a uma pessoa credora de sete meses de subsídio em atraso que é um caso isolado sem importância estatística.
Desta vez, as coisas foram longe demais em crueldade. Mobilizou-se mais dinheiro para enfrentar o problema do desemprego cada vez mais dramático. Mas se não pode chegar a todos já, o sistema não começa a liquidar as dívidas pelos que há mais tempo esperam. Já se habituaram a não receber.
O estado socialmente cruel, mau pagador, incapaz de cumprir os prazos que ele mesmo marca é a primeira desculpa para a insensibilidade dos patrões fracos e maldosos que descapitalizam as empresas e não pagam impostos. Alguns deles exibem, perante aqueles que produzem e a quem não pagam, a majestosa arrogância de uma maquilhagem de sinais exteriores de riqueza a disfarçar a miséria que lhes vai na alma.

o aveiro; 10/07/2003



Cálculo da área … metropolitana de Aveiro.


Na última campanha eleitoral para as legislativas concorreram por Aveiro vários deputados do círculo eleitoral de S. Bento. Montaram tendas nas feiras do compra e vende votos e devotos; choraram para a televisão os nossos mortos pela sua incúria; beijaram as crianças e as mulheres que apanharam pelos passeios da distracção que a campanha sempre acaba por ser; pintaram o sete e até cercaram com o giz dourado das promessas as fronteiras de uma área metropolitana. Ministros que eram ou ministros que iam ser passaram a mensagem desqualificadora: a importância da região não era intrínseca, viria a medir-se pela quantidade de ministros de ofício que conseguisse eleger para deputados. Passámos a ser uma região de eleição para ministros, substituídos no parlamento pelos figurantes anónimos e anódinos.

Haverá responsáveis pela actual situação de esfrangalhamento do distrito de Aveiro? Que partidos partiram Aveiro em pedaços – uns mais para a zona de influência de Coimbra, outros mais para a influência do Porto? Se tirarmos as máscaras aos protagonistas da divisão, teremos os protagonistas da união de hoje em todo o seu esplendor?

Os espectáculos que são feitos com a (má)criação de novas freguesias ao sabor das clientelas e o jogo das cadeiras de administradores e directores das empresas e instituições intermunicipais deixam-nos à beira de um ataque de nervos face aos apetites que uma área metropolitana inevitavelmente vai aguçar.

A esquerda apoia todas as iniciativas de planeamento e organização que melhorem a qualidade de vida das populações e simultaneamente protejam a paisagem natural e construída. Da criação de uma área metropolitana de Aveiro podemos esperar melhores serviços públicos, particularmente para a distribuição e tratamento da água, por exemplo, mas também de sistemas de saneamento e esgotos, recolha e tratamento dos lixos, etc. Só a criação e manutenção de serviços públicos nestes domínios pode cumprir as exigências de garantia de serviço a preço razoável (social e não de mercado) e protecção contra qualquer tipo de exploração ou chantagem. O mesmo podíamos e devíamos esperar para uma rede de transportes que sustentasse o quotidiano das populações, contrariando a política do benefício do transporte individual sobre o colectivo ou da criação de dormitórios contra o equilíbrio urbano. As populações não confiam nos autarcas para cumprir promessas de melhoria da vida colectiva até porque sabem que muitos deles dependem dos promotores imobiliários para mostrar obra feita.

Somos claramente favoráveis à criação de autoridades de planeamento metropolitano e regional, envolvendo o estado central, municípios e processos de auscultação das populações. E temos de nos bater pela revisão das leis de ordenamento do território, separando o direito de propriedade do solo do direito de edificação. O distrito de Aveiro, em particular o litoral, está cheio de atentados de betão às leis da vida da paisagem natural e está cheio de contradições que o transformaram numa manta de retalhos que dificilmente pode congregar uma vontade colectiva de união de interesses por uma área metropolitana global. As redes de transportes, as acessibilidade, os locais de trabalho, os dormitórios construídos já afastaram de Aveiro, muitos concelhos do norte e do sul do distrito.

Quando falamos de apoiar a criação da área metropolitana de Aveiro, não estamos a falar da mesma área dos políticos do poder central e do poder local. Mas as discussões e as consultas às populações podem dar frutos insuspeitados. Precisávamos agora que os políticos locais dessem prova de discussão séria metropolitana, por exemplo a respeito do novo processo da incineradora que pode vir a ser instalada no ponto de intersecção de Águeda, Anadia e Oliveira do Bairro. Já não se fala em Estarreja só porque as promessas das campanhas eleitorais seguiram o curso das discussões locais e o PSD estava na oposição ao PS da incineradora? E talvez porque os outros concelhos nunca discutiram o que não se previa para os seus quintais? É um bom tema metropolitano. Bom tema também é a ruralidade, o desenvolvimento concertado dos concelhos e frequesias rurais de Aveiro, como desenvolver sem corromper.

Para calcular a área metropolitana, precisamos de muita matemática, de lógica e rigor nas decisões, … E precisamos de provas de seriedade que contrariem a voracidade dos caciques apoiantes dos diversos partidos que, até agora, têm substituído a competência e o espírito do serviço público.

diário de aveiro, 15/7/2003



Profissão: professores.


Nesta semana tomei conhecimento da morte de várias pessoas importantes (também para mim). De algumas tomei conhecimento pelos jornais diários nacionais, de outras por revistas especializadas e uma por telefonema amigo.

Aproveito esta coluna para mencionar duas pessoas ligadas à Matemática e ao seu ensino: Raul Carvalho e Paulo Abrantes.
Raul Carvalho, professor de Matemática, foi dirigente da Escola Superior de Educação de Setúbal antes de se reformar e partir para Moçambique.
Paulo Abrantes é conhecido da opinião pública (de Aveiro, também) por ter sido Director do Departamento da Educação Básica durante o governo de Guterres. Era professor do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Porque falar destes professores em Aveiro? Porque são dois dos fundadores de uma importante associação profissional de professores — a Associação de Professores de Matemática — dois impulsionadores e dinamizadores dos maiores encontros nacionais de profissionais do ensino. Fazem parte de uma geração que discutiu a profissão de professor e fez integrar na sua razão profissional, para além da matéria de que é feita a matemática, o mandato social dos professores na discussão e decisão política sobre o ensino da matemática para todos como tudo o que é cultura. Os professores passaram a falar a outras vozes, discutindo as suas práticas e nelas integrando, para além da transmissão da ciência, todas as ferramentas que a profissão exige.

Não sabemos ainda qual o impacto que o futuro mostrará das mudanças que estes dois professores defenderam tão arduamente. Só sabemos como estaríamos diminuídos se as não tivessemos tentado e nos mantivessemos agarrados à certeza de que o ensino da matemática para todos se poderia fazer com os métodos do ensino para alguns poucos ou agarrados à certeza bacoca de que o ensino da matemática (ou das outras ciências) só lucraria em não se adaptar às mudanças científicas e tecnológicas que mudaram a face visível da sociedade e tanto tardam dentro da escola portuguesa. Aconteça o que acontecer no futuro, ficaremos sempre a dever a professores como o Raul Carvalho e o Paulo Abrantes uma outra luz a incidir sobre o ensino da Matemática que nos dá escolha.

O ensino da Matemática não é uma ciência exacta e não admite qualquer limitação à experimentação. Sabemos hoje que, para além do conhecimento da ciência, é preciso aceitar uma caixa de ferramentas em expansão e ter a capacidade de escolher a ferramenta apropriada. A possibilidade de escolher é uma condição da liberdade. O Raul e o Paulo sabiam disso.

o aveiro; 17/07/2003



Exames de consciência


As recentes decisões do governo de que resultaram os adiamentos na publicação dos resultados dos exames da primeira chamada dos exames do 12º ano criaram dúvidas e perplexidades várias.
Houve, há e haverá discrepâncias entre as classificações internas da frequência e as classificações dos exames e entre as notas atribuídas por diferentes correctores da mesma prova de exame. A avaliação e a classificação exigem intervenção humana, logo implicam erros e diferenças de apreciação e diferentes quantificações para classificar as qualidades de cada prova prestada. Salvam-se da subjectividade, que não dos erros humanos, as respostas a perguntas de escolha múltipla. Há discrepãncias que podem e devem ser evitadas ou pelo menos diminuídas. Por exemplo, o sistema de supervisão das provas de matemática pode diminuir as diferenças nas atribuições de cotações, sem diminuir a competência e a autonomia de cada um dos correctores. Mas este acompanhamento dos correctores foi planeado e não afecta a independência dos professores nem o cumprimento dos prazos da afixação dos resultados ou as candidaturas ao ensino superior.
A decisão de planificação e calendarização considera todas as operações necessárias: elaboração das provas de exame, distribuição e recolha de provas, prestação de provas, recolha e distribuição das provas prestadas pelos correctores, coordenações locais, regionaise nacionais, para além de todas as operações do sistema informático exclusivo dos exames nacionais do ensino secundário que servem para o controle da certificação do ensino secundário, mas também suportam os sistemas de selecção para o acesso ao ensino superior. Este sistema armazena dados, desde as identidades até aos resultados obtidos na frequência dos diversos anos de escolaridade e nos exames. E efectua todos os algoritmos de controle e cálculo de classificações como ditam as leis. Há sempre prazos previstos, em democracia, para corrigir eventuais erros. Há sistemas para responder a pedidos de reapreciação de cada um dos despachos da administração educativa, desde as classificações de frequência até às classificações de exame, organizados de tal forma e com calendários tão apertados que garantem não haver prejuízo para reclamantes relativamente ao acto seguinte em que estejam empenhados. A lei não proíbe os estudos… ulteriores sobre esses resultados.

A confiança no sistema baseia-se na independência de julgamento e acção dos diversos actores competentes envolvidos e nunca na intervenção, ainda que sábia, de qualquer poder central sobre os resultados. Não é por isso que confiamos na democracia?

Perturbador nestas decisões é o facto de termos um decisor que marca um calendário com força de lei, publicado em Diário da República, para realizar todas as actividades relacionadas com os exames nacionais e, a meio do processo, decide faxalterar aquilo que planeou e fez publicar como lei. Alguém fez alguma coisa mal. Quem? Se tiver sido o povo, proponho que se demita o povo.


o aveiro, 24/07/2003



O norte de Aveiro


A melhor forma de saborear o norte de Aveiro é viver a norte. Estou a norte da Feira, em Nogueira da Regedoura. Vim pela A1 e saí na portagem mesmo ao lado de casa. Para ir a Espinho, tomo cinco minutos de IC24 e posso tomar 10 minutos de IC1 para a Feira. Para ir ao Porto, tomo 45 cêntimos de restos de A1, tão contestados com as excursões lentas lideradas pelos autarcas de Espinho e arredores. A EN1, do outro lado, caíu nos seus próprios buracos em obras.

Nem falo de Espinho que já é outro concelho e outro mundo em que todos os caminhos vão dar ao Porto, neles incluindo as ferrovias. Lamas e Lourosa (ou Fiães) são grandes aglomerados populacionais, zonas industriais e comerciais. Ora viajamos por largas estradas mais recentes, ora entramos em labirintos mal empedrados sem passeios para peões (que arriscam exercícios de sobrevivência nas voltas do dia a dia). Tento imaginar as redes de água, saneamento e esgotos para esta diversíssima e aparentemente caótica combinação de casas rurais, bairros urbanos, fábricas, centros comerciais. E pasmo a olhar para os locais de recolha de lixos domésticos transbordantes de restos de vida que mais parecem lixeiras a céu aberto e desmentem qualquer boa intenção dos ecopontos em que tropeçamos a cada passo. A câmara autoriza a edificação urbana neste mundo em desenvolvimento(?) sem garantir serviços públicos que apoiem a vida das comunidades fixadas a dois passos da metrópole do Porto ou das suas próprias concentrações industriais. Não será assim com as outras?

Leio os jornais locais. Lourosa, Lamas, etc reclamam autonomia para o norte industrial da Feira enquanto atribuem méritos de programador cultural e turísitico ao presidente da câmara da cidade da Feira. O presidente da câmara feirense desvaloriza as declarações do seu duende partidário Marques Mendes sobre a área metropolitana de Aveiro, a favor da inclusão na área metropolitana do Porto ou de uma região que abarque os municípios correspondentes ao Centro da Área Educativa Aveiro Norte (já ligado à DRE do Porto e ao Sindicato dos Professores do Porto), acrescentada do município de Ovar.

Ouço as pessoas falar e é como se estivesse do lado de lá.
Sei que Aveiro perdeu o norte. E, perdido o norte, desnorteado, Aveiro não é mais que a bela cidade da lágrima de sal. A indignação também chora?

o aveiro, 31/07/2003



Florestas de papel


As mudanças das formas de vida das pessoas e dos animais, no que tem a ver com o fim da pastorícia e a sua substituição pela indústria da criação de gado e a expansão do acesso a alternativas modernas(?) de energia, acrescentadas do despovoamento do interior a favor do sobrepovoamento do litoral e das cidades, fizeram das florestas portuguesas o que elas são hoje: primeiro tornaram-se pastos para o papel e outros produtos industriais e depois pasto para as chamas. E fizeram das pessoas que insistiram em viver nas aldeias do interior (ou no isolamento total das florestas) velhos sozinhos primeiro e vítimas agora. Ao abandono e desordenamento radical das florestas, acrescentou-se o desordenamento da construção com a expansão de algumas aldeias e vilas e o consequente pânico medieval a lembrar cercos de fogo devastador.

Voluntários, os bombeiros contam-se pelas dezenas de milhar. Em condições normais, os dedicados voluntários com as suas associações chegam para as encomendas de desgraça que o acaso cria. Mas sabemos hoje que a situação vivida (neste e noutros verões) não é obra do acaso, antes consequência de actos de politicas profissionais bem determinadas (para o mal). Para combater consequências de politicas profissionais deliberadas não podem chegar os voluntários das comunidades aptos a enfrentar desgraças ocasionais. E é, por isso, que os voluntários têm de ser erguidos à categoria de heróis. As comunidades têm de criar capacidade de intervenção cívica para compreender e mudar as politicas, para além de manterem a sua capacidade de combate a imprevisíveis flagelos.

A floresta fez-se pasto do papel e de outros derivados industriais da madeira tanto quanto o assunto da defesa da floresta e da sua desgraça pastou no prado do papel. Milhares e milhares de folhas de papel receberam escritos inteligentes sobre a floresta e propostas de medidas para o ordenamento do território. As medidas boas foram todas para o caixote do lixo. Por não ter sido possível reciclar todo o papel escrito sobre o assunto, podemos medir hoje a extensão da ignomínia dos poderes políticos. Substituiram-se uns aos outros até conseguirem uma floresta de cinzas e, quem sabe!, passarem do despovoamento do interior para a desertificação, essa que tanto antecipam e combatem com a língua afiada pelas conveniências.

Agora, os poderosos esperam inundar resmas de papel com notícias de outros acontecimentos que apaguem e façam esquecer os incêndios e as suas vítimas, Talvez tentem ser céleres a enviar tropas para combater emergências americanas noutras paragens, procurando compensar a lentidão em mobilizar para o combate do incêndio no território nacional. O ministro eleito por Aveiro cuidou pouco de funerais dos bombeiros e outras vítimas da incúria, mas ajoelha-se e benze-se em auto de fé anti-comunista que pretende passar por fé patriótica. Nem descanso dá aos mortos na sua dignidade própria. Sem pingo de fé, carrega fel e fogo ao seu sinal da cruz, criando uma notícia de contra-fogo na tentativa de esconder as cinzas do fogo em que arde.

o aveiro, 21/8/2003

Há mais de um ano, em Julho de 2002, escrevi para o jornal um texto sobre os processos no pcp e a forma como vi a reclamação dos renovadores ao tribunal constitucional. A memória prega-nos partidas e, sei porquê!, lembrei-me do tempo em redor desse texto. Decidi transcrevê-lo para aqui. Esta publicação não tem qualquer interesse para quem não interessa. Há dias assim.



No fojo do lobo, todos somos lobos.


A paisagem é quase inóspita. Algumas poucas árvores bem altas chamam a atenção no descampado. Aproximamo-nos e podemos ver uma construção: vê-se que ali foram arrumadas algumas das pedras que Deus espalhou a esmo, durante a distracção de uns momentos em que brincou a atirar pedrinhas contra o mundo acabado de criar.

Homens muralharam um acidentado terreno e lá dentro não se encontra mais mão de homem que num cavado feito em rocha meio enterrada. Num dos extremos há ainda uma pequena elevação natural feita de pedras maiores que devem ter ficado juntas acidentalmente quando escorregaram das mãos de um Deus já cansado de brincar.

Os homens carregaram a cabra doente e degolaram-na, deixando o sangue cair no cavado da pedra do sacrifício. Logo a seguir, saíram para bem longe dali, num jogo de medrosas escondidas. Talvez um mais decidido (ou escolhido pelos outros) tenha ficado escondido entre as pedras da pequena elevação.

O lobo que fareja, aproxima-se da cabra sem reparar na baixa muralha que em volta dela se ergue. Repara, tarde demais, que toda a muralha ganhou vida. Os lobisomens voltaram e, tão raivosos quanto medrosos, mostram varapaus afiados e pedras. Acossado, o lobo procura uma saída. Mas, para onde quer que vá, recebe uma chuvada de pedras e paus afiados. Esconde-se num dos lados da elevação, protegido da muralha assassina mais próxima e o mais longe possível do resto da muralha. Perdeu o apetite. Descansa por momentos, lambendo algumas das feridas feitas pelas pedras e pelos paus quando tentava escapar por cima da muralha. De repente, recebe uma pedrada e uma picadela violenta proveniente da elevação. Alguém procura expulsá-lo daquele frágil refúgio ali no descampado.
Agora não quer saltar a muralha, mas também não pode ficar ali. Experimenta então atacar o lobisomem que se escondia na pequena elevação. Em vão. Uiva contra a lua, mas depois que se perdeu por uma oportunidade de refeição, nenhuma alcateia há que lhe dê força e companhia. Uiva mesmo assim, contra todas as regras (já que denuncia o espírito do lugar), como se esperasse apaziguar ou amedrontar a muralha de lobisomens em seu redor.
Corre para o centro do círculo muralhado. Uiva de dor, até parecer que nem se importa de ser domesticado por regras de qualquer família lobisumana que o aceite.

Uiva ainda na esperança de ser ouvido pelo Tribunal Constitucional.


o aveiro, julho de 2002



Um sinal do presente.


Os dias da última semana não se limitam a passar. Carregam sinais de miséria e de terror. Cada dia cai como um murro na boca da alma. Chegam-me do Iraque, da Índia ou da Rússia os dias carregados de terror. Não deixo de me vergar às dores de cada dia. Nenhum dia é longínquo passado, nenhum lugar é longe daqui, nenhuma vítima me é estranha. Acontece tudo de mal agora e são meus vizinhos os que > sofrem.

Mas hoje decidi que não vou por aí. Nem vou desatar gargalhadas de tristeza por conta dos figurões nacionais a quem o ridículo não mata. Eles não estão quietos nem calados, mas eu estou por fora cá por dentro.

Decidi ser feliz e olhar para outros que nem aparecem nos jornais, porque são normais e competentes nos seus afazeres e me dão os sinais que me dizem que, apesar da desgraça das gralhas do poder, o mundo vai em frente.

Estamos numa casa de aldeia do nosso distrito. Na sala ao lado, trabalham operários da construção de uma pequena empresa que constrói e repara casas. Eles arranjam tectos, pintam paredes, limpam destroços. Durante o dia e também pela noite dentro quando o trabalho aperta, um ou dois, raramente três, cumprem planos de trabalho, metodicamente. Quando não há barulho das máquinas, ouvimos a música que ouvem sem interrupção. Não raras vezes, ouvimo-los cantar como outras vozes as canções que se ouvem no rádio, inglesas na sua maioria. Com satisfação, os ouvimos. Por vezes, o mais jovem aplicador de placas recebe visitas. Reparo que não interrompe o seu trabalho, antes requer a ajuda dos amigos visitantes enquanto conversam, no que me é dado ver.

Mas não foi o mais jovem quem me aguçou a curiosidade. Ouço, sem querer ouvir, a conversa entre dois dos mais velhos trabalhadores da reparação. Algumas palavras chamam-me a atenção, parecem-me palavras típicas do quotidiano dos informáticos — algumas são aquelas abreviaturas que toda a gente diz sem saber muito bem o que é: jpeg, mpeg, bit, megabytes, ram, … — mas também ouvi conselhos sobre os cuidados a ter com os discos, desfragmentações, internet, música e filmes no computador.

Entre trabalhadores da construção de há cinco, dez anos, quem imaginaria qualquer conversa de âmbito tecnológico exterior à profissão, superior ao necessário para o exercício da profissão, …para o lazer, para a cultura geral? De uma pequena empresa numa aldeia?

Para mim, cada um destes pequenos sinais é um presente. Podem não querer dizer coisa alguma. São só sinais sobre o presente do futuro.

o aveiro, 28/8/2003



A criação da actualidade


Cada um de nós tem uma vida para esquecer e outra para lembrar. Todos os dias tentamos esquecer o que não nos agrada ou não conseguimos resolver. Só nos interessam problemas que tenham solução à vista e façam da nossa vida uma sucessão de vitórias quotidianas ainda que pequenas. Precisamos disso como pão para a boca. Quando acordamos para fracassos diários, procuramos afogar as nossas mágoas num lago de mágoas, primeiro com a esperança que olhem por nós, depois com a tentação de mergulharmos a vida à volta no absimo dos farrapos que somos. O que é humano não me é estranho, mas nada me custa mais do que não saber o que fazer quando os irmãos se embriagam com o fel da vida corrente. Sem poder esquecer, mas incapaz de devolver uma esperança de vida simples, afogo os necessários gestos e as palavras que não sei. Sinto-me doente.

Mais doente me sinto, porque o país inteiro vive a actualidade de conveniência para iludir as complicações (e também a beleza) da vida real. Os jornais e as estações de televisão fazem de pequenos acontecimentos ou de farrapos de vidinhas o sumo de cada dia. Repetem este ou aquele aspecto de coisa nenhuma, mexem e remexem nesta ou naqulea ferida e evitam lancetar outras que bem precisavam de ser drenadas. Ora se colam aos sofrimentos individuais para não falarem das responsabilidades políticas, ora seguem os passos de um juíz ou o contorcionsimo de modelos que se amam a si mesmos e são cabeças de cartaz por terem cabeça com área mas sem volume. Escondem o drama nacional dos incêndios florestais a tratar pelo governo da nação sob uma soma de dramas individuais a pedirem o tratamento da caridade. Criam o tribunal popular de uns costumes para esconder outros crimes e outros costumes. Por vezes, tenho a sensação que a actualidade é uma ficção que se vai criando nos pormenores mais ou menos sórdidos de umas vidinhas para esconder a realidade que, mesmo quando dói, é mesmo a nossa, aquela que vale a pena conhecer e enfrentar, para nos reconhecermos irmãos do bem e do mal. Fugimos de quê? Fugimos de quem? Quem a vida esquece, na morte apodrece.

A respeito do processo de pedofilia (que voltou embrulhado em justa desconfiança!) li os textos mais tristes da minha vida. Um dos textos que li trata todos os intervenientes pelos nomes próprios — polícias, juízes, procuradores, políticos, … — e de tal forma o faz que me senti como que apanhado na teia de uma aranha divina. Há uma teoria da conspiração que liga acontecimentos e os atribui a uma fonte de poder absoluto A prática da conspiração de hoje reside no poder de decidir o que é a actualidade. O que de facto foi o dia de hoje nunca saberei. O que eu imagino que a realidade seja, já há muito deixou de existir e … fico doente por insistir na vida tal como ela é.
Com a dor a dançar em pontas na minha alma, ligo-me à televisão. E adormeço

o aveiro, 4/09/2003



A verdadeira mentira


Para os políticos que nos governam quais são os modelos de virtudes, de sociedades, de política, de democracia, de governos? Pelo que eles nos dizem, os modelos que gostam de imitar e seguir são, em primeiro lugar, os dos Estados Unidos da América e do Reino Unido. Não são?

Acontece que, nos últimos tempos, os dirigentes desses governos têm vindo a prestar contas, sendo submetidos a inquéritos sobre as mentiras que serviram de justificação para a invasão e ocupação do Iraque. No Reino Unido, já houve vítimas políticas e até, lamentavelmente, uma vítima mortal. A mentira mata.

O nosso Primeiro Ministro afiançou publicamente ao nosso parlamento e ao nosso povo que tinha visto as provas da existência de armas de destruição maciça no Iraque prontas a ser utilizadas contra a humanidade. Só as pode ter visto pelas mãos de quem não tem sabido mostrá-las aos seus povos e parlamentos. Não mentiu? Pode ser que tenha só sido enganado. Mas não se sente obrigado a comparecer perante o seu parlamento e o seu povo pedindo desculpa?

Em democracia, podemos estar em desacordo total uns com os outros, e tomar decisões contrárias perante os mesmos verdadeiros factos. Mas não podemos criar factos falsos para justificar participações em guerras de invasão e ocupação à margem do direito internacional e contra a Organização das Nações Unidas. Um grave sintoma de doença de uma democracia é o desprezo pela honra e pela verdade. Desde há mais de um mês que desejo ardentemente ver um sinal sério de combate à doença por parte dos órgãos de soberania. E nada! Como eu gostava que, nestas questões, os nossos políticos fossem tão rápidos a seguir os seus modelos como na corrida em apoio das guerras que os seus modelos inventam.

George Bush imaginou e fez guerras contra povos e nações com alguns objectivos tão miseráveis como assassinar ditadores e terroristas e o controle da produção do petróleo. Osama e Sadam são tenebrosas criaturas e, à semelhança de outros, devem ser procurados pela comunidade internacional para serem julgados por crimes contra a humanidade. Inventor de guerras infinitas, Bush tem agora de pedir mais dinheiro, arranjar tropas e quer partilhar os riscos em vidas humanas e os custos da ocupação e reconstrução do Iraque. Procura mesmo convencer as Nações Unidas a participar até militarmente na sua ocupação. Ainda não o conseguiu. Mas já o nosso Ministro da Administração Interna declara que as tropas da nossa Guarda Nacional Republicana podem ir para o Iraque já que vão cumprir objectivos das Nações Unidas. As Nações Unidas não sabem ainda.

Quem me dera viver em paz num país de governantes honrados. Pior do que a vergonha dessa dúvida, é saber que portugueses podem partir para o Iraque e, às ordens de quem?, reprimir manifestações populares contra a ocupação. Em meu nome, não! Não é um chavão vazio: Um povo não é livre quando reprime outros povos. Pensava que nunca mais teria de o repetir.

Com quantas verdadeiras mentiras podemos viver?

o aveiro, 11/09/2003



Portas que se fecham e se abrem.


No último fim de semana, Paulo Portas fez o seu regresso à politica na qualidade de dirigente do Partido Popular. Com o seu tradicional jeito para feiras, festas e romarias, o PP fez a sua “rentrée” no Pavilhão das Feiras. Em Aveiro, claro.

Nestas alturas, os partidos apresentam as ideias a que querem dar um novo impulso. Como partido da coligação no poder, o PP afirma-se solidário com a politica do governo PSD/PP. Esperamos que a politica do governo de coligação não seja a politica do PP, embora haja quem diga que tem mais peso nas decisões do governo do que o que lhe foi conferido pelos votos dos eleitores. Isso são contas da coligação. Mau seria, de facto, se um partido minoritário de direita fosse dominante num governo feito na base essencial dos votos noutro partido (do centro). As intervenções de Aveiro mostram um P. Popular a avançar com ideias que pretendem influenciar futuras políticas da coligação. Em boa medida, como já tinha feito em anteriores campanhas, P. Portas exagera para obter alguma coisa no que respeita à imigração. As ideias reduzem-se a algum populismo rasteiro: “somos portugueses, temos problemas económicos e muito desemprego, logo temos de fechar as portas aos imigrantes que demandam Portugal”.

Quando Pacheco Pereira vem a terreno combater, publicamente e de forma radical, as ideias de Paulo Portas, ficamos a saber que o que P. Portas defende está longe de ser consensual na coligação do poder. P. Pereira escreve mesmo que P. Portas, com as suas intervenções está a pôr em causa a politica de Administração Interna da coligação. Haja saúde. Brindo a isso, porque será dramático se a nossa politica for fechar as portas aos imigrantes, porquanto somos um pais de emigrantes, muitos deles em países com tantas dificuldades económicas como o nosso e com muitos mais desempregados. O nosso pais já tem grandes constrangimentos relativamente à imigração por via dos tratados europeus e dificilmente suportará novos- O que diz P. Portas só serve para atiçar algumas atitudes e movimentos e ressuscitar valores bolorentos tão queridos de alguma da direita portuguesa. E obviamente serve para cativar e segurar votos xenófobos e associados. A intervenção de politica interna de P. Portas serve para pressionar a coligação e é enunciado auto-proclamado da ideologia mais ou menos isolacionista e trauliteira.

P. Pereira apresenta os seus pontos de vista em tudo contrários aos de P. Portas e acrescenta mesmo, a título de exemplo, que o desemprego dos operários portugueses não se resolve com o emprego dos imigrantes. Exactamente pelas mesmas razões que garantem não valer a pena fechar portas ou expulsar os portugueses da França porque eles estão em empregos que não são tomados pelos desempregados franceses (no que isso pudesse ser significativo).

Também ficamos a saber que o P. Popular quer reforçar a sua frente de combate no campo da ideologia (e da cultura? da arte? da…?) que, a acreditar neles, é mais campo em que dominam as esquerdas. P. Pereira é quem trava essas guerras e fá-lo sozinho.

Gostei de ter escrito um artigo sobre os vários PPs em disputa. Saio para a esquerda do palco e refresco-me na sombra de saber que estão em desacordo.

[o aveiro; 18/09/2003]



Edifício que educa


Na semana passada, estive a trabalhar com professores de Matemática numa escola do Funchal. A Escola da Levada situa-se numa encosta. Das janelas da escola, podemos ver os quintais verdes de bananeiras, os jardins e a cidade a espreguiçar-se até ao mar. Mas se olharmos para mais perto, vemos os campos de jogos da escola ainda sem alunos. Os campos (e são muitos) estão cercados, bem marcados, com os pisos tratados. Olhando com mais atenção, vemos homens a trabalhar nos campos de jogos da escola. De fato macaco, consertam as madeiras e os ferros das balizas. Já estive várias vezes nessa escola e sempre me deixou feliz a boa conservação dos equipamentos que ia vendo.
Visitei também algumas escolas de Aveiro. Ando feliz por ver que muitas têm melhorado as condições e se têm tornado mais habitáveis para todos os que nelas trabalham (funcionários, professores e estudantes) e acolhedoras para os que as visitam. O caso mais recente de recuperação e melhoria bem visível é o da Escola Mário Sacramento.

Falo de escolas, porque é o mundo em que cresci e trabalho. E falo das obras de recuperação (e manutenção) porque tenho para mim que os cidadãos ou se formam em escolas e cidades que lhes sirvam de casa saudável que aprendam a respeitar e a preservar ou se deformam para o desprezo pelo serviço público de educação, outros serviços, espaços e equipamentos públicos. A falta de condições dos espaços escolares (a começar pelas de higiene) ao longo das últimas décadas (e ainda hoje) é um indicador de pobreza mental. Ninguém aprende a respeitar a cidade e a nação (o seu património natural e construído) com palavras. As palavras dos professores sobre a cidade não anunciam a cidade a partir do deserto. São antes palavras ditas sobre o que a cidade deve ser, em salas degradadas no avesso das palavras proferidas e ouvidas dentro dos muros da cidade.

Entrei para uma escola primária sem condições (nas outras aldeias não existiam ou eram bem piores), passei por liceus e faculdades em que a pobreza de meios e a falta de condições eram mais visíveis que a ciência e a cultura. E trabalhei em várias escolas tão degradadas quanto milagrosas já que, apesar das suas condições, formaram cidadãos exigentes, zeladores e construtores da cidade. Precisamos que os pais e mães dos actuais estudantes não aceitem as escolas tal como as viveram e exijam espaços escolares dignos para os seus filhos.

Pelo meu lado, fico feliz pela manutenção dos campos de jogos da escola da Levada e assim estou a desejar para as escolas de Aveiro campos com bons pisos e com os equipamentos necessários bem cuidados. Quando me entusiasmo com as obras de recuperação de uma escola, quando me maravilho com uma biblioteca escolar luminosa e confortável (como a da Escola Mário Sacramento) estou a dizer que todas as escolas precisam de bibliotecas luminosas e confortáveis. Porque as boas escolas educam. A civilização da escola exige bons edifícios escolares. O edifício e seus equipamentos educam mais que as palavras e também denunciam o valor que os poderes atribuem à educação.

Os cidadãos passam muito tempo nas escolas da cidade. Aprendemos a abraçar a cidade e o mundo, enquanto subimos os andaimes para os trabalhos da casa que a cidade é.

o aveiro, 25/09/2003



A forma da sala de estar.


1.
A forma da sala de estar tem muita importância. Veja-se o cuidado posto na sala de estar da reunião magna do Partido Popular. Em vez da disposição de uma típica sala de estar, preferiram uma arena central e a forma de circo americano para estar. Como se houvesse um combate de boxe ou uma deambulação de feras amestradas para serem vistas por todos os lados, excluído o estreito túnel de entrada das feras, dos palhaços, dos lutadores.

As demonstrações da arena dão razão a quem diz que PP quer dizer muito Paulo Portas e pouco Partido Popular. De facto, já não é só no investimento da autoridade pessoal sobre o presente. Paulo Portas até propiciou uma reescrita da história do CDS/PP que passou a ser só PP – já não existem os protagonistas dos anos passados. Só restou a referência a Amaro da Costa que, para P. Portas, tem a vantagem de estar morto. Portas apagou todos os restantes nomes da memória do CDS/PP de que recordamos alguns: Freitas do Amaral, Lucas Pires, Adriano Moreira e Manuel Monteiro. Estamos em crer que P. Portas tem medo dos vivos e não acredita na alma eterna de quem quer que seja.

De resto, P. Portas fez as suas declarações de sobrevivência dentro da coligação e profissões de fé na verticalidade das suas convicções de direita: não tem vergonha de ser cristão de direita, não tem vergonha de ser patriota, não tem vergonha de defender o que pensa sobre a imigração, o aborto, etc … não tem vergonha. Como diria a minha mãe, depois de o ver enterrar os vivos, “não tem vergonha nenhuma!”. Talvez seja mais justo dizer que P. Portas não fala das coisas de que tem vergonha.

2.
Foram publicados os “rankings” das escolas. Mais uma vez, comparam-se escolas públicas com escolas privadas e o nosso Ministro insiste que tudo depende dos projectos educativos das escolas, como se dependesse de cada escola pública ter um projecto educativo do mesmo modo que uma privada o pode ter. Eu também penso que tudo depende dos projectos educativos, mas … das famílias, sendo que há famílias que não podem ou não sabem ter projectos educativos e escolares para os seus filhos. As escolas de Aveiro sobem ou descem de um ano para o outro nos “rankings” sem ter havido quaisquer mudanças a não ser uma: os estudantes (e os pais) de um ano não são os mesmo do ano anterior. Não diminuo o papel das escolas que precisam de melhorar, diminuo o significado do “ranking”. Cada escola é uma sala de estar de famílias da cidade.

3.
Lembram-se das trocas de acusações à política geral e à coordenação dos diversos serviços ligados à floresta, à prevenção e ao combate dos incêndios florestais? Houve demissões. Antes, demitiram-se de tomar as medidas mais adequadas e de fazer nomeações na base da competência. Depois, demitem-se as pessoas ainda antes das lições politicas. E aparecem as denúncias, neste momento com carácter de urgência, das já conhecidas corrupções (pequenas e grandes) dos comandantes dos bombeiros locais. Porquê assim e neste momento? Os bombeiros combatem os incêndios. Quem combate estes convenientes fogos de baralhação informativa? Na sala de estar de cada um, a consciência tem de armar-se em extintor.

o aveiro; 2/10/2003


O cheiro nas farsas do poder.


1. Nos últimos dias, a comunicação social prestou um serviço relevante à comunidade. Denunciou alguma situação de favor atribuída aos estudantes de alguma das escolas internacionais de Lisboa. Isto é muito importante. Convém não esquecermos que é possível que a maioria dos estudantes do Liceu Francês de Lisboa seja constituída por portugueses residentes em Portugal, na companhia dos seus pais portugueses. Quem são estes portugueses estrangeiros que acham normal terem protecção especial? São estranhos aos portugueses comuns. Pelo menos.

2. É claro que tudo se tornou demasiado claro com o caso da filha do Ministro dos Negócios Estrangeiros que, além da situação de favor como aluna do Liceu Francês de Lisboa, quis acrescentar a integração no contingente especial para alunos residentes no estrangeiro, considerado no regime especial de acesso ao ensino superior português, criado para proteger certos jovens estrangeiros ou portugueses a estudar no estrangeiro por deslocação prolongada dos pais em serviço. Não realizou os exames nacionais, mas isso não foi suficiente e arranjou uma vaga. (Insisto: Porque é que as classificações internas do Liceu Francês não precisam de ser aferidas pelo sistema de exames português? Para estudantes portugueses que querem ingressar no ensino superior português, porquê?)

3. Demite-se Pedro Lynce, após as públicas denúncias do requerimento do ilegítimo (feito pela estudante dos negócios estrangeiros) e dos despachos ilícitos sobre ele feitos pelos responsáveis do Ministério que tutela o ensino superior. A demissão é rodeada de grandes declarações de dignidade, honra, elevado espírito de serviço, respeito pela lei, etc por parte de todos os que puderam e quiseram falar como altifalantes do governo e dos partidos do governo. Estabelecem-se mesmo debates sobre o valor inviolável da palavra de honra dos homens de bem sacrificados no altar do serviço da pátria, a bem da nação, etc.

4. Havia ainda páginas da farsa por publicar. E, nessas páginas, se desvenda uma teia de ante-projectos e projectos de despachos que aparentam não ter sido tentados senão para resolver o caso. Convites, deslizes, propostas, … Houve muito trabalho técnico esforçado, muito dedicado serviço público para uso privado. Para quê ou para quem?
Finalmente, Martins da Cruz demite-se. E, de novo, um coro canta as abstractas dignidade e honra, as qualidades do serviço do demitido, etc na tentativa vã de se sobrepor a todas as vozes que nos devolvem, pela informação dos factos, a dignidade de homens livres e iguais num estado de dever e de direito. Quem merece ser investigado?

5. Eu dou muito valor à palavra de honra dos homens de bem. Na terra da minha infância, a palavra de honra valia mais que assinatura. Nem se falava na honra, … dava-se a palavra.

6. O encenador das farsas do poder insistiu nos cheiros para criar o ambiente, tão próximo quanto possível da realidade. Chegou a altura das cenas em que cheira mal, muito mal mesmo.

[o aveiro, 9/10/2003]



Marina – nome, pronome, pormenor.


A Administração do Porto de Aveiro, SA abriu concurso público para atribuição de uma concessão em regime de serviço público com vista à concepção, construção e exploração de uma marina. Ganhou o concurso a empresa “Sociedade de Desenvolvimento e Exploração da Marina da Barra, SA “ que tem o objectivo de rentabilizar um investimento. Assim, o projecto posto à discussão só tem a ver com a especulação imobiliária e a marina não é mais que uma justificação paralela para a ocupação da zona protegida.
Ao longo dos tempos, sucederam-se os alertas sobre as formações das línguas de água e areia e o historial da luta nem sempre vitoriosa do engenho humano contra as dinâmicas naturais em tudo o que respeita à ria no seu conjunto, aos seus braços e especialmente ao controle da foz. A memória do desnivelamento da ponte da Gafanha alimenta inquietações sobre a dinâmica das correntes na ria. A obra projectada implica um estreitamento brutal de um dos braços da ria mais perto do mar. Os estudos a longo prazo sobre as consequências do aquecimento global colocam em risco todo o cordão dunar e é certo que, todos os investimentos feitos (como concessão ou não) em construção civil sobre as dunas e sobre as águas são uma forma de pressão para novas construções para defesa do património construído e do investimento financeiro, na lógica de substituir o natural por margens de betão.
Nenhum estudo de impacte ambiental pode ser justo e razoável se não considerar um futuro alargado e não estabelecer seriamente a realidade futura que almeja o tipo de desenvolvimento em que assentam projectos como o da Marina(?). O estudo que foi apresentado à discussão pública não esconde o que se destrói definitivamente em termos do ecossistema (da água ocupada, lodosa) no que ele representa de extinção para muitas espécies piscícolas que nele crescem e se desenvolvem, antes da idade adulta. Mas não lhe atribui importância, considerando mesmo que a zona estaria degradada (de que ponto de vista? para que fins?) mesmo quando realça estar ela a cumprir uma função primordial no conjunto da ria e da entrada da barra. De resto, o estudo não faz mais do que esconder os impactes negativos da obra projectada sob um rol de pormenores com que os interessados respondem às criticas e dúvidas de todos os que se preocupam mais com o futuro da barra e menos com a promoção da exploração imobiliária combinada com turismo consistente com “desenvolvimento” e “progresso” discutíveis.
Para melhor fazer esquecer as consequências para a ria e as espécies piscícolas, algumas delas de impossível regeneração mesmo a longo prazo, o estudo de impacte esforça-se por alinhar pormenores de futuras intervenções que podem melhorar ou mesmo criar ambientes favoráveis para algumas espécies de aves e para ocupações artesanais marginais ao projecto.
Finalmente, o estudo de impacte ambiental espraia-se em considerações sobre as vantagens de desenvolvimento económico, com a criação de empregos na construção, ou de empregos nos serviços futuros. Não estamos em desacordo com o aumento da densidade populacional ou da oferta turística no concelho de Ílhavo. Mas só podemos achar deprimente que isso se faça sobre pressão na Barra. O número de lugares de estacionamento por habitação e por serviço fornece indicações seguras sobre o que se pretende. E a construção de passagens desniveladas no corpo da Barra não é seguramente motivo para qualquer alivio, se nos lembrarmos dos congestionamentos diários na IP5 nos acessos à cidade de Aveiro. Os fins de semana e os dias de verão são uma outra história triste que garante a indigência do planeamento intermunicipal para as redes viárias e os transportes.
Para a Barra, podemos aprovar infra-estruturas para actividades náuticas, integradas em “cadeia de apoios” ao longo da costa. Não podemos estar de acordo com um projecto que faz sombra à marina e a torna num insignificante pormenor ou nome de pesadelo.

Quantos anos tem o futuro?

[o aveiro; 16/10/2003]



A casa dos rumores.


Eu gosto de pensar que me acham uma pessoa normal. E isso quer dizer que tenho família, amigos, conhecidos, compromissos sociais e políticos, profissão e colegas de trabalho. Uma única vida? Uma única vida de vidas – vida íntima e privada, vida profissional, vida cultural, académica, social, politica. Para cada uma, a normalidade exige diversos níveis de pensamento, de discurso nos gestos e nas palavras, de actos, etc. Quantos disparates digo eu em casa e ao telefone, com os familiares e amigos? Eu sei, e todos o sabem, que, a quente(!), digo coisas sem consequências sociais porque são filtradas e excluídas pela razão de quem vive em sociedade. Quando o disparate é grande, há logo quem diga: Nem as pensas!. E há sempre quem se ria e me dê o devido desconto. A quem é que nunca foi preciso dar desconto?
As coisas que eu digo e faço nos meus círculos restritos, para terem sentido e serem interpretadas sem dramas por estranhos, exigem explicações detalhadas de contexto, ambiente, da maneira de ser, dos tiques, das rotinas da felicidade, do círculo virtuoso da intimidade, da amizade, da cumplicidade, etc.
Se alguém precisar de escutar os barulhos de um dos meus dias inteiros, não vai ter grandes surpresas se for normal. Mas se quiser compreender a totalidade do que escuta vai pedir uma descrição do meu mundo. Ou não perceberá coisa alguma.
Eu tento cumprir o que da boca me sai para o público e se transforma em compromisso social. Disso presto contas sociais. Espero compreensão, cumplicidade de leituras e lealdade aos que me rodeiam nos diversos círculos em que me movo.
Há os que dizem que quem não deve, não teme. Não devo nem temo? Eu não devo nem dou a minha vida privada a quem quer que seja que nela não entre por direito. E se for um estranho a ter acesso à minha vida privada por direito (que a sociedade lhe confere) assiste-me o direito de esclarecer e de poder continuar a usar os meus códigos próprios, pessoais, privados, … que me tornam único e reconhecível por quem me ama tal como sou em cada um dos círculos concêntricos que se intersectam com os círculos concêntricos de cada uma das outras pessoas.

Eu quero ser eu e o outro, o que escuta e é escutado, o que não trai nem é traído, o que vive livre no seu lugar. Apesar de ter vivido a última semana neste pais, quero ser eu.

[o aveiro; 23/10/2003]



Louvor e crítica da serenidade.


Nos tempos que correm, eu não preciso de ouvir falar quem fala de acordo com o que penso. Não concordo com muitas opiniões e posições de Jorge Sampaio. E, no entanto, tenho de confessar que, depois de o ter ouvido, fiquei com a sensação de que tinha ouvido o que precisava.
Jorge Sampaio não foge a responder às perguntas. Pronuncia-se calma e normalmente, sem ceder à pressão dos assuntos. Não deixa de dar a opinião pessoal, mesmo quando a decisão presidencial pode não ser concordante em sentido estrito com ela. Aproveita para separar os diversos níveis, as competências e as responsabilidades das diversas instâncias.
Temos sempre a tentação de ter o Presidente da República do lado das nossas leituras e interpretações da Constituição e, no uso das suas competências, de dar sequência aos processos em acordo com o que achamos melhor como legítimo e plausível. É verdade que ele não se decide pela inibição em promulgar algumas leis que, do nosso ponto de vista, desafiam a Constituição. Estamos a pensar em diminuições dramáticas nas responsabilidades do Estado, particularmente na educação e na saúde. Somos contra a transformação dos hospitais em empresas e contra o desinvestimento na educação pública e o afastamento relativamente à gratuitidade dos serviços (obviamente conjugada com a responsabilização dos utentes e o rigor na cobrança fiscal para suportar a prestação social). Achamos mesmo que as últimas leis deste governo para estes domínios vão contra a Constituição. Assim não entende Sampaio. Mas é verdade que Jorge Sampaio combate as tendências liberais representadas pelos entrevistadores, não deixando de chamar a atenção para as obrigações do Estado num serviço nacional de saúde e em serviços públicos de educação e ensino, desde o pré-escolar até ao superior.
Damos particular ênfase às declarações de Jorge Sampaio em favor dos trabalhadores pobres e desprotegidos, a favor dos desempregados e contra as politicas que permitem às empresas tomar iniciativas selvagens contra a estabilidade de emprego e os direitos dos trabalhadores.
Os tempos vão tão difíceis que uma intervenção serena, ainda que humana, contraditória e muito aquém do que seria desejável em criticas à actuação do governo, me ajuda a viver neste tempo e neste lugar. E a ganhar confiança de que vale a pena ser pessoa, ter opinião e princípios.
Precisava de alguma coisa assim em contraste com a histeria tola dos últimos tempos. Não tive o que queria, mas precisava do que tive.



O desejo do eclipse


Na noite de sábado para domingo próximos, será visível em Portugal o segundo eclipse lunar total do ano. A Lua esconde-se atrás da Terra e deixa de ver o Sol durante três horas e trinta e dois minutos, mergulhada num cone de sombra. Já em Maio deste ano, a Lua se tinha escondido do Sol atrás da Terra. Quando isso acontece, dou comigo a olhar para o céu na esperança de não ver, na esperança desse momento mágico em que deixo de ver a Lua enquanto a Terra a esconde do Sol. Não espero outra coisa senão a escuridão onde antes via a Lua. Como se a Lua procurasse a minha sombra para se esconder de mim. Preparo-me para a cerimónia. Sem abrir o jogo, sem mostrar os detalhes do vestido dos meus olhos, me preparo para o momento da escuridão. Com a cabeça na lua.

Há momentos em que pedimos a Lua como refúgio. Outras, como ponto de observação. Já imaginaram o sossego de quem tenta ver e ouvir, a partir da Lua, o debate sobre o Orçamento de Estado no nosso parlamento? Nem víamos o parlamento por mais que nos esforçássemos, nem ouvíamos o que por obrigação (e um pouco de temor, porque não dizê-lo?) temos de ouvir. Muito menos víamos ou ouvíamos o governo. Já imaginaram? Tão longe disto tudo, até podíamos fingir que o orçamento não nos afectava. Claro que perdíamos aquelas fases delirantes das trocas de galhardetes entre os deputados da maioria e o governo a respeito das maravilhas que uns produzem e os outros nem imaginariam possíveis e, por isso, tão embasbacados agradecem aos seus maiores. Eu sei que há disfarces para o ridículo, como há formas de disfarçar as rugas ou as brancas. Não me passava pela cabeça que os deputados da maioria no poder, no seu esforço de agradar ao governo, tivessem tanto orgulho em dar voz à vénia apatetada. Assumem-se no seu ridículo como outros se assumem para outras coisas. Há muito tempo que não misturava a vontade de rir com a piedade por essa humanidade bajulante. Se calhar sempre andou por aí nestes debates mais formais em que o governo jura que há chuva no nabal e sol na eira e eu é que me tenho dispensado de ouvir em pormenor.

Cada governo foi (antes de o ser) governo sombra de outro. Chegam mesmo a fazer sombra uns aos outros. Crescem à sombra uns dos outros. Tentam discursos brilhantes para iluminar o pais. Só que onde há luz, há sombra. Alguns ficam inundados de luz. Ao povo sobra sombra.
A Lua vai viver um eclipse aos meus olhos. O governo diz que não vai sofrer qualquer eclipse nos próximos tempos. Que pena! Um eclipse total de governo teria o seu encanto.

[o aveiro; 6/11/2003]



A arte do tempo português


1.
Olho da janela larga para a rua estreita em frente. A rua estreita dá para um amplo parque de estacionamento. Vejo os carros a chegar. Raros são os carros que desaguam no parque de estacionamento gratuito; vão ficando por ali ao longo da rua, tornando-a ainda mais estreita. Chega um novo carro e fica mesmo em contramão na curva a menos de dois passos do primeiro lugar livre no parque. Finalmente chega um outro carro que toma o lugar atrás do anterior com o rabo para dentro da rua que se estrangula na curva à entrada do parque vazio. Dos carros, saem altíssimos jovens mais ou menos desportivos que dão passadas largas para o pavilhão ali ao lado. Penso eu: Vão atrasados! Mas olho para baixo e vejo-os por ali a conversar uns com os outros. Se tivessem cumprido as regras do estacionamento, demorariam um minuto mais a chegar à esquina. Não têm um minuto a perder e não podem prejudicar o aquecimento que antecede o treino.
2.
Chego à repartição pública. O acto está marcado para as 10 horas. Às 11h dizem-nos que falta pouco. Quando acaba o que fomos fazer em 10 minutos, passaram 3 horas sobre a hora marcada. Para quem é que o meu tempo não vale um chavo?
3.
Chego ao consultório médico privado à hora marcada. Vou para a sala de espera. Passa-se uma, duas horas. Finalmente, chamam-me para ser atendido. Sou despachado – o médico lê os resultados das análises que lhe entrego e escreve um resumo na ficha clínica que vai preenchendo. Devolve-me os papeis, passados dez minutos ou menos. O recibo garante-me que os dez minutos do médico valem 60 euros. Uma das suas horas vale 360 euros. Porque é que as duas horas de vida que me roubou não valem coisa alguma?
4.
Compro uma máquina. Quando passado tempo avaria, telefona-se para a oficina de reparações recomendada que garante valer a pena consertar a máquina que é uma boa máquina. Vão marcando horas para virem ver a máquina e repará-la. Substituem o painel electrónico depois de nos ocuparem horas da nossa vida. Cobram o painel e o tempo e o painel fica avariado. Levam o painel novo e recolocam o antigo. Vão prometendo. Hão-de vir. Ficam com o painel e o dinheiro. Ficam com o nosso tempo que, para eles, vale nada. Avaria definitivamente o painel. O distribuidor da marca recomenda outra oficina. E vem um novo artista. Substitui o painel que fica a ser testado quando ele sai depois de ter cobrado. O painel novo também não funciona. Telefonamos até nos afogarmos em tristeza. Ficam sempre espantados quando dizemos: “A essa hora não! Não posso faltar ao trabalho!.”

Porque é que o tempo é sempre tão precioso para todos aqueles que não dão qualquer valia ao tempo dos outros? Públicos e privados, são milhares os que assim olham para os outros. São portugueses e isso faz de nós tristes figuras, vítimas tanto da incompetência como da arrogância, vítimas da má-educação. O debate sobre o “português” é sempre um debate sobre o passado da educação como presente que damos ao futuro.

[o aveiro; 13/11/2003]



14-4=10


1. A insegurança no Iraque está a fazer vacilar os norte-americanos e alguns dos seus aliados. O governo filipino está a acompanhar a situação, abandonando as intenções de reforçar a sua presença e ponderando mesmo a possibilidade de fazer regressar a lugar seguro (onde é que isso é) os efectivos filipinos que se encontram no Iraque. Face aos últimos acontecimentos, o governo japonês cancelou o envio das suas tropas para o Iraque. São governos fracos a ceder perante o terrorismo internacional.
Felizmente que o governo português se mantém firme como governo de uma grande potencia aliada dos Estados Unidos e da Inglaterra e, cedo envia a GNR para mais tarde. A “grande partida” da GNR é grande notícia. Tal é o entusiasmo, que o governo oferece viagens a 14 ou 15 jornalistas acompanhantes da missão da GNR. Mal tentam entrar no Iraque atrás uns dos outros, os jornalistas e os seus bonitos carros tornam-se vítimas dos bandidos seguros por uma coligação de salvadores (acrescentada da indomável boa vontade de Durão). Uma jornalista é mesmo baleada e outro é raptado. Durante alguns dias, as reportagens incidem sobre as peripécias (que acabam menos mal) dos acompanhantes da GNR. Até chegar à cidade que a GNR vai patrulhar, os jornalistas dão-nos conta que não podem colher informações, agora tolhidos por razões de segurança. A ementa do jantar das tropas é notícia
A seguir ao macarrão, ficamos a saber que o governo e a GNR só garantem a segurança de 4 jornalistas. Figueiredo Lopes, nosso inefável ministro da administração, neste caso, externa, acompanhado pelo comando da GNR, garante que a estes jornalistas só prometeu a nocturna viagem ao Koweit. para que eles reportassem sobre o aéreo perfume do ânimo. No Iraque, os jornalistas que acompanham são instalados pelos italianos no hotel da cidade, antes de serem informados do abandono a que o governo vai votar 10 deles. O engano é a nova notícia?

2. De vez em quando a Matemática é notícia como escândalo de negativas. Estou em Santarém, a participar num encontro nacional da Associação de Professores de Matemática (ProfMat) em que mais de mil professores e investigadores procuram formas de melhorar o ensino da Matemática. Não é um escândalo de positivas? Será que vai ter cobertura informativa?

O que é notícia? 10 é a indiferença? 4 é a diferença? 14-10=4? Matemática?

[o aveiro; 20/11/2003]



A compaixão dos ricos.


A semana passada foi marcada pelo conhecimento público da derrapagem das contas da coisa pública. Ao contrario do que foi anunciado aos quatro ventos pelo governo, as politicas restritivas seguidas não garantem o controle do défice abaixo do tecto dos 3%. De facto, entusiasmados com a vitória contra o povo, os atletas da selecção da maioria mandaram ao ar os seus dirigentes e rompem o tecto, por este ser baixo demais e falso. Os tectos não podem ser obstáculo à ascensão dos patrióticos dirigentes. Onde é que eu já ouvi isto?

Resistindo a todas as cautelas, e recusando mesmo os caldos de galinha, o ministro Ferreira Leite mantém, nas palavras, a fasquia nos inultrapassáveis 3%. Bem podemos tentar imaginar o que pensa vender o governo nestes próximos 2 meses! Vender a um banco (detido por um “nobre” árabe) as dívidas ao fisco ou similares é prova de imaginação fabulosa.
Damos por nós a inventariar o património do estado, real e imaginário, que vai ser trocado por miúdos – por seis mil milhões de euros miúdos. E começamos a esconder os casacos menos coçados e até a temer que nos vendam o dia de amanhã, enquanto estivermos a dormir a noite de hoje.

A situação ainda não tinha chegado ao seu melhor. Finalmente, Durão Barroso anuncia que “Portugal compreende os problemas sentidos pela Alemanha e pela França, razão pela qual votou a favor da proposta da maioria dos ministros das Finanças da Zona Euro que iliba os dois países de serem penalizados pela Comissão Europeia por défices excessivos”. Li exactamente isto neste abençoado início de semana.

Não é o máximo? Já há muito tempo que não me sentia tão vaidoso de ser português. E há ainda quem ache que o ministro da informação de Saddam é que é bom! Já era! Em termos de paródia e contra-informação, é impossível competir connosco!

[o aveiro; 27/11/2003]



O Aveirense exigente.


Hoje decidi ficar por casa. Lembro-me muito bem do que era a cidade de Aveiro nos anos 50 ou no início da década de 80. Lembro-me do pequeno comércio (tão poucas livrarias e casas de discos), dos teatros e cinemas (Aveirense e Avenida até ao 2000 e Oita).

Para quem tem memória da cidade que fomos e agora somos, a mudança traz em si uma espécie de mistério. De onde vêm as pessoas? As grandes superfícies operaram alterações profundas. Reconhecemos que a elas se deve a criação de novos públicos para o consumo de bens de cultura também. Há um grande número de salas ou salinhas de cinema, há mais livrarias e casas de discos. Apesar da venda feita nas grandes superfícies. E apesar dos novos meios de difusão: a televisão, o vídeo, o dvd… há público para muitas salas.

Estou a falar disto agora, por estarmos no fim do ano que nos mostrou o fim de algumas obras lentas e lamacentas, o fim dos tapumes que nos escondiam uns dos outros e nos escondiam do que sempre tínhamos visto. Parecia que Santa Engrácia tinha vindo para Aveiro e começávamos a desesperar. Quando a poeira foi varrida e pudemos pass(e)ar pela Praça Marquês de Pombal ou ver a Capitania nem nos lembrámos de tecer criticas ao que nos foi dado ver.

Não imaginam o conforto que foi voltar ao Teatro Aveirense para assistir a concertos. Até me esqueci de me irritar com os defeitos do que estava a ver. E se os há! Mas hoje só quero falar do conforto dos passeios livres e limpos, do teatro que se acrescenta à cidade e nos acrescenta em graça e sabedoria. Reparei que não lhe falta público nas iniciativas inaugurais.

À tempestade das obras longas e imperfeitas sucedeu-se a bonança das programações perfeitas, das obras corrigidas nas suas inacessibilidades? Não! Os responsáveis puderam ver que havia um público com sede de novas actividades culturais. Isso não lhes dá sossego algum! Porque se não responderem com novas qualidades, se não perceberem que as novidades colocam tudo num novo patamar de exigência, serão abandonados à sua sorte de trapos do passado. Não se podem queixar! O Aveirense (con)venceu em dias de bons filmes nas grandes superfícies e até em dia de inauguração do estádio de futebol. Ora isto só pode ter acontecido porque há por aí públicos que sonham as cidades por dentro delas.

[o aveiro; 4/12/2003]



Os dias das leis infelizes.


No próximo dia 16 de Dezembro, em Aveiro, realiza-se mais uma sessão de um julgamento que junta sete mulheres no banco das rés, acusadas de terem interrompido voluntariamente a gravidez. Para além das mulheres são réus um médico e pessoal do consultório e, pela primeira vez, ao lado das sete mulheres estão sete homens (maridos e namorados) acusados como cúmplices.
É bem possível que a próxima sessão salte da sala de julgamento até à contestação pública da lei infeliz que tais julgamentos permite e pede. O tribunal do direito torna-se casa da injustiça, embrulhado na teia de uma lei estúpida que ganhou vida como doença de uma moral social destemperada.
Já ninguém acredita que uma mulher que se obrigue (ou seja obrigada) a interromper a sua gravidez seja outra coisa que não uma vítima a merecer ( e precisar de) solidariedade, apoio e compreensão, discrição. A lei infeliz, que a diz criminosa, faz dela vítima de uma nova (ainda que legal) atrocidade.
A sociedade portuguesa pode estar dividida a respeito da lei sobre a interrupção voluntária da gravidez. Mas recusamo-nos a acreditar que haja alguém capaz de condenar como criminosa uma mulher que tenha abortado. Podemos lamentar o aborto (e respeitamos mesmo quem chore a morte de um embrião) mas não nos passa pela cabeça acrescentar sofrimento ao sofrimento de quem sofreu uma amputação (física e, quantas vezes!, espiritual).
Sobre a solidariedade devida a estas mulheres e sobre a contestação que a lei merece, não temos quaisquer dúvidas. E é, por isso que, como cidadãos, escrevemos a exigir a alteração da lei infeliz que acrescenta infelicidade a todos as pessoas de bem (a favor ou contra o aborto).

Manifestamo-nos contra todos os políticos que prometeram (para não cumprir) medidas de planeamento familiar e prevenção no quadro do serviço nacional de saúde com novos apoios às mulheres (mais ou menos jovens). Manifestamo-nos contra a hipocrisia de manter a ignomínia em forma de lei que esta criminalização das mulheres representa. Sabemos que as mulheres que vão a julgamento não são criminosas. Já o mesmo não podemos dizer de quem tanto mentiu, deixando aberta uma janela de lei para violar a vida privada das mulheres em dificuldades.

Há dias para sermos infelizes por via da lei.

[o aveiro; 11/12/2003]



A aranha idosa


Ele sobe ao poder. Apoiado em aliados poderosos que dele precisam para fazer guerra a outros poderes na altura adversários dos seus aliados. Depois, o poder sobe-lhe à cabeça e vai-se cercando de tudo o que o poder pode dar: dólares, tesouros, palácios, etc. Embebeda-se de poder até jogar o jogo da vida, fome e morte do seu povo. O seu povo tem nada e ele nada em dólares e fausto. Está cego e não pode nem quer parar a escalada do terror. Para ser o mais poderoso entre os poderosos, decide ser profeta e até fazer guerra a alguns dos seus vizinhos. Sem reservas dos seus aliados, vai recebendo o apoio dos negociantes, em particular, de armamento.

Até que um dia entra em rota de colisão com os interesses dos seus antigos aliados – em ouro negro e dólares. É então que os ex-aliados declaram aberta a caça ao tesouro e do dono do tesouro. E despejam arsenais de loucura na caçada, transformando um país numa coutada. Açulam cães e furões com promessas de prémios de muitos milhares de dólares pela cabeça de raposas famosas como cartas de um baralho do jogo da guerra. E açulam países com promessas de contratos milionários na reconstrução do pais que ajudaram a destruir ao apoiar e, mais ainda, ao apear o ditador.

Um dia da semana passada, depois de meses de surtidas infrutíferas no que respeita a armas de destruição maciça, com caça de troféus menores e muitas baixas em acidentes de caça, lá apanharam o ás de espadas. Bem precisavam! Ainda sem conseguir apanhar o cobiçado troféu taliban, podem mostrar ao mundo o velho ditador enfiado num buraco coberto de lixo, na companhia de duas metralhadoras e centenas de milhares de dólares.

Virtuosos caçadores, poderosos do mundo, fazem biquinhos de doçura sobre o acontecimento. Até a voz lhes treme nas declarações sobre a importância da captura do símbolo do terror e da opressão. Nesse caminho que fez de caçador a caçado pelo poder, Saddam perdeu todo o brilho e aparece como um indigente cheio de dólares que já não servem para comprar o que quer e quem quer que seja.

Os políticos que têm a ilusão do poder eterno bem podem ver Saddam como a imagem que o espelho do poder lhes devolve quando se demoram a espreitar por ele. Tudo começa e acaba em dólares que deixam de ser baba para linhas de seda dos palácios da aranha ascendente e parecem ser o que são – podridão no túmulo da aranha idosa.

[o aveiro; 18/12/2003]



O Natal do pequenino


No passado dia 15 de Dezembro, a Universidade de Aveiro comemorou os seus trinta anos. De entre os diversos actos académicos e culturais, destacaram-se os doutoramentos “Honoris Causa” de António Damásio e Daciano Costa.
A consagração académica de António Damásio cabe dentro da concepção universitária dominante, já que consagra o trabalho de investigação científica nos domínios das ciências exactas e experimentais, reforçado pela divulgação e discussão dos resultados reconhecidos e suas aplicações. O reconhecimento internacional de António Damásio acrescenta, pensava eu, trivialidade à sua consagração académica.
O caso de Daciano Costa, chamado pai do “design” português, é uma consagração de outro tipo, porque a actividade do consagrado não se enquadra em nenhum dos domínios reconhecidos como clássicos pelas universidades – não vem das classificadas intervenções científicas, literárias ou sequer das belas artes. Dito isto, o doutoramento “Honoris Causa” de Daciano Costa tem um significado que ultrapassa a personagem em si, para ser o reconhecimento e a consagração dentro da Universidade de uma nova área de acção e de saber. Há cursos na Universidade de Aveiro que relevam dessas novas áreas, autonomizadas em espaços próprios de intervenção social até se afirmarem em necessidades de formação inicial superior. Esta consagração de Daciano Costa é menos trivial, academicamente falando e, por isso, é mais notícia.
Não estava à espera que as redacções das televisões resistissem à tentação de centrar o seu pacote informativo em António Damásio, já que este vem rodeado de fama (evidente e merecida) aumentada pelo facto de ser um cientista português reconhecido e a trabalhar na “América do Norte”.
Mas a televisão pública passou dois blocos com António Damásio, acrescentados de uma intervenção de Marques Mendes, mais ou menos bacoca (e reverente, no seu pior) aos portugueses no estrangeiro. A notícia fez escassa referencia à Universidade de Aveiro. E escondeu Daciano Costa e o “design” académico.

[Ficámos a saber também que Marques Mendes veio a Aveiro fazer o seu papel de politico pequenino, estrela polar que anuncia o pólo norte da Universidade de Aveiro, antes de o detalhar aos órgãos autónomos da universidade autónoma. ]

A este respeito, a RTP fez um mau trabalho, para não dizer que fez um frete ao poder politico. Pela mão da RTP, as significativas celebrações académicas do aniversário da Universidade de Aveiro reduziram-se à festa de Natal do pequenino.

[o aveiro; 24/12/2003]



que pátria é a dos “portriotas”?


Os biquinhos delicodoces do nosso primeiro ao falar dos nossos compatriotas em missão no Iraque são deliciosas imagens a proclamar uma inocência infantil na defesa da paz. Os apelos delicodoces para a união de todos no apoio à intervenção portuguesa no Iraque, com menção ao aval das Nações Unidas, foram deliciosos cantos de sereia no chuveiro.
Sabe-se que agora que nem Portugal foi tido ou achado nos acordos feitos e que o governo português não se preocupa coisa alguma com o aval das Nações Unidas. Basta ler o texto dos acordos dos Ministérios da Defesa e da Administração Interna com o Reino Unido que o Público divulgou hoje: Defesa e Administração Interna Negociaram em Londres Acordo Secreto Sobre as Condições da GNR no Iraque , para sabermos que Portugal não existe como estado nos conifdenciais memorandos de entendimento deste nosso governo formado por lacaios de potências estrangeiras.

Ninguém nos salva da vergonha de nos sabermos representados por quem não tem pátria ( “No “Memorando de Entendimento” (MOU) confidencial assinado a 10 de Outubro, para a participação da Guarda Nacional Republicana (GNR) na “Força de Estabilização no Iraque” (IZSFOR), Portugal é o único país a não ser referido como Estado, mas como “ministério da Administração Interna do Governo de Portugal”. Todos os outros países sem excepção – Dinamarca, Holanda, Itália, Lituânia, Noruega, Nova Zelândia, República Checa e Roménia são apresentados como Estado: Reino ou República.” )

Ler este destaque e os com ele relacionados, dá-nos uma ideia da baixa política e da capacidade de mentir dos nossos responsáveis que escondem os seus verdadeiros propósitos e objectivos sob variadíssimas capas de verniz (ou hipocrisia?). Já não há verniz que preste – estoira todas as semanas. Não seria melhor que estoirasse de vez? Não seria melhor que … despissem os seus vestidos de fantasia, tirassem a máscara e se mostrassem em todo o seu esplendor? O que nos revela o Memorando de Entendimento secreto?

[o aveiro, 26/12/2003]


O Postal de Ano Novo


Quando eu era pequeno, na minha aldeia, a caixa vermelha do correio estava pendurada na parede exterior da loja de fazendas do meu tio-avô Claudino. Nunca cheguei a enfiar lá qualquer carta. Também não chegava à caixa. O meu tio vendia os envelopes, os selos e os postais e, em caso de necessidade, escrevia as cartas.

O carteiro vinha de Vagos de bicicleta com o grande saco preso no quadro. Se vinha carta e não havia gente na casa, a carta era metida por debaixo da porta da sala do Senhor. Mas a maior parte das vezes, o carteiro parava na estrada, chamava pelo nome quem andasse no campo e entregava a carta e o recado ali mesmo. As mulheres de mãos embrulhadas nos aventais esperavam o carteiro para lhe entregar cartas, documentos, ordens para aforros, dinheiro para enviar vales postais a este ou àquele, etc. Nesse tempo, em Vagos, não havia balcões de serviços como há hoje. Havia os correios.

A recolha e distribuição postal pelas aldeias e vilas de todos os pontos do território tem de ser assegurada como um serviço público, uma obrigação. Por pouco lucrativa que seja a prestação do serviço em regiões deprimidas e isoladas, nenhum argumento na base do lucro ou do prejuízo pode pô-lo em causa. O mesmo para a energia, transportes, telecomunicações, … As concessões do Estado para estes serviços essenciais tem de ser feita com salvaguarda da igualdade dos cidadãos no acesso aos bens e serviços essenciais.

Nas últimas semanas, ouvimos falar do encerramento de estações dos correios no interior do país. É claro que, como se percebe pela memória da minha infância, não tenho nenhuma objecção a que o serviço seja assegurado em combinação com outros serviços. Os centros cívicos das freguesias acrescentam animação comunitária com a prestação de serviços como a venda de selos, internet, multibanco, aforros, etc.
Estranho é que se oiça falar de iniciativa dos CTT com ameaça de fechar esta ou aquela estação por não ser rentável. Isso é intolerável e se a empresa concessionária o fizer, o Estado pode caducar a concessão rentabilíssima de ser a empresa Correios de … Portugal.
Ouvi alguns autarcas falar disso e do protocolo entre a ANAFRE e os Correios de Portugal, algumas reclamações dos trabalhadores dos correios e nada mais.

Não ouvi o Governo. Talvez não tenha recebido o postal de alarme… deste Ano Novo, por ter deixado despedir o carteiro.

[o aveiro; 31/12/2004]