crónicas de jornal

Publico aqui crónicas de jornal (principalmente) escritas ao longo de anos.  Os assuntos tratados tinham relação com a actualidade no tempo em que foram sendo publicados em papel.  Política, claro! Mas não só.

Pode aceder a cada uma delas, usando a barra à esquerda. Claro que agradeço todas as críticas e sugestões que melhorem o acesso, lembrando que estas crónicas não se referem aos dias de hoje.  Pode comentar livremente o meu passado de cronista. Eu agradeço, claro!

Vou agrupando a coleção por anos. Começo por
2003
e  sigo devagar por
2004
até
2009

Talvez acrescente crónicas que foram escritas para outros jornais, caso as volte a ver. Ainda não sei.

Do Litoral uma, aqui mesmo:

de que ano? sei lá.

Do laboratório à retrete

1. Recentemente, a propósito de um encontro europeu sobre o ensino das ciências, ouvi Mariano Gago falar sobre laboratórios que tinham deixado de o ser para dar lugar a salas de aula de mesa e cadeira. Com a pressão do aumento da população escolar, os Conselhos Directivos teriam optado por fazer transformações de todos os espaços a favor das aulas normais. Compreendendo mesmo os constrangimentos vividos nas escolas e sem condenar os Conselhos Directivos, Mariano Gago não deixava de dizer que essa modificação do uso dos laboratórios significava uma desqualificação do ensino das ciências experimentais. Concluía que o ensino das ciências tinha piorado. Ao pretender formar muito mais gente e não tendo instalações e equipamentos senão suficientes para uma pequena “elite”, de facto o sistema de ensino piorou para a elite que já tinha acesso ao ensino (melhorou para quem antes tinha nada). Piorou evidentemente o ensino das ciências e mais radicalmente piorou a prática nos laboratórios.
Tenho uma opinião sobre isso, talvez demasiado influenciada pelo conhecimento de algumas escolas e pelas tais funções de direcção que tudo tiveram de fazer para arranjar lugar para todos os que queriam vir à escola. Para além da pressão do aumento da população, deve dizer-se que muitos dos equipamentos, muitas das experiências possíveis nos laboratórios existentes deixaram de ter valor de uso com as modificações dos programas de ensino das ciências, determinadas pelo Ministério da Educação que, não fazia as correspondentes modificações e/ou reapetrechamentos dos laboratórios.

2. Ainda durante as décadas de 70 e 80, os laboratórios voltaram a ser reanimados – embora com outro aspecto e com outras organizações – e eles (os locais) lá estavam. Frequentemente, aos reequipamentos não correspondem as iniciativas complementares que lhes dariam sentido – formação de professores, por exemplo. E mais frequentemente ainda, os reequipamentos podem ser completamente ao sabor de encomendas loucas que dificilmente podem ser controladas. Pode perfeitamente acontecer que uma escola receba uma parte de máquina que outra escola recebe, de forma a garantir que não funcione em nenhuma delas. Os grandes reequipamentos são decididos a nível central, as aquisições são feitas por organização central que não envia os cadernos de encargos para as escolas que as vão receber. É um pandemónio sem escrúpulos. Do ponto de vista das empresas, elas só têm que entregar (talvez entregar) uns papéis com assinaturas de vários responsáveis de escolas em listas de materiais que andaram a distribuir. Cada escola nunca sabe exactamente quanto nem qual equipamento (no todo) está a receber.
O ensino das Ciências (bem como todo o ensino) depende assim da boa vontade de Deus, da honestidade dos fornecedores e da capacidade criativa e inventiva dos professores que adaptam às necessidades das suas escolas o que cai do céu onde pairam membros de governo e fornecedores de equipamentos.

3. O mesmo acontece com as obras. Um Conselho Directivo de uma escola, com a autonomia que lhe apregoam neste fim de milénio, verifica a execução de obras (pequenas e grandes) vendo o que acontece pela iniciativa dos empreiteiros. Não recebe o caderno de encargos das obras. Os engenheiros e fiscais do Ministério da Educação sabem o que consta do caderno que guardam ciosamente. Os empreiteiros também sabem. O Conselho Directivo, que acabará por assinar a aceitação da obra feita, nunca saberá qual a obra que devia ter sido feita. Espantoso.
Eu sei que os Conselhos Directivos não detêm competências a nível da construção civil e obras públicas, mas são os donos das obras quando têm que as aceitar como concluídas. As reparações interferem sistematicamente com o desenrolar das actividades das escolas e, nem sempre de forma razoável. Não é razoável que se abram e tapem e abram e tapem os mesmos buracos, com os Conselhos Directivos a fazer a figura de “observadores” ao mesmo nível dos passantes.
O Conselho Directivo de uma escola pode ter que aceitar a construção e o equipamento de um laboratório sofisticadíssimo sem que saiba para que serve, porque ninguém lhe disse e – quem sabe? – para área de ensino que nem exista na escola. Louco? Mas possível.
E o que conta são os números. Pedimos que os Marianos Gagos deste país tenham atenção a este facto. O número de instalações e o esforço de financiamento podem não corresponder a igual número de laboratórios vivos e esforço de ensino.

4. O que para trás ficou escrito serve para ilustrar que as escolas têm pouco poder de decisão na definição das grandes obras a fazer, como têm pouco poder de controle sobre as obras em andamento e recebem as obras feitas sem poderem saber se estão a receber as obras que foram pagas pelos contribuintes. Influenciam evidentemente as decisões, apoiam e confiam nos técnicos dos serviços que fiscalizam, e os técnicos e dirigentes confiam… Nem tudo vai mal, porque as pessoas não vão mal e não praticam as maldades que o sistema lhes permite.

5. Não destruímos os laboratórios. Mas destruímos (ou não criámos) completamente as condições de trabalho dos professores e alunos. Vou dar um exemplo. O actual edifício da Escola Secundária de José Estêvão foi criado para cerca de 600 alunos, nas condições da década de 50. Toda a gente sabe, pela experiência pessoal das casas das famílias, que as condições de higiene pessoal foram evoluindo e há agora exigências que não havia em cinquenta e tal. Pois as instalações sanitárias então criadas para a população de 600 alunos chegaram a servir uma população de mais de 3000 alunos e servem agora uma população de cerca de 2000 alunos. O esforço exigido em salas de aulas obrigou a destruir estruturas de apoio dos diversos pisos – incluindo os despejos de limpeza. Imaginem o esforço que os funcionários têm de fazer para manter a escola limpa – e esta a trabalhar sem interrupção desde as 8 até depois das 23 horas. Imaginem a degradação das instalações sanitárias que são as mesmas de sempre e não receberam quaisquer grandes reparações nem adequações ao nosso tempo. Imaginem o espanto dos nossos alunos quando passam de uma escola secundária destas para uma universidade nova.
Agora imaginem que esta questão sempre mereceu atenção da parte dos Conselhos Directivos, que não têm deixado de a considerar na sua lista de prioridades. Saibam que nunca foi dada prioridade a esta área porque nada foi feito até agora. Imaginem quanto espírito de serviço e quanto desprezo pela vida são necessários para aceitar ser dirigente de um serviço público nestas condições de higiene. Imaginem quanto desprezo pela vida é necessário para frequentar um estabelecimento de ensino nestas condições. Imaginem quanta resistência à doença tem a população escolar.
Há milagre nisto tudo. E o milagre é português.

5. É muito importante o laboratório, é importante (re)conquistar um ensino/aprendizagem laboratorial das ciências e também das línguas… É necessário reconquistar tanta coisa.
Mas para mim, mais urgente que tudo é a reconquista de uma retrete digna. Um estabelecimento de ensino merece dignidade. E a dignidade de um estabelecimento de ensino começa ou acaba nas condições sanitárias que oferece aos seus estudantes, aos seus trabalhadores docentes e não docentes e aos membros da comunidades que a ele se dirigem.

(publicado no Litoral – secção Associação de Escolas e de Ideias, coord de Arsélio Martins)

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