a companhia

nesse tempo do princípio de que me lembro, era eu dama de companhia de uma velhinha de trinta e dois anos.

para mim, então criança de dez anos, ela era espantosamente velha e eu só tinha de satisfazer os seus caprichos, brincando com servicinhos de chá e caixinhas de guloseimas, esfregar-lhe as costas no banho, empurrar a cadeirinha de rodas quando ela fazia birra e se recusava a andar, …

sonhei ser sua amiga de verdade até ao dia em que apareceu um dos seus primos afastados que me pareceu muito carinhoso e interessado também nos meus serviços.

mais tarde já eu estava noutra casa ainda maior e ao serviço do primo afastado, esse idoso dos seus trinta e cinco anos.

só muito mais tarde é que soube, por ouvir dizer, que aquela de quem eu esperara que viesse a ser minha amiga e talvez protectora, tinha aceitado vender o meu passe por um conto de reis ao clube daquele seu primo afastado.

de facto, devo dizer que isso não mudou nada na minha vida. eu continuei a ser dama de companhia e nenhuma das duas pessoas de que tenho falado e as únicas que eu conheço fala disso nem dos salários em atraso que nem eu nem alguém da minha família veio reclamar. falo da família porque sei ler, mas nunca conheci ou sequer vi alguém mais do que os dois da minha companhia para a qual trabalho dia e noite. sem descanso, não me canso.

© Arsélio Martins, de agora mesmo, 17 de Agosto de 2016

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