Arquivo da categoria: política

venia-ou-mesura-em-prosas-poemas-escrituras

duas manhãs

À primeira não a reconheci. À segunda, distraí-me a olhar para ela sem pensar nisso. A certa altura, percebi que estava a embaraçá-la e tirei os olhos dela para olhar o relógio no pulso. Ela viu bem que eu não uso relógio de pulso e eu percebi que ela tinha acabado comigo. Já era tarde e não havia nada a fazer.Ela tinha esperado por uma palavrinha e eu nem abrira a boca.
Mais cedo, encontrei-a e ela olhou-me com a piedade que só as manhãs passadas conhecem.

Muito mais tarde dei por uma manhã a passar por mim e logo que abri a boca me pus à conversa com ela. Não pensei em apresentar-me antes de, deslumbrado, ter começado a falar-lhe, confesso que falava alto e para todos repararem, sobre a beleza da manhã com quem tinha começado a viver naquele momento. Nunca uma manhã passou por mim com tanta pressa.
Dentro dela, ainda agora, e ouvi tocar as doze badaladas do sino da torre na minha cabeça que me informavam que tinha saído da manhã que se fazia tarde. Percebi bem tudo o que me tinha acontecido e porque é que nada do que me acontecera poderia repetir-se. E sentei-me.