Na minha terra as pessoas lavram
 a terra e a felicidade.
 Têm o vício de criar rugas no rosto
 como quem se preocupa de alguma coisa.
 Cavam desde as Avé-Marias até que
 o sol se pôs ao ritmo das Trindades.
 Acham que devem agradecer a Deus
 dar-lhes saúde para puxar o arado
 e roçar o mato.
 Usam umas roupas que tiram ao domingo
 na hora de ir para a missa
 E nas tardes de sol aos dias-santos
 as mulheres vão contratar trabalhadores
 e não consideram isso trabalho.
 As mulheres cavam ao lado dos homens
 arrancam o feijão a suar e a rir.
 Cantam versos da Igreja agarradas ao sacho.
 Falam da vida e dos filhos que estão fora
 em cima das carroças a caminho da terra.
 Plantam laranjeiras e cravos ao pé
 do pousio do Lagareiro para os filhos.
 Atolam-se na lama dos arrozais atrás
 das vacas cheias de moscas e sanguessugas.
 Cortam os dedos a apanhar a erva e o milho
 e riem-se do sangue,
 e eu não compreendo porque sou filho
 desta maneira de ser feliz.

publicado a 1/8/1967, no Diário de Lisboa Juvenil,
conforme fotocópia de José Carlos Pinto Soares

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