subtexto

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quando  puseram o microfone sob o tampo da cadeira do meu amigo esperavam ouvir conversas importantes e até quem sabe ouvir pormenores da conspiração que ele sempre trama;

é claro que espervam ouvir tudo no tom civilizado  que lhe é peculiar  em público, já tinham mesmo um programa, tipo karaloc, haraloc, ou lá o que é, para eliminar da gravação todas aquelas frases educadas que por sistema pontilham o seu estilo, e não podem fazer parte, estavam convencidos disso, de qualquer código conspirativo ou constituir indicações subliminares;

o que não esperavam foi o que aconteceu: fora do convívio social, na sua intimidade, como qualquer boçal ser humano, o meu amigo não resiste às suas lutas intestinas e, para além dos silêncios, deslizes da caneta, bate de teclas, interjeições sem significado, mais não ou9vem que ruídos de trampa;

não é de estranhar pois que a conclusão do relatório do descodificado da escuta tenha sido simplesmente: o homem está a cagar-se para o sistema.

© Arsélio Martins; de há um mês ou mais do ano de 2016.

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